Educação nova: As bases

Part 1

Chapter 12,798 wordsPublic domain

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Rita Farinha (Março 2012)

BIBLIOTECA DE PEDOLOGIA NACIONAL

Dr. ALVES DOS SANTOS

Professor da Universidade de Coimbra

EDUCAÇÃO NOVA

AS BASES

I

O CORPO DA CRIANÇA

(Com 32 figuras, no texto)

[Figura]

Livrarias Aillaud e Bertrand

PARIS--LISBOA

Livraria Chardron PÔRTO

Livraria Francisco Alves RIO DE JANEIRO

1919

Educação Nova

DO AUTOR:

1) Estatística (numérica e gráfica) _das escolas da 2.^a circunscrição escolar_, Lisboa, 1906, ed. oficial, 1 vol.

2) A nossa escola primária (o que tem sido; o que deve ser), Pôrto, 1910, 1 vol.

3) Psicologia e pedologia (uma missão scientífica, no estrangeiro), Coímbra, 1913, 1 fasc.

4) O ensino primário em portugal (nas suas relações com a história geral da Nação), Pôrto, 1913, 1 vol.

5) O crescimento da criança portuguesa (subsidios para a constituição de uma pedologia nacional), Coímbra, 1915, 1 vol.

6) Elementos de filosofia scientífica, Coímbra, 1915; 2.^a ed., Lisboa, 1918, 1 vol.

7) Educação nova (As bases)--_O corpo da criança_--Lisboa, 1919, 1 vol.

EM PREPARAÇÃO:

8) Educação nova (As bases)--_A mentalidade da criança_--1 vol.

BIBLIOTECA DE PEDOLOGIA NACIONAL

Dr. ALVES DOS SANTOS

Professor da Universidade de Coimbra

EDUCAÇÃO NOVA

AS BASES

I

O CORPO DA CRIANÇA

(Com 32 figuras, no texto)

[Figura]

Livrarias Aillaud e Bertrand

PARIS--LISBOA

Livraria Chardron PÔRTO

Livraria Francisco Alves RIO DE JANEIRO

1919

_Todos os exemplares desta edição teem a rubrica autógrafa do autor_

Educação Nova: As Bases

«Oh! le bruit des petits pieds de l'enfant! ce bruit léger et doux des générations qui arrivent, indécis, incertain comme l'avenir. L'avenir, c'est nous qui le déciderons peut-être, par la manière dont nous aurons élevé les générations nouvelles».

Preface de _l'Education et hérédité_, I, de M. Guyau

Nota Preambular

Mero _subsídio_ para a constituìção de uma _pedologia nacional_, não tem outras pretensões o presente livro que, no pensamento do seu autor, se destina, tam sómente, por agora, a desbravar um terreno, a monte ainda quási, nos domínios da nossa pedagogia.

Os _elementos_, de que nos servimos, longe de serem respigados em _obras estrangeiras_, como é de uso corrente, entre nós, derivam de _observações e experiências_, feitas sobre crianças da nossa terra.

Assim, se irá organizando uma _pedologia portuguesa_, tam necessária à nossa _educação_.

Neste primeiro volume, ocupar-nos hemos do _corpo da criança_, com o fim de investigar as _leis do crescimento_, em Portugal; no segundo[1], estudaremos a _mentalidade da criança_, para conhecer as _energias psíquicas_, que são características do nosso _agrupamento étnico_.

Importa ponderar que, em o nosso país, sem desprimor para ninguêm, em vez de _sciência_, tem-se feito _literatura pedagógica_...

Há excepções, bem o sei; mas, de tal guisa, fica confirmada... a _regra_.

¿Não terá soado ainda a hora de enveredar pelo caminho das nações cultas?...

Introdução

«On ne connoît point l'enfance:... Commencez donc par mieux étudier vos élèves car très-assurément, vous ne les connoissez point.»

Preface d'_Emile_, III, de J. J. Rousseau.

INTRODUÇÃO

I

A criança; sua concepção bio-psíquica e social

1.--Como _organismo vivo_ que é, a _criança_, do mesmo modo que as _plantas_ e os _animais_, está sujeita às _leis físico-químicas_ e _biológicas_, que regulam a _actividade_ de todos os _sêres vivos_, que existem à superfície da terra.

Mas, alêm da _vida vegetativa_, que pertence às _plantas_, e da _vida sensitiva_, que é própria dos _animais superiores_, possue ainda a _criança_ a _vida intelectual_, apenas partilhada com o _homem_, do qual incessantemente se aproxima, desde o início da sua _evolução_.

2.--Por virtude da _vida vegetativa_, a criança «_cresce_», isto é, _aumenta de volume e de densidade_, à medida que se afasta do _nascimento_, de conformidade com as _leis específicas_, que determinam o _ritmo_ e as outras _características_ dêsse «_crescimento_».

Sob êste aspecto, a _criança_ não tem outra _função_ senão a de «_crescer_», isto é, de adquirir um _desenvolvimento somático_, cujo termo, em _circunstâncias normais_, só à _hereditariedade_ pertence estabelecer e fixar.

3.--Mercê da _vida sensitiva_ que, no sentido rigoroso do têrmo, é apanágio exclusivo dos sêres dotados dum _sistema nervoso_, a _criança_ aprende, cada vez com maior eficácia e precisão, a manter com o _meio_, em que tem de viver, o _equilíbrio_, de que carece, para a conservação da sua _vida_, isto é, a _adaptar-se_.

Seja qual fôr o conceito que se fizer da _sensação_, como expressão mais simples, e elemento irredutível da _consciência_; mas, tendo em vista o _processo evolutivo_ da _diferenciação_ e da _complexidade orgânica_, não padece dúvida que o _fenómeno da irritabilidade_, que já se encontra no _mundo vegetal_, de par com os _tropismos das plantas_, pode ajudar a esclarecer o _mistério_ da _sensibilidade geral_, que os _animais superiores_ tambêm usufruem, e por cuja virtude a _criança_ se torna capaz de tirar o máximo proveito das suas _experiências_, em relação ao _mundo externo_[2].

4.--Finalmente, pela _vida do pensamento_, que se manifesta sempre em perfeita correlação com o _desenvolvimento cerebral_, a criança adquire a _capacidade de reagir_, por um _dinamismo progressivo_, à _acção das influências cosmo-telúricas_, subtraíndo-se a essas e a outras _influências_, ou atenuando-as, em proveito da sua _individualidade_.

Manifestações desta _vida_ (tambêm chamada _de relação_), alêm da _espontaneidade_, que torna possível a resistência ao _automatismo dos instintos_ e dos _hábitos orgânicos_, são a _reflexão_, que prepara o advento e a consolidação da _personalidade_, e a tendência de _integração no meio social_, como uma das bases essenciais do _carácter_[3].

5.--Importa, porêm, advertir que, apesar desta tríplice _existência funcional_, a _vida da criança_, como a do _homem_, não se scinde, nem sofre _soluções de continuidade_, antes constitue uma _unidade orgânica_, e uma _concentração de energias_, que não divergem entre si, senão pelo _mecanismo_, a que dão origem, e pelas _tendências_ e _impulsividades_, que despertam[4].

6.--Vê-se, pois, que a _criança_, na integral complexidade dos _elementos_ que a constituem, e na plenitude das _fôrças_ que a caracterizam, é um _organismo_, cuja _estrutura_ e _actividade_ dependem, não sómente das _energias físico-químicas_, a que todo o _Universo_ está sujeito, como tambêm sofrem a influência de tôdas as _leis biológicas e psíquicas_, que interveem, tanto na formação da _consciência reflexa do homem adulto_, como na _dinamogenia dos instintos_, que engendram a _vida social_[5].

II

Sciências da Criança: Pedologia, Psico-pedagogia, Pedagogia experimental; outros ramos da Pedagogia

1.--A _pedagogia moderna_, aceitando a proposta do professor Blum, de Lyon[6], emprega a palavra _pedologia_ para designar a _sciência natural da criança_[7].

Mas a _criança_ pode ser estudada _em si mesma_, sem outro intuito que não seja o de a _conhecermos_, do mesmo modo que o botanista estuda as _plantas_, ou o entomólogo, os _costumes dos animais_. Neste caso, o _estudo_ da criança será _desinteressado_; e, para ser profícuo, não poderá deixar de submeter-se às _regras do método_, que a sciência preconiza para a _investigação_ de não importa que _fenómenos da natureza_. Teremos, então, a _pedologia pura_ que, sendo o _estudo integral da criança_, compreende:

1) a _biologia infantil_ (conhecimento da _natureza física da criança_, em todos os _estádios da sua evolução_);

2) a _psicologia infantil_ (estudo da _mentalidade da criança_); e

3) a _sociologia infantil_ (estudo da _sociabilidade da criança_).

Pelo seu lado, cada um dêstes _ramos_ da _pedologia_ subdivide-se ainda em diferentes _capítulos_, consoante as necessidades da _especialização scientífica_.

Assim, a _biologia infantil_ ou _fisio-pedologia_ inclue o estudo da _anatomia_ e da _fisiologia do embrião_; do _recêm-nascido_; e da _criança_, em tôdas as _idades do «crescimento»_[8].

A _psicologia infantil_ ou _psico-pedologia_, consoante descreve os _processos mentais da criança_, ou procura explicar a _sua origem e evolução_, assim se denomina _estrutural_ ou _estática_, e _funcional_ ou _dinâmica_[9].

A _psico-pedologia estrutural_ deve os seus mais assinalados progressos aos _trabalhos_ de Tiedemann, Sigismund, Kussmaul, Preyer, etc.[10]

Quanto à _psico-pedologia dinâmica_, importa ainda distinguir o estudo dos _processos mentais da criança_, na sua _continuidade vital (genética)_, ou no seu _funcionamento orgânico (cinemática)_, como fizeram, alêm doutros psicólogos notáveis, John Dewey, de Chicago, e o seu discípulo Irving King[11].

2.--Considerando, porêm, a _criança_, sob um _aspecto utilitário_, isto é, estudando-a com _determinados intuitos_, ou para _determinado fim_, é da _pedologia aplicada_ que temos de nos socorrer, ou da _pedotecnia_, como agora se diz.

Esta tambêm sofre divisões, conforme incide sobre a _criança doente_, que importa _curar (pediatria)_, ou sobre a _criança delinqùente_, que é necessário _regenerar (pedotecnia judiciária)_, ou ainda sobre a _criança_, que nos propomos _educar (pedagogia experimental)_.

A _pediatria_ compreende a _higiene infantil_, a _clínica infantil_ e a _psiquiatria infantil_; e a _pedotecnia judiciária_ subdivide-se em _criminologia infantil_, e _profiláctica pedológica_.

Resta a _pedagogia experimental_, que se desdobra na _psico-pedagogia_ (_psicologia infantil_ aplicada à _pedagogia_), na _higiene escolar_, e na _ortofrenia_ (estudo das _crianças mentalmente anormais_).

O _esquêma_ que, a seguir, publicamos condensa e mostra as relações que as _sciências pedológicas_ manteem, entre si.

Como se observa, nêsse _quadro_, pelo lugar que nêle ocupa, a _pedagogia experimental_ é a sciência que aplica ao estudo da _criança normal_ os _princípios_ da _pedologia teórica ou pura_, no intuito de a _educar_.

3.--Há, porêm, outros _ramos da pedagogia_ que, embora na aparência independentes, todavia, não derivam doutra _fonte_ que não seja da _pedologia_: _sciência comum e geral da criança_. São os seguintes:

1) a _pedagogia filosófica_, que estuda as _questões gerais da pedagogia e da pedologia_ (_conceito e natureza da educação_; _fins_ a que tende; _leis_ que a regulam; _possibilidade e necessidade da educação_; _factores da educação_; e seus _agentes_; _princípios gerais_ e _fundamentais da pedagogia_[12];

2) a _pedagogia histórica_, que estuda os _sistemas de educação_, _na vida da humanidade_, _através da história_[13];

3) a _pedagogia propedêutica_, ou _arte de educar_ (aprendizagem da _técnica do ensino_);

4) a _pedagogia escolar_, que se ocupa da _organização material e pedagógica das escolas_[14];

5) e, finalmente, a _pedagogia administrativa_, que trata da _administração e do govêrno do ensino_[15].

{ _Geral ou Pura_ { _Bio-pedologia_ { _anatomia { (_Desinteressada_){ (_Somática_) { infantil._ { { { _fisiologia { { { infantil._ { { { { { { _Psico- { _estrutural._ { { -pedologia_ { { { (_Psíquica_) { _funcional_ { _genética._ { { { _cinemática._ { { _Sócio-pedologia._ PEDOLOGIA { { (_Social_) (_Sciência { natural da { { _higiene criança_).[16] { { infantil._ { { _Pediatria_ { _clinica { { (a criança { infantil._ { { doente ou { _psiquiatria { { anormal) { infantil._ { { { _Aplicada ou { _Pedotecnia { _criminologia { Pedotecnia_ { Judiciária_ { infantil._ { (_Intencional_){ (a criança { _profiláctica { delinqùente) { pedológica._ { { _Pedagogia { _psico- { _psico- { experimental_ { -pedagogia_ { -diagnóstica._ { (a criança sã { { { e normal) { { _psico- { { -técnica._ { { _higiene escolar._ { { _ortofrenia_.

III

A vida da criança; fases que atravessa durante o «crescimento», ou idades da evolução do organismo humano

1.--A _vida da criança_, tanto sob o ponto de vista _somático_, como em relação à sua _actividade psíquica_, varia com a _idade_ e com o _sexo_; e difere, não só _em quantidade_, como tambêm e principalmente _em qualidade_, da vida do adulto[17].

A existência incontestável desta _diferenciação estrutural e dinâmica_ das crianças entre si, e da _criança_ com o _adulto_, levanta o problema dos _factores do desenvolvimento_, e o da _progressão funcional das energias bio-psíquicas_, que nêle interveem.

¿Em que medida é que a _hereditariedade_ e o _meio_ influem na _evolução da criança_; e porque é que o _aparecimento_ e a _acção dos processos psíquicos_ estão sujeitos à lei do _progresso contínuo_?

Dum modo mais geral, pode preguntar-se, se existe alguma relação entre o _desenvolvimento bio-psíquico da criança_ e o da _espécie humana_, através das _idades geológicas_; ou se, pelo contrário, a _doutrina da recapitulação_ carece de _apoio sólido_, em que se firme[18].

Nós, remetendo o leitor para os _estudos especializados_, que se referem à _interpretação genética das energias orgânicas do crescimento_, e à _apreciação das influências mesológicas_, que sôbre elas agem[19], passamos à enumeração das _fases da vida das crianças_, de conformidade com o _critério fisiológico da dentição, combinado com o da maturidade sexual_[20].

2.--São seis as _idades da evolução do organismo humano_, desde o início da _vida extra-uterina_, até à _idade adulta_:

1) _recêm-nascença_ (até ao fim do _primeiro mês_, depois do _nascimento_);

2) _infância_ (desde o fim do _primeiro mês_, até aos _três anos_);

3) _puerícia_ (desde os _três anos_, até aos _sete_);

4) _adolescência_ (desde os _sete_, até à idade que oscila, para os rapazes, _entre os doze e os catorze anos_; para as raparigas, _entre os onze e os treze_);

5) _puberdade_ (desde o _fim da adolescência_, até a _uma época_ que, segundo as circunstâncias, tambêm varia, em relação a cada _sexo_; não indo, porêm, entre nós, em regra, alêm dos _dezasseis anos_, para os rapazes, e dos _quinze_ para as raparigas);

6) _nubilidade_ (desde os _quinze ou dezasseis_ anos, até aos _vinte_)[21].

3.--A _recêm-nascença_ inicia-se pela _crise_, resultante da passagem da _vida intra-uterina_ do _feto_ para a _vida extra-uterina_; e assinala-se, no _recêm-nascido_, pela existência de _características_, que importam o mais absoluto _automatismo_[22].

À _criança que vem de nascer_, chamou Virchow «_um ser espinhal_», para significar, sem dúvida, que é como um _anencéfalo_, que ela se comporta, em todos os seus movimentos.

Efectivamente, o _recêm-nascido_ é uma pura _máquina de reflexas_, que a _necessidade de adaptação ao meio_ exclusivamente acciona, _sob risco de morte_. A _espontaneidade_ só virá com o _funcionamento sensorial_ que, nesta curtíssima _idade_, só muito imperfeitamente se manifesta[23].

4.--A _infância_ é a época, em que se completa a _primeira dentição_ (os vinte _dentes do leite_)[24]; e em que, ao _ser fisiológico_, que era a _criança_, se ajunta agora um _ser intelectual_[25].

Compreende duas _fases principais_, indo a _primeira_, desde o início do _segundo mês_, até aos _catorze ou dezasseis meses_; e a _segunda_, desde aí, até aos _três anos completos_.

_Infância_, quer dizer: _idade em que se não fala_ (de _infans_, _antis_); todavia, a partir dos _doze ou trêze mêses_, a criança principia já a emitir _sons articulados_; e, desde os _dezoito_ até aos _vinte e quatro_, mostra-se possuidora da _linguagem pròpriamente dita_[26].

Alêm desta aquisição, tambêm pertence à _segunda fase da infância_ a _auto-locomoção_ ou a _marcha_, que entra de ensaiar-se, em regra, nos rapazes, entre os _doze e os dezasseis mêses_; e, nas raparigas, entre os _dez e os quinze_[27].

5.--À terceira _idade do «crescimento»_ chamou (e com muita propriedade) o nosso Garrett _puerícia_ (de _puer_, _[)e]ris_). É a _segunda infância_, dos franceses, que se compreende entre os _três anos_ e os _sete_ (início da _segunda dentição_, que apenas se completará, aos _vinte anos_)[28].

Como, em seu lugar, veremos, as _tendências_ dominantes desta _idade_ são os _jogos_; a _imitação activa_; a _sugestibilidade_; e os _interesses_, que predominam, ligam-se ao _desenvolvimento da vida mental_.

6.--A _fase peri-pubertária_ costuma designar-se pela palavra _adolescência_ (de _adol[)e]scens_, _[)e]ntis_).

[Figura: 10 anos]

[Figura: 11 anos]

[Figura: 12 anos]

Alunos do Colégio Moderno

FASE PUBERTÁRIA

[Figura: 14 anos]

[Figura: 15 anos]

Nesta _idade_, como veremos, «a _criança_ principia a _emancipar-se_; a sua _personalidade_ desenha-se, esboça-se»[29]; numa palavra, a _natureza_, neste _estádio da evolução_, cuida de preparar o _individuo_ para a grande _transformação orgânica e psíquica_, que vai ser realizada, na idade seguinte.

7.--Essa _idade_ é a _puberdade_.

Segundo Paul Godin, a _fase pubertária_ é «o momento do desenvolvimento humano, em que o _poder germinal_ orienta tôdas as fôrças do organismo para a _função da reprodução_»[30].

Outros chamam-lhe a _idade crítica_; o _eixo do crescimento_; e todos são concordes em atribuir os _desequilibrios biológicos e psíquicos_, em que é fertil, à _convulsão orgânica_, produzida pelo _despertar do gérmen vivo_, que _dormitava na criança_, desde o dia do _nascimento_.

A _puberdade_, cuja aparição, entre nós, eu tenho estudado[31], alêm dos _efeitos pilares do púbis e das axilas_, da _mudança da voz_ e, no sexo feminino, do aparecimento do _fluxo menstrual_, manifesta-se tambêm pelo aumento do _tecido conjuntivo_, pelo engrossamento dos _ossos_, pelo robustecimento dos _músculos_, e pelo máximo de _volume e densidade do cérebro_[32].

8.--A última _fase da evolução_ é a _nubilidade_, que muitos identificam já com a _idade adulta_.

O _indivíduo_, perdendo as _características infantis_, diferenciou-se, segundo a _lei dos sexos_; e tornou-se definitivamente apto para _viver sobre si_, e para assegurar a _persistência da espécie_.

IV

Elementos e subsídios, de que podemos dispor, para a constituição de uma pedologia nacional

1.--De modo análogo ao que sucede em países estrangeiros, tambêm, entre nós, se há procurado obter (embora com fortuna vária) _factos em primeira mão_, que possam esclarecer os _problemas relativos ao «crescimento» da criança portuguesa_.

Podem considerar-se como _centros de investigação pedológica_ os seguintes _institutos_:

1) a _Escola-oficina n.^o 1_, de Lisboa, que é uma _escola de ensino integral e de preparação profissional_, destinada a _adolescentes_ (dos 7 aos 14 anos)[33];

2) o _Instituto médico-pedagógico da Casa Pia_, de Lisboa, dirigido pelo ilustre pedagogista, Dr. Costa Ferreira, que é autor de _publicações_ interessantes sobre _pedologia_;

3) a _Tutoria do Pôrto_, onde teem sido feitos _exames e observações antropométricas e psiquiátricas em menores delinqùentes_, pelo distinto antropologista, Dr. Mendes Corrêa;

4) a _Tutoria de Lisboa_, de que foi _juiz presidente_ o Dr. Pedro de Castro[34];

5) a _Sociedade de estudos pedagógicos_[35];

6) a _Escola preparatória Rodrigues Sampaio_, de que foi director o consideradíssimo professor e eminente pedagogista, Dr. Adolfo Coelho;

7) a _Escola Central de Reforma, de Caxias_, dirigida pelo P.^e António d'Oliveira;

8) o _Laboratório de psicologia experimental da Faculdade de Letras da Universidade de Coímbra_, que nós fundámos e dirigimos, por deliberação desta _Faculdade_, que, em 1912, nos mandou à França e à Suíça, a fim de estudarmos a organização dos _laboratórios psicológicos_, e de adquirirmos os _utensílios_ e _aparelhos necessários_ para o funcionamento de um, em Coímbra[36].

2.--Algumas das _investigações_, realizadas nestes _Institutos_, tanto sobre _pedometria_, como sobre _psico-física dos órgãos dos sentidos_, e outros _processos psicométricos_, foram divulgadas pela _imprensa_; mas o maior número das _observações_ e _experiências pedológicas_, de que felizmente podemos dispor, tem-se conservado _inédito_, mercê de várias causas, entre as quais avulta aquela que se refere à carência de _recursos pecuniários_, para ocorrer às despesas a efectuar com a sua publicação, dada a criminosa _indiferença do Estado_ por esta _ordem de serviços_, que tem reputado de _somenos importância_, visto que ainda se não resolveu a votar as _verbas necessárias_ para a sua _organização_, como _base essencial_ de todo o _sistema de ensino público_ e de tôda a _obra de educação nacional_.

No _laboratório de psicologia_ da Universidade de Coímbra, desde 1912, que se não cessa de _observar_ e _experimentar_ sobre _crianças_ e _adultos_, no intuito de esclarecer alguns dos mais importantes _problemas da psico-física_, da _psico-fisiologia_ e da _pedologia_, sendo considerável já o _dossier_ dos _trabalhos realizados_, principalmente na parte que se refere à _acuidade sensorial_; _função mnésica_; _tempos de reacção_; _ergografia_; _sugestibilidade_; _psico-patologia da atenção, da imaginação, da inteligência_; _sentido cromático_; _doenças oculares_; _psicologia do testemunho_; _dinamogenia dos sentimentos_; etc.; etc.

Universidade de Coímbra:

Laboratório de Psicologia Experimental

[Figura: Sala de conferências]

[Figura: Sala do laboratório]

Os _resultados_ de tôdas estas _experiências_ serão devidamente considerados, no presente trabalho (principalmente, no 2.^o volume), de par com as _observações e estudos_ análogos feitos nos outros _estabelecimentos_ que indicamos.

V

Bibliografia portuguesa de assuntos relativos à psicologia e à pedologia

1.--*Questões gerais de pedagogia e pedologia:*

1) Almeida Garrett, _Da Educação_, 1.^a ed. Londres, 1829;

2) Dr. Adolfo Coelho, _Os elementos tradicionais da educação_, Pôrto, 1883;

3) Idem, _Questões pedagógicas_ (os exercícios militares na escola), separata do _Instituto_, Coímbra, 1911;

4) Idem, _A pedagogia do povo português_, apud _Portugalia_, V. I, fasc. I;

5) Idem, _O estudo da criança_, apud "_A Tutoria_" (revista mensal defensora da infância), n.^{os} correspondentes aos anos de 1912 e 1913, Lisboa;

6) Idem, _Educação e Pedagogia_, apud _Boletim da Direcção Geral de Instrução Pública_, Lisboa, 1902, fasc. I-V;

7) Dr. Alves dos Santos, _A nossa escola primária_, Pôrto, 1910;