Echos de Pariz

Part 4

Chapter 43,922 wordsPublic domain

Uma tal taciturnidade, uma tal apathia não provém só dos parizienses estarem despeitados, porque a policia republicana e o governo republicano os acutilaram consideravelmente. É certo que em cada bairro se formou uma commissão para _desorganisar_ a festa e promover uma melancolia de protesto:--mas essas commissões só impediram luminarias que já estavam decididas a não illuminar, e só fecharam nas gavetas bandeiras que realmente nunca tinham tencionado tremular. A verdade é que Pariz e a França cada vez se desinteressam mais da festa de 14 de julho. Ella nunca foi essencialmente popular. Se o povo dançava, é porque o Estado lhe estabelecia uma orchestra nas praças, entre lanternas chinezas:--e onde quer que haja uma flauta e uma rebeca, com luzes entre verdura, immediatamente raparigas e rapazes se enlaçarão para uma polka. Mas espontaneamente, se o Estado não fornecer a orchestra (como succede desde os ultimos annos) não ha povo que a alugue e que dance só porque em certo dia, ha cem annos, se derrubou uma certa fortaleza. Em que póde a tomada da Bastilha enthusiasmar o povo? Querem dizer que ella era a summa e o symbolo do despotismo monarchico e do direito divino. Mas esse despotismo, na Bastilha, só se exercia sobre os fidalgos. A plebe não gosava a honra de ser encarcerada na Bastilha. Se a sua destruição deve regosijar uma classe, será a classe nobre, a aristocracia do bairro Saint Germain. A essa competia alugar a orchestra e polkar no dia 14 de julho. Em vez d'isso, a aristocracia, n'essa data illustre, volta a face com tedio, cerra as vidraças, foge para o campo, a esconder-se nos parques. Lamenta portanto a perda da Bastilha. Quereria ainda, no meio de Pariz, as quatro grossas torres onde pudesse ser sepultada _pro vita_ ao bel-prazer d'El-rei. Ora, se a aristocracia, que é a interessada, não se regosija com o dia que a libertou--porque se ha-de regosijar o povo de Pariz?

Além d'isso, festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam populares, nem duram, porque são horrivelmente ficticias. É o que succede com os anniversarios de Constituições. Nos primeiros tempos, quando ainda vivem os homens que fizeram a Constituição, lá se vão pondo pelas janellas alguns molhos de bandeiras, e lá se accendem algumas centenas de lanternas, que fazem sahir á noite para a rua as famílias, a «gosar a illuminação». Depois os annos passam, pouco a pouco se vae esquecendo o facto mesmo de que existe uma Constituição, a municipalidade diminue as lamparinas, já ninguem sáe á rua, e a data gloriosa só fica interessando os estudantes que têm feriado. Em Lisboa, a festa da proclamação da Carta Constitucional está reduzida a quatro lampeões muito baços e muito tristes, que se penduram no alto do Castello de S. Jorge. Já ninguem sabe mesmo que ha uma festa. Na verdade, já ninguem sabe que ha uma Carta Constitucional.

Festas nacionaes, festas para celebrar uma ideia ou um facto historico, nunca causarão no povo enthusiasmo, nem o tornarão festivo, porque o povo não se importa, nem com ideias, nem com a historia, é por natureza _simplista_, só se move por sentimentos simples e individuaes, e assim como só se afeiçoa a individuos, só comprehende festas celebradas em honra de individuos. Por isso, as unicas festas que profundamente animam o povo, são as religiosas, as dos santos. Para o povo, os santos, os santos populares e democratas, como S. João, S. Pedro, Santo Antonio, são individuos que elle conhece, com quem conversa nas orações, com quem convive, que tem dentro de casa sobre o altarinho domestico e de quem recebe constantemente serviços e patrocinio. A vida d'esses santos, as suas façanhas, a sua face barbada ou rapada, as suas vestes, os seus attributos, tudo lhe é familiar--e elles são como verdadeiras pessoas de familia, ligadas a toda a histoira domestica, e por isso profundamente amadas. Quando chega o dia da sua festa, os «seus annos», é com genuino fervor que se arranjam ramos de flores, e se cozinha um prato de dôce, e se accendem á noite luminarias, e se dança no terreiro, e se atiram alegres foguetes. A folgança de cada lar faz o festival de toda a cidade;--e é o doce amigo, o padroeiro que está no céu, que se celebra com carinho, na certeza que elle vê a festa, e se mistura a ella do alto das nuvens, e sorri de reconhecimento e ternura aos seus amigos da terra. Mas se, em vez de S. João ou de S. Pedro, fôsse imposto ao povo o dever de celebrar um grande acontecimento da Egreja, como a conversão de Constantino ou os artigos do concilio de Nicéa, não haveria nem uma luminaria, nem um foguete. E o povo diria com razão:--«S. João é um amigo meu, muito intimo, cuja imagem eu tenho á cabeceira, a quem devo favores e que festejo com immenso prazer; mas essa Nicéa que eu não sei onde é, e esse Constantino com quem nunca travei relações, não valem para mim o preço de uma lamparina.»

É o que succede com as festas nacionaes por acontecimentos publicos. Pertencem muito ao dominio dos principios e aos movimentos sociaes para que o povo, que é todo individualista, sinta por elles a menor migalha de enthusiasmo ou carinho. Para que a Republica pudesse ter uma grande festa, devia organisal-a em favor de um grande republicano. Mas ahi é que está a difficuldade. Qual grande republicano? Nenhum reune a admiração unanime.

Se se decretasse a festa de Robespierre, todos os liberaes-girondinos protestariam com furor e haveria sangue.

Se se decretasse a festa de Danton, todos os jacobinos auctoritarios desceriam á rua com cacetes. Em verdade vos digo, só o céu nos envolve a todos, e só S. João póde ser festejado sem descontentar a ninguem.

Ha, ao que parece, uma grave, muito grave novidade internacional.

A França e a Inglaterra estão arrufadas. Mais: estão franzindo terrivelmente, uma para a outra, o sobr'olho e fallando com azedume de _casus belli._ Este latim, que significava outr'ora _caso de guerra_, quer apenas dizer hoje, na moderna linguagem internacional, que dous amigos se zangam, se tratam de _pulhas_ e _malcreados_, se mostram mutuamente o punho, e mutuamente se voltam as costas.

Este rompimento de relações entre a França e a Inglaterra, tem por motivo o Sião. O Sião é um reino do Extremo Oriente, muito rico, e portanto muito appetecivel. Tem um rei bastante curioso, segundo se deprehende da sua photographia, porque da cinta para cima anda vestido á chineza, e da cinta para baixo á Luiz XV! E todo o reino, ao que dizem, participa assim da Asia e da Europa. As suas fortalezas offerecem uma architectura phantasista de magica--e estão armadas de canhões Krupp. Além do seu rei, Sião possue toda a sorte de riquezas naturaes, em plantações e em minas. É portanto um delicioso e proveitoso paiz para possuir. Se eu tivesse meios de me apoderar de Sião, já esse reino seria meu, e eu exerceria lá os meus direitos de conquistador com doçura e magnanimidade. Mas não tenho meios de me apoderar de Sião. A França tem. A Inglaterra tambem. E ambas, muito naturalmente, se encontram ha annos n'esses confins do Oriente, lado a lado, com o olho guloso cravado sobre Sião. E não as censuro. Eu proprio, como disse, se possuisse exercitos e frotas, teria já empolgado Sião. O animal inconsciente foi posto sobre a terra para nutrir o animal pensante--e por isso com bois se fazem bifes. Os paizes orientaes são feitas para enriquecer os paizes occidentaes--e por isso com os Egyptos, os Tunis, os Tonkins, as Cochinchinas, os Siãos (ou Siões?) se fazem para a Inglaterra e para a França boas e pingues colonias. Eu sou civilisado, tu és barbaro--logo, dá cá primeiramente o teu curo, e depois trabalha para mim. A questão toda está em definir bem o que é ser civilisado. Antigamente, pensava-se que era conceber de um modo superior uma arte, uma philosophia e uma religião. Mas, como os povos orientaes têm uma religião, uma philosophia e uma arte, melhores ou tão boas como as dos occidentaes, nós alteramos a definição e dizemos agora que ser civilisado é possuir muitos navios couraçados e muitos canhões Krupp. Tu não tens canhões, nem couraçados, logo és barbaro, estás maduro para vassalo e eu vou sobre ti! E este, meu Deus, tem sido na realidade o verdadeiro direita internacional, desde Ramézes e o velho Egypto! Que digo eu? Desde Cain e Abel.

Em virtude, porém, d'um respeito innato pelas exterioridades (que data da folha de vinha) os homens crearam ao lado d'este descarado direito internacional um outro, o direito ceremonial, todo cheio de fórmulas e de mesuras, e segundo o qual não é permittido a qualquer nação apoderar-se d'outra com a simplicidade com que n'uma estrada uma creança colhe um fructo. Hoje está estabelecido, entre os povos civilisados, que para que o forte ataque e roube o fraco, é necessario ter um pretexto. Tal é o grande progresso adquirido.

Ora a França acaba de achar, com jubilo immenso, o pretexto para cahir sobre Sião. O pretexto é multiplo e complicado: ha uma vaga questão de fronteira n'uma região chamada Mekongo; ha uma canhoneira que ia subindo um rio e que apanhou um tiro siamez; ha um marinheiro que foi preso, ou que cahiu á agua; e ha uns siamezes que berraram _hu! hu!_ Tudo isto é gravissimo. Parece tambem (e isso infelizmente é doloroso) que houve em tempos um negociante francez assassinado. E sobretudo succedeu que uns officiaes siamezes arvoraram a bandeira de Sião por cima da bandeira da França. Se não foram elles--foram seus paes, como disse o lobo ao cordeiro. Emfim, o que é certo é que o povo francez necessita, para sua honra, vingar a affronta feita ao pavilhão tricolor. E não ha duvida que os dias de Sião acabaram. A França tem o seu pretexto. Adeus meu bom rei de Sião, vestido da cintura para cima á chineza e da cintura para baixo á Luiz XV!

Calculem, pois, o furor da Inglaterra! Havia longos tempos que ella se installára ao pé de Sião, á espera de um pretexto para devorar aquelle bello bocado do Oriente--e é a França, a nação entre todas rival, que apanha o pretexto! É contra a França, não contra ella, que os siamezes berraram _hu! hu!_ É sobre a bandeira da França, não sobre a d'ella, que os officiaes siamezes hastearam imprudentemente a bandeira de Sião! É a França emfim que está na deliciosa posse d'estas affrontas, que saboreia a preciosa felicidade de ser insultada--e que portanto tem o rendoso direito de se vingar! Tanta fortuna não deve ser tolerada--e a Inglaterra não a tolera. E já o declarou, através dos seus jornaes, através do seu parlamento:--«Uma vez que n'esta occasião Sião não pôde ser para mim, tambem não será para ti! Que a França faça o que julgar necessario á sua honra, mas que não toque, nem com uma flôr, na independencia de Sião! A autonomia de Sião é cousa sagrada. O mundo, para permanecer em equilibrio, precisa que Sião seja livre. Sião só para Sião (desde que não póde ser para a Inglaterra). E se a França attentar contra a independencia de Sião, ás armas!» Eis o que diz, n'um dizer mais diplomatico e solemne, aquelle excellente John Bull.

E aqui está como, de repente, por causa de um pedaço de terra e de um pouco de minerio, duas grandes nações, guardas fieis da civilisação e da paz, se assanham, ladram, investem, como dous simples cães vadios deante de um velho osso.

O que mais uma vez prova a suprema unidade do Universo, pois que nações, homens e cães, todos têm o mesmo instincto, o mesmo peccado de gula, e, deante do osso, o mesmo esquecimento de toda a justiça.

VI

A FRANÇA E O SIÃO.

A França começou emfim a devorar Sião. Este ingenuo, amavel e polido povo recebeu, ha quatro ou cinco dias, um _ultimatum_ em que era intimado a entregar, sem demora, á França uma immensa porção do seu territorio e uma não pequena porção do seu dinheiro. Segundo a prudente maneira dos orientaes, o Sião nem consentiu, nem recusou. Com aquella mansidão e humildade, que tão propria é de buddhistas e de fatalistas, replicou que não comprehendia bem as exigencias da França, que appetecia a paz, e que por amor d'ella estava disposto a dar algum dinheiro, mas não tanto, e a abandonar algum territorio, mas não tão vasto. Outr'ora, quando os costumes internacionaes eram mais dôces e complacentes, e os povos orientaes gosavam ainda (por menos conhecidos) d'uma feliz reputação de lealdade, esta discreta resposta teria dado motivo a novas negociações, novos telegrammas, infindaveis cavaqueiras de embaixadores.

Hoje, as maneiras internacionaes são mais bruscas e rudes; os paizes do Oriente têm uma deploravel fama de duplicidade e falsidade; e a França sem se deter em mais explicações com o infeliz Sião, bloqueou-lhe as costas, e fez marchar sobre as provincias do interior as suas tropas coloniaes da Cochinchina.

Perante estes actos, tão decididos, o furor dos inglezes tem sido medonho. Mas é um furor unicamente de politicos, de jornalistas e de commerciantes que tinham grandes negocios com o Sião. O povo, a massa do povo, permanece indifferente. Não tem sentimento nenhum pelo Sião, não acredita que elle seja indispensavel á felicidade da Inglaterra, não percebe porque a Inglaterra cubice ainda mais terras no Oriente, e vê a França cahir sobre o Sião sem que isso lhe irrite o patriotismo ou lhe tome amarga a cerveja. Ora, em Inglaterra, que é uma verdadeira democracia, quando o povo se desinteressa d'uma questão, os politicos e os jornalistas têm tambem de a abandonar, porque ahi não se criam artificialmente correntes de opinião; e o governo que provocasse um conflicto europeu, sem se apoiar n'um forte enthusiasmo popular, não duraria mais que as rosas de Malherbe, que, como todos sabem, duram apenas o espaço d'uma manhã.

Não! não ha hoje já possibilidade que duas nações européas se batam por causa de terras coloniaes. Os europeus só se movem por interesses ou sentimentos europeus, e só por elles arrancam da espada.

Para as questões de colonias lá estão os congressos e os tribunaes de arbitragem. E uma senhora que ultimamente, n'um salão, considerava como a cousa mais pueril e mais grotesca que duas nações tão elegantes como a França e Inglaterra se batessem por causa de _bichos tão feios como os siameses_--estabelecia, sem o saber, a verdadeira doutrina do seculo. Quando a França, e a Inglaterra não vieram ás mãos por causa do Egypto, que é a joia do mundo, a terra entre todas preciosa, pela qual se têm dilacerado todos os povos desde o diluvio--não ha receio que jámais duas nações da Europa quebrem a doce paz por causa de interesses orientaes.

De sorte que todas as declamações dos jornaes sobre guerra são um mero desabafo de rhetorica heroica. E como não ha o menor perigo (e elles perfeitamente o sabem) de se chegar á boa cutilada, não é desagradavel, n'estes ociosos dias de verão, roncar d'alto, com o sobr'olho franzido, e a mão nos copos do sabre. Assim se vae gastando, com arreganho, alguma tinta--sem medo que se venha a gastar sangue.

Em todo o caso, n'estas rivalidades coloniaes entre a França e a Inglaterra, eu penso que a Inglaterra tem, em principio, mais direitos. Quando ella se apodera d'um d'esses desgraçados reinos d'Oriente (como a Birmania, ha pouco) sabe ao menos como ha-de utilisar e valorisar a sua conquista.

Em primeiro logar, tem logo um numero illimitado de homens, energicos e emprehendedores, que, ou sós, ou com as familias, embarcarão para ir povoar, colonisar, cultivar, industrialisar, e por todos os modos explorar a nova terra ingleza. Depois tem uma prodigiosa quantidade de productos fabris para exportar para lá, e lá vender, sem concorrencia. Depois tem uma collossal frota mercantil, para fazer com a nova possessão um commercio activo e contínuo. E emfim tem uma formidavel frota de guerra para defender a sua acquisição. A França, essa, não tem nada d'isto--nem frota, nem productos, nem homens. Não tem sobretudo homens, porque a população da França não chega mesmo para a França. Quando ella se apossa violentamente de Tunis ou do Tonkin, o unico acto colonial que depois pratica é remetter para a recente colonia alguns soldados e muitos empregados publicos. A França faz conquistas para exportar amanuenses. No Tonkin, por exemplo, ella possue, no solo, occultas riquezas maravilhosas; mas não tem colonos que as vão explorar. A expansão colonial da França não dá assim lucro nenhum, ou alargamento á civilisação geral. Apenas promove, através dos mares, uma deslocação de amanuenses aborrecidos e enjoados. Ao contrario, cada palmo de chão, que a Inglaterra occupa, entra no movimento universal da industria e do commercio.

A Inglaterra tem virilidade colonial e a França só impotencia. Quando um homem novo, robusto, activo, penetra numa aldeia e rouba uma linda rapariga, commette de certo um acto escandaloso, e que todos devem condemnar com severidade. Mas esse valente homem tem uma justificação, um motivo que se comprehende (e com que mesmo se sympathisa): e se, d'esse enlace, lamentavelmente illegitimo, nascerem filhos sãos, fortes, activos, ha alli um positivo lucro para a humanidade e para a civilisação. Quando, porém, é um velho de oitenta annos, regelado, cachetico e a babar-se, que penetra na aldeia e rouba a linda moça, estamos então deante de um escandalo que não tem justificação possivel. É um escandalo ignominiosamente esteril. Nada lucra com elle a humanidade, nem o velho. E só podemos cruzar os braços com espanto e indignação, e exclamar: «Para que quer aquelle velho aquella moça?»

E é o que exclamamos agora, tambem, cruzando os braços: «Para que quer esta França este Sião?»

Eu tenho um amigo que esteve n'esse pobre Sião, hospedado pelo rei, no palacio, e conta detalhes bem pittorescos.

Todo o reino de Sião pertence ao rei, tão completamente como ahi uma fazenda de café pertence ao fazendeiro. O rei é o dono do solo, dos edificios, dos habitantes e da riqueza dos habitantes. Póde, querendo, doar, hypothecar, trocar ou vender o reino com tudo o que está dentro das fronteiras.

É uma posse agradavel. O povo, por seu lado, considera o rei não só como seu dono, mas como seu deus. E a formula religiosa (como se dissessemos o artigo da Constituição) que define as relações e deveres entre povo e rei é esta: «_Do rei o povo recebe a vida, o movimento e o sêr_».

O rei tem um nome immenso, chama-se Prabat-Tomedetch-Pra-Parammdir, etc., etc., etc. Todo elle não caberia em cincoenta linhas. E de cada vez que se falla ao rei (só os nobres gosam esse privilegio) é da etiqueta invocal-o com o nome todo.

Uma conversa com Sua Magestade dura, assim, longas e longas horas, por causa do nome. De facto a mais laboriosa e pesada occupação da corte é pronunciar o nome d'el-rei.

Pessoalmente, o rei é um homem excellente, cultivado, affavel, gracejador, bondoso. É mesmo bonito, para siamez.

E as suas maneiras têm nobreza. O que a estraga é o seu illimitado poder, a sua posição de divindade, e a prodigiosa, inverosimil adulação que o cerca. Assim é uma regra (e cumprida com fervor) que todo o siamez que tem uma filha bonita a dê de presente ao rei. As suas concubinas officiaes excedem em numero as de Salomão. São aos milhares. E o rei, apesar de novo, de não contar ainda quarenta annos, já tem cento e oitenta e tantos filhos! Tudo isto, esposas e filhos, vive no palacio, que offerece as proporções de uma vasta cidade. Ha ruas inteiras de esposas! Ha bairros inteiros de filhos! Toda esta immensa familia vive com um luxo immenso, e o rei, apesar de dispôr de todas as riquezas do Sião como suas, está horrivelmente endividado em Londres. Ás vezes, porém, elle proprio procura fazer economias: e foi assim que, no momento em que o meu amigo estava no Sião, el-rei deu ordens para que, por economia, se não ferrassem mais os cavallos da cavallaria. Havia cem cavalleiros, eram cem ferraduras poupadas. Eis aqui um traço bem siamez!

O rei nunca sáe do palacio, não conhece o seu reino, mal conhece a sua capital, que é Bangkok. Quando por acaso dá um passeio, é uma grande festa, uma grande gala. As ruas são aplainadas e areadas; pintam-se as casas de fresco; os canaes (porque Bangkok assemelha-se a Veneza) levam uma rapida limpeza; toda a população se lava, se alinda, se cobre de joias; e para que não chova celebram-se preces nos templos. Depois o rei recolhe, e por muitos e muitos mezes, Bangkok recahe no usual desleixo e porcaria. Só no palacio ha aceio. De resto, o palacio é que é a nação.

Mas basta de Sião! A culpa é de Pariz que não se quer occupar senão d'este remoto reino, cuja existencia elle, ainda ha oito dias, ignorava. Porque o francez, e sobretudo o pariziense, continua a ser aquelle que Goethe descreveu--«um individuo de muitos cumprimentos, que não sabe geographia.» É talvez mesmo para ensinar geographia ao povo francez que o seu governo emprehende conquistas. Para que, fóra da Europa, elle conheça uma nação, o governo préviamente faz d'ella uma colonia.

Assim se irá alargando a instrucção geographica em França. E, com as acquisições coloniaes feitas n'este seculo, já o francez, quando se lhe perguntar quantas são as partes do mundo, poderá (o que outr'ora não podia) responder com um saber exacto e forte:

--Cinco: A Europa, a Algeria, Tunis, o Tonkin, o Sião!

VII

A QUESTÃO BULOZ--A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»--PARIZ NO VERÃO.

Por fim o Sião cedeu:--e, muito avisadamente, para evitar a immensa maçada de se bater (o que é extremamente penoso, no verão, para um oriental d'habitos dôces e languidos), para evitar tambem a horrivel séca de ser vencido, e talvez desthronado, o rei de Sião entregou á França, incondicionalmente, todos os milhões e todas as provincias que ella reclamava para «vingar a sua honra.»

Póde pois esse excellente e ameno monarcha continuar placidamente a educar nas ideias da civilisação occidental (de que elle acaba de ter uma tão directa experiencia) os seus cento e oitenta filhos. E o Sião desapparece das preoccupações do mundo. Era tempo: havia semanas que se desleixavam os grandes assumptos, os que verdadeiramente interessam a humanidade, como o caso do snr. Buloz.

Não sei se conhecem ahi a questão Buloz. Pois é uma questão tremenda. Basta ver como diariamente os jornaes a retomam, a sondam em todos os seus escaninhos, lhe annunciam a evolução, lhe prophetisam soluções, fazem depender d'ella os destinos das boas lettras francezas. Não ha ninguem que não conheça Buloz. Pelo menos ninguem deve ignorar o seu nome n'esses _dous mundos_ que elle, todos os quinze dias, esclarece, educa e entretem, por meio da sua illustre e famosa _Revista._ Porque é d'elle que se trata, de Buloz, do unico Buloz, de Buloz director da _Revista dos Dous Mundos!_

Que memorias este nome de Buloz nos traz da nossa mocidade! Nenhum havia então que nós pronunciassemos com mais alegre horror--porque elle representava, para o nosso grupo revolucionario e enthusiasta das fórmas novas e audazes, tudo quanto na litteratura havia de mais conservador e burguez. Toda aquella sua séria e ponderosa _Revista dos Dous Mundos_ nos parecia então exhalar um cheiro horrendo a bafio e a lettras mortas.

E escrever na _Revista_, pertencer á _Revista_ era para nós uma maneira especial de ser fossil.

Quantas alcunhas pittorescas postas a essa magestosa _Revista!_ Quantas phantasias edificadas sobre a sua faculdade de adormecer e de embrutecer! Um amigo nosso compuzera um conto em que o heroe, trahido n'um amor sincero, e appetecendo a morte, escolhia, em vez d'um frasco de laudano, um numero da _Revista dos Dous Mundos_:--e ao chegar ás ultimas paginas, á «Chronica da Politica Estrangeira», mergulhava com effeito no somno eterno. Ainda me lembro d'uma definição da _Revista_, dada por um de nós:--«Uma publicação côr de tijolo, que tem dous leitores no Havre!»