Dôr e Luz (Versos de um seminarista)
Chapter 2
No outôno, passam líricas manhans Ferrando os dentes pôdres nas maçans; E em tardes murmurosas vão-se pôr Nos êrmos, murmurando com fervôr As perfumadas orações antigas Ensinadas plas mães (pobres mendígas, Que o bom Deus desde ha muito já lá tem...) Oh! Nunca esquecem orações de mãe...
Chilrêiam cotovias nos valádos... Nas largas noites invernais, coitados, É que êles sofrem gêlos e frieiras! Por horas mortas, quando as ventaneiras Lhes fogem cos colmados das cabânas, Abandonam a enxérga das choupânas, E vão-se recostar pelos portais Aonde o frio os mortifica mais! O vento ulúla rouquidões e pragas...
Andam no ar escuridões preságas, Que põem calafrios na espinha... Maldita chuva!--Quanto mais se aninha O pobresinho, mais se ensópa e alága! Ó santa primavera, Deus te traga...
Primavera! Que tardes deleitosas Andam no ar ondulações radiosas, Exalações miríficas das flores...
Que perfusão esplendida de côres E os pobres, pelas tardes perfumosas, Corôam-se de mirtos e de rosas, E atafulham de rosas a sacóla... Santa abundancia, abençoada esmola A tua, ó primavéra do Senhor...
--Alvorada de rosas e de amôr...
VIII
OS POETAS
Acima companheiros! Alegres como airádas borbolêtas, Visitêmos os pálidos poetas, Que andam a cismar entre os loureiros...
Seu vulto aos céus se alteia... Vêde-os, rapazes, vêde-os...--São aquêles De olhar ardente!--Vêde-os, como êles Trazem nos olhos o clarão da idéa!
Nas faces desmaiádas Veem-se indicios da vigilia estóica, Que passam a cantar em rima heroica As antigas batalhas porfiádas...
Seus olhos amoraveis Andam tristes, vermelhos de chorar, Em noites silenciosas, ao luar, As desgraças dos povos miseráveis...
Espiritos do bem, «_Almas de fogo, que um vil mundo encerra_» Como os denominou quem foi na terra Entre os maiores trovadôr tambem...
Ó pálidos poetas, Eu vos saudo, ó almas desditosas, Cantôres das batalhas ou das rosas, Coroádos de lauréis ou de violêtas...
IX
O TUBERCULOSO
Alem, sentado á sombra das ramadas, No musgo dum rochêdo, Cisma um joven de faces desmaiádas Tão magro que põe medo...
É o tísico. Nos olhos encovados, Dorídos de sofrer, Vê-se a resignação dos desgraçados Cançados de viver...
Sussurra a aragem fría pelas heras Um canto gemebundo, Como a musica etéria das Esféras Nos ámbitos do mundo...
Caem as folhas mortas, retorcídas, Revelhas pela relva; E as avesinhas calam-se, transídas De frio, pela selva...
Desmaia ao longe o sol...--Que tardes estas De maguas tão profundas! Andam no ar exalações funestas Das rosas moribundas...
Coas chuvas engrossaram as ribeiras. Lá passam a gemer, Levando os esquelêtos das roseiras, Que acabam de morrer...
Erguem-se ao ar as ramas desnudadas Das arvores agrestes; E as aves vão piar desconsoladas Á sombra dos ciprestes...
Os ciprestes!--Só êles com o inverno Não perdem o vigôr... Bem mostram que no mundo é sempiterno O sofrimento,--a Dôr!
A tosse (ei-lo a tossir!) rasga-lhe o peito Em bruscas convulsões, Arrancando-lhe o sangue já desfeito Dos putridos pulmões!
A infancia, a mocidade...--esperanças mortas... Como isso já lá vái! Assim expiram ilusões absortas No hálito dum ái!...
Pobre tísico!--Os olhos encovados, Dorídos de sofrer, Fitam as coisas, brandos, resignados, Dispostos a morrer...
X
ORFÃOSINHOS
Crianças--olhái-as--perto, Desmaiaditas a rir... Nos olhos um ceu aberto, Nos labios rosas a abrir...
Não têm mãe, não teem lume. Sua lareira é o caminho, --Como ninhadita implume, Morta a mãe longe do ninho.
Crianças que não tem lar Onde o carinho reluz Nunca aprenderão a amar, --São como as rosas sem luz...
Oiço dizer que as crianças (Anjos de olhar manso e puro...) São chilreantes esp'ranças Dum deslumbrante futuro...
Mas estas, que a rua cria, Magrizélas, definhadas, --Quem me assegura que um dia Não hão-de ser desgraçadas?
Crianças órfans, sem mãe, Já nascem com sua cruz, Como nasceu em Belem O Deus Menino, Jesus...
--«São rosas a abrir mimosas As criancinhas...»--Pois sim! Só se nós chamarmos rosas Ás florinhas do alecrim...
XI
NOIVOS
Alem cismam dois noivos, Fitando ao longe a curva azul do céu Cuns olhos muito tristes, como goivos Á flôr duma ilusão que já morreu...
Quem pode advinhar As coisas em que cismam, que misterio? --Pensam na nostalgia do luar, Beijocando os rosáis do cemiterio...
Ouvide:--Ela, a sorrir, Pergunta com brandura:
«Quem primeiro de nós irá dormir Naquela sepultura?...»
XII
O BOÉMIO
Cái sobre as coisas um luar de prata, Luar bemdito, que enlanguesce, enleia... Vem ao longe uma airáda serenáta, Soluçando uma antiga melopeia...
Lá vem o tocadôr. É um vádio, De guitarra chorosa ao tiracólo... Passa as noites cantando pelo frio Cantigas de saudade e desconsolo...
É um boémio, dos parias desgraçados, De olhos profundos, vagos, erradíos Que vivem a cantar pelos eirados, E morrem afogados pelos rios...
É déssa raça antiga, vagabunda, Que atravessava todas as nações Composta de uma incrivel barafunda De cómicos, mendigos e ladrões...
Ei-lo,--o rebento déssas raças mortas, (Esparge-se o luar na solidão...) Cantarolando á lua, pelas portas, Cantigas de saudade e de paixão...
XIII
NOIVA MORTA...
_Num sônho angustioso, eu vi passar por entre as oliveiras desoladas um caixão branco, com muitas fitas rôxas..._
_Era ao sol-posto. Pelo ceu, uns farrapitos de nuvens, roxeádas pelo sol agonisante, pareciam goivos sepulcráis a desfolharem-se amarguradamente, desconsoladamente..._
_Atraz do caixão carpiam-se muitas virgens, vestidas de luto, olhos ardidos pelas lagrimas..._
_E eu disse para as virgens:_
Ó virgens, quem é aquela Que levam prá sepultura? Virgens, virgens! Quem é ela, Tão nova e tão sem-ventura?!
_E as virgens, desgrenhadas, lacrimosamente responderam-me:_
É a linda morgadinha, Que levam a enterrar... Morreu ontem, á noitinha, Ao despontar do luar...
Era a mais rica e mais bela, Mais enleváda de amor; E morrêu... Que sorte a déla! Não faz idéa, senhor...
De que valeu ser tão cheia De inteligencia e belêza?! Chora tudo lá na aldeia: Que tristêza! Que tristêza...
Cismava nos áureos planos Do seu proximo noivádo: E fêz só dezoito ânos Pelo setembro passado...
Mais infeliz nunca vi! Em vez de noivar, morreu... O bom Deus quí-la pra Si: Levou-a da terra ao Céu.
Ela era o anjo da graça, Sempre a sorrir e a cantar... Tudo passa! tudo passa... Morreu!--Deixái-nos chorar.
Em noites de escamisádas, Que se faziam pla aldeia, Soltava canções airádas, Ao clarão da lua cheia...
Tardes mornas de novênas, Quando íamos enflorádas, Como irisádas falênas, Como rôlas desvairádas...
Ela era a flôr da alegria, Bôca rubra, olhar de luz... Roubou-a a morte sombría! Roubou-a... Jesus! Jesus!
Chorái, ó brancas falênas; Chorái, brisas murmurosas; Chorái, ó rôlas serênas; Chorái, relvas; chorái rosas...
De que nos vale a belêza, Que a Morte pode roubar?! Ai!--que vida, que tristêza. É só penar, só penar!
_E eu, muito comovido, muito triste, disse ás virgens, com lágrimas na vóz:_
Tendes razão, raparigas... Que valem sonhos, encantos, Loucas ilusões antigas?...
Tudo se desfáz em prantos!
Aquela tenra floríta, Desfolhada pela morte... --Não lhe choreis a desdita. Não pranteêis sua sorte...
Pois, donzelas, quem nos diz A nós--corações airádos, Que ela não foi a feliz, E nós os desventurados?...
Pois, afinal, esta vida, Mesmo á luz ideal do amôr, Sempre incerta e combalída, --O que é ela, senão dôr?!
Uma tristêza mortal Repassa as nossas folganças... Ai! cachópas, ai! crianças, Nem é bom falar em tal...
Quando ides prás romarias, Entre murtas e alamêdas, Como doidas cotovías, Chilreando airádas, lêdas,
Não pensáis nesta agonía, Que nos punge o coração... --Levais a alma irradía, Céguínha pla ilusão...
Mas á noite, junto ao leito, Cismáis, á luz do luar, Em tanto sonho desfeito...
E desatáis a chorar!
A vida é uma dôr infinda! Por isso eu vos digo a vós Que essa defunta tão linda Foi mais feliz do que nós...
É déla a paz celestial. (Olhái que faces de arcanjo...) Morrêu santa, virginal, Santa e pura como um anjo
*
Ó tisicas lacrimosas, Que á tardinha, a passear, Sfalfadítas de chorar, Dizeis queixumes ás rosas...
Tendes saudades da vida? Para quê?--Não vale a pêna... Gozarêis a paz querida Da celeste luz serêna...
E o luar irá beijar As vossas campas musgosas. Que dôce amigo o luar, Ó tísicas lacrimosas...
*
E vós, cachópas, que assim Pranteáis a que morreu, Não solucêis, porque enfim Ela é um anjo no Céu...
E olhái:--se a desônra um dia Vos tem de vir, (Vossa mãe Morreria de agonia...) --Mais vale morrêrdes tambem
_E as virgens, acenando-me um adeus, sufocádas pelas lagrimas, lá foram seguindo o caixão, como anjos do desespêro, soluçando em côro:_
Chorái, ó rôlas serênas; Chorái, brisas murmurosas; Chorái, ó brancas falênas; Chorái, relvas; chorái, rosas...
Chorái, estrelas cadentes Como lágrimas de luz... Chorái, ó aguas correntes...
Ai! Jesus! Jesus! Jesus!
XIV
O DOIDO
Olhái ao longe os hervaçáis distantes, Vereis uma figura desvairáda, Esbracejando rábida na estrada Com maneiras sinistras, delirantes...
É um louco enrodilhádo em panos rôtos, Que anda por aí fugído aos manicómios: Tem fome; vái, por isso, aos gafanhôtos, E, se os encontra, apânha-os e cóme-os.
Irôso, magro, sujo, esguedelhádo, Passando a urrar por entre as oliveiras, É a relíquia talvêz dum revoltado, Que prégou sedições pelas ladeiras...
Vêde-o... De olhos bravios e sangrentos, De mão crispáda para os céus erguída, --É bem a sombra trágica da vida, Que vaga pelo mundo, a passos lentos...
Quando na râma ulúlam ventaneiras, E a chuva tamboríla nas vidráças, Passeia, em noite escura, plas ladeiras, Profetisando trágicas desgráças...
Vagueia pelo campo, a horas-mortas, E a adormece nas encruzilhádas, Quando os sapos, de negras pernas tortas, Rastêjam pelas rosas orvalhadas...
Convíve cos fantasmas vagabundos, Entre as sombras dos altos carvalháis... Por isso sabe os misterios profundos Dos sombríos destinos dos mortáis...
E ha quem o visse, em horas tormentosas, Ao lívido clarão das trovoádas, Sentado sobre as rochas alterosas, De longas cabeleiras desgrenhádas...
Vái passear de noite ao cemitério A trautear umas toadas lentas, Como se um velho vínculo funério O prendesse ás ossádas fedorentas...
Se acáso os sinos dobram a defuntos, O doido rompe em fundo soluçar, Resmungando nuns místicos assuntos, Que acabam num raivoso praguejar.
É amigo dos bichos e das rosas... De manhã vái colhê-las orvalhadas, E ajunta-as num monte, ás chapeládas, Como se fossem pedras preciosas...
Como vêdes, seu rosto é negro, horrífico! No verão, quando o sol arde nas ladeiras, Vai-se deitar nas cálidas torreiras, E adormece num sôno beatífico...
Para fugir aos negros manicómios, Esconde-se nos humidos esgôtos; Se tem fome, procura gafanhôtos, Apanha-os e cóme-os...
XV
OS FILÓSOFOS
É tempo de seguirmos para cima, Rapazes; vamos lá: Que o tempo é um tesôiro que se estima, Pois é pra isso que o bom Deus o dá.
De olhos profundos, a fitar o chão, E quêdos, quais bramânicos teósofos, Ha uns vultos alí, na solidão, Imersos em letál meditação... Olhai,--são os filosophos.
Os rostos sêcos, magros de cismar, Cobrem-nos sórdidas barbáças feias; Vê-se nos olhos fúlgidos brilhar O fogo das idéas...
Pla estrada da nevoenta antiguidade Vem já de muito longe essa legião, Escoadrinhando com sofreguidão O rastro da Verdade...
No céu da Grecia antiga,--azul, profundo, Cintíla com olímpico clarão A triade infindavel da Razão, Iluminando os ângulos do mundo:
--Aristóteles, Sócrates, Platão...
Esses genios enormes, admiraveis, Esses homens de fundos olhos virgens, Empregáram esforços formidáveis Por descobir os Fins mais as Origens...
E algo êles fizeram com efeito: --Legáram-nos a nós muitas verdades, Como grânulos de oiro imperfeito, Refulgindo na noite das Edades...
Nêsse tempo, porem, não viéra ainda Do misterioso Empireo esse clarão Pedido tantas vêzes por Platão: --A voz de Deus com a Verdade infinda Que rompesse as calígens da Razão...
........................................ Olháe-os hoje ainda...--Olhos erráticos, Fitos não sei em que visões distantes, Parecem velhos ermitães lunáticos, Leitôres de alfarrábios esquipáticos, Sepultos na poeira das estantes...
Surge agora a grandíssima questão, Que êles (coitados...) querem resolver Depressa, quanto antes,--bem ou mal... É a questão do nosso coração, Dêste vago e nostálgico sofrêr Que êles designam _Dôr Universal_...
Este mal,--esta dôr, este martirio, Pertence essencialmente ao coração Como pertence ás pétalas do lirio Aquela côr tão linda de paixão...
Porem não acreditam, e pretendem Que o homem, de nascença, é imaculádo Como as viçosas pétalas, que estendem As açucênas para o sol doirádo...
E assim andam tentando realisar Cá sobre a terra a plêna felicidade, Pondo o homem na peânha dum altar, Fazendo dêle uma _áuto-divindade_...
E o mundo, no mais vil materialismo, Desfaz-se numa infanda corrução, E, guiado pela rédea do Egoismo, Precipíta-se no fundo dum abismo Onde arde um cataclismo, Onde rouquêja a fulva sedição!
E passa á flor das coisas a gemer --Qual bocêjo de quem acórda tarde-- O tédio geniál de Schopenhauer, O imenso pessimismo de Leopárdi...
De olhos profundos, a fitar o chão, Esfíngicos como índicos teósofos, Olhái os cismadôres da soidão, Em filosófica meditação...
Coitados dos filósofos!
XVI
FIGURAS ANTIGAS
Mais dois passos acima, só dois passos, E atingirêmos a região querida Onde palpita já, sob os espaços, A luz da eterna vida...
Aplainam-se de rosas os caminhos Á luz dum sol mais vivo e triunfal; Como que ouvímos musicas de ninhos Nas franças do sarça!...
Ha uma paz bemdita, religiosa, Nesta zôna altaneira da colína... Que esplendida paisagem magestosa Coa vista se domina...
Passam ao longe as sombras vagarósas Dos domador's dos póvos e dos p'rigos, Erguendo-se das páginas nublósas Dos _chrónicons_ antigos...
Vêde-os... Guerreiros e legisladôres, Caudilhos triunfáis das velhas raças, Olhando para o mundo, ameaçadores, De níveas barbaças...
Moisés--esse gigante--ao longe, olhái, (Aspéto decidído, audáz, profundo...) Das cristas chamejantes do Sinái Falando para o mundo.
Em duas pedras ergue a Lei impréssa, Apregoando-a irádo, trovejante! Os relampagos nimbam-lhe a cabêça Num halo deslumbrante...
--Avante para a vida, para a gloria, De encontro aos Filistêus, aos Moabitas E acendem-se na esperança da vitória Os seus Israelítas...
E em marcha heróica, triunfal, radiosa, Pisando os areáis, eles lá vão Em demanda da terra pampanósa Da santa Promissão...
XVII
EVOCAÇÕES...
Eu vislumbro uns estrânhos personagens, Arrastando umas rusticas roupêtas Por sob os toldos verdes das folhagens.. Olhái... São os Profétas.
Morrêram já ha muito, escalavrados Pelas fomes e austeras penitencias Nos desértos, plos cardos dos valádos, Ao frio, á chuva e ás tórridas ardências.
Fitái-os--De cabêlos desgrenhádos E grandes barbas brancas, luzidías, Bracêjam pelos cêrros, inspirados Plo sôpro geniál das profecias...
É o velho Jeremias, lastimando, Nos pláinos verdoengos de Siquêm, O insondável abismo formidando Onde vê mergulhar Jerusalém!
Ai!--Na sua lamúria contristáda, Lamúria de tristêza, de desgosto, E bem toda uma Raça desgraçáda, Que chora o seu _sol-posto_...
*
Ó líricas aldeias da Judéa, Ó rusticos trigáis de Zabulom, Ó arvores floráis da Galiléa, Ó aguas murmurosas do Sarom...
--Ó aldeias humildes, aninhadas Nas encostas, por entre os palmeiráis, Que adormecêis em horas repousadas Sob o luar das noites orientáis...
--Ó trigáis lourejantes, ondulados Pelas tépidas brisas perfumosas, Que passam, beijocando nos valados As corólas balsâmicas das rosas...
Ó arvores escuras, sussurrantes... Ó airosas e múrmuras palmeiras, Que dáis sombra aos cansados viandantes Roidos das poeiras...
Ó aguas do Jordão, aguas sagradas, Que roláis sobre a areia, _léz-a-léz_, Suspirando umas místicas baládas Do tempo de Moisés...
--Ó coisas orientáis... Ó brancas pombas que arroláis tão bem, Ó hôrtos, ó jardins, ó oliváis, Ó lirios de Belem!
Eu quero ouvir as lástimas antigas Dos Juizes, dos Reis mais dos Profétas De longas barbas brancas como estrigas, De olhos pisados, roxos quáis violêtas...
Contái-me essas antigas penitencias, Essas heróicas orações estrânhas, Que murmuravam sobre as eminencias Das ásperas montânhas...
Cantái-me as melopeias contristádas Das cândidas mulheres bibliáis, Quando iam, ao clarão das alvorádas, Prá ceifa dos trigáis...
Falái-me dessa Virgem toda luz, Da mística alegria dessa Mãe, Quando em seus braços recebêu Jesus Na Lápa de Belém...
Falái-me dos grosseiros sacerdótes, Dos magros e barbudos Farisêus, E desse esgrouviádo Escariotes, Que ousôu traír um Deus!
Falái-me de Jesus e seus martírios, Do seu ultimo gesto de perdão, Ó aguas do Jordão, Ó urzes do Calvário, ó roxos lirios...
XVIII
AO PE DA LUZ
Subímos o montículo da Vida... Somos chegados. Parêmos. Descubrí-vos, rapazes, e ajoelhêmos Ante a Cruz alem erguida...
Envolta numa auréola luminosa, No tôpo da existencia, ergue-se a Cruz: --Tribúna inegualavel, magestosa, De onde nos fala Jesus...
Cercam-na as almas místicas dos crentes Num circulo de prantos e orações; Sobre as rosas astráis dos corações Vêm os anjos curvar-se reverentes...
Corações, que são rosas redolentes Abertas nos jardins das solidões, Sob o influxo das doces radiações Dos olhos de Jesus meigos e ardentes.
Ó santas almas bem-aventurádas, Aos pés chagosos de Jesus prostrádas, Dái-me um logar humilde ao vosso lado...
Ando a correr a via dolorosa Do mundo, deste mundo desgraçado, Que me tortura a alma suspirosa...
*
Rapazes! Que encontrastes vós no mundo, Senão desgostos, lagrimas, saudade?...
Ha um cancro antiquissimo e profundo. Que rói a Humanidade...
Esse cancro nojento, pustulôso, Esse herpe roedôr e mal curado, De onde escorre um pus negro, venenôso, --É o cancro do Pecádo!
Esse cancro maldito dá vertigens! Alastra pela praça, pelos lares; Corrói as carnes lácteas das virgens, E cria os lupanares!
Agácha-se nos leitos conjugáis; E açulando odientos vitupérios, Desváira, céga, os corações leáis E faz os adultérios!
Desenvolvendo instíntos de cobíça, Instintos indomáveis, máus, ferínos, Reprime e calca o Bem, céga a Justiça, E forma os assassinos!
Desváira as corrompídas gerações, E, derrancando odios pelas terras, Lança os povos nas bruscas sedições: Fomenta e acende as guerras!
Cancro que é o Mal, é o vicio, é o odio, é o fel, Fervendo sob o disco azul dos céus... É o filho prediléto de Lusbél, De garras encrispádas contra Deus!
Dêle nasce este pélago de dôres, Este indeciso mal-estar geral, Que os mil e um profanos pensadôres Hão designado--_Dôr Universal!_...
Ninguem acha o remedio, ó Deus, ninguem!
....................................... Ó meus amigos, ajoelhái e ouvi: Remedio deste mal só Deus o tem... Olhái a Cruz, olhái...--Reside alí.
Alí, naquêle Cristo ensanguentado, De chagas rubras como rosas vivas, Erguendo ao alto o rosto escalavrado, Lançando aos homens vistas compassivas...
Alí, naquêle Cristo moribundo, Pregado nos braçáis daquela Cruz, Abrindo o coração sangrento ao mundo, Em labarédas místicas de luz...
Alí, naquêle Cristo de olhos virgens Fitos nos longes vêrdes da devêza Mergulhada nas hórridas calígens Da formidavel dôr da Naturêza...
*
Ó pombas de Belêm, voái em bando... Espedaçái os corações de dôr Á vista do misterio formidando Da morte do Senhor! Ó pombas de Belém, voái em bando...
Chorái, ó violêtas de Jessé; Chorái, ó madresilvas, ó martírios; Chorái, ó roseiráis de Nazaré; Chorái, ó palmeiráis; chorái, ó lirios! Chorái, ó violêtas de Jessé...
Chorái, ó almas bíblicas, antigas... Ó sombras dos Juizes, dos Profétas; Ó noivas a cismar entre as espigas, Pisando as relvas vêrdes e as violêtas! Chorái, ó almas bíblicas, antigas...
*
Eu queria soluçar em verso brando O martirio sem nome, formidândo, Do bom Jesus,--do Deus e Senhor nosso... Para chorar suplicio tão feríno Eu queria ter um estro ideal, divino... Queria... Mas não posso!
XIX
ORAÇÃO
Já que atingímos a mansão da Luz, Prostrêmo-nos a orar ante Jesus...
*
Ó Criadôr das estrêlas, Que fulgem plo céu alem! Fizeste coisas tão bélas, --Faze-nos santos tambem...
Indescritíveis torturas Lancínam os corações! Pois estes são sepulturas De mil mortas ilusões...
Tuas bênçãos perfumadas São para os nossos martirios Qual rócio das alvorádas Prás urnas rôxas dos lirios...
Minha pobre alma de poeta A Ti se acólhe, Jesus... Como airáda borbolêta, Fujo das Trevas prá Luz...
Das tuas chagas, meu Bem, Pende a minha imensa esp'rança, Como de uns beijos de mãe Pende a vida da criança...
Ha uma dôr infinita Na alma da Humanidade: Pois o mundo hoje gravíta Entre a dôr e a impiedade!...
Quem podéra, oh!--quem podéra, Sob o céu azul, profundo, Vêr florir a primavéra Da crença geral no mundo...
Faze Tu, ó Deus clemente, (Basta só um teu olhar...) De cada homem um crente, De cada peito um altar...
Pois não fizeste as estrélas, Que palpítam, ceu além?... Se fazes coisas tão bélas, Faze-nos santos tambem...
XX
EM PAZ...
E tu, ó meu bom amigo Das agras lides do estudo, Foste em busca de outro abrigo --Para ti findou-se tudo!
Finda-se tudo no mundo Prás almas santas, louçãs, Que ao Misterio azul, profundo, Vão pedir outras manhãs...
Fugiste da noite escura Prá célica luz viváz! Descança na sepultura, Amigo, descança em paz.
Olha as folhas a caír Dos carvalhos desoládos: Vái a Natúra dormir Sob os gêlos branqueados...
Pelas noites de inverneira Has-de ouvir, na terra fria, Os mugidos de agonía, Que soluça a ventanêira...
E em noites de serenáda. As humânas ilusões Hão-de cantar á toada Dos bandolins e violões...
Como leite a flutuar No sôno doce das coisas, Cairá brando o luar Sobre a tristêza das loisas...
Ouvirás ao longe o brado Das serranílhas cantadas No luar de algum eirádo, Ao chorar das guitarrádas...
É o sônho da vida airáda, O brando sônho fugaz... Mas tu, ó meu camaráda, Deixa-os lá...--Descança em paz!
FIM
ÍNDICE
Meu Pae, Minha Mãe Carta aos meus condiscípulos Faustino (Dedicatoria) Tardes Aos anjos da poesia Jornada Trágica Os miseraveis Os rebeládos Cavadôres Os mendígos Os poetas O tuberculoso Orfãosinhos Noivos O boémio Noiva morta O doido Os filósofos Figuras antigas Evocações Ao pé da Luz Oração Em paz