Dôr e Luz (Versos de um seminarista)

Chapter 1

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ACURCIO CORREIA DA SILVA

Dôr e Luz

(Versos d'um seminarista)

Typ. França Amado

Coimbra.

DÔR E LUZ

Acurcio Correia Da Silva

DÔR E LUZ

(VERSOS DUM SEMINARISTA)

Escritos na primeira quinzêna de novembro de 1911

COIMBRA

TYPOGRAPHIA FRANÇA AMADO

1912

MEU PÁI, MINHA MÃE...

Pedindo-vos a benção, comovidamente, com lagrimas nos olhos, ofereço-vos este livrinho--o meu primeiro livro...

Acurcio.

CARTA AOS MEUS CONDISCIPULOS

Maio de 1912.

Rapazes.

Estes versos, que agora vos oferêço, repoisam ha cinco mêses, no fundo da minha gavêta, misturados com muitos outros, que eu de ha muito para lá venho lançando, como farrapos do meu coração ardente, como pétalas caídas da minha alma de rapaz.

Não contava publica-los, como não conto publicar uma grandissima parte desta versalháda desconéxa, que aqui se me amontôa pelas gavêtas da minha mesinha de estudante, e na qual repousam, adormecidas ou mortas, tantas aspirações ingénuas, tantas ilusões airádas, tantas tristêsas ignoradas, intimas...

Mas nós vamos distanciar-nos, ó rapazes! Vamos para muito longe uns dos outros, e--sei lá!--talvês para sempre. É a obra bemdita da evangelisação social que nos solicita, nos chama.

E já que assim tem de ser, eu queria deixar-vos, antes do apartamento, alguma coisa,--uma recordação--por que mais tarde vos lembrasseis, lá muito ao longe, dêste rapaz trigueiro, desgrenhádo, de faces escavacádas e fundos olhos erradios, que comvosco viveu por aqui a mesma vida, a mesma juventude, as mesmas aspirações de evangelisação e amôr.

Eu queria deixar-vos alguma coisa, ó companheiros, e escolhi para isso estes versos, que, ha mêses, no esmorecer doentío e suave do ultimo outôno, dediquei á chorada memoria dum nosso camarada, dum nosso amigo, dum nosso condiscipulo morto...

Foram escritos de um jacto, em momentos de febre dolorosa, em quinze dias de vigilia doente, pelas horas tenebrosas em que vós dormíeis, rapazes.

Ai!--quantas vezes, emquanto a pena me escorregava vertiginosa pelo papel, chegavam até mim, soluçantes, fugidías, as plangencias brandas das serenátas doridas, que cantavam lá embaixo, ao pé do Mondego, Estrada-da-Beira alem, o grande, o doloroso funeral das ilusões!

E a pena corria, corria sempre, numa vertigem febril...

Hoje, lendo os meus versos de então, sinto que vibram nêles dois gritos enfeixados, unidos:--um grito de angustia amarga e um grito ardente de esperança.

Eu não sou um pessimista, amigos, porque sou um crente. O pessimismo frio e scético não deve ter cabída nos nossos peitos de Seminaristas. Por isso, nos meus pobres versos não rugem trênos desesperados,--suspiram antifonas de esperança...--Esperança na Luz Divina, na Misericordia Suprêma.

Porque o mundo confrange-se na Dôr e quase não tem coragem para fitar os Céus, a vêr se lhe sorri a esperança nos olhos tristes de Cristo. Ai!--os mais atormentados são os descridos de Jesus!

Eles, que espedaçaram a Cruz e cuspiram ás faces pálidas do Martir do Calvario o escarro de mil insultos,--cantaram ditirâmbos á Sciencia e beijaram á Razão as pernas fuliginosas das barricadas rebéis. E são êles que proclâmam hoje a realidade da Dôr,--da Dôr condição da vida, sem uma estrêla a fulgir na noite do nosso destino...

«Para qualquer lado que o nosso olhar se dirija,--escreve _um revoltado, o radical Sebastião Faure_,--não se encontra senão dôr... O sofrimento está em toda a parte, visita o castélo assim como a cabâna, mas apresenta-se sob aspectos que se transformam constantemente, e, atravéz de incessantes migrações, metamorfosêa-se até ao infinito. A vida não passa de um longo martirio, desde o primeiro vagído da criança até ao ultimo suspiro do moribundo. O tormento prende o berço ao tumulo. A alegria de viver não é mais do que uma frase... Um aborrecimento enorme se apossou da humanidade. O furioso aquilão curva todas as arvores da floresta, desde o carvalho ao canaviál. Da mesma sorte sopra sobre a terra desolada um misto de miseria material, intelectual e moral, que faz inclinar todas as cabêças,--a dos grandes como a dos pequênos, a dos poderosos como a dos fracos, as frontes altivas como as humildes. O martelo do sofrimento, sem nunca parar, esmaga gerações; o cancro da Dôr alastra sobre a Humanidade as suas chagas horriveis.» (Sebastião Faure--_A Dôr Universal_).

Estas palavras, rapazes, são dum atêu, dum revoltado. Exprimem perfeitamente, numa cruel amargura, o desalento completo da orgulhosa Razão em face dos sofrimentos da mísera Humanidade. São os homens da Desordem vencidos perante a Dôr.

Pois bem, Seminaristas! Nós,--os filhos da Ordem, os homens brandos da Paz,--somos chamados a derramar nesse cancro universal a luz divina da esperança.

Sabemos de ha muito tempo, antes que os negativistas o proclamassem desesperadamente, angustiosamente, sabemos de ha muito tempo,--porque o Evangelho o diz,--que «a felicidade não é dêste mundo.» Mas sabemos tambem que na alma da Humanidade soará perenemente a musica celeste daquela amoravel promessa de Jesus:--«Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.»

Na verdade, a Humanidade atravessa um estadio doloroso, trágico. Nuvens densas escurecem o céu, e as almas confrangem-se numa penumbra abafadiça, soturna. Esta penumbra é rasgada, a espaços, por clarões lívidos, deslumbrantes, que estonteiam e cegam. Estes lívidos clarões são as cintílas da Sciencia.

Mas estes clarões não bastam. Precisâmos de mais luz,--de luz serêna, benéfica,--para as almas amarguradas.

Acima destas nuvens cortadas dos relampagos das idéas, sacudidas pelo trovão das revoltas,--ha um espaço mais serêno, com horisontes mais largos, com claridades mais vivas, mais serenas, mais tranquilas. Nós querêmos esse espaço, buscâmos esse horisonte, desejâmos essa luz...

* * * * *

«Amai-vos uns aos outros como irmãos...»--Foi este o preceito novo, que Jesus impôz aos seus discipulos.

Já que vamos para o mundo, hastêie-se em nossas mãos o lábaro da Paz.

Que os maus praguejem, blasfêmem: que os maus nos amaldiçôem. Que venham sobre nós os insultos e os escarros, as ameaças e a morte! Ergamos nós para o Alto os nossos olhos tranquilos, e sejam as nossas palavras como um orvalho do Céu a refrigerar este vulcão onde as flores da purêza se fânam amarguradamente, desconsoladamente...

Vái florindo a primavera.

Na folhagem enfloráda dos castanheiros do _Recreio_, as rôlas cantam suspirosamente a celebração festiva dos misteriosos noivados...

Por esses campos fóra, olhái que festas agrestes, olhái que esteira de flôres...

E é á vista dêste deslumbramento que o mundo se desespéra impiamente, alucinadamente, nos torvelinhos da Dôr...

É que o vicio alastra, e odios rugem surdamente, e o desespêro aumenta!

* * * * *

Ó Seminaristas,--ó Seminaristas de Portugal!

Operarios de Jesus, nós devemos ir, mundo alem, a semear nas almas a Paz, a Fé nas inteligencias, o Amor nos corações.

Não odiêmos ninguem. Ninguem!--Porque os que parecem maus não passam, as mais das vêzes, de uns nescios, inconscientes, irresponsáveis.

--Olhái aquêle que passa... Nervôso, cartôlo têzo a escorregar prás sobrancêlhas, bigodeiras repontônas, revirando uns olhitos pardos, de travéz, em ares de superioridade ratôna, para os que o saudam...

É um anti-clerical confésso e profésso. Amaldiçôa a _padralháda_ com bérros de capádo. Ri de Cristo e arrota _libardade_. Come bem. Digére bem. Um felizardo, no entanto. Mas ide falhar-lhe em padres... Cái Troia. Contorce-se, blasfêma, barafusta com acionados de possesso.

Rabisca tropos pelas gazêtas e escrevinha, nas horas vagas, brochuras contra os _jesuitas_...--Quer _esmagar a infame_ com Voltaire; com Diderot desejaria _enforcar o ultimo rei nas tripas do ultimo padre_, e com Falstaff beberricar bôas pingas e ingerir presuntos. Que êle não conhecerá Voltaire, nem Diderot, nem Falstaff...--Arremeda-os mal.

E afinal, coitado, é um pobre diabo... Um bom rapaz. Adora a mulher e os filhos. Tem coração. Será um imbecil... Será. Mas que temos nós com isso? O mal é dêle. E o ridículo, o peór mal...

_Perdoái-lhes, Senhor, que não sabem o que fazem..._--Ali vái outro,--um torturado de alma. Vive na revolta e para a revolta. Cogita em sedições e sonha com barricádas.

E afinal é um ótimo rapaz, uma bela alma. Mal empregado coração em não se enlevar num ideal de amor! E quantos pelo mundo assim, coitados, quantos...

--Outro que passa... Um operario. Vái negro das forjas, mãos nervúdas em sacudidélas bruscas, a ameaçar. É filho dessa raça obscura, que dá vida, que dá seiva ao mundo em troca de migalhas, em troca da miseria.

Nos seus olhos sangrentos, erradíos, fosforêja o clarão trágico das revoltas vingadôras...

Vamos até êle, ó rapazes. Aos operarios, ó Seminaristas! Dêmos-lhe o ósculo da Paz, num grande abraço de fraternidade, da fraternidade cristã.

Que êles se ajoelhem aos pés da Cruz, do Operario-Deus, do Carpinteiro-Divino. Lancêmos uma gôta de orvalho áquêle desespêro ardente...

E êles terão a esperança.

--Outro ainda. Um nulo. Olhai que olhar aquêle... Olhar mortiço, sem expressão, sem vida. É um martir...--martir dos proprios vicios. Assa-lhe as carnes, requeima-lhe o aguádo sangue a febre das luxurias desvairadas, das execraveis torpêzas, das verde-negras abominações.

Não tem um ideal, uma esperança, um norte.

É um morto, coitado...

--E aquelas? Quem são elas que passam saracoteando-se, e olhando para nós com uns tregeitos equívocos de deslavada gaiatice?--São as loureiras. Pobres raparigas, pobres escravas!

Porque elas são escravas. Da _escravatura branca_, que Victor Hugo chora e amaldiçôa.

E lá vão elas, tresloucadas, delambidas, de arcaboiços podres desengonçando-se entre chitas baratas, a vender sorrisos, a dizer torpêzas.

Que se lhes ha-de fazer? Enxovalha-las mais? que façam isso os máus. Nós somos discipulos de Jesus.

Jesus, que lia nos corações, porque era Deus, sabia fazer dessa lâma pedras preciosas, dessas larvas dos bordéis fazia Ele anjos castos. Fitando-as com os seus olhos muito tristes, muito tristes e compadecidos, transformava as Madalênas em anjos místicos, purissimos, e as pobres Samaritânas em missionarias do Ceu...

Mas é que Ele era Deus, e lia no fundo das almas, e nascêra de uma Virgem por causa dos pecadôres.

Desgraçada a sociedade em que a mulher se corrompe. É o Amor que desce do seu trôno azul e santo onde Deus o colocára, é o sentimento que se embota e morre, é a alma que rastêja e já não pode alevantar-se ao alto...

E a prostituição corróe tudo!

As virgens da Lusitânia, os anjos de Portugal, as filhas da nossa Raça, já não esperam nem creem no embotádo coração dos homens. E vão sentar-se, coitaditas, a chorar, esmorecidas, nas solidões lutuósas, quando se não entregam--ai! quantas vezes...--desvairádamente, ao turbilhonar do vicio, prostituindo-se, perdendo-se!

E o mundo ri, ri de tudo. Da dôr resignada que santifica, do amor santo que perfuma, da crença que anima e salva.

E os vates cantam o vicio, paixões desvairadas, egoismos truculentos, abominaveis luxurias...

E a miseria desalenta os operarios rudes, que passam esfrangalhados, enfarruscados de carvão, descridos, desesperados, erguendo para os céus os braços cabeludos, em crispações de ameaças.

É a fome, é a peste, é a guerra,--a trindade trágica devastando as almas!

Ó Seminaristas do meu Paíz, ó meus camaradas, meus amigos!--Abrâmos resteas de esperança nesta caligem da Dôr! Vamos por aí fóra,--corações abertos, almas compadecidas,--a fazer nos desesperados a sementeira do Amor...

Ai quem déra nesta sociedade um bânho espiritual da caridade do doce anjo de Assis, daquêle seráfico espêlho do enternecido Jesus...

Ergâmos a Cruz bem alto! Que os homens vejam o Cristo, o Divino Martir, o Deus sofredôr das inenarraveis dôres. E vereis que das suas chagas vermelhas radiarão prás dores sociáis resteas bemditas de esperança, santos perfumes de amor...

_Seminario de Coimbra._

Vosso do coração

Acurcio Correia da Silva.

Á CHORADA MEMORIA DO MEU BONDOSO AMIGO E CONDISCIPULO

JOAQUIM FERREIRA FAUSTINO

ESTES MEUS VERSOS, COM AS MINHAS LAGRIMAS E PERPETUA SAUDADE...

Faustino.

Novembro de 1911.

Nesta quadra tão triste, de uma tristêza tão linda, veio a Morte roubar-te ao nosso convivio, ó amigo, ao nosso curso, ó condiscipulo!

É romantica, de um lirismo infinito e dôce, uma morte assim, sob os raios agonisantes dêste sol outoniço...

Á noite, sentado á minha mesinha de estudante, depois de estudar as minhas lições (--noites beatificas; luar e estrelas; paz infinita nos céus e paz nas coisas dormentes...)--pensei em ti. Muita vêz, meu desditoso amigo. E orei pela tua alma...

Depois, a horas mortas, surgiram-me no cérebro escandecido mil impressões dolorosas--como litânias esfarrapadas do folhido agonizante...

O anjo da poesia abriu a áza branca, e deu-me um beijo de febre. E eu cantei...

Os meus versos?--Aqui os tens. São a expressão da vida. Tristes, amargos e tristes, como as antífonas roucas dos mendigos aos portais dos milionários...

Bem sei que tu não os lês. Ninguem os lerá talvez...

Ou antes, ninguem os lerá senão tu... Que importa?--Hei-de lê-los eu, mais tarde, sosinho, quando já fôr velho (Ai!--se lá chegar...)

Este ramilhetinho de floritas bravías ha-de ter um perfume sempre novo para a minha alma alanceada... E talvez então eu chore, com estes meus olhos míopes, hoje tão sêcos de febre!

Já não ha luar. Nuvens e chuva... O vento geme lá fóra, ali nos castanheiros (nos nossos castanheiros, ó Faustino!) o _Dies irae_ das tempestades eternas...

Ai! o vento...--É bem a expressão formidavel do desespêro do mundo.

Ao menos eu tenho a paz, a paz bemdita, nesta minha alma ardente, sonhadôra. Bemdito sejas, meu Deus.

É meia noite... Vou rezar por ti.

Acurcio.

I

TARDES

Olhai que tardes estas! Tardes de outôno, tardes de agonía... Começa o novo sôno das florestas... Deixái dormir os robles e as giestas, Que acordarão um dia.

Lá deslísa o Mondego a murmurar As doces melopeias do passado, (Que hoje só êle as pode relembrar...) --Lendas de antigas moiras a cantar Idílios de outras eras, ao luar Ou á radiosa luz do sol doirado... Lá deslísa o Mondego a murmurar... Só podem perceber-lhe as melopeias As hervinhas rasteiras e as areias...

Olhái os desgrenhados salgueiráis, Curvados a cismar por sobre as aguas... Parecem trovadôres medieváis, Chorando em velhas rimas novas maguas...

Nas cordilheiras pardas e distantes Adensam-se uns vapôres transparentes, Doirádos, luminosos, flutuantes, Sobre as carquêjas ásperas, dormentes...

Na poeira luminosa do sol-pôr Agacham-se quietinhas, silenciosas, Dormindo num beatífico torpôr, A casaría, as arvores, as rosas...

Ha uma indescritivel atonía Nas vagas tintas que o sol-pôr produz, --Como um grande soluço de agonía, Que lentamente se tornasse em luz...

Andam no ar acentos vagabundos De fados lacrimosos, Como endeixas de poetas moribundos, Ao luar, pelos êrmos lutuosos...

Olhai que tardes estas... Tardes de outôno, tardes de agonía... Vái dormir o carvalho das florestas Para acordar um dia...

II

AOS ANJOS DA POESIA!..

Ó anjos da poesia, ó candidas beldades, Irmãs dos querubins,--ó núncias do Céu, Que me acenáis ao longe, ao fundo das edades, Cantando heroicamente as velhas potestades Nas cordas triunfáis da lira de Tirtêu, E soluçando doces, místicas saudades Nas cordas pastorís da citara de Orfêu...

Que outróra, celebrando os feitos dos guerreiros Em versos festiváis, homéricos, divinos, Andastes a cantar plos flóridos outeiros Da Grecia sonhadôra, e á sombra dos loureiros, Sentadas nos ilhêus dos golfos azulínos; E andastes a gravar na casca dos olmeiros Uns versos amorosos, brandos, pequeninos...

Que voastes para a Italia, e andastes com Virgilio Por sobre o Mar-Egêu, á flôr das ondas lisas; E chorastes com êle as lagrimas do exílio; E lhe fechastes, morto, o veludíneo cilio Daquele olhar, que viu tão largo sem balisas... E assististes talvêz ao magico concilio Das líricas vestáis, das virgens Pitonísas

Vós que inspirastes Tasso e o formidavel Dante, Sentado a meditar ao pé das catedráis, Levando-o pela mão a vêr a casta amante, A cândida Beatriz, que deslisava hiante Na trágica mudêz dos giros infernáis... Falastes com Petrarca á réstea flutuante Das noites de luar, das noites medieváis...

Que destes alma e vida aos versos de Camões, O indómito guerreiro, o excélso trovadôr; Que lhe inspirastes doces, trémulas canções, Nas grutas orientais, nos êrmos, nas soidões, --Canções cheias de fogo e trágicas de dôr; Vós que haveis insuflado aos grandes corações Os carmes da tragédia e os cânticos do amor...

Ó anjos da poesia, ó candidas beldades, De tranças luminosas, loiras como o trigo, Que me acenáis ao longe, ao fundo das edades, Cantando heroicamente as velhas potestades Na cítara de Homéro--o olímpico mendigo...

Eu canto o sofrimento, e as crenças, e as saudades, Ó líricas beldades ideáis, sêde comígo...

III

JORNADA TRÁGICA

A vida é uma colina Cheia de escuras e fragosas sendas, E emergindo da tépida neblina Das ilusões, dos sonhos e das lendas...

Vinde comigo, ó férvidos amantes Da Verdade, da Paz, do Bem, da Gloria... Vamos subi-la,--heroicos viandantes, De olhos fitos nas páginas da Historia...

Ó pálidos poetas desgrenhados, Que andáis, á luz do luar, A percorrer atalhos ignorados, Esfarrapando sônhos, a cantar...

Eu quero vos mostrar serenamente, Como um ascéta antigo, solitario, A perspetíva ingente Da vida--este Calvario...

IV

OS MISERAVEIS

Tendes olhos de vêr. Olhai...--Ao fundo, Nas bôcas tenebrosas das cavernas, Não vislumbráis um turbilhão imundo De larvas, num grasnído gemebundo Feito de raiva e maldições eternas?

--São os ladrões, ferozes valdevinos, Cujo instinto são odios e sangueiras! Alta noite, os seus olhos de assassinos Fosforêjam bravíos, réptilínos, Entre as sarças das velhas carvalheiras...

Pelas trevas, ao som dos temporáis, Quando os ventos ululam nas florestas, Vão agrupar-se ás portas dos casáis, Afiando os mortíferos punháis, Coçando-os pelas mãos nervosas, lestas...

--São tambem vagabundos,--os cigânos, De barbaças intonsas e nojentas, Esguedelhados, rôtos e marrânos, De testa cancerosa envolta em pânos, Escorrendo materias fedorentas...

Coitados! Em magótes pelas praças, Para colher esmolas miseráveis, Esbracêjam ridículas negaças E rouquêjam exóticas chalaças, Retorcendo as bocárras execráveis...

Pobres cigânos! De olhos estoirados, Pernas pôdres e faces caboucádas, Lá vão a correr mundo, atormentados, De estômago vasío e pés pisados Dos duros pedregulhos das estradas...

São inda as torturadas das rameiras, As pobres raparigas sem pudôr, Que se espojam nas frígidas lameiras, Ao sol, á chuva, ás rijas ventaneiras, Sem alma, sem destino, sem amor!

São míseros farrapos encharcados No lôdo da torpêza vermináda! Ah! homens, egoistas derrancados! E ainda vos julgáis civilisados, Ó luxuriosa, estupida manáda!

Não lastimáis as pobres meretrizes, Que andam na lâma, a chafurdar de rôjo? Chamái á dignidade as infelizes!

--Ó rapazes, tapêmos os narizes; Sigâmos para cima. Isto faz nôjo!

V

OS REBELÁDOS

Quedái-vos. Escutái... Eu oiço (ao certo!) Rugídos formidaveis, Quáis se o Inferno se abrisse aqui perto E vomitasse do bocal aberto O brádo dos tormentos infindáveis...

Já sei, já sei...--É a estrânha turba-multa Dos homens revoltados, Que salta, brâme, despedaça, insulta, Como uma formidavel catapulta Feita de homens bravios, desvairados...

São revolucionarios contorcidos Em grossos turbilhões, De olhos raivósos, trágicos, ardidos, Agitando no ar balsões erguidos Ao sol sangrento das rebeliões.

Filhos do odio, filhos da desgraça, Não têm amor nem esperança! Esguedelhados, negros, pela praça, Rangendo os dentes, gritam a quem passa: --Vingança, só vingança, só vingança!

Deixa-los trovejar pelos outeiros... Oh! Deus lhes mande a paz!

Subamos mais acima, ó companheiros... (Outôno...--Olhái que lindo tempo faz...)

VI

CAVADORES

Ao longe--vêdes?--os cavadôres, Filhos do campo, filhos da leiva, De olhos escuros e cismadores, Olhos ingénuos de trovadôres... --Cantam os campos, cantam as flores, Cantam a seiva...

Por horas mortas (céu estrelado...) Eles lá vão Lavrar a terra, guiar o arado, De olhar bondoso e resignado Posto nos olhos do manso gado, Posto no chão...

Vem as chuvádas, as inverneiras; Rugem os rios, incham ribeiras; Alagam campos, alagam leiras... Vêde a desgraça! Que ha-de êle fazer?--De olhar dorído, Mal almoçádo, peor vestido, Senta-se á porta, esmorecído, A vêr quem passa...

Vem o calôr do sol doirado Queimar-lhe o pão! Que ha-de êle fazer, o desgraçado Do lavradôr?--Vai pró eirado, De aspéto triste, de olhar pasmado, Cismar na vida, descorçoado, Queixo na mão...

Estála a guerra; levam-lhe o filho. Crescem os ratos, trincam-lhe o milho... --Oh! forte praga de ratazânas!-- Branquêja a neve, ruge a nortada... Lá vái a telha desmantelada Das alpendrádas mais das choupânas!

Ouvide ainda maior desgraça... Tinha uma filha,--que doce graça De rapariga... Nas largas noites, junto á fogueira, Lume bemdito sobre a lareira, Ela fiava (gentil fiandeira...) O linho branco da sua estriga...

Até ao tardo cantar do galo --Não imaginam,--era um regálo O pái velhinho vê-la fiar... Rufam chuveiros fortes lá fóra... (Ai! Anjo Bento, Nossa Senhora Seja c'os que andam a esta hora Sobl'as aguas turbas do mar!)

Ela era a vida da sua vida; Ela era o lume do seu olhar, --Lume bemdito que n'alma brilha. Como êle lhe queria--rôla querida Nem temos nada que admirar, Porque era filha...

Mas sucedêu que em certo dia (Dia aziágo... Ele nem podia Pensar em tal de olhos enxutos!) Passou por lá um rapazão... (Grande patife! Grande ladrão!) Leva-lhe a sua consolação: Rouba-lhe a filha, e em troca então Deixou-lhe a dôr,--só dôr e lutos!

Malditos sejam os valdevinos Que andam as jovens a desonrar! Santos velhinhos, boas familias, Guardái dos lobos as vossas filhas Dentro do lar...

Vêde a desgraça enorme e crua Do paciente do lavrador! --Triste batalha!-- Que ha-de êle fazer? Que vida a sua! Que ha-de êle fazer na sua dôr?! O Pái-do-Céu o ajude e valha...

*

Bons lavradôres! Chorando ou rindo, Dizem que vida assim não ha...

Vamos, rapazes, vamos subindo; Deixái-os lá...

VII

OS MENDÍGOS

Sentados pelas orlas dos caminhos, Olhái os lacrimosos pobresinhos... Doentes, velhos, rôtos, corcovados, Alforges para os hombros, resignados, Pernas sêcas, cambáias, retorcídas, Contando-se uns aos outros suas vidas, --Olhái que inegualaveis odissêas...

Aquelas engelhadas caras feias, Escaveirádas, sujas, com barbáça, Contráem-se num _rictus_ de desgraça Riscado pelo dêdo da miseria... Sob a abóbada azul, celeste, etéria, Sem palacios, sem camas, sem pousadas, Desde o sol-posto á luz das alvorádas, Percorrem varias terras a pedir Côdeas de pão... Á noite vão dormir Sobre a palha dos velhos alpendráis, Juntamente cos ratos e os pardáis, E cos escrofulosos canzarrões (Expulsos da cosinha plos patrões) Repartindo com êles das esmolas, Que tiram lentamente das sacolas... E comem de uma vêz jantar e ceia...

Ainda assim vós não fazeis idéa Como êles são felizes, os mendigos...

No estio vão deitar-se pelos trigos, De bandulhos pró ar, a meditar Nas velhas aventuras, ao luar, Dos tempos da bizárra mocidade, De que inda têm uns restos de saudade... Rastêjam pela terra as salamandras; Chilreiam delambidas as calhandras, Picando por alí o loiro grão... Que pacífica, ideal consolação A existencia dêles descuidada: --Pedir, rezar, comer, dormir... Mais nada. Tardes mornas... As nuvens, pelo azul, São flotilhas, que vogam para o sul, Em demanda das Indias encantadas Onde vivem serêias, silfos, fadas...