Dom Casmurro

Part 7

Chapter 74,024 wordsPublic domain

Era uma concessão do padre. Dava a minha mãe um perdão antecipado, fazendo vir do credor a relevação da divida. Os olhos della brilharam, mas a bocca disse que não. José Dias, não tendo alcançado ir commigo para a Europa, agarrou-se ao mais proximo, e apoiou o «alvitre do Sr. protonotario»; só lhe parecia que um anno era bastante.

--Estou certo, disse elle, piscando-me o olho, que dentro de um anno a vocação ecclesiastica do nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva. Ha de dar um padre de mão cheia. Tambem se não vier em um anno...

E a mim, mais tarde, em particular:

--Vá por um anno; um anno passa depressa. Se não sentir gosto nenhum, é que Deus não quer, como diz o padre, e nesse caso, meu amiguinho, o melhor remedio é a Europa.

Capitú deu-me egual conselho, quando minha mãe lhe annunciou a minha ida definitiva para o seminario:

--Minha filha, você vae perder o seu companheiro de creança...

Fez-lhe tão bem este tratamento de _filha_ (era a primeira vez que minha mãe lh'o dava), que nem teve tempo de ficar triste; beijou-lhe a mão, e disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo. Em particular animou-me a supportar tudo com paciencia; no fim de um anno as cousas estariam mudadas, e um anno andava depressa. Não foi ainda a nossa despedida; esta fez-se na vespera, por um modo que pede capitulo especial. O que unicamente digo aqui é que, ao passo que nos prendiamos um ao outro, ella ia prendendo minha mãe, fez-se mais assidua e terna, vivia ao pé della, com os olhos nella. Minha mãe era de natural sympathico, e egualmente sensivel; tanto se doía como se aprazia de qualquer cousa. Entrou a achar em Capitú uma porção de graças novas, de dotes finos e raros; deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias. Não consentiu em photographar-se, como a pequena lhe pedia, para lhe dar um retrato; mas tinha uma miniatura, feita aos vinte e cinco annos, e, depois de algumas hesitações, resolveu dar-lh'a. Os olhos de Capitú, quando recebeu o mimo, não se descrevem; não eram obliquos, nem de ressaca, eram direitos, claros, lucidos. Beijou o retrato com paixão, minha mãe fez-lhe a mesma cousa a ella. Tudo isto me lembra a nossa despedida.

LI

Entre luz e fusco.

Entre luz e fusco, tudo ha de ser breve como esse instante. Nem durou muito a nossa despedida, foi o mais que pôde, em casa della, na sala de visitas, antes do accender das velas; ahi é que nos despedimos de uma vez. Jurámos novamente que haviamos de casar um com outro, e não foi só o aperto de mão que sellou o contracto, como no quintal, foi a conjuncção das nossas boccas amorosas... Talvez risque isto na impressão, se até lá não pensar de outra maneira; se pensar, fica. E desde já fica, porque, em verdade, é a nossa defesa. O que o mandamento divino quer é que não juremos _em vão_ pelo santo nome de Deus. Eu não ia mentir ao seminario, uma vez que levava um contracto feito no proprio cartorio do ceu. Quanto ao sello, Deus, como fez os mãos limpas, assim fez os labios limpos, e a malicia está antes na tua cabeça perversa que na daquelle casal de adolescentes... Oh! minha doce companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei na aula de S. José, a buscar de apparencia a investidura sacerdotal, e antes della a vocação. Mas a vocação eras tu, a investidura eras tu.

LII

O velho Padua.

Ja agora conto tambem os adeuses do velho Padua. Logo cedo veiu á nossa casa. Minha mãe disse-lhe que fosse falar-me ao quarto.

--Dá licença? perguntou mettendo a cabeça pela porta.

Fui apertar-lhe a mão; elle abraçou-me com ternura.

--Seja feliz! disse-me. A mim e a toda a minha gente creia que ficam muitas saudades. Todos nós estimamos muito o senhor, como merece. Se lhe disserem outra cousa, não acredite. São intrigas. Tambem eu, quando me casei, fui victima de intrigas; desfizeram-se. Deus é grande e descobre a verdade. Se algum dia perder sua mãe e seu tio,--cousa que eu, por esta luz que me allumia, não desejo, porque são boas pessoas, excedentes pessoas, e eu sou grato ás finezas recebidas... Não, eu não sou como outros, certos parasitas, vindos de fóra para desunião das familias, aduladores baixos, não; eu sou de outra especie; não vivo papando os jantares nem morando em casa alheia... Emfim, são os mais felizes!

--Porque falará assim? pensei. Naturalmente sabe que José Dias diz mal delle.

--Mas, como ia dizendo, se algum dia perder os seus parentes, póde contar com a nossa companhia. Não é sufficiente em importancia, mas a affeição é immensa, creia. Padre que seja, a nossa casa está ás suas ordens. Quero só que me não esqueça; não esqueça o velho Padua...

Suspirou e continuou:

--Não esqueça o seu velho Padua, e, se tem algum trapinho que me deixe em lembrança, um caderno latino, qualquer cousa, um botão de collete, cousa que já lhe não preste para nada. O valer é a lembrança.

Tive um sobresalto. Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus cabellos, tão grandes e tão bonitos, cortados na vespera. A intenção era leval-os a Capitú, ao sair; mas tive ideia de dal-o ao pae, a filha saberia lomal-o e guardal-o. Peguei do embrulho e dei-lh'o.

--Aqui está, guarde.

--Um cachinho dos seus cabellos! exclamou Padua abrindo e fechando o embrulho. Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha gente! Vou dai-o á velha, para guardal-o, ou á pequena, que é mais cuidadosa que a mãe. Que lindos que são! Como é que se corta uma belleza destas? Dê cá um abraço! outro! mais outro! adeus!

Tinha os olhos humidos devéras; levava a cara dos desenganados, como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças, e vê sair branco o maldito numero,--um numero tão bonito!

LIII

A caminho!

Fui para o seminario. Poupa-me as outras despedidas. Minha mãe apertava-me ao peito. Prima Justina suspirava. Talvez chorasse mal ou nada. Ha pessoas a quem as lagrimas não acodem logo nem nunca; diz-se que padecem mais que as outras. Prima Justina disfarçava naturalmente os seus padecimentos intimos, emendando os descuidos de minha mãe, fazendo-me recommendações, dando ordens. Tio Cosme, quando eu lhe beijei a mão em despedida, disse-me rindo:

--Anda lá, rapaz, volta-me papa!

José Dias, composto e grave, não dizia nada a principio; tinhamos falado na vespera, no quarto delle, onde fui ver se era ainda possivel evitar o seminario. Já não era, mas deu-me esperanças e principalmente animou-me muito. Antes de um anno estariamos a bordo. Como eu achasse muito breve, explicou-se.

--Dizem que não é bom tempo de atravessar o Atlantico, vou indagar; se não fôr, iremos em Março ou Abril.

--Posso estudar medicina aqui mesmo.

José Dias correu os dedos pelos suspensorios com um gesto de impaciencia, apertou os beiços, até que formalmente rejeitou o alvitre.

--Não duvidaria approvar a ideia, disse elle, se na Escola de Medicina não ensinassem, exclusivamente, a podridão allopatha. A allopathia é o erro dos seculos, e vae morrer; é o assassinato, é a mentira, é a illusão. Se lhe disserem que póde apprender na Escola de Medicina aquella parte da sciencia commum a todos os systemas, é verdade; a allopathia é erro na therapeutica. Physiologia, anatomia, pathologia, não são allopathicas nem homeopathicas, mas é melhor apprender logo tudo de uma vez, por livros e por lingua de homens cultores da verdade...

Assim falára na vespera e no quarto. Agora não dizia nada, ou proferia algum aphorismo sobre a religião e a familia; lembro-me deste: «Dividil-o com Deus é ainda possuil-o.» Quando minha mãe me deu o ultimo beijo: «Quadro amantissimo!» suspirou elle. Era manhã de um lindo dia. Os moleques cochichavam; as escravas tomavam a benção: «Benção, nhõ Bentinho! não se esqueça de sua Joanna! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!» Na rua José Dias insistiu nas esperanças:

--Aguente um anno; até lá tudo estará arranjado.

LIV

Panegyrico de Santa Monica.

No seminario... Ah! não vou contar o seminario, nem me bastaria a isso um capitulo. Não, senhor meu amigo; algum dia, sim, é possivel que componha um abreviado do que alli vi e vivi, das pessoas que tratei, dos costumes, de todo o resto. Esta sarna de escrever, quando pega aos cincoenta annos, não despega mais. Na mocidade é possivel curar-se um homem della; e, sem ir mais longe, aqui mesmo no seminario tive um companheiro que compoz versos, a maneira dos de Junqueira Freire, cujo livro de frade poeta era recente. Ordenou-se: annos depois encontrei-o no còro de S. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos.

--Que versos? perguntou meio espantado.

--Os seus. Pois não se lembra que no seminario...

--Ah! sorriu elle.

Sorriu, e continuando a procurar n'um livro aberto a hora em que tinha do cantar no dia seguinte, confessou-me que não fizera mais versos depois de ordenado. Foram cocegas da mocidade; coçou-se, passou, estava bom. E falou-me em prosa de uma infinidade de cousas do dia, a vida cara, um sermão do padre X... uma vigairaria mineira...

Contrario a isso foi um seminarista que não seguiu a carreira. Chamava-se... Não é preciso dizer o nome; baste o caso. Tinha composto um _Panegyrico de Santa Monica_, elogiado por algumas pessoas e então lido entre os seminaristas. Alcançou licença de imprimil-o, o dedicou-o a Santo Agostinho. Tudo isso é historia velha; o que é mais moço é que um dia, em 1882, indo ver certo negocio em repartição de marinha, alli dei com este meu collega, feito chefe de uma secção administrativa. Deixára seminario, deixára lettras, casára e esquecera tudo, menos o _Panegyrico de Santa Monica_, umas vinte e nove paginas, que veiu distribuindo pela vida fóra. Como eu precisasse de algumas informações, fui pedir-lh'as, e seria impossivel achar melhor nem mais prompta vontade; deu-me tudo, claro, certo, copioso. Naturalmente conversamos do passado, memorias pessoaes, casos de estudo, incidentes de nada, um livro, um verbo, um mote, toda a velha palhada saiu cá fóra, e rimos juntos, e suspiramos de companhia. Vivemos algum tempo do nosso velho seminario. Ou porque eram delle, ou porque eramos então moços, as recordações traziam tal poder de felicidade que, se alguma sombra contraria houve então, não appareceu agora. Elle confessou-me que perdera de vista todos os companheiros do seminario.

--Tambem eu, quasi todos; uma vez ordenados, voltaram naturalmente ás suas provincias, e os daqui tomaram vigairarias fóra.

--Bom tempo! suspirou elle.

E, após alguma reflexão, fitando em mim uns olhos murchos e teimosos, perguntou-me:

--Conservou o meu _Panegyrico?_

Não achei que dizer; tentei mover os beiços, mas não tinha palavra; afinal, perguntei:

--Panegyrico? Que panegyrico?

--O meu _Panegyrico de Santa Monica._

Não me lembrou logo, mas a explicação devia bastar; e depois de alguns instantes de pesquiza mental, respondi que por muito tempo o conservára, mas as mudanças, as viagens...

--Hei de levar-lhe um exemplar.

Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa, com o folheto, um velho folheto de vinte e seis annos, encardido, manchado do tempo, mas sem lacuna, e com uma dedicatoria manuscripta e respeitosa.

--E o penultimo exemplar, disse-me; agora só me resta um, que não posso dar a ninguem.

E como me visse folhear o opusculo:

--Veja se lhe lembra algum pedaço, disse-me.

Vinte e seis annos de intervallo fazem morrer amizades mais estreitas e assiduas, mas era cortezia, era quasi caridade recordar alguma lauda; li uma dellas, accentuando certas phrases para lhe dar a impressão de que achavam echo em minha memoria. Concordou que fossem bellas, mas preferia outras, e apontou-as.

--Recorda-se bem?

--Perfeitamente. _Panegyrico de Santa Monica!_ Como isto me faz remontar os annos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o seminario, creia. Os annos passam, os acontecimentos vêm uns sobre outros, e as sensações tambem, e vieram amizades novas, que tambem se foram depois, como é lei da vida... Pois, meu caro collega, nada fez apagar aquelle tempo da nossa convivencia, os padres, as licções, os recreios... os nossos recreios, lembra-se? o padre Lopes, oh! o padre Lopes...

Elle, com os olhos no ar, devia estar ouvindo, e naturalmente ouvia, mas só me disse uma palavra, e ainda assim depois de algum tempo de silencio, recolhendo os olhos e um suspiro!

--Tem agradado muito este meu _Panegyrico!_

LV

Um soneto.

Dita a palavra, apertou-me as mãos com as forças todas de um vasto agradecimento, despediu-se e saiu. Fiquei só com o _Panegyrico_, e o que as folhas delle me lembraram foi tal que merece um capitulo ou mais. Antes, porém, e porque tambem eu tive o meu _Panegyrico_, contarei a historia de um soneto que nunca fiz; era no tempo do seminario, e o primeiro verso é o que ides ler:

Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!

Como e porque me saiu este verso da cabeça, não sei; saiu assim, estando eu na cama, como uma exclamação solta, e, ao notar que tinha a medida de verso, pensei em compor com elle alguma cousa, um soneto. A insonmia, musa de olhos arregalados, não me deixou dormir uma longa hora ou duas; as cocegas pediam-me unhas, e eu coçava-me com alma. Não escolhi logo, logo o soneto; a principio cuidei de outra fórma, e tanto de rima como de verso solto, mas afinal ative-me ao soneto. Era um poema breve e prestadio. Quanto á ideia, o primeiro verso não era ainda uma ideia, era uma exclamação; a ideia viria depois. Assim na cama, envolvido no lençol, tratei de poetar. Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir com aquelle monge da Bahia, pouco antes revelado, e então na moda; eu, seminarista, diria em verso as minhas tristezas, como elle dissera as suas no claustro. Decorei bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos lençóes; francamente, achava-o bonito, e ainda agora não me parece máu:

Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!

Quem era a flòr? Capitú, naturalmente; mas podia ser a virtude, a poesia, a religião, qualquer outro conceito a que coubesse a metaphora da flòr, e flòr do ceu. Aguardei o resto, recitando sempre o verso, e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo; atinai deixei-me estar de costas, com os olhos no tecto, mas nem assim vinha mais nada. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluiam com chave de ouro, isto é, um desses versos capitaes no sentido e na fórma. Pensei em forjar uma de taes chaves, considerando que o verso final, saindo chronologicamente dos treze anteriores, com difficuldade traria a perfeição louvada; imaginei que taes chaves eram fundidas antes da fechadura. Assim foi que me determinei a compôr o ultimo verso do soneto, e, depois de muito suar, saiu este:

Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnifico. Sonoro, não ha duvida. E tinha um pensamento, a victoria ganha á custa da propria vida, pensamento alevantado e nobre. Que não fosse novidade, é possivel, mas tambem não era vulgar; e ainda agora não explico por que via mysteriosa entrou n'uma cabeça de tão poucos annos. Naquella occasião achei-o sublime. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro; depois repeti os dous versos seguidamente, e dispuz-me a ligal-os pelos doze centraes. A ideia agora, á vista do ultimo verso, pareceu-me melhor não ser Capitú; seria a justiça. Era mais proprio dizer que, na pugna pela justiça, perder-se-hia acaso a vida, mas a batalha ficava ganha. Tambem me occorreu acceitar a batalha, no sentido natural, e fazer della a lula pela patria, por exemplo; nesse caso a flor do ceu seria a liberdade. Esta accepção, porém, sendo o poeta um seminarista, podia não caber tanto como a primeira, e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. Achei melhor a justiça, mas afinal acceitei definitivamente uma ideia nova, a caridade, e recitei os dous versos, cada um a sou modo, um languidamente:

Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!

e o outro com grande brio:

Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. Começar bem e acabar bem não era pouco. Para me dar um banho de inspiração, evoquei alguns sonetos celebres, e notei que os mais delles eram facilimos; os versos saíam uns dos outros, com a ideia em si, tão naturalmente, que se não acabava de crer se ella é que os fizera, se elles é que a suscitavam. Então tornava ao meu soneto, e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo; o segundo não vinha, nem terceiro, nem quarto; não vinha nenhum. Tive alguns impetos de raiva, e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel; póde ser que, escrevendo, os versos acudissem, mas...

Cançado de esperar, lembrou-me alterar o sentido do ultimo verso, com a simples transposição do duas palavras, assim:

Ganha-se a vida, perde-se a batalha!

O sentido vinha a ser justamente o contrario, mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma ironia: não exercendo a caridade, póde-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do ceu. Criei forças novas o esperei. Não tinha janella; se tivesse, é possivel que fosse pedir uma ideia á noite. E quem sabe se os vagalumes, luzindo cá em baixo, não seriam para mim como rimas das estrellas, e esta viva metaphora não me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e sentidos proprios?

Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não vieram os versos. Pelo tempo adeante escrevi algumas paginas em prosa, e agora estou compondo esta narração, não achando maior difficuldade que escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me consola daquelle soneto que não fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metaphysica, dou esses dous versos ao primeiro desoccupado que os quizer. Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na roça, em qualquer occasião de lazer, póde tentar ver se o soneto sae. Tudo é dar-lhe uma ideia e encher o centro que falta.

LVI

Um seminarista.

Tudo me ia repetindo o diabo do opusculo, com as suas lettras velhas e citações latinas. Vi sair daquellas folhas muitos perfis de seminaristas, os irmãos Albuquerques, por exemplo, um dos quaes é conego na Bahia, emquanto o outro seguiu medicina e dizem haver descoberto um especifico contra a febre amarella. Vi o Bastos, um magricella, que está de vigario em Meia-Ponte, se não morreu já; Luiz Borges, apesar de padre, fez-se politico, e acabou senador do imperio... Quantas outras caras me fitavam das paginas frias do _Panegyrico!_ Não, não eram frias; traziam o calor da juventude nascente, o calor do passado, o meu proprio calor. Queria lel-as outra vez, e lograva entender algum texto, tão recente como no primeiro dia, ainda que mais breve. Era um encanto ir por elle; ás vezes, inconscientemente, dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade; creio que era quando os olhos me caíam na palavra do fim da pagina, e a mão, acostumada a ajudal-os, faziam o seu officio...

Eis aqui outro seminarista. Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo. Quem não estivesse acostumado com elle podia acaso sentir-se mal, não sabendo por onde lhe pegasse. Não fitava de rosto, não falava claro nem seguido; as mãos não apertavam as outras, nem se deixavam apertar dellas, porque os dedos, sendo delgados e curtos, quando a gente cuidava tel-os entre os seus, já não tinha nada. O mesmo digo dos pés, que tão depressa estavam aqui como lá. Esta difficuldade em pousar foi o maior obstaculo que achou para tomar os costumes do seminario. O sorriso era instantaneo, mas tambem ria folgado e largo. Uma cousa não seria tão fugitiva, como o resto, a reflexão; iamos dar com elle, muita vez, olhos enfiados em si, cogitando. Respondia-nus sempre que meditava algum ponto espiritual, ou então que recordava a licção da vespera. Quando elle entrou na minha intimidade pedia-me frequentemente explicações e repetições miudas, e tinha memoria para guardal-as todas, até as palavras. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra.

Era mais velho que eu trez annos, filho de um advogado de Corityba, aparentado com um commerciante do Rio de Janeiro, que servia de correspondente ao pae. Este era homem de fortes sentimentos catholicos. Escobar tinha uma irmã, que era um anjo, dizia elle.

--Não é só na belleza que é um anjo, mas tambem na bondade. Não imagina que boa creatura que ella é. Escreve-me muita vez, hei de mostrar-lhe as cartas della.

De facto, eram simples e affectuosas, cheias de caricias e conselhos. Escobar contava-me historias della, interessantes, todas as quaes vinham a dar na bondade e no espirito daquella creatura; taes eram que me fariam capaz de acabar casando com ella, se não fosse Capitú. Morreu pouco depois. Eu, seduzido pelas palavras delle, estive quasi a contar-lhe logo, logo, a minha historia. A principio fui timido, mas elle fez-se entrado na minha confiança. Aquelles modos fugitivos cessavam quando elle queria, e o meio e o tempo os fizeram mais pousados. Escobar veiu abrindo a alma toda, desde a porta da rua até ao fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, e uma casa assim disposta, não raro com janellas para todos os lados, muita luz e ar puro. Tambem as ha fechadas e escuras, sem janellas, ou com poucas e gradeadas, á semelhança de conventos o prisões. Outrosim, capellas e bazares, simples alpendres ou paços sumptuosos.

Não sei o que era a minha. Eu não era ainda casmurro, nem dom casmurro; o receio é que me tolhia a franqueza, mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurral-as, e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou, até que...

LVII

De preparação.

Ah! mas não eram só os seminaristas que me iam saindo daquellas folhas velhas do _Panegyrico._ Ellas me trouxeram tambem sensações passadas, taes e tantas que eu não poderia dizel-as todas, sem tirar espaço ao resto. Uma dessas, e das primeiras, quizera contal'a aqui eu latim. Não é que a materia não ache termos honestos em nossa lingua, que é casta para os castos, como póde ser torpe para os torpes. Sim, leitora castissima, como diria o meu finado José Dias, podeis ler o capitulo até ao fim, sem susto nem vexame.

Já agora metto a historia em outro capitulo. Por mais composto que este me saia, ha sempre no assumpto alguma cousa menos austera, que pede umas linhas de repouso e preparação. Sirva este de preparação. E isto é muito, leitor meu amigo; o coração, quando examina a possibilidade do que ha de vir. as proporções dos acontecimentos e a copia delles, fica robusto e disposto, e o mal é menor mal. Tambem, se não fica então, não fica nunca. E aqui verás tal ou qual esperteza minha; porquanto, ao ler o que vás ler, é provavel que o aches menos cru do que esperavas.

LVIII

O tratado.

Foi o caso que, uma segunda-feira, voltando eu para o seminario, vi cair na rua uma senhora. O meu primeiro gesto, em tal caso, devia ser de pena ou de riso; não foi uma nem outra cousa, porquanto (e é isto que eu quizera dizer em latim) porquanto, a senhora tinha as meias mui lavadas, e não as sujou, levava ligas de seda, e não as perdeu. Varias pessoas acudiram, mas não tiveram tempo de a levantar; ella ergueu-se muito vexada, sacudiu-se, agradeceu, e enfiou pela rua proxima.

--Este gosto de imitar as francezas da rua do Ouvidor, dizia-me José Dias andando e commentando a queda, é evidentemente um erro. As nossas moças devem andar como sempre andaram, com sou vagar e paciencia, e não este tique-tique afrancezado...

Eu mal podia ouvil-o. As meias e as ligas da senhora branqueavam e enroscavam-se deante de mim, e andavam, caíam, erguiam-se e iam-se embora. Quando chegámos á esquina, olhei para a outra rua, e vi, a distancia, a nossa desastrada, que ia no mesmo passo, tique-tique, tique-tique...

--Parece que não se machucou, disse eu.

--Tanto melhor para ella, mas é impossivel que não tenha arranhado os joelhos; aquella presteza é manha...