Dom Casmurro

Part 5

Chapter 53,993 wordsPublic domain

Capitú deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe dos cabellos, colhi-os todos e entrei a alisal-os com o pente, desde a testa até ás ultimas pontas, que lhe desciam á cintura. Em pé não dava geito: não esquecestes que ella era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.

--Senta aqui, é melhor.

Sentou-se. «Vamos ver o grande cabelleireiro», disse-me rindo. Continuei a alisar os cabellos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções eguaes, para compor as duas trancas. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem suppôr os cabelleireiros de officio, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tacto aquelles fios grossos, que eram parte della. O trabalho era atrapálhado, ás vezes por desaso, outras de proposito, para desfazer o feito e refazel-o. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espaduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas, emfim, os cabellos iam acabando, por mais que eu os quizesse interminaveis. Não pedi ao ceu que elles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteal-os por todos os seculos dos seculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um numero innominavel de vezes. Se isto vos parecer emphatico, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca puzestes aos mãos adolescentes na joven cabeça de uma nympha... Uma nympha! Todo eu estou mythologico. Ainda ha pouco, falando dos seus olhos de ressaca, cheguei a escrever Thetis; risquei Thetis, risquemos nympha; digamos somente uma creatura amada, palavra que envolve todas as potencias christãs e pagãs. Emfim, acabei as duas tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um laço, retoquei a obra, alargando aqui, achatando alli, até que exclamei:

--Prompto!

--Estará bom?

--Veja no espelho.

Em vez de ir ao espelho, que pensaes que fez Capitú? Não vos esqueçaes quo estava sentada, de costas para mim. Capitú derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e amparal-a; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ella, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de um na linha da bocca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.

--Levanta, Capitú!

Não quiz, não levantou a cabeça, e ficámos assim a olhar um para o outro, até que ella abrochou os labios, eu desci os meus, e...

Grande foi a sensação do beijo; Capitú ergueu-se, rapida, eu recuei até á parede com uma especie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando elles me clarearam, vi que Capitú tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quizesse, faltava-me lingua. Preso, atordoado, não achava gesto nem impeto que me descolasse da parede e me atirasse a ella com mil palavras callidas e mimosas... Não mofes dos meus quinze annos, leitor precoce. Com dezesete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na differença dos sexos.

XXXIV

Sou homem!

Ouvimos passos no corredor; era D. Fortunata. Capitú compoz-se depressa, tão depressa que, quando a mãe apontou á porta, ella abanava a cabeça e ria. Nenhum laivo amarello. nenhuma contracção de acanhamento, um riso espontaneo e claro, que ella explicou por estas palavras alegres:

--Mamãe, olhe como este senhor cabelleireiro me penteou; pediu-me para acabar o penteado, e fez isto. Veja que tranças!

--Que tem? acudiu a mãe, transbordando de benevolencia. Está muito bem, ninguem dirá que é de pessoa que não sabe pentear.

--O que, mamãe? Isto? redarguiu Capitú desfazendo as tranças. Ora, mamãe!

E com um enfadamento gracioso e voluntario que ás vezes tinha, pegou do pente e alisou os cabellos para renovar o penteado. D. Fortunata chamou-lhe tonta, e disse-me que não fizesse caso, não era nada, maluquices da filha. Olhava com ternura para mim e para ella. Depois, parece-me que desconfiou. Vendo-me calado, enfiado, cosido á parede, achou talvez que houvera entre nós algo mais que penteado, e sorriu por dissimulação...

Como eu quizesse falar tambem para disfarçar o meu estado, chamei algumas palavras cá de dentro, e ellas acudiram de prompto, mas de atropello, e encheram-me a bocca sem poder sair nenhuma. O beijo de Capitú fechava-me os labios. Uma exclamação, um simples artigo, por mais que investissem com força, não logravam romper de dentro. E todas as palavras recolheram-se ao coração, murmurando: «Eis aqui um que não fará grande carreira no mundo, por menos que as emoções o dominem...»

Assim, apanhados pela mãe, éramos dous e contrarios, ella encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silencio. D. Fortunata tirou-me daquella hesitação, dizendo que minha mãe me mandára chamar para a licção de latim; o padre Cabral estava á minha espera. Era uma saida; despedi-me e enfiei pelo corredor. Andando, ouvi que a mãe censurava as maneiras da filha, mas a filha não dizia nada.

Corri ao meu quarto, peguei dos livros, mas não passei a sala da licção; sentei-me na cama, recordando o penteado e o resto. Tinha estremeções, linha uns esquecimentos em que perdia a consciencia de mim e das cousas que me rodeavam, para viver não sei onde nem como. E tornava a mim, e via a cama, as paredes, os livros, o chão, ouvia algum som de fóra, vago, proximo ou remoto, e logo perdia tudo para sentir sómente os beiços de Capitú... Sentia-os estirados, embaixo dos meus, egualmente esticados para os della, e unindo-se uns aos outros. De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra de orgulho:

--Sou homem!

Suppuz que me tivessem ouvido, porque a palavra saiu em voz alta, e corri á porta da alcova. Não havia ninguem fóra. Voltei para dentro, e, baixinho, repeti que era homem. Ainda agora tenho o éco aos meus ouvidos. O gosto que isto me deu foi enorme. Colombo não o teve maior, descobrindo a America, e perdoai a banalidade em favor do cabimento; com effeito, ha em cada adolescente um mundo encoberto, um almirante e um sol de Outubro. Fiz outros achados mais tarde; nenhum me deslumbrou tanto. A denuncia de José Dias alvoroçara-me, a licção do velho coqueiro tambem, a vista dos nossos nomes abertos por ella no muro do quintal deu-me grande abalo, como vistes; nada disso valeu a sensação do beijo. Podiam ser mentira ou illusão. Sendo verdade, eram os ossos da verdade, não eram a carne e o sangue della. As proprias mãos tocadas, apertadas, como que fundidas, não podiam dizer tudo.

--Sou homem!

Quando repeti isto, pela terceira vez, pensei no seminario, mas como se pensa em perigo que passou, um mal abortado, um pesadelo extincto; todos os meus nervos me disseram que homens não são padres. O sangue era da mesma opinião. Outra vez senti os beiços de Capitú. Talvez abuso um pouco das reminiscencias osculares; mas a saudade é isto mesmo; é o passar e repassar das memorias antigas. Ora, de todas as daquelle tempo creio que a mais doce é esta, a mais nova, a mais comprehensiva, a que inteiramente me revelou a mim mesmo. Outras tenho, vastas e numerosas, doces tambem, de varia especie, muitas intellectuaes, egualmente intensas. Grande homem que fosse, a recordação era menor que esta.

XXXV

O protonotario apostolico.

Enfim, peguei dos livros e corri á licção. Não corri precisamente; a meio caminho parei, advertindo que devia ser muito tarde, e podiam ler-me no semblante alguma cousa. Tive ideia de mentir, allegar uma vertigem que me houvesse deitado ao chão; mas o susto que causaria a minha mãe fez-me rejeital-a. Pensei em prometter algumas dezenas de padre-nossos; tinha, porém, outra promessa em aberto e outro favor pendente... Não, vamos ver; fui andando, ouvi vozes alegres, conversavam cuidadosamente. Quando entrei na sala, ninguem ralhou commigo.

O padre Cabral recebera na vespera um recado do internuncio; foi ter com elle, e soube que, por decreto pontificio, acabava de ser nomeado protonotario apostolico. Esta distincção do papa dera-lhe grande contentamento e a todos os nossos. Tio Cosme e prima Justina repetiam o titulo com admiração; era a primeira vez que elle soava aos nossos ouvidos, acostumados a conegos, monsenhores, bispos, nuncios, e internuncios; mas que era protonotario apostolico? O padre Cabral explicou que não era propriamente o cargo da curia, mas as honras delle. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltarete, e repetia:

--Protonotario apostolico!

E voltando-se para mim:

--Prepara-te, Bentinho; tu pódes vir a ser protonotario apostolico.

Cabral ouvia com gosto a repetição do titulo. Estava em pé, dava alguns passos, sorria ou tamborilava na tampa da boceta. O tamanho do titulo como que lhe dobrava a magnificencia, posto que, para ligal-o ao nome, era demasiado comprido; esta segunda reflexão foi tio Cosme que a fez. Padre Cabral acudiu que não era preciso dizel-o todo, bastava que lhe chamassem o protonotario Cabral. Subentendia-se apostolico.

--Protonotario Cabral.

--Sim, tem razão; protonotario Cabral.

--Mas, Sr. protonotario,--acudiu prima Justina para se ir acostumando ao uso do titulo,--isto o obriga a ir a Roma?

--Não, D. Justina.

--Não, são só as honras, observou minha mãe.

--Agora, não impede,--disse Cabral, que continuava a reflectir,--não impede que nos casos de maior formalidade, actos publicos, cartas de cerimonia, etc., se empregue o titulo inteiro: protonotario apostolico. No uso commum, basta protonotario.

--Justamente, assentiram todos.

José Dias, que entrou pouco depois de mim, applaudiu a distincção, e recordou, a proposito, os primeiros actos politicos de Pio IX, grandes esperanças da Italia; mas ninguem pegou do assumpto; o principal da hora e do logar era o meu velho mestre de latim. Eu, voltando a mim do receio, entendi que devia comprimental-o tambem, e este applauso não lhe foi menos ao coração que os outros. Bateu-me na bochecha paternalmente, e acabou dando-me férias. Era muita felicidade para uma só hora. Um beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo, porque tio Cosme, sacudindo a barriga, chamou-me peralta; mas José Dias corrigiu a alegria:

--Não tem que festejar a vadiação; o latim sempre lhe ha de ser preciso, _ainda que não venha a ser padre._

Conheci aqui o meu homem. Era a primeira palavra, a semente lançada á terra, assim de passagem, como para acostumar os ouvidos da familia. Minha mãe sorriu para mim, cheia de amor e de tristeza, mas respondeu logo:

--Ha de ser padre, e padre bonito.

--Não esqueça, mana Gloria, e protonotario tambem. Protonotario apostolico.

--O protonotario Santiago, accentuou Cabral.

Se a intenção tio meu mestre de latim era ir acostumando ao uso do titulo com o nome, não sei bem; o que sei é que quando ouvi o meu nome ligado a tal titulo, deu-me vontade de dizer um desaforo. Mas a vontade aqui foi antes uma ideia, uma ideia sem lingua, que se deixou ficar quieta e muda, tal como d'ahi a pouco outras ideias... Mas essas pedem um capitulo especial. Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou algum tempo da minha ordenação ecclesiastica, ainda que sem grande interesse. Elle buscava um assumpto alheio para se mostrar esquecido da propria gloria, mas era esta que o deslumbrava na occasião. Era um velho magro, sereno, dotado de qualidades boas. Alguns defeitos tinha; o mais excelso delles era ser guloso, não propriamente glotão; comia pouco, mas estimava o fino e o raro, e a nossa cosinha, se era simples, era menos pobre que a delle. Assim, quando minha mãe lhe disse que viesse jantar, afim de se lhe fazer uma saude, os olhos com que acceitou seriam de protonotario, mas não eram aposlolicos. E para agradar a minha mãe novamente pegou em mim, descrevendo o meu futuro ecclesiastico, e queria saber se ia para o seminario agora, no anuo proximo, e offerecia-se a falar ao «senhor bispo», tudo marchetado do «protonotario Santiago.»

XXXVI

Ideia sem pernas e ideia sem braços.

Deixei-os, a pretexto de brincar, e fui-me outra vez a pensar na aventura da manhã. Era o que melhor podia fazer, sem latim, e até com latim. Ao cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo á casa visinha, agarrar Capitú, desfazer-lhe as tranças, refazel-as e concluil-as daquella maneira particular, bocca sobre bocca. É isto, vamos, é isto... Ideia só! ideia sem pernas! As outras pernas não queriam correr nem andar. Muito depois é que sairam vagarosamente e levaram-me á casa de Capitú. Quando alli cheguei, dei com ella na sala, na mesma sala, sentada na marqueza, almofada no regaço, cosendo em paz. Não me olhou de rosto, mas a furto e a medo, ou, se preferes a phraseologia do aggregado, obliqua e dissimulada. As mãos pararam, depois de encravada a agulha no panno. Eu, do lado opposto da mesa, não sabia que fizesse; e outra vez me fugiram as palavras que trazia. Assim gastámos alguns minutos compridos, até que ella deixou inteiramente a costura, ergueu-se e esperou-me. Fui ter com ella, e perguntei se a mãe havia dito alguma cousa; respondeu-me que não. A bocca com que respondeu era tal que cuido haver-me provocado um gesto de approximação. Certo é que Capitú recuou um pouco.

Era occasião de pegal-a, puxal-a e beijal-a... Ideia só ideia sem braços! Os meus ficaram caidos e mortos. Não conhecia nada da Escriptura. Se conhecesse, é provavel que o espirito de Satanaz me fizesse dar a lingua mystica do _Cantico_ um sentido directo e natural. Então obedeceria ao primeiro versiculo; «Applique elle os labios, dando-me o osculo da sua bocca.» E pelo que respeita aos braços, que tinha inertes, bastaria cumprir o vers. 6.o do cap. II: «A sua mão esquerda se pôz já debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abraçará depois.» Vedes ahi a chronologia dos gestos. Era só executal-a; mas ainda que eu conhecesse o texto, as attitudes de Capitú eram agora tão retrahidas, que não sei se não continuaria parado, foi ella entretanto, que me tirou daquella situação.

XXXVII

A alma é cheia de mysterios.

Padre Cabral eslava esperando ha muito tempo?

--Hoje não dei licção; tive férias.

Expliquei-lhe o motivo das férias. Contei-lhe tambem que o padre Cabral falara da minha entrada no seminario, apoiando a resolução de minha mãe, e disse delle cousas feias e duras. Capitú reflectiu algum tempo, e acabou perguntando-me se podia ir comprimentar o padre, á tarde, em minha casa.

--Póde, mas para que?

Papae naturalmente ha de querer ir tambem, mas é melhor que elle vá á casa do padre; é mais bonito. Eu não, que já sou meia moça, concluiu rindo.

O riso animou-me. As palavras pareciam ser uma troça comsigo mesma, uma vez que, desde manhã, era mulher, como eu era homem. Achei-lhe graça, e, para dizer tudo, quiz provar-lhe que era moça inteira. Peguei-lhe levemente na mão direita, depois na esquerda, e fiquei assim pasmado e tremulo. Era a ideia com mãos. Quiz puxar as de Capitú, para obrigal-a a vir atraz dellas, mas ainda agora a acção não respondeu á intenção. Comtudo, achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguem; não vivia com rapazes, que me ensinassem anecdotas de amor. Não conhecia a violação de Lucrecia. Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha do padre Pereira e eram patricios de Poncio Pilatos. Não nego que o final do penteado da manhã era um grande passo no caminho da movimentação amorosa, mas o gesto de então foi justamente o contrario deste. De manhã, ella derreou a cabeça, agora fugia-me; nem é só nisso que os lances differiam; em outro ponto, parecendo haver repetição, houve contraste.

Penso que ameacei puxal-a a mim. Não juro, começava a estar tão alvoroçado, que não pude ter toda a consciência dos meus actos; mas concluo que sim, porque ella recuou e quiz tirar as mãos das minhas; depois, talvez por não poder recuar mais, collocou um dos pés adeante e o outro atraz, e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou a reter-lhe as mãos com força. O busto afinal cançou e cedeu, mas a cabeça não quiz ceder tambem, e, caida para traz, inutilisava lodos os meus esforços, porque eu já fazia esforços, leitor amigo. Não conhecendo a licção do _Cantico_, não me acudiu estender a mão esquerda por baixo do cabeça della; demais, este gesto suppõe um accordo de vontades, e Capitú, que me resistia agora, aproveitaria o gesto para arrancar-se á outra mão e fugir-me inteiramente. Ficámos naquelle luta, sem estrepito, porque apesar do ataque e da defesa, não perdiamos a cautela necessaria para não sermos ouvidos lá de dentro; a alma é cheia de mysterios. Agora sei que a puxava; a cabeça continuou a recuar, até que cançou; mas então foi a vez da bocca. A bocca de Capitú iniciou um movimento inverso, relativamente á minha, indo para um lado, quando eu a buscava do lado opposto. Naquelle desencontro estivemos, sem que ousasse um pouco mais, e bastaria um pouco mais...

Nisto ouvimos bater á porta e falar no corredor. Era o pae de Capitú, que voltava da repartição um pouco mais cedo, como usava ás vezes. «Abre, Nanata! Capitú, abre!» Apparentemente era o mesmo lance da manhã, quando a mãe deu comnosco, mas só apparentemente; em verdade, era outro. Considerai que de manhã tudo estava acabado, e o passo de D. Fortunata foi um aviso para que nos compuzessemos. Agora lutavamos com as mãos presas, e nada estava sequer começado.

Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor interno; era a mãe que abria. Eu, uma vez que confesso tudo, digo aqui que não tive tempo de soltar as mãos da minha amiga; pensei nisso, cheguei a tental-o, mas Capitú, antes que o pae acabasse de entrar, fez um gesto inesperado, pousou a bocca na minha bocca, e deu de vontade o que estava a recusar á força. Repito, a alma é cheia de mysterios.

XXXVIII

Que susto, meu Deus!

Quando Padua, vindo pelo interior, entrou na sala de visitas, Capitú, em pé, de costas para mim, inclinada sobre a costura, como a recolhel-a, perguntava em voz alta:

--Mas, Bentinho, que ó protonotario apostolico?

--Ora, vivam! exclamou o pae.

--Que susto, meu Deus!

Agora é que o lance é o mesmo; mas se conto aqui, taes quaes, os dous lances de ha quarenta annos, é para mostrar que Capitú não se dominava só em presença da mãe; o pae não lhe metteu mais medo. No meio de uma situação que me atava a lingua, usava da palavra com a maior ingenuidade deste mundo. A minha persuasão é que o coração não lhe batia mais mais nem menos. Allegou susto, e deu á cara um ar meio enfiado; mas eu, que sabia tudo, vi que era mentira e fiquei com inveja. Foi logo falar ao pae, que apertou a minha mão, e quiz saber porque a filha falava em protonotario apostolico. Capitú repeliu-lhe o que ouvira de mim, e opinou logo que o pae devia ir comprimentar o padre em casa delle; ella iria á minha. E colligindo os petrechos da costura, enfiou pelo corredor, bradando infantilmente:

--Mamãe, jantar, papae chegou!

XXXIX

A vocação.

Padre Cabral estava naquella primeira hora das honras em que as minimas congratulações valem por odes. Tempo chega em que os dignificados recebem os louvores como um tributo usual, cara morta, sem agradecimentos. O alvoroço da primeira hora é melhor; esse estado da alma que vê na inclinação do arbusto, tocado do vento, um parabém da flora universal, traz sensações mais intimas e finas que qualquer outro. Cabral ouviu as palavras de Capitú com infinito prazer.

--Obrigado, Capitú, muito obrigado; estimo que você goste tambem. Papae está bom? E mamãe? A voce não se pergunta; essa cara é mesmo de quem vende saude. E como vamos de rezas?

A todas as perguntas, Capitú ia respondendo promptamente e bem. Trazia um vestidinho melhor e os sapatos de sair. Não entrou com a familiaridade do costume, deteve-se um instante á porta da sala, antes de ir beijar a mão a minha mãe e ao padre. Como désse a este, duas vezes em cinco minutos, o titulo de protonotario, José Dias, para se desforrar da concurrencia, fez um pequeno discurso em honra «ao coração paternal e augustissimo de Pio IX.»

--Você é um grande _prosa_, disse tio Cosme, quando elle acabou.

José Dias sorriu sem vexame. Padre Cabral confirmou os louvores do aggregado, sem os seus superlativos; ao que este accrescentou que o cardeal Mastai evidentemente fôra talhado para a tiára desde o principio dos tempos. E, piscando-me o olho, concluiu:

--A vocação é tudo. O estado ecclesiastico é perfeitissimo, comtanto que o sacerdote venha já destinado do berço. Não havendo vocação, falo de vocação sincera e real, um joven póde muito bem estudar as lettras humanas, que tambem são uteis e honradas.

Padre Cabral retorquia:

--A vocação é muito, mas o poder de Deus é soberano. Um homem póde não ter gosto á egreja e até perseguil-a, e um dia a voz de Deus lhe fala, e elle sae apostolo; veja S. Paulo.

--Não contesto, mas o que eu digo é outra cousa. O que eu digo é que se póde muito bem servir a Deus sem ser padre, cá fóra; póde-se ou não se póde?

--Póde-se.

--Pois então! exclamou José Dias triumphalmente, olhando em volta de si. Sem vocação é que não ha bom padre, e em qualquer profissão liberal se serve a Deus, como todos devemos.

--Perfeitamente, mas vocação não é só do berço que se traz.

--Homem, é a melhor.

--Um moço sem gosto nenhum á vida ecclesiastica póde acabar por ser muito bom padre; tudo é que Deus o determine. Não me quero dar por modelo, mas aqui estou eu que nasci com a vocação da medicina; meu padrinho, que era coadjutor de Santa Rita, teimou com meu pae para que me mettesse no seminario; meu pae cedeu. Pois, senhor, tomei tal gosto aos estudos e á companhia dos padres, que acabei ordenando-me. Mas, supponha que não acontecia assim, e que eu não mudava de vocação, o que é que acontecia? Tinha estudado no seminario algumas materias que é bom saber, e são sempre melhor ensinadas naquellas casas.

Prima Justina interveiu:

--Como? Então póde-se entrar para o seminario e não sair padre?

Padre Cabral respondeu que sim, que se podia, e, voltando-se para mim, falou da minha vocação, que era manifesta; os meus brinquedos foram sempre de egreja, e eu adorava os officios divinos. A prova não provava; todas as creanças do meu tempo eram devotas. Cabral accrescentou que o reitor de S. José, a quem contara ultimamente a promessa de minha mãe, tinha o meu nascimento por milagre; elle era da mesma opinião. Capitú, cosida ás saias de minha mãe, não attendia aos olhos anciosos que eu lhe mandava; tambem não parecia escutar a conversação sobre o seminario e suas consequencias, e, aliás, decorou o principal, como vim a saber depois. Duas vezes fui á janella, esperando que ella fosse tambem, e ficassemos á vontade, sósinhos, até acabar o mundo, se acabasse, mas Capitú não me appareceu. Não deixou minha mãe, senão para ir embora. Eram ave-marias, despediu-se.

--Vae com ella, Bentinho, disse minha mãe.

--Não precisa, não, D. Gloria, acudiu ella rindo, eu sei o caminho. Adeus, Sr. protonotario...

--Adeus, Capitú.

Tendo dado um passo no sentido de atravessar a sala, é claro que o meu dever, o meu gosto, todos os impulsos da edade e da occasião eram atravessal-a de todo, seguir a visinha corredor fóra, descer á chacara, entrar no quintal, dar-lhe terceiro beijo, e despedir-me. Não me importou a recusa, que cuidei simulada, e enfiei pelo corredor; mas, Capitú que ia depressa, estacou e fez-me signal que voltasse. Não obedeci; cheguei-me a ella.

--Não venha, não; amanhã falaremos.

--Mas eu queria dizer a você...

--Amanhã.

--Escuta!

--Fica!

Falava baixinho; pegou-me na mão, e poz o dedo na bocca. Uma preta, que veiu de dentro accender o lampião do corredor, vendo-nos naquella attitude, quasi ás escuras, riu de sympathia e murmurou em tom que ouvissemos alguma cousa que não entendí bem nem mal. Capitú segredou-me que a escrava desconfiara, e ia talvez contar ás outras. Novamente me intimou que ficasse, e retirou-se; eu deixei-me estar parado, pregado, agarrado ao chão.

XL

Uma egua.