Part 15
Divina arte! Ia-se formando um grupo, deixei a porta da loja e vim andando para casa; enfiei pelo corredor e subi as escadas sem estrepito. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro, ou por estar ligado a um momento grave da minha vida, ou por esta maxima, que os compiladores, pódem tirar daqui e inserir nos compendios de escola. A maxima é que a gente esquece devagar as boas acções que pratica, e verdadeiramente não as esquece nunca. Pobre barbeiro! perdeu duas barbas naquella noite, que eram o pão do dia seguinte, tudo para ser ouvido de um transeunte. Suppõe agora que este, em vez de ir-se embora, como eu fui, ficava á porta a ouvil-o e a namorar-lhe a mulher; então é que elle, todo arco, todo rabeca, tocaria desesperadamente. Divina arte!
CXXVIII
Punhado de successos.
Como ia dizendo, subi as escadas sem estrepito, empurrei a cancella, que estava apenas encostada, o dei com prima Justina e José Dias jogando cartas na saleta proxima. Capitú levantou-se do canapé e veiu a mim. O rosto della era agora sereno e puro. Os outros suspenderam o jogo, e todos falámos do desastre e da viuva. Capitú censurou a imprudencia de Escobar, e não dissimulou a tristeza que lhe trazia a dor da amiga. Perguntei-lhe por que não ficára com Sancha aquella noite.
--Tem lá muita gente; ainda assim offereci-me, mas não quiz. Tambem lhe disse que era melhor vir para cá, e passar aqui uns dias comnosco.
--Tambem não quiz?
--Tambem não.
--Entretanto, a vista do mar ha de ser-lhe penosa, todas as manhãs, ponderou José Dias, e não sei como poderá...
--Mas, passa; o que é que não passa? atalhou prima Justina.
E como em torno desta ideia, começassemos uma troca de palavras, Capitú saiu para ir ver se o filho dormia. Ao passar pelo espelho, concertou os cabellos tão demoradamente que pareceria affectação, se não soubessemos que ella era muito amiga de si. Quando tornou trazia os olhos vermelhos; disse-nos que, ao mirar o filho dormindo pensára na filhinha de Sancha, e na afflicção da viuva. E, sem se lhe dar das visitas, nem reparar se havia algum criado, abraçou-me e disse-me que, se quizesse pensar nella, era preciso pensar primeiro na minha vida. José Dias achou a phrase «lindissima», e perguntou a Capitú porque é que não fazia versos. Tentei metter o caso á bulha, e assim acabámos a noite.
No dia seguinte, arrependi-me de haver rasgado o discurso, não que quizesse dal-o a imprimir, mas era lembrança do finado. Pensei em recompôl-o, mas só achei phrases soltas, que uma vez juntas não tinham sentido. Tambem pensei em fazer outro, mas era já difficil, e podia ser apanhado em falso pelos que me tinham ouvido no cemiterio. Quanto a recolher os pedacinhos de papel deitados á rua, era tarde; estariam já varridos.
Inventariei as lembranças de Escobar, livros, um tinteiro de bronze, uma bengala de marfim, um passaro, o album de Capitú, duas paizagens do Paraná e outras. Tambem elle as possuia de minha mão. Vivemos assim a trocar memorias e regalos, ora em dia de annos, ora sem razão particular. Tudo isso me empanava os olhos... Vieram os jornaes do dia: davam noticia do desastre e da morte de Escobar, os estudos e os negocios deste, as qualidades pessoaes, a sympathia do commercio, e tambem falavam dos bens deixados, da mulher e da filha. Todo isso foi na segunda feira. Na terça-feira foi aberto o testamento, que me nomeava segundo testamenteiro; o primeiro logar cabia á mulher. Não me deixava nada, mas as palavras que me escrevera em carta separada eram sublimes de amizade e estima. Capitú desta vez chorou muito; mas compoz-se depressa.
Testamento, inventario, tudo andou quasi tão depressa como aqui vae dito. Ao cabo de pouco tempo, Sancha retirou-se para a casa dos parentes no Paraná.
CXXIX
A D. Sancha.
D. Sancha, peço-lhe que não leia este livro; ou, se o houver lido até aqui, abandone o resto. Basta fechal-o; melhor será queimal-o, para lhe não dar tentação e abril-o outra vez. Se, apesar do aviso, quizer ir até o fim, a culpa é sua; não respondo pelo mal que receber. O que já lhe tiver feito, contando os gestos daquelle sabbado, esse acabou, uma vez que os acontecimentos, e eu com elles, desmentimos a minha illusão; mas o que agora a alcançar, esse é indelevel. Não, amiga minha, não leia mais. Vá envelhecendo, sem marido nem filha, que eu faço a mesma cousa, e é ainda o melhor que se póde fazer depois da mocidade. Um dia, iremos daqui até a porta do ceu, onde nos encontraremos renovados, como as plantas novas, _come piante novelle_,
Rinovalatte di novelle fronde.
O resto em Dante.
CXXX
Um dia...
Porquanto, um dia Capitú quiz saber o que é que me fazia andar calado e aborrecido. E propoz-me a Europa, Minas, Petropolis, uma serie de bailes, mil desses remedios aconselhados aos melancolicos. Eu não sabia que lhe respondesse; recusei as diversões. Como insistisse, repliquei-lhe que os meus negocios andavam mal. Capitú sorriu para animar-me. E que tinha que andassem mal? Tornariam a andar bem, e até lá as joias, os objectos de algum valor seriam vendidos, e iriamos residir em algum becco. Viveriamos socegados e esquecidos; depois tornariamos á tona da agua. A ternura com que me disse isto era de commover as pedras. Pois nem assim. Respondi-lhe seccamente que não era preciso vender nada. Deixei-me estar calado e aborrecido. Ella propoz-me jogar cartas ou damas, um passeio a pé, uma visita a Matacavallos; e, como eu não acceitasse nada, foi para a sala, abriu o piano, e começou a tocar; eu aproveitei a ausencia, peguei do chapéo e saí.
... Perdão, mas este capitulo devia ser precedido de outro, em que contasse um incidente, occorrido poucas semanas antes, dous mezes depois da partida de Sancha. Vou escrevel-o; podia antepôl-o a este, antes de mandar o livro ao prélo, mas custa muito alterar o numero dos paginas; vae assim mesmo, depois a narração seguirá direita até o fim. Demais, é curto.
CXXXI
Anterior ao anterior.
Foi o caso que a minha vida em outra vez doce e placida, a banca do advogado rendia-me bastante, Capitú estava mais bella, Ezequiel ia crescendo. Começava o anno de 1872.
--Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma espressão exquisita? perguntou-me Capitú. Só vi duas pessoas assim, um amigo de papae e o defuncto Escobar. Olha, Ezequiel; olha firme, assim, vira para o lado de papae, não precisa revirar os olhos, assim, assim...
Era depois de jantar; estavamos ainda á mesa, Capitú brincava com o filho, ou elle com ella, ou um com outro, porque, em verdade, queriam-se muito, mas é tambem certo que elle me queria ainda mais a mim. Approximei-me de Ezequiel, achei que Capitú tinha razão; eram os olhos de Escobar, mas não me pareceram exquisitos por isso. Afinal não haveria mais que meia duzia de expressões no mundo, e muitas semelhanças se dariam naturalmente. Ezequiel não entendeu nada, olhou espantado para ella e para mim, e afinal saltou-me ao collo:
--Vamos passear, papae?
--Logo, meu filho.
Capitú, alheia a ambos, fitava agora a outra borda da mesa; mas, dizendo-lhe eu que, na belleza, os olhos de Ezequiel saíam aos da mãe, Capitú sorriu abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher alguma, provavelmente porque não gostei tanto das outras. As pessoas valem o que vale a affeição da gente, e é dahi que mestre Povo tirou aquelle adagio que quem o feio ama bonito lhe parece. Capitú tinha meia duzia de gestos unicos na terra. Aquelle entrou-me pela alma dentro. Assim fica explicado que eu corresse á minha esposa e amiga e lhe enchesse a cara de beijos; mas este outro incidente não é radicalmente necessario á comprehensão do capitulo passado e dos futuros; fiquemos nos olhos de Ezequiel.
CXXXII
O debuxo e o colorido.
Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa inteira, iam-se apurando com o tempo. Eram como um debuxo primitivo que o artista vae enchendo e colorindo aos poucos, e a figura entra a ver, sorrir, palpitar, falar quasi, até que a familia pendura o quadro na parede, em memoria do que foi e já não póde ser. Aqui podia ser e era. O costume valeu muito contra o effeito da mudança: mas a mudança fez-se, não á maneira de theatro, fez-se como a manhã que aponta vagarosa, primeiro que se possa ler uma carta, depois lê-se a carta na rua, em casa, no gabinete, sem abrir as janellas; a luz coada pelas persianas basta a distinguir as lettras. Li a carta, mal a principio e não toda, depois fui lendo melhor. Fugia-lhe, é certo, mettia o papel no bolso, corria a casa, fechava-me, não abria as vidraças, chegava a fechar os olhos. Quando novamente abria os olhos e a carta, a lettra era clara e a noticia clarissima.
Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminario e do Flamengo para se sentar commigo á mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã, ou pedir-me á noite a benção do costume. Todas essas acções eram repulsivas; eu tolerava-as e praticava-as, para me não descobrir a mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular ao mundo, não podia fazel-o a mim, que vivia mais perto de mim que ninguem. Quando nem mãe nem filho estavam commigo o meu desespero era grande, e eu jurava matal-os a ambos, ora de golpe, ora devagar, para dividir pelo tempo da morte todas os minutos da vida embaçada e agoniada. Quando, porém, tornava a casa e via no alto da escada a creaturinha que me queria e esperava, ficava desarmado e differia o castigo de um dia para outro.
O que se passava entre mim e Capitú naquelles dias sombrios, não se notará aqui, por ser tão miudo e repetido, e já tão tarde que não se poderá dizel-o sem falha nem canceira. Mas o principal irá. E o principal é que os nossos temporaes eram agora continuos e terriveis. Antes de descoberta aquella má terra da verdade, tivemos outros de pouca dura; não tardava que o ceu se fizesse azul, o sol claro e o mar chão, por onde abríamos novamente as velas que nos levavam ás ilhas e costas mais bellas do universo, até que outro pé de vento desbaratava tudo, e nós, postos á capa, esperavamos outra bonança, que não era tardia nem dubia, antes total, proxima e firme.
Releva-me estas metaphoras; cheiram ao mar e á maré que deram morte ao meu amigo e comborço Escobar. Cheiram tambem aos olhos de ressaca de Capitú. Assim, posto sempre fosse homem de terra, conto aquella parte da minha vida, como um marujo contaria o seu naufragio.
Já entre nós só faltava dizer a palavra ultima; nós a liamos, porém, nos olhos um do outro, vibrante e decisiva, e sempre que Ezequiel vinha para nós não fazia mais que separar-nos. Capitú propoz mettel-o em um collegio, donde só viesse aos sabbados; custou muito ao menino acceitar esta situação.
--Quero ir com papae! Papae ha de ir commigo! bradava elle.
Fui eu mesmo que o levei um dia de manhã, uma segunda feira. Era no antigo largo da Lapa, perto da nossa casa. Levei-o a pé, pela mão, como levára o ataúde do outro. O pequeno ia chorando e fazendo perguntas a cada passo, se voltaria para casa, e quando, e se eu iria vel-o...
--Vou.
--Papae não vae!
--Vou sim.
--Jura, papae!
--Pois sim.
--Papae não diz que jura.
--Pois juro.
E lá o levei e deixei. A ausencia temporaria não atalhou o mal, e toda a arte fina de Capitú para fazel-o attenuar, ao menos, foi como se não fosse; eu sentia-me cada vez peor. A mesma situação nova aggravou a minha paixão. Ezequiel vivia agora mais fóra da minha vista; mas a volta delle, ao fim das semanas, ou pelo descostume em que eu ficava, ou porque o tempo fosse andando e completando a semelhança, era a volta de Escobar mais vivo e ruidoso. Até a voz; dentro de pouco, já me parecia a mesma. Aos sabbados, buscava não jantar em casa e só entrar quando elle estivesse dormindo; mas não escapava ao domingo, no gabinete, quando eu me achava entre jornaes e autos. Ezequiel entrava turbulento, expansivo, cheio de riso e de amor, porque o demo do pequeno cada vez morria mais por mim. Eu, a falar verdade, sentia agora uma aversão que mal podia disfarçar, tanto a ella como aos outros. Não podendo encobrir inteiramente esta disposição moral, cuidava de me não fazer encontradiço com elle, ou só o menos que pudesse; ora tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete, ora saía ao domingo para ir passear pela cidade o arrebaldes o meu mal secreto.
CXXXIII
Uma ideia.
Um dia,--era uma sexta feira,--não pude mais. Certa ideia, que negrejava em mim, abriu as azas e entrou a batel-as de um lado para outro, como fazem as ideias que querem sair. O ser sexta-feira creio que foi acaso, mas tambem póde ter sido proposito; fui educado no terror daquelle dia; ouvi cantar balladas em casa, vindas da roça e da antiga metropole, nas quaes a sexta-feira era o dia de agouro. Entretanto, não havendo almanaks no cerebro, é provavel que a ideia não batesse as azas senão pela necessidade que sentia do vir ao ar e á vida. A vida é tão bella que a mesma ideia da morte precisa de vir primeiro a ella, antes de se ver cumprida. Já me vás entendendo; lê agora outro capitulo.
CXXXIV
O dia de sabbado.
A ideia saiu finalmente do cerebro. Era noite, e não pude dormir, por mais que a sacudisse de mim. Tambem nenhuma noite me passou tão curta. Amanheceu, quando cuidava não ser mais que uma ou duas horas. Sai, suppondo deixar a ideia em casa; ella veiu commigo. Cá fóra tinha a mesma côr escura, as mesmas azas trepidas, e posto avoasse com ellas, era como se fosse fixa; eu a levava na retina, não que me encobrisse as cousas externas, mas via-as atra vez della, com a côr mais pallida que de costume, e sem se demorarem nada.
Não me lembra bem o resto do dia. Sei que escrevi algumas cartas, comprei uma substancia, que não digo, para não espertar o desejo de proval-a. A pharmacia falliu, é verdade; o dono fez-se banqueiro, e o banco prospera. Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha alegria como se acabasse de tirar a sorte grande, ou ainda maior, porque o premio da loteria gasta-se, e a morte não se gasta. Fui a casa de minha mãe, com o fim de despedir-me, a titulo de visita. Ou de verdade ou por illusão, tudo alli me pareceu melhor nesse dia, minha mãe menos triste, tio Cosme esquecido do coração, prima Justina da lingua. Passei uma hora em paz. Cheguei a abrir mão do projecto. Que era preciso para viver? Nunca mais deixar aquella casa, ou prender aquella hora a mim mesmo...
CXXXV
Othello.
Jantei fóra. De noite fui ao theatro. Representava-se justamente _Othello_, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assumpto, e estimei a coincidencia. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço,--um simples lenço!--e aqui dou materia á meditação dos psychologos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar á observação de que um lenço bastou a accender os ciumes de Othello e compor a mais sublime tragedia deste mundo. Os lenços perderam-se, hoje são precisos os proprios lençóes; alguma vez nem lençóes ha, e valem só as camisas. Taes eram as ideias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, á medida que o mouro rolava convulso, e Iago distilava a sua calumnia. Nos intervallos não me levantava da cadeira; não queria expôr-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quasi todas nos camarotes, emquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquellas não teria amado alguem que jazesse agora no cemiterio, e vinham outras incoherencias, até que o panno subia e continuava a peça. O ultimo acto mostrou-me que não eu, mas Capitú devia morrer. Ouvi as supplicas de Desdemona, as suas palavras amorosas e puras, e a furia do mouro, e a morte que este lhe deu entre applausos freneticos do publico.
--E era innocente, vinha eu dizendo rua abaixo;--que faria o publico, se ella devéras fosse culpada, tão culpada como Capitú? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria; era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó seria lançado ao vento, como eterna extincção...
Vaguei pelas ruas o resto da noite. Ceei, é verdade, um quasi nada, mas o bastante para ir até á manhã. Vi as ultimas horas da noite e as primeiras do dia, vi os derradeiros passeadores e os primeiros varredores, as primeiras carroças, os primeiros ruidos, os primeiros albores, um dia que vinha depois do outro e me veria ir para nunca mais voltar. As ruas que eu andava como que me fugiam por si mesmas. Não tornaria a contemplar o mar da Gloria, nem a serra dos Orgãos, nem a fortaleza de Santa-Cruz e as outras. A gente que passava não era tanta, como nos dias communs da semana, mas era já numerosa e ia a algum trabalho, que repetiria depois; eu é que não repetiria mais nada.
Cheguei a casa, abri a porta devagarinho, subi pé ante-pé, e metti-me no gabinete; iam dar seis horas. Tirei o veneno do bolso, fiquei em mangas de camisa, e escrevi ainda uma carta, a ultima, dirigida a Capitú. Nenhuma das outras era para ella; senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. Escrevi dous textos. O primeiro queimei-o por ser longo e diffuso. O segundo continha só o necessário, claro e breve. Não lhe lembrava o nosso passado, nem as lutas havidas, nem alegria alguma; falava-lhe só de Escobar e da necessidade de morrer.
CXXXVI
A chicara de café.
O meu plano foi esperar o café, dissolver nelle a droga e ingeril-a. Até lá, não tendo esquecido de todo a minha historia romana, lembrou-me que Catão, antes de se matar, leu e releu um livro de Platão. Não tinha Platão commigo; mas um tomo truncado de Plutarcho, em que era narrada a vida do celebre romano, bastou-me a occupar aquelle pouco tempo, e, para em tudo imital-o, estirei-me no canapé. Nem era só imital-o nisso; tinha necessidade de incutir em mim a coragem delle, assim como elle precisára dos sentimentos do philosopho, para intrepidamente morrer. Um dos males da ignorancia é não ter este remedio á ultima hora. Ha muita gente que se mata sem elle, e nobremente expira; mas estou que muita mais gente poria termo aos seus dias, se pudesse achar essa especie de cocaina moral dos bons livros. Entretanto, querendo fugir a qualquer suspeita de imitação, lembra-me bem que, para não ser encontrado ao pé de mim o livro de Plutarcho, nem ser dada a noticia nas gazetas com a da côr das calças que eu então vestia, assentei de pôl-o novamente no seu logar, antes de beber o veneno.
O copeiro trouxe o café. Ergui-me, guardei o livro, e fui para a mesa onde ficára a chicara. Já a casa estava em rumores; era tempo de acabar commigo. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive animo de despejar a substancia na chicara, e comecei a mexer o café, os olhos vagos, a memoria em Desdemona innocente; o espectaculo da vespera vinha intrometter-se na realidade da manhã. Mas a photographia de Escobar deu-me o animo que me ia faltando; lá estava elle, com a mão nas costas da cadeira, a olhar ao longe...
--Acabemos com isto, pensei.
Quando ia a beber, cogitei se não seria melhor esperar que Capitú e o filho saissem para a missa; beberia depois; era melhor. Assim disposto, entrei a passear no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor, vi-o entrar e correr a mim bradando:
--Papae! papae!
Leitor, houve aqui um gesto que eu não descrevo por havel-o inteiramente esquecido, mas crê que foi bello e tragico. Effectivamente, a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na estante. Ezequiel abraçou-me os joelhos, esticou-se na ponta dos pés, como querendo subir e dar-me o beijo do costume; e repetia, puxando-me:
--Papae! papae!
CXXXVII
Segundo impulso.
Se eu não olhasse para Ezequiel, é provavel que não estivesse aqui escrevendo este livro, porque o meu primeiro impeto foi correr ao café e bebel-o. Cheguei a pegar na chicara, mas o pequeno beijava-me a mão, como de costume, e a vista delle, como o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer aqui; mas vã lá, diga-se tudo. Chamem-me embora assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomára café.
--Já, papae; vou á missa com mamãe.
--Toma outra chicara, meia chicara só.
--E papae?
--Eu mando vir mais; anda, bebe!
Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a chicara, tão tremulo que quasi a entornei, mas disposto a fazel-a cair pela guela abaixo, caso o sabor lhe repugnasse, ou a temperatura, porque o café estava frio... Mas não sei que senti que me fez recuar. Puz a chicara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doudamente a cabeça do menino.
--Papae papae! exclamava Ezequiel.
--Não, não, eu não sou teu pae!
CXXXVIII
Capitú que entra.
Quando levantei a cabeça, dei com a figura de Capitú deante de mim. Eis ahi outro lance, que parecerá de theatro, e é tão natural como o primeiro, uma vez que a mãe e o filho iam á missa, e Capitú não saía sem falar-me. Era já um falar secco e breve; a mór parte das vezes, eu nem olhava para ella. Ella olhava sempre, esperando.
Desta vez, ao dar com ella, não sei se era dos meus olhos, mas Capitú pareceu-me livida. Seguiu-se um daquelles silencios, a que, sem mentir, se pódem chamar de um seculo, tal é a extensão do tempo nas grandes crises. Capitú recompoz-se; disse ao filho que se fosse embora, e pediu-me que lhe explicasse...
--Não ha que explicar, disse eu.
--Ha tudo; não entendo as tuas lagrimas nem as de Ezequiel. Que houve entre vocês?
--Não ouviu o que lhe disse?
Capitú respondeu que ouvira choro e rumor de palavras. Eu creio que ouvira tudo claramente, mas confessal-o seria perder a esperança do silencio e da reconciliação; por isso negou a audiencia e confirmou unicamente a vista. Sem lhe contar o episodio do café, repeti-lhe as palavras do final do capitulo.
--O que? perguntou ella como se ouvira mal.
--Que não é meu filho.
Grande foi a estupefacção de Capitú, e não menor a indignação que lhe succedeu, tão naturaes ambas que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso fôro. Já** ouvi que as ha para varios casos, questão de preço; eu não creio, tanto mais que a pessoa que me contou isto acabava de perder uma demanda. Mas, haja ou não testemunhas alugadas, a minha era verdadeira; a propria natureza jurava por si, e eu não queria duvidar della. Assim que, sem attender á linguagem de Capitú, aos seus gestos, á dôr que a retorcia, a cousa nenhuma, repeti as palavras ditas duas vezes com tal resolução que a fizeram afrouxar. Após alguns instantes, disse-me ella:
--Só se póde explicar tal injuria pela convicção sincera; entretanto, você que era tão cioso dos menores gestos, nunca revelou a menor sombra de desconfiança. Que é que lhe deu tal ideia? Diga,--continuou vendo que eu não respondia nada,--diga tudo; depois do que ouvi, posso ouvir o resto, não póde ser muito. Que é que lhe deu agora tal convicção? Ande, Bentinho, fale! fale! Despeça-me d'aqui, mas diga tudo primeiro.
--Ha cousas que se não dizem.
--Que se não dizem só metade; mas já que disse metade, diga tudo.
Tinha-se sentado n'uma cadeira ao pé da mesa. Podia estar um tanto confusa, o porte não era de accusada. Pedi-lhe ainda uma vez que não teimasse.
--Não, Bentinho, ou conte o resto, para que eu me defenda, se você acha que tenho defesa, ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso mais!
--A separação é cousa decidida, redargui pegando-lhe na proposta. Era melhor que a fizessemos por meias palavras ou em silencio; cada um iria com a sua ferida. Uma vez, porém, que a senhora insiste, aqui vae o que lhe posso dizer, e é tudo.
Não disse tudo; mal pude alludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o nome. Capitú não poude deixar de rir, de um riso que eu sinto não poder transcrever aqui; depois, em um tom juntamente ironico e melancolico:
--Pois até os defunctos! Nem os mortos escapam aos seus ciumes!
Concertou a capinha e ergueu-se. Suspirou, creio que suspirou, emquanto eu, que não pedia outra cousa mais que a plena justificação della, disse-lhe não sei que palavras adequadas a este fim. Capitú olhou para mim com desdem, e murmurou: