Part 11
Fica entendido que era para saborear a sege, não pela vaidade, porque ella não permittia ver as pessoas que iam dentro. Era uma velha sege obsoleta, de duas rodas, estreita e curta, com duas cortinas de couro na frente, que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. Cada cortina tinha um oculo de vidro, por onde eu gostava de espiar para fóra.
--Senta, Bentinho!
--Deixa espiar, mamãe!
E em pé, quando era mais pequeno, mettia a cara no vidro, e via o cocheiro com as suas grandes botas, escanchado na mula da esquerda, e segurando a redea da outra; na mão levava o chicote grosso e comprido. Tudo incommodo, as botas, o chicote e as mulas, mas elle gostava e eu tambem. Dos lados via passar as casas, lojas ou não, abertas ou fechadas, com gente ou sem ella, e na rua as pessoas que iam e vinham, ou atravessavam deante da sege, com grandes pernadas ou passos miudos. Quando havia impedimento de gente ou de animaes, a sege parava, e então o espectaculo era particularmente interessante; as pessoas paradas na calçada ou á porta das casas, olhavam para a sege e falavam entre si, naturalmente sobre quem iria dentro. Quando fui crescendo em edade imaginei que adivinhavam e diziam: «É aquella senhora da rua de Matacavallos, que tem um filho, Bentinho...»
A sege ia tanto com a vida recondita de minha mãe, que quando já não havia nenhuma outra, continuámos a andar nella, e era conhecida na rua e no bairro pela «sege antiga». Afinal minha mãe consentiu em deixal-a, sem a vender logo; só abriu mão della porque as despezas de cocheira a obrigaram a isso. A razão de a guardar inutil foi exclusivamente sentimental; era a lembrança do marido. Tudo o que vinha de meu pae era conservado como um pedaço delle, um resto da pessoa, a mesma alma integral e pura. Mas o uso, esse era filho tambem do carrancismo que ella confessava aos amigos. Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos velhos habitos, velhas maneiras, velhas ideias, velhas modas. Tinha o seu museo de reliquias, pentes desusados, um trecho de mantilha, umas moedas de cobre datadas de 1824 e 1825, e, para que tudo fosse antigo, a si mesma se queria fazer velha; mas já deixei dito que, neste ponto, não alcançava tudo o que queria.
LXXXVIII
Um pretexto honesto.
Não, a ideia de ir ao enterro não vinha da lembrança do carro e suas doçuras. A origem era outra: era porque, acompanhando o enterro no dia seguinte, não iria ao seminario, e podia fazer outra visita a Capitú, um tanto mais demorada. Eis ahi o que era. A lembrança do carro podia vir accessoriamente depois, mas a principal e immediata foi aquella. Voltaria á rua dos Invalidos, a pretexto de saber de Sinházinha Gurgel. Contava que tudo me saisse como naquelle dia, Gurgel afflicto, Capitú commigo no canapé, as mãos presas, o penteado...
--Vou pedir a mamãe.
Abri a cancella. Antes de transpôl-a, assim como ouvira da memoria a palavra do pae do morto, ouvi agora a da mãe, e repeti a meia voz:
--Coitado de Manduca!
LXXXIX
A recusa.
Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro.
--Perder um dia de seminario...
Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha, e depois era gente pobre... Tudo o que me lembrou dizer, disse. Prima Justina opinou pela negativa.
--Você acha que não deve ir? perguntou-lhe minha mãe.
--Acho que não. Que amizade é essa que eu nunca vi?
Prima Justina venceu. Quando referi o caso ao aggregado, este sorriu, e disse-me que o motivo escondido da prima era provavelmente não dar ao enterro «o lustre da minha pessoa.» Fosse o que fosse, fiquei amuado; no dia seguinte, pensando no motivo, não me desagradou; mais tarde achei-lhe um sabor particular.
XC
A polemica.
No dia seguinte, passei pela casa do defuncto, sem entrar nem parar,--ou, se parei, foi só um instante, ainda mais breve que este em que vol-o digo. Se me não engano, andei até mais depressa, receiando que me chamassem como na vespera. Uma vez que não ia ao enterro, antes longe que proximo. Fui andando e pensando no pobre diabo.
Não eramos amigos, nem nos conheciamos de muito. Intimidade, que intimidade podia haver entre a doença delle e a minha saude? Tivemos relações breves e distantes. Fui pensando nellas, recordando algumas. Reduziam-se todas a uma polemica, entre nós, dous annos antes, a proposito... Mal podeis crer a que proposito foi. Foi a guerra da Criméa.
Manduca vivia no interior da casa, deitado na cama, lendo por desfastio. Ao domingo, sobre a tarde, o pae enfiava-lhe uma camisola escura, e trazia-o para o fundo da loja, donde elle espiava um palmo da rua e a gente que passava. Era todo o seu recreio. Foi alli que o vi uma vez, e não fiquei pouco espantado; a doença ia-lhe comendo parte das carnes, os dedos queriam apertar-se; o aspecto não attrahia, de certo. Tinha eu de treze para quatorze annos. Da segunda vez que o vi alli, como falassemos da guerra da Criméa, que então ardia e andava nos jornaes, Manduca disse que os alliados haviam de vencer, e eu respondi que não.
--Pois veremos, tornou elle. Só se a justiça não vencer neste mundo, o que é impossivel, e a justiça está com os alliados.
--Não, senhor, a razão é dos russos.
Naturalmente, iamos com o que nos diziam os jornaes da cidade, transcrevendo os de fóra, mas póde ser tambem que cada um de nós tivesse a opinião do seu temperamento. Fui sempre um tanto moscovita nas minhas ideias. Defendi o direito da Russia, Manduca fez o mesmo ao dos alliados, e o terceiro domingo em que entrei na loja tocámos outra vez no assumpto. Então Manduca propoz que trocassemos a argumentação por escripto, e na terça ou quarta-feira recebi duas folhas de papel contendo a exposição e defesa do direito dos alliados, e da integridade da Turquia, concluindo por esta phrase prophetica:
«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»
Li-a e metti-me a refutal-a. Não me recorda um só dos argumentos que empreguei, nem talvez interesse conhecel-os, agora que o seculo está a expirar; mas a ideia que me ficou delles é que eram irrespondiveis. Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. Fizeram-me entrar na alcova, onde elle jazia estirado na cama, mal coberto por uma colcha de retalhos. Ou gosto da polemica ou qualquer outra causa que não alcanço, não me deixou sentir toda a repugnancia que saía da cama e do doente, e o prazer com que lhe dei o papel foi sincero. Manduca, pela sua parte, por mais nojosa que tivesse então a cara, o sorriso que a accendou dissimulou o mal physico. A convicção com que me recebeu o papel e disse que ia ler e responderia é que não tem palavras nossas nem alheias que a digam de todo e com verdade; não era exaltada, não era ruidosa, não tinha gestos, nem a molestia os permittiria, era simples, grande, profunda, um goso infinito de victoria, antes de saber os meus argumentos. Tinha já papel, penna e tinta ao pé da cama. Dias depois recebi a réplica; não me lembra se trazia cousas novas ou não; o calor é que crescia, e o final era o mesmo:
«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»
Trepliquei, e dahi continuou por algum tempo uma polemica ardente, em que nenhum de nós cedia, defendendo cada um os seus clientes com força e brio. Manduca era mais longo e prompto que eu. Naturalmente a mim sobravam mil cousas que distrahiam, o estudo, os recreios, a familia, e a propria saude, que me chamava a outros exercicios. Manduca, salvo o palmo de rua ao domingo de tarde, tinha só esta guerra, assumpto da cidade e do mundo, mas que ninguem ia tratar com elle. O acaso dera-lhe em mim um adversario; elle, que tinha gosto á escripta, deitou-se ao debate, como a um remedio novo e radical. As horas tristes e compridas eram agora breves e alegres; os olhos desapprenderam de chorar, se por ventura choravam antes. Senti esta mudança delle nas proprias maneiras do pae e da mãe.
--Não imagina como elle anda agora, depois que o senhor lhe escreve aquelles papeis, dizia-me o dono da loja, uma vez, á porta da rua. Fala e ri muito. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os papeis delle, entra a indagar da resposta, e se demorará muito, e que pergunte ao moleque, quando passar. Emquanto espera, relê jornaes e toma notas. Mas tambem, apenas recebe os seus papeis, atira-se a lel-os, e começa logo a escrever a resposta. Ha occasiões em que não come ou come mal; tanto que eu queria pedir-lhe uma cousa, é que não os mande á hora do almoço ou de jantar...
Fui eu que cancei primeiro. Comecei a demorar as respostas, até que não dei mais nenhuma; elle ainda teimou duas ou tres vezes depois do meu silencio, mas não recebendo contestação alguma, por fadiga tambem ou por não aborrecer, acabou de todo com as suas apologias. A ultima, como a primeira, como todas, affirmava a mesma predicção eterna:
«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»
Não entraram, effectivamente, nem então, nem depois, nem até agora. Mas a predicção será eterna? Não chegarão a entrar algum dia? Problema difficil. O proprio Manduca, para entrar na sepultura, gastou tres annos de dissolução, tão certo é que a natureza, como a historia, não se faz brincando. A vida delle resistiu como a Turquia; se afinal cedeu foi porque lhe faltou uma alliança como a anglo-franceza, não se podendo considerar tal o simples accordo da medicina e da pharmacia. Morreu afinal, como os Estados morrem; no nosso caso particular, a questão é saber, não se a Turquia morrerá, porque a morte não poupa a ninguem, mas se os russos entrarão algum dia em Constantinopla; essa era a questão para o meu visinho leproso, debaixo da triste, rota e infecta colcha de retalhos...
XCI
Achado que consola.
É claro que as reflexões que ahi deixo não foram feitas então, a caminho do seminario, mas agora no gabinete do Engenho Novo. Então, não fiz propriamente nenhuma, a não ser esta: que servi de allivio um dia ao meu visinho Manduca. Hoje, pensando melhor, acho que não só servi de allivio, mas até lhe dei felicidade. E o achado consola-me; já agora não esquecerei mais que dei dous ou tres mezes de felicidade a um pobre diabo, fazendo-lhe esquecer o mal e o resto. É alguma cousa na liquidação da minha vida. Se ha no outro mundo tal ou qual premio para as virtudes sem intenção, esta pagará um ou dous dos meus muitos peccados. Quanto ao Manduca, não creio que fosse peccado opinar contra a Russia, mas, se era, elle estará purgando ha quarenta annos a felicidade que alcançou em dous ou tres mezes,--donde concluirá (já tarde) que era ainda melhor haver gemido sómente, sem opinar cousa nenhuma.
XCII
O diabo não é tão feio como se pinta.
Manduca enterrou-se sem mim. A muitas outros aconteceu a mesma cousa, sem que eu sentisse nada, mas este caso affligiu-me particularmente pela razão já dita. Tambem senti não sei que melancolia ao recordar a primeira polemica da vida, o gosto com que elle recebia os meus papeis e se propunha a refutal-os, não contando o gosto do carro... Mas o tempo apagou depressa todas essas saudades e resurreições. Nem foi só elle; duas pessoas vieram ajudal-o, Capitú, cuja imagem dormiu commigo na mesma noite, e outra que direi no capitulo que vem. O resto deste capitulo e só para pedir que, se alguem tiver de ler o meu livro com alguma attenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar, não deixe de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta. Quero dizer...
Quero dizer que o meu visinho de Matacavallos, temperando o mal com a opinião anti-russa, dava á podridão das suas carnes um reflexo espiritual que as consolava. Ha consolações maiores, de certo, e uma das mais excellentes é não padecer esse nem outro mal algum, mas a natureza é tão divina que se diverte com taes contrastes, e aos mais nojentos ou mais afflictos acena com uma flòr. E talvez saia assim a flòr mais bella; o meu jardineiro affirma que as violetas, para terem um cheiro superior, hão mister de estrume de porco. Não examinei, mas deve ser verdade.
XCIII
Um amigo por um defuncto.
Quanto á outra pessoa que teve a força obliterativa, foi o meu collega Escobar que no domingo, antes do meio dia, veiu ter a Matacavallos. Um amigo suppria assim um defuncto, e tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se me não visse desde longos mezes.
--Você janta commigo, Escobar?
--Vim para isto mesmo.
Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me tinha, e elle respondeu com muita polidez, ainda que um tanto atado, como se carecesse de palavra prompta. Já viste que não era assim, a palavra obedecia-lhe, mas o homem não é sempre o mesmo em todos os instantes. O que elle disse, em resumo, foi que me estimava pelas minhas boas qualidades e aprimorada educação; no seminario todos me queriam bem, nem podia deixar de ser assim, accrescentou. Insistia na educação, nos bons exemplos, «na doce e rara mãe» que o ceu me deu... Tudo isso com a voz engasgada e tremula.
Todos ficaram gostando delle. Eu estava tão contente como se Escobar fosse invenção minha. José Dias desfechou-lhe dous superlativos, tio Cosme dous capotes, e prima Justina não achou tacha que lhe pôr; depois, sim, no segundo ou terceiro domingo, veiu ella confessar-nos que o meu amigo Escobar era um tanto mettidiço e tinha uns olhos policiaes a que não escapava nada.
--São os olhos delle, expliquei.
--Nem eu digo que sejam de outro.
--São olhos reflectidos, opinou tio Cosme.
--Seguramente, acudiu José Dias, entretanto, póde ser que a senhora D. Justina tenha alguma razão. A verdade é que uma cousa não impede outra, e a reflexão casa-se muito bem á curiosidade natural. Parece curioso, isso parece, mas...
--A mim parece-me um mocinho muito serio, disse minha mãe.
--Justamente! confirmou José Dias para não discordar della.
Quando eu referi a Escobar aquella opinião de minha mãe (sem lhe contar as outras naturalmente) vi que o prazer delle foi extraordinario. Agradeceu, dizendo que eram bondades, e elogiou tambem minha mãe, senhora grave, distincta e moça, muito moça... Que edade teria?
--Já fez quarenta, respondi eu vagam ente por vaidade.
--Não é possivel! exclamou Escobar. Quarenta annos! Nem parece trinta; está muito moça e bonita. Tambem a alguem ha de você sair, com esses olhos que Deus lhe deu; são exactamente os della. Enviuvou ha muitos annos?
Contei-lhe o que sabia da vida della e de meu pae. Escobar escutava attento, perguntando mais, pedindo explicação das passagens omissas ou só escuras. Quando eu lhe disse que não me lembrava nada da roça, tão pequenino viera, contou-me duas ou tres reminiscencias dos seus tres annos de edade, ainda agora frescas. E não contavamos voltar á roça?
--Não, agora não voltamos mais. Olhe, aquelle preto que alli vae passando, é de lá. Thomaz!
--Nhonhô!
Estavamos na horta da minha casa, e o preto andava em serviço; chegou-se a nós e esperou.
--É casado, disse eu para Escobar. Maria onde está?
--Está soccando milho, sim, senhor.
--Você ainda se lembra da roça, Thomaz?
--Alembra, sim, senhor.
--Bem, vá-se embora.
Mostrei outro, mais outro, e ainda outro, este Pedro, aquelle José, aquelle outro Damião...
--Todas as lettras do alphabeto, interrompeu Escobar.
Com effeito, eram differentes lettras, e só então reparei nisto; apontei ainda outros escravos, alguns com os mesmos nomes, distinguindo-se por um appellido, ou da pessoa, como João Fulo, Maria Gorda, ou de nação como Pedro Benguella, Antonio Moçambique...
--E estão todos aqui em casa? perguntou elle.
--Não, alguns andam ganhando na rua, outros estão alugados. Não era possivel ter todos em casa. Nem são todos os da roça; a maior parte ficou lá.
--O que me admira é que D. Gloria se acostumasse logo a viver em casa da cidade, onde tudo é apertado; a de lá é naturalmente grande.
--Não sei, mas parece. Mamãe tem outras casas maiores que esta; diz porém que ha de morrer aqui. As outras estão alugadas. Algumas são bem grandes, como a da rua da Quitanda...
--Conheço essa; é bonita.
--Tem tambem no Rio Comprido, na Cidade-Nova, uma no Cattete...
--Não lhe hão de faltar tectos, concluiu elle sorrindo com sympathia.
Caminhámos para o fundo. Passámos o lavadouro; elle parou um instante ahi, mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a proposito do asseio; depois continuámos. Quaes foram as reflexões não me lembra agora; lembra-me só que as achei engenhosas, e ri, elle riu tambem. A minha alegria accordava a delle, e o ceu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir tambem comnosco. São assim as boas horas deste mundo. Escobar confessou esse accordo do interno com o externo, por palavras tão finas e altas que me commoveram; depois, a proposito da belleza moral que se ajusta á physica, tornou a falar de minha mãe, «um anjo dobrado», disse elle.
XCIV
Ideias arithmeticas.
Não digo o mais, que foi muito. Nem elle sabia só elogiar e pensar, sabia tambem calcular depressa e bem. Era das cabeças arithmeticas de Holmes (2+2=4). Não se imagina a facilidade com que elle sommava ou multiplicava de cór. A divisão, que foi sempre uma das operações difficeis para mim, era para elle como nada: cerrava um pouco os olhos, voltados para cima, e sussurrava as denominações dos algarismos: estava prompto. Isto com sete, treze, vinte algarismos. A vocação era tal que o fazia amar os proprios signaes das sommas, e tinha esta opinião que os algarismos, sendo poucos, eram muito mais conceituosos que as vinte e cinco letras do alphabeto.
--Ha lettras inuteis e lettras dispensaveis, dizia elle. Que serviço diverso prestam o _d_ e o _t_? Tem quasi o mesmo som. O mesmo digo do _b_ e do _p_, o mesmo do _s_, do _c_ e do _z_, o mesmo do _k_ e do _g_, etc. São trapalhices calligraphicas. Veja os algarismos: não ha dous que façam o mesmo officio; 4 é 4, e 7 é 7. E admire a belleza com que um 4 e um 7 formam esta cousa que se exprime por 11. Agora dobre 11 e terá 22; multiplique por egual numero, dá 484, e assim por deante. Mas onde o perfeição é maior é no emprego do _zero._ O valor do _zero_ é, em si mesmo, nada; mas o officio deste signal negativo é justamente augmentar. Um 5 sósinho é um 5; ponha-lhe dous 00, é 500. Assim, o que não vale nada faz valer muito, cousa que não fazem as letras dobradas, pois eu tanto _approvo_ com um _p_ como com dous _pp._
Criado na orthographia de meus paes, custava-me a ouvir taes blasphemias, mas não ousava refutal-o. Com tudo, um dia, proferi algumas palavras de defesa, ao que elle respondeu que era um preconceito, e accrescentou que as ideias arithmeticas podiam ir ao infinito, com a vantagem que eram mais faceis de menear. Assim que, eu não era capaz de resolver de momento um problema philosophico ou linguistico, ao passo que elle podia sommar, em tres minutos, quaesquer quantias.
--Por exemplo... dê-me um caso, dê-me uma porção de numeros que eu não saiba nem possa saber antes... olhe, dê-me o numero das casas de sua mãe e os alugueis de cada uma, e se eu não disser a somma total em dous, em um minuto, enforque-me!
Acceitei a aposta, e na semana seguinte levei-lhe escriptos em um papel os algarismos das casas e dos alugueis. Escobar pegou no papel, passou-os pelos olhos afim de os decorar, e emquanto eu fitava o relogio, elle erguia as pupillas, cerrava as palpebras, e sussurrava... Oh! o vento não é mais rápido! Foi dito e feito; em meio minuto bradava-me:
--Dá tudo 1:070$000 mensaes.
Fiquei pasmado. Considera que eram não menos de nove casas, e que os alugueis variavam de uma para outra, indo de 70$000 a 180$000. Pois tudo isto em que eu gastaria tres ou quatro minutos,--e havia de ser no papel,--fel-o Escobar de cór, brincando. Olhava-me triumphalmente, e perguntava se não era exacto. Eu, só por lhe mostrar que sim, tirei do bolso o papelinho que levava com a somma total, e mostrei-lh'o; era aquillo mesmo, nem um erro: 1:070$000.
--Isto prova que as ideias arithmeticas são mais simples, e portanto mais naturaes. A natureza é simples. A arte é atrapalhada.
Fiquei tão enthusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçal-o. Era no pateo; outros seminaristas notaram a nossa effusão; um padre que estava com elles não gostou.
--A modestia, disse-nos, não consente esses gestos excessivos; pódem estimar-se com moderação.
Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e propoz-me viver separados. Interrompi-o dizendo que não; se era inveja, tanto peor para elles.
--Quebremos-lhe a castanha na bocca!
--Mas...
--Fiquemos ainda mais amigos que até aqui.
Escobar apertou-me a mão ás escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos. É illusão, de certo, se não é effeito das longas horas que tenho estado a escrever sem parar. Suspendamos a penna por alguns instantes...
XCV
O papa.
A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda; a de José Dias não lhe quiz ficar atraz. Na primeira semana disse-me este em casa:
--Agora é certo que você vae sair já do seminario.
--Como?
--Espere até amanhã. Vou jogar com elles que me chamaram; amanhã, lá no quarto, no quintal, ou na rua, indo á missa, conto-lhe o que ha. A ideia é tão santa que não está mal no santuario. Amanhã, Bentinho.
--Mas é cousa certa?
--Certíssima!
No dia seguinte revelou-me o mysterio. Ao primeiro aspecto, confesso que fiquei deslumbrado. Trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade que falava aos meus olhos de seminarista. Era não menos que isto. Minha mãe, ao parecer delle, estava arrependida do que fizera, e desejaria ver-me cá fóra, mas entendia que o vinculo moral da promessa a prendia indissoluvelmente. Cumpria rompel-o, e para tanto valia a Escriptura, com o poder de desligar dado aos apostolos. Assim que, elle e eu iriamos a Roma pedir a absolvição do papa... Que me parecia?
--Parece-me bem, respondi depois de alguns segundos de reflexão. Póde ser um bom remedio.
--É o unico, Bentinho, é o unico! Vou já hoje conversar com D. Gloria, exponho-lhe tudo, e podemos partir daqui a dous mezes, ou antes...
--Melhor é falar domingo que vem; deixe-me pensar primeiro...
--Oh! Bentinho! interrompeu o aggregado. Pensar em que? Você o que quer... Digo? não se amofina com o seu velho? Você o que quer é consultar a uma pessoa.
Rigorosamente, eram duas pessoas, Capitú e Escobar, mas eu neguei a pés juntos que quizesse consultar ninguem. E que pessoa, o reitor? Não era natural que lhe confiasse tal assumpto. Não, nem reitor, nem professor, nem ninguem; era só o tempo de reflectir, uma semana, no domingo daria a resposta, e desde já lhe dizia que a ideia não me parecia má.
--Não?
--Não.
--Pois resolvamos hoje mesmo.
--Não se vae a Roma brincando.
--Quem tem bocca vae a Roma, e bocca no nosso caso é a moeda. Ora, você póde muito bem gastar comsigo... Commigo, não; um par de calças, tres camisas e o pão diário, não preciso mais. Serei como S. Paulo, que vivia do officio emquanto ia prégando a palavra divina. Pois eu vou, não prégal-a, mas buscal-a. Levaremos cartas do internuncio e do bispo, cartas para o nosso ministro, cartas de capuchinhos... Bem sei a objecção que se póde oppôr a esta ideia; dirão que é dado pedir a dispensa cá de longe; mas, além do mais que não digo, basta reflectir que é muito mais solemne e bonito ver entrar no Vaticano, e prostrar-se aos pés do papa o proprio objecto do favor, o levita promettido, que vae pedir para sua mãe ternissima e dulcissima a dispensa de Deus. Considere o quadro, você beijando o pé ao príncipe dos apostolos; Sua Santidade, com o sorriso evangelico, inclina-se, interroga, ouve, absolve e abençoa. Os anjos o contemplam, a Virgem recommenda ao santissimo filho que todos os seus desejos, Bentinho, sejam satisfeitos, e que o que você amar na terra seja egualmente amado no ceu...