Dois folhetins. Suplício de uma mulher

Chapter 2

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O Suplício de uma mulher trata da questão do adultério com os traços mais vigorosos e novos; os autores não recuaram diante de nenhuma dificuldade, nem mesmo diante do fruto do amor criminoso; e essa situação, se impressiona pela ousadia, corrige pela energia da verdade; no meio de todos os seus protestos de amor, o erro de Matilde não merece simpatia alguma, e quando no último ato, o marido assume a inflexibilidade de juiz, e lavra aquela sentença tão grandiosa e tão profunda, as simpatias do espectador ficam em casa com Dumont, ao passo que Matilde e Alvarez levam apenas a sua condenação. Ninguém se revolta contra a sentença de Dumont; chegando em frente do terrível problema, posto nos dois primeiros atos, o espectador anseia, palpita, interroga, em busca de uma solução difícil para ele, e desde que ela aparece na boca do marido ultrajado, há um movimento íntimo, de aplauso e de satisfação, por aquela vitória da lei moral e da pureza dos costumes.

Ora, se a conclusão nos satisfaz, e se a situação não nos seduz, onde está o escândalo da peça? Uma obra é moral — lembra-me ter lido em Mme. de Staël, — se a impressão que se recebe é favorável ao aperfeiçoamento da alma humana... A moralidade de uma obra consiste nos sentimentos que ela inspira. Ninguém dirá que os sentimentos que nos inspira o Suplício de uma mulher sejam simpáticos à perversão dos costumes; e se as nossas lágrimas acompanham Dumont, é que estão do lado do dever.

De todos os caracteres da peça, o mais perfeito e o mais completo é Dumont, — confiante, dedicado, amante, nos dias da paz doméstica, nada perde da sua nobreza na hora do infortúnio conjugal. Quando Matilde lhe entrega a carta de Alvarez, o seu coração prorrompe a linguagem da sua indignação: é o primeiro castigo da culpada; mas depois, quando ele volta sobre si mesmo, e reflete na enormidade da situação em que se acha, a idéia que o domina é a de salvar a sua honra e o futuro da menina, que não pode ser solidária no crime de Matilde e de Alvarez. Daqui vem naturalmente a conclusão da peça, conclusão nova, e profundamente moral.

Alvarez é igualmente um caráter humano, até na paixão que o domina, e que, se não serve à consciência dos espectadores, serve à sua própria, e é aos olhos dele uma justificação. Os autores não pretendem impô-lo à simpatia do espectador, como um tipo do dever, nem este o aceita; ao contrário, quando Dumont lhe pergunta no 3° ato, — se ele está no caso de recusar alguma infâmia, — já o espectador tem feito a mesma pergunta; mas, no desvio de sua paixão criminosa, — e está nisso a lição do exemplo, — Alvarez julga a proposta de Dumont mais indigna que a sua traição.

De todos os caracteres, — Matilde é o que me parece mais fraco; se fosse o amor que a impelisse ao erro, conservava-se ela dentro das condições humanas; mas o erro por um motivo de gratidão pelo favor prestado ao marido, não me parece inteiramente filho da lógica moral dos sentimentos. Isto, porém, não impede que o remorso lhe lacere a alma; o belo monologo do 2° ato é na realidade a expressão fiel das suas dores íntimas, com a diferença de que, no meio da ruína da sua vida, aquelas lamentações, se conseguem despertar a nossa piedade, não arrancam a nossa absolvição.

Pondo de parte o papel da menina Joana, que, como diz Alvarez, ainda não tem caráter determinado, resta-nos a Sra. Larcey, criação cômica de um feliz acabado, copiada do natural, e habilmente introduzida na peça.

Tais são as personagens do Suplício de uma mulher.

Cheio de cenas novas e lances originais, entre os quais a entrega da carta no segundo ato, que interessa ao último ponto por sua altura dramática, o Suplício de uma mulher está destinado a colher na cena brasileira os aplausos e as ovações de que tem sido objeto nos teatros da Europa.

É fácil predizer-se esta boa sorte ao Suplício de uma mulher. Não há muitos dramas que consigam, como este, prender tão poderosamente a atenção e revolver tão profundamente a alma. A aceitação por parte do público será também uma prova em favor da sociedade, que encontra nele a defesa dos deveres morais e da santidade do casamento.

Insisto neste ponto, porque é ele tão evidente e tão positivo no Suplício de uma mulher, que as apreciações contrárias não se podem sustentar. Que essas apreciações se produzam, contra a evidência dos fatos, não é isso uma desconsolação para os autores. A história literária de todos os tempos encerra mais de um exemplo desta luta, de que saem vitoriosas as obras verdadeiramente duráveis.

Seja-me lícito citar um gênio, o grande Molière, que caminha, ao par de Shakespeare, na vanguarda dos poetas dramáticos, e citá-lo, na sua obra mais perfeita, Misantropo. Há nada mais eternamente belo, mais eternamente moral? E contudo não achou J. J. Rousseau, na celebre carta a d'Alembert, que Molière tinha ridicularizada a virtude? Mercier não escreveu também que todas as peças do grande poeta eram apologias do vício?

Nos nossos dias, quando o adorável talento de Madame Sand deu ao mundo literário essa longa série de livros que hão de desafiar os séculos e levar à mais remota posteridade o nome da sua prodigiosa criadora, de todos os lados da literatura surgiram críticas acerbas contra ela, e dizia-se desassombradamente, que essas obras eram libelos contra o casamento e a moral.

Que vimos então? Vimos o mais ilustre crítico da escola clássica, Gustave Planche, apreciar, com aquele alto critério que sempre o distinguiu, as obras tão incriminadas, mostrando aos olhos do mundo literário as grandes belezas da autora de Indiana, e servindo deste modo à verdadeira causa da arte.

Mesmo sem assistência de um juiz tão competente, o Suplício de uma mulher pode esperar igual fortuna. É esta a minha convicção, e para os meus amigos, é inútil declará-la; eles sabem que eu não me faria tradutor de uma obra de cuja deformidade moral e poética estivesse convencido.

Os indiferentes poderão julgar o contrário; e talvez os induza a isso uma frase que escapou ontem ao colega do Jornal do Comércio e, quando se refere à questão literária que houve em Paris, por ocasião da representação da peça. “Nem esse escândalo, diz o colega, se quis perder aqui, e antes da representação do drama a imprensa narrou largamente a história da origem”. Os leitores do Diario sabem que, antes da representação do Suplício de uma mulher foi narrado o referido escândalo nestas colunas, em artigo assinado por mim.

Vou ajudar a perspicácia do Jornal do Comércio.

A narração do escândalo tinha dois motivos: o primeiro era explicar as razões pelas quais dei à peça os nomes dos dois autores, quando o original francês não os mencionava; o segundo era dar conhecimento aos leitores de um incidente curioso, e que tanto excitara a curiosidade pública da Europa. É a isto que o Jornal do Comércio chama exploração do escândalo?

Mas eu não posso reconhecer na frase do Jornal do Comércio mais do que uma irreflexão, mui pouco própria da idade madura, não devendo admitir que ele pudesse ter nenhuma intenção ofensiva contra mim; e se tal intenção existisse, é inútil dizer que a mencionada frase, perdendo aos meus olhos o seu diminutíssimo valor, só teria como resposta o silêncio do desdém.

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