Chapter 5
«Possuo mesmo muitas cartas de discipulos dessas escolas, e incidentemente tenho tido ensejo de apreciar as ideias que revelam e os caracteres que traduzem.
«Sem matematicas e sem quimicas e fisicas e mais ferramenta dos apuros scientificos modernos, não descubro em que pontos e por que lados os antigos eram inferiores aos modernos como homens praticos, como conhecedores das coisas da terra e seus administradores, como capacidade de reger os homens e lhes tratar os bens.
«Foram esses, os classicos, os discipulos das humanidades tão desprezadas pelos seus filhos, que iniciaram a renovação economica da Europa (e por sinal que com muita coisa excelente iniciaram muita coisa tragica); foram eles que organizaram a fábrica e traçaram a via férrea, que deificaram a maquina a vapor e os teares mecanicos, e tudo isso fizeram não só com uma percepção clarissima dos fins e meios e consequencias, mas com uma fé e um entusiasmo que a prodigalidade de invenções e as maravilhas da industria da nossa era jámais encontraram em igual grau entre os contemporaneos. Não tiveram nem sombra de educação scientifica; nas suas escolas, as declinações dos verbos e nomes tinham uma importancia suprema sobre as quatro operações aritmeticas. Não foi isso, porêm, impedimento a que calculassem com precisão e justeza, quando isso se lhes tornou necessario. Meu pai, latinista apaixonado e aferindo todos os valores literarios pelo classicismo, não deixou por essa qualidade de ser um comerciante previdente, habil e seguro e um belo administrador das instituições economicas em que serviu. Deu boas provas disso. Pois em matéria de literatura dessa especialidade não cansou a vista, quando aliás muito costumava lêr. No seu espolio, entre algumas centenas de volumes, sómente um peregrino «codigo comercial», ali perdido, lembrava o comerciante.
«É que a gente do seu tempo tinha uma concepção muito diferente das necessidades da vida pratica. Julgava-a muito mais acessivel do que hoje a julgamos; parecia-lhe que era questão de simples bom senso, a que todo o homem medianamente educado póde chegar, e muita ferramenta e metralha que nós supomos apuradissima sciencia, deixava-a puramente a cargo da oficina. Guardava-se para aproveitar ou desprezar os inventos que as oficinas lhe ofereciam, segundo as relações de conveniencia ou inconveniencia que lhes encontrasse com os muitos e variadissimos elementos sociais que iam tocar.
«Para êste ultimo papel se destinava. E, como êle era uma coisa essencialmente humana, como a humanidade era o ponto ultimo de referencia de todos os progressos e invenções, o ensino das humanidades lhe bastava, o conhecimento do passado dos homens a inspirava, sempre confiando em que o melhor mestre da vida era a experiencia e da experiencia rezavam abundantissimamente os alfarrabios gregos e latinos.
«Não direi que a gente saída das escolas classicas pensasse isto tão nitidamente, como hoje se nos apresenta. Mas sentia-o e punha-o em pratica, o que foi sem dúvida muito melhor e mais útil. Da sua utilidade colhemos nós os frutos, nós que, cheios de prosapia, emendamos, corrigimos e em grande parte abandonamos por supérfluo o ensino dos nossos pais--esse mesmo ensino que foi tanto ou tão pouco mesquinho, estreito e infecundo que deu de si uma transformação politica como a Revolução Francêsa, uma revolução literaria como o romantismo, e uma revolução industrial como a fábrica moderna.
«O que todos nós poderemos verificar passando os olhos pela correspondencia vulgar dos homens daqueles tempos e daquelas escolas, é o primor de linguagem. Qualquer morgado das selvas mandava um recado ao feitor em termos mais concisos, mais claros e mais belos do que aqueles que hoje usa muitas vezes um professor dirigindo-se ao reitor da sua universidade. Os documentos oficiais, a correspondencia entre as autoridades e a exposição de suas narrações e reflexões são pedra talhada e polida, duma finura de arestas em que não ha linha tremida ou apagada; as ambiguidades, as confusões, os pleonasmos, a arrastada negligencia de quem não sabe ao certo o que diz, eram provavelmente pecados tão graves que um fino instinto adquirido no correr dos séculos os evitara sem mais esforço. Escrevia-se bem; escrevia-se com clareza.
«Adivinha-se a resposta da «sciencia». Virá clamar que o importante é saber, não é dizer. Cheira-lhe a rapé, a alfazema, a côrte e a convento esse cuidado na expressão. Aborrece-o por artificial, pretencioso e vão. Mas outros pretenderão que, se o bem pensar deve preceder o bem dizer, nem por isso deixa de ser certo que para bem dizer é necessario pensar bem, e emquanto apuramos a linguagem e procuramos os melhores termos e a melhor ordem, submetemos o pensamento a um minucioso exame, de caminho o corrigimos, acabando bastas vezes por lhe descobrir erros e faltas de logica que afinal o alteram profundamente e subvertem.
«Por mais que o modernismo scientifico me pregue e fale das suas glórias, eu sempre me sentirei envergonhado das minhas desordenadas prosas perante o falar correntio e limpido dêsses velhotes fradêscos que em duas linhas sabiam dizer o que queriam dizer e por nenhuma outra forma se podia traduzir mais lucidamente. E verificado o milagre e desejando repeti-lo, e convencido dos seus beneficios, não sei que haja modo de o reproduzir sem beber das mesmas aguas que o criaram.
«Sómente me palpita que, por muito que nos apressemos na jornada, quando chegarmos á fonte já lá encontramos uma multidão. Tudo o anuncia. Felizes os que forem na frente.»
II
Isto escrevi ha seis anos[14], e, se agora tenho a indiscrição de o desenterrar, não é para fazer registo, em meu beneficio, de antecipações, mas sómente para lembrar como vinha de longe aquela corrente de reacção contra o desvario do ensino meramente scientifico, da qual nas minhas breves tarefas de jornalista fui um passageiro e modestissimo interprete. Quanto então dizia não era meu; era do tempo. Hoje o encontramos no seu natural desenvolvimento, esclarecido e animado por uma experiencia terrivel, envolvido e singularmente revelado no conflicto das nações armadas e em guerra sangrenta, representando a Alemanha, pelos acasos da sua sorte, um gráu maravilhoso de cultura e organisação scientifica, significando a França, com os povos que lhe estão aliados, aquela velha cultura classica que foi tida por insuficiente e ineficaz para realisar as aspirações modernas da civilização, e resultando da oposição destas duas correntes a necessidade de escolha e reforma dos principios fundamentais da educação.
Um artigo magnifico, publicado no _Times_ em fevereiro de 1917 e assinado por _Um oficial ferido_, põe em termos de perfeita clareza, que convém registar, esta dualidade em conflicto.
São desse artigo estes periodos que vou transcrever:
«A guerra pôs em evidencia certas alternativas espirituais; tornou-as inteligiveis encorporando-as em personalidade. Fez que muitos mil homens, inteiramente isentos de odio contra a Alemanha, preguntem:--O que é que na atitude alemã perante a vida ha que no-la torna intoleravel? Porque é que nós sentimos que a causa da França e da Inglaterra é a causa da humanidade?
«Isto preguntam, e, se são francêses ou inglêses, (latinos ou latinisados, diremos nós), respondem que o que é intoleravel na Alemanha, o que pretere as multiplices excelencias do seu saber e espirito publico, é que ha nela qualquer cousa que grava sinais de morte naquilo que ela toca; qualquer cousa que é a antitese da individualidade, das aspirações pessoais e esforço e sacrificio espontaneo; um espirito que organisa os homens mas não os inspira, que os cultiva mas não os ama, que faz um estado poderoso mas não faz uma democracia nem uma igreja, e que, emquanto os pecados caracteristicos da França e da Inglaterra são os dos homens, fraqueza, paixão e leviandade, os pecados caracteristicos da Prussia, como ela é hoje, são os do demonio, a arrogancia intelectual, a frieza do coração, e o desprezo pelo que é digno de piedade e amor, e ridiculo em a natureza humana... Temos de reconhecer que a luta real, de que esta guerra é apenas um episodio, não é meramente entre o nosso país (a Inglaterra) e qualquer cousa tão instavel e transitoria como a Alemanha moderna, mas entre as exigencias permanentes e irreconciliaveis da alma dos homens, e que o que tornou perigoso o espirito germanico é que ele não é alheio mas horrivelmente identico ao de quase todo o mundo moderno. Porque o espirito do imperialismo germanico é com demasiada frequencia o espirito do industrialismo inglês e americano, com todo o seu culto do poder como um fim só por si, com os seus padrões materiais grosseiros, a sua subordinação da personalidade ao maquinismo, o seu culto de uma organisação complicada e mortal para a alma; e o materialismo, que na Prussia se revela na adoração do poder do estado, revela-se na Inglaterra na adoração do poder do dinheiro.
«Não é mais nobre este ultimo, é mais ignobil, porque é menos desinteressado que o primeiro. Não é tão violento, é mais maliciosamente corrupto, e, pelo que respeita á massa do genero humano, quase igualmente tiranico. Mas, ou tome a forma de violencia militar ou a de cobiça mercantil, o espirito do materialismo é um só, e é um só tambem o espirito que lhe resiste.»
«E, se nós sentimos que os direitos absolutos da personalidade, a conservação e desenvolvimento da liberdade espiritual, são dignos de sacrificio em tempo de guerra, igualmente sentiremos que são dignos de sacrificio em tempo de paz. Ora a esfera em que os direitos da personalidade mais claramente estão envolvidos, e onde o que os ameaça é mais evidentemente obra de motivos materialistas, é a esfera da educação.
«A educação oferece, todavia, uma especie de _experimentum crucis_, uma conjuntura na qual se podem pôr em prova as causas pelas quais afirmamos ter pegado em armas. Pois, por fim, os meritos de uma guerra teem de ser julgados, não pela correspondencia diplomatica que a precedeu, não pelos esforços que se empregam para a ganhar, mas pela especie de civilização que dela deriva, pela habilidade do vencedor em estabelecer, não só sobre o inimigo mas sobre si mesmo, a autoridade dos principios pelos quais alega ter combatido.
«Se, como nós pretendemos, a causa da Inglaterra é a causa de todas as mais altas possibilidades do espirito humano, então teremos de perpetuar essa mesma causa em as nossas instituições sociais, cujo caracter depende do caracter da educação que dermos aos nossos filhos e filhas.»
Uma calamidade sem nome obrigou-nos a preguntar á nossa consciencia para que é que criamos os filhos. Da resposta que ela nos dér, esclarecida pela mais cruel das experiencias, dependerão os fins e processos dessa criação.
O que a experiencia nos diz, ao fim de quase meio seculo de educação impetuosamente scientifica, é que a vida imporia mais pelo que pensamos e sentimos, pelo repouso ou pela inquietação do nosso espirito, do que pelo que dominamos, compreendemos e possuimos, pelo que a nossa acção apreende e pelo que a nossa inteligencia alcança. É isto o que de todo temos trazido esquecido, naquela sujeição dos homens ás cousas que foi a paixão cega da educação scientifica moderna e da especie de cultura que ela produziu; e foi por muito evidente se haver tornado esta subalternisação dos valores morais perante as conquistas materiais que M.me Montessori, com uma penetração profetica, muito antes que a guerra o manifestasse pelas suas angustias, julgou que «o homem que tão maravilhosamente transforma o seu ambiente e curva o universo á sua vontade, não conseguiu transformar-se a si mesmo.»
Nem se imagine que este modo de vêr é o preconceito tradicional do latino e seus derivados e afins, todos impregnados de aspirações de nobreza e heroismo, facilmente trocando o dinheiro e toda a riqueza e a propria existencia fisica pela dignidade do caracter e pela gloria. Além do Reno, onde a força criou o seu imperio e o administrou e acrescentou em menoscabo de qualquer cousa eterea que teve por sentimentalismo e enfermidade, tambem o desengano encontrou os seus arautos. E Eucken, o filosofo cuja elevação de espirito e profundeza de inteligencia são de apreciar e respeitar em todo o mundo culto, sem embargo das paixões de patriotismo que o possam perturbar, não nega a falencia da utopia materialista. Discorrendo sobre _as experiencias da guerra e as exigencias do futuro_, confessou que a guerra revelou um predominio geral de egoismo, falsidade e cobiça entre todas as nações nela interessadas, mais largamente disseminado do que até aqui se suspeitára. Em seu conceito, a crença na bondade fundamental da humanidade recebeu golpes profundos. A Alemanha orgulhava-se do seu trabalho, mas este orgulho do trabalho, organisação e educação carecia talvez de cousas fundamentais da vida que ele preteriu; em vez de cultivar essas cousas mais profundas e imponderaveis, o alemão acrescentou ás ambições do trabalho as cobiças do prazer. Os desejos do corpo tomaram o logar dos desejos do espirito, e é essencial para uma nação a cultura do senso responsavel dos valores morais, o desenvolvimento de um sentimento que a habilite a distinguir entre o bem e o mal, entre o real e o ilusorio, entre a verdade e a falsidade, entre a grandeza e a mesquinhez. «Não hesitava em dizer que quanto mais cresceu a perfeição do trabalho, mais pequena se tornou a alma... Um homem tem de ser julgado unicamente pelo que de humanidade nele houver.» Quereria vêr a nação mais ardente no apreço daqueles altos e grandes valores da alma, sem os quais nação alguma póde ser verdadeiramente grande, sem os quais nação alguma pode cumprir a sua missão no mundo.
O desprezo a que chegaram esses «altos e grandes valores da alma», que são a medida da dignidade do homem, todos o sabemos e magoadamente o sentimos nas relações quotidianas ordinarias. De facto, a experiencia da guerra, embora de uma eloquencia suprema, era desnecessaria para reconhecer a miseria moral a que haviamos baixado; no comercio moral das sociedades ha muito se acumulavam os sinais de depressão. Visitassemos nós um liceu ou uma universidade, preguntassemos pelas suas aspirações aos rapazes que lá andassem, e este queria ser engenheiro, aquele queria ser medico, aqueloutro advogado, e ainda alguem preferiria ser comerciante, mas todos sonhavam proventos de muitos contos de reis e a isso referiam o valor da carreira. Nem um só nos responderia que a sua ambição era viver de pouco, honestamente, engrandecendo o espirito e servindo o proximo. Nenhum se dedicaria a professar naquela «classe de homens», de que Platão falou, onde disse que «é pequena, rara por sua natureza e o produto de uma educação ideal aquela classe de homens que voltam a face firmemente para a moderação, quando sentem uma necessidade ou um desejo, que são sobrios quando teem ensejo de fazer uma larga fortuna, que preferem os lucros moderados aos grandes.» Mais uma vez podiamos dizer com o filosofo grego que «a massa do genero humano é exactamente o contrario, desmedida nas suas necessidades e insaciavel no desejo de arranjar dinheiro, quando tem ao seu alcance um proveito moderado.» Muito poucos encontrariamos nas escolas, se alguns tinhamos de achar, que estivessem inclinados a adoptar o preceito antigo que, «para sermos ricos, queria não que acrescentassemos as riquezas mas que diminuissemos as necessidades»; e muito menos tinhamos possibilidades de descobrir quem estivesse disposto a considerar o desengano do Evangelho e a preguntar «que utilidade ha para um ser humano em possuir o mundo inteiro se perdeu a alma.» (S. Mateus, c. 16, v. 26). As riquezas da terra constituiram-se em finalidade humana; não distinguindo mais o que se deve aos bens do mundo e o que devemos ás pessoas, as pessoas mudaram-se em instrumento da conquista dos bens do mundo, em vez de serem morada da beleza divina e do seu culto. A educação toda se enlevava no poder de servir a bolsa ou a vaidade, na arte eficaz de captar as cousas ou de possuir as almas.
Não, não era a moderação platonica, nem a nobreza romana, nem o desprendimento, o que iamos buscar ás escolas. As vitorias alemãs de 1870, corroborando impulsos de uma filosofia materialista florescente, lançaram o mundo, a exemplo da Alemanha, na superstição ignominiosa e aviltante da riqueza, da força e da cobiça.
Assistimos agora á demonstração tremenda da inanidade dessa ambição. Vinha, porêm, de longe a desconfiança, e até a aversão, da cegueira da brutalidade divinisada, metodica e intencionalmente aprendida e cultivada. Desde o seu inicio, ainda quando ela imperava e crescia, de tal modo agravava, não direi já a tradição humanitaria, mas sobretudo o nosso modo de ser psicologico que, revendo a historia do seu nascimento e progressos, enxameiam as lembranças da primeira hora, quando Mathew Arnold--e basta para testemunho este agouro de um alto e sereno espirito--escrevia, em 1871, que «o imperio alemão seria apenas um despotismo doirado, politicamente fraco apesar do seu poder militar, barbaro apesar das suas escolas e universidades.»
E vinha de longe a ameaça da preterição da civilização de qualidade pela civilização de quantidade. Com que clareza pressentiu a calamidade esse extraordinario espirito, que tanto engrandeceu o genio da França e que teve neste mundo o nome de J. Joubert!
Em 1809, apreciando uma _Memoria sobre a Instrução Publica na Holanda_, já ele afoitamente exprimia apreensões que hoje se tornaram caso julgado por uma experiencia rematada em demonstrações dolorosissimamente irrefragaveis. «Aquela boa gente» que havia escrito a _Memoria_, dizia então esse notabilissimo pensador francês, «pensava que o fim da educação literaria é e deve ser, não tornar o espirito mais belo, o gosto mais puro, a percepção mais justa, a lingua mais adornada, a alma mais delicada e a memoria mais feliz, mas sómente dar ao espirito «um maior numero de aptidões para toda a especie de conhecimentos.» Choravam o estado do seu país a este respeito: «Os estudos das matematicas, da fisica, da historia natural andavam ali muito desprezados. Os _auditorios_ em que estas sciencias se ensinavam, eram pouco frequentados, mesmo quase desertos, em alguns logares. Disso coravam, e «não é isso, diziam, «o que o estado actual das luzes e da sociedade exige.» Para se porem pois de nivel com o estado actual das luzes e da sociedade, grande cavalo de batalha daqueles que, não encontrando nunca as suas razões no interior das cousas, porque têm o espirito pouco penetrante, procuram-nas sempre externamente, porque emfim têm olhos, desejariam eles que se ensinasse tudo á mocidade, mesmo á infancia, para a tornar capaz de saber tudo.»[15]
O conflicto das diversas aspirações da educação, sentiam-no aproximar-se os homens superiores de ha cem anos. O que seria esse desapego da beleza do espirito e da delicadeza da alma, trocadas pela multiplicidade de aptidões tecnicas e pela abundancia do conhecimento da exterioridade das cousas, sabemo-lo nós agora. Despejadamente no-lo disse o prussianismo cultivado com esmero e consciencia durante cincoenta anos e terminando por dar ao mundo o espectaculo de todas as desolações de uma brutalidade, no fundo da qual se distingue uma apostasia clamorosa e contente na sua soberba, a negação altiva do helenismo e do cristianismo que fundaram a civilização, foram o seu leite e são o seu sustento, a sua substancia.
Em todo o acanhamento das minhas faculdades, mas em pleno vigor da sensibilidade, eu, que não posso gabar-me de haver sido _educado_ no latinismo, porque não é educação que se tome em conta a arrastada e desordenada negligencia com que usamos passar pelas escolas, mas que fui _nascido_ no latinismo, o que para a constituição psicologica sobrepuja a educação, não escapei ás apreensões de M. Arnold relativamente ao germanismo tumido de sciencia e tão minguado de humanidade. Em 1888, algum demonio me seduzia quando, passando por Berlim, escrevi nas minhas notas: «Sobre a cidade pesa um braço de ferro, a multidão abdicou nas mãos de uma vontade; só ela a move. A graça e a elegancia, a vivacidade e o riso foram banidos; o povo vai taciturno e lento.» «A Alemanha, que Berlim nos mostra, afigura-se-me um elefante, a inteligencia e a força em um corpo informe. Toda a sua alma cristalisou nesta aspiração--ser forte, invencivel.» «Conseguiu ser forte. As doutrinas dos filosofos, de mãos dadas com o genio militar, alcançaram emfim dar-lhe uma rara força. Póde viver-se assim? É esta a ultima palavra da civilização, ou simplesmente uma gloria efemera, saida da coincidencia das aptidões de um povo com as necessidades do momento historico? A Revolução Francesa, iniciando-nos no conhecimento dos direitos individuais, simultaneamente deu aos estados constituições que conduzem á fraqueza e impotencia politicas; a Alemanha mostrou-nos novas vias conduzindo ao pólo oposto. Assim como só nós pudemos vêr os povos educados nas instituições derivadas da Revolução, só os nossos filhos poderão saber o que é um país educado na admiração da força. Todas as profecias serão prematuras, embora vagamente pressintamos que a civilização é mais alguma cousa do que a força.»
Isto preguntei e era de preguntar ha vinte e nove anos. Hoje, porêm, toda a duvida cessou. Convencemos-nos de que a civilização tem de ser mais alguma cousa do que a força, e de que, por maior força de remexer a terra e dominar os seus elementos que ela atinja, negou a sua aspiração e atraiçoou-a, se com a força não coincidiu o desenvolvimento moral do homem e das sociedades, naquelas bases de amor, respeito, liberdade, desprendimento e generosidade que o genio greco-latino concebeu e fundou de uma vez para sempre. Guiados pelo passado e alvoroçados pelo presente, logo sabemos, sem a menor duvida ou hesitação, onde e como aquela aspiração de outrora rediviva ha-de realisar-se, por que meios hão-de criar-se e educar-se os homens que a hão-de servir e manter em corpo e acção.
Entre a educação classica e a aspiração da dignidade sobrelevando a pura aspiração da força, ha uma relação intima e imediata. Aquele mesmo Mathew Arnold que cedo nos acautelava contra a barbaria da Alemanha, prevalecendo «apesar das suas escolas e universidades», esse, distinguindo entre o estudo das letras, que «é o estudo da acção da força humana, da actividade e da liberdade humana», e o estudo da natureza, «que é o estudo das forças não-humanas, da restricção e da passividade humana», julgou que «o fim e cargo da instrucção... é habilitar o homem a _conhecer-se a si e ao mundo_.»