Do que o fogo não queima

Chapter 4

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Entre a maior violencia das batalhas ouvirão agouros de paz aqueles que os quizerem ouvir. Ao fim de dois anos de guerra entre a Inglaterra e a Alemanha, na hora de suma inimizade, o professor Munsterberg, alemão de uma alta autoridade, lembrava que a liberdade dos mares poderia ser eficazmente assegurada por uma aliança da Inglaterra, da Alemanha e dos Estados-Unidos da America. E a imprensa inglêsa, respondendo-lhe, abstinha-se de dar opinião sobre a justiça e praticabilidade de semelhante insinuação, advertindo apenas que as incompatibilidades suscitadas pela guerra eram um obstaculo formal a essa solução--o que equivale a dizer que, apagadas essas incompatibilidades, não será talvez uma utopia o alvitre. Pelo visto, o obstaculo é apenas de natureza moral, outro não ha de natureza politica ou economica. Não será de todo ilegitimo pôr esperanças em hipotese tão ousada, sobretudo se nos lembrarmos de quanto foi breve a inimizade entre a França e a Inglaterra, e se cremos, com muita boa gente, que, se não houvesse esse espinho da questão da Alsacia, talvez a Alemanha e a França fossem hoje aliadas em vez de inimigas, apesar da guerra de 1870.

Depois, a fatalidade da propensão logica insistentemente pregunta porque é que o internacionalismo, sendo um facto culminante do nosso tempo, não ha-de estender-se á politica, ou melhor, como é que a politica ha-de conservar-se alheia ao seu espirito e acção. Internacionalisou-se a sciencia, a arte, a religião, o capital e o proprio comercio, apesar das suas infinitas rivalidades; não se concebe que este impulso exclua a politica. Pelo contrario, é sabido até que ponto o internacionalismo penetrou nas oficinas, não são segredo nem pouca cousa as tendencias de solidariedade que por lá se insinuaram e medram. Admitamos que da oficina trasbordem e se espalhem nos campos, onde a sua disseminação tem de ser lenta por virtude da inercia caracteristica do espirito rural, sempre moroso em seus movimentos, cautelosamente conservador, mas nem por isso menos tenaz nas inclinações. E mais não carecemos para sinal de tempos novos, mais ou menos proximos, talvez mais proximos do que remotos, se considerarmos a intensidade da actividade mental dos nossos dias, a renovação da consciencia que ela importa, e a ordem social a que essa nova consciencia conduz inevitavelmente.

O progresso, sendo como é unicamente fundado na fortaleza do espirito e no seu desenvolvimento incessante, é indestructivel em sua constituição e nos seus orgãos, em toda a amplitude da sua expressão e expansão. O que nos dá a ilusão de retrocesso ou de irreductibilidade da barbaria, são as desordens de funcção, não é uma lesão essencial organica, que não existe; são as enfermidades acidentais, passadas as quais as sociedades voltam a ser o que eram anteriormente ao acidente morbido--tal qual o homem doente recuperando o equilibrio normal quando findou o delirio da febre, reatando a vida no ponto em que a tinha no momento de ser perturbada, naquela edade, estatura fisica e capacidade mental que lhe eram proprias e caracteristicas. Nem porque adoeceu e se curou voltará o velho a ser moço e o adolescente ressurgirá criança. Uma identidade especifica se mantem com seus momentos de eclipse, ao fim vitoriosa de qualquer opressão passageira que por acaso sofreu. E assim o entendeu um esclarecido internacionalismo, pela voz dos seus chefes mais autorisados insistindo em nos assegurar que não renunciou, nem tem razão para renunciar, ás suas aspirações e esforços. Negando que a guerra o houvesse enfraquecido, tira das responsabilidades que lhe exigem e dos feitos que lhe atribuem a demonstração da sua força e vitalidade. As acusações de falencia com que a diplomacia dos politicos de profissão procura estigmatisa-lo e afasta-lo do caminho, no qual essa diplomacia serve as cobiças dinasticas e capitalistas, seriam em ultima analise um tributo á importancia que lhe assiste nas relações entre os povos e ao alargamento e amplitude progressiva do seu poder. Confessando que o nacionalismo agressivo teve um impeto de tresloucada ambição envolvendo nas suas paixões o mundo inteiro, crê cada vez mais profundamente na missão de paz que o zelo profetico dos seus mestres e o trabalho paciente dos discipulos tem exercido nestes ultimos cincoenta anos com tão religioso ardor como manifesta eficacia. As dificuldades que o assaltavam e os transes por que passou no desvairamento momentaneo dos seus apostolos e soldados, iludidos pela astucia dos que governam, não lhe abalou o fundamental optimismo, proprio da fé com que prosegue nos seus combates e vitorias.

Depois ainda, esta ultima guerra veio demonstrar com uma clareza terminante que já não ha neutrais possiveis nos conflictos das civilizações. Não se arrasaram fronteiras nem será possivel, e muito menos necessario, arrasá-las, porque a natureza e a historia as ergueram por longos séculos, senão para sempre; mas cresceu a intensidade de transito através dessas fronteiras, e com ela cresceu a simpatia mutua e a comunhão politica dos que nelas transitam. As relações dos povos estreitaram-se de tal modo que, se uma calamidade flagelou uma nação, todas as demais sofrem nos seus interesses e afeições. Ora por Deus, ora por Satanaz, ora por amor do espirito, ora por ambição mundana, a terra vai a converter-se em propriedade de um possuidor unico--o homem, um só e não muitos, como no passado encontravamos e distinguiamos, sobretudo quando os viamos em combate. E, se o possuidor é um só e a propriedade se acha portanto indivisa, o conflicto é impossivel onde a unidade organica se tornou essencial.

A propria insolvencia da guerra pelos feitos militares, que em mais de trez anos de combates através de mil esforços, vitorias e derrotas não foram capazes de dar solução ao conflicto e, pelo contrario, demonstraram a sua inanidade como processo de solução dos antagonismos em oposição violenta, isso que fez que se chegasse á conclusão de que as nações teem força para fazer a guerra, mas não teem força para fazer a paz, isso significa um golpe profundo na doutrina da confiança militarista. Sobretudo a vitalidade dos interesses economicos mostrou-se superior a toda a ruina por mera violencia. Por seu poder e relações não tiveram força bastante para evitar a guerra, mas ficou de uma vez para sempre certo que a economia das nações, fruto da paz, e da inteligencia e dos afectos, não póde ser arrasada pela guerra. Essa economia subsiste apesar da guerra e durante a sua propria acção; não ha exercitos que possam com ela, e nem a dos aliados nem a dos imperios centrais fraquejaram e deram sinais de se submergir nesta pavorosa catastrofe, constituindo por essa maravilhosa resistencia uma prova formidavel do caracter de ociosidade cruel de todas as guerras na fortuna dos povos, que vivem de pão, não vivem de polvora. A arte de ser util emancipou-se das supostas necessidades de violencia, que algum tempo a fascinaram. «A violencia seduz porque nos dispensa de um esforço de reflexão, de um trabalho de razão. Porque é necessario um esforço para desfazer um nó. É mais facil cortá-lo.»[11] Mas desde que os homens e as sociedades chegaram á idade da razão, não só a sua honra mas tambem os seus interesses temporais os induzem a esperar da razão o que erradamente pediam á violencia.

Debalde essa tendencia, de que resulta a unidade de aspiração dos povos e o consequente declinar das guerras, tem até hoje procurado orgãos adequados que lhe sirvam eficazmente as funcções. É certo. Preponderante apenas em um mundo moral limitado, carece ainda da largueza de disseminação que lhe ha-de assegurar a consistencia, embora essa disseminação progressiva se mantenha na historia das sociedades cultas com uma constancia manifesta. Muitos tratados e tribunais de arbitragem, muitos compromissos de paz se reduziram a _pedacinhos de papel_, e logo se inflamaram e arderam mal se ouviram clarins de guerra. Outros, porém, se mostraram consistentes e rebeldes ao fogo em iguais circunstancias. Tambem é certo.

Aqueles que se rasgaram ou arderam, foi porque, significando unicamente uma esperança e uma tendencia, uma ambição e um fim, ainda não eram de facto uma lei, embora escritos fossem. Uma lei, para o ser com força executiva e real, carece de um estado de espirito em que se haja fundado e estabelecido antes de se estampar e consignar na definição verbal e nos contractos selados. Essa é a razão pela qual não se cumprem muitas leis que já foram cumpridas, e ainda não se cumprem outras que já foram apregoadas, e vigoram algumas que jámais foram traduzidas para o papel. É que as leis, antes de o serem e para o serem, hão-de viver no mero estado de aspiração do espirito; sómente são leis e prevalecem emquanto as aspirações dos povos as querem e confirmam. Como poder de criar o quer que seja nas sociedades e na consciencia dos homens, a lei escrita, nacional ou internacional, é de um valor nimiamente hipotetico; a lei será, muito mais do que isso ou muito diferentemente disso, uma verificação e explicação daquilo que natural e expontaneamente se criou. Quando vem antes da criação que pretendem representar, ou quando lhe sobrevivem, as leis vergam, cedem e anulam-se ao mais leve movimento contrario.

Ora, em materia de guerra entre os povos, as propensões pacificas, que são aliás uma força manifesta e crescente, não vão tão adiantadas que possam constituir-se em tribunais e sancionar-se em sentenças. Foi esta antecipação do desenvolvimento de um principio e de uma alta realidade que, mostrando-se o que na realidade era, revelando a fragilidade propria de uma constituição incipiente, deu a muitos a ilusão de que esse principio e essa realidade não existiam em absoluto e não eram uma força em acção, e, porque acontecera que se mostraram incapazes de afrontar as injurias de um momento adverso, jámais poderiam subsistir.

Quizemos talvez começar a casa pelos telhados, em vez de lhe dar principio pelos alicerces. E, muito provavelmente, o radicalismo socialista acerta quando, reconhecendo que o internacionalismo organisado anteriormente á guerra foi impotente para a conter, explica o desastre e confia no futuro, dizendo que, «emquanto os governos andarem divorciados dos povos, emquanto eles forem autocracias e plutocracias, emquanto os homens forem governados pela corrupção, pela violencia e pelo engano, não haverá garantia real de que a paz, mesmo quando nominalmente observada entre as nações, produza os frutos ou assegure as liberdades da paz de Deus. Emquanto os povos não dirigirem a politica dos governos, emquanto a democracia não for uma realidade, não haverá paz permanente, externa ou domestica; e, quando esse dia chegar, pouca necessidade haverá de uma força de policia internacional.»[12]

Se assim é, e a observação dos factos decorridos nestes ultimos anos de profundissimas convulsões sociais e progressiva consciencia das suas origens e remedios de todo confirma a esperança dos apostolos da renovação politica do mundo, se assim é, não podem vir longe os tempos de paz.

Porque a vitoria da democracia, ainda que na revolução da Russia não se houvesse mostrado triunfante ou não fosse carregação inevitavel dos navios vindos dos Estados-Unidos da America, republicanos e livres pensadores, afeitos incorrigivelmente á liberdade politica e religiosa, e naturalmente propensos a comunica-la aos povos aos quais se unirem por amizade, a vitoria da democracia tornou-se a sumula deste terramoto que foi a guerra de 1914. Obedecendo a impulsos politicos originarios da civilisação, mantidos e medrados em uma evolução muitas vezes secular, grande legado das cogitações filosoficas do século XVIII e da abundantissima experiencia do século XIX, a democracia é da essencia constituicional do latinismo e de quanto ele de perto ou de longe criou ou tocou, sem distincção de gentes ou de latitude para onde se transportasse. Diferentemente se organisará conforme as necessidades e tradições e acidentes da existencia dos povos sobre os quais impera; poderá ser aqui um sistema de fragmentação comunista, acolá a constituição de centralisações colossais, e além o livre jogo do individualismo; poderá ser na estrutura e na hierarquia das funcções uma monarquia, ou uma republica, ou um imperio, uma arregimentação despotica das plebes ou a associação livre das actividades sociaes. Mas em todo o mundo se tornou a tendencia irrefragavel e invencivel da constituição dos governos para servir os povos e a recusa indomavel da subjugação dos povos para servir os governos. No espirito das comunidades decaiu a ideia de serem possuidas e a obediencia correlativa, e a essa ideia sobrepoz-se, vencendo-a e condemnando-a, o pensamento de possuirmos a terra em comum e em comum obedecermos, não áqueles a quem a fortuna ou a audacia deu a força de mandar, mas sómente áqueles a quem a consciencia deu o talento e a obrigação de ser util e de proceder isentos de interesse proprio, em beneficio do proximo. Uma democracia, aquela democracia que persiste, cresce e ha mais de vinte séculos ressurge de cada revez mais poderosa do que era antecedentemente, «não é uma mera forma de governo. Não depende de urnas ou de leis de sufragio popular ou de qualquer maquinismo. Isso é apenas o seu adorno. A democracia é um espirito e uma atmosfera, e a sua essencia é a confiança nos instintos morais do povo. Um tirano não é um democrata, porque crê no governo pela força; como não é democrata o demagogo porque crê no governo pela lisonja. Um país democratico é um país onde o governo tem confiança no povo e o povo tem confiança no governo e em si, e onde todos se unem na fé de que a causa do seu país não é materia apenas de interesse individual ou nacional, mas está de harmonia com as grandes forças morais que governam os destinos do genero humano.»[13]

Essas forças morais que governam a humanidade, não as queima o fogo. E essas são as que hão-de fazer a paz, a presente como a futura, e a futura mais robusta do que a presente.

Uma noite, em uma igreja, ficaram alguns soldados de sentinela a guardar a urna de uma eleição politica.

Havia no altar mór dois anjos magnificos, empunhando tocheiros, e a sua grandeza e resplendor dominavam o templo.

Para encurtar o enfado da vigilia, os soldados vestiram de guerreiros os anjos. Poseram-lhes aos hombros o capote e a mochila, cingiram-lhes as correias, ocultaram-lhes os cabelos no capacete e trocaram os tocheiros por carabinas. Ao fim, alguem deu a voz de «sentido», militarmente, e a companhia perfilou-se em continencia.

Havia alguma cousa de escarneo sinisiro no gracejo. Era um templo transmudado em caserna, a dureza expulsando a graça e a crueldade banindo a piedade.

Mas, quando amanheceu, o sonho de Satanaz havia passado, e os anjos, recuperando a liberdade das suas azas, de novo se ergueram áquela gloria que o menospreso desconhecera e ocultára sem poder destrui-la, porque era de sua condição indestructivel. Até sob o manto da injuria persistira.

Não é diferente desta a historia da humanidade--desta humanidade á qual todas as nações pertencem e que os tempos mostraram susceptivel de nobreza, de fé e de amor, de quanto constitue a gloria dos anjos. Póde um impulso impio perverte-la e tranfigura-la por um momento. Muitas vezes o tem feito e não poucas terá ainda, por certo, de o repetir. Mas a manhã sempre volta, porque o mover dos astros não cessou e, quando volta, logo fulge a gloria dos anjos. Nunca o fogo a queimou.

Valores restaurados

Renascimento da educação classica

I

«Em breves anos, veremos renascidos e florescentes a educação e o ensino classicos. Não tenhamos duvidas. Os sinais de resurreição são manifestos, a germinação da nova ideia vigorosa; e nestes tempos em que toda a transformação é rapida e a circulação do pensamento tão activa como a propagação da electricidade, manda a experiencia e a lógica contar em curto prazo com uma profunda reforma dos programas escolares, subordinada á nova aspiração, orientando-se em rumo diverso daquele estreitamente positivo e scientifico em que com tanta incerteza e naufragio navegamos ha uns bons vinte e cinco anos. As humanidades e a cultura classica retomam seu logar e imperio. O clamor é geral. Será ouvido dos que o podem converter em uma força activa eficaz.

«Tem todos os modos de reclamação de verdade, justiça e necessidade pratica. Não pode encontrar resistencia que prevaleça sobre elementos de tamanha força e duma tal natureza.

«As sociedades teem destas crises que, uma vez lançadas, logo se lhes presente a solução e os triunfos.

«E a crise presente do ensino é dêsse género.

«Não é uma novidade, realmente. Não é uma aventura de ensaios e tentativas para inventar homens novos, de novas aptidões e estranhas tendencias psicológicas.

«É no fundo o desengano de uma aventura, empreendida com muito boas esperanças e rematada com muita desilusão, é a reposição das coisas do espirito e da ordem da vida concreta naquelas condições em que durante séculos se haviam mantido e prosperado.

«Ha cerca de vinte e cinco anos disseminou-se na Europa, na America, e por todo o mundo culto uma verdadeira mania de _realidades_, coisas _praticas_, _utilidades_, vaga e implicita negação de outras coisas, aéreas em semelhantes conceitos, com que os homens se haviam preocupado até então. E essas coisas não praticas, isso que se chamava beleza, ordem, justiça, aspirações do puro espirito, passou então á categoria de inutilidades, toleradas apenas como enfado e desfastio, adorno e deleite de curiosos e ociosos diletantismos.

«O ensino amoldou-se a essa preocupação. Pôr uma engrenagem onde estava uma ideia, uma ideia aritmetica onde havia um silogismo, uma fabrica onde estava uma estátua, e um apito de vapor onde se ouvia um canto de poeta, tornou-se imediatamente a quinta essencia da sabedoria das nações e dos seus estadistas, e o sonho de perfeição e grandeza dos pedagogos progressistas e progressivos, dos que iam na frente e se propunham ir muitissimo mais longe.

«O ensino classico pareceu então uma abominavel e esteril velharia; dessorava o cérebro, atrofiava os musculos, tinha por vezes um cheiro detestavel a côrte e sacristia. As famosas humanidades trocaram-se de bom grado por abundantes animalidades. No homem considerou-se quasi unicamente o animal e no mundo viu-se muito restritamente um processo de multiplicação de comodidades.

«Para isso se teriam criado a terra e as sociedades. Tudo o mais seria, na classificação mais benigna, pelo menos antiquado.

«Que olhassemos para a Alemanha, prégava-se. Lá é que se sabia. As suas vitórias e prosperidades eram uma questão de escola, e de sciencia, dessas muito faladas e desejadas e louvadas coisas práticas. Era o mestre escola que tinha vencido em Sadowa. O germanismo e as suas glórias teriam sido apenas questão de laboratorios, retortas, lentes, microscopios, raizes quadradas e taboas de logaritmos.

«Sciencia, muita sciencia, sempre sciencia. Estava aí o elixir da vida, a fortuna das nações e a felicidade dos homens. Latim, grego, Aristofanes e Cicero e Tito Livio respeitaveis massadores que tomavam o tempo á rapaziada e não lhes deixavam lucro que valesse um real. Abaixo as inutilidades. Passassem aos museus respectivos.

«Lá encontrariam conservadores habilitados que as guardassem no logar que lhes competia, para recreio de eruditos. Para o comum dos mortais não tinham nada de aproveitavel.

«Assim fomos andando, nesta fé, de reforma em reforma, a dar ar e luz aos nossos institutos e liceus, sempre á espera de vermos sair de lá os atletas que haviam de renovar as nações. Mas os atletas tardavam. Em seu logar, apareciam mesmo muitos enfermos. Começamos a desconfiar de que a sciencia não dava o que prometia, e a suspeitar de que tinhamos errado na escolha, passando ao deposito das inutilidades um arsenal de belas armas.

«Coisa curiosa! A primeira vez que ha dois ou tres anos encontrei um escrito moderno atacando abertamente os abusos do ensino chamado scientifico e o abandono das letras classicas e das antigas humanidades, foi em um jornal socialista radical. Os que vão na frente do movimento politico, os que reclamam e exigem mais profundas reformas, as pedem em nome da justiça, e pelo seu radicalismo bota-abaixo pareceriam os mais propensos a banir todas as velharias das sociedades contemporaneas e futuras, seriam esses os primeiros a advogar a restauração de processos e intuitos da educação e ensino, postos de parte e condenados por empecilhos do progresso.

«A educação classica refugiando-se nas fortalezas do socialismo radical, que se poderia muito logicamente supôr todo impregnado de radicalismos scientificos, era fenómeno para estranhar; e, na minha ignorancia e despreocupação, de facto estranhei, no primeiro momento.

«Mas em poucas linhas me desvanecia a confusão aquele artigo que acabava de lêr.

«O quê?! dizia. As humanidades eram más? Onde se formaram os homens da Revolução Francêsa? Onde aprenderam os principios de liberdade, igualdade e justiça que proclamaram e por que se sacrificaram até ao martirio, para nolos transmitir triunfantes e para nos remir de aviltada condição?

«Donde brotou e onde firmava as suas raizes essa seara unica da literatura romantica?

«Não, as humanidades não eram más. Eram excelentes e suficientes. Os homens que nos deram foram bons, entre os melhores de que fala a historia, e nem outros de superior grandeza podemos desejar e sonhar.

«O discurso convencia-me. Desde o momento em que os homens se criam para os homens, os conhecimentos essenciais do seu espirito e os modos mais nobres do seu caracter hão-de ser humanidades. Preferir-lhes animalidades, reduzir o homem a um vulgar organismo sem diferença fundamental dos seus semelhantes nas espécies animais, ou mais simplesmente ainda passa-lo á categoria mecanica de motor e alavancas conjugadas, destinado a diversas operações de produção e consumo, era uma degradação. Evidentemente, tornava-se necessario ser homem antes de ser bicho ou maquina. Dependia disso a dignidade. Sempre assim se havia entendido.

«Depois, o ensino classico, se era classico, de sua natureza era essencial, partindo do principio que por classico se entende aquilo que em sucessivos séculos e sucessivas gerações se reputou invariavelmente bom ou belo. Abandonar o que de certeza assim era, para o trocar por vantagens incertas, teria sido insensatez.

«A mais passageira reflexão não poderia deixar de concluir pelo predominio do ensino classico. Admitiria que se acrescentasse. Que se eliminasse ou reduzisse, nunca.

«De que todavia agora se trata e o que provoca a campanha incipiente, não é de apreciações abstractas, é dos desenganos da experiencia.

«Não sou tão moço que não tivesse conhecido os homens educados puramente nas escolas classicas da primeira metade do século XIX. Conheci até alguns desses professores de latim espalhados a capricho pelo país, regendo cadeiras singulares dessa disciplina, ás quais as vilas, que as possuiam, atribuiam orgulhosamente o valor duma universidade. Ali se aprendia tudo, imaginavam; e quem de lá saia com louvor do mestre, tinha-se na conta de homem instruido e culto.

«Entre os meus proximos parentes os encontrei. Meu pai não teve outra escola nem outra educação literaria. Aprendeu o latim com o professor da vila em que nasceu, e com essa reduzida bagagem escolar foi para o Brazil, aos dezoito anos. Se mais tarde estudou a lingua francêsa e modernismos correlativos, de que careceu para se pôr a par do seu tempo, nunca lhes criou tanto amor que, quando entrou em maré de comprar livros, deixasse de se fazer forte em classicos portugueses, e dos modernos apreciasse sobretudo aqueles que de classicos tinham carregadas tintas.

«Conheci muitos dos seus amigos e companheiros, camaradas da escola e outros de educação identica, que todos conservavam vivas as tendencias que na mocidade haviam tomado.