Do que o fogo não queima

Chapter 3

Chapter 33,870 wordsPublic domain

Segundo o seu pensar e dizer, a culpa da calamidade que pagamos caro, com rios de sangue, e da qual as gerações futuras terão de resgatar por meio de incalculaveis e prolongados sacrificios as nações modificadas e de todo empobrecidas, não foi o Kaiser nem a diplomacia, modestos colaboradores e interpretes de sinistros desvairamentos. A guerra proveio das tendencias e desordens da psicologia dos povos; as cogitações da filosofia e as inquietações morais e politicas correlativas que precederam a catastrofe e se amiudaram durante largo tempo antes da guerra, traziam claramente no ventre as convulsões em que haviam de rematar. Durante estes ultimos doze anos, imediatamente antes de 1914, juntaram-se e cresceram na Europa os elementos de desgraça--«um grupo de estados inflamados pela consciencia da sua nacionalidade, avidos de grandes presas, descontentes com cada distribuição, emancipados de todo o senso do direito pelos seus novos guias espirituais, endoutrinados em todos os sistemas eticos da violencia, prontos a sujeitar-se á disciplina e ás fadigas por amor de esmagar os outros, e, se a confiança agressiva abrandava, sustentados na sua propensão pelo medo dos rivais que eles despresavam e todavia provocavam. Esta foi a dilatada condição de combate moral que vimos tomar corpo em sua traducção fisica, nos factos.»

Aqueles que ha trinta anos saíram das escolas impregnados de naturalismos, lutas pela vida e ambições e processos politicos consequentes, sabem perfeitamente a que especie de direitos e deveres essa sciencia e essa moral conduziam, e o que logicamente preparavam á Europa, quando das bibliotecas e dos compendios universitarios, todos revestidos da dignidade do amor á verdade, passassem a ser trocadas em moeda corrente na pratica da vida publica e do comportamento individual, em toda a escala das relações com o proximo, ou o proximo fosse uma nação de alguns milhões de habitantes, ou um simples mendigo que se nos atravessasse na estrada e despedissemos por _vencido_ e _inferior_, ou um mercador que nos acotovelasse no caes da alfandega e atropelassemos para dar a precedencia ao nosso fardo. A sciencia e a filosofia, legitimando toda a casta de soberba e avareza, acharam _natural_ a brutalidade. Era o colapso absoluto da simpatia, do respeito, da caridade e da justiça, de todos os velhos bordões, apoiados nos quais tinhamos feito uma jornada honesta de mais de vinte e cinco séculos, para fundarmos as criações singulares a que chamamos a familia, a nação e a religião do amor dos homens.

Simplesmente, a sciencia e a filosofia, na rajada da invasão materialista, esqueceram, porêm, que a arvore tinha raizes e que, por muitos ramos que lhe partissem e queimassem, as raizes ficavam na terra, e ao primeiro alento da primavera novos ramos iam crescer do tronco e florir, em tudo semelhantes aos antigos. Esqueceram que as nações, como a nossa alma, teem uma historia e instintos alimentados e avigorados no correr dos tempos, e não haverá forças de raciocinio nem impetos de destruição que os arranquem do seu temperamento; esqueceram que a nossa civilização tem um caracter e esse caracter, residuo da fermentação de uma longa vida, constante em sua essencia, é que afinal ha-de marcar-lhe a linha de progresso atravez de todas as contingencias.

Mas não o esqueceu quem, desconfiando das indicações dos tubos de laboratorio e de todas as estreitezas que muito vaidosamente chamamos sciencia, procurou uma mais larga e exacta concepção da vida no exame da consciencia e nos livros do passado, aí descobrindo as razões do presente e as possibilidades e probabilidades do futuro. Para esse, o passado assegura-lhe que «as civilizações não morrem por calamidades externas, mas quando no intimo se lhes finou a alma. A civilização romana caíu, não porque os invasores eram mais fortes, mas porque no seu coração estava fraca.» «Antes disso, o genio do helenismo morrêra nas longas guerras intestinas que paralisaram as cidades livres e lhes arrancaram o coração daquela vida civica que era simultaneamente a fonte de inspiração do poeta, do artista e do filosofo.» O que criou o conflicto da Alemanha com as nações do Ocidente e com a Russia, foi uma divergencia de alma, porventura um atrazo. «Na realidade, a Alemanha pouco participou daquele novo impulso democratico, humanisante, que se ergueu na Inglaterra do século XVII e ainda mais vivamente na França do século XVIII. «Por differentes vezes e por diversos lados, desde a Holanda do século XVI até á Bélgica de 1914, as nações da Europa ocidental e os povos que delas vieram, contribuiram para este espirito de liberdade, democracia e humanidade. Povos pequenos e grandes deles tiveram a sua parte; pensadores, homens publicos e filantropistas para aí deram o seu quinhão. Mas este espirito é a criação do Ocidente, e foram elementos da sua escola que em maior ou menor gráu levedaram a estrutura politica e social da Europa central e oriental.» «Tocam tambem a estrutura da sociedade alemã, mas não se tem ponderado suficientemente que o corpo principal do pensamento alemão se conservou alheio a este movimento desde o começo do século XIX. Não foi assim ao principio: Kant, o maior dos pensadores alemães, manteve uma inteira simpatia com o humanitarismo do século XVII, e Fichte foi um idealista cujas lições representavam uma força de peso a favor da liberdade na luta com Napoleão. Mas, com o advento da filosofia hegeliana, o pensamento academico na Alemanha associou-se, e cada vez mais, com os poderes estabelecidos.» «O liberalismo que havia na Alemanha morreu em 1848. A Alemanha fundou então uma cultura propriamente sua, baseada em uma noção do estado e das suas exigencias, do individuo e dos seus direitos sobre o resto do mundo, que a civilização ocidental repudiava.»

«Ora, olhando pelas nações do mundo, com excepção da Alemanha, não vemos sinais alguns de quebra de fé naqueles principios. Pelo contrario, vemos que as nações, uma a uma, atentam no facto de que são aqueles principios que estão em risco. E, se assim é, não se trata de uma civilização mortalmente enferma por falta de crença nos seus principios, por falta de confiança em si, pelo pecado mortal de se atraiçoar.»[6]

De facto, nas trevas da catastrofe sentiu-se desde o começo o poder de uma aspiração que vem de longe e não se engana no rumo; sentiu-se a obediencia a um evangelho espiritual e moral, de que a politica com o seu cortejo de ambições e degradações será apenas um turvado espelho, um acidentado esforço de realisação, sujeito aos vaevens de toda a traducção concreta dos sonhos de nossa alma, da de cada homem como da de cada raça e da de cada momento da civilização, ora deformada e oprimida por virtude dos seus combates, ora vitoriosa e prospera, mas afinal, em derradeira sumula, invariavelmente progredindo e progressiva. Um alto e profundo idealismo determina muito daquilo que, no primeiro movimento de repulsão e de horror perante a guerra, nos poderá parecer sómente a assolação de uma torrente de abjecções e vilanias.

Clutton Brock, cuja autoridade de pensador cresceu com as considerações de elevado caracter moral que publicou sobre a guerra, incita o seu país a fortalecer-se na disciplina de uma filosofia, de que o acha desprovido.

Por esse motivo e com o fim de traçar os fundamentos essenciais dessa renovação espiritual escreveu um opusculo[7], onde pretende que uma das grandes vantagens da Alemanha na guerra foi encontrar-se robustecida pela insinuação organica de uma filosofia que inteiramente lhe repassou todas as actividades--uma filosofia má, pervertida, conduzindo ao crime em vez de conduzir ao bem, mas, sem embargo, uma filosofia, a concepção de um sistema das relações do mundo e dos homens, crente na sua justiça e nobreza, e só por isso uma fonte incomparavel de energia, uma arma formidavel de combate, senão a mais eficaz das armas de combate, aquela sem a qual todas as demais são frouxas. E isso teria faltado aos Aliados.

Os alemães «fizeram um estado que é um perigo para o mundo, porque o fim desse estado é ruim; mas o estado da Inglaterra não tem um fim. Usaram todas as suas virtudes com um fim material, e não viram que ele era material; mas nós (os inglêses) deixamos as nossas virtudes ao acaso. Se os alemães veem no seu país um absoluto falso, nós não temos absoluto algum, nem verdadeiro nem falso. Ha gente, e não é só alemã, que crê que a cultura alemã póde salvar o mundo e que por isso anseia por uma vitoria alemã. Para ela, a cultura alemã é qualquer cousa positiva, qualquer cousa na qual os homens se esqueceram de si por amor do estado, e, procedendo assim, se erguem acima das suas forças naturais; e crêem que os alemães podem ensinar-nos todo este segredo de abandono do interesse meramente individual, de modo que todos nós faremos a nossa obra tão sistematica e completamente como os alemães. Mas em nós não encontram inteiramente nada de positivo, e parecemos-lhes combater meramente pelos metodos do passado, da mão á boca, e com esses metodos. Não teem razão, sem duvida; combatemos, pelo menos, contra um egotismo que o mundo nunca suportará, seja qual fôr a limpeza que ele possa trazer; porque com essa limpeza impõe a escravidão. Mas carecemos de tornar bem claro ao nosso entendimento que combatemos por um abandono do interesse puramente individual muito mais alto e completo do que o que prepondera no espirito alemão. Os alemães põem o valor da Alemanha acima de todas as cousas; mas nós, o que é que nós aprendemos a apreciar acima de todas as cousas? Toda a nossa sociedade sofre da falta de valores, de uma desvairada mundaneidade que nem sempre está contente comsigo. Este descontentamento e este desvairamento envolve esperanças, mais esperanças do que a intencional perversidade da Alemanha; mas nem o descontamento nem o desvairamento são bons só por si, e não conduzirão ao quer que seja, se nós não formos capazes de encontrar valores, e os justos valores.»[8]

Na verdade, embora a afirmação categorica de que carecemos de uma filosofia da vida se ache singularmente moderada onde o exame do moralista reconheceu que «carecemos de tornar bem claro ao nosso entendimento que combatemos por um abandono do interesse puramente individual muito mais alto e completo do que o que prepondera no espirito alemão», a acusação não será de admitir-se em toda a extensão. As suas proprias palavras a combatem, confessando que a questão é de clareza de entendimento e de consciencia, e não de escassez de causa intima ou ausencia de uma filosofia fundamental.

Essa filosofia, que o critico quereria sentir na gente da sua patria, de facto subsiste desde já e activamente. Trazemo-la no sangue, neste sangue que é o legado de muitas gerações, e no qual se fundiram e consubstanciaram, em uma tenacissisima aspiração, aquela liberdade que a Grecia sonhou, a ordem que Roma fundou, e, coroação maravilhosa do pensamento politico constituido pela antiguidade greco-romana, o nacionalismo acalentado pela Renascença, movendo-se e medrando dentro daquela catolicidade que uma vez nascida do poder e governo do imperio romano viveu na igreja catolica, prevalecendo-se de um momento de unidade religiosa, e hoje se prolonga nas aspirações do internacionalismo, fundando na comunidade humanitaria o que algum tempo foi resultado da unidade religiosa--sem muito querer persuadir-se, diga-se de passagem, que, ou se fale em nome de Deus, ou em nome da Humanidade, ou se invoque a Razão, ou nos inflamemos na Fé, a conclusão moral é em toda a hipotese una e invariavel, e o racionalismo e o cristianismo juntam-se na mesma concepção da ordem humana, nas mesmas liberdades e responsabilidades, nas mesmas aspirações e deveres de igualdade e amor.

De filosofia não carecemos, realmente. Temos enraizada no peito toda aquela, e profundissima, que a tradição e a experiencia de muitos séculos nos legaram. O que nos afasta da Alemanha não é a mingua de uma razão intima, da mesma natureza daquela que a alenta e move; o que nos afasta é apenas o grau de consciencia e a forma pratica correlativa em que o mundo latino e o mundo germanico sentem essa razão e os termos em que lhe obedecem. A Alemanha cultivou e definiu a sua filosofia, aparentemente oposta de todo á nossa, em circunstancias apontadas por Hobhouse nas passagens que acima traduzi, mas entretanto nós, descuidadamente, sem nos esforçarmos por definir e sistematisar os motivos do nosso esforço, fomos vivendo a nossa vida e seguimos por instinto o nosso caminho, sem o errarmos, não obstante não preguntarmos para onde iamos e porque. Ao fim, quando o conflicto nos iluminou tragicamente a jornada, é que vimos onde estávamos e que especie de filosofia nos tinha conduzido até ali. Claro está que mais seguros se encontravam em seus baluartes os que com mais paciencia e metodo os haviam edificado; mas nem por isso os nossos reductos deixaram de se mostrar inexpugnaveis. Se o não fossem, se uma filosofia muito diversa da que animou a Alemanha e lhe deu força e coesão não nos inspirasse, se aspirações muito diferentes não nos arrebatassem, a guerra ter-se-hia reduzido a uma marcha triunfal dos exercitos teutonicos, portadores de um genero de civilização pelo qual todos os povos da terra estavam suspirando, ansiosos por abdicarem das suas aspirações ingenitas no seio do povo eleito. A invasão alemã teria sido uma benção recebida de joelhos e com hinos de louvor; não significaria a violencia, para nos libertarmos da qual sacrificamos vidas e bens, o melhor da nossa riqueza e da nossa alegria, e comprometemos por largos anos a sorte dos que nos vão suceder e nos hão-de herdar encargos tremendos.

Ainda mais. Não só traziamos no peito uma filosofia e lhe obedeciamos, embora o prolongado habito de a seguir nos tivesse em grande parte dispensado de lhe reconhecer e cultivar intencionalmente o poder, mas o desenvolvimento dessa filosofia não deixou de se operar de continuo e nos termos da sua essencia. E chegados ao momento de dar contas do passado no presente, de revelar as ideias e paixões em que nos criamos e mostrar pelos resultados ultimos a sua legitimidade, verifica-se que temos sido fidelissimos servos dos principios da nossa civilização, bastas vezes contrariados e oprimidos pela adversidade do destino mas sempre renovados, e ressurgidos e maiores, pela constancia da nossa crença.

Para compreendermos como atravez de todas as obscuridades e reacções de uma fermentação mental e material prodigiosa houve um progresso, uma logica, uma direcção e um adiantamento em uma linha invariavel, bastará considerarmos esta lenta renovação psicologica que graduou em diferente altura o valor militar e o valor do trabalho, por virtude da expansão dos germens inoculados em a nossa organisação pelo pensamento democratico tradicional. «Já aprendemos», disse W. J. Bryan, antigo secretario de estado nos Estados-Unidos da America, «que é mais vantajoso alargar a terra que possuimos, duplicando-lhe a producção, do que acrescentar-lhe por conquista uma nova área. ... Ha mais inspiração em uma vida nobre do que na morte heroica.» Entre tantas cousas que as convulsões politicas e militares destruiram e arruinaram no correr dos séculos, sempre cresceram aquelas que o fogo não queima, certa essencia espiritual, a razão de ser e proceder das sociedades, que inflexivelmente as encaminha, quer na paz, quer na guerra, ainda mesmo quando a sua acção se ignora ou parece aniquilada para sempre.

Heroismos de hoje, todos constituidos pela força de servir e criar, expressão ultima de uma actividade de amor e de uma compreensão da virtude dos homens, lentamente elaborada dos germens da nossa civilização, vão a eclipsar as glorias de ontem, inflamadas no impeto de conquistar e no arrebatamento de esmagar e vencer, paixões do odio, por vezes fecundas e grandes pela coragem e até pela isenção que significaram, mas invariavelmente barbaras pela crueldade dos impulsos, inseparavel da sua força intima. O trabalho que algum dia foi vileza e escravidão e arrastou o carro dos capitães de armas em seus triunfos, converteu-se agora em uma religião, e é ele que pouco a pouco vae subjugando os capitães de armas ao serviço da sua defesa e culto. Emquanto as balas cobriam de cadaveres as trincheiras de Verdun, fumegavam as fabricas no seu labor sob a metralha, os arados sulcavam o chão sem temor da morte que pairava sobre as leivas, e a consciencia duvidava, sem saber a quem mais glorificar e engrandecer, se aos que sucumbiam heroicamente nas batalhas da morte, se aos que, não menos sagradamente, ofereciam o peito e o sangue nas batalhas da vida. Alguma cousa sentimos, senão mudada, pelo menos crescida, por certo apenas crescida, visto que nasceu comnosco, com a nossa civilização, em todos os seus modos a encontramos vivaz e alargando-se, a dizer-nos que, «é tão digno ser ferido ou morto trabalhando pela saude e bem-estar de uma nação como combatendo por ela.»[9]

«A gloria militar só pode ser iniqua. Por cada heroi que ela regista, quantos morrem desconhecidos, e todavia tão grandes que nem sequer tiveram a ideia da gloria... O heroi maior é o que não conhece o seu valor. Morre sem a si mesmo se conhecer, desconhecido dos homens, e a terra absorve o seu corpo anonimo. Mas quanto é grande a grandeza de ser humilde! O soldado mais humilde é o maior, aquele que se submeteu á regra até á morte, sem imaginar que é notavel o que ele fez. Faz o que tem de ser feito. Faz o seu oficio de soldado. A pura grandeza do homem reduz-se sempre a bem fazer o seu oficio. O que é necessario, não é o entusiasmo; é a consciencia profissional. O entusiasmo é apenas uma desigualdade de temperamento.»

Os combates que o trabalho combateu em França durante a guerra, igualam, onde não sobrepujam, toda a sua estupenda gloria militar. «Através da morte, através do fogo, os trabalhadores consumam tenazmente a sua tarefa. Este heroismo do trabalhador encerra uma grande esperança porque a força eterna da nação reside no trabalho. A guerra não é mais do que uma desordem momentanea. Sempre ha-de acabar pelo regresso ao trabalho.» «O campo, o trigo, o moinho conteem uma invencibilidade que a guerra não subjugará. Nem as ceifeiras tiveram medo dos obuses, nem o moleiro teve medo de servir de alvo. Sob a violencia passageira, a terra prossegue na sua eternidade, e vemos as mãos das ceifeiras ligarem as paveias com um gesto que é sempre o mesmo desde o começo do mundo. Ha na humanidade forças que a colera do homem nunca será capaz de prostrar, e é delas que se alimenta. Que poder domina tudo aquilo? O soldado sabe vencer o soldado. O trabalhador sabe vencer a morte.» «Ha um patriotismo guerreiro que é sublime, porque afronta a morte. Todos devemos inclinar-nos perante ele. Ha um patriotismo trabalhador que é ir para o trabalho.»[10]

Esse patriotismo que combate imperturbavel os combates do trabalho e que o critico comovido contemplou com orgulho na sua patria, esse foi e é invulneravel a toda a injuria do fogo, e, sentindo-o crescer na nossa alma e através da historia, sentindo-o avassalar-nos a consciencia, ilumina-nos e alenta-nos a esperança de que, sendo a maior força e o supremo padrão da gloria humana, só a esse está reservado todo o imperio em que as nações e as raças viverão para melhores destinos. Isso que permanece sob as cinzas, e não as cinzas que o vento leva, isso será o sustento e a razão de ser da humanidade. É mais do que uma esperança; é uma certeza e a mais vivificante das muitas que a guerra deixa erguidas entre os seus destroços.

O scepticismo desdenhoso, mais propenso a lidar com a miseria, de que faz seu lucro, do que a exaltar-se em visões que não lhe matam a sua fome de prazeres caracteristicos, está pronto a advertir-nos de que pouco importa que nos homens haja impulsos eternos de robustez, paz e nobreza. Outros, e de baixeza, os combatem; nestes temos de confiar, e destes havemos de nos socorrer, porque sempre os encontramos arrogantes e muitas vezes os vimos dominar, e sempre lhes sentimos a crueldade atroz. Esse scepticismo não desistirá de procurar convencer-nos de que toda a aurora de justiça e amor conhecida dos homens, e muitas teem sido, é invariavelmente entenebrecida por uma ruindade ingenita indomavel que logo a confunde em uma noite cerrada. Não ha que esperar paraisos da bondade humana; sempre existiu e nunca governou o mundo. É isso o que o scepticismo nos assegura, tal qual como se nos dissesse que não vale a pena semeiar a floresta nem crêr no seu crescer, porque sempre houve tempestades e as tempestades derrubaram muitas arvores, e sempre houve vermes e os vermes muitas outras corromperam, ás vezes das mais frondosas e melhores.

Em socorro dos scepticos e da sua filosofia comoda, isentando de muita obrigação, esforço e dever, viriam os homens praticos, esses de que Cristo foi a negação, quando julgou pratico morrer na cruz para ressurgir em espirito, no mais activo e criador espirito da humanidade.

Os homens praticos não se convencem com semelhante loucura, e esses pretendem que o unico modo eficaz de salvar a humanidade é organisar a sua vileza em vez de invocar a sua nobreza. Fazendo o inventario comparado das guerras e das aspirações de paz, acharão que as guerras teem prevalecido sobre as aspirações de paz e, porque assim aconteceu, não poderá acontecer diferentemente. No seu obstinado entender, a guerra para ser fecunda terá de preparar novas guerras, cogitando de continuo na força futura dos exercitos e no seu poder. Tudo o mais é utopia. _Homo hominis lupus._ A unica esperança de sustentação dos homens é avigorar-lhes as queixadas, afiar-lhes os dentes e banir-lhes do peito a piedade. Devorar e ser devorado será o ciclo infernal em que a politica tem de penar. Amar e ser amado é ilusão contraria á natureza e, mais do que perigosa, mortal.

Nem lhes abalará a firmeza o proprio testemunho da Historia que eles invocam e que aliás demonstra o progressivo desenvolvimento da boa vontade entre os povos e as nações, um declinar constante de aversões e incompatibilidades, até mesmo entre aqueles que ainda ha pouco eram inimigos e cruzavam armas. No fundo do desenvolvimento politico das sociedades humanas ha um alargamento e fortalecimento constante das suas faculdades de afeição, mas, como esse desenvolvimento é um facto de evolução e conquista gradual e não uma revolução ou um fenomeno de cataclismo, nunca poderá isentar-se totalmente de um remanescente de barbaria e crueldade que só progressiva e lentamente decáe. E porque esse remanescente persiste, o scepticismo, e a avareza, ambições, e até mesmo certo heroismo, que todos são os seus acolitos, exaltam-se na ilusão de que os homens não mudam; e por isso fazem da má vontade reciproca entre os povos uma lei e um sistema politico e uma moral publica. Mas, sem embargo, os factos frequentemente desrespeitam as suas profecias tenebrosas. Quando terminaram as guerras napoleonicas, todo o mundo imaginou que a paz era apenas uma tregua entre a Inglaterra e a França; não tardaria a renovação dos combates entre estas duas nações. Um dia, um homem publico eminente da Inglaterra repetia esses temores diante do duque de Wellington, e o duque, respondendo-lhe, aconselhou que «se mais tarde ou mais cedo tinham de entrar outra vez em combate, fizessem por todos os meios que fosse o mais tarde possivel.» O proprio guerreiro desejava a paz e suscitava uma politica conforme os seus desejos; e o futuro deu-lhe razão. Guerra não tornou a haver entre a França e a Inglaterra. Passados cem anos, encontramo-las aliadas. A solução pacifica mostrou-se mais pratica do que a solução belicosa.