Do que o fogo não queima

Chapter 2

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«Mas os factos, por mais angustiosos que eles sejam, _significam_ muito pouco, desde que os homens durante a febre não são o que são; e a maior parte dos horrores serão logo esquecidos, tal qual como com as pessoas mais sadias que, depois de terem escapado de uma doença mortal, pensam pouco nos sofrimentos por que passaram.

«Não esqueçamos nunca que esta guerra significa uma crise constituicional e que nesta conformidade temos de a julgar. Só então seremos capazes de compreender as suas fases.

«Digo que a causa dos Aliados tem a vitoria certa. Isto não implica, todavia, que seja consumado, qualquer dos fins concretos que ela se propôs.

«Será impossivel assegurar uma paz de tal modo duradoura que de uma vez para sempre impeça a violação dos tratados; uma nação sósinha não terá possibilidade de decidir a sua propria sorte mais livremente do que um individuo póde desprender-se dos laços sociais e de parentesco e seguir exclusivamente a sua boa vontade; o principio nacionalista não tem possibilidade de triunfar desde que a maior parte dos paises estão habitados em comum por diferentes raças. Mas, em vez disto, teremos melhoria em outras cousas.

«Muito provavelmente, a ideia tradicional de um estado que autorisava uma nação a oprimir outras nações, será condenada, dando logar a uma nova ideia, baseada exclusivamente sobre considerações economicas e militares, e deixando plena independencia a todas as nações quanto aos termos da sua cultura. Muito provavelmente, o equilibrio futuro da Europa dependerá, mais do que dantes, da colaboração sobrepujando a oposição, o que só por si tornará menos frequentes as guerras.

«Mas são inuteis as profecias sobre o que desconhecemos. A unica cousa certa é que esta guerra do mundo, sendo uma crise constituicional, ha-de acelerar na vida interna das nações e nas relações internacionais aquelas transformações que cada ano se teem mostrado mais urgentes e cujas formulas ninguem, por agora, póde encontrar.

«Ha uma intenção no labor cego da Historia.

«Não quero dizer que todos os resultados desta guerra hajam de ser bons; muito longe disso. Os seus efeitos materiais imediatos não podem deixar de ser desastrosos. A morte prematura de milhões dos mais robustos e melhores não poderá beneficiar o remanescente. Os odios e ressentimentos semeiados hão-de estorvar por algum tempo toda a convivencia internacional.

«O que Romain-Rolland disse, mostrar-se-ha muito verdadeiro no primeiro momento:--_Quelque soit le vainqueur, c'est l'Europe qui será la vaincue._ A um tão longo e terrivel esforço ha-de seguir-se uma reacção, uma depressão temporaria tanto mais acentuada quanto maior fôr o levantamento. Podemos perder por algum tempo tudo aquilo que moralmente ganhamos nas horas de perigo. No primeiro instante, todos os efeitos imediatos desta guerra poderão ser francamente negativos.

«Todavia, não retirarei uma só das palavras de esperança que escrevi, nem que eu soubesse que nos estão reservados acontecimentos peiores ainda do que aqueles por que temos passado.

«Porque o progresso que realmente importa é o progresso no idealismo, e este não póde ser suspenso por periodos de retrocesso material, por mais longos que eles sejam.

«Em que sentido promoveu o bem o advento de Cristo ou o da Revolução Francesa? Materialmente não, nem em principio nem depois. Ainda mais: mesmo hoje se póde pôr em duvida se é consideravel o beneficio da condição material do mundo derivado de qualquer daqueles acontecimentos. Mas mudaram o espirito dos homens, mudaram a sua consciencia das cousas; e isto é que é superiormente importante, porque só uma mudança de consciencia das cousas é capaz de mudar intimamente as proprias cousas.

«O espirito afeiçoa a materia muito lentamente. É isso certo. Mas, por isso tambem, nenhuma outra cousa a afeiçoa absolutamente.

«A lei só começou a ser o reflexo da rectidão no dia em que os homens começaram a conceber o que a rectidão significava.

«As instituições, só por si, são nada. As mais perfeitas que se possam imaginar, são meramente uma crosta prestes a cair ao mais pequeno impulso da paixão, se não exprimem um grau correspondente de compreensão espiritual.

«Assim, a civilização perfeita da antiga Roma não pôde subsistir porque apenas exprimia uma compreensão limitada; e, pelo contrario, o germen de uma penetração mais profunda lançado pelo Evangelho de Cristo nas almas barbaras tornou-as aptas para um infinito progresso.

«Nunca como agora se encontraram em o mesmo nivel a penetração espiritual e a exteriorisação. No principio da nossa era a penetração era profunda, mas o estado de cultura externa era inferior; hoje, esta parece infinitamente superior áquela. Isto explica o incomparavel horror desta guerra. Isto revelou a disparidade monstruosa entre a nossa civilização externa e o estado das nossas almas. Mas este horror abre-nos os olhos do espirito.

«Nunca mais e em parte alguma a opinião publica suportará os processos tradicionais e profundamente imorais das relações internacionais; nunca mais admitirá conscientemente que o poder é o direito. A nossa consciencia das cousas ha-de mudar, e esta é a unica especie de progresso a tomar em conta. Não ha desastres materiais que anulem essa conquista.

«Só o progresso no idealismo cria uma base segura de desenvolvimento material. Demais, tarde ou cedo esse progresso se exprimirá, por si mesmo, em sua face externa. Ora esse progresso ha-de inquestionavelmente caber-nos depois da guerra, seja qual fôr o caminho que os acontecimentos materiais tomem.

«Nós, os contemporaneos da guerra mais destruidora que o mundo viu, julgamos muitas vezes injusto que fossemos nós os escolhidos para esta terrivel experiencia.

«Console-nos a ideia da retribuição deste sacrificio.

«Não fossem os nossos sofrimentos, não fosse a desgraça que nós ao mesmo tempo padecemos e causamos, e aqueles que hão-de vir depois de nós não seriam capazes de conhecer nem de viver vida melhor do que a nossa. Se o conhecimento ha-de incarnar um dia, inevitavelmente, em acção e vida, não é menos verdade que só as acções consumadas dão origem, em regra, a novas realizações.

«Um mundo novo nunca nasceu senão da agonia do que o precede.»

Nem porventura será necessario esperar o fim da guerra e das suas calamidades, para que possamos sentir o alvorecer da transformação salutar que a rapida mas profunda analise do conde Hermann de Reyserling agoura em termos de evidencia. Alguma cousa ha mudada desde já; alguma cousa dessa redenção se mostra já fundada e inabalavel.

Se o mundo se acha ainda entregue á violencia estupida e cruel da força puramente fisica, se ainda abundam os que nela crêem com um fetichismo barbaro, e a tomam pela prova ultima da civilização, entretanto a propagação de um sentimento vigoroso de desprestigio da força a condena, senão á miseria de um facto de abominação, pelo menos a um estado de sujeição e escravidão sob o dominio de poderes mais altos. Não será propriamente o desprestigio da força esse julgamento dos seus feitos e crimes ao qual temos assistido, mas é desde já, e claramente, o sentimento das responsabilidades da força. O imperialismo e as suas armaduras de aço e as suas tiranias e magistraturas vão a retemperar-se em um novo baptismo. Secretas leis da alma dos povos lhe exigem, por titulo de admissão, que de apanagio e privilegio, instituido em proveito da riqueza e do orgulho dos estados, das dinastias e das classes, se converta em instrumento da paz e da prosperidade dos povos. Depositario da força, e não o seu livre possuidor, o imperialismo moderno, para legitimar e manter a sua existencia e o seu poder, cede a impulsos que já de longe lhe vinham turvando a liberdade e o absolutismo, e tem de cohonestar a ambição do dominio, e os interesses dos que dominam e regem, com a consciencia zelosa e praticamente fecunda das responsabilidades impreteriveis que ele importa para a alegria e fortuna das nações e das gentes que compreender no seu ambito e tiver, mais sob a sua protecção e guarda do que sob a sua autoridade retribuida. De um simples instrumento de mandar e de usufruir riquezas, de um processo de avareza terá de passar, por efeito do progresso moral e das obrigações politicas correlativas, a um modo de servir isentamente. E essa transformação que a evolução moral das sociedades vinha reclamando lentamente, incitando e conquistando a custo, foi agora subita e singularmente apressada pela violencia da guerra, pelas suas dores, pela experiencia e desenganos de que ela se tornou portadora sinistra, todas inclinando a crêr que o imperialismo, para ser um processo de ordem politica e como tal escapar aos impetos de uma reacção anarquica, terá de fundar-se em nobreza, probidade, desinteresse e inspiração de altos e generosos deveres. Só por estes e pela fidelidade com que os observar, só pela actividade e pela soma de bens concretos que importar para a felicidade dos povos, será aceite e querido. Confiado apenas ao prestigio das armas e á ostentação da soberba e da crueldade, da avidez e da injustiça, erguidas estas em seus tronos de riqueza, jámais irá além das criações gigantescas que a historia nos mostra dissolvendo-se invariavelmente na corrupção do seu proprio sangue. A desilusão tornou-se completa no meio da catastrofe.

A atrocidade dos combates imprimiu com uma profundeza desconhecida esta feição de serviço do proximo, não só ao imperialismo politico, ao que usa canhões, palmas e estandartes e aterra pela morte, mas tambem a todos os demais imperialismos seus parceiros, parentes e aderentes, aos imperialismos das oficinas como até aos simples imperialismos domesticos. Por força da dolorosa eloquencia de um momento que revelou na sua nudez a miseria de todo o isolamento orgulhoso dos homens e das nações, sucede a urgencia da solidariedade e da cooperação áquele apetite de dominio, exploração, sujeição e posse que tem sido a alma de todas as escravidões e servidões. Nesta lugubre escola, o capitão de armas aprendeu a respeitar o soldado, como o patrão o operario, e o amo o seu servo. A ideia de propriedade, dos homens como das cousas, a razão do dominio pulverizou-se para ser refeita em nova liga. Isentou-se de estranheza o clamor de Tiberio Graco, quando clamava ás multidões que o cercavam: «Os animais bravios que estão espalhados pela Italia teem suas tocas e cavernas onde podem abrigar-se, e os que combatem, que derramam o seu sangue em defesa da Italia, não teem outra propriedade senão a luz e o ar que respiram; sem casa, sem morada certa, vagueiam por todos os lados com as mulheres e com os filhos. Os generais enganam-se quando os exortam a combater pelos seus tumulos e pelos seus templos. Em tão grande numero de romanos haverá um só que tenha um altar domestico e um tumulo em que os seus antepassados repousem? Não combatem e não morrem senão para manter o luxo e a opulencia dos outros; chamam-lhes os senhores do universo, e não teem de seu um palmo de terra.»

Vinte séculos passaram desde que o mundo jazendo na servidão desmentiu na ironia e na crueldade dos factos a violenta aspiração do tribuno; mas, feita daquelas cousas que o fogo não queima, prevalecia e durava atravez de toda a derrota, e hoje vemos o que a justiça das gerações lhe guardava. Porque as plebes do nosso tempo, caminhando para a guerra, já aprenderam a preguntar porque e para que é que lá vão, e os que as mandam já não sentem em seu poder arte de engano ou energia de captação que lhes dê segurança bastante para negar e roubar aos que combatem o seu quinhão na patria. Com pasmo vimos a Inglaterra estabelecer o serviço militar obrigatorio, mas talvez na surpreza muitos se esquecessem de considerar que essa violencia feita ás liberdades tradicionais daquele país era a democracia continental com o seu cortejo de igualdades passando o Estreito, e, se não derrubava de um golpe o remanescente do feudalismo insular, o que o futuro dirá, suspendia-lhe, pelo menos, todas as garantias de estabilidade. O exercito deixou de ser o servidor assoldadado dos governos e das aristocracias, obediente á sua voz; tornou-se em obrigação de defesa, comum a todas as classes e para cumprir a qual se confundiram nas fileiras os plebeus e os nobres, e imediatamente, de burgo em burgo, alguma voz misteriosa apregoou a nova lei:--«Cada homem, cada voto». É a igualdade do poder politico, preludio certo e sabido das reivindicações igualitarias continentais, ameaçando as desigualdades monstruosas da fortuna economica, que na Inglaterra, com a liberdade de testar e a liberdade mercantil, mantinham o poder das velhas aristocracias e criavam aristocracias novas, diferentes pela origem das antigas mas com elas emparceirando no dominio politico. Meses depois de estabelecido o serviço militar obrigatorio, aparecia na camara dos comuns uma proposta abolindo todos os privilegios hereditarios, e o _Times_ dava fóros de cidade á discussão da conveniencia da constituição de um partido republicano na Inglaterra, que esse jornal aliás combatia mas discutia, o que só por si é sinal dos tempos.

Por outro lado, a pressão dos confrontos proprios de toda a angustia em que as provações nos incitam a considerar a sorte dos que de semelhantes desgraças teem sido menos atormentados, levava-nos a verificar, em sentimentos menos platonicos dos que aqueles que até agora prevaleciam nas academias, que emquanto a Europa se enleiava em tradições e prejuizos, com um passado tanto mais pesado para a liberdade do seu espirito quanto mais longo e acidentado nos anos e nas vicissitudes insinuando-lhe o tumulto e turvação do conflicto de diversissimas aspirações, algures a situação era diferente. Emquanto a Europa arrastava entre fadigas e penas infinitas esse fardo que é a sua gloria e a sua grandeza, e tambem, bastas vezes, o residuo morto da sua vida e o estorvo fatal da sua vitalidade, além do Atlantico filhos seus, que ela criou e amamentou com o melhor do seu sangue, tinham fundado nações opulentas de riqueza e felicidade, e regendo-se por principios assáz diferentes dos que nos preocupam e governam, e emancipadas em larga escala do que a nós nos causa dano.

Nós, europeus aferrados a todas as aristocracias, de espirito como de bens, destituidos de elasticidade moral e economica, facilmente nos envergonhando da pobreza, tardos em sentir como sem prejuizo da dignidade e até da alegria um homem passa de magistrado a caixeiro e de caixeiro a magistrado, não raro inclinados a tomar por honra a hierarquia social e a profissão, rebeldes a perceber que a honra é um facto de consciencia e não depende da condição economica e da classe,--com qualquer coincide e a todas póde ser alheia,--temos visto com frequente desconfiança o desenvolvimento da grande Republica Norte-Americana, suspeitando da sua nobreza e temendo, senão mesmo aborrecendo, a rudeza das suas energias violentas, desprendidas de todos os moderadores que entre nós lhes minguariam a expansão e os impetos. O governo da multidão e a paixão mercantil afiguram-se-nos por vezes uma degradação, quando os referimos ás hierarquias tradicionais e hereditarias que nos andam no sangue, e a velhas e equivocas fidalguias de desprendimento dos bens da terra que essas fidalguias desprezam por ignominiosos, sem embargo de consentirem que o seu desprezo sirva tanto á elevação da alma e á generosidade como á ociosidade indigente e ao desamor do trabalho.

Mas, chegados a um momento de calamidade, como o presente, e atentando mais uma vez na condição dos que nos aparecem melhor armados de espirito e corpo para afrontarem as horas de desvairamento e ansiedade, não podemos furtar-nos a duvidas, e preguntamos se de facto não haverá constituição social mais simples e feliz do que esta, muito confusa, das velhas civilizações europeias, e se aqueles nivelamentos e liberdades democraticas que desde Platão tivemos por portadores de depressão, não redundam afinal na supressão de todas as superioridades e excepções, compensando-a amplamente pela elevação economica e mental da mediania e do comum. Sem embargo dos muitos descontos que necessariamente ha a fazer em todas as prosperidades, o certo é, e evidente, que os Estados-Unidos da America, dentro das suas formulas democraticas e seja qual fôr o muito mal que das democracias possa dizer-se e verificar-se, alcançaram uma situação politica admiravel, emquanto os Estados-Unidos da Europa, tão orgulhosos de saber, experiencia, ordem, categorias e tradições, são ainda do reino da utopia, para o maior numero, e uma vaga esperança, para um reduzido optimismo que teima em não descrêr do progresso moral da humanidade. Não sem boas razões, a democracia europeia pregunta-nos se o imperialismo capitalista transatlantico, precario, a praso, sujeito á sorte da inteligencia e dos bons negocios, será mais funesto e menos cruel do que o imperialismo militar dinastico, nascido e mantido por ordem do acaso hereditario, sem obrigação de capacidade mental nem dependencia das contingencias mercantis. Alguem mesmo quereria saber dos mestres da sciencia social e politica das nossas terras se os Estados-Unidos da America viveriam entre si na paz em que vivem se, em logar de se organisarem democraticamente, tivessem fundado monarquias com as respectivas dinastias. E os factos recentes, particularmente o que se tem passado nos Balkans, e estes opressivos e indeclinaveis confrontos semeiam perplexidades, demasiado bastas para nos deixarem caminho aberto e plano pelo qual possamos sair afoitamente de semelhante labirinto.

Nem mesmo será de prevalecer o argumento usual contra a legitimidade da comparação da Europa e da America, alegando que as tradições da Europa e a juventude da America não autorisam aproximações. Não, as tradições da Europa são as tradições da America, e a idade da consciencia e da razão de um e outro continente é a mesma; quem fundou as nações de além do Atlantico foram europeus repassados do que as civilizações europeias tinham de mais profundo. A diferença, onde a haja, depende apenas de descriminarmos em que ramos da tradição, que muitos eram, se fundou a civilização americana, e em que ramos da tradição se manteve a civilização da Europa. E, feito isto, teriamos ainda, para tirar as ilações praticas do confronto, de saber se foi a Europa ou a America que se desenvolveu nos ramos sadios, qual dos dois continentes teve a infeliz sorte de se aferrar aos ramos decrepitos, invadidos de toda a casta de musgos e liquenes, continuamente sujeitos a inumeraveis doenças parasitarias.

Em todo o caso, para os de mais desdenhosa ufania da civilização europeia, imaginando a America demasiado moça ainda para muito poder sentir e pensar, para quem apenas tenha observado na America a torrente do seu mercantilismo e a julgue destituida da alta espiritualidade que é o nosso brazão, convém notar que os livros de Tolstoi se vendem aos milhões nos Estados-Unidos da America, e os de Ruskin «são lidos mais largamente na America do que na Inglaterra.»[4] A mais alta elevação da alma de que a Europa foi capaz no século XIX e que esta personificou esplendidamente em seus profetas, é comum na sua disseminação e influencia ás praias de aquem e de além-mar, porventura mais querida na terra virgem do que no chão exausto. E quem hoje reler _A Americanisação do Mundo_, do extraordinario jornalista que foi W. T. Stead, irá encontrar ensejos de aplauso e de admiração de uma larga previdencia, nas mesmas paginas por onde ha alguns anos passou os olhos estimulado apenas pela curiosidade de conhecer os sonhos e devaneios dos publicistas. Na bagagem militar dos Estados-Unidos da America que os seus navios desembarcam na Europa, vem envolvida uma outra e muito volumosa bagagem politica e moral. Tenhamos isso como inevitavel e feito em grande parte. Não se amiudaram os momentos em que as palavras do presidente Wilson teem sido o texto da politica dos Aliados e nelas juraram os estadistas encanecidos do velho mundo?!...

Destas divagações do espirito em busca de melhores dias, uma cousa se salva, porém, intacta--a condenação da violencia como processo politico. Em toda a hipotese chegamos á certeza--e essa certeza constituirá um poder politico de suprema importancia--de que para a prosperidade dos estados e das nações valerá sempre mais organisar do que armar; mais se fortalecem as nações pelo desenvolvimento e coordenação das suas relações internas e externas do que pela invulnerabilidade restrictamente militar. Nas nações como nos individuos, a saude politica, como a saude fisiologica, será mais um facto de equilibrio e ponderação das suas energias do que o desenvolvimento sumo de qualquer delas, seja qual fôr, força militar ou capacidade muscular. Se os Estados Unidos da America não nos facultassem elementos decisivos nessa demonstração, bastaria para nos induzir em semelhantes conclusões o confronto da soberba e prolongada expansão pacifica da Alemanha antes da guerra com os destroços de varia especie, economica e moral, acumulados pela cegueira da sua febre guerreira, desde o dia em que se julgou capaz de manter e acrescentar a grandeza por efeito e graça da violencia militar. O seu imperio e prestigio, cujo alargamento participava da natureza dos prodigios do engenho humano, dissipou-se em uma extensão incalculavel na hora em que, desprendendo-se de toda a simpatia pelos povos que a acolhiam em termos de fraternidade, preferiu a arrogancia da força á insinuação do amor, ou mesmo ao simples comercio das comodidades mutuas. Na hora em que a Alemanha ateiou o incendio infernal que prostrou a terra e os nossos corações na desolação, nessa hora brilhou com um novo e imperecivel esplendor e que o fogo não queima; nessa hora nos convencemos, subjugados pela dôr e esclarecidos pela experiencia, que a essencia da vida das nações, o que torna os seus povos eleitos ou condenados, dignos ou infames, felizes ou desgraçados, ou até mesmo ricos ou pobres, é a sua alma, a sua aspiração, a sua fé e a sua crença, o seu caracter moral e religioso, perante o qual o saber e a força são unicamente uma ilusão e uma insidia, uma traição tarde ou cedo destinada a conduzi-los á vergonha e á miseria, se um instinto salvador não lhes ensinou a disciplinar e conter esse saber e essa força na obediencia a uma aspiração superior.

A fortuna dos povos é em ultima analise questão moral, questão de psicologia, traducção do idealismo de cada um e de cada epoca, acidente positivo de uma alma.

Um publicista eminente da Inglaterra, professor da Universidade de Londres, o sr. L. T. Hobhouse, examinando as causas da guerra e as suas consequencias, assim como as possibilidades e probabilidades de uma paz imediata e duradoura, acentuou este aspecto essencial de derivação psicologica da fortuna das nações em dois livros[5], que, a meu vêr, são das lições mais lucidas e serenas que o tremendo conflicto provocou.