Do que o fogo não queima

Chapter 1

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Jaime de Magalhães Lima

Do que o fogo não queima

Composição e Impressão Emprêsa Gráfica A UNIVERSAL 111, Rua Duque de Loulé, 131 PORTO

DO QUE O FOGO NÃO QUEIMA

JAIME DE MAGALHÃES LIMA

Do que o fogo não queima

PORTO Empresa Gráfica A UNIVERSAL 111, Rua Duque de Loulé, 131 1918

PROLOGO

_A guerra prossegue na sua impenitencia sinistra, junta os seus dias em mêses e os seus mêses em anos, e as heresias que a aborrecem e lhe negam a legitimidade e os beneficios, não se rendem e nem sequer esmorecem, não obstante a insistencia do flagelo que lhe dá visos de necessidade e condição natural. E eu, que dessas heresias fiz colheita e esperança[1] no primeiro momento, suspeito a conveniencia, senão a obrigação, de as repetir e corroborar quando o tempo e a perseverança entre vicissitudes contrarias as fortificaram e disseminaram._

_Daí este opusculo._

_«Heresias» não será talvez o termo proprio; melhor diria se lhes chamasse «crenças». «Heresia é uma palavra que as tiranias do fanatismo fizeram aviltante e criminosa para justificar as atrocidades de um dominio insaciavel e da intolerancia, sem aliás alcançarem discriminar, e muito menos provar, onde residia a piedade e a injuria, se em quem usava os poderes da terra para oprimir a consciencia, se em quem se prevalecia da robustez de consciencia para afrontar os poderes do mundo. No fim, ambos encontrarão porventura que fizeram acto de fé a seu modo--indubitavelmente muito mais glorioso no que por acusação de heresia sofreu o martirio. Este será, na realidade, o crente, quem mais de perto tocou a divindade e mais inteira e fielmente lhe obedeceu._

_Aquilo que desse drama hoje vemos, e é objecto da vida politica e do estado, não desmente o que de ontem sabemos e foi arrebatamento do dogmatismo eclesiastico absolutista. Duas especies de patriotismo se encontram em conflicto, e, nenhum conseguindo vencer ou convencer o adversario, ambos e mutuamente se reputam herejes:--o patriotismo de servir e o patriotismo de combater: o de espada e carabina, que tem por acto bom afastar e eliminar o proximo, e o de martelo e charrua, que tem por missão e dignidade fecundar a terra e agasalhar aquele mesmo proximo que o outro abomina; o que ama o peregrino e o que detesta o estranho; o que é um impulso de exclusão e aversão, uma avareza, e o que é uma confissão de bem querer e um anseio de proteger, uma caridade. Ha duas especies de patriotismo, como ha dois modos e duas aspirações de cultura do homem, conduzindo a atitudes politicas divergentes, de que as concepções do patriotismo correlativas são apenas uma das suas multiplices manifestações:--ha uma cultura que consiste em nos aprestar para calcar e escravisar os outros, e ha uma cultura que se esforça por nos fortalecer para calcarmos as nossas proprias paixões e as ordenarmos e disciplinarmos sob uma regra sobrehumana; ha a cultura que olha para o chão e a que olha para os céus, a que é uma tarefa de sordidez, em que se degrada, e a que se eleva no desprendimento, em que exulta. O que nestes tempos de guerra se tem passado com os que por imposição da consciencia se recusaram a combater, particularmente o procedimento dos poderes constituidos da Inglaterra com as centenas dos seus_ conscientious objectors, _o patriotismo inquisitorial, cujas torturas e penas vão desde o fusilamento puro e simples, tanto da feição peremptoria do rigor continental, até á prisão, trabalhos forçados e perda dos direitos politicos, que são as soluções predilectas, menos severas mas por igual mortais, da tradicional liberdade insular,--isto nos manifesta, dolorosamente, não só quanto são profundos os antagonismos essenciais e latentes de que as sociedades modernas se compõem, mas tambem quanto é morosa a jornada no caminho e na ambição daquela liberdade e respeito mutuo, quando amor não seja, para os quais não ha heresias._

_Embora! Essa escabrosa jornada não cessa. Ali mesmo onde sofre terriveis assaltos inimigos, aí assinala triunfos e progressos. Um momento de «brutalidade hunica e de baixeza desenrolando as suas ondas sobre as nações que participaram na guerra, rebarbarisando toda a civilização por alguns anos», na expressão violentamente exacta de Carlos Liebknecht, que paga com desoito mêses de prisão a audacia insubmissa das suas heresias, isso não bastou para aterrar ou desalentar as consciencias certas dos seus direitos e imperio, e inabalaveis na segurança de um eterno renascimento e vitoria final._

_Os sintomas são claros._

_Não conseguiu a Camara dos Comuns, por uma minguada maioria, um voto favoravel á perda dos direitos politicos do_ conscientious objector, _sem que não tivesse de lutar com uma oposição veemente, na qual se juntaram homens de todos os partidos politicos, não excluindo os mais acentuadamente conservadores. Foi então que, sem embargo do seu declarado e esclarecido conservantismo, Lord Hugo Cecil, em uma oração magistral, combateu «a idolatria do estado», que, tornando-o superior á lei moral, perdeu a Alemanha na confiança das nações civilizadas; foi então que, em palavras memoraveis, se ouviu a reivindicação da preeminencia do dever perante a consciencia sobre a obrigação perante o estado. «É na crença naquela região de obediencia superior que nos impõe qualquer cousa mais do que aquilo que o estado nos póde pedir, e que nos dá qualquer cousa mais do que o estado jámais nos poderá dar, que nós temos de sustentar a grande causa em que nos empenhámos. Ás vezes dizemos que combatemos pela civilização.» Mas aquele em quem o dever da consciencia sobreleva á obrigação com o estado «dirá antes que combatemos para que a civilização se mantenha uma civilização cristã, e, por certo, em uma civilização cristã é mal violentar a consciencia dos sinceros, é mal impôr-lhes uma obrigação que eles julgam corruptora e contagiosa.»_

_Emquanto isto se proclama em voz alta, apaixonadamente e apaixonando as legiões de crentes a que se comunica, uma outra ordem de factos se apressa a dar-lhe uma confirmação eloquente. A falencia retumbante das artes politicas dos estados que desencadearam a mais mortifera e ruinosa das guerras, para ao fim confessarem que pela guerra não teem solução os problemas que ela era chamada a resolver; a derrota do intelectualismo politico, que, em boa logica com todo o intelectualismo e suas naturais insuficiencias, se embriagou na vaidade das suas limitadas forças e, desconhecendo as do caracter moral, considerou os homens meras quantidades e energias mecanicas alheias a toda a influencia das forças intimas espirituais; esta estreiteza que tinha de rematar na incapacidade demonstrada das diplomacias profissionais ortodoxas para assegurar, não direi já a felicidade dos homens mas a paz das nações, induz a procurar em outros poderes a fortuna que estes muito contingentes e mesquinhos não souberam dar-nos._

_É nesta angustia que mais uma vez se nos revela em seu intacto resplendor aquela lei pela qual a consciencia soube que «nem só de pão vive o homem», que a historia e a garantia unica da civilização é o alargamento progressivo dos limites da espiritualidade á custa da restrição dos limites das materialidades, e que os combates a que o nosso tempo teve o triste privilegio de assistir, não são mais do que um momento de conflicto e de violencia entre isso que não é pão e é vida e se sente oprimido, e aquilo que, sendo pão, sendo repasto do corpo, seu sustento ou seu prazer ou sua força, todavia e cada vez mais se mostra alento insuficiente e mesquinho para aquele outro banquete etereo e intangivel, que os sentidos não tocam, e se chama simpatia, amor, humanidade ou caridade, e sempre e afinal essencia da vida._

_Preparemos para esse banquete o nosso animo._

_Eixo, 15-1-1918._

Do que o fogo não queima

Se da onda temerosa que começou a assolar a Europa e o mundo em 1914 consideramos apenas a espuma enxovalhada, não ha maior infamia, nem maior crime e indignidade. É uma degradação de incomensuravel profundeza, é a terra lavada em sangue pela ganancia abjecta das tiranias da sordidez.

Um publicista de notavel merecimento e admiravel imparcialidade, G. Lowes Dickinson, compreendendo a opinião de milhares de homens, o desalento de muitos dos mais sinceros e cultos, a revolta de alguns e o cinismo inalteravel de uma minoria poderosamente armada, resume neste esboço a situação:

«A guerra veio da rivalidade entre os estados na disputa do poder e da riqueza. Isto é universalmente aceite. Sejam quais forem as diversidades de opinião que prevalecem nos diferentes paises interessados, ninguem pretende que a guerra tivesse origem em qualquer necessidade da civilização, em qualquer impulso generoso ou ambição nobre. Conforme o conceito popular da Inglaterra, nasceu a guerra unica e exclusivamente da ambição da Alemanha, vinda á conquista de territorio e poder; e, conforme o conceito popular alemão, nasceu da ambição da Inglaterra, correndo a atacar e destruir a riqueza crescente da Alemanha e a sua força. Assim, para qualquer dos beligerantes, a guerra mostra-se como imposta por uma pura perversidade, e sob nenhum aspecto tem justificação moral de especie alguma. Estes conceitos, na verdade, são demasiado simples quanto aos factos; mas... a guerra procedeu da rivalidade de imperio entre as grandes potencias, em toda a parte do mundo. A contenda entre a França e a Alemanha no governo de Marrocos; a contenda entre a Russia e a Austria no governo dos Balkans; a contenda entre a Alemanha e outras nações no governo da Turquia--foram estas as causas da guerra.

«É a cobiça de mercados, concessões e colocação de capitais que está por detraz da politica colonial conduzindo ás guerras. Os estados concorrem ao direito de explorar os fracos, e nesta concorrencia os governos são movidos e tutelados pelos interesses financeiros. O inglês foi ao Egito por causa dos prestamistas, o francês foi a Marrocos por causa do minerio e da riqueza. Em todo o Oriente, no mais proximo como no mais distante, são as concessões, o comercio e os emprestimos que levaram á rivalidade das potencias, a guerra sobre a guerra, ás _expedições punitivas_ e, ironia das ironias! ás _indemnisações_, extorquidas como uma nova forma, e especial, de roubar os povos que se levantam esforçando-se por se defenderem dos roubos. Por um momento, as potencias combinam suprimir a vitima comum; no dia seguinte, lançam-se umas sobre as outras a disputar o espolio. Estes são realmente na sua nudez os factos sobre as questões entre os estados a respeito da politica comercial e colonial. Emquanto a exploração dos paises menos desenvolvidos fôr dirigida por companhias, não tendo outro fim senão os dividendos, emquanto os financeiros determinarem a politica dos governos, emquanto as expedições militares acabando em anexações forem postas aos hombros do publico por motivos que não podem confessar-se, hão-de acabar em guerra as nações que começaram pelo roubo, e milhares e milhões de vidas inocentes e generosas, as melhores da Europa, hão-de perder-se inutilmente, sem fim algum, porque interesses sinistros jogaram na sombra a paz do mundo em proveito do dinheiro das suas algibeiras.»[2]

Sordidez, miseria, crueldade, uma tirania de scelerados sacrificando a ruins paixões de dominio, avareza e sensualidade as multidões inocentes, o trabalho, a candura, a honestidade e o heroismo--cifra-se nisto a historia militar do mundo. Estas seriam as causas da guerra, as da ultima como as de quantas a precederam, esta a sua unica e eterna maldição. Só o que se viu com as companhias de navegação, e é publico, desilude os menos crentes nas infamias da guerra. Quando as familias dos que combatiam e morriam nas trincheiras, para gloria e proveito dos que os mandavam, sofriam fome e frio, havia emprezas de navegação, e tambem dos que mandavam, que faziam dividendos de 65 por cento, á custa da anciedade e atribulações daqueles que criaram os filhos imolados nas batalhas. As monstruosidades economicas alimentam-se daquele mesmo sangue que as monstruosidades da soberba derramam desapiedadamente no chão esteril dos combates.

Não duvidemos, a guerra e a ignominia são filhas do mesmo ventre.

Mas não duvidemos tambem de que, onde a guerra se peleja e a ignominia corre a fazer as suas presas; outras forças se erguem que as dominam e confundem. E sobre os destroços da politica, de ordinario infame, floresce de continuo a consciencia moral, tão pura na aspiração como lenta mas inflexivel no crescer.

Estranha sujeição das potestades! Essa fortaleza satanica não é só por si tão robusta que prescinda da protecção do bem dos povos, da isenção, do patriotismo, da fortuna moral dos homens e das nações, e de outras e infinitas sombras etereas que vivem, desarmadas e fracas, apenas em os nossos sonhos. Para que as ambições da sordidez prevalecessem e colhessem o seu quinhão na guerra em que nos crucificaram, foi-lhes necessario invocar interesses urgentes da liberdade e da dignidade humana. Pressentiram que só por esse compromisso levariam os exercitos ás batalhas. Por uma singular escravidão, a sordidez sujeitou-se á nobreza. Talvez mentindo astuciosamente, com uma astucia vulpina, toda de impostura; mas sujeitou-se, não sem ignorar de que por força terá de cumprir muito daquilo que por mentira assegurou. A sordidez tem em seu poder as armas e o fogo, quanto é necessario para devastar a terra e a embeber no sangue. E essa mesma sordidez armada, sentindo fugir-lhe o poder perante qualquer cousa que o fogo não queima, aceitou a tutela e imperio de forças imponderaveis e jurou-lhes fidelidade. A força fisica na sua maior opulencia destrutiva não sabe combater, sente-se insuficiente, se não tem em seu apoio um principio moral que a legitime. Para que os soldados marchassem contra a Alemanha, tornou-se necessario convencer os povos de que a Alemanha praticava um crime e meditava as atrocidades de um despotismo avaro, absorvente, insaciavel.

Eis aí o facto capital de cuja compreensão depende a determinação do caracter e mais profunda significação desta ultima fatalidade que pôs as nações em guerra--não são os principios que dependem das armas, são as armas que dependem dos principios. Pelo gráu em que as armas dependem dos principios se afere a altura da civilização de uma comunidade e de uma época, e pelo desrespeito ou pela corrupção dos principios se julgará da profundeza da sua degradação. O progresso da humanidade é puramente materia de desenvolvimento e natureza do espirito que a penetrou e rege. Disso dependem as guerras; os seus incendios dependem do que o fogo não queima. Se se ateiam, é porque aquela essencia eterea lhes falece; se abrandam ou se apagam, foi porque ela os envolveu. «Por muito que condenemos os chefes negligentes e as castas desapiedadas que vivem pela guerra, a fonte real do mal é o sentimento popular em que se apoiam. A lição que aí temos a aprender, é que as doutrinas e paixões enraizadas, de que essas desgraças provêm, só podem ser removidas por um lento e firme labor das forças espirituais. Aquilo de que principalmente se carece é a eliminação dos sentimentos cujas instituições alimentam a inveja e o odio, e preparam os homens para a desconfiança e para a agressão.» (Lord Bryce).

Incapaz de queimar, ou sequer prejudicar ou interromper a vitalidade essencial dos principios, o fogo das batalhas apenas reduz a cinzas as sarças que os ocultam e que por os ocultarem nos transviam; é um arrojo de sinceridade, é um processo terrivel e crudelissimo de pureza, desprendendo os principios, a suprema razão de ser da humanidade, das miserias infinitas que os contrariam e envolvem. Alguem disse, pondo essa aparente contradicção em uma imagem feliz, que só de noite as estrelas brilham.

Se «ha certas cousas eternamente belas que subsistirão quando a guerra passar, tais quais eram antes da guerra começar e tais quais serão sempre, e se o nosso dever é concorrer para as manter vivas, compreendendo-as e amando-as» (Gilbert Murray), a guerra que nos angustía seria talvez perante «essas cousas eternamente belas» uma experiencia, um transe de morte precedendo uma ressurreição esplendida, de esplendor mais alto que todo aquele que precedentemente as houvesse coroado. Porventura a guerra veio a combater pela violencia uma civilização turbada e enlouquecida pela sensualidade, uma civilização que nem soube acautelar-se pela persuasão nem corrigir-se pela experiencia pacifica; será a febre de uma infecção que a higiene não foi capaz de prevenir, por debilidade de animo e cegueira de inteligencia, que não por escassez de recursos.

O que vimos á luz desse brazeiro e que não viamos claramente antes que ele se acendesse, embora surdamente minasse a terra e a felicidade, é como uma aurora de redenção e esperança, como uma certeza divina.

Agora vemos, como nunca vimos, que de que o mundo carece, não é de inteligencia, é de caracter. De que o mundo carece não é de uma nova ordem nas cousas e nas instituições e inventos que as regulam; a antiga muito bem lhe satisfazia todas as necessidades. De que o mundo carece é de melhor ordem nos corações; o passado lho revelou pela sua historia e o presente lho confirmou pelas provações. De que o mundo carece, para sua luz e ventura, é de mansidão, dessa eternidade que o fogo não queima; não é de oficinas que as chamas arrazam e o fumo lança ao vento.

De facto, uma lei de identidade inviolavel faz que a guerra não possa gerar senão a guerra, por mais subtil que seja o esforço para a transmudar em benignidade. A paz, como obra politica, ou diplomatica, ou militar, ficará por nascimento sujeita á concepção inseparavel do ventre de soberba e avareza que a gera; sómente será efectiva e fecunda quando derivar de um renascimento da politica, da diplomacia e dos exercitos no espirito religioso que se lhes insinuar. Fóra disso será uma ficção e uma ilusão, transitorias e mentirosas como todas as ficções e ilusões que os cataclismos infernais das criações humanas se encarregam de dissipar com a maior dureza. É inutil cogitar combinações, tribunais e semelhantes subterfugios para protelar em esperanças vãs o que só ao espirito pertence e só ele póde dar. As civilizações vulgarmente chamadas decadentes e decaídas, porque minguaram em poder militar ou de todo o perderam, são bastas vezes as que predominam, embora destituidas de bens e forças temporais. Avassalaram pelo espirito aqueles e aquilo que pelas armas as venceram. Nos individuos como nas raças são os mortos que governam, como o filosofo pretende. A eternidade das ideias e das aspirações, e das energias morais em que essa eternidade se revela, sobrepõe-se ás vicissitudes efemeras do tempo e completamente as subordina, ainda que essas vicissitudes importem a morte de milhares de homens e a aniquilação de riquezas inumeraveis. A Grecia inspirando-nos a liberdade, Roma disciplinando-nos na ordem ou Israel prostando-nos na piedade foram superiores a toda a corrupção, ruina ou escravidão, governam hoje mais ampla e firmemente do que na hora em que o poder politico as servia; como, modernamente, a França no fulgor da sua inteligencia, ou a Inglaterra na acuidade dos instintos morais, ou a Russia na abdicação religiosa, ou a Alemanha na intuição das temporalidades, são imperios fundados de uma vez para sempre, insubmersiveis no dominio do nosso espirito e na pratica da nossa existencia, sejam quais forem as vicissitudes politicas que o futuro lhes tenha reservadas. A vida dos estados é nada, um instante passageiro, comparada com a vida das civilizações que, se realmente o são, se realmente significam o desenvolvimento e afirmação progressivos de uma alma, de uma relação com o infinito na existencia sensivel, não admitem perda nem retrocesso, e nem sequer quebra de expansão. A riqueza do espirito, porque não é deste mundo, embora neste mundo habite, não depende das contingencias politicas das nações; a todas é superior, e porque é superior, por nenhuma foi ou será vencida. Só pela riqueza do espirito os povos se engrandecem e vencem ou serão vencidos; o resto é acidental.

O que o espirito ganhou nas batalhas sangrentas em que a politica ultimamente precipitou os estados e as nações é qualquer cousa como um terramoto. O abalo moral confunde pelos efeitos proximos e remotos as ruinas de que os canhões cobriram a terra. Uma revolução social se efectuou durante a guerra. O direito de propriedade foi de todo abolido por instancia de interesses colectivos. E o que mezes antes parecia a maior iniquidade e levantaria as pedras das calçadas, subitamente foi admitido como o mais justo e natural dos acontecimentos. O estado monopolisou o pão e o fogo, e os povos submeteram-se; todos os interesses individuais e de classe foram indistintamente imolados a obrigações sociais, demonstradas ou hipoteticas, e, embora no tumulto proprio de semelhante radicalismo se insinuassem as torpezas inseparaveis do remexer das riquezas, os povos consentiram pacientemente na dolorosa e inaudita expoliação. Naufragaram na tormenta liberdades que haviam custado o sacrificio de gerações inumeraveis e o martirio de centenas e centenas de vidas, e as vitimas desta renovação de despotismos curvaram-se sem lamentos á fatalidade que lhes vinha em nome da salvação publica. Evidentemente, se não houve a criação instantanea de novos deveres, houve, pelo menos, uma revisão pratica e efectiva da escala e amplitude dos deveres e dos direitos, a qual não pode fundar-se em outra cousa senão na transformação da consciencia moral das sociedades.

Foi um progresso que nos abre reinos novos de grandeza economica e moral, ou é uma ruina na qual vão sepultar-se os melhores sonhos que nos alentavam a coragem para suportar as miserias do mundo?

O conde Hermann Keyserling, em um artigo publicado na _Atlantic Monthly_ de abril de 1916, e intitulado _Juizo de um Filosofo sobre a Guerra_, responde a esta interrogação com uma precisão e profundeza devéras notaveis. Quanto dessa lucida apreciação das duvidas angustiosas que a guerra provocou veio ao meu conhecimento, pela transcrição feita na _Public Opinion_[3] onde as fui buscar, aqui procurarei traduzir e guardar, pois melhor condensação da suprema e decisiva influencia dos problemas morais deste momento da nossa civilização não encontrei na torrente de escritos que a preocupação dos aspectos morais da guerra suscitou, interessando os mais altos e nobres espiritos do nosso tempo.

«A causa dos Alliados vencerá», diz o conde Hermann Keyserling, «de uma forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo, mediata ou imediatamente.»

«É inconcebivel que possa sobreviver o sistema de politica internacional que provocou esta catastrofe; é inteiramente inverosimil que os novos tratados que teem de se fazer, não sejam uma reflexão das aspirações e esperanças de todo o mundo; o purgatorio desta guerra terá de consumar a decadencia, transmudar em novas as velhas formas, acelerar o seu desenvolvimento, aclarar o espirito-das nações.»

«Nem mesmo uma Alemanha vitoriosa, no seu antigo modo, ousaria ditar a paz em termos reaccionarios; jámais seria aceite pela opinião publica, e não duraria se a violentasse. Mas a Alemanha de amanhã será muito diferente da Alemanha de ontem; a experiencia deste transe te-la-ha mudado muito. Como a França, como a Inglaterra, como a Russia, ou terá encontrado a sua nova alma ou, pelo menos, não estará longe de a encontrar. E essa alma será a de uma nação intensamente democratica.

«Não ha pois razão para pessimismo, apesar do horror da situação presente. A guerra não póde ser senão horrenda, quando pelejada nas proporções gigantescas e com a intensidade de paixão que agora se mostraram. Se os melhores entendimentos parecem cegos e os melhores corações se deixaram turvar pelo odio, a condição da maioria deve ser pavorosa.