Part 6
--Cão perdido, que anda a fugir de todos com o rabo entre as pernas.
--Pessoa envergonhada diante de saltimbancos.
--Rede de apanhar inimigos.
*VERGONHA*--Vocabulo sem sentido.
*VERME*--Bicho que roe as costas das celebridades. Algumas pessoas lhe chamam inveja.
*VERNIZ* (SOCIAL)--Untura com que se escondem os defeitos da madeira podre.
*VERSATILIDADE*--Flor cultivada no jardim das conveniencias.
*VERSO* (HARMONIOSO)--Preludio musical.
--(DURO, OU ERRADO) Chavelho retorcido.
*VESPA*--Emblema da critica: o ferrão sem o mel.
*VIAJANTE*--Almocreve de petas.
--Folha levada pelo vento da curiosidade.
*VICIO*--Racha na louça.
--Escola de aviltamento.
--No proximo é tudo quanto em nós são virtudes.
*VIDA*--Farça, comedia, drama ou tragedia, conforme a interpretação que cada um dá ao seu papel.
*VIDRO*--Reputação de mulher, que qualquer cousa embacia ou quebra.
*VINAGRE*--Em vulgar, vinho de Collares, do que se vende em Lisboa.
--Em estylo campanudo, divorcio.
*VINHA*--Idéa mãe, d'onde nasce o pae da desordem.
*VINHO*--Poesia da pipa.
--Espirito que até aos materialistas dá alma quando lhes entra no corpo. É livrar de que elle tome a palavra lá dentro, porque, se falla, vae tudo com os diabos!
*VIRTUDE*--A violeta humana. Floresce na sombra.
--Substantivo feminino, pouco usado.
*VISITA* (DE CEREMONIA)--Estreia de botas novas.
--(DE PESSOA AMIGA) Sol em dia de inverno.
--(DE MEDICO) Ponto na mortalha.
--(DE PADRE) _Consummatum est!_
*VISUALIDADE*--Arte de virar a casaca diante do publico.
*VIUVA*--Passaro que chora... pela gaiola.
*VIUVEZ*--_De profundis_, que se canta quasi sempre com musica da aria: «_Oh! querida liberdade!_»
*VIUVO*--Condemnado que obteve commutação de pena.
*VIVEIRO*--D'antes havia-os de plantas, aves, peixes, etc. A sociedade moderna inventou os de patifes, que são muito mais faceis de aclimatar.
*VOLCÕES*--Bocas da mãe terra. Quando fallam de mais vae tudo por ares e ventos.
--Corações de namoradas de annuncio e de theatros particulares. Apagam-se com o casamento.
*VOTO*--Artigo de commercio eleitoral.
--(DE CONFIANÇA) Corda para enforcar quem o deu.
***** W *****
W
*WAGON*--Pessoa que tem muitos nomes e appellidos.
*WAGONETE*--Filho de sujeito que traz muitas condecorações. Outros lhe chamam fidalgote.
*WALKYRIA*--Deusa da antiga mythologia scandinava, que designava nos combates aquelles que deviam morrer. Dizem os satyricos que os medicos representam perfeitamente de Walkyrias cada vez que receitam. Calumniadores!
*WHIG*--Nome do partido que na Inglaterra se diz defensor da liberdade. Ingrato Portugal! Deves-lhe tanto, e ainda não lhe deste todas as tuas colonias! Deixa estar, sovina, que os liberaes _inglezes_ tomarão posse d'ellas, sem que tu lh'as dês, para te ensinar como se administra bem.
*WICLEFISMO*--Doutrina do heresiarcha Wiclef. Não podia agradar ao illustre _mendigo_ do Vaticano, porque lhe negava a supremacia sobre as outras igrejas, e prégava a vida exemplar e a pobreza.
***** X *****
X
*XÁ, ou CHÁ*--Uma ladroeira e um envenenamento com que os chinas retribuem a todas as nações do mundo o opio que só os inglezes lhes impingem.
*XACA*--Anspeçada do exercito dos idolos do Japão.
*XACARA*--Deus nos livre das que se fazem hoje imitando as antigas! Já sabem a minha opinião: a respeito de versos, nem mesmo á moda de fallar minhôta, com _b_ e _c_ cedilhado. Prefiro-lhes o paio com ervilhas, e até o chouriço com ovos.
*XAMATE*--Asneira que se acha em todos os diccionarios da lingua portugueza, e que transcrevo sómente para demonstrar que é locução viciosa. É este o primeiro diccionario serio que a restitue á verdadeira pronuncia de XEQUE-MATE. _(Veja adiante.)_
*XAQUE*--Mais asneira pelas rasões já ditas. (_Veja_ XEQUE.)
*XAQUEMA*--Tecido de que se fazem cilhas ás bestas.--«Porque andarão ainda tantas de suspensorios?--perguntaria José Agostinho de Macedo.--Talvez pelo equivoco de trazerem as mãos no ar?»
*XAROPADA*--A maior suavidade da medicina. Apenas estraga o estomago.
*XAROPE*--Discurso do devedor que pede reforma de letra.
*XENOMANIA*--Gosto de estrangeirices, muito peculiar em varios litteratos que não sabem a sua lingua.
*XEQUE*--Termo de xadrez, quando se annuncia ao parceiro que o rei d'elle está ameaçado de perigo. Os diccionarios portuguezes trazem _xaque_, palavra que nunca se pronuncia entre nós.
--Em todo o caso, prefiram os xeques dos bancos aos do xadrez, que eu faço o mesmo.
*XEQUE-MATE*--Ultimo lance do jogo do xadrez, quando o rei vencido flca prisioneiro. Nenhum dos diccionaristas portuguezes conheceu até hoje aquelle jogo, aliás não escreveriam todos, com automatica unanimidade, _xamate_, que ninguem diz, nem disse nunca, em vez de _xeque-mate_.
--D. Miguel, em Evora Monte; Napoleão III, em Sédan; D. Carlos, na Hespanha; todos levaram _xeque-mate_. A opposição portugueza deu xeque aos ministros passados, que entregaram a partida, e está hoje applaudindo outros jogadores. Vejam, mas não atrapalhem. Preparam-se grandes lances, sobretudo se jogarem os bispos! Tomem sempre cautela com os peões. Por se não contar com elles, perde-se muitas vezes o jogo.
*XIPHOIDE*--Nome scientifico da espinhela. Oh! caros leitores, se ella vos cair alguma vez, procurae-a... n'este diccionario.
*XIRA*--Grande comezana á mesa do orçamento.
*XIS*--Segundo um sabio estrangeiro, residente em Portugal, _x_ vem de _chin_, que o dito philologo escreve _xin_. Em questões de tão alta sciencia metto a viola no sacco.
*XÓ*--Gritem todos, quando virem algum ladrador partir a correr, com grande posta que lhe atiraram para o calar.
*XUPISTA*--Amador de capilé de cavallinho em ponto grande.
--Descobridor de pessoas raras, das que ainda caem.
*XYLOALOES*--Pau que dá o aloes, e que se poderia chamar, com propriedade, _pau de Raspail_. Oh, meus amigos: o aloes é bom; mas não o tomeis nunca sem caldo de hervas. Elle só por si faz cousas de todos os diabos, desde a queimadela até aos rugidos medonhos das feras intestinaes!
*XYLOLATRA*--Adorador de imagens de pau. Carissimas devotas de S. Luiz & C.ª, bem fazeis vós, que não sois xylolatras, segundo rosnam falladores atrevidos!
*XYLOPHORO*--Cada um dos ministros encarregado de accender e alimentar o fogo sagrado... do amor da pasta.
***** Y *****
Y
*YPSILON*--Um timido que rarissimas vezes começa alguma cousa por si, e que só apparece quasi sempre no meio da multidão.
--Ente inutil, e por isso o mais pobre de entre os vinte e cinco irmãos que lhe deu a arte de escrever. Por mais que eu o apertasse e espremesse, deitou apenas o magro chorume d'estes dois artigos. Bolas para elle!
_Y mas no hay_.
***** Z *****
Z
*ZABUMBA.*--Estylo retumbante de certos discursadores.
--Os versos do senhor X.
--O elogio do senhor Y feito pelo senhor Z.
*ZAGAL*--Pessoa que falla á maneira dos heroes de Florian.
*ZANGÃO*--Ingenuo que faz livros com versos alheios.
*ZANGARREAR*--Fallar ou escrever contra nós.
*ZÃOZÃO*--Discurso laudativo.
*ZARCÃO*--Perfido auxiliador do tempo nas caras das bailarinas.
*ZAS!*--O que precisam os patifes que nos roem a pelle.
*ZELADOR*--Pessoa util... a si.
*ZIGUE-ZAGUE*--Maneira de ir mais depressa.
*ZOMBARIA*--Pulga do espirito.
*ZURRAR*--Tomar a palavra, sem a pedir primeiro.
*ZT*--Cousa que passa diante da nossa vista com a rapidez de um passaro. E modo por que eu me despeço do leitor:
ZT!
NOTA FINAL
OU A
ULTIMA PALAVRA DA SCIENCIA
Amaveis leitoras e benevolos leitores:--O homem que acaba de dotar tão generosamente a nação portugueza, e tambem a brazileira, com obra de tamanho prestimo e valia, pede-vos que não a largueis da mão sem vos terdes deliciado com estas linhas, que são remate e corôa do edificio consagrado á vossa admiração e regosijo.
Congratulae-vos commigo, povos d'aquem e d'alem mar! O monumento está concluido. Apesar das difficuldades da empreza, foi levado ao cabo pela energia da vontade e pelo poder maravilhoso do genio, que o levantou sobre alicerces de diamante. A fama vae tomar conta d'elle para o tornar eternamente celebre; e os editores disputarão, de faca em punho, a honra de o reimprimir cincoenta vezes por anno.
Oh! gloria! oh! loureiros e palmares... onde tendes rama que chegue para tal triumpho?!
Jornalistas illustres, aparae as vossas pennas; academias e institutos scientificos, abri as vossas portas; povos, que vos prezaes de civilisados, saudae o Diccionario de João Fernandes!
--Viva João Fernandes!--Ouço eu já d'aqui gritar ás multidões enthusiasmadas.
--Viva!
--Mas quem é João Fernandes?!
A esta perfida e insidiosa pergunta cala-se tudo; os sabios entreolham-se de bôca aberta; e os outros suspendem a respiração, receiando serem elles os predestinados. Por fim, responde uma voz:
--João Fernandes é um grande homem!
--Immenso!--apoia outra.
--Incommensuravel!--acode terceira.
--Sublime!
--Unico!
--Engraçadissimo!
--Sapientissimo!
--Immortalissimo!
--Foi elle quem mandou dar para baixo no povo, á porta do Passeio Publico.
--E quem matou o projecto da avenida para o Campo Grande.
--E quem levantou a questão dos muros...
--E quem embirra com as grades...
--E quem diz...
--Bolas, meus amigos! bolas!--exclama o auctor do Diccionario.--Essas obras são de outros Joões Fernandes; não confundam a minha com as dos meus collegas. Todos somos de grande força; mas eu não trato as cousas tanto em absoluto. É verdade que não deixei ir o Polyphemo com um só olho, no artigo _orçamento_; que deixei escorregar a mão, ás vezes sem querer, no modo por que tratei os meus amigos medicos, a medicina e a botica, que Deus afaste da minha porta por todos os seculos dos seculos, amen; que escovei soffrivelmente a poesia e a politica; e que fui assás sincero com as mulheres... Porém nada d'isso vos auctorisa para me impingirdes filhos alheios. Que se aguente cada João Fernandes d'esta terra com os seus feitos. O meu é este. Vanglorio-me d'elle; e, attendendo a que não convem alargar mais o cavaco, declaro-o a ultima palavra da sciencia, e recommendo-vos que o elogieis com alma, se não quizerdes fazer má figura passando por ignorantes em materia de gosto.
No fim d'este discurso recrudesce o enthusiasmo, repetem-se os vivas e quebram-se á pedrada as vidraças de todos os livreiros que não teem o _Diccionario_ á venda. O auctor, enternecido com essas demonstrações, diz modestamente, começando a fazer a barba a si:
--Já vêem que não sou dos taes Joões Fernandes de tres ao vintem...
--Não--acodem os fanatisados;--é dos de pataco!
--Macanjo.--rosna um patife que não gostou do livro.
--Olhem esse maroto que está a dizer mal de mim!
--Quem foi?!
--Que é d'elle?!
--Calumniador!
--Invejoso!
--Vibora damnada!
E a multidão invade a casa do auctor, péga n'elle e passeia-o em triumpho pela cidade, com meia cara rapada, e a outra meia com barba de tres centimetros coberta de espuma de sabão. Este pormenor commove o resto da população de Lisboa, que segue immediatamente o triumphador.
Ouve-se grande algazarra nas livrarias e vendem-se dez mil exemplares da obra em dez minutos. Vendo este successo, o tal sujeito, que fallára em macanjo, chega-se ao pé do auctor e diz-lhe, fulo de raiva:
--Eu chamo-me a critica... e vou fazer-te o resto da barba.
--Pois faze, mas compra o livro.
O povo, que percebe a cousa, salta por cima da critica, esborracha-a e esgota o resto da edição--outros dez mil exemplares!
João Fernandes volta rico para casa, e grita de longe á familia:
--Dei-a em cheio! «Posteridade, és minha!»
E cae o panno.
FIM
ERRATAS
Necessário aplicar!!!!!!
LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1878