Chapter 8
15 de maio. Ontem fui à casa do Goulart, Goulart de Andrade, poeta. Já publicou um livro vitorioso. Não gosto de sua poesia, muito sábia, muito certa, muito verbal, com pouco de sua pessoal, tocando certos temas clássicos; entretanto, ele é trabalhador, poeta agradável, legível e verbal. Leu-me uma sua peça — Inconfidentes. Trata-se de Tiradentes e os poetas da conjuração. Há versos bonitos. Fraca de espírito, pouca graça, muito pouca. O entrecho não podia ter nada de novo. Os poetas falam com ênfase no primeiro ato. Tiradentes vocifera no segundo; n terceiro, o Bárbara Heliodora encontra-se com Marília de Dirceu e Maria Ifigênia, fala como uma melancólica dos nossos dias. O quarto ato é na prisão, movimentado, mas não dramático. A peça toda tem esse defeito: tem movimento mas não tem drama. Goulart não compreende o drama, não sente a paixão. A paixão, para ele, existe depois da poesia — ele só sente o verso. Ilude, no drama, na peça, essa sua fraqueza com o movimento. E um poeta, puro, um poeta de sessenta anos passados, que não parece ter aprendido mecânica, astronomia e navegação. Eu não acredito absolutamente na eficácia da ciência para fazer poetas e literatos; às vezes mesmo a julgo nociva; mas tenho para mim que o processo é o mesmo na arte e na ciência: um acordo entre o oculto e o visível, uma relação entre fatos que, só com os instrumentos do pensamento, ganham uma explicação. Poeta, antes da poesia, eu devo ter as paixões, as emoções para exprimi-las em verso; dramaturgo, comediógrafo, romancista, da mesma forma: os costumes, as paixões, os sofrimentos, as emoções, o entrechoque delas no cenário do mundo. O estilo, na frase de alguém, é um acompanhamento. Enfim, para que discutir? Se a poesia agrada... Leu-me o Coelho Neto — Jardim das Oliveiras. Há algumas coisa boa, diferente do Neto comum, cantador de condessas, baronesas, misses etc. Esse Neto de pacotilha que tem medo de dizer as suas amarguras contra “a sociedade que nos esmaga”. Contei-lhe o Isaías Caminha. Achou graça, mas ficou apreensivo. Não tinha razão: eu sou amigo dele e sei ser amigo até à última hora. E nunca, penso eu, procurei ser inimigo do meu ex-amigo. Cheguei em casa às onze e quarenta e li um artigo de Gaultier sobre o bovarismo na história, a propósito do último livro de Nietzsche. Considerações inatuais. Pelas doze e quarenta apagava a vela e dormia.
5 de julho. Domingo. Levantei-me às dez horas, fiz a barba, concertei a gravata, arranjei melhor a minha roupa velha; pus-me limpo e elegante, enfim. Ia visitar umas damas; isto é, ia à casa de duas raparigas de vida airada, que vivem em semi-mancebia com dois antigos colegas meus, o A...,M...,e o C..., M... Hoje, ambos são engenheiros da Prefeitura. Cheguei lá às duas horas da tarde. Nenhum dos dois estava. Fiquei a conversar com a amiga do A... Chama-se Maria, Cecília, Celina, ou coisa que valha. Eu simpatizo com essa mulher, porque ela me inspira piedade. E eu a ter piedade! Elas têm outros amigos, com o consentimento deles. É uma coisa da moda, isto, hoje. Os costumes estão desse modo, permitem já a poliandria. Há muita falta de delicadeza e beleza nas nossas coisas. Aborreci-me! .* * 16 de julho. Desde menino, eu tenho a mania do suicídio. Aos sete anos, logo depois da morte de minha mãe, quando eu fui acusado injustamente de furto, tive vontade de me matar. Foi desde essa época que eu senti a injustiça da vida, a dor que ela envolve, a incompreensão da minha delicadeza, do meu natural doce e terno; e daí também comecei a respeitar supersticiosamente a honestidade, de modo que as mínimas coisas me parecem grandes crimes e eu fico abalado e sacolejante. Deu-me esse acontecimento, conjuntamente com a vida naturalmente seca e árida dos colégios, uma tristeza sem motivo, que é fundo de quadro, mas pelo qual passam bacantes em estertores de grande festa. Outra vez que essa vontade me veio foi aos onze anos ou doze, quando fugi do colégio . Armei um laço numa árvore lá do sítio da ilha, mas não me sobrou coragem para me atirar no vazio com ele ao pescoço. Nesse tempo, eu me acreditava inteligente e era talvez isso que me fazia ter medo de dar fim a mim mesmo. Hoje, quando essa triste vontade me vem, já não é o sentimento da minha inteligência que me impede de consumar o ato: é o hábito de viver, é a covardia, é a minha natureza débil e esperançada. Há dias que essa vontade me acompanha; há dias que ela me vê dormir e me saúda ao acordar. Estou com vinte e sete anos, tendo feito uma porção de bobagens, sem saber positivamente nada; ignorando se tenho qualidades naturais, escrevendo em explosões; sem dinheiro, sem família, carregado de dificuldades e responsabilidades. Mas de tudo isso, o que mais me amola é sentir que não sou inteligente. Mulato, desorganizado, incompreensível e incompreendido, era a única coisa que me encheria de satisfação, ser inteligente, muito e muito! A humanidade vive da inteligência, pela inteligência e para a inteligência, e eu, inteligente, entraria por força na humanidade, isto é, na grande humanidade de que quero fazer parte. Mas não é só não ser inteligente que me abate. Abate-me também não ter amigos e ir perdendo os poucos que tinha. Santos está se afastando; Ribeiro e J. Luís também. Eram os melhores. Carneiro (o Otávio), o egoísta e frio Otávio, está fazendo a sua alta vida, a sua reputação, o seu halo grandioso, e é preciso não me procurar m is. Eu esperava isso tudo; mas a não pensei que fosse tão cedo. Resta-me o Pausílipo, este é o único que se parece comigo e que tem o meu fundo, que ele desconhece por completo. Eu os sabia desse feitio, principalmente o O. C. Ele tinha um lustre, um verniz de independência e desinteresse, de superioridade e de grandeza, mas a vida, a grande vida, a fortuna, as fêmeas e uma esposa assim, pedem outras coisas muito diferentes: submissão, respeito pelo estabelecido, companhias que não sejam suspeitas, etc. Eu fico só, só com os meus irmãos e o meu orgulho e as minhas falhas. Vai me faltando a energia. Já não consigo ler um livro inteiro, já tenho náuseas de tudo, já escrevo com esforço. Só o Álcool me dá prazer e me tenta... Oh! meu Deus! Onde irei parar? Tenho um livro (trezentas páginas manuscritas), de que falta escrever dois ou três capítulos . Não tenho ânimo de acabá-lo. Sinto-o besta, imbecil, fraco, hesito em publicá-lo, hesito em acabá-lo. É por isso que me dá gana de matar-me; mas a coragem me falta e m parece que é isso e que me tem faltado sempre.
26 de outubro. No Correio da Manhã de hoje, trecho de um artigo de Carmen Dolores: “...... e ficamos a rebolar, sempre a rebolar, tristes bolas sociais” Sem data Modificações a fazer no manuscrito (12): 1) Onde está: Figueiredo Pimentel, no “Binóculo”, etc.(Cap. X ou XI), escrever: Florencio Silva, no “Despacho”, etc. Adiante, substituir Figueiredo Pimentel por Florencio Silva. 2) Onde diz: trezentos mil portugueses, pôr duzentos mil (Cap. XI ou XII). 3) Onde diz: sensação imperscrutável da música, etc. (Cap. XIII) pôr sensação imponderável, etc. 4) Onde diz: as extremidades dos remos luziam como prata e a nossa esteira era luminosa (Cap. XIV in fine) pôr: ”As pás dos remos, caindo nas águas escuras, abriam largos sulcos luminosos de minúsculas estrelas agrupadas e todo o barco vogava envolvido naquele estrelejamento, deixando uma larga esteira fosforescente. 5) Abaixo desta frase de diálogo no Cap. XII: —Homem, você hoje está muito zangado! (Floc), acrescentar: Ele não compreendia que eu também sentisse e sofresse.
2 de novembro. Segunda-feira. Foi dia de finados. A exposição como já se esperava, foi muito concorrida. Entretanto, alguns pavilhões e palácios estiveram fechados, hermeticamente fechados, como túmulos. Era justo.
3 de novembro. Terça-feira. A chuva reapareceu. Veio fraquinha, deliciosamente fraquinha; mas veio. A exposição esteve agradavelmente vazia. Os diretores, de onde em onde, passeavam pelas ruas de chapéu-de-sol aberto, a olhar simpaticamente os raros visitantes. O doutor Antônio Olinto mesmo a um quis servir de guia. O homem, que pertencia à falange jornalística, abespinhou-se com a amabilidade do presidente. Pois não o conhecerem! ... O Restaurante Pão de Açúcar serviu jantar a seus empregados e a alguns da exposição. O bar vendeu alguns chopes ao pessoal da polícia.
6 de novembro. Sexta-feira. Pouco sei do que tivesse sido o dia; mas a noite foi cheia. Pelo menos, no teatro, foram levadas três peças. Foi, portanto, uma noite de máxima teatral na exposição. Nenhuma delas era de Coelho Neto; uma era de um autor falecido e as duas outras tinham sido escritas por autores jovens e já muito estimados pelo público. Um destes últimos é o nosso amável colega Agenor de Carvoliva, o gentil Carvoliva dos noticiários, que teve a felicidade de ver aplaudido, como merecia, o seu delicado trabalho teatral que intitulou: O Eterno Romance. O outro jovem autor, que se fez representar pela primeira vez, foi dona Carmen Dolores. O público conhece sobejamente o autor pela leitura de suas crônicas e contos, cheios sempre de altos conselhos morais e animados superiormente pelo sentimento da família e da pureza do lar; mas a pessoa é totalmente desconhecida da nossa população. É uma moça esbelta, de menos de vinte e cinco anos, reservada, vestida sempre com discretas toilettes, que quase nunca é vista nos lugares em que nos pomos à mostra. Os seus grandes olhos redondos são povoados de sonhos íntimos e toda ela, com seu corpo esguio e seu perfil espiritualizado, parece viver absorvida na arte, ouvindo a música das esferas e as harmonias dos arcanjos. Muito moça, as triviais coisas da elegância não a fascinam, nem lhe são a cogitação constante. Despreza os vestidos, os tecidos caros, as rendas, as modas, os chapéus. Pouco freqüenta as salas e salões; não acha neles atrativo algum, de qualquer ordem ou natureza; julga-os fúteis, desprovidos de atmosfera intelectual propícia à vida de seu espírito e da sua alma. Moça, e moça circunspecta, não podendo, em obediência aos costumes, viver a vida agitada e desigual de um rapaz do seu temperamento, ela se abroquela no estudo e na leitura. Vive que nem um beneditino ou um solitário do Port-Royal, toda entregue às obras e às concepções. É ela, entre nós, uma das poucas pessoas que possuem perfeito conhecimento de toda a evolução da língua francesa. A sua biblioteca é rica dos antigos documentos dessa língua, e quem a visita poderá ver além do Froissart, Villehardouin, todas as gestas do ciclo carolíngio, Renaud de Montauban, Chanson de Roland, etc., nas edições mais autorizadas. Além desse conhecimento, que é valioso, dona Carmen Dolores possui uma ciência perfeita do inglês, traduz Chaucer, como se fosse um autor dos nossos dias; e há anos que se dedica ao estudo da metafísica alemã e dos teólogos da Idade Média. É um raro tipo de autora, entre nós: bela, não é coquete; ilustrada, não é p dante; gloriosa, não se exibe. A sua peça — e Desencontro — espantou a crítica nacional, pelo rigor da concepção, arrojo das idéias e louçania do diálogo, quente e nervoso. Foi mais uma vitória para o Grêmio Dramático Artur Azevedo ,que tanto tem concorrido para o brilho do certame da Praia Vermelha, representando primores de autores falecidos e obras-primas de alguns camaradas nossos e dos organizadores da companhia. 1910 Sem data À tarde, um aprés midi de verão, assoupissant, todas as vidas param e dormem, para que o [...] dos trópicos venha aparecer e agradeça a fecundidade que demorava pelas suas terras.
Discussões literárias. Estilo. Gramática. Critério [ ? ] filosofia.
Fuzilamento. Ilha das Enxadas. O enviado do marechal. Este, aquele. A lanterna. A leva. O batelão. Quaresma. [... ]. A presença do poente [ ? ]. Soluço. Será o mar?
Malaiala ou telugo.
A conveniência do estilo consiste em escrever sobre os mesmos assuntos que o fizeram os escritores clássicos, com as mesmas expressões e conforme o mesmo plano. Herculano [?], 117.
Dissonância do desespero.
Pathos.
Ele pensava criar ambiente, a sua casa. O seu sonho é tão forte!
Quando sobe em balão e vê o Rio, ele recorda as leituras, evoca a grandeza do Brasil e o seu sonho volta com força, etc.
Ele não percebia que via com os olhos do sonho, não descontava a refração dessa atmosfera especial, para avaliar a realidade. Anastácio. Observações.
Floriano preguiçoso. Fraqueza. Fuzilamentos. Paternalidade [ ? ] com os alunos da Escola Militar.
Quaresma é feito procurador do Amazonas pelo partido da concentração. Os partidos. Brasileiros, peruano se bolivianos [......]
A trama do céu se tinha alargado.
Tibulo Ouve, meu anjo, o canto meu Como as cotovias sobre o mar Quando escutam os gemidos Das ondas de Trafalgar [ ? ]
Esmeralda. O exército. A matemática. A luta com os [ ... ] A Marinha. Monge e Lagrange.
A Duquesa, pata, parece arrastar um manto de arminho.
Os[...] Na retirada, todos se põem a gritar: metafísicos. O general chega, repreende severamente: são fetichistas.
Falar nas matas devastadas.
E [.......] indaga de Felizardo: porque não planta nas suas terras?
Casa de Maria Rita. A neta. Chateaubriand. O inventário, etc. etc.
Eschwege Grupiaras — cascalho aurífero solto.
Choros, folhinhas, registros, retratos [......]
Capítulo VII — Continuam os desgostos de Ricardo. Cap. VIII — É o 5o antigo. Cap. IX—É o 6o Capítulo X — A revolta, etc. Casa de Cavalcanti, etc. Cap. XI — É o 7º antigo. Cap. XII — A defesa da legalidade. Capítulo XIII — Morte e enterro de Ismênia, etc. etc.
Cap. XIV — Armação, guerra, etc. Ferimento de Quaresma. Ilha das Enxadas. Fuzilamento.
Cap. XV — Fuzilamento de Quaresma, por ter protestado.
Desgostos de Ricardo. Subúrbios — sua moradia. Razão dos desgostos. A glória. As preocupações. O seu triunfo em casa do general. Casamento de Genelício. Florêncio, Breves, Caldas, Inocêncio Bustamante. Ismênia. Apesar desse triunfo, sempre desgosto. Motivos por que foi procurar Quaresma.
As unhas nacaradas dos seus longos dedos mergulhavam na maciez de cabelos negros.
Pombos, quando sai o enterro de Ismênia, voam.
Ismênia vai à casa da cartomante.
A lua. Cap. II — 3a Parte. No silêncio da noite, a lívida lua dourava tudo, o céu e árvores e coisas, homens e as casas, com a sua luz emprestada e fria.
Feitiçaria, etc.
As suas terras eram de soalheira, expostas ao poente, o que não contentava Anastácio, que as queria olhando para o levante, de “noruega”, melhores. Variavam muito quanto à proporção de argila, areia, húmus e calcário, de pedaço a pedaço. Em geral, eram areno-argilosas, pouco calcário e pobres em húmus.
Queria o incrível. Tácito.
Revue de Deux Mondes, 1-8-08. Gaston Rougeot. Sobre os resultados da psicofisiologia.
Policarpo Quaresma. Idéia que mata. A decepção. O prêmio.
As paineiras estavam cobertas de flores, rosadas e brancas, que, a espaços, caíam com a doçura de ave ferida.
Bernardin de Saint-Pierre, artigo sobre a sua vida e caráter. Natura ed Arte — Setembro de 1906 a outubro.
Artigo sobre a vida, experiência de renascimento. Natura ed Arte — 5-12-06.
Os barcos passavam. Ora, eram lanchas fumarentas; ora, pequenos botes ou canoas, com as suas velas alvas, roçando carinhosamente pela superfície das águas, pendendo para um lado ou outro, como se as quisessem afagar um instante. Os Órgãos vinham suavemente morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul imaterial de inebriar, de embriagar, como um licor capitoso. Ele se voltava, depois, para a cidade, que entrava na sombra, aos beijos sangrentos do ocaso. Vinha-lhe então pensar por que força misteriosa, por que injunção irônica, ele se tinha misturado em tão tenebroso acontecimento, assistindo ao sinistro alicerçar do regímen.
O processo da vida devia ser outro. Se fosse de doçura, de bondade, talvez a humanidade depurasse [? ].
Ilusões que morrem. Ilusões e fatos. Desenganos.
Um oficial no hospício como deve ser considerado? Louco. Doutrina da solidão.
Consultar a toda a hora o dicionário. Livros empregados.
Sobre os negros, em geral, e principalmente sobre as populações coloniais da Ásia e Oceania, é bom ver a Revue Scientifique, de julho de 1906. M. Louis Lapicque.
Sobre a literatura em geral, ler Brunetière, Revue des Deux Mondes — Janeiro e fevereiro de 1892.
Nietzsche: Revue des Deux Mondes — Setembro a outubro de 1892. Pascal: Revue des Deux Mondes — 15 agosto 1879, Brunetière.
Como se deve escrever a história do Brasil, tomo VI da Revista do Instituto Histórico.
. * Artigo de Littré sobre árias e semitas, 1o de julho de 1857.
O triste fim de Policarpo Quaresma:
Leme. Pescadores seguiam as ondas com a tarrafa.
Olhos cheios d’água.
El negro se ha ido cuando se fué la fiebre, que excluía la concurrencia dominante del trabajador europeo. El Brazil, M. Bernárdez, pág. 6.
Rouché. L’Art Théatrale Moderne.
Sem data I - HISTORIA DO MACACO QUE ARRANJOU VIOLA Um macaco saiu à rua muito bem vestido. As crianças começaram a troçá-lo: — Olha o rabo! Olha o rabo do macaco ! — Meninos, deixem-me dizia o macaco. As crianças, porém, continuaram: — Olha o rabo do macaco! Ele foi então a um barbeiro e pediu que lhe cortasse o rabo. O barbeiro recalcitrou. Ele insistiu e ameaçou-o de lhe furtar a navalha se não lhe cortasse a cauda. O barbeiro cortou-lhe a cauda e o macaco voltou à rua muito contente. A assuada continuou: — Olhem o macaco cotó! Olhem! O macaco voltou ao barbeiro e pediu que lhe pusesse de novo a cauda. O barbeiro mostrou que era impossível. O macaco furtou-lhe a navalha. Continuou o seu caminho e veio a encontrar uma mulher que escamava peixe com a mão. — Porque você escama peixe com a mão? — Porque não tenho faca, diz-lhe a mulher. —Tens aqui uma navalha. A mulher aceitou e ambos comeram o peixe com farinha. Chegando mais adiante, arrependeu-se e foi de novo buscar a navalha. A mulher recusou, porque lhe tinha dado o peixe. — Ah! não me dás, disse o macaco, eu te furto a farinha! Dito e feito. Furtou-lhe a farinha e seguiu adiante, vindo a encontrar uma professora que dava bolos de pau às meninas. Ele, então, ofereceu a farinha. A professora aceitou e ele entrou também nos bolos. Tendo andado um pouco, arrependeu-se e veio reclamar a farinha. A professora não a tinha mais e, portanto, não a pôde restituir. Ele então arrebatou uma menina. Com ela às costas, foi indo, vindo a encontrar um tipo que tocava viola. Deu-lhe a menina em segurança e pediu-lhe a viola. Armado do instrumento, foi a esmo, topando com um rio. Não o podendo atravessar, começou a cantar as suas proezas e, acabado que foi o hino à sua astúcia, atirou-se ao rio. “Macaco, com o seu rabo, arranjou navalha; com a navalha, arranjou peixe; com o peixe, arranjou farinha; com a farinha, arranjou menina; com menina, arranjou viola”. (Contado por dona Minerva Correia Pinto, natural de Valença, à rua do Piauí, 64, Todos os Santos).
HISTÓRIA DO LINGUADO O linguado tem a boca torta, porque, certa vez, Nossa Senhora, tendo chegado à praia, perguntou: — Linguado, a maré enche ou vaza? O peixe arremedou a fala e gesto de Nossa Senhora: — Linguado, a maré enche ou vaza? Por castigo ele ficou sempre com a boca torta.
II - HISTÓRIA DO DIABO QUE FOI AO BAILE Certa vez, havia um baile animado num lugarejo da roça. Dançava-se e cantava-se, quando entra um moço muito bonito e pede licença para cantar. Toma de uma viola e canta. Encantou. Todas as moças ficaram pelo beicinho e ele continuou durante muito tempo triunfando. Eis senão quando uma criança se abaixa e diz: — Mamãe, esse moço tem pé de pato. Houve um cheiro de enxofre e o moço desapareceu. Era o diabo. (Estas duas histórias me foram contadas quando menino e são correntes).
III - O MACACO E A ONÇA O macaco andava de implicância com a onça e a onça com o macaco. Um belo dia esta veio a encontrá-lo trepado na floresta a tirar cipó. — Que fazes aí, compadre macaco? — Ah, não sabes, comadre onça, que estou fazendo? É a minha salvação. — Como? — Pois não tens notícia de que Nosso Senhor vai mandar um pé de vento fortíssimo e só se salvará quem estiver amarrado? A onça logo pediu amedrontada: — Então, compadre, amarra-me também para que eu não morra. O macaco objetou que ela lhe queria fazer mal; mas, à vista dos juramentos e promessas, animou-se a descer e amarrar bem a onça. À proporção que amarrava, perguntava ao felino: — Pode-se mexer? A onça fazia esforços e, logo que ela não pôde fazer o menor movimento, o símio deu-se por satisfeito. Vendo-a bem amarrada, o macaco agarrou um cipó bem grosso e deu-lhe uma surra. Veio uma seca e a onça, para vingar-se do macaco, ficou de sentinela no único lugar em que havia água. Todos os animais podiam ir aí beber, exceto o macaco. O macaco imaginou então um estratagema. Encontrou um pote de melaço, besuntou-se todo e depois espojou-se nas folhas secas... Assim disfarçado, foi para aguada. A onça perguntou: — Quem vem lá? Respondeu o macaco: — É ará (?) (ouriço). E vem beber água, no que se demora muito. A onça admira-se muito: — Que sede! O macaco, tendo se afastado e fora do alcance da onça, responde: — Admira-se! Pois desde a surra que te meti, água jamais bebi. (Contado com pornografia pelo A. Higino, contínuo da Secretaria da Guerra, natural do Rio Grande do Norte).
IV - O MACACO E A RAPOSA O macaco e a raposa se juntaram para poder viver. O macaco arranjou um laço, feito de uma corda, furtada. a uma fazenda; e a raposa levava uma faca. Postavam-se no trilho do gado e o macaco atirava o laço, cuja ponta ficava amarrada a um tronco de pau. Logo que a novilha era laçada e presa, a raposa atirava-se à rês e sangrava. Após comiam, e assim foram fazendo durante muito tempo. Um dia, porém, o macaco, por precipitação, esqueceu-se de amarrar o laço ao tronco da árvore. Atirou o laço e foi arrastado. A raposa gritava: — Compadre macaco, força na “cacunda”! Mas não houve meio e ele assim foi arrastado até ao curral. Houve alvoroço entre o gado. Por fim o proprietário veio e descobriu quem lhe dava cabo das reses. Para vingar-se, comeu o macaco, que estava gordo.