The Epic of Paul

Chapter 2

Chapter 23,798 wordsPublic domain

Máximo Kovéski, russo ou polaco, doutor à última hora. Atrapalhado na colocação de sua tradução em fascículos do romance do autor turquestânico Ralgoff. Vendeu um exemplar ao ministro russo.

Há uma peça de Calderón de la Barca intitulada: Tudo é mentira e tudo é verdade. Ver filosofia do trem. Castor e Pólux — São Cosme e Damião — Dois-Dois.

Quando eu fui amanuense da Secretaria da Guerra, pintou-se (em 904) a secretaria e dependência; pois bem, o encarregado de fiscalizar isso, essa pintura e ligeiros retoques na escada e no calçamento da entrada, era um capitão do Exército, doutor em ciências físicas e matemáticas etc. etc.

Sem data Durante o meu primeiro ano de amanuense da Secretaria da Guerra, foi reclamada a baixa de quatro soldados que eram peruano, italiano, oriental e português. Eram freqüentes os decretos declarando sem efeito as promoções de alferes a tenente, por não existirem no Exército oficiais com aqueles nomes.

Exmo Sr Marechal etc. pedir a V. Exa se digneis (beleza) R.Cl. Teles Pires

Hoje, o caso mais curioso foi o coronel P... É um tipo de militar sul-americano. Fanfarrão, sem ser valente, nem generoso. Ignorante. Jogador. Sempre indo atrás do ministro para arranjar um adiantamento. Aconteceu que o tal que falei que vi a passear com a mulher em São Francisco é um estradeiro, e o P... o teme, pois a mulher com quem ele casou é sua parente e tem a receber algum dinheiro do pai, que morreu.

6 de novembro. Hoje (6 de novembro) fui à ilha , pagar dívidas de papai (490); paguei-as uma a uma; entretanto, na volta, estava triste; na estação de São Francisco (vim pela Penha), ao embarcar, me invadiu tão grande melancolia, que resolvi descer à cidade. Que seria? Foi o vinho? Sim, porque tenho observado que o vinho em pequenas doses causa-me melancolia; mas não era o sentimento; era outro, um vazio n’alma, um travo amargo na boca, um escárnio interior. Que seria? Entretanto, eu o quero atribuir ao seguinte: Na estação, passeava como que me desafiando o C. J. (puto, ladrão e burro) com a esposa ao lado. O idiota tocou-me na tecla sensível, não há negá-lo. Ele dizia com certeza: — Vê, “seu” negro, você me pode vencer nos concursos, mas nas mulheres, não. Poderás arranjar uma, mesmo branca como a minha, mas não desse talhe aristocrático. Suportei o desafio e mirei-lhe a mulher de alto a baixo e, dentro de alguns anos, espero encontrar-me com ela em alguma casa de alugar cômodos por hora.

Sem data. Contou-me o Conceição que, a convite de uma preta de fortuna, ia tocar por setembro em casa dela. Era a festa de Cosme e Damião, por ela denominada — “Dois Dois”.

Hoje observei uma mulata que parecia amigada a um português; viajavam no bonde separados.

Tomei um alvitre: quando no bonde entregar uma nota, devo olhar o número. Dez minutos depois! Entretanto, recordei-me, se passa a nota adiante, e eu com ares de vencedor digo-lhe o número, que rata se ele a não tem.

Sem data O doutor Lund viveu na Lagoa Santa de 1835 a 1880. Lund descobriu fósseis em cavernas calcárias nas proximidades da vila de Curvelo. Quanto a isso, convém ler o artigo da Revista Brasileira. Secretário de Lund, Warnung.

Um leitor de Balzac. Era um meio velho, que encontrava sempre com um volume da Comédia Humana. (Conto).

O primeiro de Voluntários da Pátria saiu do Rio de Janeiro, comandado pelo coronel Pinheiro Guimarães. É´ preciso saber se esse batalhão foi para Corrientes ou para o Rio Grande do Sul, quando foi o cerco de Uruguaiana.

Sem data. Durante as mazorcas de novembro de 1904, eu vi a seguinte e curiosa coisa: um grupo de agentes fazia parar os cidadãos e os revistava. O governo diz que os oposicionistas à vacina, com armas na mão, são vagabundos, gatunos, assassinos, entretanto ele se esquece que o fundo dos seus batalhões, dos seus secretas e inspetores, que mantêm a opinião dele, é da mesma gente. Essa mazorca teve grandes vantagens: 1 ) demonstrar que o Rio de Janeiro pode ter opinião e defendê-la com armas na mão; 2 ) diminuir um pouco o fetichismo da farda; 3 ) desmoralizar a Escola Militar. Pela vez primeira, eu vi entre nós não se ter medo de homem fardado. O povo, como os astecas ao tempo de Cortez, se convenceu de que eles também eram mortais. O Argolo , parece, queria nesse movimento resgatar a pouca bravura que teve em 9 de fevereiro.

Quando eu fui amanuense da Secretaria da Guerra, havia um tal B... coronel ou coisa que valha, que era um tipo curioso de idiota. Ignorante até à ortografia; jactancioso. A coragem dele e sua vibração pessoal só surgem quando veste a farda. É conveniente mesmo escrever alguma coisa a esse respeito. O Exército, ou antes, os oficiais generais de mar e terra escaparam, pelas mazorcas de novembro, de serem tomados de terror pânico. Gente habituada à guerra, e familiarizada com seus instrumentos, tomou como sendo canhão, em Porto Artur (Saúde), um tubo de poste telefônico quebrado e assestado. Bombas eram inofensivas peças de madeira, envolvidas pacificamente em fio de ferro. Almas doutro mundo !

Profecia. Dos militares mais ou menos envolvidos nas mazorcas, nenhum sofrerá pena; dos civis, alguns se suicidarão na prisão.

É notório que aos governos da República do Brasil faltam duas qualidades essenciais a governos: majestade e dignidade. Vimos durante a mazorca um ministro, o da Guerra, e um general, o Piragibe, darem ordens de simples inspetores em altas vozes e das sacadas de duas Secretarias de Estado. Eis a narrativa do que se fez no sítio de 1904. A polícia arrepanhava a torto e a direito pessoas que encontrava na rua. Recolhia-as às delegacias, depois juntavam na Polícia Central. Aí, violentamente, humilhantemente, arrebatava-lhes os cós das calças e as empurrava num grande pátio. Juntadas que fossem algumas dezenas, remetia-as à ilha das Cobras, onde eram surradas desapiedadamente. Eis o que foi o terror do Alves; o do Floriano foi vermelho; o do Prudente, branco, e o Alves, incolor, ou antes, de tronco e bacalhau.

Sinal dos tempos. Na quinta-feira (10 de novembro), eu vi o Argolo risonho, sorridente, apresentar ao repórter a esposa, de que vinha acompanhado. No 19, pleno estado de sítio, vi o mesmo Argolo não corresponder, a dois passos de distância, o cumprimento do mesmo repórter.

Este caderno esteve prudentemente escondido trinta dias. Não fui ameaçado, mas temo sobremodo os governos do Brasil. Trinta dias depois, o sítio é a mesma coisa. Toda a violência do governo se demonstra na ilha das Cobras. Inocentes vagabundos são aí recolhidos, surrados e mandados para o Acre. Um progresso! Até aqui se fazia isso sem ser preciso estado de sítio; o Brasil já estava habituado a essa história. Durante quatrocentos anos não se fez outra coisa pelo Brasil. Creio que se modificará o nome: estado de sítio passará a ser estado de fazenda. De sítio para fazenda, há sempre um aumento, pelo menos no número de escravos.

22 de novembro. Hoje acabo de ir cumprimentar o Argolo, marechal e ministro da Guerra. É um tipo simples. Sem olhar e sem fisionomia. Recebeu-nos num pequeno gabinete. Ouviu algumas palavras do barão e disse outras. Apertou-nos a mão um a um. Se pela sua fisionomia nada se lhe pode descobrir de elevado ou de mau, pelo seu aperto de mão também. É um aperto de mão burguês, indiferente. Não tem o forte sacolejo de um violento, nem a frieza de um astuto. Aperta mão como um funcionário bom e probo, e às vezes tolerante, que ele é. Houve depois recepção de oficiais e funcionários. Uma mó de gente em brilhantes e garridos (alguns) uniformes desfiou aos meus olhos. De todos os corpos de honorários, uniformes eu vi. Os oficiais generais repletos de bordados lembram alguma coisa dos uniformes vistosos de corporações científicas, artísticas e palacianas. Sobre o dolmã preto bordam filigranas caprichosas, e as platinas franjadas descaem sobre os ombros negligentemente. Esses uniformes brilhantes bem demonstram que são de generais de paz; quem conhece os discretos uniformes dos generais da revolução, e mesmo o clássico de Napoleão, fica abismado com o brilho dos nossos. A farda negra do Corpo de Saúde e dos honorários misturava-se sem se dissolver nos vermelhos das outras armas, e, como pontos de fraca saturação, apareciam as fardas dúbias dos oficiais do Estado-Maior. Havia cerca de seiscentos oficiais e suponho que quatrocentos houvessem deixado de comparecer; dá um total de mil, que, na proporção média de um para quinze soldados, à vista da variedade de postos, calcular-se-ia oficialidade de uma força de quinze mil. Eis aí como a matemática erra, ou antes, como, para aquém da linha equinocial, variam as coisas mais firmemente assentadas na Europa, porquanto, no Brasil, a proporção de oficiais, entremeando generais, etc., não é de um para quinze, mas sim, de um para dois, que é a da guarnição da cidade do Rio de Janeiro. Esses oito dias, depois da mazorca do Lauro (15) gorado, têm sido de um aspecto encantador. O poltrão do Cardoso de Castro, a humílima autoridade que recebeu o deputado Varela, é agora das mais enérgicas, e o símplice Rodrigues Alves, grave conselheiro, secundária figura do Império, é estrênuo defensor da República. Rui, o letrado beneditino das coisas de gramática, artificiosamente artista e estilista, aconselha pelos jornais condutas ao governo. Há dias, ele, no auge da retórica, perpetrou uma extraordinária mentira. Referindo-se ao dia 14, que fora cheio de apreensões, de revoltas e levantes, e à nota trazida a 15, da vitória da “legalidade”, disse assim, da manhã de 15: “fresca, azulada e radiante”, quando toda a gente sabe que essa manhã foi chuvosa, ventosa e hedionda. Eis até onde leva a retórica; e depois...

Sem data. Eu tinha um colega na secretaria que, em face a mim, desperta-me um estranho sentimento. Era uma espécie de repulsa misturada com enjôo que eu sentia quando ele vinha conversar comigo. Não sei a que atribuir isso. Penso que seja pela sua completa linfacidade; pela sua estupidez. Entretanto, bem analisando, eu tenho conhecimentos que são dessa espécie de gente, pelos quais, entretanto, eu não sinto esse sentimento. Em mim, eu já agora tenho observado, há uma série chocante de incongruência de sentimentos desacordes, de misteriosas repulsas. Não sei! Não sei! O futuro elucidará.

Os oficiais do Exército do Brasil dividem com Deus a omnisciência e com o Papa a infalibilidade.

26 de dezembro. Hoje, comigo, deu-se um caso que, por repetido, mereceu-me reparo. Ia eu pelo corredor afora, daqui do Ministério, e um soldado dirigiu-se a mim, inquirindo-me se era contínuo. Ora, sendo a terceira vez, a coisa feriu-me um tanto a vaidade, e foi preciso tomar-me de muito sangue frio para que não desmentisse com azedume. Eles, variada gente simples, insistem em tomar-me como tal, e nisso creio ver um formal desmentido ao professor Broca (de memória). Parece-me que esse homem afirma que a educação embeleza, dá, enfim, outro ar à fisionomia. Porque então essa gente continua a me querer contínuo, porque? Porque... o que é verdade na raça branca, não é extensivo ao resto; eu, mulato ou negro, como queiram, estou condenado a ser sempre tomado por contínuo. Entretanto, não me agasto, minha vida será sempre cheia desse desgosto e ele far-me-á grande. Era de perguntar se o Argolo, vestido assim como eu ando, não seria tomado por contínuo; seria, mas quem o tomasse teria razão, mesmo porque ele é branco. Quando me julgo — nada valho; quando me comparo, sou grande. Enorme consolo.

27 de dezembro. Hoje, no trem, vim com o Apocalipse. É um sujeito magro, esgrouviado, sempre com a barba por fazer. As calças sujas e curtas dão o talhe exato de suas pernas, que são finas, parecendo somente de ossos. O curioso é que o Apocalipse, de fisionomia de símio velho domesticado, bondoso, etc. etc., tem três filhos: um está na Escola do Realengo; outro no ginásio, e o outro, no mosteiro de São Bento. Praticante da Secretaria da Polícia, vivendo de um ordenado exíguo e fornecendo aos seus filhos essa educação exagerada, ele criará ou aduladores vis, ou desgraçados descontentes. Entretanto, ele me dizia isso com grande satisfação: “Três filhos doutores! Que honra, que nobreza!” O dia continuou morno, sem atrativo nem novidade. A secretaria, em geral tão pitoresca para despertar reflexões, esteve de uma pobreza franciscana. O ministro esteve ausente. Tenho reparado que, o ministro presente, vive o edifício. Não sei donde lhe vem isso, mas é verdade que verifico. O Lopes, médium “curador”, convidou-me a ir assistir os serões musicais na casa dele. A filha toca piano, e dizem que bem; há uma outra vizinha que executa ao violino, e a elas acompanhará dona Maria José de Brito, primeiro prêmio de flauta do Instituto. Ansioso espero a coisa, tanto mais que me será deveras novo ouvir uma moça tocar flauta. Oh! Que dia! Infame, não vale dois caracóis! Sem data. Na secretaria, eu tive um companheiro primeiro oficial, o M... T... C..., que era dos poucos que lá havia tendo algum destaque. Ele era duma avareza excepcional e duma estupidez de carneiro. Habituado há quarenta anos a escriturar o protocolo, era incapaz de fazer outra qualquer coisa. Pelas relações da família da mulher, veio a ele alguns cobres que junto à avareza dele davam com que ele manter um filho no Colégio Paula Freitas, uma filha no Instituto de Música. Não comprando os jornais, filava-os dos outros, e isso lhe valia as maiores “molecagens”. Às vezes, ao ele aparecer, um relatava ao outro um caso extravagante, vindo em tal jornal, e, zás, corria a procurar o jornal mencionado. Outras vezes, muito antes de ele chegar, colavam em jornais velhos datas dos novos e ele os lia tal qual como se fossem do dia. A sua estupidez muito concorria para isso e ele leu em 1903 ou 4 um jornal do tempo da Revolta de 93. Ao acabar se lhe perguntou: “Que tal as notícias?” Então, respondeu: — Poucas novidades, mas que havia um romance da Revolta muito bom. A sua avareza era tal que ele procurava de mesa em mesa jornais e os juntava para vender aos quilos. Homem feliz. Hei de me aproximar dele para observá-lo no interior.

Dezembro. Doutor Laranjinha. Médico. Bebedor de parati.

O secretário do ministro, por cuja influência eu fui nomeado, tomou-se de aborrecimento mortal por mim . É o que não explico e para motivar o que eu procuro razão. Hoje, encontrei-me com ele no gabinete do diretor e ele nem sequer olhou-me. Porque foi, meu Deus? Talvez a falta de um cartão de pêsames, que não lhe mandei por morte do irmão dele. Só sé isso... Se o nariz de Cleópatra etc.

Sem data. Tito Brandão da Silva nascera no Rio de Janeiro, de uma dessas famílias da pequena burguesia carioca. Sua mãe “criara-se” na casa dos Brandões, como eram conhecidos na Rua de São Pedro, onde moravam. Vindos de Inhomirim, pelos primeiros anos da Independência, o capitão de milícias José Manuel Brandão, com seus filhos e escravos mais chegados, estabelecera-se na corte, tomando parte ativa na agitação do primeiro reinado. Com a retirada de Pedro I, recolheu-se à vida privada, entretendo as longas horas, passadas nas sombrias salas do seu casarão da Rua de São Pedro, com a leitura dos clássicos latinos e dos poetas portugueses. Morrera de desgosto. Seu filho José Luís, oficial de engenharia, com curso da Academia Militar, batalhando no Rio Grande do Sul, foi ferido em Ponche Verde e veio a falecer em conseqüência de ferimentos. Os seus filhos restantes, ainda adolescentes, sob a vigilância da irmã mais velha, dona Rosa, continuaram no sobrado solarengo. O mais velho dos dois, Heliodoro, cursando a Escola Médico-Cirúrgica, e o outro, a de Belas Artes, freqüentava a aula de arquitetura. Heliodoro alcançou uma grande fama de cirurgião e seu irmão, embora estimado e considerado pelos colegas, nada fizera, morrendo em avançada idade, cheio de misantropia e professando um amargo nirvanismo desesperador. Murmurava-se que Clara, mãe de Tito, era filha deste Brandão, César. De fato, sua mãe Engrácia, uma cria da casa, nascida e libertada por ocasião da vinda de Inhomirim, era provida da precisa beleza para interessar o seu jovem senhor, tanto mais que isso estava nos costumes do tempo, quase sem prostituição pública e de aventuras amorosas difíceis. A ternura de dona Rosa encaminhou-se toda para essa e outras raparigas e rapazes, nascidos em casa, em cujas veias corria uma forte dose do seu sangue; e, à indiferença, mais ou menos formalística, dos irmãos, com eles, ela sempre opôs um cuidado, uma atmosfera carinhosa quase maternal. Era médico, botica, roupas, colégio... tudo ela dava àqueles seus sobrinhos inconfessados. Clara freqüentara o colégio e tivera a educação comum das moças do seu tempo. Era essa a origem da mãe de Tito; a de seu pai, Miguel da Costa, não era menos complicada, embora mais obscura. Nascera ele da mancebia de uma “cabrocha” com um português, minhoto tenaz e paciente, estucador de ofício, que chegou à fortuna pelas suas qualidades de caráter. Miguel herdara essas qualidades do pai; assim é q e, aos quatorze anos, quando ele abandonou sua mãe u (estava nos costumes do tempo), pôs-se em campo com decisão e, em breve, fez-se um operário litógrafo estimado e respeitado. Perdendo sua mãe, o foco concentrador de sua mãe, não se entregou absolutamente à ociosidade dissolvente habitual nos de sua classe. Adquiriu uma pequena instrução, mas segura, com a qual, pelos vinte e cinco anos, protegido por uma influência do tempo, pôde exercer um emprego público numa repartição que se fundou. Casou-se por essa época. Os primeiros anos foram difíceis. O seu primeiro filho, Jônatas, de um natural selvagem e independente, criou-se quase à toa pelo arrabalde em que moravam. Aos doze anos, era um rapagão nédio, “desembolado”, forte, valente, que já metia medo com a sua destra capoeiragem aos mais velhos de sua vizinhança. Era uma perdição, como dizia uma preta velha dos arredores. O segundo, porém, seis anos mais moço que esse, nascera em horas melhores. O velho César, ao morrer, deixara à Clara obra de sessenta contos, restos da fortuna que o velho Brandão trouxe de Inhomirim, e que o excêntrico César, pela sua longevidade, fora recolhendo. Clara não gozou muito da herança. Um ano depois morreu. Senhor de um tal pecúlio, com três filhos apenas, Jônatas, Tito e Clara, o antigo litógrafo tratou de consubstanciar seu sonho: formar um filho. Mandou Tito ao colégio, seguiu os seus estudos, animou-o, mas não pôde vê-lo formado, pois, quando o filho acabava os preparatórios, morreu do fígado, muito moço ainda. Tinha dezenove anos, Tito, e seu irmão, Jônatas, intermitentemente empregado nisso e naquilo, ficou como tutor, tutor singular que obedecia e respeitava a seu irmão tutelado. Cuidados com os irmãos, abnegação pelo futuro deles, afastara de dona Rosa os do casamento. O ímpeto do tempo e do seu sangue desviara-a na ternura e no carinho com irmãos rapazes, esquisitos, caprichosos e desiguais. Envelhecera animando-os, alentando-os, e se sua ação fora útil ao desenvolvimento [ ]

Sem data. Um escritor, um literato, apresenta ao público, ou dá publicidade a uma obra; até que ponto um crítico tem o direito de, a pretexto de crítica, injuria-lo? Um crítico não tem absolutamente direito de injuriar o escritor a quem julgar. Não se pode compreender no nosso tempo, em que as coisas do pensamento são mostradas como as mais meritórias, que um cidadão mereça injúrias, só porque publicou um livro. Seja o livro bom ou mau. Os maus livros fazem os bons, e um crítico sagaz não deve ignorar tão fecundo princípio. Ao olhar do sábio, o vício e a virtude são uma mesma coisa, e ambos necessários à harmonia final da vida; ao olhar do crítico filósofo, os bons e maus livros se completam e são indispensáveis à formação de uma literatura. Se o crítico tem razões particulares para não gostar do autor, cabe-lhe unicamente o direito de fazer, com a máxima serenidade, sob o ponto de vista literário, a crítica do livro. Dizem que o amor faz grandes obras. O ódio também poderá faze-las; mas, para isso, como no caso do amor, é preciso conter-se. No domínio do pensamento, as paradas de sentimento são extraordinariamente fecundas. Em geral, ao começar, o temperamento literário é delicado, é fraco, é semi-feminino, diga-se, e ninguém poderá prever sob que aspecto, sob que forma, a injúria vai reagir nele. Balzac, Lord Rhoone, se houvesse sido injuriado, chegaria a ser o Honoré de Balzac do Père Goriot? Em resumo, se o crítico ama as coisas do pensamento, e sobretudo estas, deve ter sempre em mira a sua prosperidade; e, creio, a injúria não é o melhor meio para obtê-la.

“La muse, si revêche qu’elle soit, donne moins de chagrins que la femme. Je ne peux accorder l’une avec l’autre”. Flaubert a George Sand.

“There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy”.

Clara dos Anjos , mulher, mulata, 23 anos. Tenente Frutuoso, do Exército, positivista, etc., noivo de Carlota Sá Bandeira. Guedes (Camilo da Costa), português, interessado; mais tarde, enriquece, parte pra Europa, onde fica, doando alguma coisa à Clara, sua amiga, com quem tem uma filha (Visconde mais tarde de qualquer coisa). A gente Sá Bandeira, família de pequeno empregado, da relação de Clara, de quem o pai era padrinho. Edmundo Neves, raisonneur, boas opiniões, apresentado ao Frutuoso. Edmundo Neves é de Minas, placidamente desliza pela vida como empregado dos Telégrafos, ligara-se de amizade com Armando Sá Bandeira, poeta de jornais pequenos e empregado da estrada de ferro. A velha Cipriana de Sá Bandeira. David Carvalho casa-se mais tarde com Clara, a quem vem a conhecer na festa dos Cardosos, na Penha, por ocasião do São João. David, sem ofício certo, é tudo, mais ainda jogador, bêbedo, etc. Dá cabo dos 50 contos de Clara. Clara enviuva e amiga-se com José Portilho, pedreiro, 50 anos, e, quando sua filha Iracema foge com um cabo de polícia, queixa a esta, relutâncias encontradas, e afinal, abandona- a amigada com este, e prostituição dela e morte na Misericórdia. José Portilho, envelhecido, não podendo trabalhar; Clara lava e engoma para sustentá-lo, e no terreiro da estalagem em que moram ela canta uma trova qualquer em um belo dia de sol. 1903 Época: 1874 a 1905. Clara. Nasceu ..........................1868. Morte do pai................1887 Deflorada.....................1888. (12 ou 13 de maio). Dá à luz.........................1889 Deixada.........................1892 Casada ...........................1894 Viúva............................ 1899 Amigada de novo........1900.

Preciso saber de que data são as “Vozes d’África». Veio residir em Catumbi em 1884.

Clara deve primeiro intentar os soldados à noite no acampamento de Maria Angu, depois, aconselhada, vai ao Frutuoso, de manhã, que a recebe, escrevendo uma carta cheia de sentenças filantrópico-políticas, e escrevendo continua a dar-lhe atenção. David é fuzilado de manhã no meio de um campo, fazem-lhe cavar a cova e depois zás.

A sedução de Clara passara-se no dia 13 de maio.

Amigada com casa montada briga com a dona Quitéria. O delegado e os escrivães, gente libidinosa, querendo conquistar todas as mulheres que lhe vão às repartições.