The Epic of Paul

Chapter 15

Chapter 152,060 wordsPublic domain

O lugar dos encontros era ainda no tal beco e no mesmo quarto meio sujo, meio escuro, para onde, naquela tarde, o adolescente a levara. Com o gênio ordeiro de Clara, o aposento, entretanto, tinha ganho mais limpeza, e uma arrumação mais cuidada disfarçava a exiguidade de seus móveis. A cama de ferro, calçada, tinha o colchão de capim coberto de lençóis limpos, alvos, e uma colcha de chita de ramagens cobria-a por dois terços. As figuras eróticas das paredes substituíra Clara por cromos de folhinhas, e, disponho-os ingenuamente simétricos, o ar do quarto era de um aposento de moça pobre. As suas relações duravam há oito dias, e, com ser ainda recentes as relações, o adolescente parecia à Clara um tanto aborrecido. Não mais carinhos, pedidos, coisas mínimas, que ela tanto estimava. De tarde, ao sair, ela dirigia-se rapidamente ao beco. Subia, já o encontrava, sentado, esperando-a. Mal chegada, antes mesmo de repousar os embrulhos, ela ia muito humilde, muito doce, amimá-lo. Os carinhos eram quase indiferentemente recebidos pelo rapaz, respondia a um beijo ou a uma carícia e, como fatigado, dizia mal-humorado: — Deixa-te disso... Deixa-te disso... Clara murmurava uma queixa, mas continha-a e ficava em pé com as mãos nos cadarços da saia, a olhá-lo, com os seus olhos redondos, humildes, parados, espantados. O adolescente, então, intervinha e com império mandava: — Despe-te. Anda. Satisfeito, ele se levantava rápido, aborrecido, respondendo monossilábicamente às perguntas da rapariga, obrigava-a a vestir-se de novo, fazia-a sair, e ela, logo que o imaginava longe, saía a se coser pelas paredes, envergonhada, vexada, apreensiva. Dentro de dias, havia já nele um grande arrependimento, nascido do sentimento confuso do temor das leis, da sociedade, da honra, dos preconceitos. Aquelas carícias, aquela intimidade da rapariga não eram próprias, não competiam a ele, era uma confiança. E como mesmo lhe fora tão forte o desejo dela que lhe chegara a prometer casamento? Ele e ela, casados... Oh! Oh! E continha a risada. A risada que queria explodir era contida pelo temor do código, do escândalo, da polícia. Mas daí não havia senão perigo passageiro. Seu pai repreendê-lo-ia, amarraria a cara, evitaria o código, a polícia e, afinal, havia de achar coisa de somenos, pândega de rapaz. Entretanto, o que mais aborrecia-o eram as carícias dela. A demasiada doçura com que o tratava, os afagos de noiva, uma criada, quase. Convinha pôr um termo àquilo; já tinha o que queria, e se a coisa continuasse podia “pegar”, era o diabo! Na última vez que estiveram juntos, no sábado; ele pedira à Clara que viesse segunda-feira cedo, almoçariam juntos no chateau, passariam o dia e a tarde, iriam ver as festas, mesmo porque, acrescentou ele no fim, tinha muita coisa a dizer-lhe, relativamente ao futuro de ambos. Naquele dia, Clara, dizendo à sua mãe que ia com sua companheira assistir as festas da Libertação, saiu de casa por volta das nove horas e foi direito ao quartinho do beco. As ruas cheias eram atravessadas pelo bonde entre ululos, a multidão não satisfeita com as provas públicas de regozijo continuava a enchê-las, percorrendo-as animada, a parecer que, sem destino nem fim, teimava a andar pela via pública de baixo para cima. No quartinho, como de costume, a rapariga encontrou o adolescente e de contrário do habitual ele aparentava mais gentileza e se esforçava por ser prazenteiro. O almoço, que fora frugal e breve, veio pô-los em maior intimidade. — Clara, disse o rapazola, eu te queria dizer alguma coisa, mas espero que, com o que te vou dizer, não te ponhas aí a fazer um escarcéu, mesmo porque não há razão para isso... — Que é? — Vou te dizer, mas primeiro hás de me prometer que tu não farás nada, isto é, não te surpreenderás, nem te irás pôr a chorar e a dizer bobagens... Prometes? — O que é? — Promete, primeiro, senão... — Prometo. Que é, então? — Vê-lá. Prometes? Juras? — Juro. Juro. Diz lá. — Bem. Como você sabe, eu estou estudando, vivo da pensão que meu pai me dá, tenho que lhe dar contas de mim e, nessa época de exames, eu fui reprovado nos últimos que me faltavam para me matricular; sendo a segunda vez, meu pai zangou-se, repreendeu-me, aborreceu-se, mas acontece que agora, num dos Estados do Norte, haverá exames para o mês que vem, uma segunda época, e meu pai, que é amigo do presidente da província e tem muitas relações lá, com os professores do liceu, vai me mandar lá completar os preparatórios. Mas o que e isso? Que cara! Deixa-te disso. Você me prometeu... — Você volta? — Volto. A coisa é segura, os exames lá são fáceis, mesmo com empenhos que levo nem que fossem difíceis, e, dentro de um mês e tanto, estou aqui e matricular-me-ei em medicina. Portanto, como você vê, é uma separação breve, eu voltarei e então tu já sabes. A rapariga tinha ouvido o adolescente, contendo a máxima angústia. De quando em quando, ela queria dizer qualquer coisa, objetar que ela sentia a verdade, que ele não ia só prestar aqueles exames, mas separar-se dela, cortar as relações que ia mantendo, retirar-lhe a promessa e deixá-la por aí, desonrada, isolada, desgraçada, tanto mais que lhe era agora a coisa abominável, pois que já se suspeitava, e já, entre dentes, ela ouvia referência indiretas e aproximações. O trabalho do empreiteiro não fora em vão e, se bem que ela não o visse nas proximidades do quarto, nem tampouco ele lhe houvesse dito qualquer coisa, ela sentia que ele sabia, tinha certeza que ela vinha ali naquele quarto reunir-se com um rapaz. E, ele sabendo, saberia seu padrinho, e ela perderia com isso a única proteção. Que ia ela ser, desonrada, sem ajuda de ninguém, desprotegida? E lhe passou, então, pelos olhos, a visão rápida, dramática, de um futuro doloroso. Seria assim como aquelas que, na janela, passam dia e noite, a chamar homens, a arrebatá-los pelo casaco, viveria assim de tamancos ao meio do pé, vestida com chitas ralas, a se ver a metade do corpo, a bebericar, até que um dia o ciúme de um ébrio, de um mau, com quem naquela vida ela estava arriscada a travar conhecimento, a matasse cosendo de facadas, no fundo horripilante de uma daquelas alcovas. Não pôde então impedir de chorar. Chorava, com um choro seco, em começo, e depois, como se o choro contido tivesse aberto todas as válvulas, ela chorou abundantemente e livremente. O adolescente, sentado, afagava-a, fazia-se terno, amimava-a, e ela, entre soluços, disse-lhe: — Você volta? Você vai me deixar? — Volto, Clara, volto, quem te disse... — Você quer me deixar. Eu sei. Eu sei. Se você não me queria, porque então me namorou, me desviou? Ah, eu logo vi! Logo vi. Bem me dizia minha mãe. — Mas, Clara, ouve. Atende. Se eu te quisesse abandonar, viria te dizer? Eu não poderia ir me embora, sem nada avisar, hein? — É... É... Mas, fez Clara, abalada com a argumentação do rapazola, mas, continuou, mas não sei, eu penso que você não volta, que você vai me deixar. — Mas que interesse tinha eu em te avisar? Para que? Diz? — Não sei. Não sei. — Ouve, Clara, eu volto dentro em breve, e nós haveremos de ser felizes, vamos morar numa casinha, eu, você e tua mãe; eu me empregarei, enquanto tirar meu curso. Então... Clara, pouco a pouco assegurada, acalmou-se; o choro não lhe vinha mais, e, quando de toda sossegada, o rapazola disse-lhe: — Lava o rosto. Endireita as tuas roupas. São quase três horas e eu preciso sair. Obedecendo, Clara pôs-se a concertar o vestuário e a tirar da fisionomia os vestígios da cena que vinha de ter. Servia-se pra isso dos poucos objetos de toilette que havia no chateau e procurava o pente, quando na porta severamente bateram. — Que é? — Não sei, Clara. Eu vou ver, disse ele, abrindo a porta e saindo. — Foi um sujeito, disse ele, em breve, voltando, que, por engano, julgou que morava aqui um tal de Costa. Clara olhou-o algo desconfiada, mas de tal forma a sua fisionomia era leal, que ela continuou placidamente a pentear o cabelo. — Clara, disse o adolescente de repente, você espera aí um pouco, que eu já volto, vou aqui à Rua do Senado levar essa carta, que meu pai pediu-me que levasse e já volto. Saindo o rapazola, Clara nem sequer lembrou-se de fechar a porta, pôs-se em frente ao espelho do lavatório de ferro a dar a última mão no penteado. Quando ela punha o último grampo, ela sentiu que lhe entravam no quarto, virou-se e deu com um rapaz na sua frente: — Não se assuste, benzinho. Não se assuste. Não respondendo, Clara foi olhando o rapaz. Era alto, membrado, de testa quadrada e curta de estúpido obstinado. De repente, como se virasse um pouco, ela viu que, pelo pescoço dele, atrás da orelha, lhe saía uma mancha v rmelha, e lembrou-se logo que o havia visto. Onde? e Quando? Ah, foi na noite dos fogos, com o rapazola que ali a trouxera. E compreendeu, então, a armadilha que lhe fora armada, e nitidamente se lhe desenhou a sua situação. — Benzinho, não se espante. Sou eu, que lhe quero muito bem. O seu andar tortuoso, cambaleante, denunciava-lhe a embriaguez, e o seu olhar de crapuloso desferia chispas. Clara não sabia o que dizer, calada, olhava o rapaz em frente e recuava até a janela. O rapazola ia chegando, aborrecido com aquela resistência, começava a se enfurecer, as suas palavras não eram as mesmas, melosas, de ainda então; um vocabulário de injúrias soezes saía de sua boca. — Vá, sua negra. Deixe-se disso. Clara, aproveitando uma ocasião em que tropeçara no lavatório, empurrou a velha enxerga de ferro para o meio da sala e, de uma das guardas, suplicava: — Deixe-me, pelo amor de Deus. Deixe-me. O latagão do outro lado armava o salto para um lado e outro, no fim de engancha-la. Por fim, de um salto, agarrou-lhe pela toalha, que ela tinha ao redor do pescoço, que lhe ficou nas mãos. Enfurecido, ele corria da direita para a esquerda, atrás de Clara, saltava a cama, enganava- a, e sempre a rapariga, murmurando pedidos, escapava dos seus botes, com um seguro instinto de conservação. Por fim, já sentindo que as forças lhe iam faltar, Clara pôs-se a gritar por socorro; gritou uma, duas, três, seis vezes, ao fim das quais, violentamente empurrada, a porta do quarto se abriu, e algumas pessoas entraram e levaram os dois até o rondante e daí para a subdelegacia. O rapagão, a quem o exercício curara de algum modo a semi-embriaguez com que entrara, tomara acordo de si e, à ordem de prisão recebida, quis resistir a princípio, depois disse que iria só, não com polícia, que era estudante, filho de boa família. Afinal, tendo obedecido, os dois foram à subdelegacia.

— Vossa Excelência compreende que a situação é delicadíssima. Eu, que o conhecia muito de nome, vendo que ele vinha à tona em semelhante coisa, parei, embaí um pouco e obtive que a coisa ficasse nisso mesmo. Entretanto, não foi tanto que os jornais não pudessem pegar, e agora, de manhã, ao lê-los, foi com surpresa que vi o nome da rapariga por extenso e o dos rapazes pelas iniciais, com o seu também desse modo, denunciando a filiação... Eu sou velho, tenho perto de sessenta anos, e nos meus tempos de rapaz essas coisas não tinham nenhum valor, eram pândegas de rapazes, muito natural na sua idade, e mesmo com o seu filho a coisa talvez não tivesse nenhuma repercussão, se não fora esse estouvado amigo dele, que, semi-ébrio, e de um comportamento abaixo de qualquer estima, se não fosse, dizia, se não fosse ter consentido que ele se introduzisse no quarto e quisesse violentar a rapariga, mas... — Senhor major, há provas contra meu filho? — Muitas. O depoimento da vítima, da mulatinha, disse ele, emendando logo, a denúncia do valentão, seu amigo, que foi preso quase em flagrante, contou a coisa por miúdo, e o encarregado da casa de cômodos, que, depondo, afirmou que desde um mês ela, a vítima, digo a mulatinha, e um rapaz, com os sinais de seu filho, se reumam ali, entretanto... — E qual é a pena que o código crimina para “isso”? — A não ser que o indiciado queira proceder casamento... — Oh! isso absolutamente não, disse ele com um imperceptível “isso”. Não se compreende que a lei obrigue a se casar gentes de situações diferentes, de cores, de educação, só porque se encontraram... —Vossa Excelência...