Part 5
18 de janeiro. Vim no trem com o Viana , pai e filho, neta e irmã. É um tipo curioso de aventureiro esse Viana. Fundou um jornal, a Revista da Época, do qual, por lábias sábias, obrigou-me durante três números a ser secretário, do que me descartei a muito custo. A revista dele é uma espécie de galeria de retratos de varões obscuros. Quando lhe escasseiam os recursos, ele publica um número e, no dia seguinte, corre aos retratados para buscar dinheiro. Anda agora de gorro com um russo. Curioso vagabundo que busca fortuna. Saltou no cais de Pharoux, arranjou um título universitário, é doutor, assim como, se saltasse na gare de Orléans, seria conde ou marques. Dentro do código, como o Galvez e outros, ele com certeza pretende roubar o Brasil. Há ainda com ele o Raposo, tradutor de inglês, um português que foi criado de hotel em New York. Chegado aqui, insinuou-se, e de tal maneira, que em breve fez-se examinador de inglês, em cujo lugar fez uma tabela de aprovações, creio que só. Distinção — duzentos mil-réis; plenamente — cento e cinqüenta mil-réis; simplesmente — cem mil-réis. Para melhor “cavar”, casou-se e, se ainda não fez da mulher um chamariz, foi porque as coisas não apertaram. Ele, com o Viana, estão fazendo um número em inglês. A revista, aparecendo em duas línguas, “morderá” melhor. Além destes, esporadicamente, surgem lá outros: gente honesta, as vezes, mas que, desanimada, se atira ali como a uma gamela de porcos, gente faminta. Eu, graças a Deus, livrei-me dele.
19 de janeiro. Dor de dentes pavorosa. É uma coisa soberanamente imbecil, dói-me a cabeça, as faces. Eu vejo o mundo mau através da minha dor. O mundo é decididamente mau, porque o vejo coado na minha dor de dentes. Ela vai passando. As burrices do 5...tiveram o efeito do creosote. O Edmundo Bittencourt foi preso por causa do artigo de que falei há dias; alguns jornais, poucos, protestaram, entre eles a Tribuna, a quem o chefe de polícia mandou avisar, p r um capitão de o sua milícia, que não admitia censura à sua administração. O presidente da República (parece) mandou que o chefe o soltasse, e este soltou-o, fazendo-o constar que o fazia por seu livre alvitre. Esse chefe de polícia, Cardoso de Castro, é a besta mais imbecil que há no Brasil. Irritado, ignorante, esfomeado de dinheiro, babuja-se todo para ficar no lugar em que está. O seu relatório, que é a coisa mais impagável dessa vida, pretende envolver nos distúrbios de novembro platônicos monarquistas, porque, diz ele, fazer propaganda da monarquia é o maior crime possível. A monarquia há de voltar, e eu hei de vê-lo, como chefe de polícia, dizer que a propaganda da República é pior que matar o seu próprio pai. Áulico, esfomeado, imbecil e ignorante, sem capacidade para ser liberal. Desonesto, porque consentia que seus filhos, eu os conheci, recebessem subvenções de bicheiros e morassem em casa de propriedade deles sem pagar. Disso eu sou testemunha.
24 de janeiro. Desde sábado, ou antes, desde sexta-feira (20), que não tomo notas. A 20, dia santo de São Sebastião, semi-feriado, vim para minha desgraça à secretaria e de tal forma trabalhei nesse dia, que resolvi não vir no dia seguinte, em que fui à Biblioteca Nacional tomar notas para o meu romance. Pedi maio de 1888; vindo-me, corri o mês, desde 10 até 16, onde recebi confirmação do que pensava. Li, por acaso, algumas páginas do Ateneu e as achei soberbas; entretanto é de desanimar ‘que um livro como aquele não seja lido aos 10.000. O Eça, me parece, escrevia inferiormente, e os seus processos de graça são muito mais grosseiros que os de Raul Pompéia. Entretanto... Ah! O Brasil! À tarde, muito conversei com o Alcides sobre nossa pátria, sobre nossas coisas, nossa política. O Alcides, Alcides Maia, é um inteligente rapaz, inteligência de bom quilate, dessas que não fazem coisas de raio, mas marcham lenta, seguramente, a deixar sulco como uma relha de arado. Conversamos muito e agradavelmente. Éramos eu, o Otávio de Sousa, um bom matemático, que se intromete agora pelas coisas da arte e de sociedade, estreou no positivismo mundano, eu penso rapaz de talento; éramos eu, Otávio e Alcides, depois chegaram o Araújo Viana, músico, e o Cartier , um belo rapaz do Rio Grande, bonito e forte, amplo de gestos e de voz, simpático. Como ficasse tarde, recolhi-me ao quarto do Tigre , paredes e meia do Alcides. Às duas horas, ele chegou e mais dois para buscar o Amarante , para o baile dos Democráticos. É um tipo de literato do Brasil, esse meu amigo Tigre, inteligente, pouco estudioso, fértil, que usa da literatura como um conquistador usa das roupas — adquirir mulheres, de toda a casta e condição. Ia aos Democráticos com o Domingo, que é também literato, e daqueles, que pensa que o literato deve ser o inimigo do casamento, da moral, das coisas estabelecidas, com tintas de darwinismo e haeckelismo, velhíssimas coisas que ele pensa novas, escreveu um romance rebarbativo e idiota, para fazer constar que é um voluptuoso, um lascivo, e põe-se nas ruas a fazer os mais baixos comentários sobre as mulheres que passam: “Que peixão! Que bunda! Oh! A carne!” Isso! Aquilo! É um imbecil. Também o Miguel Austregésilo, gastador dos mais velhos paradoxos que se conhece. Passando seis meses em Paris, ou antes, em Bruxelas, trazia o bolsos cheios de cançonetas que s nós conhecíamos aqui desde dois anos. O outro, Amarante, é um bom menino. É preciso saber que a todos eles eu devo valiosos favores.
26 de janeiro. Ontem, quarta-feira, fui a casa do Santos, Antônio Noronha Santos, bacharel, irmão do João, engenheiro, e Carlos. Conversamos amistosamente e inteligentemente. Voltei pra casa, eis senão quando dou com um baile em forma. Eram dez horas da noite. Havia canto, dança, etc. Ora, no estado que meu pai está, com os poucos recursos que temos, positivamente aquilo me aborreceu. Como permitia o meu orgulho que eu recebesse gente, sem oferecer-lhes boas coisas? Como? Demais, meu pai, aluado, na saleta, e o baile, a roncar na de visitas. Não me contive e manifestei logo o meu descontentamento. Isso, ao depois das visitas saírem, deu lugar a um destampatório familiar. A minha vida de família tem sido uma atroz desgraça. Entre eu e ela há tanta dessemelhança, tanta cisão, que eu não sei como adaptar-me. Será o meu “bovarismo”?
27 de janeiro. Ontem, ao sair da secretaria, passei pela Rua do Ouvidor e não vi a Palhares. Acho-a curiosa por causa do mestiçamento que nela há, disfarçado pelos cuidados meticulosos da toilette: perfumes, pomadas, pós, etc. Isso aborreceu-me mais do que estava aborrecido e na botica tive sono. Sai e tomei um bonde e fui à Prainha. A rua está outra, não a conheci bem. Se os prédios fossem mais altos, eu me acreditaria em outra cidade. Estive na esquina dela com a avenida, a famosa avenida das indenizações, subi-a a pé, tomei pelo que resta de beco da Rua da Prainha, agora em alargamento, e segui pela Rua Larga de São Joaquim, prolongada e alargada até o Largo de Santa Rita. A rua quebra um pouco do primitivo alinhamento, mas mesmo assim ficará bela. Entretanto, como vêm já de boa administração essas modificações, acredito que o Rio, o meu tolerante Rio, bom e relaxado, belo e sujo, esquisito e harmônico, o meu Rio vai perder, se não lhe vier em troca um grande surto industrial e comercial; com ruas largas e sem ele, será uma aldeia pretensiosa de galante e distinta, como é o tal de São Paulo. Tomei pela Rua Larga e fui à fábrica do Rink ver lá o João, o João Noronha Santos, engenheiro e subgerente lá. Conversamos até às nove horas. Carreguei-lhe umas caixas de papelão, piedosa mania, e uns números do Figaro. Tomei o trem e fui pra casa, a minha espectral casa. Cá estou na secretaria; o barão, em frente, vigia-me por cima dos livros que acumulei nas minhas ventas. O dia vai correr e eu vou trabalhar um tanto.
28 de janeiro. Ontem à tarde, fui ao banco receber um empréstimo que propus. É uma casa singular aquela, uma espécie de agiota privilegiado pelo governo. Demorei-me lá duas horas e às oito fui jantar na Estrada de Ferro; paguei ao Chambá o jantar. Voltei para casa e li até à uma hora o bovarismo do Gaultier, um curioso livro que se propondo revelar uma coisa já muito pressentida, entretanto, é duma frescura de brisa fagueira dos poetas. Estou lendo e acho lisonjeiro para mim achar nele vistas que eu já tinha sentido também. Deitei-me e dormi bem, sossegado e satisfeito, porque tinha trezentos e tantos mil-réis em casa. Depois dos grandes sofrimentos por que passou minha casa, eu ando pela vida apavorado, temendo desgraças, moléstias e tal fúria de tal forma vai se apossando de mim, que me vou azedando, e as rusgas que tenho mantido em casa, me parece, se explicam assim. Hoje, ao chegar à secretaria, fui intimado a cumprimentar o Argolo, que fazia anos; lá fui. Idiota esse barão e esse Argôlo. O mês vai se encerrar e o meu livro só tem pronto dois capítulos, e quem projeta trinta, é pouco trabalhar. Vou esforçar-me mais e creio que até fevereiro terei três capítulos mais. Entretanto, que de dúvidas me assoberbam sobre o seu mérito, sobre o seu valor!
O Bovarismo de Jules Gaultier. Impressões de leitura. O bovarismo, diz seu autor, é um livro que não visa instituir nenhuma reforma, se aplica a matéria que os homens, mais que nenhuma outra espécie, acreditam marcar, eles mesmos, uma forma; trata da evolução na humanidade, isto é, dos modos de mudança nesta parte do espetáculo fenomenal em que o fato da consciência parece atribuir ao ser que sofre a modificação, com o poder de dar causa, o dever de dirigir. Sob essa ilusão, a vontade humana acredita intervir no turbilhão de causas e efeitos que a envolvem. A constatação, verificação do fato, tende na linguagem a se formular em regra moral, porque a ilusão do fato, engendrada pelo reflexo da atividade na consciência, é tão forte que domina as formas da linguagem. O bovarismo, livro, é um aparelho de óptica mental. É do prefácio. O bovarismo é o poder partilhado no homem de se conceber outro que não é. Precisar o papel do bovarismo como causa e meio essencial da evolução na humanidade. O mal, o bovarismo nos personagens de Flaubert, pode ser apreciado com uma rigorosa observação: aumenta com o afastamento que se forma entre o fim a que está voluntariamente assinalado e o fim para que os imantava naturalmente a sua vocação natural. A pessoa humana A imagem que, sob o império do meio, circunstâncias exteriores, educação sujeição, a pessoa forma de si mesmo. Ser real, ideal, tendências hereditárias, etc. As linhas se coincidem quando a impulsão, vinda do meio circunstancial, age no mesmo sentido que a impulsão hereditária. Nos casos de Flaubert, essa convergência não se produz. O ângulo dessas linhas é o índice bovárico, mede o afastamento entre o indivíduo real e o imaginário, entre o que é e o que ele acredita ser. Na Educação Sentimental, de Flaubert, mímica de valor desigual. Diz o Gaultier que, se na Ema Bovary o bovarismo foi negativo, deve-se a sua falta de crítica.
Sem data. Bem cabível. “Malheureusement ii y avait chez le frère de Mme Pompadour un amour-propre ombrageux, une inquiétude perpétuelle de l’estime qu’on faisait de sa personne, une susceptibilité toujours en quête et en alarme d’une ironie ou d’un mépris, une tendresse pleine de mefiances et de soupçons, un besoin de se tourmenter et de se rendre malheureux dans lequel faisant tout à coup irruption une noire humeur accompagnée de rudesses et de brusqueries”. Mme Pompadour. Goncourts. É curioso verificar que essas linhas descrevem inteiramente o meu caráter e, se de qualquer forma a metempsicose é verdade, e em minha alma há qualquer coisa do desventurado irmão da grande favorita.
30 de janeiro. No sábado, fui a casa do Alcides Maia ler o meu livro; acredito que fossem sinceros os elogios que dele me fez, o que me anima a continuá-lo; entretanto, o pensamento foi ainda pouco compreendido, eu o creio, porque ele me tenta a pôr nele um personagem que o livro não comporta. A leitura dos dois capítulos primeiros durou uma hora, e ele fez pequenas observações, emendando, que eu aceitei . Cada vez mais simpatizo com esse Alcides. É inteligente, ilustrado, estudioso, delicado de sentimentos. Ele é muito diverso da maioria dos jornalistas e rapazes de letras com quem tenho relações. Não é que lhe falte orgulho, altaneria, Deus nos livre que ele não o tivesse. Tem- no, mais pautado, discreto; e nele esses sentimentos modelam a sua melhoria. Acho nele dois pequenos defeitos: é jornalista e é político. O primeiro é simplesmente um meio de vida, desculpa-se; o segundo é que n o. Entretanto, como ele nascesse daquele fermentado Rio Grande ã e de família abastada, não poderia escapar a ela. Domingo, fui ao Papa Lebonnard, drama em quatro atos de Jean Aicard. É um drama de moldes velhos, feito por um autor novo e de talento. A Lucinda, a minha querida Lucinda, um gosto que foi meu pai quem mo deu, fez o papel com uma sobriedade, com uma elevação, que admira em língua portuguesa. A Lucinda não tem ênfase e com poucos recursos de fisionomia ela tira um partido excepcional. É como um escritor de pequeno vocabulário, mas com grande conhecimento da sintaxe e um grande sentimento da língua. O Cristiano não é lá essas coisas, esforça-se, trabalha, sabe, mas, como disse um português, não tem o teatro no peito. O Ferreira é melhor; entretanto, com se sentir nele um ator inteligente, vê-se que lhe falta a observação do tipo que representava, um nobre, um marquês. Bom dia! Chovia a cântaros. A francesa de defronte à botica continua a interessar-me. É Louise Léon, costureira. Magra e alourada e eu... Afonso! Afonso! Estou na secretaria a aborrecer-me com os decretos; levemos a cruz ao Calvário, por amor ao meu pai. Hoje vou pagar ao J... P... o último dinheiro que meu pai lhe deve. Procedeu conosco como um carrasco. Aborreceu-me e acirrou-me como um agiota. Graças a Deus vou pagar-lhe e que Deus me dê felicidade suficiente para pagar tudo que meu pai deve. E se eu isso fizer e se conseguir cercar-lhe o resto da vida da abundância que ele tem direito, eu só peço três coisas: Um amor Um belo livro E uma viagem pela Europa e pela Ásia.
31 de janeiro. Último dia do mês em que, com certa regularidade, venho tomando notas diárias da minha vida, que a quero grande, nobre, plena de força e de elevação. É um modo do meu “bovarismo”, que, para realizá-lo, sobra-me a crítica e tenho alguma energia. Levá-la-ei ao fim, movido por esse ideal interessado e, se as circunstâncias exteriores não me forem adversas, tenho em mim que cumprir-me-ei. Ontem, saindo da secretaria, fui à Rua do Ouvidor, estive com alguns idiotas e fui à botica. Encontrei o V..., C..., um meu antigo colega de colégio. Bom rapaz, avarento, míope de inteligência e sem nenhum bovarismo. Está a se formar em medicina e com isso enche o seu ideal de fazendeiro médico. Deixando a botica, fui à Rua do Ouvidor; como estava bonita, semi-agitada! Era como um boulevard de Paris visto em fotografia. Fui de trem, meditei durante a viagem sobre o meu livro, e em casa compulsei as notas para acabar o terceiro capítulo. Agora acabo de achar uma pequena cena para o segundo, com a qual dar-lhe-ei mais força, mais vida, mais verossimilhança. Agita-me a vontade de escrever já, mas nessa secretaria de filisteus, em que me debocham por causa da minha pretensão literária, não me animo a faze-lo. Fá-lo-ei em casa.
1 de fevereiro. No dia 10 de fevereiro, com mais forte razão que nos outros, eu vim à secretaria. Logo ao chegar, fui chamado a falar com um tal B..., que aqui há. Lá fui. Tratava-se não sei de que maçada tinha que ver comigo. Esse B... é o tipo mais curioso de militar burocrata, e burocrata fraco em ortografia e na sintaxe comum. Enchi-me da precisa altivez para falar com ele, e lá não foi preciso usá-la, porquanto ele nada me disse que a provocasse. Ainda bem. O S..., o chefe, atrapalhou-se de tal modo na folha, que não pudemos receber dinheiro; recebi, entretanto, o de meu pai, no Tesouro, o que constitui para mim um grande aborrecimento.
2 de fevereiro. No dia 2, dia das candeias, vim à secretaria receber o dinheiro e por sinal que nela me demorei até as duas e meia horas da tarde. Saindo, fui à igreja da Candelária e, como estivesse algum tanto obtuso, não recolhi nenhuma idéia, nem qualquer emoção. No entanto, com o enterro do Patrocínio não se deu o mesmo. Propalado pelos jornais que esse jornalista tinha sido a alma da Abolição, o populacho à última hora agitou-se e fez-lhe a manifestação de uso: coche puxado a braços, ululos pelas ruas e discursos de cidadãos mais ou menos sequiosos de renome, que aproveitam a ocasião para aumentá-lo um pouco. Quem conheceu o Patrocínio como eu o conheci, lacaio de todos os patoteiros, alugado a todas as patifarias, sem uma forte linha de conduta nos seus atos e nos seus pensamentos, não acredita que pudesse ter sido, como dizem, o apóstolo da Abolição. Necessariamente, ele se serviu da coisa como um meio de arranjar facilmente dinheiro, explorou-a em seu proveito, na parte pecuniária e na parte gloriosa. Isso ele o fez com o máximo interesse e a máxima baixeza. Eu sei bem que b ixos móveis levam a altas coisas, mas isso não a se deu com o Patrocínio. A lei 13 de maio vinha de longe, era convicção da nação a injustiça da escravidão, não precisava jornalistas nem evangelizadores para mostrar-lhe a injustiça. Quem notar — basta faze-lo de 1822 — as referências que os nossos governantes fazem à coisa, sente que eles o fazem com vergonha, com desazo, sentiam-no a ilegalidade, a injustiça; e esse sentimento, que se foi espalhando pelo país, aumentou extraordinariamente depois da guerra do Paraguai e foi como, se dando a lei de 1871, não teve para encarná-la senão o funcionário que a subscreveu, o visconde do Rio Branco, ministro naquele tempo. A lei dos sexagenários foi assim também. E, quando já era quase universal no Brasil esse amargo sentimento, é que apareceu seu Patrocínio, que, sem honestidade e sem grandeza, aproveita-se da história e, pelo “jornalismo”, consegue ser elevado à altura de um apóstolo, de um evangelizador. Demais, há e houve sempre entre nós um grande sentimento liberal, com certas restrições, em favor dos negros. Eu vi o enterro; compungido, do redator do Novidades, o último jornal escravocrata que houve aqui, o Alcindo Guanabara. Se era ao amigo que ele ia ao enterro, mentia; eles nunca o foram; se era ao tribuno, mentia, porquanto sempre foram adversários; tartufo e jornalista, o que é uma e mesma coisa. As ruas cheias tinham um aspecto híbrido, pardo, e os discursos choveram de todas as sacadas da Rua do Ouvidor. Sonetos e mais longas poesias também. E o Rafael , no Largo do Rossio, fez um extraordinário — pois fez populares chorar — um extraordinário discurso. Eu não ouvi; tenho pena.
20 de fevereiro. Há mais de dez dias que não tomo notas. Nada de notável me há impressionado, de forma que me obrigue a registrar. Mesmo nos jornais nada tenho lido que me provoque assinalar, mas como entretanto eu queria ter um registro de pequenas, grandes, mínimas idéias, vou continuá-lo diariamente. Ontem, estive em casa do Tigre, com Alcides Maia, que na verdade é um rapaz que promete.
Sem data Saião, amanuense comigo em 1904 e 5. Burro. Pobre. Tonto de sua família — Saião Lobato e Costallat. Ignorante. Fumaças de escritor. Escreveu uns pensamentos e reflexões que eu devo ter entre os meus livros. Curiosos de asnáticos. Como lhe chegassem aos ouvidos que eu estava escrevendo um livro — o Clara dos Anjos — deu-se para espalhar que estava escrevendo outro. Sobre botânica e zoologia. Coisa transcendente. De agora em diante, está no meu trato. Registrarei as suas palavras e as suas coisas.
É incrível a ignorância dos nossos literatos; a pretensão que eles possuem não é secundada por um grande esforço de estudos e reflexão. Presumidos de saber todas as literaturas, de conhecê-las a fundo, têm repetido ultimamente as maiores sandices sobre o Gorki, que anda encarcerado na Rússia, por motivo dos levantes populares lá havidos. Há dias, conversando com o Tigre, ele me disse que esse Gorki nada valia — escrevera uns contos, coisas de fancaria socialística. É incrível, mas é verdade. Quando eu lhe disse que o Máximo tivera o Prêmio Nobel, ele se admirou — não sabia . Entretanto, Tigre é uma das esperanças da geração moderna. Domingos, bom rapaz, algo mais ilustrado que a maioria dos novéis literatos, cerebrino autor do Sê Feliz, vai fazer um discurso sobre o Bordalo Pinheiro. Não acredito que essa coisa do Bordalo seja sincera. Como caricaturista, ele era um pesadão, a sua caricatura era alguma coisa barroca, com os motivos portugueses desgraciosos, folhas de parra, pipas de vinho, suínos, etc. etc. Desenhista, eu o não conheço. O que se salva nele é o ceramista, e esse só alcança a Portugal, com quem, eu penso, ele não há de querer repartir a glória. Sendo assim, é positivamente idiota e sem razão essa manifestação que lhe vão fazer. Eu tenho notado nas rodas que hei freqüentado, exceto a do Alcides, uma nefasta influência dos portugueses. Não é o Eça, que inegavelmente quem fala português não o pode ignorar, são figuras subalternas: Fialho e menores. Ajeita-se o modo de escrever deles, copiam-se-lhes os cacoetes, a estrutura da frase, não há dentre eles um que conscienciosamente procure escrever como o seu meio o pede e o requer, pressentindo isso na tradição dos escritores passados, embora inferiores. É uma literatura de concetti, uma literatura de clube, imbecil, de palavrinhas, de coisinhas, não há neles um grande sopro humano, uma grandeza de análise, um vendaval de epopéia, o cicio lírico que há neles é mal encaminhado para a literatura estreitamente pessoal, no que de pessoal há de inferior e banal: amores ricos, mortes de parentes e coisas assim. A pouco e pouco, vou deixando de os freqüentar, abomino-lhes a ignorância deles, a maldade intencional, a lassidão, a covardia dos seus ataques.
E como tencione fundar uma revista com o Alcides Maia e mais outros, só me encontro com literatos aos sábados, e com estes do Alcides, que, se não têm todos talento, têm vontade, cavalheirismo e tenção de qualquer coisa.
Juca Rocha era um conhecido proprietário de casa de jogo. Sustentando, dirigindo estabelecimentos dessa natureza, mantendo a família num luxuoso palacete em Botafogo, e freqüentando ela a “gente” hors ligne de lá. Suas filhas casaram-se com vários magnatas. É um caso curioso e denunciador do relaxamento dos nossos costumes. Da sua casa de jogo, na Rua de São José, eu vi sair senadores, deputados, militares, etc. etc.