Part 3
A república passa-se enquanto ela, amigada com o Monteiro, recebia algumas pessoas de sua amizade, entre os quais o Sá Bandeira, que, para casar a filha, adulava-a, para arranjar dinheiro...
Fuzilado o seu marido, ela amiga-se com o alferes tal, das forças; finda a revolta ele a deixa e ela procura empregar-se em serviço doméstico. A vida que leva.
Amancebada com um operário espanhol que fica entrevado, vai morar numa estalagem no Mangue. O dia do funeral, a força passa. Comanda-a Frutuoso, general, e, antes, elas conversam sobre o bicho, lavando roupa e cantarolando.
O Frutuoso, por acaso, conversa em uma roda alegre, um deles afirma que o Benjamim Constant era um impostor, que não sabia matemática e nem nada. Reflete Frutuoso, examina o que ele deixou de obras, os seus cursos em que havia mais política e eloquência que profundeza matemática, e concorda intimamente com a história. Vai pelo bonde e no caminho salta nele um colega e ele se refere à conversa e por fim ele solta uma frase. (Convém procurar essa frase nos exemplos vivos: Liberato, Moreira Guimarães. Ler a Revista Militar).
“Quando, porém, procede inversamente, vai de encontro à função que fica fementida e perturbada. Este fato se produz, sobretudo, quando o chefe, saindo de sua impersonalidade, determina ordens no sentido de sua satisfação individual açulada por forte dose de vaidade. O comando é, em suma, a determinação do ato funcional no conjunto hierárquico da força armada. Saiamos agora do estilo imaginoso que não podíamos deixar de empregar nesta exposição”. Da Revista Militar, 1904.
Frutuoso, com uma pretensão, julga humilhante se empenhar como um paisano para o ministro da Guerra. Tinha bochechas cheias, bigode esfarelado ao ar e olhos miúdos.
A classificação de ciências do Frutuoso: Ciências estáticas Ciências dinâmicas Ciências estático-dinâmicas Exs. 1a - A Geometria, a Mineralogia etc. 2a- A Astronomia, a Química. 3a - A Biologia, a História e a Nigromancia.
Verso de um soneto de Frutuoso: “Marcando aos homens o dever do justo”.
Opiniões do Gomensoro. Os negros fizeram a unidade do Brasil. O negro é recente na terra. Os negros, quando ninguém se preocupava em arte no Brasil, eram os únicos (O. Duque, Arte Brasileira). Os produtos intelectuais negros e mulatos, e brancos, não são extraordinários, mas se eqüivalem, quer os brancos venham de portugueses, quer de outros países. Os negros diferenciam o Brasil e mantêm a sua independência, porquanto estão certos que em outro lugar não têm pátria. Se um viajante, sábio etc. etc., sem saber a história do passado, fosse visitar os árabes atuais, negaria qualquer capacidade intelectual a eles. A capacidade mental dos negros é discutida a priori e a dos brancos, a posteriori. A energia só se tem revelado depois de lenta submissão (hunos, plebe romana, bárbaros em geral). A coragem é da mesma maneira. O português, que é humilde entre nós, é um povo valente; o fim a que se propõe, obriga-o a curvar-se. Discutindo a incapacidade mental desta ou aquela raça, temos o ar de dizer com o poeta grego — os bárbaros, gente vil que não ama a filosofia e ciências; ele se dirigia ao avô de Kant e ao tio de Descartes. Se a feição, o peso, a forma do crânio nada denota quanto a inteligência e vigor mental entre indivíduos da raça branca, porque excomungará o negro? Os árias, quando no plateau da Bactriana, nada valiam; emigrando, após séculos de fermentação, brilharam numa cultura superior; porque os negros, transportados de África pelo tráfico, não desenvolverão uma civilização ou concorram para ela? Esse fenômeno de mudança de habitat é importante para o estudo. A ciência é um preconceito grego; é ideologia; não passa de uma forma acumulada de instinto de uma raça, de um povo e mesmo de um homem. Se há três geometrias etc. etc.
Outubro Discurso que fiz ao barão de Itaipu . É caso, senhor barão e meus senhores, que o encanto da complexidade da vida nos assombra e nos atrai. Ora esse aspecto absorve nossa alma, ora aquele outro faz convergir para ele toda a energia de que são capazes os nossos sentidos; e sempre — em vão procurando decifra-la — a estrutura íntima da vida aparece ao nosso entendimento como um eterno problema a resolver. Armamo-nos de ciências e filosofias, e, se com elas percebemos uma face da existência, deixamos escapar uma outra, ou descobrimos novas. Nesse suplício, que lembra, ao mesmo tempo, os mitológicos das danaides e de Sísifo, percorremo-la tacteando em trevas. Entretanto, há um seguro instrumento para a compreender: é viver. Viver é acumular intuições e noções, que vão formar um cabedal pessoal e intransmissível. É construir uma sabedoria individual; é, de alguma forma, decifrar o magno problema, pois só o lento evolver na vida nos fornece a verdadeira percepção dela mesma e a sua representação, cuja passagem a outrem é impossível. Será talvez por isso que, com os anos, aos nossos corações chega aquela calma transcendental que nos faz saborear, com carinho, todas as suas feições e pairar desassombradamente sobre os acontecimentos. Lembro-me agora de um fato. Era menino. Com meu pai, assistia a um dramalhão ensangüentado. Ao meu lado direito, adiante do meu progenitor, um senhor tinha os olhos úmidos; em frente, uma moça soluçava com a ingênua; à esquerda, porém, um cavalheiro, com a fisionomia parada, e plácida, seguia com afinco a representação. Não perdia um gesto, uma frase, um movimento... Quando saía, pelo fim da peça, ouvi dizer a um amigo: — Aproveitei bem a minha entrada. Para espetáculo do mundo, só os anos dão a calma do meu espectador. E, por ser assim, é que eu, ainda avaro em anos, gabo a passagem de mais um, pois que me vou vendo chegar ao tempo em que poderei apreciar, com o máximo rendimento, a dádiva de viver. Aproveitarei melhor a minha entrada, então... Todas as grandes qualidades de Vossa Excelência, senhor barão, de honradez, de experiência, de culto ao dever e à justiça, de tolerância e de bondade, acentuadas cada vez mais por essa sabedoria de que falei, lograram transformar, de cada um de nós, classificados diversamente pelas necessidades da administração, em um amigo e um admirador. De tal forma é assim, que sabemos que, em Vossa Excelência, temos um mais alto critério e um árbitro máximo, indicados pelo respeito, pela admiração e pela amizade que crescem dia a dia, razão por que, neste, sabedores de que mais um ano Vossa Excelência acrescenta aos já vividos, pedimos aos deuses protetores que muito mais sejam os que restam a Vossa Excelência, para maior ser a nossa veneração. Era o que eu tinha a dizer.
Sem data Capítulo 1 — A família Brandão. Capítulo II — Marco Aurélio encontra uma conhecida de infância, Araci, relembra-lhe a história. Considerações. A rua. A escola, as pressões. Capítulo III — A festa de formatura. Os lírios. O discurso de Marco Aurélio. A alegria da família dona Romualda e a filha Mendonça. Capítulo IV— Marco Aurélio Brandão, compadecido da miséria de um colega, doente, sem dinheiro, recolhe-o a sua casa. Capítulo V — Sentindo-se melhor, mas não tendo para onde ir, o rapaz continua em casa e começa a namorar a irmã. Capítulo VI — Sedução de Alice pelo Mendonça, e como ele dá farinha envenenada à filha. Capítulo VII — Gravidez. Capítulo VIII — As explicações e recusa. Capítulo IX — O assassinato pelo outro irmão, a desculpa de Marco Aurélio e a queda dos titãs. Deve dar vinte capítulos. O caso do Mendonça. Um poeta seduziu uma mulata. Houve um filho. Ele não quis casar com ela. Indo uma vez pedir o que comer para o filho, ele lhe deu farinha láctea com sublimado corrosivo. Marco Aurélio. Pedro. Alice. O velho Nicolau. A criada Ana. Silvino Cavalcanti. Manuel da Costa Freitas. Romualda. Amélia. * CAPITULO 1 Marco Aurélio, orgulho, bondade, talento, tristeza em ver “a gente” sem força, sem coragem, sem ânimo de trabalhar e de lutar, os homens; as mulheres, sem dignidade, sem grandeza, sem força para resistir às seduções, mergulhadas na prostituição. Pedro, seu irmão, capadócio, tocador de violão, capoeira, altivo e corajoso, mas inútil. Alice, passiva, não conhecendo bem a sua situação. Tia Rosa, doçura, filosofia pessimista, certeza de que não é nada. O velho Nicolau, africano, dedicação, etc. Ana, preta, resignação, jovialidade. Marco Aurélio acaba de se formar, o seu gênero de estudo, o seu orgulho de i teligência, n a sua tristeza em ser único, prepara-se para festejar a data. É de manhã, a família toma café, a irmã pede-lhe licença para convidar Amélia, filha da Romualda, prima de sua mãe; ele a dá contrariado, mostra-lhe os inconvenientes. Antes de sair, chega-lhe o seu colega Cavalcanti, é um ano mais atrasado, vem lhe pedir um livro. Conversam um pouco. O colega abre um livro, a Biblia, por acaso dá com esta passagem: “Bendito seja o senhor Deus meu, que adestra as minhas mãos para a batalha e os meus dedos para a guerra”. — É terrível esta Bíblia, comenta o outro. E ambos saem.
Sem data MARCO AURÉLIO E SEUS IRMÃOS Bendito seja o senhor Deus meu, que adestra as minhas mãos para a batalha e os meus dedos para a guerra. Salmo 141 PRIMEIRA PARTE Tito, fora de seus hábitos, despertara cedo. A tepidez e a beleza da manhã tinham como que atravessado as paredes da velha casa, as fortes portas da janela, fazendo-se sentir no interior do quarto, completamente fechado, somente iluminado pela claridade vaga que se coava pelos óculos das janelas. O velho preto não demorara em trazer o café. Há quinze anos que ele o fazia, com a mesma regularidade e com aquela larga e doce simpatia, que só se encontra nessas almas selvagens dos velhos negros, onde o cativeiro paradoxalmente depositou amor e bondade. Enquanto o café esfriava na mesa de cabeceira, Marco Aurélio pôs-se a remontar o destino daquele pobre homem, que o servia e o amava desde quase o nascer. Viu-o criança, muito negro, retinto, feio, entre os braços da mãe na cubata natal, crescendo ao forte sol da África, aquele sol que fecunda e que mata, para onde se alçam as altas palmeiras num ardor de paixão insuperável. Viu-o, depois, crescido, aos sete anos, já tangado, aprendendo a usar as armas da tribo e ensaiando-se nas culturas elementares da sua rudimentar agricultura. Depois, e em seguida, eram as festas, aquelas danças em que o apelo à divindade se faz com esboços de representações de atos amorosos, presididas por aqueles fantásticos feiticeiros. Um dia... Como foi? Quem o saberia? Um encontro, um ataque às cubatas, lá vinha ele, infante ainda, ao sol forte do triste continente, entre um rebanho de irmãos, jungiam aos dois, da corrente, carregando volumes, a descer até o negreiro que os trouxesse às plantações da América. E desde oito anos até hoje, durante mais de cinqüenta. ele tinha trabalhado de sol a sol; e agora, agora que nem talvez uma década lhe restava de vida, que consolo tinha ele? Filhos? Mulher? Fortuna? Terra? Sete palmos onde enterrasse aquela sua carne, pois o seu sangue há muito que a ensopava. Nada! E ele então começou a perguntar-se por que estranhas leis aquela humilde vida tivera que atravessar léguas e léguas, desertos e oceanos, para vir acabar aqui tão tristemente, depois de encher um semi-século de trabalho. Havia mesmo leis que se servissem da cupidez e da perversidade humana para tal fazer, ou era o acaso, só o acaso? E ele não soube responder e fatigou-se de pensar. Ergueu-se, abriu a janela, olhou em torno a p isagem. Os cajueiros estavam em flor e o bambual cerrado só a deixava uma fresta para ver o mar e a cidade lá embaixo, surgindo das águas, com o seu casario tumultuário a subir pelos morros, que começam a branquear à luz já firme da manhã. Um sino tocou. Era o sino da velha igreja conventual, onde se instalara o asilo. Ele lembrou-se, então, do seu serviço, aquele obscuro serviço de escriturário, sempre doloroso, sempre amargo, sempre humilhado, mais que isso; ali, entre dois médicos, não sei quantos internos, todos doutores e senhorias, mais amargo e mais doloroso se tornava. Lembrava-se bem do seu curso perdido, das suas esperanças de posição e consideração, há dez anos passados, quando um dia voltava com os preparatórios feitos, para a casa e a alegria que causara ao pai. Ele se pôs a recordar o curso, os processos de aprovação, a venalidade dos lentes, a sua covardia diante do poder e da força, e pensou consigo que essa nobreza universitária, de exames e diplomas, era duas vezes mais cínica e mais rapace que e milhares de vezes maior que a nobreza de dinheiro. Em uma, havia emprego, trabalho, imaginação para as especulações e para os ganhos. Na outra, havia bravura, generosidade, energia; mas na nossa, nada, nem o saber, sobre o qual ela se faz repousar, e poucas vezes a inteligência, de que ela se arroga o monopólio. Lembrava-se do dia em que se apresentara para tomar posse do lugar: — Marco Aurélio! disse-lhe um interno no veículo. O senhor ainda vive? E o idiota contraía os lábios, contente com o espírito que fizera. E a galeria do pessoal superior começou a passar-lhe pelos olhos. Primeiro, o ecônomo, um homem cauteloso, tímido, vivendo à parte, filosoficamente, cheio de respeitos por tudo e por todos; era o homem mais firme, de mais caráter de todos; era o único em quem não se podia apontar uma infração no regulamento. Ordenava-lhe a lei que morasse próximo, ele morava; que assistisse as refeições dos asilados, ele assistia. Depois, o diretor, um velho formado em medicina, espécie curiosa de médico, que se amedrontava com a perspectiva de passar uma receita. Depois, o médico, os dois internos, estes pedantes, enfumaçados de sábios etc... 1905 1 de janeiro. Hoje, dia de Ano Bom (10 de janeiro de 1905) levantei-me como habitualmente às sete e meia para as oito horas. Fiz a única ablução do meu asseio, tomei café, fumei um cigarro e li os jornais. Acabando de lê-los, arrumei as paredes do meu quarto. Preguei aqui, ali, alguns retratos e figuras, e ele tomou um aspecto mais garrido. Há, de mistura com caricaturas do Rire e do Simplicissimus, retratos de artistas e generais. Não faz mal; nesse aspecto baralhado ele terá o aspecto da vida ou da letra “A” do dicionário biográfico, que traz Alexandre, herói de alto coturno, e um Antônio qualquer, célebre por ter inventado certa pomada. Como a casa me aborrecesse, não unicamente pela tristonha moléstia de meu pai, mas por ela em si, com quem nunca me acomodei, resolvi dar uma volta. Demorando-se o trem na estação de Todos os Santos, fui toma-lo na de Engenho de Dentro. O trem, banal como sempre; idiota e mascavado. Quase ao chegar ao Largo da Carioca, assisti uma cena de que já me ia desabituando. Três soldados do Exército em grande gala forçavam os vendedores ambulantes a lhes darem a sua fazenda gratuitamente. A um qualquer passante, isso, tachado de roubo, valeria um passeio até à estação policial; mas a soldados, não; eles se foram na mais santa das pazes. É coerente isso: o papel dos exércitos, desde os mais extraordinários de Condé e Frederico, até às nossas guardas nacionais da América do Sul, é esse mesmo. Eles três individualmente fizeram o que, talvez mais tarde, hão de fazer sob o pendão auriverde, em meu nome e no dos demais pacíficos homens desta terra. Muni-me de uma ida e volta para o Leme e no elétrico voei linhas afora até o meu destino. A viagem até ao Largo do Machado foi banal e corriqueira. No banco em frente a mim iam dois burgueses, desses respeitáveis, passados dos cinqüenta e ainda em santa paz conjugal. O homem era dos vulgares em sua classe. A mulher tinha características fisionômicas. Uma penugem rala crescia-lhe dos cabelos até o pescoço, fazendo supor, que, como um debrum simétrico, fosse pelas pernas, o busto, até aos pés. A cintura quase lhe ficava no pescoço e os seios empinados dentro de uma blusa cor-de-rosa de seda acabavam o seu todo grotesco. Na Rua Marquês de Abrantes, embarcam a Odete C. P. e outras. Nada de notável, a não ser a vulgaridade. Pleno Leme. O dia é meigo. O Sol, ora espreitando através de nuvens, ora todo aberto, não caustica. Nos dois abarracamentos cheios de gente, espoucam garrafas de cerveja que se abrem. A praia se estende graduada, harmônica, desde o monte do Leme à igrejinha. A ponta recurva desta é como a cauda de um peixe que se dobrasse num “samburá”. Por detrás, a lombada de morros pintalga de verde-esmeralda, verde-garrafa, verde-mar, variando cambiantes aqui, ali, consoante as dobras do terreno e a incidência da luz, pintalga o azulado opalino do dia. O mar muge suavemente. As ondas verde-claro rebentam antes da praia em franjas de espuma. Pelo ar havia meiguice, e blandícias tinha o vento a sussurrar. A gente que há é a vulgar dos piqueniques. Gente simplória que, enclausurada em casa uma semana, um mês, um ano, quem sabe, resfolegava naquele dia ao ar livre. Havia um deputado e família, o que não diminui nem altera a minha observação. No bonde, na altura da Rua dos Voluntários, tomaram-no dois rapazes e uma rapariga. A rapariga sentou-se ao meu lado. Como era de meu dever, comecei a observar-lhe discretamente. Ela não se aborreceu e observou-me. Estendeu a mão, mirei-lhe a mão com amor e firmeza. Ela escondia. Eu fingia olhar para outro lado, ela estendia, eu olhava. E assim fomos até ao Leme. Era uma espécie de galanteio que eu tinha inventado e que agradara a italiana (falava em patoá italiota com os rapazes). Já nas curvas, ela avançava mais do que eu. Dava-me encontrões. Preparei o flirt para o botequim, mas, aí chegando, o cioso irmão, percebendo, levou-a para longe. A minha covardia não permitiu que a seguisse, nem que a esperasse, de volta. Com isso, eu adquiri uma certeza; embora mulato, os meus olhares podem interessar as damas e desconfiar os irmãos delas. Fui ao bastião do Leme. Na concavidade que há ali, fizeram um bastião poligonal a terminar nas duas asas da curva. Um velho canhão de ferro com as quinas repousa indolentemente num dos ângulos: é como um funcionário aposentado. Na volta, o Teixeira Mendes veio. Benzi-me. Saía do São João Batista. Adiante conversava com umas senhoras elegantemente vestidas (garanto, é verdade). Falavam de coisas familiares. Na praia de Botafogo, a senhora mais velha, olhando as obras, disse: — Vamos ter um Rio de Janeiro bonito! — Parece... A questão é que as cabeças não andam direito, disse o apóstolo. O apóstolo fala como se falou há vinte mil anos. Nada novo. Cediço. Puh! Pagou duas vezes a passagem (do cemitério ao Largo do Machado e do Largo à Glória), em nenhuma delas recebeu coupons. Singular! Não atino porque. Talvez seja um modo especial de ser altruísta: permitindo que o condutor furte. Puro anarquismo!
2 de janeiro. Hoje, dia 2 de janeiro. Chegando à secretaria, fui cumprimentar o ministro pela entrada do ano novo. A coisa foi a de sempre. O barão, o diretor, disse algumas palavras em voz baixa, e o Argolo também respondeu assim. Depois apertou-nos a mão em mão e dessa vez a alguns dirigiu umas palavras. A mim ele chegou-se e, com aquela fisionomia sem olhar e com a voz incolor, indagou: — Você é o novato? — Sim, senhor. Sou o mais moço. — O mais moço, frisou ele. — O mais moço aqui na secretaria. A coisa não tinha grande graça, mas todos riram-se, incluso o ministro. Até ao meio-dia, ele recebeu cumprimentos. Havia alguma frieza; entretanto, os aspectos eram os mesmos de quando ele recebeu, há um mês, cumprimentos pela vitória do governo, cujos detalhes já tomei nota. O Matias continua na sua faina de cavar jornais. Hoje, em falta de outro, procurou o Diário Oficial. Dos jornais, de notável só estes versos, sobremodo estúpidos: I És mais formosa do que um crisântemo, Mulher gentil, aurora de meus sonhos. Só de pensar em desengano, tremo, Como em frente aos fantasmas mais medonhos. II Tens um nome tão doce como as flores, que em lembrá-lo somente me extasio. E sinto se esvaírem minhas dores, Qual águas cristalinas dalgum rio. III Teu corpo tem da forma a divindade E se desenha por entre as brancas vestes, Onde se reúne à simplicidade A graça que possuis e o revestes. Rio, 27-12-1904. Com freqüência, os jornais traziam casos desses. As vezes era uma pretinha, outras era já uma rapariga. Davam-se em casas da pequena burguesia, dessa que se quer fazer de grande, etc. etc. É um estudo que me tenta o do serviço doméstico entre nós. Em geral, as pessoas se queixam dos criados e eu sempre objetei que os criados têm razão contra os patrões e os patrões contra os criados. “Três anos de martírios. Surras diárias. Há três anos, mais ou menos, chegou a esta capital, vinda do interior de um dos estados vizinhos, a menor Claudomira, de 20 anos de idade, indo para a casa de uma família residente à Rua Nora no 2-D. Durante algum tempo foi essa moça tratada relativamente bem, pois, no desempenho de suas ocupações, que era a de criada, se houve com geral agrado de todos. Não gozou, entretanto, essa infeliz da paz que, na sua obscura existência, perenemente fazia vicejar a rósea claridade dos seus sonhos de moça. A mais horrorosa situação, com todo o cortejo de ignomínias, lhe criou o atroz destino. Não lhe valeu o esforço sobre-humano que empregava para libertar-se da pesada tarefa que lhe era dada nos vários serviços da casa, onde, sem causa que tal justifique, lhe aplicam o mais terrível castigo: o açoite! Tudo tem suportado essa desgraçada. Crente na misericórdia divina, dominava-lhe a esperança de ver aplacada a fúria desumana dos seus algozes. Tudo em vão! Impedida de sair à rua, desde que aqui chegou, vive essa desventurada sob o jugo dos seus verdugos. De tudo a vizinhança sabe. Desde as primeiras horas da manhã, já se ouve, como fúnebre matina, as lúgubres pancadas do açoite! E essa infeliz não grita: lamentos abafados, soluços de dor, essa macabra confusão com a voz do algoz, enchem de pavor a vizinhança. É chegado o momento da redenção que terá lugar com a intervenção da polícia d 15a a circunscrição.