Part 13
Nesse ano, o aniversário natalício do padrinho de Clara prometia ter um brilho desusado. Caindo em domingo, era obrigatório que a festa começasse sábado e durasse se prolongando, até segunda-feira de manhã. Ao contrário, porém, de toda a expectativa, o sábado amanhecera chovendo. O céu enfarruscado era atravessado por grossas nuvens a galopar de um quadrante para outro. De quando em quando, uma forte pancada de chuva desabava, interrompendo qualquer esperança de melhor dia. dona Adélia não cessava de se lastimar: — Oh! os doces! Meu Deus! Tanta coisa... e não vem ninguém! Que diabo! E antes do marido sair, recomendou muito que fosse buscar Clara. O Manuel estava adoentado e com certeza ela não tinha com quem vir, dizia dona Adélia. — Demais, acrescentava, você sabe, Carlos, não temos ninguém pro piano. O Zezé toca duas contradanças e mais nada. Sem Clara, filho, não temos festa. Olha bem. Vai até lá. O Silva, cheio ainda das recomendações da mulher, entrou pelas quatro horas em casa do Manuel dos Anjos. O dia continuava chuvoso, e, deixando o guarda-chuva a escorrer na modesta sala de visitas da casa, ele foi entrando para a sala próxima, onde o contínuo repousava numa cadeira de balanço. Vendo o Silva, o velho mulato levantou-se a custo e estendeu-lhe a mão para cumprimentar. O antigo amanuense dirigiu-lhe com amabilidade pequenas perguntas de boa educação. — Não é nada, compadre. Umas dores... O reumatismo que não me deixa. — Tens te tratado, Manduca? — Sim, senhor. Fui aí a um médico, receitou-me umas fermentações, mas, com essa mudança de tempo, piorei. Não há de ser nada com ajuda de Deus. — Assim espero. Você se deve agasalhar melhor, Manuel. Olha, estás sem meias e quase de costas para o vento. — Não é o que te digo, Manuel? interrompeu dona Florência. Há que tempo, compadre, estou dizendo ao Manuel: calça as meias, muda essa cadeira de lugar, e ele teima em ficar; depois... — Qual o que! Aqui não há vento nenhum, objetava o contínuo. Convencido, afinal, de que havia corrente de ar no lugar, o contínuo mudou a cadeira para um canto da sala mais abrigado. A Babá tinha começado a pôr a mesa e, sendo convidado para jantar, o Silva respondeu: — Não, obrigado. Eu vinha buscar Clarinha. Você estava doente, dirigiu-se ao Manuel, e por não ter ela com quem ir, talvez não fosse lá em casa, o que entristeceria a mulher e Olímpia. — Mas, compadre, objetou dona Florência, com esse tempo... e Manuel assim... — Que diabo! Florência, eu não estou à morte. Deixe a rapariga ir... disse agastado o contínuo. — Não é isso que quero dizer. O compadre bem me compreende. Pode-se precisar qualquer coisa, de noite. Babá está velha... — Qual nada! Deixa-te disso, Florência. Clara, disse o contínuo com império, vai te vestir para ir com teu padrinho. O Carlos da Silva que até ali se mantivera calado, disse afinal: — Eu não quero obrigar. Mas se a comadre não acha bom, ela não vai; entretanto... — Não... Não... Porque não há de ir? Não estou à morte. Anda Clara. Dentro de meia hora, Clara voltava vestida e, quando ela se despediu do velho pai, ele lhe disse: — Diverte-te. Diverte-te, minha filha, enquanto sou vivo. O dia continuava chuvoso. Grandes nuvens negras esgarçavam-se aqui, contraíam-se ali e por vezes baixavam tanto, que pareciam roçar na cobertura do veículo em que iam a afilhada e o padrinho. Abriam uma fresta entre elas, em outras, e um pedaço de sol rompia bruscamente aquela espessura macia. A luz, então, respigava pelas encostas, e fracas manchas de tons claros mosqueavam o verde escuro que as atapetava. Depois, continuavam a agitar-se. Acumulavam-se nas dobras das montanhas e vinham de vôo, como grandes aves agoureiras, roçar de novo o carro de ferro. Clara pela primeira vez supôs grave a moléstia do pai. Que seria? Tantas dores, e ainda a noite passada gemera tanto! O padrinho virara-se e, olhando as bandas da Tijuca, prognosticou: — Amanhã não teremos chuva. Aposto até. Clara entrou em casa do Alves da Silva satisfeita e alegre, e recordando muito a recomendação do pai: — Diverte-te, minha filha, diverte-te enquanto sou vivo. II — Oh! como está lindo, madrinha! disse Clara ao chegar à janela da sala de jantar. Venha ver só...vem Olímpia. Olha como se vêem os Órgãos daqui, continuava a menina entusiasmada. — Deixa-te disso, Clara, vem tomar café e depois então te fartarás de ver. Anda. E as três à roda da mesa, sentadas, começaram a mastigar a refeição matinal. A sala estava clara, de uma luz azulada, penetrante e macia; e o ruído do pão entre os dentes era como um cantar de cigarras. Tendo acabada a refeição, todas as três se puseram na janela, olharam em roda; no começo, trocaram algumas palavras, mas depois ficaram minutos a fio caladas, recolhidas, a olhar diferentes pontas de horizonte. Tivera razão o Alves da Silva: amanhecera fazendo bom tempo, e mais do que bom tempo surgira um belo dia. Pelo céu não havia mais nem uma nuvem. Era límpida, tranqüila, azul, a abóbada que se engastava nas colunas verde-negras dos morros. Dava gosto olhar; a claridade jorrava; não havia pelo céu alto um canto escuro; e o olhar, passeando vagaroso, detinha-se tristonho ante aquela massa de montanhas. Ela manchava melancolicamente o esplendor da manhã e espalhava pelo ambiente uma vaga sombra. Dir-se-ia que, apesar de límpido, o céu ainda tinha nuvens e que essas nuvens escondidas debuxavam nas coisas uma fugace tristeza, prestes a fugir a um súbito arrepio de contentamento. Na casa do antigo amanuense se ergueram cedo, e a cantante beleza do dia estimulou-lhes a espera dos convidados. Esperavam com ânsia e i paciência. Pelas duas horas, foram chegando m aos poucos. — Quase não vínhamos, dizia dona Eugênia Gomensoro, ao chegar, acompanhada dos filhos. Imagine, dona Adélia, que o Zezé, o pequenino, tem passado mal... — Que é que ele tem? — Nada. Uma pontinha de febre, que está teimosa. Coisa dos dentes. Demais, essa sua moradia, aqui, tão longe, e com aquele tempo de ontem. Depois, o Chico anda tão atarefado. É chamado pr’aqui; é chamado pr’ali. Inda se pagassem! Não pagam, todos pensam que o médico vive de “brisas”; que não tem mulher e filhos. Um inferno! O Chico, de quem dona Eugênia falava, era seu marido, doutor Francisco Gomensoro, médico clínico em São Cristóvão, que pela monotonia do seu receituário parecia ter descoberto a panacéia universal. No campo de sua visão clínica, só havia uma moléstia; para essa moléstia uma única medicação: um purgante e sulfato de quinina. Era invariável. Um doente tremia de sezões, lá ia o especifico; escarrava sangue, o mesmo. Gozava no entanto de boa reputação. Lhano, afável, todos estimavam: chamavam-no. Às vezes, pagavam, em geral, não. Ele não se incomodava. Continuava a tratar do mesmo jeito e com a mesma solicitude. Receitava pelos bondes e da ponta de um banco inquiria, na janela, do estado de um cliente: — Vai melhor? — Sim, senhor doutor. — Repita. E, o bonde afastando-se, ele se voltava para o companheiro mais próximo, continuando a discutir a queda do gabinete. Não viera com sua esposa, mas pelas quatro horas, quando a casa estava cheia, achava-se lá, na varanda, a conversar com o primeiro oficial Alves da Silva, seu antigo colega de colégio, e alguns outros convidados. O Alves da Silva centralizava a palestra. Sentado em uma cadeira de vime, tinha ao seu lado o doutor Gomensoro, junto ficava-lhe o “seu” Monteiro, um velho português, calvo e gordo, baixo e sangüíneo, em quem um rosto cheio sempre barbeado dava um esquisito realce aos bigodes brancos, cingindo uns lábios polpudos e jovens, O Senhor Monteiro era homem de fortuna, ganha muito, muito honestamente, em empreitadas de estradas de ferro. No interior do Império, onde vivera os primeiros anos, a construção de uma via dessas viera supreende-lo com uma pequena taverna. Em falta de lugar melhor, o engenheiro encarregado da construção tomava refeições em suas casas e animara-o a aceitar a empreitada de um trecho. Ganhara dinheiro na tentativa, experimentara uma segunda. Fora feliz, e daí por diante a fortuna cresceu-lhe com segurança. Há oito anos enviuvara, e os seus filhos educavam-se na Europa, em companhia de parentes de sua mulher. Alves da Silva animava essa amizade, mais do que a do doutor Alfredinho, com quem também conversava, bacharel novel e filho do visconde da Meia Ponte, senador por Goiás. Doutor Alfredo estava em pé, encostado ao gradil da varanda, tendo ao lado o alferes Boaventura, um conhecimento do Feliciano, sobrinho do antigo amanuense, que também fazia parte da sociedade. Boaventura, Boaventura Iperoig da Silva, alferes-aluno, era um rapaz de estatura meã, que roçava então pelos vinte e três anos. Com as bochechas fortemente salientes, o seu rosto redondo e acobreado repousava, atormentado, sobre um pescoço demasiado delgado para o volume da cabeça, que era grande e coberta de grossos cabelos, lisos e muito negros. Acabava na Escola Militar da Praia Vermelha o curso de engenharia militar, gozando nesse estabelecimento de uma fama de geômetra que o próprio Newton invejaria. Se sobre o Boaventura, de qualquer seu colega se fosse ouvir a opinião, seria essa só: — Boaventura! É habilíssimo. Tem talento, sabe muito bem matemática. O curso todo é só distinção e quem tira distinções no templo da Ciência é porque é coisa como diabo! De fato, Boaventura tinha um curso brilhantemente distinto. Seus atos anuais congregavam uma larga assistência. — Hoje, era do “zunzum” dos corredores, Boaventura faz exame — você não vai assistir? A princípio, isso acanhou-o; com a continuação, porém, ele se foi habituando e, como tivesse grandes sonhos de mando, aproveitou para ensaiar efeitos oratórios. Preparava-se para as truculentas sessões das assembléias políticas. Desde muito que abraçara o positivismo científico e filosófico, mas, há alguns tempos atrás, convertera-se à religião da humanidade. Baniu dos seus hábitos o café, o fumo e o álcool. para o qual, justiça lhe seja feita, fora sempre remisso. Transformara-se em quase positivista ortodoxo e a toda a gente se lastimava de ainda não se poder considerar como tal. Com estar já demasiadamente avançado na “doutrina regenadora”, Boaventura, entretanto, não lhe sentia pesar na consciência a sua posição de cientista oficial e, sobretudo, a de militar. Achara (ele ou outro iluminado) pequenos acomodamentos com as “suratas” da Politique; e o apóstolo da extinção de todas as academias — os entraves à total regeneração — continuou a fazer placidamente os seus atos escolares. No exame de Mecânica, já completamente assimilado ao “regímen definitivo”, como incidentemente um examinador se referisse ao teorema de Sturm, raivoso e solene, Boaventura contestou desabridamente — O teorema é de Fourier, porque, na série dos grandes servidores da humanidade, Fourier fica muito mais alto que Sturm, que foi um puro algebrista. O velho docente olhou-o e sorriu com bonomia; e, aprovado grau dez, distinção, pela escola correu, para sua maior glória, que “espichara” o lente F. Vogava assim o distinto Iperoig da Silva envolvido na névoa acariciadora que dá a fama; e ao seu orgulho de oficial (era alferes-aluno), de bom grado juntou o de cientista e filósofo. E a r de ver como ele se referia aos senadores, ministros, à gente em evidência enfim. Uns literatos! Metafísicos! Ignorantes! Literato era na sua boca uma extraordinária infâmia. O que de injurioso havia nesse vocábulo empregado por ele, sobrevalia aos mais soezes que um carroceiro da Saúde empregasse. Não é que Boaventura detestasse a literatura; muito ao contrário, prezava-a, distinguindo somente a alta e “a que anda por aí”. E tanto Boaventura prezava a alta literatura é que, às escondidas, sacrificava as musas. Lia o Guerra Junqueiro e depois pingava em quatorze versos a sua profundeza sabichona. A lei dos três estados merecera-lhe nove sonetos; e a Revolução Francesa, comemorada, data à data, tipo a tipo, uma profusão deles. Os episódios da história pátria estimulavam a sua musa. Tiradentes provocava-lhe um poema. Certa vez, fundaram na escola uma revista e Boaventura, convidado a colaborar, aparecera pelas páginas dela, assinando um soneto “Augusto Comte.” A obra foi lida e relida, e um verso, creio que o último — mostrando aos homens o dever do justo — foi citado, gabado, e viveu durante muito tempo na memória dos seus condiscípulos. Como lhe parecesse que a sua fama exigia um trabalho de ciência ou filosofia, no quinto número, o Boaventura publicou — “A classificação das ciências Estes dois trabalhos muito ajudaram a cimentar a alta autoridade científica de que ele veio a gozar. Boaventura Iperoig da Silva foi sempre, como dessa vez, coerente com a sua teoria — prezou a alta literatura: — Dante, Petrarca, Shakespeare... esses, sim! como ele dizia. Com todos esses predicados, Boaventura tinha uma conversa desagradável. O seu espírito rígido falava por dogmas; e não possuía a flexibilidade precisa para borboletear pelos pequenos assuntos. Em conversa sobre coisas altas, se era fortemente contraditado, fraqueava; e pouco e pouco se acastelava em breves axiomas invariavelmente os mesmos. Seu espírito não amava à análise. Discutindo, do mais insignificante argumento, retrucava com uma suntuosa generalização sabida e decorada. Às vezes, no palestrar, se enfurecia; e por seus olhos perpassavam os mesmos relâmpagos que fuzilaram nos dos chefes árabes, ao tempo da expansão islâmica. Utopista, ele tinha um grande descontentamento da realidade, a se manifestar num constante azedume, agressivo e insolente para tudo e para todos. Tudo o irritava. O que, a qualquer de nos, pareceria coisa de nonada, aos seus olhos ganhava a proporção de um sacrilégio. Bastava a fórmula de um decreto, o comparecimento de um governante a uma festa anódina, uma condecoração conferida ou recebida. Azedo, quase sempre, e hostil, seu gênio lhe valera múltiplas desavenças entre os colegas; e, se não fora o seu prestígio de inteligente e estudioso, teria tido péssimas conseqüências. Sua irritabilidade era uma fúria a lhe perseguir, turvando-lhe os melhores momentos da vida; entretanto, na casa do Alves da Silva, se transformava um tanto. Palestrando polidamente, quase que se não adivinhava nele o feroz dilatador da fé positivista na Praia Vermelha. A palestra, que, na varanda, até ali se mantivera fria, começava a se animar. O velho português, que, com seus hábitos de viúvo vagabundo, bisbilhotava a vida de toda a gente, preparava-se para contar um caso escabroso, acontecido há dias. A criada veio interromper-lhes oferecendo vermute. O velho Monteiro já havia citado os nomes e a parentela das pessoas em jogo, quando de novo foi interrompido por um bando de moças, entre as quais ia Clara. Ele lançou um olhar furtivo sobre o grupo e, quando afastado, recomeçou. Relatou-o em poucas palavras. Uma moça e um rapaz, casados de pouco, se separaram, havia dias, com grande escândalo, trazendo a moça uma moléstia horripilante. Entre risotas, comentou-se compadecidamente o caso. Boaventura fechou o rosto e nada disse. Fez exceção. O Alves da Silva aventou um remédio pra evitar no futuro casos idênticos. — O pai, dizia ele, ao se lhe pedir uma filha em casamento, deve pesquisar não só a limpeza da família de que procede o noivo, como também lhe incumbe descobrir os costumes íntimos do rapaz, os seus defeitos, etc. Só assim, só assim, repetiu, se evitariam desgraças dessa natureza. A opinião do Alves da Silva foi ouvida com acatamento, mas o doutor Alfredo aventurou-se a contradita-la: — Qual, Seu Silva. Isso era inútil, perfeitamente inútil. — Como inútil, doutor? Então, se... — Inútil, retrucou o bacharel. Inútil. A um noivo esperto seria fácil embair o pai; mesmo porque, ao pai, a menos que não fosse um profissional, faltaria a competência científica, legal, por assim dizer. Não acha, doutor Gomensoro? — Perfeitamente. Sou da sua opinião. — Então, não há remédio? perguntou o dono da casa. — Há. Como não há! Na legislação sobre os casamentos, pode-se estatuir que eles não se realizem, senão depois dos noivos apresentarem certidões comprobativas de que não estão afetados de moléstias transmissíveis. O doutor Alfredo falava devagar, pesando bem as palavras, a sua justeza e a propriedade delas. Parecia estar redigindo um artigo de lei; e, quando acabou de expor, disse com firmeza, sacudindo o cigarro na mão esquerda: — É o único remédio plausível, no meu fraco entender. Preguiçosamente o doutor Gomensoro apoiava-o com freqüentes: de acordo, de acordo; e logo que o legista acabou de falar, disse com indolência: — Eu já tinha pensado nisso. Recostou-se na cadeira em que estava sentado puxando uma forte fumaça. O Alferes Boaventura julgava a medida uma exorbitância do Estado, porquanto, afirmou ele, na época de transição em que estávamos, a sindicância, a haver uma, competia às famílias; e quando chegássemos ao regímen normal, em plena sociocracia — então sim! — a situação regular-se-ia perfeitamente com os “casamentos castos”. O auditório ficou surpreso e se entreolhou, prendendo uma gargalhada. Quiseram meter à bulha a “história” dos casamentos castos, mas lembraram-se logo da fúria com que o alferes recebera a troça, feita, há tempos atrás, numa das suas idéias. Afinal o doutor Gomensoro indagou: — Admite, então, o senhor que, enquanto não vem essa época normal, o governo deve consentir nesse contínuo apodrecimento da raça? — Admito, pois não. — O senhor admite isso? inquiriu admirado o velho empreiteiro. — O papel do Estado moderno deve unicamente consistir na manutenção da ordem interna, não intervindo na esfera espiritual de forma alguma, quer seja religiosa, científica, ou mesmo artística, disse Boaventura tal qual como se recitasse um trecho de catecismo. — Dir-me-á o senhor como ele deve manter essa ordem, se?... ia interrogando o Alves da Silva. — Muito simplesmente, cortou-lhe a palavra o Boaventura. Mantendo plenamente a propriedade e... — Se assim é, observou o bacharel, o tenente chega à conclusão que a escravatura deve ser mantida. Mantendo plenamente a propriedade, repisou lentamente o doutor Alfredinho, como querendo fazer melhor compreender o seu raciocínio. — É um sofisma. A escravatura é nos tempos modernos imoral e criminosa. Restabelecida na América, foi um retrocesso na História. A influência do catolicismo, benéfica quando a fez desaparecer da Europa, foi criminosa apoiando-a na América. Portanto, não há fundamento na sua objetação. — Como não, tenente? Bem examinando, nas suas origens, nos seus primórdios, qualquer espécie de propriedade é imoral e criminosa, retrucou com segurança o bacharel novato. — Ora! Ora! meu caro, exclamou o Boaventura. Isso é divagação metafísica muito estimada dos pedantocratas acadêmicos. Não forme opinião por eles. A secura de suas almas, os baixos pendores que os movem, tudo isso não permite que eles tenham um verdadeiro pensamento social, humano e altruístico, pois que, como já resumiu numa admirável máxima um moralista moderno, “os grandes pensamentos vêm do coração”. Estas palavras foram ditas com calor, cheias. A fisionomia do alferes, ao dizer as últimas, tinha uma estranha expressão de beatitude. Os vermutes, nos seus copos, sobre uma cadeira, pacientemente esperavam lábios que os bebessem. O doutor Gomensoro foi o primeiro a servir-se, os outros imitaram-no, exceto o Boaventura, que não bebia O sobrinho do Alves da Silva, que até ali nada dissera, animou-se a entrar na conversa, perguntando: — Você é abolicionista, Boaventura? — Não sou abolicionista nem escravocrata, como não sou nem a favor nem contra os eclipses. Os acontecimentos sociais regidos como quaisquer outros por leis invariáveis, desvendados pelo maior dos filósofos de sempre, realizam-se independentemente da nossa vontade. É em vão querer ou não querer, respondeu o alferes. — Eu, cá para mim, sempre quero alguma coisa, atreveu-se a motejar o antigo amanuense. Não quero a abolição, pois trará desastradas conseqüências econômicas. Deixei os liberais... — Não se preocupe com liberais e conservadores, interrompeu com fogo o alferes. Quer uns, quer os outros, são incapazes de nos dirigir. Ignorando por completo as leis que regem a atividade do homem no planeta, são perfeitamente inábeis para presidir a passagem do regime metafísico para o positivo, porquanto, segundo afirma uma lei de filosofia primeira, todo intermediário deve se subordinar aos extremos, cuja ligação ele opera. Boaventura falara extraordinariamente animado. Excepcionalmente se conduzira polidamente na conversa. Mais ou menos, os convidados do Alves da Silva conheciam o gênio do alferes; e, sabendo a consideração em que o tinha o dono da casa, evitavam agastá-lo; e muito a medo animavam-se a discutir-lhe as idéias. Ele tomava a fraqueza da réplica como uma prova de inferioridade mental dos outros, chegando a adivinhar em alguns uma ponta de conversão à sua magnífica doutrina. O alferes tinha também a mania da catequese, e não é de admirar que a tivesse, quando sem número eram os incrédulos. Já um tanto amável, o Boaventura preparava-se para continuar, quando a presença de uma pessoa no portão cortou-lhe as primeiras palavras: — Que é comadre? disse o Alves da Silva, levantando-se. — O Manuel tem passado mal; arqueja; pergunta por Clara. E eu vinha pedir licença ao senhor pra levá-la. O antigo amanuense coçou a cabeça e por fim, com alguma rudeza, disse: — Licença! Pois é sua filha — leve-a. — O compadre há de me desculpar, mas o Manuel pede... chora, fez dona Florência com humildade. — Deixe estar, minha senhora, interrompeu o doutor Gomensoro, amanhã irei vê-lo. Há de ser uma forma de impaludismo e mais nada. Clara saiu em meio de uma tristeza geral. Levava metade da festa, e com ela o piano também parecia ir. Anunciado o jantar, o Carlos Alves da Silva pôs-se a carregar cadeiras para a sala de jantar; e, como uma se atravancasse no corredor e resistisse os seus arrancos, o despeito contido rompeu-lhe: — É isso! Essa gentinha pilha-se assim, assim, julga-se gente... Tem uns dengues, uns derriços... A mesa esperava-o. Contados antes cautelosamente, os convivas eram quatorze. A sopa fumegava em frente ao anfitrião, na cabeceira. O porco, o assado, o peru, atravancavam a mesa com o arroz de forno, a salada etc. etc. Discutiu-se abolição; e a república também. Boaventura achava a república fatal, porquanto, dizia ele, no Brasil não havia tradições, nem nobreza, e por isso... — Não há nobreza! contestou o Alves da Silva. Há, sim senhor. Está aqui um que é. Sou nobre; por parte de minha mãe, descendo dos marqueses de La Rochart, fidalgos franceses. Há, sim senhor! Como não? O militar evitou a questão e, pela sobremesa, em seguida ao bacharel Alfredo, que brindara ao dono da casa, saudou o belo sexo — a providência moral do homem — na frase do grande filósofo Augusto Comte. Pouco depois de findo o jantar, o médico caridoso despediu-se, saindo em companhia da mulher, as filhas e a ama. A viagem foi feita no mais absoluto silêncio. A negrinha, a cochilar, levava ao colo o pequeno Zezé a dormir. O Oscar, o mais velho, de dez anos, sentado, dormia recostado nos joelhos da mamã. O doutor vinha absorto, cogitante. Olhava fixamente uma fresta do teto. Sonhava... Cismava. De onde em onde, aspirava fortemente o cigarro; e, entre duas fumaças, sua fisionomia vincava-se, contraía-se rudemente. Sua mulher olhava-o de esguelha, com a fisionomia aberta de satisfação. Seguia dobra a dobra as contorsões do seu rosto; parecia querer entrar na sua cogitação, no alto pensamento que o devorava. Logo, ao chegar ao lar, mesmo antes de despir-se, o doutor correu à biblioteca, tirou um volume, consultou-o nervosamente, em seguida outros, e depois veio para sua mulher, exclamando: — Filha! Que desgraça, meu Deus! Que desgraça! Tantos anos perdidos em vão! Soluçando, enchia o quarto com as suas longas passadas. Passado o espanto, sua mulher, enternecida, perguntou com doçura: — Que é, Chico? Que é que você tem? Diga, que é... Gomensoro nada dizia. Mastigava monossílabos. Deixou-se f car numa cadeira e, com as i mãos na cabeça, curvara-se sobre uma pequena mesa. Sua mulher insistia; afinal, arrancou a causa do seu incômodo: — É a língua, filha! É a língua! — Mas que língua é essa? — A língua em que hei de escrever a minha obra. — Ué! Pois não é português? — Em português, sim; eu não sei português... — Como? Você não fala, já não escreveu alguma coisa, como é, então? — Falo, escrevo, Genica. Mas a língua que falo não é português, não é nada. É um vazadouro de imundícies, cheio de galicismos, anglicanismos, africanismos, indianismos, cacófatons, cacotenias, erros de regência, o diabo, filha. A obra imperecível deve ser escrita no português de Barros, de Vieira. Como há de ser? Que trabalho! disse o médico com angústia. Sua m lher, com quinze anos de casamento, já estava habituada àquelas deliqüescências. u Elas aumentavam-lhe o orgulho que tinha do marido. Casada pouco depois de sair do colégio das irmãs, Genica só conhecera dois sábios: o capelão do colégio, um padre francês, sabido nos manuais do bacharelato; e seu marido. Pelos seus sete anos, sua mãe fugira de casa e com um caixeiro janota do pai, um probo negociante português da Rua da Quitanda. Seu pai, que se casara por amor, recebeu a injúria com uma sobranceria superior. Meteu a filha no colégio da Imaculada. Fugiu do mundo. Fez-se provedor, andador, benfeitor de várias ordens terceiras, e, quando sua mulher lhe escreveu dizendo-se na miséria, enviou-lhe uma pensão mensal até que ela se veio a findar de tuberculose no Porto. Aos domingos, invariavelmente, ele ia buscar a filha para passeios. Andavam pelos arrabaldes silenciosos, cada um entregue aos seus pensamentos; jantavam juntos em hotel, e pela tardinha entregava a menina à irmã superiora. Durante os oito dias, Genica vivia no colégio a decorar frases do manual de conversação francesa e a fazer trabalhos vistosos de bordado e desenho. Aos bocados, o temperamento da menina se firmou frio, cauteloso, mas doce e resignado. E, quando ao sair do colégio, seu pai a aproximou do Francisco Gomensoro, ainda quintanista, ela ingenuamente se tomou de amores pelo rapaz com quem veio o casar. Dentro de um ano, após o consórcio, seu pai morrera. O velho negociante conhecera o pai de Gomensoro, de quem fora amigo. Era ele um espanhol que, tendo fugido de Espanha por ocasião de um pronunciamiento abortado, refugiara-se em Portugal. Casado aí, veio para o Rio como guarda-livros de uma casa de objetos cirúrgicos. As lojas ficavam perto e os dois, à tarde, com mais outro companheiro, jogavam o solo pachorrentamente. Em poucos anos, o revolucionário espanhol tornara-se proprietário da loja, e o filho que aqui nascera-lhe, tratando diariamente com médicos e estudantes, tomou-se de gosto pela arte deles. O velho Gomensoro morreu logo após o menino encetar os preparatórios; e a viúva ficou com a casa, dirigindo a educação do órfão, até o terceiro ano, quando morreu. O probo negociante português, pai de Eugênia, liquidara a casa na melhor forma, tutelou o jovem Francisco com munificência; e, ao morrer, sentindo-os casados e felizes, foi leve e sorridente apresentar-se a Deus. Fizera uma felicidade e a regara com algumas dezenas de contos. Terminadas as formalidades do luto, o casal partiu para o velho mundo. O doutor freqüentou clínicas, notabilidades, hospitais, e a dona Eugênia viu as cidades pelas portinholas da carruagem e das janelas dos hotéis em que se hospedara. Em vão seu marido chamava-lhe a atenção para as maravilhas. Ela não queria. Tinha medo, acanhava-se. Tanta gente, todos a olhavam; e impertinentemente pediu a volta. Estabelecendo-se de vez na cidade natal, Gomensoro começou a aprofundar a teoria concebida desde os tempos de estudante: o paludismo é o fundo de todas as moléstias nos países quentes. A sua biblioteca de rapaz decuplicou. Lia obras, tratados, memórias, revistas, em três línguas. Nervosamente tomava notas em papelinhos e, como se fosse esquecendo das notas, por fim deu para tomar nota das notas. Lia, lia, doidamente, desordenadamente. Fugia sempre de escrever, porém há oito dias começara a passar para o papel o resultado de suas meditações. E foi por isso que a questão da língua surgira-lhe. Sua mulher tinha por ele um respeito religioso. Era o sábio, o homem que conhecia um outro mundo que rege este. Era o doutor, o bonzo-homem, formado, respeitável e grandioso; e, ao lhe vir um desespero daqueles, ela o animava, dizia-lhe pequenas lisonjas sinceras. O Chico sorria, acalmava-se e beijava-a muito. No dia seguinte, continuava: lia, lia, desordenadamente e doidadamente. O patrimônio deixado pelo português filantrópico já estava gasto a meio. Gomensoro não se incomodava com a direção dos seus bens. Sua idéia cegava-o e a tola educação que sua esposa recebera não lhe permitia corrigir as desmandadas despesas do médico. Uma vez, ele lera, numa revista francesa, a notícia de um livro: As Formas Palustres nas Índias Neerlandesas, do doutor Van Bree. Imediatamente mandou buscar um exemplar; e, como não compreendesse o holandês, correu a cidade, foi ao consulado, ao cais; e arranjou um marinheiro que o traduzisse, mediante oito libras por capítulo, e para meio português. Recebendo o estipulado pelo primeiro capítulo, o marinheiro saiu. Logo adiante tomou uma grande bebedeira; esfaqueou um polícia e foi recolhido à detenção. Gomensoro empreitou advogados; pagou-lhes regiamente, e o marítimo morreu de beribéri antes de entrar em julgamento. O paludismo tudo exigia. Fora dessa idéia, pouco lhe preocupava o resto da atividade mental. Não lia filosofias, nem teorias sociais e muito menos literaturas; e, se por acaso era chamado a falar sobre esses assuntos, a sua lucidez era segura, perfeita, própria, com algo de paradoxal, o que o admirava por supor a de toda a gente. Não conhecendo as teorias a respeito, só via os fatos, dos quais tirava conclusões pessoais e imprevistas. Como de costume ao vê-lo em diluimento, sua esposa tratou de o consolar. Animando-o, interrogou-o: — Chico, essa língua é diferente da de hoje? — Muito, querida. Muito... Nem se compara. — Então é como se fosse outra, continuou a dona Eugênia. — É... É... É como se fosse outra, acabou, afinal, o Gomensoro por dizer. — Então você não tem mais que comprar uma gramática e estudá-la, concluiu triunfantemente a esposa do médico. — Mas é verdade, Gênica, fez admirado o Chico Gomensoro. Mas é verdade! Amanhã seguirei o teu conselho. E num afluxo de ternura, elogiou-lhe o talento, beijando-a nos olhos, no rosto e na boca. Sossegou, dormindo quieto. No dia seguinte, logo pela manhã, viu alguns doentes, e depois do almoço desceu à cidade, donde depois iria ver o contínuo Manuel em Catumbi. O médico, perseguido pela idéia tenaz de uma língua lídima, andou pelas ruas de comércio, buscando nas livrarias a famosa gramática do século XVI. Num sebo da Rua de São José, encontrou, sossegadamente esquecido, um velho exemplar da Enssynança de bem cavalgar, d’El Rei dom Duarte e adquiriu-o, para servir de leitura da nova língua que ia estudar, embora o livro fosse do século XV. Eram três e um quarto quando procurou o ponto dos bondes da companhia de São Cristóvão. Aí veio a encontrar o doutor Alfredinho, filho do visconde da Meia Ponte, senador por Goiás. — Oh, doutor! Por aqui? — É verdade! Vou ver um doente. E o doutor, onde vai? — Vou ao Rio Comprido, procurar o conselheiro Rosemiro. Esse negócio da legação tem me dado um trabalho, que o senhor não imagina... Que bonde toma? — Eu? Itapiru. Porque? — Em que rua vai? perguntou o bacharel, sem responder a pergunta. — Na Travessa do Laje. — Podemos fazer uma coisa, doutor: vamos juntos no bonde na Estrela, que lhe deixa próximo, propôs o advogado. O médico relutou um pouco; e, concordando afinal, os dois embarcaram, quando o veículo se punha em movimento para as ruas estreitas da velha cidade. Logo assentados, relembraram o dia anterior, a palestra, o jantar, as pessoas; e as “coisas” do Boaventura vieram à baila. — Doutor, perguntou o médico ao advogado, esse Comte era militar ou monge? — Nem uma nem outra coisa. Porque? — A sua doutrina é ferrenha, cheia de regrinhas, de disciplinas estreitas, medidas. Parece uma ordenança militar ou uma regra monacal. — Não há dúvida; mas até, ao contrário, o Comte prega a transformação dos exércitos em milícias e quer a paz universal, dis se o bacharel, após curta pausa. — Admira então que, refletiu o Gomensoro, admira que os nossos militares, de uns tempos para cá, convertam—se e propaguem-na. — É simples. Uma questão de vaidade profissional. A matemática é a pedra angular do sistema, e os militares estudam um pouco dessa ciência, dai... Demais, o prestígio do Benjamim concorre. — Oh! o Benjamim, o Benjamim, disse o médico, com um risinho de escárnio. — É um geômetra, doutor. — Geômetra — é muito, ou antes é pouco. Benjamim, para geômetra, faltam-lhe obras, documentos quaisquer de sua sabedoria. É antes..... — E “A Teoria das Quantidades Negativas”? indagou o filho do visconde. — Um artigo de estudante “furão”, e mais nada. Para mim, como ia lhe dizendo, f z o e Gomensoro, Benjamim é um visionário, um utopista perigoso. Em resumo: bom homem e amigo do Pedro II. E riu devagar, concertando os óculos, ao tempo que o bonde parava na cauda de outros enfileirados na rua. Os poucos passageiros levantaram-se: — Que há? Que foi? Não anda? indagaram. — Nada, responderam o cocheiro e o condutor, já pachorrentamente sentados no meio- fio da calçada. Um caminhão que está descarregando uns fardos numa loja, e não deixa o carro da Tijuca passar. O bacharel pôs-se impaciente. Erguia-se, olhava raivoso, cofiava os pequenos bigodes e, por fim, disse para o médico com lancinante desprezo: — Isso não é terra, doutor. É uma “droga”... — Porque, porque houve uma pequena interrupção no tráfego dos bondes? — Não. É tudo! É tudo! Uma cidade feia, suja, esburacada, sem estética, sem parques. Um relaxamento... maldita colônia... O médico não tinha o que responder e sentia-se constrangido disso. Calou-se. O bacharel, adivinhando-o magoado, virou-se para o Gomensoro e lhe disse confidencialmente: — Sabe o que nos matou? — Não, respondeu com simplicidade o paciente esculápio. — Foi o negro. O médico pareceu não se admirar muito do segredo e com alguma ironia retrucou: — Pois olhe, doutor. Eu julgava o contrário. Eles fizeram o Brasil. Lavraram as minas; plantaram a cana; guerrearam; e hoje colhem o café e cavam estradas. Chegava a pensar que fizeram a nossa unidade. Vejam como são as coisas, doutor Alfredo? — De fato fizeram alguma coisa disso, mas são inferiores, incapazes pra civilização. Não são árias, doutor Gomensoro, não são árias. — Que diabo é isso? — Oh! doutor. Não conhece a teoria dos árias? interrogou espantado o moço advogado. — Árias, árias... Ah! Espere... Recordo-me... Quando estive na Europa, alguém me falou nisso. É, se não me engano, uma hipótese alemã muito engraçada, que expli... — Hipótese, não, doutor. Uma conquista da ciência. A Filologia, a Lingüística, a Arqueologia, a Pré-História comprovam-na, e os recentes estudos de religiões comparadas afirmam-na soberanamente. Não é uma hipótese, absolutamente. — Não importa, retrucou o médico. Seja uma verdade... vá... mesmo porque o que é hipótese na Europa é certeza aquém da linha equinocial. Diga lá a teoria, doutor Alfredo. O moço bacharel atirou fora o cigarro que fumava, enquanto o médico dava duas olhadelas a um passageiro próximo. Depois, expôs a teoria. — Em uma época anterior a todo o testemunho histórico, e que se esconde na noite dos tempos, uma raça cresceu no plateau de Pamir, na antiga Bactriana, Ásia Central. Em migrações sucessivas e em instantes diversos, irradiou pela Europa e foi ao norte da Índia. Já no plateau originário, tinha uma língua admirável, onde se vinham refletir suas afeições meigas, suas admirações ingênuas e arroubos para um mundo superior. Eram pastores, crê-se que também agricultores. Conheciam o ouro, a prata, o bronze, exceto o ferro, que não conheciam. Como se fossem raios do sol — um dos focos da elipse de translação da terra — os árias, mestres, senhores — emitidos do plateau de Bactriana — seguiram vetores e pararam aqui, ali, pela Europa, pela Ásia, ao norte, ao noroeste, a oeste e a sul, com os nomes de lituanos, eslavos, germanos, celtas, gregos, latinos, persas e hindus, que quase fecharam a elipse alongada. O que caracteriza o ária é a capacidade para a civilização. Rapidamente evoluíram e vão ficando senhores do mundo. É o que veio revelar as afinidades do latim com o grego, do grego com o alemão, do alemão com o persa, e deste com o sânscrito... Eis, doutor, esboçada a teoria dos árias, a teoria da raça civilizadora. — Bonito! exclamou sem querer o calmo doutor Gomensoro. — Do grego-latino, continuou o filho do titular, do iraniano e do ramo hindu surgiram civilizações poderosas, o que... — E dos lituanos, eslavos, germanos, celtas, não? disse de repente o médico. — Estes povos mantiveram um relativo estado de cultura até que foram absorvidos na civilização romana, objetou o filho do senador por Goiás. —Estado de cultura, fuzilou Gomensoro, que de forma alguma é uma civilização... — Sim... concordo, mas é cultura... — De modo que dos árias, a raça da civilização, só os gregos criaram uma civilização. Os que ficaram no mágico plateau nada fizeram e os da Índia, imobilizados nas castas, e tão se s deixando roubar pelos primos da Europa? — Com os da Índia aconteceu isso, devido às condições do meio e a presença de raças inferiores, retrucou o doutor Alfredo. O médico calou-se, pensou, olhou o passageiro que o interessava e levantou a objeção: — Com as condições favoráveis da França nada fizeram, entretanto os da Índia... — Foram as raças inferiores, objetou apressado o doutor Alfredo. — Raças inferiores, respondeu, depois de uma pausa, o médico. Como essas raças se influiriam maléficamente? Por ação de presença, só? Não é possível? Na humanidade, as reações se fazem por via sexual, e esta, terminantemente, não operou nos Ganges, pois a religião proibia, e os costumes também, que os casamentos e até a mais simples união sexual se fizesse entre indivíduos de castas, e, sobretudo, raças diferentes. O bacharel não sentia a argumentação valiosa. Pareciam-lhe argumentos de um simplório e, entretanto, não sabia combatê-los. Para fechar a conversa disse: —O que lhe acabo de dizer é resultado de pacientes trabalhos. Max Muller, Pictet, Juin e outros sábios criaram essa teoria, desenvolveram-na e demonstraram-na. Demais, doutor, ligou ele rapidamente, se todos os outros ramos nada tivessem feito, bastava Grécia e Roma. — Concordo, disse frouxamente o médico, e concluo que a civilização não é intrínseca na raça, não depende... Ah! Espere... E sofregamente correu o banco vazio até a ponta e daí falou ao passageiro que ia na frente: — Desculpe-me..., desculpe-me... Sou médico e o senhor vai perdoar-me... Nunca teve maleita, sezões, febres? O desconhecido voltou-se com ar estúpido e obedientemente respondeu: — Nunca. — Tem estado doente? — Algumas vezes. Tive sarampão, bexigas doidas e que me lembre nada mais. — Sofre de prisão de ventre? — Não, senhor. — É curioso, insistiu o médico. E dores de cabeça tem tido? — Às vezes, tenho, retrucou o desconhecido um tanto impacientado. — Sempre? — Não, doutor. Uma vez ou outra. — E seu pai? — Meu pai, fez aborrecido o interrogado, meu pai teve febres, sezões, maleitas, prisões de ventre. — Ah! exclamou o médico satisfeito. Tome quinino, amigo; tome quinino. E, depois de pedir muitas desculpas, voltou ao seu lugar e disse baixo ao bacharel: — É um caso de paludismo hereditário, perfeito, tachado. Aquelas “orelhas de abano” não negam. O doutor Polyenesky, de Varsóvia, verificou seiscentos e vinte e sete casos idênticos na Bessarábia, e eu... O bonde corria célere pelo Rio Comprido, e o Alfredinho, que tinha consultado o relógio, verificou que chegava à hora de jantar em casa do conselheiro. — Doutor Gomensoro, onde vai? — Eu já não lhe disse? Vou ver o compadre do Carlos. — Aquele contínuo? Agora me lembro... Sua mulher esteve ontem lá. Eu conheci-o. Era um bom homem. Obediente, honesto, trabalhador, bom chefe de família... Quando meu pai foi ministro, ia sempre lá em casa levar papéis. Uma coisa. Vou com o senhor, doutor. Há inconveniente? — Nenhum. E, logo ao chegar no lugar propício, os dois saltaram e se embrenharam pelo labirinto de ruas ainda mal povoadas. III A medicação do doutor Gomensoro não fora milagrosa. O doente pouco melhorou e, levantando-se dias depois, recaiu em seguida mais gravemente. De recaída em recaída, ora melhor, ora pior, o ex-voluntário morreu numa quarta- feira de fevereiro, fulminado por moléstia do coração. Precavido, ele se fizera inscrever em algumas sociedades de socorro mútuo, as quais, dando pequenas quantias para o enterramento, pouparam à família dificuldades com esse piedoso ato. A viúva economizou alguma coisa dos auxílios; e os cuidados com a vida futura atenuaram em alguma coisa a dor da perda que sofrera. Durante os primeiros tempos, tendo delineado um plano a seguir, tratava de cumpri-lo. Para ela, queria roupa a lavar, e a filha iria trabalhar em um atelier de costuras, onde a sua virtude correria menor perigo. A preta velha encarregar-se-ia da casa; e assim levariam a vida até quando Deus quisesse. Diariamente saía e dava os passes que julgava precisos. Pedia a um, pedia a outro e, pela tardinha, voltava à casa, naquela travessa esquecida, às vezes desanimada, em outras esperançada de encontrar no dia seguinte o trabalho desejado. No fim de alguns dias, arranjou alguma roupa, mas era a de uma família residente no Catete, e, lavada que ela fosse, as despesas de transporte absorveriam o lucro possível. Não acertou. O plano lhe pareceu mau, pensou outro. Alugar-se-ia como criada; colocaria a filha como “ama” em alguma casa. Mas a babá? Que havia de fazer dela? Empregá-la? Estava tão velha, enferma, reumática, num estado de saúde que não permitia prestar trabalho fixo, certo... Além do que, Clara inquietá-la-ia, se o executasse. Moça ainda, com finura de mãe, adivinhava os perigos que ia correr. Fora de suas vistas estaria exposta a ser desviada do bom caminho. Conhecera tantas que como “ama”... Coitada da filha! Tão moça! Tão boa! E, toda a vez que ela evocava tais coisas, redobrava de energia em seguir o seu primitivo plano. Ao sair, olhava Clara, púbere ainda, de seios túmidos meio formados, contemplava-a em instantes enchendo os olhos d’água, e, com a vista empanada, jogando o xale aos ombros, antes que a filha lhe percebesse a comoção, punha-se em campo com ânimo. Deus Nosso Senhor havia de ajudá-la! Casaria a filha, estava certa, pobre naturalmente, humilde também, mas seria honesta, honrada. Entretanto, os seus esforços eram vãos; os dezessete anos de casada, sem ter que prover a subsistência, não lhe tinham dado a prática, o faro de viver. Os conhecimentos eram poucos e desvaliosos; e, mesmo da família de que fora cria, nenhum restava capaz. Semeados pelo Brasil, aqui, acolá, arrastavam uma vida desgraçada de infortunados. As relações do marido esquivavam-se delicadamente; e, já sem crédito qualquer, na vida das três mulheres havia fome. As coisas de algum valor foram vendidas e a casinha estava quase nua de trastes. Atrasada nos aluguéis, eram diárias as ameaças do proprietário ou seu preposto. Desenvolvia um tato enorme para contê-los. Nem sempre era feliz; suas palavras por vezes erravam o alvo e, longe de apaziguá-los, enfurecia-os mais. Como certa vez ela lembrasse a pontualidade do falecido Manuel, o cobrador se enchera de raiva e raivoso dissera que, assim fazendo, não fizera nenhum favor algum; era obrigação dele unicamente. Dona Florência, em desespero de causa, resolveu procurar o Alves da Silva. Uma manhã, na estação inicial de Pedro II, pôs-se a aguardá-lo, cheia de angústia. Tinha oito dias para mudança, assim a intimava o procurador — a menos que não quisesse sofrer despejo judicial: havia quase três meses de atraso, e não estava pra isso... nada tinha com dificuldades... não era pai de ninguém, dissera ferozmente, numa cena violenta, que a resignada dona Florência ouvira toda com pejo e ódio. A viúva saiu cedo. Chegada à estação, encostou-se bem perto do lugar de desembarque e, entre os passageiros que chegavam, com o olhar, catava sofregamente o compadre. O calor era sufocante. O dia de mormaço, baço, tristonho, enchia as almas de opressão. Todos andavam cabisbaixos; não havia um riso. Esperando até às onze horas, não via chegar o Alves da Silva, contudo ele não lhe teria podido escapar. Devorava angústias. Figurava resoluções. Talvez fosse melhor dar um pulo até à casa do compadre. Ia incomodá-lo. Não havia de gostar; e tinha razão — que tinham os mais com sua sina? Nada. Devia agüentar-se só; não tinha nada que importunar os outros... Veio até à porta do edifício. O jardim em frente tinha as árvores abatidas à temperatura do dia; uma névoa quente crestava tudo. Era como um bafio de forja. O rolar dos veículos levantava muito pó; e a poeira ficava pairando à meia altura, sobrecarregando ainda mais o ambiente já por si pesado. Alguém chegou e lhe falou: — dona Florência, como vai? — Oh! É o senhor, seu doutor? respondeu ao dar com a pessoa. — Eu já lhe tinha visto, mas não a conheci logo. Agora, ao se virar, é que lhe pude ver bem as feições. Soube, acrescentou, soube que seu marido morreu...Meus pêsames. De que foi? — Muito obrigada. Do coração. O Manuel não se tratava; era teimoso..., foi uma desgraça, disse a viúva com um suspiro. — Coitado! Era moço? perguntou o interlocutor. — Quarenta e cinco anos, seu tenente. — Moço... Vai tomar o trem ou vem de cima? perguntou o Alferes Boaventura. — Não, senhor. Esperava o compadre, mas... — O senhor Alves da Silva? — Sim, senhor. — Está doente, afirmou o militar. — De que, seu doutor? — Nada, uma coisa ligeira. Uma constipação, um pouco de febre. Não há gravidade. Boaventura tinha se chegado à humilde mulher muito naturalmente. Ao seu temperamento fundamental, acessível e compassivo, sem preconceitos — a não ser o de militar e sábio — as doutrinas utópicas que professava, e com as quais estava fabricando de si mesmo uma imagem diversa, se soldavam para que fosse mais chão e mais ameno de trato com os pobres. Com estes, o seu azedume habitual se apagava e falava-lhes com doçura mesclada de piedade. Não temia que o vissem na rua a discretear com eles, pois a ninguém fazia mistério de suas idéias igualitárias e da sua simpatia pelo sofrimento do povo. Sempre que tinha dois minutos de reflexão, procedia de acordo com elas. Detestava a riqueza, a burguesia, o fausto; queria a paz universal, mas tinha as pequeninas idéias dos seus companheiros de profissão. O Exército era uma coisa sagrada, intangível — a arca santa da pátria — na sua frase. As concessões especiais de foro, de prisão, de instrução separada, para filhos e netos de militares, ele as achava legítimas, naturais, defendia-as extremamente. Desse modo, de um salto, passava das inovações generosas, para admirar a Alemanha militar. Os teoristas da guerra desse país juntava às prédicas do fundador da religião da humanidade. E, como os humildes não percebessem essas contradições e se curvassem também ao seu saber matemático, Boaventura junto a eles perdia o azedume nascido da comparação da grandeza do seu sonho com a zombaria que era recebido. Era notável que, considerando o saber matemático a única forma de sabedoria, condenasse, no entanto, toda a exploração já feita ou nova, tendente a alargar o domínio dessa ciência. Afora determinadas explanações sobre teorias elementares, qualquer outra incursão no campo da análise matemática era para ele, além de sem significação, imoral. A ciência estava completa, o mais era algebrismo acadêmico — dizia. Viera, conforme dissera à viúva, consultar o horário e voltava ao quartel-general, indo à tarde fazer uma visita ao Alves da Silva. Depois das primeiras explicações trocadas, dona Florência insensivelmente foi lhe fazendo confidências. Boaventura ouvira-a atento e triste, sinceramente triste. Enterneceu-se. O seu fundo emotivo, exagerado com sonhos humanitários, interessou-se por aquele padecer. Mesmo sem saber como, ofereceu-se a ajudá-la, prometendo-lhe que a procuraria no dia seguinte em casa. — Contudo, disse ao despedir-se, não é mau ir ver seu compadre. Vá. Quando a envelhecida Florência entrou em casa de seu compadre, o doutor Alfredo saía. Saudou-a cerimoniosamente, ao encontrá-la na escada de pedra, enquanto da porta a menina Olímpia dava grandes mostras de agrado. Mal falou com a moça, foi ter com o compadre. Conversava Alves da Silva, na sala de jantar, com o doutor Gomensoro. Vestia de linho branco e tinha chinelas de tapete. A fisionomia estava algo abatida. O rosto anguloso tinha um tom mate, e o nariz adunco e firme perdera um pouco de sua dureza habitual. Os cabelos grisalhos saltavam da moldura azul que um gorro oferecia, cobrindo-lhe a calva. A barba estava crescida. As primeiras palavras que dirigiu à comadre foram exatamente as mesmas que lhe dissera no dia do enterro. — Paciência, comadre. Paciência. As coisas hão de se arranjar com o tempo. É triste, eu sei, a morte de um chefe de família, mas o que se há de fazer? O médico maníaco mantinha-se calado. De vez em vez, firmava muito o seu olhar vivo, de costume inquieto, sobre a viúva, medindo-a de alto abaixo. Logo que era percebido, disfarçava, fugia com olhos, passeando-os em torno pelos quadros pendentes das paredes. Reparava a reprodução da Ceia em oleogravura, a lagosta muito vermelha, o quadro das frutas, depois descia a vista palpando o etagère, o guarda-louças e o pano da mesa com guarnições encarnadas. Fatigado, mirava as pontas dos pés separados, e com os dedos nodosos tilintava sobre a beirada da cadeira. O oficial de secretaria continuava a repetir consolos. A comadre, mal sentada na cadeira, contemplava-o respeitosamente. O seu rosto miúdo, de traços empastados, com rugas precoces, não tinha uma expressão definida. Havia respeito, desespero, dúvida e esperança a um só tempo. — O que eu sinto, comadre, dizia com fadiga o Alves da Silva, o que sinto é que a minha casa não tenha cômodos, senão. O médico quis dar volta à conversa. Perguntou ao Carlos se ia à cidade no dia imediato. Respondida afirmativamente, os três estiveram por algum tempo mudos. A viúva, animando-se, com a voz embargada, falou nas dificuldades, na mudança, na necessidade de dinheiro... Alves da Silva, coçando a cabeça, encostou-se melhor na cadeira de lona e murmurou: — É, comadre. As coisas estão tão ruins. Ainda agora, essa moléstia... Nesse ponto, chegou do interior a mulher. Vinha de matinée de cassa, sem colete e com uma saia de ramagens claras. — Oh! Florência, como está você? Pensei que você estava zangada! De repente, sentindo que o seu acolhimento benévolo surpreendia o grupo, dona Adélia fechou a fisionomia, fez que procurava um objeto num móvel, apanhou-o e, olhando o marido de soslaio, saiu da sala dizendo: — Florência, antes de você ir, fale comigo. O Gomensoro, então, indagou: — Mas quais são as dificuldades, dona Florência? A viúva as explicou redundantemente. Contou as diabruras do proprietário, as vergonhas que estavam sofrendo. — Tenha paciência, espere hoje e amanhã, depois vá, ou mande sua filha lá em casa, que lhe poderei fazer alguma coisa. A fisionomia apalermada da mulher iluminou-se. Os seus olhinhos de conta muito abertos agradeceram melhor do que os repetidos: obrigada doutor, obrigada — que ela dizia. — É isso, comentou no fim o Alves da Silva, você se sofreu tudo o que contou, foi porque quis; se nos tivesse procurado há mais tempo tinha evitado esses desgostos. A mãe de Clara pediu licença e foi ao interior falar com dona Adélia. Olímpia fazia crochet na saleta, ao lado de sua mãe, que lia um jornal. Chegando a viúva, arredou um pouco a folha e indagou: — O que trouxe você aqui, Florência? Antes que pudesse responder, Olímpia por sua vez perguntou: — Como está Clara? Porque não veio? Florência respondeu à menina e explicou a dona Adélia os motivos que a traziam. — E você arranjou o que queria? — Sim, arranjei. — Foi o Carlos quem te ofereceu? — Não. Foi o doutor. — Ahn! fez a dona Adélia. — Quem te disse que o Carlos estava doente? perguntou ela logo em seguida. — Foi seu alferes Boaventura. — É verdade! exclamou dona Adélia... Depois, refletindo um pouco, disse para a filha: — Olímpia, fica aí, enquanto eu vou com Florência ate ao quintal. A dona da casa, logo que ficou fora dos ouvidos da filha, disse para a viúva: — Florência! eu queria saber uma coisa. Mas fica entre nós — olhe lá!... — Oh! comadre! Eu sei guardar segredos; sou de caixa encouradas... Assegurada da discreção da comadre, dona Adélia perguntou: — Clara nunca te disse se o Boaventura “gostava” de alguém? — Nunca. E como ela me podia dizer, se pouco conversava com “seu” Boaventura? — Não... Sim... É... E depois de uma série de volteios e meias palavras, a mulher do Alves da Silva contou à sua humilde comadre que, pelo seu sobrinho Alípio, soubera que o alferes “gostava” da filha. Por ela, dona Adélia achava um bom casamento, mas, sondando o marido, este lhe objetara. — Não lhe conhecemos a família. Ele diz que tem, mas nunca fala dela. E figurando mais o caso como sendo possível, dona Adélia havia já interrogado o marido assim: — E se ele te pedir a menina em casamento? — Se ele ma pedir, retrucou o Alves da Silva, exigirei um prazo e investigarei os seus precedentes de lar. Se forem bons, sim; senão, não. É coisa muito delicada. O segredo comunicado, mútuas promessas de guardá-lo foram feitas; e a viúva do contínuo, embora muito admirada que sua comadre, à vista das suas dificuldades, só achasse valioso falar-lhe dos namoricos da filha, prometeu, todavia, indagar de Clara alguma coisa de positivo. Entrando na sala em que o médico e o seu antigo companheiro de colégio conversavam, Florência não encontrou o Alves da Silva. Recebia, na sala da frente, uma visita de cerimônia. E, enquanto esteve só com o médico, Gomensoro lhe reiterou a promessa, dando-lhe conselhos. — É mude-se. Vá morar pra Laranjeiras ou Botafogo. Por lá arranja trabalho facilmente. Há muitas famílias ricas. Minha mulher poderá mesmo lhe recomendar a algumas de suas antigas colegas bem casadas. Conhece o chefe de esquadra Valadão? Sua mulher foi colega da minha. Mora na Bica da Rainha, e assim muitos outros.