Diário Íntimo (Lima Barreto)

Part 12

Chapter 124,059 wordsPublic domain (Wikisource)

Maus quartos de hora de um plantador de mangas, o plantador de mangas. Jurujuba + pescoço louro, amarelo. Papagaio louro. Tamoios assim chamavam os franceses. Vi no Benício. CLARA DOS ANJOS Primeira versão incompleta 1904 “ L’oeuvre d’art a pour but de manifester quelque caractère essentiel ou saillant, plus complètement que ne le font les objets réels “ ( Taine ) I A cidade do Rio de Janeiro é regularmente edificada. Não se infira daí que ela o seja conforme o estabelecido na teoria das perpendiculares e oblíquas; antes se conclua que a cidade se tem erguido, acorde com a topografia do local onde se assentou e com as vicissitudes históricas que sofreu. Se não é regular com a estreita geometria de um agrimensor, é, entretanto, com as colinas e encostas, que a distinguem e fazem-na formosa. Enquadra-se garridamente nelas, explicando-as e continuando-as. Ao nascer, no topo do Castelo, não foi mais que um escolho branco, surgindo no revolto mar de florestas e brejos. Aumentando, desceu pela venerável colina abaixo, coleou-se, pelas várzeas, em ruas estreitas. A necessidade de defesa externa obrigou-as a ser assim, e a polícia recíproca dos habitantes contra malfeitores prováveis fez com que elas continuassem do mesmo modo, quando de piratas pouco tinham a temer. O quilombola e o corsário projetaram a cidade. Surpreendida pela fereza das lavras de Minas, que fizeram dela seu entreposto de exportação, a velha São Sebastião aterrou apressada alguns brejos; e todo e qualquer material foi-lhe útil para tal fim. A população, preguiçosa de subir de novo morros, construiu sobre um solo de cisco, e o rei dom João veio descobrir praias e arredores cheios de encantos, cuja existência ela ingenuamente ignorava. Uma coisa compensou a outra; e logo que a Corte quis se firmar e tomar ademanes solenes... Quem observa uma carta do Rio e tem de sua antiga topografia modestas notícias, define plenamente as preguiçosas sinuosidades das suas ruas e as imprevistas dilatações que elas oferecem. Ali, uma ponta de montanha empurrou-as; aqui, um alagadiço dividiu-as em duas azinhagas simétricas, deixando-o intacto, à espera de um lento aterro. Na fisionomia das casas estereotipam-se as coisas da nossa história. Um observador amoroso e perspicaz não precisa ler, ao alto, a data, entre os ornatos de estuque, para saber quando uma delas foi edificada. Esse casarão de dois andares que vemos na Rua do Sabão ou da Alfândega, é dos primeiros quinze anos da Independência. Vede-lhe a segurança afetada; a força demasiada das paredes; a valentia dos alicerces que se adivinha... Quem a fez, sabia das lutas do Primeiro Reinado, vinha seguro de possuir uma terra sua para viver a vida eterna da descendência. O tráfico de escravos imprimiu ao Valongo e aos morros da Saúde alguma coisa de cubata africana, e a tristeza do cais dos Mineiros é saudade das ricas faluas que não chegam mais de Inhomirim e da Estrela, pejadas de mercadorias. O bonde, porém, perturbou essa metódica superposição de camadas. Hoje, o geólogo de cidades atormenta-se com o aspecto transtornado dos bairros. Não há mais terrenos paralelos; as estratificações inclinam-se; os depósitos baralham-se; e a divisão da riqueza e novas instituições sociais ajudam o bonde nesse trabalho plutônico. No entanto, este veículo alastra a cidade; cria nas pontas de seus trilhos núcleos de condensação urbana. Onde ele chega, desenha-se uma venda, surge um botequim, um quiosque; em torno, edificam-se casebres. Ondulações concêntricas a esse núcleo encontram as de outro próximo, dando nascimento a uma travessa mal povoada, tristonha, esquecida das autoridades municipais, e que vive anarquizadamente, fora de toda a espécie de legislação, a poucas centenas de metros de outras, apertadas num cinto de posturas. Por elas, o capim medra viril e orgulhoso; os cabritos desembaraçadamente pastam; as lavadeiras sem cerimonia coram as roupas; e as poucas casas que há, hesitam entre casa e casebre e dão-se ao luxo de ter jardim na frente. As casas são em geral isoladas, separadas, umas das outras, por cercas de espinheiros ou bambus; mas, às vezes, juntam-se em grupo, cavalgam- se umas às outras, de jeito que, quem as vê, considera a extensão da terra e a muita que por aqueles lugares sobra. A população que as povoa é heteróclita. Na generalidade, operários e pequenos empregados; mas, se algum descuidado se aventura por uma dessas travessas adentro, surpreender-se-á sem razão ao cruzar com algum elegante da Rua do Ouvidor. Cavalheiros de extraordinária exuberância amorosa, e de apoucados rendimentos, resolvem o problema de sua natureza, gastando com a família o mínimo, num desses corredores, e o máximo, nos alfaiates e aperitivos platônicos com as cocottes nas confeitarias. Entre Rio Comprido e Catumbi, numa travessa dessa espécie, residia, em 1886, com sua família, Manuel Antônio dos Anjos, contínuo da Secretaria da Agricultura. Era pequena a família: ao contínuo e à mulher se juntavam unicamente uma filha, a orçar, por esse tempo, pelos dezesseis anos, e uma velha preta, a babá, que, já escrava já livre, rolara até aos cinqüenta e tantos anos, quando viera parar às mãos deles. Desde 1882 que se estabeleceram ali e, como gostassem do lugar e a casa fosse em conta, ficaram. Viviam bem. Os hábitos regulares do marido e a sagaz economia da mulher extraíam do mesquinho ordenado do contínuo o bastante para um passadio medíocre e igual, que satisfazia a todos. Sempre que tinham ocasião de se referir ao seu feijão quotidiano, dona Florência ou seu marido repetiam: — Deus nos dê sempre isso! E quem dera, acrescentavam, que todos o tivessem! De manhã, às oito e um quarto, o Manuel Antônio descia para a cidade em bonde certo; muma-se, na curva da Rua do Conde, de um jornal, lia-o atento até à Rua da Constituição, onde, ao acabar a leitura, dobrava-o cuidadosamente, a fim de que sua filha pudesse ler o folhetim. Findo o expediente, volteava pelas ruas centrais da cidade; dava dois dedos de palestra aqui, ali; e, pelas quatro horas, subia a jantar e a descansar em família. Era assim a sua vida. Dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano, excetuando os de gala e os de descanso, que ficava em casa, nenhum merecia do austero contínuo a honra da menor discrepância naquele programa. Sua mulher, também, pouco saía; em um ou outro domingo, excepcionalmente, assistia à missa em Sant’Ana e dos festejos fugia com resignação satisfeita. Não era de festas, dizia, e o que de divertimento ainda lhe pudesse caber, ela, de bom grado, legava à Clara, que, com efeito, não só recebia esse legado, como também concentrava todas as fortes energias de seu pai. Durante a sua segunda infância, ele de modo decisivo se esforçara por lhe ministrar uma melhor educação. Para isso, aduziu, ao trabalho habitual, outros extraordinários, que lhe deram com que custear a estadia da filha no Externato de Nossa Senhora do Amparo, no Estácio de Sá. Há uns tempos atrás, como se sentisse fatigado com aquela dupla labuta, retirara-a do colégio, embora, para completar o estudo de português faltasse, a Clara, a sintaxe, e do piano trouxesse alguns prolegômenos, suficientes para fazê-la tocar as valsas em voga — o que ela desandou a fazer sofregamente, furiosamente. Fechado esse parêntese da educação da filha, o viver de Manuel dos Anjos voltou a ser aquele equilibrado de antigamente. Para Clara, porém, a vida não era tão monótona e encarrilhada, como para seus pais. Havia sempre uma diversão, um desvio: por novembro e agosto, e algumas vezes em outros meses, ia às festas em casa do padrinho, onde as suas habilidades de pianista eram gabadas e requeridas. Constituíam esses festejos a sua forte preocupação. Em setembro, chegava-se ao pai e dizia: — Papai, preciso de botinas para ir ao aniversário do meu padrinho, em novembro. Em abril era costume ela recomendar: Olhe, papai, em agosto é aniversário de casamento de meu padrinho, e ainda não tenho um vestido para ir. Afagando a face do velho mulato, a filha lhe pedia eloqüentemente o que as palavras só deixavam perceber. Seu padrinho era o senhor Carlos Alves da Silva, primeiro oficial da Secretaria do Império, a quem o Manuel dos Anjos, quando voltou do Paraguai, em 1869, conhecera ainda amanuense. Partindo para o Rio da Prata, logo em começo da companha, o contínuo a fizera até à ocupação de Assunção, onde deu baixa de um batalhão de voluntários. De volta à Corte, obtivera com alguns empenhos e aquele seu título de voluntário um lugar de contínuo interino da Secretaria do Império e pouco depois efetivo na da Agricultura. Durante a interinidade, o antigo voluntário travou conhecimento com o Alves da Silva, ainda nesse tempo um rapazola franzino, tagarela, de qualquer modo poeta, abolicionista, e que viera ter à burocracia com um curso gorado de Direito e o peso da manutenção da mãe, pois que seu pai, major do Exército, morrera em Lomas Valentinas, legando-lhes uma velha escrava, uma casinha em São Cristóvão e o exíguo meio soldo. A entranhada simpatia do contínuo pelo Alves da Silva não nascera, porém, do trato diário da repartição, que era severo e não permitia demasias. Essa afeição nascera-lhe forte em uma tarde, que ficou célebre na sua vida. Havia pouco que o Brasil definitivamente domara o Paraguai: com essa vitória o país tinha tomado consciência de si mesmo — era como um tímido que, superada grave dificuldade de sua vida, acredita na sua energia, no seu valor e, quiçá, na efetividade de sua existência. Um tal sentimento que naquela época se apoderara fortemente da nação, traduzia-se num explosivo desejo de progresso, de engrandecimento. Àquela chuva de borrasca, que foi a guerra, pelo Brasil rebentaram tumultuariamente novos e vigorosos brotos. Conjuntamente, vieram agitar-se as grandes questões de povoamento, de instrução e viação. Mas o que veio a constituir, depois dela, a verdadeira questão palpitante de norte a sul do Império foi a que se chamou a do elemento servil. A guerra, pondo em apertado contato senhores e recentes escravos, fazendo-os sofrer os mesmos perigos e as mesmas agruras, aproximou-os, dando nascimento a uma mútua simpatia entre eles e a uma melhor compreensão das suas necessidades. Com o pleno sucesso das armas imperiais, espalharam-se por todos os recantos do país gente tomada de generosos sentimentos pelos escravos, e essa foi a sementeira donde brotou mais tarde a árvore da abolição. Entretanto, a poesia nacional, que mais ou menos já colaborara em algumas das nossas transformações políticas, muito antes, já começava a preparar os artigos de fundo de alguns anos depois. As escolas de Direito eram o seu centro de irradiação e o Carlos Alves da Silva, chegado do Recife, vinha impregnado dela, e mesmo para o seu gasto pessoal trazia alguns tropos escolhidos e cinco ou seis argumentos irrespondíveis, que, ao seu julgar, seriam as pedras com que o minúsculo David havia de matar o Golias negreiro... Fora o Manuel dos Anjos, como bom contínuo que era, ajudar a servir na festa que o seu chefe dava pelo batismo do seu primeiro neto. Bailara-se e já o baile ia em meio, quando, no fito de descansar os pares infatigáveis, alguém lembrou que se recitasse. dona Adelaide, a filha mais moça do dono da casa, convidara já a quatro rapazes, quando convidou o amanuense Alves da Silva. — Seu Carlos, recite qualquer coisa, disse a moça. — Oh! Minha senhora, estou constipado (tossiu.), rouco e não tenho toda a poesia de cor, retrucou, desculpando-se. — Não faz mal. Recite o que souber, objetou dona Adelaide, logo interrogando, indagou: — Qual era? — As Vozes d’África... Conhece? — Sim, senhor! Não é de Castro Alves? — Pobre rapaz; refletiu o chefe, que estava em frente sentado num sofá. Na flor da idade, com aquele talento, continuou ele, abanando desconsoladamente a cabeça, morrer assim — foi uma pena! De que morreu ele, senhor Silva? perguntou, fechando a reflexão. O amanuense não teve tempo de responder, pois, como essa conversa parecesse querer se prolongar e desviá-lo recitativo, algumas moças pressurosas vieram reiterar o pedido de dona Adelaide. Instado, o Alves da Silva acedeu. Encostando-se ao piano, onde já havia quem acompanhasse, começou: “Deus! ó Deus, onde estás...” Continuando, as estrofes voavam pela sala, impetuosas, guindadas, enquanto o piano respondia com notas veladas e dolentes. Em meio do recitativo, o Carlos estava extraordinariamente animado. A gesticulação não correspondia à letra do poema, e, com um murro erguido ao teto, foi que ele sublimou: “O universo, após ela — doido amante Segue cativo” etc. A assistência não notava as discordâncias. Hipnotizada, bebia as suas palavras como se contivessem grandes e novas verdades. Percebendo o efeito, o Carlos Alves dobrava a sua incongruente dramatização, continuando: “Negro, sombrio, pálido” etc. No fim, com toda a ênfase de que era capaz, imprecou, erguendo as mãos espalmadas à altura do olhos: “Escuta o brado meu lá no infinito, Meu Deus! Senhor, meu Deus!” A sala recebeu o final com um triplicado bravo, e o Carlos, agradecendo e enxugando o suor, partiu em direção à sala de jantar. Foi durante esse recitativo que a alma do Manuel dos Anjos se sentiu invencivelmente presa à do amanuense. Da porta que ligava a sala de visitas ao corredor, ele ouvira-o todo e quando, com trêmulos na voz, o amanuense Alves disse: “Se choro... bebe o pranto a areia ardente!” — o pobre do contínuo quase chorou, abrangendo de um só lance de vista o hediondo e vazio espetáculo das fazendas. O eito, o tronco, o banzo apavorante, a encher de aluados as melancólicas senzalas, para ele, naquele instante, tiveram existência concreta. Ele os sentiu em si e palpou-os; e, conquanto não houvesse sido escravo, se julgava preso à sorte dos cativos por fortes laços de sangue e raça. Saiu já alta madrugada. Partilhando o padecer do cativeiro e exuberante de afeição pelo Alves da Silva, o contínuo Manuel vinha descendo o morro vagarosamente. Aquelas retumbantes palavras, compreendidas a meio, tinham-lhe revolvido a alma e a memória. Tênues sentimentos obscuros afloravam; rompiam com reminiscências fugaces a forte couraça de sua rudeza. Quis entrar na causa das coisas, na lógica oculta da vida, no sobrepor fatal dos acontecimentos. O dia surgia. O Sol, ainda escondido por detrás das montanhas, anunciava a aurora com um feixe de claridade aberto em leque para as nuvens. Aos poucos vinha; e antes que o rosicler tingisse de ouro e sangue as franjas do céu, a luz opalescente espalhava-se, esgarçava-se pelos altos morros, cujas curvas doces e caprichosas eram como dobras de pernas, arredondados de colos, anfractuosidades de tórax emergindo de um lençol de gaze. Pareceu-lhe que, pela noite, estreitados, dormiam os dois, aos casais, trocando beijos de paixão, delirando em espasmos, e que, mal vinha a alvorada, despertavam bruscamente para de novo ser os rudes cerros do dia claro. Quantas vezes não vira já o amanhecer? Quantas! Pelos quatro anos de campanha, o sol nascente encontrara-o mil vezes de olhos abertos nas sentinelas regimentais. Mal apontava, as cornetas do Exército estridulavam pela amplidão em fora. Uma seguia outra; as notas delas se perdiam, esvaíam-se ondulando, as da primeira empurrando as da segunda, e por fim um retinido pairava no ar, logo abafado pela agitação da tropa, que se movia desordenadamente, como um formigueiro atacado. Minutos depois, tudo era ordem. Os corpos formavam. Guardas que iam, guardas que voltavam... Fora uma vez — lembrava-se como se fosse hoje — nas vésperas da batalha do Estabelecimento, que esse caso se dera. Ia ele com outro soldado fazer não sei o que... O certo é que ia com o Urbano... Um negro, alto, delgado, de pele macia e reluzente, vindo do Norte, onde, escravo, libertado, fora dado como substituto do filho do barão de Cajaí... Iam os dois de manhã, caminhando. Madrugada ainda. Frio que Deus dava. Num encontro de caminhos, uma moeda de ouro no chão atraira a atenção de Urbano. Um soldado oriental, que a vira também, correra ao mesmo tempo que o nortista. O brasileiro agarrou-a antes do uruguaio, q e não se satisfazendo u com essa prova de propriedade, alterou-o: — És mio. Yo lo vi primeiro (?). — Qual teu o ‘que! É minha, esta aqui, e mostrou a mão fechada. O montevideano olhou Urbano de alto abaixo e, desdenhoso de lábios e ombros, disse: — Suyo... negro... Vá-te (?). Muitas ocasiões depois lembrou-se desse fato. Sempre que o Exército formado se lhe apresentava aos olhos, considerava um a um os homens que o compunham. Via-lhe os matizes da pele e com amargura recordava a frase do gringo. Alguns milhares de suyos levavam pelos pantanais do Paraguai o prestígio do Império e um enxame igual borrifava no país com sangue a sua riqueza! Faziam jus a um futuro melhor, então o gringo... A rua a que chegara começava a se animar. Vacas de leite arrastavam bezerros, plangendo compainhas. As tavernas se abriam, e os sacolejos dos jacás de uma tropa, voltando do mercado, dava um tom de roça à paisagem urbana. Pretos do ganho, quitandeiros, ainda pretos, passavam. De repente, de uma esquina adiante, veio ter à rua uma leva de escravos, em marcha para a casa de comissão. Eram poucos. Dois ou três guardas bastavam. Uma anafada “crioula”, com o bamboleio dos quadris, polvilhava de sensualidade o grupo a andar. Insidiosamente veio-lhe à mente os versos do recitativo. Esforçou-se recordá-los. A memória rebelde resistia. Chegavam duas palavras, as antecedentes não vinham, e as seguintes, arrancadas, não faziam sentido com as que já achara. Por fim, já o grupo se esbatia no fundo da perspectiva, quando na memória boiou-lhe esforçado um verso inteiro: “Quando o chicote do simum dardeja”... A cena da sala se lhe representou novamente. Imaginou, então, o Alves da Silva, armado com milhares daquelas poesias, derrubando senhores de fazenda com a mesma facilidade que as balas do Bahia derrubavam as cristas de Humaitá. A imagem do amanuense brilhou-lhe resplandecente de santidade. Era como um apóstolo e doravante queria a sua benevolência; os seus menores gestos, havia de interpretá-los como os de um orago, como os de um santo padroeiro... Quando chegou em casa — na casa em que morava com sua mulher — tinha decidido que o Senhor Carlos Alves da Silva seria o padrinho do seu filho a nascer. O apaixonado declamador das Vozes d’África entrara em casa momentos antes e, ao entrar, mal sabendo que a sua filantrópica tirada lhe valera um compadreco, repreendeu severamente a velha escrava, porque, aquela hora, ainda não tinha aprontado o café matinal. Eram os restos — quem sabe? — das inflamadas estâncias de Castro Alves. Recebendo o convite do contínuo para levar à pia batismal um filho dele a nascer, Alves da Silva não lhe deu resposta definitiva. Sorriu, intimamente lisonjeado, e risonho, com um “veremos” entre os dentes, encareceu a distinção que havia no aceitar. Pela s gunda vez, depois e de nascer-lhe a filha, quando novamente Manuel dos Anjos foi lembrar o convite, o Carlos da Silva lhe disse: — Filho, teria muito prazer, mas, tu sabes, com essa canalha de padres não quero conversa. — Seu Silva, obtemperou-lhe o contínuo, a coisa dura instantes, é rápida, num segundo a menina está batizada. O senhor marca um domingo, nós vamos à igreja, e em menos de meia hora está realizada a cerimônia. — Oh! Manuel! Não é lá pela demora, retrucou o amanuense. São outros motivos. Indo batizar, terei que me ajoelhar, que rezar, não é?... e isso constitui uma quebra de opinião. Sou contra padres, como tu bem sabes, foi dizendo ele, erguendo um tanto a voz — e compreendes que, homem de responsabilidades futuras como sou, devo ter uma inflexível linha de conduta. Devo pôr de acordo os meus atos com os meus pensamentos. Não, filho, não. Que dirão os meus inimigos mais tarde, sabendo que fui rezar a uma igreja? Que dirão? Hein? O simples do contínuo, na sua santa simplicidade, não compreendia que alguém jogasse seu futuro só porque fosse rezar um Credo, e uma Salve Rainha, a surdina. Não percebia, e, como não respondesse, Alves da Silva asperamente falou: — Nada... Nada... Precisamos ter firmeza de opiniões. O Brasil nada é por causa dessa nossa mudança contínua de crenças. Hoje liberal, amanhã conservador, depois republicano. Nada... Precisamos de caráter... Não posso... O humilde voluntário ficou estatelado. Todos os seus castelos, todas as suas esperanças derruíam-se. O padroeiro não o queria e ele ia andar pelo mundo sem anjo da guarda. As rugas de seu rosto paralisaram-se e, fazendo esforço por falar, calou-se, porque lhe parecia que, falando, se ia abrir em pranto. Com voz meiga pôde, minutos depois, dizer: — Mas, “Seu” Silva, eu já disse a toda a gente que o senhor era o padrinho. Já preparei tudo. Como há de ser? Com que cara vou ficar, Seu Silva? A isso, sem pronunciar palavra, eles ficaram ao lado um do outro. Alves da Silva ia devagar escrevendo no papel timbrado — “À S. Exa, o Exmo Sr Ministro...”, enquanto o Manuel dos Anjos, encostado à mesa, olhava amorosamente as letras, uma a uma, escorrendo da caneta. Por fim, o Silva levantou a cabeça e ternamente indagou: — Quem é a madrinha? — É Nossa Senhora da Conceição. — Qual Nossa Senhora da Conceição! motejou o Carlos da Silva. Pois Nossa Senhora pode lá ser madrinha de alguém! — É um modo de dizer, Seu Silva. Nossa Senhora é a protetora, mas quem leva à pia é uma amiga de minha mulher. — Bem. ‘Está direito. Pelos reis... É tarde? — Não senhor. — Pelos reis batizarei tua filha. E, depois de uma pequena pausa, o amanuense Silva inquiriu: — Já tem nome a tua filha? Já, sim senhor. Clara foi o que lhe pusemos. Se não lhe agradar, o senhor pode escolher outro. — Não. Não precisa. Fica esse mesmo. O batizado realizou-se na época marcada, e, como Alves da Silva ficasse noivo, algum tempo antes, foi sua noiva a madrinha. O contínuo relutou entre a noiva do amanuense e Nossa Senhora da Conceição, já escolhida para madrinha; e, depois de maduramente refletir, decidiu aceitar a noiva do amanuense. Era mais pronta a proteção, mais fácil de solicitar-se — conveio. Depois de casado, o Alves da Silva e sua mulher passaram a tratar a família do contínuo com uma benévola proteção. Recebiam ao Manuel e à mulher, em sua casa, sentavam-se com o humilde par à mesa, mas sempre, com um mínimo qualquer, faziam sentir a distância que os separava. Longe de se agastarem com esse tratamento, o contínuo e a esposa acolhiam-no com orgulho. Guardando a convicção de sua real inferioridade, um tal tratamento era para eles, como um prêmio conferido à retidão de sua honesta vida de casal. Em começo, o casal Silva levou uma vida trabalhosa. O amanuense, para fazer face às despesas do ménage, foi obrigado a procurar trabalhos fora da secretaria. Pelas casas de comércio, levava as tardes a escriturar e, ao chegar ao lar fatigado, aborrecido, os beijos da mulher estavam longe de lhe tirar o azedume de que vinha forrado. Dois anos depois, porém, devido a influência de parentes de sua esposa, fora promovido e, alguns meses em seguida, recebera, por morte de um parente seu, uma pequena herança, que lhe deu com que comprar uma casa regular no Engenho Novo. Repentinamente a depressão fugiu-lhe, e a pontinha de arrependimento, que já começava a ter do seu novo estado, aparecia-lhe agora como um grande crime. Dormia cedo, satisfeito, convicto de possuir uma vida inabalável; e de manhã, logo aos primeiros albores da madrugada, erguia-se e olhava o sol a escalar o nascente, amaciando o sonho da chefia da sua seção e um bom casamento para a filha que já tinha. Crescendo-lhe a filha, Alves da Silva procurou dar reuniões. Ele por si não gostava, mas era preciso que, desde menina, Olímpia se acostumasse à sociedade, porquanto, com o futuro que lhe preparava, impunha-se que, desde já, ela se fosse habituando. Escolheu alguns dias nos anais da família e nesses dias festejava com ruído os obscuros acontecimentos que simbolizavam. Aos primeiros festejos, o Manuel dos Anjos e a mulher não foram, embora convidados, mas, por fim, animados por convites reiterados, foram sempre. Chegavam cedo, antes de todos; e o contínuo tirava o paletó e ajudava nos últimos preparativos. — Oh compadre! Você me faz um favor, dizia dona Adélia da Silva prazenteiramente. — Pois não, comadre. — Você me vai ali na padaria buscar um quilo de farinha de trigo. Ou senão: — Florência!... Florência! gritava o Alves da Silva da sala de visitas. — Senhor, compadre, respondia. — Faz-me aí uma limonada e me manda trazer. Está ouvindo? De tarde, porém, vestiam-se convenientemente e, cheios de respeito, ficavam na sala de jantar assistindo a festa que ia na de visitas. Mais tarde, com o crescimento da filha, a maneira do casal de Catumbi cumprimentar os seus compadres do Engenho Novo mudou. O pai levava a filha, deixava-a lá, vinha-se, e no dia seguinte ia buscar.