Chapter 4
Vinde vêr, vinde ás janellas, Meninas de Portugal! Deixae o bordado, as telas, Deixae a agulha e dedal. Não temaes a feia inveja Vinde vêl-a cada qual. E que em honra d'ella seja Esta noite o arraial.
Sua belleza é tamanha Que pertence a Portugal. Como obra de arte, extranha, É um poema, é uma cathedral. Aos Luziadas semelhante, Aos Jeronymos egual, Onde os poetas e o mareante Dormem o somno final!
Nem Mafra com seu convento Tem maior a altivez .............................. Não se esquece, visto uma vez! Seu corpo é uma obra de graça E de que suave pallidez! A minha amada é a Alcobaça Onde jaz a linda Ignez!
É fidalga de nascença, Mais do que os Reis, do que vós. Já poetas na Renascença Cantaram seus bisavós. Mas mais fidalga é ella ainda Por sua alma (sem Avós). Ah! lá vem ella tão linda E vem rezando por nós!
A minha Amada é fidalga Que tem no mar seus brazões. Tem na bocca aromas de alga Brizas da India e outras regiões, O que prova d'onde vejo Já no tempo de Camões Era sobrinha do Tejo E prima dos Galeões!
É toda de cazos bellos A tua nobreza fina, Toda torres e castellos Com legendas de menina. Excedes Reis e Prophetas ........................ Menos os Santos e Poetas Que têm costella divina!
--Quatorze luas já foram passadas, Desde que eu a perdi e ao seu amor; Meu coração tem ainda as janellas fechadas, Ainda vestem de lucto os meus criados, Senhor.
O POVO Chymeras tombadas! Chymeras tombadas!
--A sorte deu-me já cabellos pretos Ai não precizo de os enluctar. --«Mas olhe as brancas... meu senhor» O branco é lucto, podes, Ama, descançar!
O COVEIRO O branco é lucto: são brancos os esqueletos!
--Ó illuzões que em ti puz tão amigas! Oh! a esperança que em minha alma é morta! Antes eu te visse cobertinha de bexigas Ou em farrapos, a pedir, de porta em porta...
TODOS Antes a visses morta! Antes a visses morta!
--Dei-te o meu coração a ti, bella entre todas, Coração, que a ninguem ainda se dobrara, Chego do mar, venho assistir ás tuas bodas, Ah! no mar salgado, porque não ficára.
UM PASTOR Toca a noivado em Santa Clara Dobra a defuntos tres legoas em roda!
--Fugiu-me a minha amada e com ella a fortuna, Meu Lar por terra! sem ninguem na multidão. Fiquei na vida só, como o Conde de Luna, Mais sua espada. Ai do meu pobre coração!
(Meu coração calla-te ou falla baixo: massa Os mais a nossa dôr. Sim calla-te é melhor) A procissão das Dôres em mim sinto que passa E passa... e passa... e cada vez será pior.
THEREZA Não que o fim d'uma desgraça É o começo d'outra maior!
--Parti um dia, n'uma romagem, Levando a Esponja, o Fel, a Cruz! Regresso altivo d'essa viagem Feliz, anciozo. (E nunca o suppuz)
THEREZA. Senhor Douctor, tenha coragem Olhe que mais soffreu Jesus.
--E que vejo eu, Senhor! O meu prato sem sopa, Meu Lar em pó, o amor d'ella já não é o meu. Minhas camizas, hoje, são de estopa, Foram de seda... Que vejo eu!
OS VIZINHOS Foste á pandega por essa Europa, Ahi tens o pago que o Senhor te deu!
O mundo deu-me cabellos pretos Ai não precizo de os enluctar! ................................... E mais em breve porque vou cegar...
UM CEGO A Anrique ceguinho dirão Olhe não vá tropeçar...
--Amar a ella e d'ella ser amado, Ir em breve pedir a sua mão! E de repente tudo escangalhado! Ai que desgraça! como os outros são!
THEREZA E que menino tão estimado! E tudo n'elle é perfeição!
--«Anrique meu amor, filho de Porto-Calle!» Me dizia ella... Ai do meu coração! Amor já me não tem, não ha já Portugal... E que vejo, Senhor! de ruinas pelo chão!
OS MENDIGOS Tantos vadios sem nada na mão Sempre á espera de D. Sebastião.
--Ó D. Sebastião a ti comparo, El-Rey de Portugal, a minha sorte, Se te encontrasse na vida, serias meu amparo, Ser-m'o has talvez depois da morte.
D. Sebastião, rey dos desgraçados, D. Sebastião, rey dos vencidos, El-Rey dos que amam sem ser amados El-Rey dos genios incomprehendidos.
Sahi, um dia, a barra á procura da gloria, Entre soluços e orações, cuja memoria Me faz tremer. (Ah foi n'uma tarde d'outomno, Que linda! O mar espreguiçava-se com somno...) Por essa barra sahem, cheios de peccados, Bandidos com seus crimes e mais os degredados, Traidores á Patria e ao Rey, infelizes e ladrões. Por lá sahiu, tambem, n'uma noite, Camões. No barco em que segui viagem nessa agoa, Levava aos hombros um bahu cheio de Magoa E mais um sacco de Dôr que por lá me ficou. De volta trago tres, que aquelle não chegou. Os Homens conheci n'essa jornada pelo mundo. Não lhes quero mal, seu erro é tão profundo! ............................................ ............................................
Todos partiram, todos fugiram. Os ladrões assaltaram-me á estrada Quizeram-me matar. Não conseguiram.
Ninguem me resta, não me resta nada! Fui enganado nos meus leaes amores. Já tive de salvar a minha vida á espada.
No meu jardim semiei lilazes, Passado tempo vi nascer ortigas; Cada dia que nova dôr me trazes?
Lavrei canduras e colhi intrigas, Nasceram odios onde puz perdões. Não digas mais meu coração! não digas
Procreei gigantes vi nascer anões, Plantei nesta alma vinhas da piedade E vindimei, Senhor! Ingratidões!
Nunca se deve ter tanta bondade, Quando é excessiva e tanto dó inspira E uma falta até de dignidade.
Ora eu assim cercado de mentira, Longe de tudo e todos, e enganado (Quando se foi tão criança o que admira!)
Vi-me sem Deus, só, triste e em tal estado Que se o contasse chorarieis... Não! Não falta em que empregar pranto salgado.
Que infortunio, meu Deus! que decepção! Minha crença catholica perdi-a, Já não sei persignar-me com a mão.
Durante mezes, sempre, dia a dia, Ainda fui, por habito, á Igreja: Não sabia rezar a Ave-Maria!
Chegava ainda até «bemdita sejas...» E ao ver a Virgem d'olhos sobre mim Córava de pudor como as cerejas.
Nunca na Terra se viu nada assim! Minha vida mudou-se de repente. A tosse veio... vós sabeis o fim.
Foi a queda do Imperio do Occidente! Foi o desastre de Alcacer-Kibir! A Hespanha veio com Philippe á frente!
Que mais viria e estava para vir? E fui a França consultar um Bruxo Que eu já de ha muito desejava ouvir.
Á porta havia uma cruz de hera e buxo E ao centro, no jardim, d'entre uma fragoa, Erguia-se em girandola um repuxo.
Bolas de sabugueiro á mercê da agoa Iam e vinham, graças de meninos, Ascenções de prazer quedas de mágoa!
Era a sorte a brincar com os destinos... Não deixava de ter engenho o dianho Do Bruxo! Mas que symbolos tão finos!
Entrei. E vi um Velho alto, tamanho, De barbas brancas a tocar-lhe os joelhos. --Sois vós o Bruxo?--«Sim! esse é o meu ganho!»
Tinha um sorrizo que só têm os velhos. E os labios brancos (de quem já não ama) Que contrastavam com os meus, vermelhos.
--Venho de longe, aqui, por vossa fama. Vosso nome chegou ao meu paiz. --O teu paiz, Senhor! como se chama?
Não: dá-me a mão, ella melhor m'o diz: «Oh vens de Portugal? Oh se o conheço! Manda-me para cá muito infeliz...»
Ouvindo taes palavras, estremeço. N'elle fixo os meus olhos de admirado E que me diga os fados eu lhe peço.
Sombrio, o Bruxo assenta-se, callado, N'uma cadeira antiga, ao pé do lume. Eu assentei-me timido, ao seu lado.
Ó momento que um seculo resume! O São Paulo do Amôr! Martyr christão, Que ao vêr a espada já lhe sente o gume!
Na sua mão tomou a minha mão. Seus olhos frios crava-mos na palma, Mas de repente muda de expressão.
Que passado, Senhor! tem dó d'esta alma! Catastrophes! Naufragios! tantos perigos!... Mas eu logo acudi, com grande calma:
--Basta. Deixae-me em paz o tempo antigo. Eu conhecia-o já antes de vós. P'ra que lembrar-m'o? Sêde meu amigo!
N'uma sala contigua, etherea voz Rezava a ladainha, eram mulheres. --«_Estrella da manhã!--ora por nôs!_»
--«Nada te digo, pois que assim o queres! Ouves? Lá dentro, rezam minhas filhas. E rezarão o tempo que quizeres.»
E continuou a lêr: «Que maravilhas! Que mão extranha! mão de tempestade! Mares, golfos, canaes, cabos e ilhas!
Vaes em meio da tua mocidade. Tens vindo em tua nau, desde criança, Por um sombrio mar da antiguidade.
Agora, aqui, o temporal descança E vê: segundo a altura do quadrante Dobras o Cabo da Boa-Esperança!
Coragem! meu sombrio navegante! Paciencia! mais um pouco e aportarás Á India! mais tua esquadra de almirante!
Alli, te aguardam Bens te espera a Paz A boa Gloria e mais do que isso, até, Um grande amor,--e alli te coroarás!»
O Velho disse. E, logo, puz-me em pé. Mui feliz, não querendo ouvir o resto, Que eu sei o vasio que este mundo é.
Adeus! disse eu áquelle sabio honesto, Formozo e de olhos grandes como céus! Adeus! e parti logo, altivo e presto.
Caía o sol no oceano. Orei a Deus. Uma nau me esperava... Erguemos ferro E abalamo-nos de França. Adeus! Adeus!
Que peccado Senhor! ou grande erro No mundo commetti que me dás tantos Trabalhos, como na Africa em desterro?
Não posso ser bem sabes como os Santos. Mas quantos homens neste mundo avisto Tão felizes (e maus!) quantos e quantos!
E se não fui eu que pequei, ó Christo! Peccariam os meus antepassados? Quem foram elles? Vem contar-me isto!
Religiozos, maritimos, soldados? E justas são as leis com que me aterras Sendo elles os unicos culpados?
Na Arabia, na Phenicia ou outras terras Cauzaram, vae em seculos, paixões Fomes e sedes, ou atearam guerras?
Comeu a terra os ossos d'esses leões, As suas cinzas foram-se nos ventos E eu soffro, apoz quinhentas gerações?
Que injusta couza! que desleaes tormentos! Que faz rezar, á noite, de mãos postas, De que serve cumprir teus mandamentos?!
Quem sabe se não foram meus avós, Senhor! Que tanto e tanto te offenderam, Mas meus archi-primeiros bisavós?
Quando os vulcões da terra arrefeceram, E lentamente, aos poucos, e as primeiras Effloraçoes da vida appareceram;
Talvez, que um tigre eu fosse, que nas carreiras E uivando, á lua, e destruisse as mattas Que levaste a criar noites inteiras!
Talvez, no dia em que baixaste Á terra, para ver a tua obra Vestido d'alvas vestes como pratas,
Fosse eu, cobarde! a pequenina cobra Occulta entre jasmins que te mordeu... Quando ias a colher algum... de sobra!
Outrora o sol ardia no alto céu, Pediste sombra á arvore n'um monte Que ergueu a rama e essa arvore... era eu!
Quando o sol caía, á tarde, no horisonte, Todo vermelho como agora, vêde! Sequiozo, ias beber a agoa da fonte,
E eu (que era agoa) não quiz matar-te a sede! Quem sabe se uma vez, pela noitinha, Foste ensaiar o mar, deitando a rede,
E cobiçou o peixe que lá vinha E t'a furtou, (brinquedos de criança!) Alguma onda do mar, minha avósinha?
Mas mesmo assim, Senhor! Senhor d'esp'rança! Como devo soffrer perseguições? (Eu concordo) é legitima vingança?
Ah não! eu não descendo de leões Nem da vil cobra que se vae de rastros, Que só concebe e dá á luz traições!
Nem dos pinheiros altos como mastros Nem das agoas que vão regando os milhos: Nós os poetas descendemos de astros,
Nós os poetas, Senhor! somos teus filhos! ... Assim scismava eu pelo mar alto Sob o luar partindo-se em vidrilhos...
Quando n'uma manhã de azul cobalto, Ao acordar, me vi no claro Tejo Orei a Deus. E logo sahi d'um salto.
Mezes passaram, longos! que nem vejo Que differença em seculos, ou mezes: O tempo marca-o a ancia do Desejo!
Que fazia eu? Nada. Scismava, ás vezes, Errante, ao «Deus-dará» da vida: Sempre assim fomos nós, os Portuguezes!
Ora em dia de Santa Apparecida (Mais uns minutos, esperae, Senhores, Que eu acabo esta historia tão comprida),
Errava n'um montado entre pastores Quando, subito, vi uma Donzella Tão linda! n'um Solar, colhendo flôres.
Oh doçura de carne ou de estrella! Que esvelteza e que graça de alfenim! Meu coração disse-me baixo: «É ella!»
Qual de vós, Homens! Já não teve assim Uma vizão, vendo erguer-se entre Nuvens, a vossa torre de marfim?
Deixae que a minha alma se concentre. Deixae! que esse dia é maior que quando Minha Maesinha me pariu do ventre.
Quedei-me, ao vêl-a, em extasis olhando. Dobraram-se-me os joelhos e ajoelhei; Meus labios moviam-se... rezando!
Quem será ella? a filha d'algum Rey? Atraz seguiam-na duas aias velhas: Quem será ella, quem será? Não sei.
Era em Agosto. O sol ardia. Abelhas Voavam, ao sol, emquanto ella lia Um livro de horas com folhas vermelhas.
Que paz! nem uma arvore bulia! E callavam-se as fontes! Que doçura! Mas de repente uma voz chamou: «Maria!»
Maria se chamava! Oh que ventura! Partiu. Eu quiz seguil-a, mas não pude! Que torpor esse que ainda hoje dura!
A virgem me proteja e Deus me ajude! Vae alta a noite, eu caio de fadiga, Bambas as cordas do meu velho alaúde!
Ó Genio, não te partas sem que eu diga O encanto, mais a graça encantadora D'aquella virgem Castellã antiga.
Minha fronte vergou-se, scismadora: --Quem será ella, mystica vizão! Parece com seu Ar Nossa Senhora!
Mas eu já tive tanta decepção (Lêde, lêde, o principio d'esta historia) Que contive essa subita paixão.
Tudo na Vida engana, até a Gloria. Para deixar de o crêr fôra preciso Lavar no Lethes minha fiel memoria.
Assim pensava eu, meio indecizo, Quando na estrada junto a mim passava Um velhinho a rezar ao Paraizo.
N'um cajado de lodo se apoiava. E detinha-se, ás vezes, um momento, Erguia ao céu o olhar, e suspirava.
As barbas brancas, fluctuando ao vento; Devia ter um seculo de idade E talvez vinte ou mais de soffrimento!
Parou ao vêr-me e olhou-me com bondade: Depois na sua voz meiga de briza: --Uma esmola, Senhor, por caridade!
Uma lembrança dentro em mim se enraiza. --Dou-te, bom velho! tudo que quizeres, Se em troca me dás vestes e camiza.
O velhinho sorriu como as mulheres. A quinzena me deu, e eu dei-lhe a minha, Que na botoeira tinha malmequeres...
Ninguem a essa hora pela estrada vinha. Tudo despiu, me deu: fiquei perfeito. E eu dei-lhe em troca tudo quanto tinha.
Mas não estava ainda satisfeito, As suas barbas brancas eu queria, Comprar-lh'as era falta de respeito!
Comprar-lh'as nunca eu me atreveria! Mas o bom velho o pensamento ouviu, Que aquelle olhar excepcional ouvia.
Ó grandes barbas! que ainda ninguem viu! Ó grandes barbas! como eram bellas! Tal como outrora as de D. João, em Diu!
--Não lh'as vendo, Senhor! mas dou-lh'as, quel-as? Ó povo portuguez! quanto és sympathico! Ó povo portuguez das caravellas!
Cortou-as. Deu-m'as. Eu fiquei extactico. Beijei-lhe as mãos curvado... E o bom velhinho Lá se foi, a scismar... tossindo... asthmatico...
O sol cahia ao longe no caminho! Não tarda a noite, já lhe sinto os passos, Mas ha tempo: ella anda devagarinho.
Enfarpellei sem grandes embaraços; A toillete tem poucos elementos, Muitos remendos sim, rotos os braços...
Perdia-se o velho, ao longe, em passos lentos; «Que nome tens, amigo?» lhe gritei. «Manoel». E digo eu, «dos Soffrimentos».
Cahia a noite: com pressa caminhava. Segui os passos deixados por Maria Que flôres na mão, andando, desfolhava.
Não era aviso que assim daria? O meu olhar teria percebido? Que luz d'esperança a minha alma via!
Entrei no pateo, Senhores! Mas que atrevido Irão achar o pobre esfarrapado! Um mendigo velho... e tão mal vestido!
Pedi esmola e parei sobresaltado. Emquanto alguns me enchiam a saccola Um olhar lindo em mim era fixado.
E que olhar p'ra mim! tanta doçura evola! Senhores, eu não me tinha enganado... (Assim julguei então... a Vida foi-me escola!...)
Ella passou, de manso, para o meu lado E murmurou o meu nome, assim, baixinho... Disse-me depois que o houvera sonhado! .......................................... ..........................................
THEREZA
--«E depois, menino, sabemos já o resto... Para que mortifica assim o coração?»
--Ai minha Thereza! tu tens talvez razão: Esse amor primeiro foi-me tão funesto!
O os meus dias idos em contemplação! O os meus loucos sonhos que d'ahi eu trouxe! Fallava eu ás flôres, como se ella fosse: «Maria» eu lhes chamava, cego de paixão.
Hei-de gravar-te em bronze e tornar-te immortal! Eu hei-de lançar o teu nome aos quatro ventos! Eu, o humilde Snr. Manoel dos Soffrimentos, Eu, por graça de Deus, poeta de Portugal.
--Quem é, Thereza, que bate á porta Quem vem a esta hora quebrar meu somno? --Ninguem é, meu Senhor, a noite é morta, São folhas a cahir, que é já outomno...
«Quando eu era moça e menina, A-i-ó-ái! Um velho, um dia, leu-me a sina. Ha que tempos que isso lá vae! A-i-ó-ái!»
(O vento continua uivando).
--Quem é, Thereza, que oiço clamores, Vae vêr á porta, vae n'um instante! --Socegue, durma, são os lavradores, Que passam para a feira d'Amarante...
E vá de roda! e vá de roda! Olé! E vira e vira e já virou! E na tarde da minha boda Houve baile, houve baile, olé! Tomou parte a aldeia toda, E vá de roda! e vá de roda! Olé!
(O vento uiva sempre).
--Quem é, Thereza? quem é, Thereza? Quem é, Thereza, que bate á porta? --Olhe a Fortuna não é com certeza, Por isso... durma, durma, que lhe importa?
(O vento uiva, uiva).
--Não ouves, Thereza, tres pancadinhas? Vae vêr: é a D. Felicidade. --Mas as senhoras não sahem sósinhas N'uma aldeia, nem mesmo na cidade...
Durma menino, a dormir Não soffre tanta paixão, Os sonhos que lhe hão de vir Afasto-os eu, com a mão.
Durma menino, a dormir Não ouve o seu coração, E p'ra o ajudar a dormir Eu canto-lhe uma canção:
Era uma vez, n'um paço sobre o Tejo, Um moço Rey... de lindos olhos verdes; (Senhor! se a luz dos vossos, perderdes, Tereis os d'elle que sempre abertos vejo.)
Andava o moço Rey com seu gibão De prata branca, reluzente d'oiros. Tinha em anneis os seus cabellos loiros, No céu era anjo e cá... Sebastião.
(O vento geme, geme sempre).
--Quem é, Thereza? quem é, Thereza? Não ouves passos, que vão pela serra Não ouves gritos, quem é, Thereza? --É D. Sebastião que vae para a guerra. ....................................... .......................................
Por uma tarde de chuvinha miuda e vento, D'estas tardes, meu Deus! que fojem os paquetes, E a chuva tomba sem parar um só momento, A chuva que parece de pontas de alfinetes,
Por uma tarde triste assim, é que Anrique Partiu. De novo abandonou o seu solar. Da sua aldeia os pobres pedem-lhe que fique, E Thereza bem faz tambem pelo guardar.
Por uma tarde de chuvinha miuda e vento, Anrique foi bater á porta d'um convento. Bateu á porta, um Frade veio-lhe fallar. «Que desejaes, Irmão»? e respondeu: «Entrar».
Frades! meus Frades! ai abri-me a porta! Abri-me a porta, que eu pretendo entrar. Eu trago a alma toda ferida, morta, Só vós, Fradinhos, m'a podeis curar!
Ha quantos annos vós estaes fechados N'estas muralhas de granito e cal! Ah se soubesseis, Frades corcovados! O que vae lá por fóra, em Portugal! ...................................
Anrique, até que emfim cedes ás magoas! Até que emfim eu vejo-te chorar! Chorae, chorae, ó longos fios de agoas! Ó olhos grandes como os globos do Ar!
Ah chora Anrique, chora nos meus braços O moço Poeta que te está a cantar! Choremos entre beijos, entre abraços, Tambem eu choro por te vêr chorar!
Ah chora Anrique, chora, não te escondas! Tens pudor que te venham encontrar? Choram os cannaviaes, choram as ondas, Só os cynicos não podem chorar!...
Ah chora, Anrique, chora no meu peito, Assim baixinho, lento, devagar! Custa-te muito? não estás affeito! Chora, meu filho, que é tão bom chorar!
Anrique ouve-me bem, minha criança! Nem tudo se perdeu com o teu Lar. Ainda tens na vida uma esperança... Meu pobre Anrique, és tão lindo a chorar!
Teu coração está morto, bem morto. Nada no mundo o poderá salvar. Ah! moço que tu és, que desconforto! Tens razão, oh se tens! para chorar!
Tens razão, Anrique; mas no emtanto, Quem soffreu como tu sem descançar, Anrique, ou dá n'um cynico, ou n'um santo: Não és cynico, não, sabes chorar.
Ouve-me, Anrique: n'esses céus existe Um homem, Pae da Terra e mais do Mar, Que fez o Mundo (por signal tão triste) E os olhos, não p'ra o vêr, mas p'ra chorar.
Vá! offerece-lhe a tua mocidade. Vá! vae soffrer por elle e trabalhar. Ah bem sei que custa tanto, n'essa idade... Mas que has-de tu fazer? Chorar? Chorar?
Não tens na vida uma alma amiga (Tu bem no sabes) para te amparar. Só eu, embora curvo de fadiga, Tenho paciencia p'ra te ouvir chorar!
Todos os mais, malvados e egoistas, (Que tudo a Deus, um dia, hão de pagar) Não te poriam nem sequer a vista, Fugiriam, ao verem-te chorar!
A adversidade é uma maravilha Que certas almas sabem respeitar, Mas aos olhos dos mais a dôr humilha... Ah quanto é grande vêr um rei chorar!
Ah pensa, pensa bem na tua sorte, Cautela, Anrique, nada de brincar. Ha outros males piores do que a morte, Cautela, Anrique, vamos trabalhar.
Vae trabalhar por Deus.--«Mas como e aonde? Não vos disse que morto é Portugal? P'r'o trabalho quem antes era conde!»-- --Ai meu Anrique, não te fica mal!
Não me dizes que lá por Portugal Andam as almas todas quebrantadas? Vae, meu filho, vae para Portugal Vae levantar as flores, já tão quebradas.
Anda, meu filho: vae dizer baixinho A esse povo do Mar, que é teu irmão, Que não fraqueje nunca no caminho, Que espere em pé o seu D. Sebastião.
Anrique, vae gritar por essa rua --Virá um dia o «Sempre-Desejado»! Deu a vida por vós, Tu, dá-lhe a tua, Esquece n'elle todo o teu passado.
Procura bem Anrique, em Portugal; Procura-o na flôr das primaveras, Procura-o na sombra do olival; Procura á luz de todas as chymeras... ..................................... .....................................