Chapter 3
Formoza Cintra, onde, alto, as aguias pairam, Cintra das solidões! beijo da Terra! Cintra dos noivos, que ao luar desvairam, Que vão fazer o seu ninho na serra; Cintra do Mar! Cintra de Lord Byron, Meu nobre camarada de Inglaterra! Cintra dos Moiros com os seus adarves, E, ao longe, em frente, o Reyno dos Algarves!
VIII
Romantica Lisboa de Garrett! Ó Garrett adorado das mulheres, Hei-de ir deixar-te, em breve, o meu bilhete Á tua linda caza dos _Prazeres_. Mas qual seria a melhor hora, ás sete, Garrett, para tu me receberes? O teu porteiro disse-me, a sorrir, Que tu passas os dias a dormir...
IX
Pois tenho pena, amigo, tenho pena; Levanta-te d'ahi, meu dorminhoco! Que falta fazes á Lisboa amena! Anda vêr Portugal! parece louco... Que patria grande! como está pequena! E tu dormindo sempre ahi no «choco». Ah! como tu, dorme tambem a Arte... Pois vou-me aos toiros, que o comboio parte!
X
Ó Lisboa vermelha das toiradas! Nadam no Ar amores e alegrias. Vêde os Capinhas, os gentis Espadas, Cavalleiros, fazendo cortezias... Que graça ingenua! farpas enfeitadas! O Povo, ao Sol, cheirando ás marezias! Vêde a alegria que lhe vae nas almas! Vêde a branca Rainha, dando palmas!
XI
Ó suaves mulheres do meu desejo, Com mãos tão brancas feitas p'ra caricias! Ondinas dos Galeões! Nymphas do Tejo! Animaeszinhos cheios de delicias... Vosso passado quão longiquo o vejo! Vós sois Arabes, Celtas e Phenicias! Lisboa das Varinas e Marquezas... Que bonitas que são as Portuguezas!
XII
Senhoras! ainda sou menino e moço, Mas amores não tenho nem carinhos! Vida tão triste supportar não posso: Vós que ides á novena, aos _Inglezinhos_. Senhoras, rezai por mim um Padre Nosso, N'essa voz que tem beijos e é de arminhos. Rezae por mim, vereis,--vossos peccados, (Se acaso os tendes), vos serão perdoados...
XIII
Rezae, rezae, Senhoras por aquelle Que no Mundo soffreu todas as dores! Odios, traições, torturas,--que sabe elle! Perigos de agoa, e ferro e fogo, horrores! E que, hoje, aqui está, só osso e pelle, A espera que o enterrem entre as flores... Ouvi: estão os sinos a tocar: Senhoras de Lisboa! ide rezar.
ÁS SENHORAS DE LISBOA
Ainda bem, Senhor! que deste a noite ao mundo. Gosto do sol, oh certamente! mas segundo O meu humor. Á noite, ha esquecimento, ha paz, De dia, apenas tenho um ou outro rapaz Para a palestra. Ah sim! e o mar tambem ás vezes. Mas agora (ha aqui uns tres ou quatro mezes) Faço da noite dia. As grandes descobertas Que eu descobri! Estou de janellas abertas Quando os outros estão de janellas fechadas... Ó fontes a correr como linguas de espadas, Ó fontes a furar quaes mineiros a fragoa, Ó fontes a rezar, como freirinhas d'agoa, Com ladainhas na voz, de joelhos nas encostas, E só vos falta estar, como ellas de mãos postas! Ouvi, lá rezam: sob o céu todo estrellado, «Padre-Nosso! que estás no céu, sanctificado...» Noites e dias sem parar um só momento, Só vós me ouvis, e eu só a vós e mais o vento. Que dôr é a vossa! qual será? não sei, não sei Chorae, fontes, chorae! Fontes correi, correi! Agoas, só de perdão, suspiros e piedades, Ó fontes de Belem! Ó fontes de saudades! Contae para eu scismar, uma bonita historia Qualquer, a que vos vier mais depressa á memoria. Contae que eu sou ainda uma criança, gosto Tanto de historias! pelas luas brancas de agosto! Ó rios a contar historias, como as criadas, Historias de ladroes, mais historias de fadas, A do Zé do Telhado e da triste viuva Que só sahia á rua pelas noites de chuva! E essa (que faz chorar) de Pedro Malas Artes! Os tristes ventos a assoprar das quatro partes: São os ventos do sul: (cegos pedindo esmolas, Soffrem tanto com elle!) mais o vento das Rôlas; Mais o que vem do oeste, que abre e fecha as portas E geme nos pinheiraes, pelas noites mortas Erguendo as folhas seccas, cahidas pela terra. Mais o vento do norte, o vento da Inglaterra Que azula o céu e o rio, e deu ao mar a gloria De levar as Naus do Gama á India da victoria. E o mar, Senhor! o mar, ai! como chora ás Luas! Pelos seus golphos e canaes (as suas ruas) Sonetos de ais que só comprehende quem ama: E de noivos a quem deu o lençol e a cama. As descobertas dos meus Paes, dos Portuguezes: (Pois quando está p'ra isso tambem conta ás vezes) O mar! como elle conta ás noites tanta historia, Contos de cavalleiros sublimes de victoria; Contos de espadas nuas, em mãos desses guerreiros, E contos de segredo que ouviu aos marinheiros Lá pelas noites calmas, á luz da lua branca, Quando choram seus males, que só a lua estanca. O mar! O mar, oh sim! O mar é meu amigo. Quantas vezes a rir, vem conversar commigo N'essas noites tão longas d'infinda solidão Em que vela no mundo, tão só meu coração! Quantas vezes na hora em que dormem crianças E as flores dormem tambem, e dormem as esp'ranças Para embalar o peito de quem no mundo as tem; Á hora em que ha mais treva nas sombras desta terra, (Que tantas sombras, ai! de dia mesmo encerra.) Á hora em que ha mais luz no céu todo estrellado, Eu fico só e scismo, nas dôres do meu passado. E quando emfim eu chóro, pensando nessas magoas Lá oiço a voz sublime d'aquellas grandes agoas Que querem vir chorar commigo e conversar. Historia é uma d'elle, esta que vou contar; Ouvi-a em alta noite escura de janeiro E p'ra m'a vir contar, o Mar chorou primeiro.
................................................ Senhoras escutae-a! se tendes coração, Se daes esmola ao pobre, com vossa propria mão: Lembrae-vos que ouvir a voz d'uma desgraça Tambem é caridade, Senhoras cheias de graça! Dae-me um pranto vosso a este soffrimento, Senhoras! uma lagryma. Com ella me contento. ................................................
Senhora minha, perdão Anjo do meu coração Pois a escrever eu me affoito? Estamos no julho, a oito Dia de Vasco da Gama (D'oravante assim se chama) Ai as saudades que eu tenho! Pois olha escrevo-te e venho Dar-te noticias do teu Apaixonado. Sou eu. Anrique, pastor de ovelhas. Tenho-as brancas e vermelhas, Pretas, de todo o tamanho. Tivesse-te eu no rebanho Porém como tu ainda Não vi nenhuma mais linda. Eu pensei que tu amavas O teu pastor, mas brincavas. Mas amo-te eu, muito embora. Não sou amado, Senhora? --Não o és, nem nunca o has-de ser-- Pois seja o que Deus quizer! Vou pelas serras mais altas Mas vejo que tu me faltas E logo fico a pensar Que bom e triste é amar! Um amor sem esperança É um bem que não se alcança. Nasci debaixo d'um signo Que em nada me é benigno; Já não póde ser desfeito O que está feito, está feito. Ai de mim! não sou amado! Ai de mim, triste e coitado! Fumo saindo dos cazaes Que aspirações vós levaes! As minhas não vão tão alto: ............................ São bem simples e modestas: Bons dias e boas sestas! Com mui pouco me sustento: O amor é meu alimento. O meu pão de cada dia, Lagrymas, minha agoa fria, Quem me dera andar comtigo No mar cheio de perigo! Ir á Africa n'uma Nau Na _San Rafael_ de pau, Como os nossos Portuguezes! E andar por lá sete mezes, Sete annos, ou mesmo mais Sem medo dos temporaes! Outros ha pior de passar... Já tantos tive no mar Já tantos tive na terra Que já nenhum me faz guerra. Nós dois sós, e porque não? Sem maior tripulação. Eu seria o commandante D'aquella nau almirante! Oh que formoza serias Queimada das marezias! Vestida de marinheiro Ai sobe! sobe! gageiro Aquelle topo real, Diz adeus a Portugal, Que lá nos vamos, Adeus! E partiriamos com Deus! Oh que viagem venturoza! Pela Azia religioza Mais pelas terras do sul Com mar e ceu sempre azul! Vêr no ceu planetas novos Vêr pela terra outros povos, Outras leis, novos costumes, Capellas cheias de lumes, Á California do Oiro E lá achar um thesoiro. Vêr (que isso nunca se perde) O celebre «raio verde» Do sol-pôr no mar da America! Oh! a viagem chymerica! De gatas, como as gatinhas, ........................... Tu subirias aos mastros (Tão altos que vão aos astros) Sem receios das procellas! E dobrarias as velas A bujarrona, a latina. Com tuas mãos de menina! Oh! vem d'ahi commigo! eu parto! Quando estivesses de quarto A mão no leme segura A nau iria á ventura Ó suspiro das aragens! Ó phantasticas miragens! Não tenhas mêdo. Morrer Não custa nada, é viver. Custa menos que se pensa. O principal é ter crença. Morre o corpo, a alma abre aza E vae: é mudar de caza... Mas nem sempre ha mares grossos E que houvesse! Os padres nossos Fazem muito em tua bocca. Voz dôce acalma voz rouca! Tu não temes temporal És filha de Portugal! Se morressemos, que importa! Que bella serias morta! Minha Senhora da Esp'rança Já na Bemaventurança! Ir comtigo pr'o outro mundo, E juntos para o profundo Para esses mares salgados, N'um abraço amortalhados! Meu pensamento fluctua Perdoa (lá vem a Lua) Esta carta tão comprida! Mas eu amo nesta vida Duas coisas, tu primeiro Depois o mar, sou poveiro! Mas hoje, Senhora minha, Sou pastor sem pastorinha, Ainda hontem era estudante Porque não sou navegante! Foi sempre a minha paixão; Era a minha vocação. Mas a minha Mãe não quiz Talvez fosse mais feliz. Ah, Senhora! vou deixar-te! Minha Mãe por toda a parte Anrique! Anrique, onde estás? A pregação que ella faz Tudo por amor de ti (E já lhe oiço a voz d'aqui) E as ovelhas? Ai, Senhor! Não sirvo para pastor. Cada uma p'ra seu lado Não dou conta do recado. Minha Mãe ralha que ralha Ai, Senhor! Jezus me valha. E adeus que me vou embora Pois, boas noites, Senhora! Ah! eu estou, aqui, tão bem... E lá torna a minha Mãe --Anrique, Anrique, onde estás? --Onde te somes, rapaz! Tem razão, é já tão tarde! Na lareira o lume arde E fuma, aceza a candeia: Minha Mãe que faz a ceia! Ha que tempo ella passou Com a lenha que encontrou! Desprezada nos caminhos... Nós somos mui pobrezinhos! E eu, aqui, á lua, á farta. Prompto. Acabo, aqui, a carta. Adeus! são horas de eu me ir Cear, rezar... e dormir. Nossa-Senhora me ajude! A minha Mãe não se illude Com toda esta demora Ella bem sabe, Senhora! E lá torna a Mãe: Anrique Queres que eu me mortifique? Anda cear, não tens fome? Jezus! Jezus! Santo Nome! Eu bem sei e bem no entendo. O que são Mães! Em me vendo Quando todo me concentro Que trago paixão cá dentro. Isto já ha muitos mezes. Mas nada diz. Só ás vezes Quando não como e me deito Assim... a tossir do peito, Tambem não quer ella comer E aventura-se a dizer: «Amores--filho, paixões Só trazem consumições» E assim é, assim, Mãesinha! Pois adeus, Senhora minha! ..........................
Vae alta a Lua branca, serena, silenciosa Da luz dos Boulevards, fugindo desdenhoza. É a hora em que Paris começa a louca vida Na tragica cidade ao sol adormecida. O Paris de Baudelaire! Paris da minha penna Que em tempos já molhei nas agoas do teu Sena Que mysterios eu leio, Paris, no teu folgar! Que mysterios eu vejo, passando os Boulevards! Ó vêde a pallidez da luz d'aquelle gaz, Vêde a côr mortuaria, que aos rostos elle traz! Olhae p'ras criancinhas que passam sob a chuva; Olhae p'ro pranto facil dos olhos da viuva Que pede aqui cantando, e canta ali chorando, E assim de pranto e riso seu pão vae amassando; Ó Paris de Verlaine e poetas sonhadores! Mais de mendigos ricos, de fidalgos salteadores; Paris que me acolheste n'agreste mocidade Eu não te amo não, mas dou-te uma saudade. Senhoras, como o Sena vae triste, amarellento, Turvado pelas rugas sulcadas pelo vento.
Não vejo aqui, Senhoras, a luz do vosso Tejo Nem vejo o céu azul, Senhoras!... mas eu vejo Uns olhos fitos n'agoa... uns olhos luzitanos, Que pela luz que tem não contam muitos annos.
E a lua que anda fugida, lá pelo céu profundo Deixou cahir no rio, o seu retrato, ao fundo. .............................................
Senhoras, Anrique ouvira a voz d'uma das freiras E quando no adro branco, as notas derradeiras Perderam-se voando, julgou n'um som dorido Reconhecer a voz do seu amor perdido!
São sonhos de poeta; mas sonhos como lyrios Tão brancos como elles... vermelhos nos martyrios!
............................................. Vinde d'ahi, Senhoras, commigo quereis ouvir? Ingenuo é o seu cantar... talvez vos faça rir!
«Vi-te ha pouco rezando nas novenas Ai tão linda, tão pallida, meu Deus! Quaes são as tuas dores, as tuas penas, Por quem levantas tuas mãos aos céus!
«Cantae, ó freiras Benedictinas, Cantae, cantae, Cantae novenas, cantae matinas, Cantae, cantae.
«No Boul'Mich, os castanheiros da India Começam a despir as folhagens, ao luar, Que bellas armações, para galeras da India Se ainda houvesse Indias, neste mundo, a conquistar!
«Tudo tão triste! todos tão tristes! Olhae, são poucas todas cautelas Doentes do peito, cuidado, ouvistes? Tirae do armario vossas flanellas!
«Cantae o canto Gregoriano Para eu chorar!... Cantae ó freiras! durante um anno Para eu... chorar!...
«Andam meus olhos luzitanos A procurar-te, Minha chymera! tenho vinte annos! Eu quero amar-te!
«Ó sinos de toda a França Cantae, cantae o meu mal, Tão alto, essa voz não cança, Que ella os oiça em Portugal!
«Cantae o canto Gregoriano Para eu chorar!... Cantae ó freiras durante um anno Para eu... chorar!...» ...................................
Morrera já o Sol; os altos castanheiros Choravam á voz do vento, quaes lugubres troveiros, Os choupos retorciam os troncos já despidos, Parecendo erguer ao céu seus braços resequidos, Ao darem as «Trindades» no claustro, de mansinho, Fugiu um bando d'aves pousadas no caminho. A cruz meio inclinada parecia desmaiar Perdida na côr pallida da luz crepuscular; Eram mysterios da hora nervoza da tardinha Em que s'adeanta a morte, e treme a alma minha! A hora em que perdido do Lar, dos meus Irmãos, Scismando no meu Lar, eu junto as frias mãos; A hora em que o traidor por mais que faça esforços Não póde em si calar o susto dos remorsos; A hora em que se acende o lume nas lareiras E ladram cães ao longe, em véla pelas eiras; A hora em que entristece na rua o caminhante, E pára vendo o Sol cahir agonisante; E as raparigas trémulas se vão fechar as portas, Ouvindo ao longe as rãs, gritar em agoas-mortas!
Ó Senhora d'altas Espheras! Castellã das minhas chymeras! Ó meu amor! Amor mystico, amor celeste Que tu pelo Natal me deste, Senhor! Senhor!
Sou forte agora, e temerozo, Sou um rei Todo Poderozo Senão olhae! Só diante de ti me humilho Senhor! Senhor! Sou teu filho E tu meu Pae!
Venham armadas de Inglaterra Venham as naus de toda a terra, De todo o mar! Que eu só por entre ellas e o Oceano, Na minha nau a todo o panno, Hei-de passar!
Venha o exercito da Allemanha, Mais seus alliados, mais a Hespanha, Hei-de vencer! Tu és grande, és forte, Guilherme! Tu és um mundo, eu sou um verme... Vamos a vêr!
Venha uma immensa tempestade, Caiam raios sobre a cidade, Venham trovões! Que eu irei só para as janellas, Sem Santa-Barbara, sem velas, Sem orações!
Soldados de Alsacia e Lorena! (A bella França assim m'o ordena) Vamos! Então? Atirae balas aos meus peitos, Que eu apanho-as, como confeitos, Na minha mão!
Venham Philosophos, Douctores, Venha Spinoza, outros maiores, Gregos, Judeus; Venham Estoicos, Pessimistas, Cynicos, os Positivistas... Eu creio em Deus!
Ó morte, minha amiga de outr'ora Que fazes ahi, ha mais d'uma hora! Queres-me? Ah sim? Cortei as relações comtigo Ó vae-te! já não sou teu amigo, Nem tu de mim!
Ó Luiz de Camões e da Esperança! Ao pé de ti sou uma criança, Mas ouve cá. Vamos cantar ao desafio, Á sua janella, sobre o rio, Ver qual mais dá...
Ó troveiros de toda a parte D. Pedro!, D. Diniz!, D. Duarte! O que sois vós? Minha lyra é do seu cabello, E os meus versos, quereis sabel-o? São a sua voz!
Ó vento cantante do Norte! Minha lyra agreste é mais forte Do que a tua! Vinde todos, troveiros do ar, Em desafio commigo a cantar Por essa rua!
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Vem entrando a barra a galera «Maria» Que vem de tão longe e tão linda que vem! Toca em terra o sino p'ra missa do dia Em frente, em Santa Maria de Belem!
Mareantes trigueiros no alto dos mastros, Aí dobram as velas não são mais precizas! Ai que lindas eram, ás luas e aos astros! Que doidas, aos ventos! que meigas, ás brizas!
Desdobra as amarras! apresta a fateixa! Pois todos em breve a nau vão deixar; Ó terra! Que saudade a de quem te deixa Ó terra! pela aventura do alto mar!
Entra o piloto e abraçam-se estes e aquelles. Abraçam-se e riem tanto á vontade... Abraços que levam almas dentro d'elles, Sorrizos de boccas que fallam verdade!
Só as intende (capitães, não as sentís) Quem, algum dia, passou as agoas salgadas Quem, um dia, as passou n'uma hora infeliz Quem, um dia, as passou, com as frontes curvadas.
E «Maria» vae indo pelo Tejo acima, E scisma Anrique: «Que lindo Portugal!» Vem as nymphas, vae uma dá-lhe uma rima, Vae outra (gostam d'elle) e vae faz-lhe um signal.
E Anrique scisma: «Quem não te viu ainda! Ó minha Lisboa de marmore! Lisboa De ruinas e de glorias! Tu és linda Entre as cidades mais lindas, ó Lisboa!»
Ó minha Lisboa! com oiros tão constantes Pelas serras e céus e pelo rio! Com seus Jeronymos dos Poetas e Mareantes! Lisboa branca de João de Deus!
I
Ó Lisboa! n'um seculo bem perto Quando a Africa e as Azias se mostrarem Civilizadas, sem um só deserto, E as esquadras do mundo inteiro entrarem N'aquelle Tejo sobre o mundo aberto, Para dos grandes ventos descansarem, Ó Lisboa (não são glorias chymericas) Voltada sobre as Azias e as Americas!
II
Porque é que Deus aqui te poz á entrada Senão para destinos imperiaes? Do mar da India a viração salgada Respiral-a tu, antes dos mais. A vêr és tu, primeira, a alvorada E a ultima o sol nos fins occidentaes. Lisboa! quando eras pequenina Houve uma fada que te leu a sina?
III
O que já foste tu, n'outras idades Grande e famoza acima das Nações, Tu de novo o serás, porque as cidades Têm varias mortes e resurreições, Outras infancias, novas mocidades, Novas conquistas, outros galeões... Ó coragens, ó coleras, tormentos, Trovões, Indias, relampagos e ventos!
IV
Velha Lisboa, minha mae-madrinha! Tu voltarás a ser o que já foste, E não, não cuides que é illusão minha, Pois nenhuma já tenho a que me encoste! Não sei quê dentro em mim m'o adivinha Não sei que voz m'o diz de que eu mais goste. E bem no sabes de bem longe: os Poetas Não se enganam--são bruxos, são Prophetas!
V
Lá onde escoa o Tejo, os Esculptores De entre a agoa erguerão altos heroes Poetas, Santos e Navegadores: Nun'Alvares sorrindo aos seus does-does, Feridas de Astros! admiraveis flôres! (Com auroras e poentes como os soes...) Luiz de Souza, scismatico, e Frei Gil, Pedr'Alvares, a mão para o Brazil!...
VI
Vasco da Gama a apontar lá para onde Nasce o sol, terra da sua India amada, Outro a olhar lá, onde o sol se esconde, Camões olhando triste a onda salgada; Mas a onda passa, passa e não responde... Que a leva o fado, vae muito apressada... Todos tão vivos, os heroes colossos, Que dir-se-ia que têm sangue e ossos.
VII
E do seu forte, S. Julião, em summa, Sobre toda esta gloria e esta magoa, Luas conta a desfiar uma por uma, (Ondas do mar) Salve Rainhas d'agoa E Ave Marias, de doirada espuma... E os outros, no deserto d'essa fragoa Pela noite o acompanham; e assim Rezam todos por seculos sem fim.
VIII
Eu confio em ti reza d'Heroes, E confiar em ti, não é vaidade. Vossos nomes de bronze são pharoes Que luz darão, á nossa tempestade. O nosso Rey... (cabello em caracoes!) Já não dorme no Paço... Piedade! Deixareis a Patria engrandecida Por vossas mãos p'ra sempre ser vencida?
IX
Côr do ceu a bandeira e côr de neve Não a vejo na torre a fluctuar! Senhor! Vós bem sabeis que o Rey não deve Outras armas que a vossa apresentar. Se assim deixaes que outro povo a leve, Porque a déste ao nosso p'ra guardar? Não é elle o mesmo que em Ourique A acclamou nas mãos do teu Henrique?
X
Anda tudo tão triste em Portugal! Que é dos sonhos de gloria e d'ambição? Quantas flores do nosso laranjal Eu irei vêr cahidas pelo chão! Meus irmãos Portuguezes, fazeis mal De ter ainda no peito um coração. Talvez só eu! (Amôr ai tu m'entendes!) Possa ainda ter a paz que já não tendes.
XI
Talvez só eu irmãos! mas é que a mim Deve o Senhor as flores com que s'enfeita A mocidade!... que é d'elle o meu jardim! Dizei-me vós irmãos, na vida estreita Toda a desgraça não terá um fim? Se a ventura não póde ser perfeita Tenho agora a Patria em sepultura! Que mais quereis na taça d'amargura?
XII
Virá, um dia, carregado de oiros, Marfins e pratas que do céu herdou, O rei menino que se foi aos moiros Que foi aos moiros e ainda não voltou. Tem olhos verdes e cabellos loiros, Ah não se enganem, (ainda não chegou) Virá El-Rey-Menino do Estrangeiro, N'uma certa manhã de nevoeiro...
XIII
Tem loiros os cabellos, e é criança, Tem olhos verdes de luar nocturno: Olhos verdes, são olhos de esperança! Olhos verdes, são Luas de Saturno! Veio da Africa mais a sua lança Vae pr'o mundo, rezando taciturno. Tão pobrezinho, olhae! estende a mão: «Quem dá esmola a D. Sebastião?»
XIV
Esperae, esperae, ó Portuguezes! Que elle ha-de vir, um dia! Esperae. Para os mortos os seculos são mezes, Ou menos que isso, nem um dia, um ai. Tende paciencia! finarão revezes; E até lá, Portuguezes! trabalhae. Que El-Rey-Menino não tarda a surgir, Que elle ha-de vir, ha-de vir, ha-de vir!
Lá vem, lá vem minha Amada, Rainha de Portugal. Vem com a capa estrellada, Debaixo d'um palio real Todo de seda vermelha, Com saias de oiro e coral. Vê o povo que ajoelha E faz o «pelo signal!»
Que linda é! que formoza! Que graça ella tem a andar! Pagens vestidos de roza Vão á frente a encaminhar, Tirando as pedras da rua Não vá ella tropeçar, Tão leve, parece a Lua, Tão leve que vae no ar!