Despedidas: 1895-1899

Chapter 2

Chapter 23,727 wordsPublic domain

Por fim entrei receoso em uma caza immensa Com Jezus-Christo ao fundo e velas e alecrim. Treme-me ainda hoje a minha alma se n'ella pensa: Rezas... doentes... ais... corredores sem fim!... (Ah que tristeza a d'essa caza immensa!)

No alto da escada umas Irmãs da Caridade Vieram, a sorrir, perguntar: «Como vae?» No olhar d'ellas (tão doce!) havia tal bondade, Que me julguei feliz, até sorrir, olhae! (Minhas boas Irmãs da Caridade!)

Uma dellas guiou-me ao quarto onde a paysagem Ante meus olhos se estendia e os deslumbrou... --«E então como passou? Gostou da sua viagem? E a Nossa-Suissa que tal acha, não gostou?» (Ó Suissa da divina paysagem!)

Não me deixava com perguntas. Era Suissa E não deixara nunca esta alva nação. Ignorava o que era a Verdade, a Justiça: Tudo n'ella era instincto, innocencia e perdão. (Que ingenua és ainda, Suissa!)

--Vá, quero que me diga o seu nome, primeiro E depois d'onde vem, quem é... pelo fallar... --Venho da beira-mar, e sou um marinheiro. E ella tornou-me: O mar! eu nunca vi o mar! (Nos meus olhos o viste tu primeiro.)

Com que doçura, com que mimo e com que graça Me arranjou tudo! Até meu leito quiz abrir. E como uma ama diz ao menino que a enlaça, Disse-me: «Boas noites. Faça por dormir!...» (Ó Suissa cheia de graça!)

E eu assim fiz. Adormeci, feliz, sereno, E no outro dia eu já estava melhor. Passados trez, passei de pallido a moreno Passado um mez, «não é nada» disse o doutor. (Oh! quanto eu era então feliz, sereno!)

E a boa Irmã toda contente e dedicada Que sempre estava á escuta em biquinhos de pé --Vê, tantos sustos! e afinal não era nada! E se elle disse «não é nada» é que não é! (Ó boa Irmã, de voz tão delicada!)

Fallou verdade o bom doutor. Ergueu-se em breve A minha doida mocidade arrependida. Bemditos sejaes vós, Alpes cheios de neve! Bemditos sejaes vós que me salvaste a vida! (E o meu coração que dôce paz vos deve!)

Bemdita sejas tu, ó Suissa meiga e boa! Gloriosa entre os mais povos, sê bemdita! Bemdita sejas tu, de Christiania a Lisboa! Bemdita sejas tu entre as nações, bemdita! (Bemdita sejas, minha Suissa boa!)

Lausanna, 1896.

Confissão d'uma rapariga feia

(INCOMPLETA)

Ha raparigas n'este mundo, Ha raparigas que são feias, Mas nenhuma tanto como eu. De mim tenho nojo profundo, Ciumes do Sol, das luas cheias, Que vão tão lindas pelo céo!

Nos arraiaes, nas romarias, Adelaides, Joannas, Marias, Todas tem par, mas menos eu. Todas bailam, rindo e cantando, E eu fico-me a olhal-as scismando Na sorte que o Senhor me deu!

Se eu fosse cega ou aleijada, Talvez ficasse resignada, Porque havia de queixar-me eu? Mas sendo sã, sendo perfeita Tua vontade seja feita, Senhor! é sorte, é fado meu!

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Affirmações religiosas

Ó meus queridos! Ó meus S.tos limoeiros! Ó bons e simples padroeiros! Santos da minha muita devoção! Padres choupos! ó castanheiros! Basta de livros, basta de livreiros! Sinto-me farto de civilisação!

Rezae por mim, ó minhas boas freiras Rezae por mim escuras oliveiras De Coimbra, em S.to Antonio de Olivaes: Tornae-me simples como eu era d'antes, Sol de Junho queima as minhas estantes Poupa-me a _Biblia_, Anthero... e pouco mais!

No mar da Vida cheia de perigos Mais monstros ha, diziam os antigos, Que lá nas agoas d'esse outro mar. O que pensaes vós a respeito d'isto, Ó navegantes d'esse mar de Christo! Heroes, que tanto tendes que contar?

Chorae por mim, ó prantos dos salgueiros, Pois entre os tristes eu sou dos primeiros! Lamentos ao luar, dos pinheiraes, E vós ó sombra triste das figueiras! Chorae por mim ó flôr das amendoeiras Chorae tambem ó verdes cannaviaes!

E quando emfim, já farto de soffrer Eu um dia me fôr adormecer Para onde ha paz, maior que n'um convento: Cobri-me de vestes, ó folhas d'outomno, Ai não me deixeis no meu abandono! Chorae-me cyprestes, batidos do vento...

1897.

Ares da Andaluzia

Ó formoza Andaluzia! Terra de Nossa Senhora! Ó formoza Andaluzia Onde o luar parece dia Onde é dia a toda a hora!

Ai eu tenho sete muzas Quaes d'ellas prefiro eu? Ai eu tenho sete muzas, Trez d'ellas são andaluzas Porque as outras são do céo.

Malaga, terra de encantos, Terra das vinhas doiradas! Malaga, terra de encantos! Igrejas cheias de Santos, E Virgens cheias de espadas!

Vossa bocca tem desejos Que a bocca das mais não tem... Vossa bocca tem desejos E já morria por beijos No ventre da vossa mãe!

Ó meninas de Sevilha Sou doente, vinde amparar-me, Ó meninas de Sevilha Deixae-me a vossa mantilha Que eu não quero constipar-me!

Ó menina, olá, a mais alta Porque foge e me olha assim? Ó menina olá a mais alta, Se a belleza não lhe falta, Não julgue que é mais que a mim.

Ai esta Vida é tão curta! Ai o Amor dura um instante, Ai esta Vida é tão curta! Dormir, um dia, entre murta Nos braços d'uma outra amante!...

Olhos de Cadiz tão pretos (E o mar ao pé tão azul!) Olhos de Cadiz tão pretos De luto por Esqueletos Que o mar traz com vento sul.

Já sorvi na minha bocca Beijos de toda a Nação! Já sorvi na minha bocca Tanto mel, cabeça louca! Mas assim como estes, não!

Menina das pandeiretas! Que contente que hoje estaes! Menina das pandeiretas! Tão séria, de capas pretas, Ao lado de vossos Paes.

Vem beber a mocidade Com a tua trança solta. Vem beber a mocidade Não torna a vir esta idade E o Amor como ella não volta.

Ó seios como pombinhos Ó seios por quem bateis? Ó seios como pombinhos Tão alegres nos seus ninhos Não sei eu, mas vós sabeis...

Contas de rezar

A Maria dos Prazeres Mizericordia dos mares! Que escrevi para tu leres, Que eu fiz para tu rezares!

Maria dos Prazeres. Antonio sem Elles.

Maria é! Violeta da Humildade Onda do mar das Indias! sempre triste! Porque andará tão triste nessa idade Se o Deus em que ella crê para ella existe?

Maria é! Violeta da Humildade! Onda do mar das Indias! tão modesta E tão grande que ella é! Que dôr funesta A faz andar tão triste nessa idade?

E eu digo ao vêl-a entrar, meiga e modesta, Na Igreja, quando ajoelha e se persigna: «Parece incrivel faça parte d'esta Humanidade mentiroza e indigna!»

Quanto ella é Santa! quanto ella é boa! Até tem dó e compaixão por mim... Mal diria eu que a tragica Lisboa Tinha em seus muros uma Santa assim!

Ella nasceu para assistir ás guerras Ella nasceu p'ra atravessar os mares Ella nasceu para ir a longas terras Ella nasceu para proteger os lares!

Ella nasceu para ir com portuguezes, Ao que a vida arriscou, sarar-lhe as feridas, Com remedios, ao pé, mezes e mezes, Ou dar-lhe a uncção com suas mãos compridas!

Ella nasceu para levar comsigo Um exercito leal, mystico e forte. Ser a ultima a dobrar ante o inimigo E a primeira a morrer, sorrindo á morte!

Ella nasceu p'ra commandar armadas Vestir a bluza azul dos marinheiros. Morrer que importa? Sobre agoas salgadas No immenso oceano não faltam coveiros!

Ella é formosa e grande entre as mulheres, Sua doçura é toda de velludo... Mas as respostas que dão malmequeres! Tristes, Senhor! como na vida é tudo!

Quando ella passa toda côr de cera, Devagarinho e de missal na mão, Vae tão ligeira, lembra uma galéra Que segue viagem de vento á feição!

Os seus olhos são negros e tão bellos Que grandes são! têm penas disfarçadas... Que são elles? Ogivas de castellos Com duas meninas sempre debruçadas.

O seu cabello é negro e immenso e roça Pelo chão, como a noite e a escuridade, Aparta-o ao meio assim... Parece Nossa Senhora, quando tinha a sua idade!

A sua voz baixinha vem da alma, Tudo o que ha nella é do que eu gosto mais. É assim que falla a aragem pela calma Quando mareantes pedem temporaes.

Vozes assim só se ouvem no convento Á oração em silencio habituado, Que Deus entende a voz do Pensamento: Póde fallar-se a Deus e estar callado!

Os seios lembram duas pombas gemeas No seu ninho a dormir, muito quietinhas. Amor, protege o somno d'ellas, teme-as, Não acordes as pombas coitadinhas!

Que dizer do seu corpo esbelto de aza! Tão delgado, onde passa o seu annel? É o mais lindo Torreão da sua Caza! É uma náu da India, a _S. Gabriel_.

Os seus braços são debeis! mas exaltam E sustentam em mim toda a Esperança! Os seus braços, Senhor! são os que faltam A certa Venus que se admira em França!

O seu sorrizo é o sol, quando apparece, Vêl-a sorrir é vêr o sol cantar; Mas o seu habitual, ai não se esquece! É o sol ás tardes quando cahe no mar...

A sua bocca é uma romã vermelha, Mostrando em rizos os seus grãos de opala. Favo de beijos, que dá mel á abelha, A sua bocca é uma flôr com falla!

Lisboa, 1898.

A Ceifeira

(INCOMPLETA)

............................................ Porque é que te odeiam os homens se os levas A um mundo melhor? Ó velha hospedeira da aldeia do nada, Tenho as malas promptas, vou breve partir. Prepara-me um quarto na tua pousada Que tenha a janella para o sul voltada E fontes á roda para eu dormir...

Sensações de Baltimore

(INCOMPLETA)

Cidade triste entre as tristes, Oh Baltimore! Mal eu diria que na terra existes Cidade dos Poetas e dos Tristes, Com teus sinos clamando «Never-more.»

Os comboios relampagos voando, Pela cidade de Baltimore, Levam uns sinos que de quando em quando Ferem os ares, o coração magoando E os sinos clamam «Never-more, never-more». ...........................................

Baltimore, 1897.

Ao Mar

(SONETO ANTIGO)

Ó meu amigo Mar, meu companheiro De infancia! dos meus tempos de collegio, Quando p'ra vir nadar como um poveiro Eu gazeava á lição do mestre-regio!

Recordas-te de mim, do Anto trigueiro? (O contrario seria um sacrilegio) Lembras-te ainda d'esse marinheiro De boina e de cachimbo? Ó mar protege-o!

Que tua mão oceanica me ajude, Leva-me sempre pelo bom caminho, Não me faltes nas horas de afflicção.

Dá-me talento e paz, dá-me saude, Que um dia eu possa emfim, poeta velhinho! Trazer meus netos a beijar-te a mão...

Dispersos

1

--Soffro por ti nesta auzencia, Tanto que não sei dizer. --Meu Antonio! Tem paciencia! Soffrer por mim é soffrer?

2

Ah quem me dera abraçar-te Contra o peito, assim, assim... Levar-me a morte e levar-te Toda abraçadinha a mim!

3

Ai ella é tão pequenina Que, quando ao meu collo vae, Diz o povo: uma menina Que vae ao collo do Pae!

4

És tão fraca, tão fraquinha, Que, ao passar, uma andorinha Com um simples encontrão Podia deitar-te ao chão.

Mas tambem te levantava Sem grande custo: bastava Beijar-te (nem isso, até) Logo te punhas em pé!

5

Espreitei á tua porta, Quiz vêr-te a dormir, sorrindo... Mas ai! só vendo-te morta, Saberei como és dormindo!

6

--Dá-me um beijinho, que eu peço? --Isso sim!--Furto-lh'o então! --Não que eu metto-o n'um processo Pelo crime de ladrão!

7

O teu somno--ai que ventura Tantos sonhos, que sei eu? O meu é uma noite escura Com uma _estrella_ no ceu!

8

Coração, bates saudades Saudades tão tristes são, Lembra-me o sino ás Trindades, O sino faz: Dlão! dlão! dlão!

9

Ai! na hora da partida, Parte-se o coração! Ai! como é triste a Vida! Uns ficam... outros vão...

10

O coração apodrece, Apodrece como o mais Mas a dôr, ai! reverdece, Essa não morre jamais.

11

És morena, moreninha, Morena de andar ao sol! No dia em que fôres minha Como has de ser moreninha Na brancura do lençol!

12

São as meninas da Ilha da Madeira Ternas, graciozas, pallidas, ideaes; Fica-se doido, vendo-se a primeira, Doido se fica, se se veem as mais; Qual é a mais bella da Ilha da Madeira. Se são todas eguaes?

13

Ha um lindo logar, em Traz-os-Montes, Com uma caza só, a caza della. O mais é o pôr-do-sol, bouças e fontes Que compõem a sua parentella.

Encanto de possuir uns taes parentes! Fidalga excepcional que é a Purinha! Que ella nas veias tem sangue dos poentes, E os cravos brancos chamam-lhe: Priminha!

Oh que ascendencia! que familia estranha! Onde ha fidalgos com uns taes avós? Sois os seus Paes, pinheiros da montanha, E assim ella é altinha como vós!

14

Amo-te toda porque és linda, linda, linda! Teus olhos, tua voz, teu sorrizo, eu sei lá! Mas o que eu amo mais, o que amo mais ainda, É a alminha de Deus que dentro de ti está.

15

Uma alma chega ao pé do seio da Purinha! E bate devagar, docemente: «truz! truz!» --Quem é? (responde lá de dentro uma vozinha) --(Antonio...) e logo veio á porta, com a luz.

16

Mamã te chamo porque me trazes ao peito, Filha te chamo pelo mimo que te dou, Irmã te chamo porque te tenho respeito, Noivinha te chamo porque teu noivo sou!

17

Na sexta-feira ás dez horas olha p'ra lua, Que eu, tão longe, ai tão longe! hei-de olhal-a tambem: Assim minha alma encontrar-se-á lá com a tua! E quem se encontra, filha!, é porque se quer bem!

18

Tu és altinha como eu, embora Eu seja um homem e tu uma criança! Tanto que ao irmos pela estrada, agora, Ouvi dizer: «Que lindo par de França!»

19

Teus olhos são dois ceus. E nelles leio O que nos outros lêem os pastores: Estrella da manhã dos meus amores! Sete estrello que vaes do ceu em meio!

20

Ai que saudade! O amor das Extrangeiras! Que chegam, sabe Deus d'onde e com que fito, E um dia, lá se vão andorinhas ligeiras, E nunca poisam, andorinhas sem Egypto!

21

No vosso leito, á cabeceira, ponde isto, Ponde este livro ao pé do vosso coração: Adormecei rezando a «Imitação de Christo» E «Nun Alvares», que é de Christo a imitação.

O DESEJADO

O poema, cujos fragmentos são agora publicados, não seria uma composição de caracter peculiarmente epico mas sim melhormente lyrico. Auctorisaria esta conjectura o tom subjectivo do talento do poeta e ella é confirmada pelo que elle chegou a realisar da sua concepção. Assim, quanto de narrativamente historico houvesse de ser objecto da sua obra viria coado atravez da imaginação do auctor. Elle propunha-se evocar não uma figura de chronica mas um typo de lenda, e o seu alvo era fazer sentir ao leitor o encanto idealista e romanesco do sebastianismo, considerado como elemento de estimulo para a fé na nacionalidade e como incentivo e consolação nas esperanças e nas decepções da patria.

Pelo que ficou deprehende-se que o auctor desenhara a largo traço o programma da sua obra; mas em suas diversas secções não trabalhou com assiduidade egual. Uma leitura attenta dos fragmentos pareceu permittir coordenal-os n'uma ordem clara de successão, marcando-se com adequado signal typographico as interrupções que ahi apparecem. N'esta melindrosa faina foi de inestimavel valia a cooperação prestada pela benemerencia de pessoa distinctissima, a ex.ma snr.ª D. Constança da Gama, que tivera ensejo de ouvir do poeta os diversos episodios compostos, bem como a explanação generica de sua phantasia e de seu intento.

O livro abriria, como abre, por uma dedicatoria geral _Á Lisboa das naus, cheia de gloria_, a qual seria seguida de uma invocação, em offerecimento, _Ás Senhoras de Lisboa_, que é uma especie de introducção á historia de Anrique. Esta, diz o auctor tel-a ouvido ao mar e vem contal-a a ellas, pedindo uma lagrima para os soffrimentos do seu heroe. A este apresenta-o o poeta como penando das mais amargas desillusões e possuido da triste convicção de que nada na vida o poderia abalar ainda ou commover sequer, depois de ter devaneado tanto sonho e de haver visto tantas chimeras suas cahidas por terra e murchas logo ao despertar.

Anrique enganara-se, porém; a sua alma generosa e confiante ainda haveria de vibrar muito e mui doridamente; e, nos seus primeiros versos, que não ficaram definitivamente concluidos, Antonio Nobre fazia a confidencia ás Senhoras de Lisboa do arrebatamento passional de Anrique, escarnecido pelo prosaico positivismo que zomba do seu afan da gloria, como se ella fosse dote que se offerecesse. A feição symbolista do poema de Antonio Nobre demonstra-se, n'este lance concepcional, pela representação da Lua, imagem do quanto é vã e irrealisavel a aspiração a um alvo intangivel, sonho ineffavel desfeito em fumo.

Em Anrique se personifica a abstracção; e, abandonando seu solar portuguez, o sonhador abala-se na busca do ideal para terras de Hespanha, finalmente de França, onde vamos encontral-o em Paris, exhausto e desvairado pela insatisfação d'um desejo alto e incoercivel. A Paris erroneamente se encaminhara já no fito de encontrar da sciencia transcendental o remedio occulto a males irremediaveis; e são pungentes as allusões e referencias que a todo o instante apparecem á historia propria do poeta, em sua ideação e em seu cruel soffrimento.

Em Paris recebe Anrique a hospitalidade d'um convento, onde é acolhido pelos carinhos paternos de um velho e santo monge, que, embora Anrique não lhe tenha aberto a altiva alma, tenta prescrutar-lhe a ferida, para lhe applicar salutifero balsamo.

Em uma d'essas melancholicas tardes que parece haverem exercido sobre o poeta uma mysteriosa influencia e que elle toca com um encanto vago e penetrante, o seu heroe Anrique, que divaga, na phase mystica e exaltada em que se encontra, pelas ruas, sem proposito exacto e á mercê de mil fluctuantes pensamentos, entra, ao acaso, no templo de um convento de freiras, justamente na occasião em que ellas iam começar a entoar a sua novena da tarde. Ás primeiras notas d'aquelle cantico suave, Anrique queda-se extatico, no arroubo que o trespassa e embebe, como um echo de saudade irreflectida e apaixonada. É que em uma das frescas vozes que alli alevantavam hymnos de amor divino, Anrique julgara encontrar a reminiscencia de uma outra voz purissima, doce e harmoniosa, que deixara lá para longe, para além das serras, em Portugal, quando não fôra mais que a muito natural similhança de duas vozes meigas de rapariga.

No fremito da illusão jubilosa e magoadôra, uma excitada hallucinação o faz delirar, em lamentos onde a incoherencia da palavra é o transumpto de uma anniquiladora tristeza. Como natural reacção, logo em sua alma e de seus labios rebenta uma explosão de força e de enthusiasmo, saudando o seu amor com palavras freneticas e desvairadas, em como que parece lançar um repto e vibrar um desafio. Prestes acode o desalento final e, após consolações inuteis do bom frade, nas palavras de Anrique põe o poeta toda a resignada amargura da sua alma.

Já então de todo a chimera parisiense se diluíra. Já de todo Anrique se voltara novamente e de vez para o seu Portugal. De regresso ao reino, affoita-o o encontrar-se com a sua bem-amada; singrando vem Tejo acima a barca que o reconduz. Um ardor immenso o impulsiona e move; Anrique sauda com férvido enthusiasmo o passado heroico de Lisboa; mas a atroz realidade do presente surge perante o impeto epico como uma satyra tragica. Ao passado volve olhos cubiçosos da esperança no futuro; e a compensação prophetica que se lhe desenha é-lhe figurada na vinda phantasiosa do _Desejado_, do chimerico D. Sebastião, do lendario «Rey-Menino», que foi o symbolo de todo o anhelo e de toda a fé, que foi a incarnação ideal de todos os sonhos de imperio, de todas as aspirações messianicas do povo portuguez.

Porém, Anrique não demora muito n'este pensamento exterior; logo o preoccupa a sua torsionante crise moral; por completo o toma a ideia de que é chegado emfim á terra onde, ha tantos annos, o espera sua noiva. Então, sauda-a, tambem a ella, com palavras que patenteiam a anciedade que sente de repousar afinal de suas infructuosas fadigas contemplativas.

Mas do velho solar só restam ruinas; pelo filho prodigo que volta, só aguarda a velha ama Thereza. Acorre, comtudo, o povo n'uma dura e indiscreta curiosidade; e do coração de Anrique soltam-se involuntariamente lamentos acres, pela traição d'aquella que elle amara. Ahi, elle conta, a si-mesmo, alheiado, a historia da sua afflictiva agonia interior, onde mais doem na recordação as ingenuidades e os candidos embustes da quadra florente e illusionante.

Este é o episodio capital da crise subjectiva que perpassa na trama lyrica do poema de Antonio Nobre. Depois d'esta desconsoladora estada em Portugal, Anrique resolve-se a voltar a França, na saudade, agora corrosiva, do socego tumular dos claustros. Alli o esperam os resignados conselhos; alli elle se votará a uma confissão sincera e plena, embora pretenda a apparencia d'uma dignidade soberba e orgulhosa, sob a mascara d'uma indifferença gelida.

Infelizmente para as boas lettras, o poeta não pôde levar a cabo o seu amplo proposito; mas para o cabal entendimento da ordenada sequencia da sua phantasia cremos que estas linhas darão alguma luz. Assim, suspendemo-nos, anciosos de que, desprendendo-se de nossa companhia, o leitor, de per si, aprecie e encareça, com legitimos gabos, as composições que seguem, algumas das quaes, sem favor, se podem qualificar de maravilhosamente bellas.

Á LISBOA DAS NÁUS CHEIA DE GLORIA

I

Lisboa á beira-mar, cheia de vistas, Ó Lisboa das meigas Procissões! Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas! Ó Lisboa dos lyricos pregões... Lisboa com o Tejo das Conquistas, Mais os ossos provaveis de Camões! Ó Lisboa de marmore, Lisboa! Quem nunca te viu, não viu coisa boa...

II

És tu a mesma de que falla a Historia? Eu quero ver-te, aonde é que estás, aonde? Não sei quem és, perdi-te de memoria, Dize-me, aonde é que o teu perfil se esconde? Ó Lisboa das Naus, cheia de gloria, Ó Lisboa das Chronicas, responde! E carregadas vinham almadias Com noz, pimenta e mais especiarias...

III

Ai canta, canta ao luar, minha guitarra, A Lisboa dos Poetas Cavalleiros! Galeras doidas por soltar a amarra, Cidade de morenos marinheiros, Com navios entrando e saindo a barra De prôa para paizes extrangeiros! Uns p'ra França, acenando Adeus! Adeus! Outros p'r'as Indias, outros... sabe-o Deus!

IV

Ó Lisboa das ruas mysteriozas! Da _Triste Feia_, de _João de Deus_, _Becco da India_, _Rua das Fermosas_, _Becco do Falla-Só_ (os versos meus...) E outra rua que eu sei de duas _Rozas_, _Becco do Imaginario_, dos _Judeus_, _Travessa_ (julgo eu) _das Izabeis_, E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.

V

Meiga Lisboa, mystica cidade! (Ao longe o sonho desse mar sem fim.) Que pena faz morrer na mocidade! Teus sinos, breve, dobrarão por mim. Mandae meu corpo em grande velocidade, Mandae meu corpo p'ra Lisboa, sim? Quando eu morrer (porque isto pouco dura) Meus Irmãos, dae-me alli a sepultura!

VI

Luar de Lisboa! aonde o ha egual no Mundo? Lembra leite a escorrer de tetas nuas! Luar assim tão meigo, tão profundo, Como a cair d'um céo cheio de luas! Não deixo de o beber nem um segundo, Mal o vejo apontar por essas ruas... Pregoeiro gentil lá grita a espaços: «Vae alta a lua!» de Soares de Passos.

VII