Despedidas: 1895-1899

Chapter 1

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ANTONIO NOBRE

Despedidas

1895-1899

Prefacio de José Pereira de Sampaio (_Bruno_)

_PORTO_

1902

DESPEDIDAS

DO MESMO AUCTOR:

Só (2.ª edição, illustrada), Paris, 1898.

NO PRÉLO:

_PRIMEIROS VERSOS_

Prefacio de Justino de Montalvão

D'este livro, publicado por Augusto Nobre, tiraram-se dois mil exemplares

Direitos reservados

ANTONIO NOBRE

Despedidas

1895-1899

Prefacio de José Pereira de Sampaio (_Bruno_)

_PORTO_

1902

A fraterna piedade de Augusto Nobre e a saudade amiga de Justino de Montalvão honraram-me com o pedido commovente de algumas linhas que acompanhassem este volume posthumo. Tendo organisado a nota que precede os fragmentos, ao deante publicados, do poema _O Desejado_, hesitei grandemente em acquiescer á solicitação que refiro. Temi que malignas malevolencias acaso increpassem como de impertinente intromettimento essas linhas sinceras e innocentes. E ellas seriam, de facto, com severidade condemnaveis, desde que as dictassem pedantescas pretensões de recommendação ás delicadas leituras. O nôme do poeta não é sómente conhecido; está decisivamente consagrado. Um prosador incorrecto e secco não conseguiria senão tornar-se ridiculo, quando tam improcedente estimulo fôsse a impulsional-o.

Assim meditava e quasi me resolvia por uma polida escusa, que me magoaria aliaz; porém mais se radicou em meu animo o motivo antagonico que me convidara a ceder á captivante seducção do pedido, feito pelo irmão e pelo companheiro.

Lembrava-me e lembrei-me de que fôra eu quem, sem sequer de vista o conhecer, apontou ao publico culto o original, promettedor talento d'aquelle moço ignorado então.

Concorrendo n'um effeito de beneficencia, apparecera no Porto um volumesinho de versos, collaborado principalmente por academicos, sob o titulo generico e designativo de _Um bouquet de sonetos._ Eu lêra as composições contidas na sympathica collecção e prestei preferente cuidado áquellas que a novos, sem notoriedade ainda, pertenciam. Entre essas, primacialmente sobresahia o soneto de Antonio Nobre, nôme que eu havia notado já, por subscrever, em revistas litterarias de collegiaes, infantilidades onde perpassava uma restea do fulgor divino. Fundára, por esse tempo, um diario de propaganda politica _A Discussão_; na secção litteraria da folha estampei um artigo longo ácerca do opusculo que me attrahira o reparo; Gomes Leal replicou-me, com motivo d'algumas affirmativas minhas, concernentemente á fórma e á essencia do genero artistico. E no modesto estudo com que momentaneamente quebrei, confugindo, a monotonia acre das acerbas recriminações partidarias, indiquei o nôme do joven poeta, como o de alguem que tinha personalidade e viria a ser muito.

Veio, na verdade, a ser muito: tam fino, candidamente malicioso, dôce, ingenuo era seu temperamento; tam sincera sua tristeza; tam moderno seu gosto; tam nacionalista seu sentir, na patria e na familia; tam suggestiva sua imaginação, ardorosa e melancholica!

Ora, já quando, na jubilosa plenitude da consciencia esthetica, o escriptor preparava em Paris o original definitivo do seu volume _Só_, como quer que ao mesmo Paris, sceptico e arisco na banalidade d'uma affectuosidade de superficie, me atirasse uma onda centrifuga do atroz redomoinho, elle mostrou-me que não esquecera as palavras do jornalista portuense, as quaes só um merito possuiam, o de se haverem coadunado com o lealismo d'uma emoção espontanea. Na escura rua de Trévise me procurou, abandonando por horas a sua preferida margem-esquerda, de que lhe era tam penoso afastar-se, Antonio Nobre, uma tarde em que eu soffria cruelmente. Esta visita sensibilisou me; como me encantou a conversação do poeta, pelo tom subtil da melindrosa reserva na consolação, a um tempo caridosa e primorosa, d'um'alma em carne viva, como a minha por então andava.

Só no Porto novamente me reencontrei, conversando, com Antonio Nobre; de volta do exilio eu, de regresso da illusão de estancias salvadoras elle. Ambos viajaramos; ambos conheceramos a glacial indifferença do homem; o poeta e o politico encontravamo-nos na identidade d'uma amarga desesperança tranquilla. Separamo-nos depois de uma hora, melhorados para um instante.

Não o tornei a vêr; sabia qua ia cada vez mais a peor, n'este rude Porto, fatal, physica e moralmente, ás naturezas susceptivelmente quintessenciadas como a d'elle. Subito entrou em minha casa Justino de Montalvão, para que eu estivesse á noite na egreja, a ajudar a conduzir o nosso amigo, no seu caixão, para a sua tarima. Eis o desfecho de tudo.

Nunca me affligiu a minha aridez verbal como agora, em que me daria um orgulho ineffavel o poder fallar do talento d'este querido morto com palavras encantadas, que embebessem a leitura n'uma idealidade sonhada.

Pouso a penna aspera; demasiado dilacerou o papel; o dever da gratidão está cumprido; mas quedaria ainda faina para a critica perspicaz e expressiva. Como indispensavel, tocante elemento informativo, tenho aqui a fazer uma referencia ao titulo do volume, _Despedidas_. Este titulo foi escolhido pelo poeta. Criminosa impiedade seria que d'outrem emanasse.

Em uma das crises de pungente desanimo que frequentemente o assaltavam no ultimo periodo da implacavel enfermidade a que succumbiu, pediu elle que, se viesse a morrer antes de poder publicar o seu livro, lhe dessem o titulo de _Despedidas_, significando este a sua retirada da vida litteraria; mas mais tarde deu a perceber claramente que assim o escolhera, por serem as suas ultimas poesias, visto que tinha perdido a esperança de cura da doença que o torturava. Ainda só quinze dias antes da data fatal do seu trespasso, quiz elle ir para a aldeia, com tenções de passar a limpo todas as suas poesias e de escrever definitivamente _O Desejado_, que, como se frisa na nota que lhe precede hoje os fragmentos, o poeta tinha todo _in mente_, mas muito incompleto nos seus cadernos de apontamentos.

D'estas linhas que acima ficam se deprehende que jámais lograram os versos que sahem agora a lume o ser corrigidos por seu auctor. Se imperfeições aqui ou alli acaso os maculem, acate-se o legitimo escrupulo que não se atreveu a sujeitar o texto a alheia revisão minuciosa. Elle foi recebido como uma herança de coração; com inquieto sobresalto, julgou-se sacrilego que ella não fosse assaz respeitada.

Todavia, esta advertencia era indispensavel, para obviar a quaesquer reparos que o livro actual podesse offerecer a uma leitura ou hostil ou sequer fria. Não é a essa especie de critica, a qual não comprehende porque não sente, que o editor confia a obra posthuma do poeta a quem amou e cuja inolvidanda memoria o penetra d'uma inexhaurivel saudade. A verdadeira critica, a critica san, fal-a-ha o leitor melhormente dotado, com apurar que o livro actual, fragmentario consoante é, confirma a gloria de Antonio Nobre, cuja figura litteraria destacará como uma das mais accentuadas d'entre as mais accentuadas da nova geração portugueza.

José Pereira de Sampaio (_Bruno_).

SONETOS

1

Logica

Ai d'aquelles que, um dia, depozeram Firmes crenças n'um bem que lhes voou! Ai dos que n'este mundo ainda esperam! Terão a sorte de quem já esperou...

Ai dos pobrinhos, dos que já tiveram Oiro e papeis que o vento lhes levou! Ai dos que tem, que ainda não perderam, Que amanhã, serão pobres como eu sou.

Ai dos que, hoje, amam e não são amados, Que, algum dia, o serão, mas sem poder! Ai dos que soffrem! ai dos desgraçados

Que, breve, não terão mais p'ra soffrer! Ai dos que morrem, que lá vão levados! Ai de nós que ainda temos de viver!

Pampilhoza, 1895.

2

Ao Cahir das Folhas

A MINHA IRMÃ MARIA DA GLORIA

Podessem suas mãos cobrir meu rosto, Fechar-me os olhos e compôr-me o leito, Quando, sequinho, as mãos em cruz no peito, Eu me fôr viajar para o Sol-posto.

De modo que me faça bom encosto, O travesseiro comporá com geito. E eu tão feliz! por não estar affeito, Hei-de sorrir, Senhor! quazi com gosto.

Até com gosto, sim! Que faz quem vive Orpham de mimos, viuvo de esperanças, Solteiro de venturas, que não tive?

Assim, irei dormir com as crianças Quazi como ellas, quazi sem peccados... E acabarão emfim os meus cuidados.

Clavadel, outubro, 1895.

3

Á SUPERIORA D'UM CONVENTO DE PARIS

Não me esqueço de si, minha Mãe, fôra Onde fôra. Ao contrario, lembro ás vezes Essa viagem nossa (de ha alguns mezes) Sobre as agoas do mar! Se fosse agora...

Oh o encanto da viagem seductora! Que bem me disse então dos Portuguezes! Que faria hoje! foram-se os revezes! O que lá vae pela Africa, Senhora!

Depois, ao separarmo-nos no Tejo, Disse-me (com que voz e com que modos!) «Deus o faça feliz, ao seu desejo!»

Mas não fez, minha Mãe! Talvez no céo... Porque afinal os homens quazi todos Têm sido e são muito mais maus do que eu...

St. Johann Am-Platz, 1896.

4

Nossos amores foram desgraçados, Desgraçada paixão! tristes amores! Se Deus me dá assim tamanhas dores, É porque grandes são os meus peccados.

Quando virão os dias desejados? Quando virá Maio para eu vêr flores? Nunca mais! ainda bem, santos horrores! Que os pobres dias meus estão contados.

Passo os dias mettido no meu moinho, E móe que móe saudades e tristezas, Moleiro que no mundo está sósinho.

Os lavradores destas redondezas Queixam-se até de que a farinha á data Tanta é que «está de rastos de barata...»

St. Johann Am-Platz, 1896.

5

Placidamente, bate-me no peito Meu coração que tanto tem batido! E para mim, inda este mundo é estreito P'ra conter tudo, quanto eu hei soffrido.

Meus dias vão passando como as agoas Que o vento leva em ondas, ao mar-alto, E se de noite eu oiço aquellas mágoas Já não descanço mais, em sobresalto.

Placidamente, bate-me no peito Meu coração em luctas tão desfeito, Que com a Vida, a Dôr hei confundido.

E se se ganha a Paz com o soffrimento, Deixae-me entrar emfim n'esse Convento... Pois ha quem tenha, assim como eu, soffrido!

Berne, maio, 1896.

6

Apparição

Á VIRGEM SANTISSIMA

Pelas espadas que tu tens no peito, Pelos teus olhos rôxos de chorar, Pelo manto que trazes de astros feito, Por esse modo tão lindo de andar;

Por essa graça e esse suave geito, Pelo sorriso (que é de sol e luar) Por te ouvir assim sobre o meu leito, Por essa voz, baixinho: «Ha-de sarar...»

Por tantas bençãos que eu sinto n'alma, Quando chegando vens, assim tão calma, Pela cinta que trazes, côr dos ceus:

Adivinhei teu nome, Apparição! Pois consultando manso o coração Senti dizer em mim «A Mãe de Deus!»

Lausanna, junho, 1896.

7

Todas as tardes, vou Léman acima (E leve o tempo passa nessas tardes) A pensar em Coimbra. Que saudades! Diogo Bernardes deste meigo Lima.

Na solidão, pensar em ti, anima, Oh Coimbra sem par, flôr das Cidades! Os rapazes tão bons nessas idades (Antes que a Vida ponha a mão em cima...)

Alegres cantam nos teus arrabaldes. Por mais que tire vêm cheios os baldes, Mar de recordações, poço sem fundo!

Freirinhas de Tentugal, passos lentos! E o chá com bolos, dentro dos conventos! Meu Deus! meu Deus! e eu sempre a errar no Mundo!

Lausanna, junho, 1896.

8

A MEU IRMÃO AUGUSTO

Léman azul, que, mudo e morto, jazes. Quanto és feliz! assim podesse eu sel-o! Nem a sombra dos montes, nem seu gêlo, De turvar tuas agoas são capazes.

Minhas cartas inuteis de doutor Eu rasgaria, é certo, com prazer, Se eu podesse um dia vir a ser Dessas ondas, um simples pescador.

Léman azul, nas agoas socegadas, Quantas vidas tu levas confiadas! Pareces ver meu mal, e escarnecel-o!

Só do meu coração, ao alto-mar, Ninguem se quiz ainda sujeitar. Quanto és feliz! assim podesse eu sel-o!

Villeneuve, junho, 1896.

9

A JUSTINO DE MONTALVÃO

Em St. Maurice (aqui perto) ha um convento De Franciscanos. Fui-me lá ha dias. Quando eu entrei, tocava a Avè-Marias. Iam ceiar. Fóra mugia o vento.

Um pallido Christo, ao fundo da sala, Espalha em redor seu alvo clarão; E, quando se reflecte a Cruz pelo chão, Os frades ingenuos não ousam pisal-a.

«Meu irmão...» disseram, ao verem-me á porta. Vontade, Senhor, tive eu de chorar! Tão só me sentia, pela noite morta...

E quando na volta, á luz das estrellas, Meu doido passado me vim a evocar, Pensei no perdão d'uma alma d'aquellas.

Bex, junho, 1896.

10

Senhora! a todas as novenas ides, E porque vós lá ides, vou tambem. É um descanço sem par ás minhas lides, Aos meus males, e em summa faz-me bem.

Essas graças que tendes (vós sorrides?) Só nas flôres as vejo, em mais ninguem. Se o vosso corpo é magro como as vides, Os cachos d'uvas que o cabello tem!

Fazeis-me andar n'uma continua roda, Pelas igrejas da cidade toda, S. Luiz de França, Encarnação e mais.

Senhora! assim commigo em beato dais, Faço-me frade e vou para um convento... E adeus! que lá se vae o cazamento!

Lisboa, janeiro, 1897.

11

Ha já duzentos soes, ha quatro luas, Que te pedi que a Igreja abandonasses. Tu és cruel, Senhora! continúas, Como se agora apenas começasses.

Á sexta-feira e ao sabbado jejuas, E tanto te pedi que não jejuasses. E o que dóe mais, Senhora, é que insinuas Em voz que tanto dóe: «Se me imitasses...»

Nenhuns peccados tens. És anjo e santa. Boa como o ceu, simples como a planta, Cozes p'ros pobres, fazes boas-obras!

Quaes são os teus peccados? peccadores Senhora! são os vossos confessores. Homens e basta: são máos como as cobras!

Lisboa, 1897.

12

Monologo d'Outubro

A MEU IRMÃO AUGUSTO

Outomno, meu Outomno, ah! não te vás embora! Ás minhas, eu comparo as tuas extranhezas. Ah! nos teus dias não ha Julhos nem aurora, E só crepusculos... Crepusculos são tristezas!

E tu que já passaste o Outomno só commigo Não pensas ao cahir de tantas agonias Nas minhas, que tu sabes, ó meu melhor amigo? Cahi, folhas, cahi! tombae melancholias!

Ides morrer, folhas! mas morrer que importa? Lá vae mais uma... mal nasceu e já vae morta. Levaes saudades? Coitadinha, sois tão nova!

Tendes razão? Nem sei a fallar a verdade. Tombar quizera eu, só p'ra esquecer. Saudade, Irmão, não a terei tambem, lá pela cova?...

Foz, 1897.

13

Pedi-te a fé, Senhor! pedi-te a graça, Mas não te curvas nunca, p'ra me ouvir. Tudo acaba no mundo... tudo passa, Mas só meu mal se foi e torna a vir.

Não busco a morte com arma ou veneno, Mas emfim póde vir quando quizer. Eu estarei de pé, firme e sereno, Sorrir-lhe-hei até, quando vier.

Tristes vaidades d'este pobre mundo! Já me parecem taes como ellas são: Tristes mizerias deste mar sem fundo.

Se tive algumas eu, na mocidade, Não foram ellas mais que uma illuzão. E um dia eu ri da minha ingenuidade!

Lisboa, janeiro, 1898.

14

O mar que embala, ás noites, o teu somno É o mesmo, flor! que á noite embala o meu. Mas em vão canta a minha ama do Outomno, Pois pouco dorme quem muito soffreu.

Mas tu feliz qual rainha sobre o throno, Dormes e sonhas... no que, bem sei eu! O teu cabello solto ao abandono, As mãos erguidas de fallar ao céo...

Feliz! feliz de ti, doce Constança! Reza por mim, na tua voz chymerica, Uma Avè-Maria de Esperança!

Por minha saude e gloria (Deus m'a dê) Por essa viagem que vou dar a America... Quando, um dia, voltar, dir-te-ei porquê!

Ilha da Madeira, maio, 1898.

15

Mamã

Toda a Paz, todo o Amor, toda a Bondade, Toda a Ternura que de ti me vêm, Amparam-me esta triste mocidade Como nos tempos em que tinha Mãe.

Quanto eu te devo! Odios, impiedade, Indignações e raivas contra alguem, Loucuras de rapaz, tedios, vaidade, Tudo isso perdi--e ainda bem!

Salvaste-me! Trouxeste-me a Esperança! Nunca m'a tires não, linda criança, (Linda e tão boa não o farás, talvez!)

Pois que perder-te, meu amor, agora, Ai que desgraça horrivel! isso fôra Perder a minha Mãe, segunda vez.

Ilha da Madeira, 1898.

16

Ha vinte annos já, que andas na Terra, Ha vinte dias só, que te conheço! Eu andava perdido pela serra, E o que eu era então, já não pareço.

Ha vinte dias só que te conheço, Ó meu beijo de Luz! minha Chymera! És a Graça de Deus (com qu'estremeço) Talvez, o que no mundo, inda me espera.

Sonho da minh'alma! Ó meu ceu d'estio! Pois não tens piedade d'este frio Que sinto em mim, na minha solidão!

Minha bençam de Christo, promettida, Não serás tu a Paz da minha vida? Oh! não me digas não, que és Illuzão!

Quinta Almeida. Funchal, abril, 1898.

17

Riquinha

Soffrer callada as suas proprias dôres E chorar como suas as dos mais, Tal a Rainha do seu nome, em flôres Transforma pedras e em sorrisos ais.

A toda a parte leva o sol e amores, É a _Saude dos Enfermos_ nos Cazaes; E, no mar-alto, os velhos pescadores Invocam-n'a entre espuma e temporaes!

Quem será ella, tão piedoza e dôce! Com uns taes olhos que não tinha visto Será a Virgem? Oxalá que fosse!

Oh! flôr mais bella do jardim d'esta Ilha! Fôra outrora, talvez, filha de Christo, Se Christo houvesse tido alguma filha!

Ilha da Madeira, 1898.

18

O Teu Retrato

Deus fez a noite com o teu olhar, Deus fez as ondas com os teus cabellos; Com a tua coragem fez castellos Que poz, como defeza, á beira-mar.

Com um sorriso teu, fez o luar (Que é sorriso de noite, ao viandante) E eu que andava pelo mundo, errante, Já não ando perdido em alto-mar!

Do ceu de Portugal fez a tua alma! E ao vêr-te sempre assim, tão pura e calma, Da minha Noite, eu fiz a Claridade!

Ó meu anjo de luz e de esperança, Será em ti afinal que descança O triste fim da minha mocidade!

Ilha da Madeira, junho, 1898.

19

Sestança

Ia em meio da minha Mocidade, Perdido d'affeições, ao vento agreste, Quando na Vida tu me appareceste, Sestança, minha Irmã da Caridade!

Ninguem de mim dó teve, nem piedade, Ninguem n'a tinha, só tu a tiveste: Quantas velas á Virgem accendeste! Quantas rezas nos templos da cidade!

Que te fiz eu, Espelho das Mulheres! Para assim merecer um tal cuidado E tudo quanto ainda me fizeres?

Bemdito seja Deus que me escutou! Bemdito seja o Pae que te ha procriado! Bemdita seja a Mãe que te gerou!

Ilha da Madeira. Quinta da Saude, 29-7-1898.

20

Emilias

(A UMA SENHORA QUE NÃO QUER SER EMILIA)

Emilia és, quer queiras, ou não queiras: Que lindo nome o teu, soante de brizas! É um nome de pastoras e moleiras, Loira morgada do solar dos Nizas!

Muitas Emilias ha, entre ceifeiras, Ha Emilias nos serões das descamizas... Se tu, Senhor! dás nome ás Amendoeiras Com o nome de Emilia é que as baptizas!

Que Santa Emilia te acompanhe, Rainha! E com a tua Mãe seja madrinha, Quando ella, um dia, te levar á Igreja!

E, ó pura Gloria, que em teus olhos brilha! Dôces presagios meus, que a tua filha Seja loira tambem e Emilia seja!

Ilha da Madeira, novembro, 20, 1898.

21

O coração dos homens com a idade, A pouco e pouco, vae arrefecendo... Quão diversos me vão apparecendo Do que eram ao abrir da mocidade!

O sorrizo não tem já lealdade, Lagrimas são difficeis... não as tendo. Palavras não vos faltam, estou vendo Mostrar o que sentis só por vaidade.

Já não me illude, a Gloria que sonhei. Perdi a fé em tudo quanto amei. Mas só agora, eu sei o que é viver!

Não fazes bem, assim, em rir de mim! Tenho tido na vida horrores sem fim, Mas só agora, eu sei o que é soffrer!

Ilha da Madeira, dezembro, 1898.

22

O Senhor, cuja Lei é sempre justa, Deu-me uma infortunada mocidade, Talvez para eu saber (o que é verdade) Quanto é bom ser feliz, mas quanto custa!

Feliz de quem no mundo sem piedade, Encontrou alma que lhe entenda a sua, Que o mesmo é que ter na mão a Lua Tão longe n'essa triste Eternidade!

Os meus dias passavam tristemente Quando encontrei o teu olhar ridente: Foi a bençam de luz da Mãe de Deus!

Vaes deixar-me de novo, só na vida! Ao cabo de viagem tão comprida Talvez sintas mais perto os olhos meus!

Ilha da Madeira, janeiro de 1899.

23

Adeus a Constança

Vae o teu Pae andar ao sol de verão, E mais á chuva e ao vento; e só depois Poderá ter a colheita d'esse pão Que semeou cantando ao pé dos bois.

Feliz que eu fui em te encontrar na vida, Minha dôce Constança desejada! Antes de vêr-te a ti não via nada, Nem para mim a lua era nascida.

Tu vaes partir em breve com teu Pae Por esse mar que tão piedozo está. Não sêde amargas, ondas, mas chorae!

Vaes vêr campos em flôr que te conhecem... E se a colheita se fizesse já, Talvez na volta as ondas te trouxessem!

Ilha da Madeira, 1899.

24

Antes de partir

Varios Poetas vieram á Madeira (Pela fama que tem) a ares do Mar: Uns p'ra, breve, voltarem á lareira, Outros, ai d'elles! para aqui ficar.

Esta ilha é Portugal, mesma é a bandeira, Morrer n'esta ilha não deve custar, Mas para mim sempre é terra extrangeira, Á minha patria quero, emfim, voltar.

Ilhas amadas! Ceu cheio de luas! Ah como é triste andar por essas ruas, Pallido, de olhos grandes, a tossir!

Eu vou-me embora, adeus! mas volto a vêl-as, Vou com as ondas, voltarei com ellas, Mas como ellas p'ra tornar a ir!

Ilha da Madeira, fevereiro, 1899.

25

Meu pobre amigo! Sempre silencioso! Assim eu fui. Scismava, lia, lia... Mudei no entanto de Philosophia. Não creio em nada! e fui tão religioso!

Tomei parte no Exercito gloriozo Que foi bater-se por Israel, um dia! Cri no Amor, no Bem, na Virgem Maria, Não creio em nada! tudo é mentirozo!

Não vale a pena amar e ser amado, Nem ter filhos d'um seio de mulher Que ainda nos vêm fazer mais desgraçado!

Não vale a pena um grande poeta ser, Não vale a pena ser rei nem soldado E venha a Morte, quando Deus quizer!

St. Johann-am-Platz, outubro, 1899.

OUTRAS POESIAS

A FRANCISCO CEZIMBRA

Eu chegara de França uns quatro dias antes E via-me tão só n'um deserto sem fim, Lá deixara a alegria, amores, estudantes, Via a vida, aqui, negra adiante de mim.

Que havia de fazer? Eu não tinha um desejo, Nada no mundo me podia estimular! Ai quantas vezes, ao passar junto do Tejo, Perdoa-me, Senhor! pensei em me afogar!

Perdoa-me, Senhor! tu deves perdoar Pois para que me deste assim um coração! Tudo quanto via me dava que scismar De tudo tinha dó, de tudo compaixão.

Ó meus amigos de Coimbra! que saudades Eu sentia ao pensar nos tempos d'illuzões! Porque chamaria eu agora, só vaidades Ao que outrora p'ra nós tinham sido visões?

E conheci depois a phase lastimoza (Ó meus amigos certos, não m'a queiraes lembrar) Em que descri de tudo, até da meiga roza Que via entre velas, aos pés d'algum altar.

De tudo ri então, Senhor, como um perdido Mas era um rizo mau, Francisco, que feria... Tu cuja alma em flôr ainda me sorria Como pudeste tu, meu rizo ter vencido?

1895.

Ladainha da Suissa

A MARTINHO DE BREDERODE

Quando cheguei aqui, dizia baixo o povo Pelas ruas, vendo-me passar: --Vem tão doentinho, olhae! e é ainda tão novo... E assim sósinho, sem ninguem para o tratar! (Que boa a Suissa! que bom é este povo!)

Raparigas de luar, pastoras d'estes Andes, Diziam entre si: Quem será este senhor? Todo de preto, tão pallido, olhos tão grandes! E rezavam por mim, baixinho, com amor. (Ó pastoras tão meigas d'estes Andes!)