Campmates: A Story of the Plains
Chapter 3
Mas não são só castigos e ameaças, com que Deus quer trazer a si os corações dêstes índios, senão também promessas e favores. Uma noite de Natal tinha praticado o padre Pedro Pedrosa, e quando disse a primeira Missa, viu uma índia na hóstia a Cristo, não menino, e envolto em panos pobres, senão em figura de homem vestido de grande formosura, majestade e riquezas, as quais oferecia com rosto mui agradável àquela índia, se ela o quisesse servir. Provou o efeito a verdade da visão, porque vivendo até aquêle tempo em estado alheio da graça de Deus, foi esta a primeira e a única que veio pedir aos padres a recebessem com o que não era seu marido, e fêz dali por diante vida tão reformada e tão cristã, e de tanto afeto e devoção às coisas espirituais, que nunca mais nem ela nem pessoa alguma de sua família, que era muito grande, faltou na igreja à Missa, e às duas doutrinas de cada dia, pegando esta mesma piedade a seu marido. Outro índio moço tem recebido grandes toques, favores e admoestações de Deus em sonhos, que o trazem mui abalado, e se lhe vêem nos desejos, nas palavras e nas resoluções. Uma noite sonhou que se achava na igreja, entre os que tomavam disciplina pelas sextas-feiras da quaresma, mas que êle a não queria tomar; e logo viu sair e caminhar para si um mancebo de muita formosura, o qual, apontando para um lugar alto, que estava coberto com uma cortina, lhe disse que ali estava Deus, mas que se não mostrava, senão aos que faziam penitência dos seus pecados. Então se resolveu a tomar a disciplina, como os demais, a qual acabada, se correu a cortina, e viu sôbre um trono resplandecente como o sol um ser de tanta formosura e grandeza, que ficara fora de si de espanto e de alegria, e que nunca mais perdera nem podia perder a memória do que tinha visto. Outra vez, estando êste índio doente de uma grande inchação, que lhe tomava desde o ombro até a cabeça, e lhe causava grandes dores, sem ter remédio, nem quem lho soubesse aplicar, veio encomendar-se a Deus com grande afeto e confiança. Adormeceu uma noite, e apareceu-lhe aquêle mesmo mancebo, que êle conheceu muito bem, o qual trazia na mão direita uma ave, e na esquerda umas ervas; perguntou-lhe que era o que pedia a Deus, e como dissesse que a saúde, aplicou o mancebo a ave ao lugar inchado, a qual picando com o bico a inchação, fêz um buraco, por onde se purgou a matéria, e logo, pondo-lhe em cima as ervas, ficou sã a ferida. Acordou nisto o enfêrmo, e achou que a inchação verdadeiramente estava rebentada, e brevemente cerrou, e em breve ficou são. Outra vez tornou a sonhar êste índio coisas semelhantes, ordenadas todas à sua salvação, e sendo sempre o ministro ou instrumento delas aquêle mancebo seu conhecido, que ao primeiro entendeu seria o seu Anjo da Guarda, mas ultimamente lhe apareceu em vestido de padre da Companhia. Finalmente, Deus tem nesta seara muitos escolhidos, e se o demônio trabalha tanto para arraigar a cizânia que tem semeado nela, é porque teme e prevê que há de ser lançado fora, de que parece deu um manifesto sinal no mesmo dia em que chegaram os padres, porque, ao cerrar da noite, se ouviu de repente um estrondo tão grande, como de coisa que rebentava que deixou assombrados a todos. Sucedeu isto junto à casa onde os padres estavam agasalhados, e dizem os índios que ali se costumava ver de noite uma figura medonha e afogueada e daquele ponto em diante nunca mais foi vista; o que podemos afirmar com toda a certeza é que a missão dêstes dois padres à Serra de Ibiapaba foi ordenada por particular providência de Deus, e que é vontade do mesmo Deus que assistam e continuem nela, de que nos tem dado tantos testemunhos, e tão claros, que se não podem duvidar. Já deixamos dito que assim os superiores da missão, como os do Brasil, ordenaram que os padres da serra voltassem outra vez para o Maranhão; mandaram-se estas ordens aos padres por muitas e repetidas vias, mas sempre Deus estorvou que chegassem, e por meios em que não só entrou a sua Providência, senão também o braço do seu poder. A primeira destas ordens mandou o padre Francisco Gonçalves, que, acabando de ser provincial do Brasil, veio visitar esta missão, e mandou-a no mesmo barco em que tinha vindo da Bahia; mas, porque o mestre estava desgostado do padre, por certa coisa em que lhe encontrou a vontade, tomou as suas cartas, em que vinha a ordem, e lançou-as ao mar em vingança, e entregou as dos outros padres. A segunda ordem enviada pelo padre provincial do Brasil, Simão Vasconcelos, ao padre Antônio Ribeiro, que estava em Pernambuco, e chegou esta ordem na tarde do mesmo dia em que o padre pela manhã se tinha embarcado e partido para a sua missão. Em Pernambuco, deu o mesmo padre provincial as duas cartas com a mesma ordem ao padre Ricardo Careu, quando de lá se embarcou para o Maranhão, uma para que se desse no Ceará, outra para que se desse em Juruquaquara, que são os dois portos que comunicam com a serra; e, sendo que esta viagem se faz sempre vento a pôpa, tomando-se todos os portos com grande facilidade, o de Ceará nunca o pôde tomar o barco. O de Juruquaquara tomou-o; mas, tanto que lançou ferro para mandar à terra, foi tal o vento e mares que se levantaram subitamente, que a requerimento de todos se houveram de fazer à vela para se não perderem. Neste mesmo tempo quiseram os padres ir esperar na praia pelo padre Careu, de cuja vinda tinham notícia, e no dia em que estavam para partir chegaram à serra alguns soldados, mandados pelo capitão do Ceará, que detiveram os padres alguns dias, e nestes passou o barco. Do Maranhão tornou o mesmo barco a partir para Pernambuco, vindo nêle uma via das mesmas cartas, para que de volta chegassem às mãos dos padres; mas depois de dois meses, em que por muitas vêzes intentou a passagem, tornou arribado ao Maranhão. Com esta tardança, e a primeira notícia de ter passado, trataram os padres de mandar correio por terra ao Maranhão, e depois de um mês de caminho voltaram com as mesmas cartas que levaram, porque os avisaram os teremembés que nas areias havia muitos tapuias de guerra. Insistiram outra vez os padres com segundos correios, e indo êstes passando o Rio Temona, em uma canoa pequena que levavam para as passagens, acometeu-os um tubarão de tão estranha grandeza e fereza, que, perseguidos, houveram de encalhar em terra, e foi entre umas pedras, onde a canoa se fêz em pedaços, e se tornaram com as cartas. Finalmente, se resolveram os padres a levarem em pessoa as mesmas cartas até tal parte do caminho, e entregá-las a tanto número de índios, e de tanto valor, que não voltassem. Estes foram por fim, os que chegaram, depois de haver ano e meio que por nenhuma via se sabiam novas daquela missão. Estavam detidas no Maranhão tôdas as ordens dos superiores, as quais haviam de levar êstes mesmos portadores dali a oito dias, que foi o têrmo que pediram para descansar, e o que tinham limitado pelos padres. Mas quatro dias depois da sua chegada chegou o governador D. Pedro de Melo, e com êle tais ordens de Sua Majestade, e do padre geral, que ficou suspenso por elas o efeito e execução das outras. De Sua Majestade vieram três cartas, em que encarregou ao Governador que o seu primeiro cuidado fosse procurar que na Serra de Ibiapaba estivessem alguns religiosos da Companhia, para terem à sua conta e obediência aquêles índios, e para segurança dos ditos missionários se fizesse o forte de Camuci, que o governador André Vidal tinha intentado. Do padre geral vieram patentes de visitador e superior da dita missão ao padre Antônio Vieira, que sempre fora do voto que a missão da serra se continuasse, tendo para isto razões de tanto pêso, que, mandando-as logo ao padre provincial, se conformou êle e todos os padres da província com elas. De sorte que, procurando-se com tanto cuidado, por novas vias diferentes, do mar e da terra, e em espaço de ano e meio, que chegassem aos padres da serra as ordens por que eram mandados retirar, Deus as impediu e estorvou tôdas por meios tão fora do curso natural das coisas, servindo-se para isso dos ventos, dos mares, dos rios, dos portuguêses, dos índios, dos tapuias, e dos mesmos peixes, para que se visse que era vontade sua que os padres não saíssem daquele lugar, e que os meios que sua Providência tem predestinados para salvação das almas se hão de conseguir infalìvelmente, ainda que seja necessário para isso tirar de seus eixos a toda a natureza.
Cartas do Padre Antônio Vieira
- XVI -
Escreve o padre Antônio Vieira aos de Ibiapaba; respondem os índios, e mandam visitar o novo govemador do Estado, D. Pedro de Melo, e ao superior das missões, o padre Antônio Vieira; toma tudo melhor forma, e o procura arruinar o demônio.
Com as novas ordens que se mandaram aos padres, foram também cartas aos principais do novo superior da missão, em que lhes dizia que o seu intento e gôsto era dar-lho em tudo o que fosse justo, e que, suposto o amor que tinham às suas terras, que nelas ficariam com êles os padres para os doutrinar, contanto que a êsse fim se unissem todos, e se ajuntassem em uma só igreja. Foi esta nova recebida em Ibiapaba com grande aplauso e festas; e logo mandaram todos os principais, uns a seus irmãos, outros a seus filhos, acompanhados de mais de cinqüenta outros índios, a visitar o novo governador e superior da missão, e um deles, que hoje se chama D. Jorge da Silva, filho do principal mais antigo, para que passasse ao Reino; a beijar a mão a Sua Majestade em nome de todos. Foram recebidos êstes embaixadores com grande festa, que lhes fêz o governador em sua casa, e os padres em o colégio por muitos dias, e tornaram contentes e presenteados êles, com outros mais presentes para seus principais, que é costume mui custoso, e às vêzes mal empregado. Levaram também promessa do padre superior da missão que os iria visitar pelo São João do ano seguinte, com a qual esperança, e com a relação que deram os embaixadores, de quão benévola e liberalmente foram hospedados dos padres, se aplicaram todos à união das aldeias e ao edifício da nova igreja, concorrendo para ela com grande continuação e cuidado; enfim, parecendo, ou podendo parecer que já estavam desenganados das suas suspeitas, e seguros dos seus temores, e que tomavam todos deveras a doutrina dos padres. Mas o demônio ainda se não deu por vencido, e sôbre esta tão diferente urdidura tornou a tecer e continuar a mesma teia de desconfianças, que também lhe tinham saído. Partiu D. Jorge para Lisboa, ficando-lhes no Maranhão, por descuido, as cartas que o padre Antônio Vieira lhe tinha dado; mas bastou ser conhecido por índio da missão Maranhão, para que o conde de Odemira, que foi sempre grande protetor, como obra sua, o mandasse recolher em sua casa, e prover de todo o necessário com muita largueza, e o presenteou depois a el-rei, que Deus guarde, e o enviou outra vez para o Maranhão cheio de mercês de Sua Majestade e suas. Alguns meses antes do São João do mesmo ano mandaram também os principais de Ibiapaba muitos índios de sua nação, e outros de Pernambuco, para trazer à serra ao padre Antônio Vieira, na forma que lho havia prometido; mas como o padre, por enfermidade, e pela expedição das missões do mesmo ano se deteve no Pará até o fim dêle e princípio do seguinte, sôbre esta tardança tornou o demônio a introduzir em Ibiapaba, ou ressuscitar, as mesmas desconfianças dos padres, semeando entre êles, por boca de certos tapuias, que Jorge não fora mandado a Portugal, senão afogado no mar por ordem dos portuguêses, e que os demais os estavam já servindo, repartidos por suas casas e fazendas, como escravos, e que a vinda do padre seria com grande poder e acompanhamento de soldados, para lhes fazer a êles o mesmo. Creram fàcilmente tôdas estas traições os que tão costumados estão a fazê-las; e de uma povoação que pouco antes se tinha feito de três, se fizeram logo mais vinte povoações, para que assim divididos não pudessem ser cercados nem apanhados juntos. Esta foi a resolução que se executou de público, debaixo da qual estava dissimulada outra de maior desatino, que em terem assentado consigo que se até a Páscoa lhes não constasse de certo serem falsas aquelas novas, como os padres lhes diziam, dessem por averiguado o cativeiro dos seus, e tomassem satisfação e vingança dêle nas vidas dos mesmos padres. Tal era a vida que aqui viviam êstes dois religiosos, morrendo e ressuscitando cada dia; antes, morrendo sem ressuscitar, porque o perigo fundava-se na ingratidão e crueldade desta gente, que é a maior do mundo, e a segurança fundava-se na sua fé, que nunca guardaram.
Viagem do Padre Vieira para a Ibiapaba
- XVII -
Parte o padre Antônio Vieira para a serra; valor com que empreende o caminho por terra com os mais companheiros; gastam vinte e um dias; chegam descalças, e com os pés em chagas; trata da reformação da cristandade; acaba com os índios coisas que pareciam impossíveis.
Chegaram estas notícias ao Maranhão quando chegou do Pará o padre Antônio Vieira, o qual se pôs logo a caminho para a serra, levando consigo a D. Jorge, que havia dois meses tinha chegado com sete padres que vieram do Reino, e levando também a todos os índios que tinham vindo de Ibiapaba, assim tobajarás como pernambucanos, os quais quis Deus que estivessem todos vivos, sãos e contentes. Começou o padre esta viagem por mar; mas, começando a experimentar segunda vez as incertezas e as dilatações dela, se pôs logo a caminho por terra, querendo também por si mesmo ver a grandeza dos rios, e o sítio e a capacidade das terras, por serem tôdas estas notícias absolutamente necessárias a quem há de dispor as missões. Os trabalhos da viagem foram os mesmos que já ficam contados, e puderam ainda ser maiores, por caminharem no mês de março, que é o coração do inverno, mas foi Deus servido que fossem os dias enxutos, como os do verão; só dois houve em que se padeceu alguma chuva, com que parece quis o céu mostrar aos caminhantes a mercê que lhes fazia; porque é qualidade destas areias que cada gota de água que lhe cai se converte em um momento em enxames de mosquitos importuníssimos, que se metem pelos olhos, pela boca, pelos narizes e pelos ouvidos, e não só picam, mas desatinam; e haver de marchar um homem molhado a pé, e comido de mosquitos, e talvez morto de fome, e sem esperança de achar casa nem abrigo algum em que se enxugar ou descansar, e continuar assim as noites com os dias, é um gênero de trabalho que se lê fàcilmente no papel, mas que se passa e atura com grande dificuldade. Vinha com o padre Antônio Vieira, além do irmão companheiro, o padre Gonçalo de Veras, um dos que novamente tinham chegado do Reino, e não sendo muito robusto de forças, vimos nêle, com grande admiração e edificação nossa, as fôrças e o desejo de padecer por Deus; porque, tendo saído quatro meses antes do colégio de Coimbra, levava todos êstes trabalhos com tanta constância, facilidade e alegria, como se nascera e se criara no rigor destas praias. Mas é graça esta própria dos filhos de Santo Inácio, que, pôsto se não criam nisto, criam-se para isto. Acrescentou muito o trabalho e incomodidades do caminho não quererem os padres ficar nêle os dias maiores da Semana Santa; e assim se apressaram, de maneira que acabaram tôda esta viagem em vinte e um dias, que foi a maior brevidade que até agora se tem vista; e como vinham a pé e descalços, muitos dias depois de chegarem lhes não sararam as chagas que traziam feitas nos pés; mas o tempo era de penitência, e de meditar nas de Cristo. Entraram na serra em quarta-feira de trevas pela uma hora; e logo na mesma tarde começaram os ofícios, que se fazem com toda a devoção e perfeição, por serem quatro os sacerdotes, e os índios de Pernambuco terem vozes e música de canto de órgão, com que também cantaram a Missa da quinta-feira, e à sexta-feira à Paixão, em que vieram todos adorar a cruz com grande piedade, e na tarde, ao pôr do sol, se fechou a tristeza daquele dia com uma procissão do entêrro, em que iam todos os meninos e moços em duas fileiras, com coroas de espinhos e cruzes às costas, e por fora dêles, na mesma ordem, todos os índios arrastando os arcos e flechas ao som das caixas destemperadas, que em tal hora, em tal lugar, e em tal gente, acrescentava não pouco à devoção natural daquele ato, O ofício do Sábado Santo, e o da madrugada da Ressurreição, se fêz com a mesma solenidade e festa, a qual acabada, começaram os padres a entender na reforma daquela cristandade, ou na forma e assento que se havia de tomar nela; e porque a matéria era cheia de tantas dificuldades, como se tem visto no discurso de toda esta relação, era necessária muita luz do céu para acertar em os maiores convenientes, e muita maior graça de Deus para os índios os aceitarem, e porem em execução; para alcançar esta luz e graça se tomou por padroeiro de toda a missão da serra a São Francisco Xavier, e se lhe fêz uma novena, em que, além dos exercícios ordinários da religião, que se aplicavam todos para esta tenção, se dizia todos os dias uma Missa do santo, e os padres juntos na igreja tinham pela manhã meia hora de oração mental, e de tarde outra meia hora; uma, a que precedia um quarto de lição espiritual, em que se lia uma meditação, a que também assistiam todos, rematando-se a oração de pela manhã com a Ladainha dos Santos, e à tarde com a de Nossa Senhora, à qual se achavam também os meninos da aldeia, e muitos outros homens e mulheres, por se acabar esta devoção na hora em que começava a doutrina. Estava neste tempo no altar uma devota imagem de São Francisco Xavier em hábito de missionário, batizando um índio; e esperamos que, assim como Deus tem feito êste grande apóstolo tão milagroso na Europa, na África e na Ásia, se estenderão também os favores da sua valia e intercessão a esta parte da América. A primeira, que se resolveu e executou logo, foi que todos os índios de Pernambuco saíssem, e fôssem para o Maranhão, como são idos, e se espera grande quietação e proveito espiritual de uns e outros, porque os pernambucanos, com a vizinhança e sujeição dos portuguêses, estando debaixo de suas fortalezas, acudirão a suas obrigações, como têm prometido, e poderão ser obrigados a isso por fôrça, quando o não façam por vontade; e os da serra, sem o exemplo e doutrina dos pernambucanos, que eram os seus maiores dogmatistas, ficarão mais desimpedidos e capazes de receber a verdadeira doutrina, e de os padres lhes introduzirem a forma da vida cristã, o que, endurecidos com a contrária, se lhes não imprimia. Assim mais se assentou com os principais, e com todos os cabeças da nação, que se tornariam logo a unir em uma só povoação, em que se faria igreja capaz para todos; que os que estão ainda por batizar se batizariam; que todos mandarão seus filhos e filhas à doutrina duas vêzes no dia, e à escola; que nenhum terá mais que uma mulher, recebendo-se com ela em face da Igreja; que se confessarão todos ao menos uma vez pela desobrigação da quaresma. Enfim, que guardarão inteiramente a lei de Deus e obediência à Igreja, na qual se criou um ofício de executor eclesiástico, chamado Braço dos Padres, e se proveu em um índio zeloso, e de grande autoridade, irmão do maior principal, para obrigar a todos a virem à igreja, e cumprirem com outras obrigações de cristãos, e os castigar e apenar, se fôr necessário. De tudo isto se fêz assento por papel, de que se deu uma cópia a cada um dos principais, querendo e pedindo êles que lhes ficasse, para que depois se lhes tome conta por ela, e se veja quem melhor a cumpriu. E por que a reformação começasse pelos maiores, e pelo ponto de maior dificuldade, os três principais foram os primeiros que se apartaram das concubinas, e se receberam com a mulher que por direito era legítima, fazendo ofício de pároco o padre superior da missão, e concorrendo com boa parte da despesa para a festa das bodas, que duraram por doze dias e doze noites contínuas.