Part 1
Descrição do sítio da Serra de Ibiapaba
- VIII -
Descrição do sítio da Serra de Ibiapaba; sua dificultosa subida; sua altura, que excede às nuvens; condição de seus moradores; e, chegados a elas os missionários, quanto obram.
Ibiapaba, que na língua dos naturais quer dizer Terra Talha, não é uma só serra, como vulgarmente se chama, senão muitas serras juntas, que se levantam ao sertão das praias de Camuci, e, mais parecidas a ondas de mar alterado que a montes, se vão sucedendo, e como encapelando umas após das outras, em distrito de mais de quarenta léguas; são todas formadas de um só rochedo duríssimo, e em partes escalvado e medonho, em outras cobertas de verdura e terra lavradia, como se a natureza retratasse nestes negros penhascos a condição de seus habitadores, que, sendo sempre duras, e como de pedras, às vêzes dão esperanças, e se deixam cultivar. Da altura destas serras não se pode dizer coisa certa, mas que são altíssimas, e que se sobe, às que o permitem, com maior trabalho da respiração que dos mesmos pés e mãos, de que é forçoso usar em muitas partes. Mas, depois que se chega ao alto delas, pagam muito bem o trabalho da subida, mostrando aos olhos um dos mais formosos painéis que porventura pintou a natureza em outra parte do mundo, variando de montes, vales, rochedos e picos, bosques e campinas dilatadíssimas, e dos longes do mar no extremo dos horizontes. Sobretudo, olhando do alto para o fundo das serras, estão-se vendo as nuvens debaixo dos pés, que, como é coisa tão parecida ao céu, não só causam saudades, mas já parece que estão prometendo o mesmo que se vem buscar por êstes desertos. Os dias no povoado da serra são breves, porque às primeiras horas do sol cobrem-se com as névoas, que são contínuas, e muito espêssas. As últimas escondem-se antecipadamente nas sombras da serra, que para a parte do ocaso são mais vizinhas e levantadas. As noites, com ser tão dentro da Zona Tórrida, são frigidíssimas em todo o ano, e no inverno com tanto rigor, que igualam os grandes frios do Norte, e só se podem passar com a fogueira sempre ao lado. As águas são excelentes, mas muito raras, e a essa carestia atribuem os naturais ser toda a serra muito falta de caça de todo o gênero; mas, bastava para toda esta esterilidade ser habitada ou corrida há tantos anos de muitas nações de tapuias, que, sem casa nem lavoura, vivem da ponta da frecha, matando para se sustentar, não só tudo o que tem nome de animal, mas ratos, cobras, sapos, lagartixas, e de todas as outras imundícias da terra. Quase na mesma miséria vivem igualmente os tobajarás, pôsto que puderam, sem muita dificuldade, suprir a necessidade da terra com os socorros do mar, que lhe fica distante vinte e cinco léguas, e, sôbre ser mui abundante de todo o gênero de pescado, está oferecendo de graça o sal nas praias, em uma salina natural de mais de duas léguas; mas é tão grande a inércia desta gente, e o ócio em que excedem a todos os do Brasil, que por milagre se vê um peixe na serra, vivendo de mandioca, milho, e alguns legumes, de que também não têm abundância, com que é entre êles perpétua a fome, e parece que mais se mantêm dela que do sustento. Não foram novas aos padres as incomodidades do sítio, de que já tinham certas notícias, como dos costumes dos moradores, os quais acharam em tudo no estado em que acima os descrevemos, posto que foram recebidos dêles com grandes demonstrações de gôsto e humanidade, e com aquela admiração e aplauso que sempre acham nesta gente todas as coisas novas. A primeira em que entenderam os padres foi em levantar igreja, de que êles não só foram os mestres, senão os oficiais, trabalhando por suas próprias mãos, assim pelo exemplo como pela necessidade, porque era pouca a diligência com que os moradores se aplicavam à obra. A do edifício espiritual se começou juntamente, porque desde o primeiro dia começaram os padres a ensinar a doutrina no campo, a que concorriam principalmente os pequenos, que muito brevemente tomaram de memória as orações, e respondiam com prontidão a tôdas as perguntas do catecismo. Mas, depois que os padres lhes ensinaram a cantar os mesmos mistérios, que compuseram em versos e tons muito acomodados, viu-se bem com quanta razão dizia o padre Nóbrega, primeiro missionário do Brasil, que com música e harmonia de vozes se atrevia a trazer a si todos os gentios da América. Foram daqui por diante muito maiores os concursos e doutrinas de todos os dias, e maiores também as esperanças que os padres conceberam de que por meio desta música do céu queria o divino Orfeu das almas encantar estas feras destas penhas, para as trazer ao edifício da sua Igreja. A primeira pedra que se lançou nêle, e o primeiro fruto que se começou a colhêr foi o batismo de muitos adultos, e de todos os inocentes, porque nenhum pai houve que não trouxesse a batizar todos os seus filhos, dos quais muitos foram logo chamados ou arrebatados ao céu antes dos anos do entendimento, para que a malícia dos mesmos pais lhos não pervertesse.
Estratégias de Conversão
- IX -
Impedimento que põe o demônio à fé. Meios de que usa. Desacêrto de um capitão português. Perigo da fortaleza do Ceará.
Sofreu mal o demônio que se lhe tirassem das mãos êstes despojos tenros, que êle desde o nascimento tinha já marcados por seus, e temendo dêstes princípios que viria pouco a pouco a ser lançado daquele castelo infernal, que é a chave de tantas outras nações, que tão absolutamente estava dominando, determinou fazer-se forte nêle com todas as suas forças e astúcias, e com as mesmas fazer a esta missão a mais cruel e porfiada guerra, que jamais se tem experimentado até hoje na conquista espiritual de todas as gentilidades do Brasil. Tinham vindo os padres a Ibiapaba com ordem, não de fazerem ali residência, mas de verem a disposição da gente e do lugar, e, com aviso aos superiores, esperarem a resolução do que haviam de seguir. Daqui tomou ocasião o demônio, e daqui forjou as suas primeiras armas, metendo em cabeça a todos os principais que os padres não vinham a tratar da sua salvação, senão da sua ruína, e que eram espias dissimulados dos portuguêses, para avisarem do que passava na serra, e, quando estivessem mais descuidados, os entregarem a todos em suas mãos, os maiores para serem justiçados pelos delitos passados, e os outros para serem vendidos por escravos em perpétuo cativeiro. Não se sabe de qual nasceu primeiro êste diabólico pensamento, mas como todos estavam criminosos, e deviam tanto à justiça do céu e da terra, a própria consciência lhes assoprava êste fogo dentro dos corações e os de Pernambuco, em que eram maiores as culpas e maior e temor, eram os que mais criam, e confirmavam tudo, não havendo ação, nem movimento, nem palavra, nem ainda silêncio dos padres, de que não fizessem novo argumento, e convertessem no mesmo veneno. Isto só se falava entre todos, sôbre isto se discorria e se bebia, que é o tempo e o lugar de seus mais vivos discursos. Estas eram as profecias dos feiticeiros, êstes os conselhos dos velhos, êstes os temores e os prantos das mulheres, olhando todos dali por diante para os padres, não como pais e defensores seus, mas como espias inimigos, e traidores de sua pátria, de suas vidas e de suas liberdades, e como tais se retiravam, e retiravam a todos da casa e conversação dos padres, fugindo até da igreja, da doutrina, das pregações, e ainda da mesma Missa, que era o que o demônio pretendia. Sucedeu por êste tempo fazer viagem o governador André Vidal do Maranhão para Pernambuco por terra, com aviso, que lhe fizeram os padres, que estava seguro o caminho; e como o governador trazia grande escolta de soldados e índios, tiveram pôr certo os de Ibiapaba que aquêle aparato se encaminhava a conquistá-los, e dissimuladamente chamaram todos os tapuias da sua confidência, e os tiveram em ciladas enquanto o governador passou pelas suas praias; e depois que estêve em lugar que já não podia voltar atrás, tornaram a desfazer esta prevenção com tanta dissimulação e secreto, que não chegou à notícia dos padres senão daí a anos. Quase começaram a se aquietar com êste desengano os temores dos da serra, e a verdade dos portuguêses também começou a triunfar das falsas e indignas suspeitas que dêles tinham; mas o demônio, que não aquietava, levantou em outra parte um novo incêndio, para tornar a cegar com o fumo dêle aos que já parece queriam abrir os olhos. Nos arredores da fortaleza do Ceará, distante de Ibiapaba sessenta léguas, vivem duas nações de tapuias gentios, confederadas ambas com os portuguêses, mas inimigas entre si; uns se chamavam ganacés, outros juguaruanas. Estavam êstes ocupados no mato em cortar madeira do precioso pau violete para o capitão da fortaleza, quando os ganacés, levando consigo alguns índios cristãos, de duas aldeias avassaladas que ali temos, deram de repente sobre êles, e, tomando-lhes as mulheres e filhos, se vinham retirando com a prêsa. Fizeram aviso os juguaruanas ao capitão da fortaleza, em cujo serviço estavam, o qual lhes mandou de socorro vinte e quatro soldados portuguêses, com ordem que os ajudassem, e pelejassem contra seus inimigos, podendo mais neste caso, como sempre pode, a razão da cobiça que a do estado, a qual ditava que se guardasse neutralidade com ambas as nações, pois ambas eram nossas aliadas. Chegaram os soldados aos ganacés, que se tinham feito fortes em uma roboleira do bosque, e, desordenando mais a desordenada ordem que levavam, um dêles, que não era branco, persuadiu aos fortificados que entregassem em confiança suas armas, em sinal de paz, para se retirarem debaixo das nossas. Mas os juguaruanos, que já tinham recuperado a prêsa, tanto que viram a seus inimigos desarmados, sem lhes poderem valer os soldados portuguêses, deram sobre êles, e em um momento quebraram as cabeças a todos, que é o seu modo de matar, sem ficar, de quinhentos que eram, nem um só com vida. Foi êste um caso que grandemente alterou os ânimos de todos os índios do Ceará, e muito mais os vassalos e aliados, vendo que à sombra de nossas armas, de que êles esperavam a defensa, fora a mesma, e por estilo tão indigno, que os metera como cordeiros nas mãos de seus inimigos. Clamavam contra os interêsses do capitão e contra a lealdade dos soldados, o que lhes ensinava a dor, e justa ira, e talvez se precipitavam em ameaças contra a fortaleza, e contra a vida de quantos estavam nela.
Guerras
- X -
São chamados os padres para sossegarem os índios; diferenças entre êstes; acode no maior fervor da briga o padre Antônio Ribeiro, a cujas voz suspendem todas as armas, e ficam em paz; reforma tudo êste grande missionário, e parte a Pernambuco em busca de remédio, mas sem efeito.
Posta a fortaleza neste apêrto e receio, receberam os padres cartas do capelão e almoxarife, em que lhes representavam o estado de tudo, e lhes pediam que por serviço de Deus e de el-rei quisessem acudir com tôda a pressa àquela força, pois só a sua presença, e a muita autoridade que têm com os índios, poderia obrar em seus ânimos, tão justamente irados, o que importava à conservação de todos. Por esta causa, e por pertencerem também aquêles índios a esta missão, resolveram os padres partir logo ao Ceará; mas, vendo que com a notícia desta jornada tornavam a reverdecer as suspeitas dos de Ibiapaba, houve de ficar ali um dos padres, como em reféns do outro, e foi só àquela emprêsa o padre Antônio Ribeiro, que, como tão eloqüente na língua, e exercitado em conhecer e moderar os ânimos desta gente, sobretudo ajudado com particular favor de Deus, pôs tudo em poucos dias em paz. Primeiro aquietou, não sem dificuldade, os índios cristãos das aldeias, que, como vassalos de el-rei, e criados em maior política, sabiam melhor sentir e encarecer a causa da sua dor; e com, êles ficaram também quietos os ganacés, primeiros movedores desta tragédia, ajudando não pouco a sua mesma culpa a se comporem com o sucesso, Só os juguaruanas, como provocados sem causa, e como insolentes com a vitória, não cessavam de ameaçar contìnuamente a ambas as aldeias, em uma das quais deram de repente ao tempo que o padre estava levantando a hóstia; mas, acabada a Missa, com a pressa que pedia o perigo, estando já alguns da aldeia mortos, e feridos quase todos, que não chegavam a quarenta, sendo quatrocentos os bárbaros que combatiam uma fraca estacada de que estava cercada, o padre se subiu intrèpidamente sobre ela por meio das frechas, e, não pedindo pazes, nem rogando, senão repreendendo e ameaçando o castigo de Deus aos bárbaros, deu Deus tanta eficácia a estas vozes, e ao império delas, que, suspendendo os arcos e frechas, se retiraram logo todos. E dali a três dias, em presença do padre e do capitão da fortaleza, vieram a fazer pazes, que se celebraram solenemente entre estas e as mais nações ofendidas. Enquanto isto se obrava. não atendia o padre com menos cuidado à doutrina dos índios cristãos, os quais achou na mesma confusão e miséria em que estavam os de Ibiapaba, e, se se pode cuidar, ainda maior, pela maior vizinhança e comunicação que haviam tido dos holandeses, se bem o respeito da fortaleza e o presídio os tinha feito menos rebeldes e insolentes que os outros. Ensinaram-se os inocentes, e batizaram-se todos os hereges, e se reconciliaram com a igreja muitos que estavam casados ao modo de Holanda, e se receberam com os ritos católicos. Enfim, as duas povoações, que eram compostas de gentios e hereges, ficaram de todo cristãs. Restava sòmente a fortaleza por render, onde em certo modo se pode dizer que estava e está o demônio mais forte pela cobiça dos capitães e torpezas dos soldados. A êstes tirou o padre trinta índias, as mais delas casadas, de que se serviam com pública ofensa de Deus, e sem pejo dos homens, indo-as buscar livremente às aldeias, e tomando-as, se era necessário, por força a seus maridos. Dos maridos se estavam servindo igualmente os capitães para seus interêsses, com tanta opressão dos miseráveis, e tão pouca e tão enganosa satisfação do contínuo trabalho ou cativeiro, em que os trazem, sem descansar jamais, que se podia duvidar quais eram dignos de maior lástima, se as mulheres no torpe serviço dos soldados, se os maridos no injusto dos capitães. Trataram os índios com o padre de pôr remédio a êstes danos, que não eram menos consideráveis para os mesmos portuguêses, se aqueles vícios deixaram olhos abertos. Representou-se por meio mais efetivo retirarem-se aquelas aldeias dali para Pernambuco, donde todos os anos, assim como vêm e se mudam os soldados portuguêses, assim viessem e se mudassem os índios necessários ao serviço da fortaleza, e com esta proposta passou o mesmo padre a Pernambuco, posto que não foi admitida, como nunca serão aquelas em que o bem temporal ou espiritual comum se encontra com o interêsse dos particulares que governam. Na viagem visitou o padre as relíquias das antigas aldeias de Pernambuco e Rio Grande que achou espalhadas por aquêles largos e trabalhosos caminhos, e tornou a visitar as do Ceará, batizando, doutrinando, casando e confessando a todos aquêles desamparadíssimos índios, os quais davam graças a Deus de que tudo isto se lhes fizesse de graça, quando muitos dêles viviam como gentios, por não terem com que pagar os sacramentos.
Desconfiança dos Tabajara
- XI -
Desconfiança dos da Serra de Ibiapaba, tendo aos missionários por traidores. Quando padece o padre Pedro Pedrosa, que ficou só na serra; necessidade a que chega, e descômodo destas missões.
Enquanto o padre Antônio Ribeiro se deteve nesta comprida missão, estêve o padre Pedro Pedrosa padecendo as conseqüências dela, que foram persuadirem-se de novo os de Ibiapaba que a jornada ao Ceará, e de Pernambuco, foram só a prevenir dobrados socorros, com que os arrancar a todos das suas serras, chegando a desconfiar das mas muralhas inacessivas com que as fortificou a natureza, e fazendo, como soldados velhos da guerra do Brasil, uma estrada oculta pelo mato, que, no caso que não se pudessem defender, lhes servisse para a retirada, a qual já tinham disposta para partes tão remotas do interior da América, que nunca lá pudesse chegar o nome, quanto mais armas dos portuguêses. Sendo esta a opinião que êstes índios tinham de um dos padres, já se vé qual seria o tratamento que fariam ao outro. Ficou o padre Pedro Pedrosa entre êles só, e sem saber ainda mais que poucas palavras da língua; mas a mesma necessidade, e não ter outra com que se dar a entender, lha fêz aprender copiosamente dentro em poucos meses, estudando, mais ainda que a mesma língua, as razões com que havia de falar e persuadir a esta enganada gente o pouco fundamento de seus temores, e das desconfianças que tinham concebido contra os padres, que por êles estavam padecendo tantos trabalhos, e tinham arriscado tantas vêzes as vidas. Mas nenhuma razão ou demonstração bastava para que vissem ou quisessem ver a sua cegueira. Assim estava o padre aqui mais como prisioneiro das suas ovelhas que como pastor delas, continuando porém sempre em lhes dar o pasto da verdadeira doutrina, a que acudiam poucos, e os mais pequenos, rogando por todos a Deus, e oferecendo por sua conversão os mesmos agravos e ingratidões que dêles continuamente estava recebendo. Alguns meses não teve o padre quem lhe fosse acender uma candeia, deitando-se todo êste tempo sobre ter comido duas espigas de milho sêco, que assava por sua própria mão; mas nisto eram menos culpados os que tinham obrigação de o sustentar, pelas esterilidades do sítio. Muitas vêzes, a horas de jantar, mandou com um prato pedir uma pequena de farinha pelas portas, sendo êle o que fazia o fogo para cozer algumas ervas agrestes, e o que varria a pobre casinha com as mesmas mãos sagradas com que a tinha feito. Dêste tempo é que ficaram ao padre as notícias, que nos dá, de serem tanto saborosas as lagartixas, pela parte de alguma que algum mais misericordioso lhe ofereceu por grande caridade. Tal é a miséria ou o castigo do sítio em que vive esta pobre gente, e por cuja conservação fazem tantos extremos. Quando aqui chegamos, havia quatro meses que os padres não comiam mais que folhas de mostarda, cozidas em água e sal, mas estas com pouca farinha, porque nem os que a lavram a tinham. Alguma jornada fizeram de mais de sessenta léguas, em que levavam a matalotagem na algibeira, que era um pouco de milho debulhado, que, a não ir tão bem guardado, se não pudera defender à fome dos companheiros, e isto é o com que se jejuam as quaresmas e com se festejam as páscoas; mas é já boa de contentar a natureza - e muito mais a graça - e dá Deus tantos sabores a êstes manjares, que não fazem cá saudades os regalos da Europa. Dias houve também caminhando em que passaram os padres só com os cardos do mato, e outras vêzes com as raízes de certa árvore agreste, cavadas por sua mão, a que chamam mandu-rapó, por ser mantimento das emas, que digerem ferro. Mas tinham os padres muito mais que digerir na dureza e rebeldia dos corações da gente com que tratavam, os quais com nenhum exemplo se compungiam, com nenhum benefício se abrandavam, e com nenhum desengano queriam acabar de se desenganar, permitindo-o assim Deus, ou em castigo da sua mesma obstinação, ou para outros maiores fins da sua Providência.
Ameças aos Padres
- XII -
Chega o padre Antônio Ribeiro de volta à serra; alegria com que é recebido; nova desconfiança dos índios que determinam matar os padres; sabem estes da traição, e persistem ainda na serra.