Descobrimentos dos Portuguezes nos Seculos XV e XVI
Chapter 3
Quer Vasco Eannes Corte-Real velejar para as regiões onde lhe desappareceram os dois irmãos queridos; não consente, porém, El-rei, antes manda a outros que vão na infructifera procura dos Corte-Reaes! E o que resta de tanto esforço e ousadia, de tanta coragem e dedicação? A gloria de contarmos entre os Gamas e Albuquerques, Almeidas e Castros, os nobres Corte-Reaes, cuja memoria será tão duradoira como a terra que descobriram e onde pereceram! É o que resta dos Corte-Reaes!
Navegára, e tornára-se distincto na sciencia do mar e da guerra o nosso compatricio Fernão de Magalhães. Seguíra para a India na frota de Diogo Lopes de Sequeira, quando aquelle capitão fôra ás ilhas de Madagascar e de Malaca. Na volta de Goa para o reino, naufragando as naus, deveu-se á intelligente energia e ao dedicado serviço de Fernão de Magalhães, com a salvação das vidas, o não se perder toda a fazenda real. Em galardão d'estes trabalhos, pediu Magalhães a el-rei o accrescentamento de duzentos ou de cem réis mensaes na sua moradia; mas D. Manuel, ou por causa de um processo em que fôra envolvido o illustre navegador, ou porque lhe não houvesse ganhado affeição, indeferiu o pedido.
Este indeferimento valeu uma grandissima gloria á Hespanha. Fernão de Magalhães, estudando e meditando, recebendo copiosas informações das Molucas e de todo o Oriente, presentiu que havia ainda outro caminho para a India além d'aquelle que fôra descoberto pelo Gama. Crente n'esta esperança, deixa Portugal, e vae offerecer á coroa hespanhola o roubar-nos o exclusivo do commercio oriental, patenteando um outro caminho para alli--sem passar pelos dominios portuguezes. Mais offerece provar que as Molucas pertencem á demarcação de Hespanha, quer pela bulla do papa Alexandre VI, quer pelo tratado de Tordesilhas.
Consegue Fernão de Magalhães a necessaria licença de Carlos V, e no dia 1.º de agosto de 1519 sae de Sevilha no navio _Trindade_, seguido por outros quatro navios, _Victoria_, _Santo Antonio_, _Conceição_ e _S. Thiago_, sendo o maior d'elles do porte de 130 toneladas. Vão ancorar em Tenerife, e alli, refazendo-se de agua e mantimentos, recebe Magalhães o conselho de se acautelar dos companheiros, que mais são inimigos promptos a rebellar-se contra elle, do que auxiliares que o ajudem na primeira difficuldade que se deparar. Veleja para a terra de Santa Cruz, entra no Rio de Janeiro, navega depois para o sul, chama _Monte Video_ ao morro situado á entrada do Rio da Prata, e n'este rio surgem todos. Examinam o Rio da Prata para ver se dá a desejada passagem para o mar do Poente, mar avistado por Balboa quatro annos antes, e com este intuito exploram a costa, visitam as enseadas, reconhecem as bahias que descortinam, e ferram n'aquella que denominam de _S. Julião_.
Foi alli onde Magalhães teve de supportar, com os trabalhos e perigos da tormenta, os desgostos da rebeldia dos companheiros. Foi alli onde Magalhães se mostrou energico e severo, como não podia deixar de ser capitão que tanto ousava, capitão que taes feitos emprehendia. Saíndo de S. Julião, entra no rio de Santa Cruz, e, novamente desferindo as velas, continúa a navegar para o sul até descobrir o cabo que chamou _das Virgens_, e, descortinando outro cabo ainda mais para o sul, manda fazer grandes festas, porque, pelas fortes marés e outros signaes, presente que terá chegado ao tão desejado estreito que lhe dê passagem para o outro mar. Entra o famoso estreito, denomina _do Fogo_ a terra do sul, e, apesar de abandonado pelo navio _Santo Antonio_, continua a navegar, e chama _Desejado_ ao cabo que pelo sul termina esse estreito. E assim, a 26 de novembro, desemboca com tres navios no mar que denomina _Pacifico_.
Segue governando a differentes rumos, alcança a ilha de S. Paulo ou Desaventurada, depois a dos Ladrões, e por ultimo as Filippinas. D'alli, guiado por praticos do paiz, vae aonde a sorte mesquinha quer que seja o ultimo dia de vida de tão infeliz quanto ousado e esclarecido navegador. Chega á ilha de Zebut, e, combatendo contra os naturaes com espantosa desegualdade em numero, contra a perfidia e traição dos indigenas, que, reconciliados, lhe preparam tão infame ingratidão, e contra a falta de polvora, quando os companheiros afflictos buscam salvar-se nas lanchas, Fernão de Magalhães, _o portuguez_, cobre e defende a retirada até ao ultimo, e, guardando-se para derradeiro, é morto alli!
Um só navio, o _Victoria_, consegue tocar em Timor, e, commandado por Sebastião d'el Cano, seguir derrota pelo cabo da Boa Esperança, refazer-se de aguada em S. Thiago de Cabo Verde, e entrar a 7 de setembro de 1522 no rio d'onde partíra quasi tres annos antes, tendo feito uma volta completa em roda da terra.
De Magalhães resta a gloria, e, em quanto o estreito que conserva o nome do famoso portuguez unir o Pacifico ao Atlantico, não morrerá nem esquecerá o illustre Fernão de Magalhães.
Não posso concluir esta abbreviada synopse sem dizer que, se a Hespanha se gloría de ter acolhido o pensamento e prestado navios a Christovão Colombo, se Genova se ufana de ser patria de tal heroe, se á Inglaterra peza de haver desdenhado as offertas do grande homem, Portugal, com o sentimento de não acceitar os serviços do esclarecido navegador, póde jactar-se e ensoberbecer-se por ter sido a eschola e o guia, senão o pharol e a derrota, que levou o illustre descobridor ao novo mundo, a que chamaram _America_, quando deveram nomeal-o _Colombia_.
Devo dizer agora quaes foram as consequencias mais notaveis que resultaram d'estes descobrimentos.
Ardua tarefa! Difficil é esta parte do ponto.
Os resultados que derivaram dos descobrimentos dos portuguezes nos seculos XV e XVI, ou exigem largos dias para se exporem, e grossos volumes para se escreverem, ou então se exprimem e, por assim dizer, se symbolisam em poucas palavras.
É realmente grandissimo o horisonte, alegre e risonho o quadro. Sente-se dilatar o peito e bater o coração, podendo dizer-se--sou portuguez--ao relatar quanto deve a humanidade aos portuguezes dos seculos XV e XVI!
Resultaram dos descobrimentos dos portuguezes os mais grandiosos successos desde o findar da edade média até hoje.
Resultaram, com as maiores revoluções, os maiores beneficios para a humanidade! Foram revoluções capitaes; revoluções que fizeram desapparecer alguns nomes do pequeno catalogo dos estados livres e independentes; revoluções que fizeram elevar pequenos estados ao apogeo do poderio e da gloria; revoluções que transformaram completamente a ordem de importancia relativa de todos esses estados!
Resultaram os vastissimos campos, ou ignorados ou esquecidos, e só então amplamente franqueados a todas as sciencias. A todas, porque a todas dissemos:--Ide aprender!
As quilhas dos galeões, sulcando mares nunca dantes navegados, patentearam com os novos mares novos climas, novos ceos e novos astros, um riquissimo thesouro de novissimos tratados, quaes nunca melhores poderam homens escrever. Tratados foram estes de todas as sciencias, escriptos indelevelmente pela mão do Creador, archivados na grande bibliotheca do universo, folheados pelos portuguezes antes de outro algum povo!
A astronomia e a navegação produzem a hydrographia--completa-se e instrue-se a geographia. A medicina corre ávida em procura dos meios que os novos paizes lhe offerecem como á mais proficua das sciencias. A physica, a chimica... todas as sciencias, em fim, correm a frequentar a vasta eschola aberta pela navegação portugueza.
O commercio transforma-se, desenvolve-se e engrandece. Effectua-se a liga das nações pelos laços do commum interesse, e, com tal confraternisar, civilisam-se os povos!
Mas volvamos os olhos para a Europa. Vejamos o que faziam a Inglaterra e a Allemanha, a França e a Italia. Luctava uma pela liberdade, a outra pela religião; a França combatia na Italia, e esta destruia-se luctando contra si mesma na escolha de quem havia de a governar.
O turco, tomada Constantinopla, era affronta constante e permanente ameaça aos dominios do christão. E se antes tal conseguíra, e se os povos congregados á voz dos reis, e os reis congregados ao grito de Roma, não poderam oppor-se á invasão dos mahometanos, que sería de Roma e da Europa, quando a Europa nem sequer já escutava o bradar de Roma afflicta?
Que sería, em taes lances, o rapido e successivo accommetter de hordas sem fim, de innumeros guerreiros, de exercitos de fanaticos, contando-se ás centenas de milhares, guiados pela rapacidade, animados pelo furor religioso? Quem havia de oppor-se a tal invasão?
Veneza e Genova, unicas potencias maritimas da epocha, se foram muitas vezes atalaya e escudo da egreja catholica, não poucas transigiram com os inimigos do christianismo em proveito de interesses menos nobres. A França esquecia S. Luiz, e presenciava tranquilla e folgazã os torneios e caçadas em que a fidalguia ostentava a sua vaidosa nobreza.
A Inglaterra desmanchára os navios em que embarcára Ricardo para a conquista de Jerusalem.
A Hespanha e Portugal, luctando braço a braço com o inimigo da fé, conquistando cada dia um palmo de terra, assentando hoje o arrayal no campo onde hontem ainda se entrincheiravam os contrarios, aquecendo-se agora á fogueira que ha pouco era almenára moirisca, levantando a cruz por sobre o crescente, transformando a mesquita em templo christão, e regando o solo com o sangue dos seus mais predilectos filhos, Portugal e a Hespanha luctavam, e luctavam sós, contra todo o immenso poder dos islamistas.
Se estes dois reinos, pela sua posição no extremo occidental da Europa, ficavam como que apartados da communhão das nações nos proventos e utilidades do commercio, bem certos eram na frente dos combates quando se requeria o valor e o esforço.
Ultimos estados pela situação geographica, eram tambem os ultimos a embainhar a espada em defesa da cruz.
Sangue ardente, provada coragem, dilatada intelligencia, animo audaz, transpõem os mares conhecidos, e, dando mundos novos de presente ao velho mundo, fazem a surpreza e o espanto de quem ouve as modernas maravilhas.
Portugal fecha os golphos Persico e Arabico, apodera-se de Malaca; e assim cortados ficam os infindos soccorros que d'alli e por alli vem ao turco. Limitado, apertado n'um determinado territorio, ruge o leão mahometano. Acode Veneza, ferida do mesmo golpe que enraivecera o turco; apresta navios, que, por terra conduzidos ao Suez, no mar Vermelho naufragam ou são destroçados pelas balas portuguezas.
Constantinopla e Alexandria bem sentem o prompto decrescer, o rapido definhar do seu commercio. Veneza estremece ao reconhecer que nunca mais os seus navios transportarão para todos os portos do Mediterraneo os riquissimos thesouros do Oriente.
Que importa o alongado caminho? Se o mar dá a morte, a terra do turco dá a escravidão, impõe a apostasia, e com a tortura moral a agonia lenta e de todos os instantes, muito peior do que a morte.
Franqueado o novo caminho para a India, quem mais passará por terras inimigas do nome christão?
A Europa, commovida, fita o attento olhar no horisonte. Deixa a cidade de Constantino, abandona Alexandria, esquece Veneza e o Mediterraneo, e vem saudar o Tejo!
Era tempo de que a Europa toda viesse aqui pagar reconhecido preito e sincera homenagem á portugueza heroicidade. Aprestam-se navios, imitam-se os modelos lusitanos, correm-se mais ousadamente as costas, visitam-se com frequencia os differentes portos, robustecem-se os estados, e o turco empobrecido, definhando a olhos visto, sustenta com mão trémula o alfange que por toda a parte cede aos botes da espada portugueza. E tres navios e 160 homens obtiveram, ou antes Vasco da Gama obteve, o que não conseguira toda a Europa caminhando unida em concertados laços, guiada pela palavra de Pedro e animada por Godofredo. Nem S. Luiz, nem Ricardo, nem Alexandre VI, nem Sobieski, nem todos estes heroes feriram tão certeiro golpe no coração do imperio mauritano como n'elle abriu a quilha do _S. Gabriel_!
Eis as consequencias que resultaram dos descobrimentos dos portuguezes nos seculos XV e XVI; eis o motivo por que, do ultimo logar em que era contada esta nação, passou a occupar, se não o primeiro, o mais distincto, o mais glorioso, o mais invejado logar no decimo sexto seculo.
Eis as consequencias que resultaram para nós. Entendo que não devo descer a minucias, nem citar este ou aquelle provento colhido com os descobrimentos que fizemos. Limitar-me-hei a accrescentar que foram taes as consequencias, que ainda hoje, decorrido tão grande lapso de tempo, são-nos honra e gloria para oppôr aos desdens e affrontas, que se tornam villanias de quem as emprega contra aquelles que ensinaram a todos os povos o caminho do mundo.
E seja-me permittido referir-me novamente ao padrão assentado no rio Zaire em 1859, e repetir hoje aqui algumas palavras que então disse ao deixar na praia africana aquelle memoravel symbolo:
«Os resultados dos descobrimentos dos portuguezes foram taes que ainda agora podemos exclamar bem alto:--Disputam-nos hoje alguns palmos da terra que aos graus de 20 legoas descobrimos e conquistámos, em troca de muito oiro, muito sacrificio e muita vida, menosprezados pelos povos a quem ensinámos o que podiam alguns milhares de homens animados pelo acrisolado amor da patria. Bem pouco valemos já. Percorram, porém, os areiaes da Africa, visitem os palmares da Asia, admirem as florestas da America, ou naveguem por entre as ilhas da Oceania, que em toda a parte, ou seja no padrão de pedra, na cruz do templo, na muralha da fortaleza, no nome do descobridor ou na linguagem do povo, por toda a parte hão de encontrar vestigios da passagem dos nossos avós, dizendo--honra ao nome portuguez!»
Foi esta a herança que nos legaram, que ninguem póde roubar-nos, e que eu considero como a mais gloriosa das consequencias dos descobrimentos dos portuguezes nos seculos XV e XVI.
[1] «Nicolau Coelho chegou a Lisboa a 10 de julho de 1499, e Vasco da Gama a 29 de agosto.»--João de Barros. _Dec. I_, liv. IV, cap. XI, pag. 370.
«A 29 de julho (alguns dizem de agosto) entrou Vasco da Gama no Tejo, aonde já o esperava Nicolau Coelho, que tinha chegado a 10 de julho.»--_Indice chronologico das navegações, viagens, descobrimentos e conquistas dos portuguezes_.
«Vasco da Gama chegou a Lisboa a 29 de agosto, segundo Goes, ou nos principios de setembro, segundo Castanheda, tendo sido precedido, em 10 de julho, por Nicolau Coelho, etc.»--_Roteiro da viagem de Vasco da Gama em 1497_, por A. Herculano e o barão de Castello de Paiva, prologo da 1.ª edição.
«A 29 de agosto chegou Vasco da Gama ao patrio Tejo; e sem entrar na cidade, esteve nove dias no mosteiro de Belem, etc.»--_Historia de Portugal_, por Henrique Schæffer.
«D'esta ilha (Terceira) partiu Vasco da Gama para Lisboa, aonde chegou a 29 de agosto, sendo recebido del-rei e de toda a corte com as maiores honras, festas publicas e demonstrações de alegria.»--_Annaes da marinha portugueza_, por Ignacio da Costa Quintella.
«Da ilha (Terceira) forão muytos nauios em companhia das naos, que todos chegárão juntos a Lisboa, que foi em dezoito dias de Setembro do ano de 499.»--_Lendas da India_, por Gaspar Corrêa, publicadas pela academia das sciencias, sob a direcção de Rodrigo José de Lima Felner, liv. I, cap. XXI, pag. 137 e 138.