Descobrimentos dos Portuguezes nos Seculos XV e XVI

Chapter 2

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Ficam alli dois homens e uma cruz. São decorridos 364 annos, e a cruz domina e protege aquelle vasto imperio. Á sombra da cruz de Cabral repoisaram os homens de 1500--a cruz de Christo tem defendido durante mais de tres seculos a terra de Cabral. E se trocaram pelo de Brasil o primitivo nome, não poderam trocar por outra a primeira edificação que alli fizemos, o primeiro monumento que alli levantámos e o primeiro signal que alli deixámos. É bello meditar como através dos seculos, se afigura ainda hoje pairar sob o ceo brasileiro o symbolo de paz e fraternidade deixado por Pedro Alvares. Possa o emblema da redempção guardar e ser o eterno defensor dos nossos irmãos na terra de Santa Cruz!

Destacado Gaspar de Lemos para o reino com tão fausta nova, veleja a armada a 2 de maio, soltando rumo para o temeroso cabo da Boa Esperança. Alli, em desastrosa tempestade, perece Bartholomeu Dias; e assim pôde o tormentoso cabo _tomar de quem o descobriu summa vingança_. Prosegue Cabral, e, visitando a costa da Arabia e da Persia, vae a Calecut, a Cochim e Cananor, d'onde regressa a Portugal trazendo embaixadores a el-rei.

João da Nova sae de Lisboa, e caminho da India encontra a ilha da Ascensão, avista a ilhota ou baixio que recebe o seu nome, e ao voltar a Portugal aporta á celebrada ilha de Santa Helena, que dos nossos dias occupa tão larga pagina em a historia da casa real de França e na da politica geral da Europa.

D. Manuel é bastante prudente para pensar em tudo, para a tudo attender; não despreza nem olvida o descobrimento de Cabral, e para aquellas terras envia o florentino Americo Vespucio, que, reconhecendo-as, visita a costa, chega ao Rio da Prata, segue para o sul, e se torna ao Tejo para novamente ir áquellas regiões e adquirir a gloria de deixar o seu nome ao novo continente, primeiro avistado e visitado por outros navegadores.

Entretanto reclama a India a mais séria attenção. Os moiros, surprehendidos no trato exclusivo d'aquelle vasto emporio, ousam tudo, desde a perfidia até á guerra, para prohibir o commercio aos portuguezes. Incitam os naturaes, e, por mil industrias, armam ciladas, movem contestações e provocam combates taes que fazem perigar o nosso estabelecimento n'aquellas apartadas regiões. Levaramos á India a paz, e pediamos em troca da nossa ousadia e esforço a liberdade de commerciarmos; tornaram-nos a traição e a guerra em troca d'aquelle pacifico intuito. Urgia mostrar que, se os navios recebiam especiarias, tambem jogavam possante artilheria; que os recem-chegados negociantes eram mais experimentados ainda nos botes e estocadas, nas lides e nas pelejas, do que no trafego das quintaladas; que, finalmente, se a cruz de Christo arvorada nas bandeiras, e exposta nas velas das naus e galeões, não dizia guerra, não podia tambem servir de menosprezo nem de symbolo de affronta e irrisão para quem a buscára por egide e trophéo.

Predissera o illustre Gama que daria o Samorim trabalhos e perda de fazendas e de vidas. Ao Gama incumbe D. Manuel de voltar á India, para castigar o senhor de Calecut, assentar paz e duradoiro trato com aquelles povos que o bem merecerem, deixando alli navios para guardar e proteger os portuguezes e seus alliados. Vae D. Vasco, confiado na propicia estrella que lhe fôra guia e pharol; vae segunda vez á India aquelle que depois inspira confiança aos assustados companheiros, bradando-lhes:--«Coragem! o mar estremece afflicto debaixo dos meus pés; assim se mostra timido o vencido ante o vencedor.»

Tres divisões, compostas de naus, caravelas e galeões, capitaneadas pelo Gama, dão as velas ao vento e singram para o Oriente.

Tributa o rei de Quilôa, contrata paz e amizade em Cochim e Cananor, inflige severissimo castigo ao rei e cidade de Calecut, recebe embaixadas de diversos principes, e, coberto de gloria, vem entrar no Tejo, entregando a el-rei o oiro de Quilôa, que, fabricado em monumental custodia, é offerecido pelo venturoso monarcha ao mosteiro de Santa Maria de Belem.

Contempla a Europa em extatica admiração o espectaculo que offerece um tão pequeno povo; pequeno contado o numero de individuos que o compõem, grande pelo valor e audacia que provam nos arrojados commettimentos.

Só o turco sobresaltado padece desde logo as terriveis consequencias de tal descobrimento. Só a senhoria de Veneza experimenta o golpe profundo que lhe descarregámos no seu commercio. Por isso a Turquia e Veneza, dando as mãos mais uma vez, ligam-se agora contra os portuguezes na India. Iam estes alargando as relações com estender o conhecimento, com ganhar a affeição dos naturaes, e com desempenhar lealmente os compromissos contrahidos. Mas, se alcançáramos o respeito que impõe a força estacionada n'aquellas paragens, faltava ainda, e faltava sensivelmente alli, a força que deriva da auctoridade, a força que, partindo de um centro, se irradia para todos os pontos, e a todos os pontos alcança, illumina e dirige.

Vale muito o braço que fere, mais vale ainda a cabeça que dirige. É essencial mandar, á India não, mas para a India, um homem que por todos pense e a todos governe. Medita o rei na melindrosa escolha d'aquelle que deve ser delegado seu e seu representante. Entre milhares de guerreiros, entre centenas de heroes, mal se compadece preferencia que não venha do acaso. Entretanto o rei medita, e, fitando a vista em D. Francisco de Almeida, designa-o e elege-o para tão ardua missão, e com o titulo de vice-rei o envia á India. É D. Francisco o astro ao qual volvemos admirados o pensamento; é o astro que admirâmos cercado pela brilhante auréola formada por todos os nobres portuguezes, que cada dia mais se nobilitam no Oriente.

Seguido por vinte e uma velas, navega para a India o nobre Almeida, e, mal tem passado o cabo da Boa Esperança, em Quilôa e Mombaça, substituindo o rei, recebendo pareas e levantando fortalezas, assignala a sua chegada ao Oriente, onde o antecede a fama bem merecida dos seus feitos e victorias. Companheiro e mais que amigo, o bravo D. Lourenço, filho estremecido do vice-rei, é o Hercules portuguez, cujo nome a historia guarda e conserva a tradição em honrada memoria.

Chegam á India, constroem fortalezas em Cochim, Angediva e Cananor. D. Lourenço descobre Ceylão, acompanha e comboya as naus de Cochim, e, quando descançado repoisa no rio de Chaul, é improvisamente accommettido pelas forças combinadas do turco e dos reis de Cambaya e Calecut. E de força são taes navios, que cuidam os illudidos portuguezes ver n'elles as naus do reino esperadas n'essa monção.

Não vale, porém, muito aos infieis a surpreza com que os nossos foram colhidos. Responde ao atrevimento dos infieis o valor portuguez, e resgata a heroicidade na peleja o descuidado nos apercebimentos para a lucta. Desegual pela inferioridade numerica dos nossos combatentes, dos nossos canhões e dos nossos navios, ainda assim conquista a espada portugueza loiros, que bem depressa hão de trocar-se em cyprestes. Esgotam-se as munições no combate, que, por traição ou receio, deixou de travar-se braço a braço. Aprezados alguns navios do inimigo, vinda a noite, concertam-se os nossos para a pugna no seguinte dia.

Apesar de novos soccorros e reforços, mais não ousam os contrarios do que esperar pelo combate. Não se fez esperar; que, mal sopra o vento de feição, os nossos, desferindo as velas, manobram procurando abordar a esquadra de Mir-Hocem. A nau de D. Lourenço, mentindo a virar, é levada pela forte corrente de vasante para sobre uma estacada, contra a qual se encosta e ameaça de soçobrar. Instam com o capitão-mór para passar a outro navio. Não o conseguem, porque D. Lourenço quer ser o ultimo a deixar a nau, e não ha bateis nem esquifes para conduzir toda a tripulação. Os outros navios, havendo antes seguido o capitão-mór, quando chegam a surgir é em tal distancia d'elle, que não podem vencer a impetuosidade da corrente para d'elle se acercarem, nem com os navios, nem com os bateis.

Posto em tão grande aperto, a nau de D. Lourenço é rijamente accommettida. Crivada de balas, completamente alagada e assente no fundo, continúa ainda a vomitar a destruição dos inimigos, que se succedem e substituem mais promptamente do que a morte os colhe e arrebata no furor da lucta. E a bandeira do capitão-mór só desce da gavea quando uma bala, levando as duas pernas a D. Lourenço, deixa a nau accommettida de toda a força da armada inimiga, defendida apenas por 24 portuguezes--por 24 heroes! Entregam-se elles a Melequiaz, que não aos rumes, e, quando os inimigos entram no destroçado navio, só encontram restos de christãos. Cada gavea é tão acanhada sepultura para os mortos alli accumulados, como a nau é vasto cemiterio. Á entrada do rio se demora a nossa armada, mas não se atrevem os contrarios a investil-a, tão pouco se julgam vencedores, tanto se arreceiam d'aquelles a quem só a força do destino fez que deixassem de vencer.

Quem levará a triste nova ao vice-rei? Urge dar-lhe prestemente noticia do infausto successo. A sorte, designando a Camacho, o obriga a navegar para Cochim. Entretanto adivinhára presago o coração de D. Francisco a morte de seu filho quando viu voltarem sem elle as naus de Cochim e Cananor. Sereno espera a caravela que já se avista. Chega Camacho, e como a occasião é de luctos e tristezas, não de alegrias e festas, passa a fortaleza sem a saudar, e, desembarcando, vae ante o vice-rei, que o recebe grave, mas tranquillo. Estremece Camacho ao aspecto venerando de D. Francisco, o qual, recalcando no peito as ancias de pae extremoso para só deixar apparecer o vice-rei da India, mais severo que urbano, lhe pergunta: «Por que não salvastes á fortaleza, que não é do pae do morto, mas del-rei de Portugal?» Debulhado em prantos, pretende Camacho justificar-se com sentidos lamentos, que sirvam de conforto ao pae que forceja por não parecel-o. «Ora vos ide a descançar, e mandae á caravela que faça sua costumada salva, e eu mandarei na egreja fazer signal pelo defuncto; e o mais deixae, porque quem o frangão comeu ha de comer o gallo ou pagal-o.» Isto responde o nobre Almeida, e nobremente cumpre tal promessa. Só ella o retem na India.

Espera as naus do reino, e, mal que chegam, veleja para onde a vingança o impelle e a gloria o aguarda. De caminho para Diu, entra em Dabul, espalha a desolação e terror, entregando ao fogo o que se livra da espada; chega a Bombaim, e d'alli, por seguro portador, envia o leal D. Francisco uma carta a Melequiaz, governador de Diu, prevenindo-o de que o vae atacar. Não quer o illustre Almeida que digam moiros que o vice-rei vencêra por surpreza. Despreza tal soccorro, e, fundeando ante a forte e opulenta cidade, prestes se prepara para um combate que deve decidir do nosso futuro n'aquelles mares.

Ajudado de todo o mauritano poder no Oriente, sae Mir-Hocem de Diu, e, fazendo pomposo alardo das suas forças, larga ancora toda a armada bem junto á terra.

Confiados na superioridade que dá o numero, estão os moiros descançados, e passam em gritas e prazeres a noite que antecede o combate, e que para a mór parte d'elles é vespera da eternidade.

A pique esperam os nossos pela viração. Tão depressa ella enruga as vagas, como afanosamente é aproveitada nos traquetes, e as naus vão dar fortemente sobre os moiros.

Trava-se rija a peleja, disputa-se enfurecido o combate. Não é lucta, mas encontro de furor, que alli se vê na sanha com que obstinadamente se perseguem os contrarios. De um e outro lado comprehendem que vae ser decisivo este duello. De um e outro lado succedêra á inimizade o odio, e ao odio o rancor.

Celebre nos fastos da historia maritima, foi esta a primeira batalha naval dos tempos modernos, dada segundo as regras de um bem formado plano de tactica, e servirá de doirada pagina em que as futuras gerações leiam a historia de um grande heroe e de um grande povo.

Suppre a coragem, o esforço, a ousadia, o atrevimento, a ardidez, onde rareia o numero. Acossados por toda a parte, mas por toda a parte multiplicando-se, como que subdividindo-se, e a toda a parte acudindo, cede, recúa, foge e é desbaratado o inimigo, que para salvar-se procura a terra. Com o seu chefe, internam-se e desapparecem os contrarios, para não mais voltarem á India, deixando a armada em despojo e testimunho da victoria solemne alcançada pelo vice-rei D. Francisco de Almeida no sempre memoravel dia 3 de fevereiro de 1508.

Entrega Melequiaz os 24 captivos que recolhêra da nau de D. Lourenço; mais entrega, com largas indemnisações de guerra, os moiros que se encontram na cidade, e alli offerece ao vice-rei que levante fortaleza. Mas D. Francisco entende, como Themistocles entendia e repetia aos gregos, que para ser grande em terra mais preciso era ser grande no mar. Volta Almeida a Cochim, depõe o governo da India, e ao regressar á patria, venerado pelos amigos, temido e admirado pelos contrarios, entra na aguada do Saldanha para morrer morte ingloria e mesquinha em miseravel contenda. E assim, e ás mãos de um selvagem negro, morre um dos mais esclarecidos varões que floresceram no seculo XVI.

Diogo Lopes de Sequeira, levando comsigo Fernão de Magalhães, chegára a Sumatra e a Malaca, onde assentou feitoria.

Descobríra Tristão da Cunha as ilhas que ainda guardam o seu nome, fôra a Socotorá, desembarcára com Ruy Coitinho na ilha de Madagascar, a que chamou de S. Lourenço, e que simultaneamente visitára Fernão Soares.

Havia então em Portugal abundancia de verdades, espadas largas e portuguezes de oiro, que se expediam successivamente para a India. Nem mais verdade, nem espada mais larga, nem portuguez mais de oiro, alli enviámos do que Affonso de Albuquerque.

Albuquerque, Napoleão portuguez, foi o primeiro que depois de Alexandre passou á India como conquistador, e, mais do que Alexandre, como civilisador.

O braço de Albuquerque rende a forte Ormuz. Ormuz, á qual chamava a pedra do annel formado pela India! Ormuz, onde recebe embaixadores do xeque Ismael, que lhe pedem pareas como tributario, e a quem manda entregar pelouros e lanças, dizendo-lhes que é aquella a moeda com que el-rei de Portugal paga tributo aos reis da India.

Ormuz é pouco, fecha apenas o golpho persico. Como o estreito arabico é guardado por Socotorá e Camaram, mais é preciso assentar fortaleza e dominio em Goa e Malaca. Caem, pois, em poder do illustre Albuquerque a doirada Goa e a riquissima Malaca. Expede embaixadores e descobridores para Sião, Duarte Fernandes e Ruy da Cunha ao Pegú, e a Maluco Antonio de Abreu.

Assim consegue o esclarecido Affonso dominar da pequena ilha de Goa todo o Oriente, fechar, nas mãos do rei de Portugal aquelle vastissimo emporio, aproveitar e governar o commercio do mundo!

Das lides do cêrco descança Albuquerque na fadiga da conquista, repoisando depois na lucta dos temporaes, para em fim se entregar ao duro encargo de reger e administrar tão dilatados dominios, tão extenso commercio, tão variados interesses, tão diversos e numerosos subalternos.

Não ha logar para admiração: os acontecimentos succedem-se com incrivel rapidez durante o governo de Albuquerque. Havemos de admirar o genio, o esforço, a ousadia do governador, ou a negrura e perfidia dos invejosos? Nunca tão baixos sentimentos sacrificaram mais nobre victima. Albuquerque, levantando a sua patria ao apogeo do esplendor, ao cumulo da opulencia, recebe em troca de taes serviços a mais negra ingratidão; e, quando o desprezo da corte pretende affrontar o nobre Albuquerque, elle, ralado pelo desgosto, consumido pela febre que o devora, definha e fallece, acolhendo-se á egreja _mal com o rei por amor dos homens, e mal com os homens por amor del-rei_.

Indigno do nome portuguez fôra eu, se tratando dos descobrimentos dos portuguezes nos seculos XV e XVI, das causas que os determinaram e dos resultados que derivaram d'esses descobrimentos, deixasse de pronunciar os venerandos nomes do illustre Almeida e do grande Albuquerque. Lamento que me falte o tempo, e que, pronunciando apenas os nomes d'aquelles immortaes varões, tenha de passar em silencio os bravos feitos do intrepido Duarte Pacheco e de outros heroes que levantaram á altura das primeiras marinhas dos passados seculos a marinha portugueza no decimo sexto seculo.

Não posso fazel-o, porque é pouco o tempo que me resta para ainda tratar de tantas e tão grandes acções, de tantos e tão nobres feitos, e para satisfazer á terceira parte do meu ponto. Resumirei, pois, quanto podér, nos mais estrictos limites de uma resenha, e não de larga narrativa, os acontecimentos que se succedem. Outro tanto não devia nem podia fazel-o com os anteriores factos. Foi d'elles, e do systema seguido para o seu conseguimento, que se obtiveram os resultados espantosos que passarei a expor. Não podia pois, deixar de consagrar alguns minutos á memoria de portuguezes que logram occupar largas e brilhantes paginas de todos os sinceros historiadores, de todos os philosophos que hão registado o progressivo caminhar dos povos na senda da civilisação, na estrada do progresso.

Cruzam-se nos mares as rótas dos galeões portuguezes. A caravela desfralda altiva a bandeira da ordem de Christo, guardando do estrangeiro accesso a costa africana.

A galé sulca, e secunda nas paragens do Oriente os esforços dos nossos contra a traição dos naturaes.

Levantado o véo, exposto o Oriente a todas as vistas, tornam-se habituaes os portuguezes na manobra dos navios, no conhecimento dos tempos e das costas, e, arrojadamente curiosos, tudo devassam, tudo visitam, tudo observam, buscando os terminos do mundo.

É assim que ao perpassar das naus se apresentam as ilhas de Pedro Mascarenhas; é assim que Duarte Coelho vae á Cochinchina, Andrade desembarca na China, Jorge Mascarenhas em Lequeos, Antonio Corrêa no Pegú; é assim que a Asia insular é reconhecida, e que a terra depois chamada Nova Hollanda é expugnada; é assim que o Japão se depara á admiração dos capitães e ao zelo fervoroso dos missionarios. As feridas da espada conquistadora eram curadas com o balsamo da religião. Onde apparecia a espada brilhava a cruz. Quando o soldado bradava «Guerra!», o sacerdote solicitava paz e misericordia. Foi assim que nós conquistámos, foi assim que nós civilisámos... Esqueçamos os desvios de quem por vezes deixou de imitar o padre por excellencia, o missionario por dedicação, o martyr voluntario, o apostolo do Oriente, S. Francisco Xavier, em fim.

Morrêra D. Francisco de Almeida ás mãos dos negros, finára-se Albuquerque ralado pelos desgostos, fallecêra el-rei D. Manuel seguindo de perto o seu mais valente capitão, expirára o nobre Gama na India que descobrira. Tão apressados em caminhar para o tumulo como o foram de se immortalisar, presagio devia ser do negro futuro que aguardava a sua patria. Rei venturoso, feliz de ti, que ao legar tantos reinos, tantas glorias e tanto oiro, soubeste escrever em doiradas paginas a historia do teu reinado de vinte e seis annos, tão povoada de heroicidades, tão abundante de nobres feitos, que bem vale por si sómente toda a historia de um povo. E se quiz Deus que uma fosse negra entre tantas paginas de oiro, foi de certo para provar ás futuras gerações que existiu em verdade o reino que aliás tomariam por fabuloso, e que o rei d'esse reino foi um homem, D. Manuel, e não um Deus.

Taes homens não morrem, vivem sempre na memoria. E vivem para guardar o que conquistaram, e vivem para dar exemplo dos seus feitos, e vivem para incitar novos commettimentos, e vivem bem de pé, encostados ao leme do galeão, segurando a penna ou empunhando a espada, em quanto vive o derradeiro que os conheceu. Foi a estes homens que governou D. João III. Estavam os ceos serenos e limpidos á hora em que os reis d'armas bradaram «Arrayal!», por elle, turvos e carregados os deixou ao soarem os dobres pedindo orações para a sua alma. Foi com a seiva do reinado de D. Manuel que vegetou o de D. João III--seiva que bem podia sustentar ainda a opulenta e pesada coroa que mais tarde havia de despedaçar-se no solo africano, de encontro ás lanças do infiel. Se já não ascendia a estrella que brilhava no ceo, essa estrella brilhava comtudo, e ainda não descendia. O occaso... era, portanto, imprevisto.

Começam as luctas contra quem começa a disputar-nos os proveitos resultantes de emprehendimentos que não foram disputados, e em que sós, e bem sós, nos achámos. Começam a revelar-se as tendencias mercantis para sobrepujar os commettimentos da heroicidade. E estas luctas sustenta-as el-rei D. João III contra a Inglaterra e contra a França, que pretendem frequentar os nossos dominios maritimos. Mas começára a epocha do commercio, repetimos, e se as espadas de Nuno da Cunha e D. João de Castro ceifam loiros immarcessiveis, se Antonio da Silveira e João de Mascarenhas se immortalisam defendendo Cambaya, nem por isso as tendencias se revelam menos em preferir o negocio que produz riquezas ás estocadas que dão morte, ainda que com gloria. É n'este reinado que Martim Affonso de Sousa vae á terra de Santa Cruz, e alli começa a estabelecer colonos, que depois hão de tornar-se n'um grande povo. É tambem n'este reinado que Thomé de Sousa desembarca na Bahia de Todos os Santos, onde lança os fundamentos de uma grande cidade.

Mas o tempo insta, e falta-me fallar de tres prestantissimos varões.

São elles Corte-Real, Fernão de Magalhães e Christovão Colombo.

Nem pelos ter posposto a outros esclarecidos navegadores n'esta brevissima resenha, deixam elles de occupar privilegiados, se não principaes logares, entre os mais illustres e nobilissimos navegadores e descobridores.

Fallarei primeiro dos Corte-Reaes.

Governava este reino o filho de D. João I. Affonso V acolhia e estimava as arriscadas emprezas a que serviam de incitamento o aturado e porfioso estudar da eschola de Sagres. Deviam alli ter achado as antigas noticias dos descobrimentos e navegações do povo scandinavo além da Islandia e Groelandia, ás terras denominadas Markland, Vinkland, etc., actualmente esquecidas por quem primeiro as encontrára, ou destruidas e submergidas com os infelizes christãos que n'ellas se achavam, ou estes completamente anniquilados e desapparecidos sob formidaveis moles de gelo.

Quando em Sagres convergiam toda a luz da intelligencia, toda a força da vontade audaciosa de um povo soccorrido com as luzes e os esforços dos mais esclarecidos e dos mais aventurosos genios de todos os paizes, é claro que não podiam minguar noticias de acontecimentos tão notaveis e tão sabidos poucos decennios antes. A estas noticias, e ao pensamento primordial que presidia então a todas as nossas navegações,--descobrir um caminho, uma passagem para a India,--devemos attribuir o arrojo com que João Vaz Corte-Real, fidalgo da casa do infante D. Fernando, se arriscou a navegar para o noroeste em demanda das terras anteriormente visitadas, ou a fim de passar o mar até encontrar a India.

Sabemos que em 1462 João Vaz Corte-Real, com Alvaro Martins Homem, chegára á Terra Nova ou do Bacalhau. Não se encontram, porém, vestigios de terem proseguido estas navegações desde então até ao fim do seculo. Foi em 1500 que o nobre Gaspar Corte Real, auxiliado por el-rei D. Manuel, conseguiu sair do Tejo com dois navios, e, tocando na ilha Terceira, visitar os seus amigos e parentes para depois seguir a derrota de seu pae. Chega á terra que denomina _Labrador_, visita o porto das Malvas, a Terra Verde, o rio Nevado, a ilha do Caramelo ou dos Demonios, e o que hoje se diz _Canadá_. Denominou-se _Canada_, e não _Cá nada_, como se cuida que foram as palavras dos primeiros portuguezes que entraram esse rio: _Canada_, por não ser largo o caminho, que, como desejavam e esperavam, désse passagem para a India; e não _Cá nada_, por deixarem de encontrar o oiro, _porque o oiro que então procuravamos era a India_. Volta Corte-Real a Lisboa, e, partindo novamente para aquellas paragens no anno seguinte, nunca mais se recebem noticias d'elle. Miguel Corte-Real, seu irmão, dirige-se para a terra do Labrador, e tambem d'alli não volta.