Descobrimento Das Filippinas Pelo Navegador Portuguez Fernao De
Chapter 5
Foram, porem, mais longe as boas relações que entabolaram com aquella gente. O rei de Zebú manifestou desejo de ser christão, depois de ouvir as façanhas praticadas por portuguezes e hespanhoes, animados da grande força moral que a religião do crucificado dava aos que observavam a sua lei.
O baptismo do rei de Zebú celebrou-se com grande aparato, e não só este rei mas muitos outros regulos ou senhores d'aquella ilha, rainhas e boa parte da população receberam a agua do baptismo.
Não se poderá affirmar que a convicção ou a fé os movesse a tão facilmente abraçarem a religião de Jesus Christo, porque de certo o espirito d'aquella gente não poderia estar preparado para comprehender toda a sublimidade do christianismo; mas sim os attrahiu a curiosidade e ainda mais a idéa de que o baptismo lhes daria mais coragem e valor para vencerem seus inimigos nas guerras que traziam com os povos vizinhos.
Sim, isto sobretudo é que os devia ter attrahido.
Viam alli gente christã que os deslumbrava com o seu poder, que elles consideravam como sobrenatural, quando a artilharia disparava tiros retumbantes, e a mosquetaria fuzilava lume pelo ar; e sem poderem ainda apreciar a grande vantagem das armaduras, contra as quaes se embotariam as suas agudas settas, pois não haviam entrado em lucta, o fogo das armas lhes bastava para os maravilhar, apesar dos christãos só terem dado descargas de polvora secca.
Dominados aquelles indigenas pelo prestigio dos christãos, foi relativamente facil a Magalhães obter d'elles quanto queria; e assim o rei de Zebú jurou solemnemente fidelidade a Carlos V, e com elle todos os senhores da ilha submissão ao imperador das Hespanhas.
Não, obstante o reconhecimento da auctoridade de Carlos V e da submissão dos habitantes da ilha de Zebú, o senhor ou rei de outra ilha proxima não approvou o procedimento dos seus vizinhos, e por isso, quando alli foram os hespanhoes, para entabolar relações, o rei negou-lhes obediencia.
Isto deu logar a uma demonstração de força dos hespanhoes, que incendiaram uma aldeia da ilha, retirando-se depois nas chalupas.
O regulo que não quizera reconhecer a auctoridade dos extrangeiros, chamava-se Silapulapú; mas outro regulo da mesma ilha, chamado Lula, mostrou-se mais docil, e tanto, que prometteu a Magalhães o mandar-lhe presentes em troca dos que d'elle recebera.
Este Lula, consciente ou inconscientemente, foi a causa da desgraça do grande navegador. Elle incitou, por assim dizer, Magalhães a fazer a guerra a Silapulapú, e se o fez de boa fé, ou de plano concertado, para dar ruina aos christãos, é o que a historia não diz, mas se poderá inferir pelo modo como Lula procedeu.
Na manhã de 26 de abril de 1521, enviou Lula um seu filho a Magalhães com duas cabras, dizendo-lhe que, se não mandava mais presentes, não era por sua culpa, mas porque Silapulapú a isso se havia opposto, persistindo em não reconhecer a auctoridade dos hespanhoes. Dizia mais o Lula que, se Magalhães lhe mandasse alguns dos seus homens de guerra, elle promettia, com a sua gente, reduzir á obediencia o Silapulapú.
Esta simples mensagem de Lula foi para Magalhães como que um repto á sua coragem e valentia.
Não se diria nunca que Fernão de Magalhães hesitava um momento quando lhe reclamavam o esforço do seu braço, a bravura do seu animo. Elle, soldado ousado, que havia ferido guerras em Africa, e que ha tanto tempo conservava a espada na bainha, sem ter ensejo de retemperar o aço da sua lamina, rechassando o inimigo; elle, a quem a aventura attrahia e povoava a sua imaginação das mais seductoras façanhas, encontrava alfim novo ensejo para experimentar se o seu braço ainda era o mesmo e se a boa estrella, que tinha guiado sempre as suas armas, mais uma vez o conduziria á victoria.
As circunstancias, porém, não se apresentavam muito favoraveis, e d'isso o quiz convencer João Serrão, homem experiente, que não se deixava fascinar pela gloria, mais que duvidosa, da temeridade d'aquelle feito.
Era preciso attender a que a gente de Magalhães estava consideravelmente reduzida: uns, tinha-os a morte levado; outros, as doenças e trabalhos da viagem os haviam impossibilitado. Os válidos eram poucos, e esses mesmos meio depauperados.
Tudo isto ponderou Serrão a Magalhães. O rei de Zebú tambem se mostrou contrario á resolução do grande capitão, apesar de não poder calcular toda a força e valentia de que os christãos poderiam dispôr, na conta em que os tinha de homens extraordinarios, por assim dizer, sobrenaturaes. Entretanto sabia que o inimigo era assaz numeroso, e pelo sentimento nato de que, contra a força não ha resistencia, elle pensava, a despeito de todas as maravilhas creadas no seu espirito, quanto era arriscada e talvez fatal para os hespanhoes a lucta que ia travar-se.
Magalhães não attendeu as razões nem os conselhos dos seus e do rei de Zebú. Costumado a mandar e a ser obedecido, tanto mais depois de ter subjugado os proprios elementos para chegar ao termo da sua empresa, nenhumas forças seriam capazes de o demover da resolução que tomára, de submetter pelas armas os habitantes da ilha de Mactan que se negavam a prestar obediencia.
O numero dos seus soldados pouco lhe importava, como pouco lhe importava se o inimigo era assás numeroso. Estava elle com o seu braço e com a sua espada costumada á guerra contra infieis. Vencera em Africa muitas vezes contra milhares de indigenas, e de que façanhas se poderia orgulhar se assim não fôra!
A sua espada e a sua fé valiam por um exercito; sob o seu commando e ao seu lado cada soldado valia por mil. Eram assim as guerras d'aquelle tempo contra os povos d'alem mar, como o tinham sido na peninsula contra os mouros; a cruz levava de vencida o crescente por toda a parte; porque não havia de triumphar tambem alli?!
Para quem com tanta firmeza e sacrificio tinha desvendado os mares procellosos, para dar a volta ao mundo, luctando tenazmente pela sua idéa, tantas vezes contrariada pelos elementos e pelos homens, que valia agora a resistencia de uns selvagens?
Muito maiores obstaculos tinha elle destruido no seu caminho, sobrando-lhe sempre animo para proseguir avante, e não podia comprehender que homens como aquelles que o acompanhavam na temeraria empresa que se propôs, que com elle tinham compartilhado dos perigos para alli chegarem, se arreceassem agora de entrar em guerra com um bando de selvagens, e medissem primeiro cautelosamente as forças para se lançarem na lucta, quando nem sabiam ao certo o numero dos inimigos nem as armas de que elles dispunham.
O rei de Zebú era suspeito para informar da quantidade e qualidade do inimigo. Quem podia affirmar o contrario?
O triumpho das armas christãs importaria a submissão completa e incondicional de todos aquelles povos, e o grande capitão não só teria coroado a sua empresa de encontrar o mar do sul, mas traria á Hespanha tributarios os povos d'aquellas regiões, fascinados e submettidos pelo prestigio das suas armas.
Era de tentar a cartada! Quem lhe poderia resistir?!
XVII
Passou-se o dia 26 e a noite em aprestos para o ataque.
O grande capitão reuniu todos os homens de guerra, que não excediam a sessenta, pelo que diz Diego Arana, armados de couraças e de cascos; o resto eram enfermos, incapazes de entrarem em combate. Mandou arrear algumas peças de artilharia para as chalupas, escudos sobrecellentes e mosquetes, munições e alguns comestiveis, não muitos, pois não os havia para larguezas; mas o que faltava ao corpo, abundava no espirito, porque a gente de guerra estava desejosa de bater-se, tanto tempo havia decorrido que não experimentava armas.
Era natural.
Pela meia noite principiou o embarque nas chalupas.
Havia passado um anno e sete mezes que esses valentes tinham embarcado tambem, em S. Lucar de Barrameda, para a famosa expedição, cheios de enthusiasmo, a correr aventuras como agora.
Em S. Lucar o sol de agosto aquentava-lhes mais o espirito e inundava de luz o mar a que se faziam suas caravelas, levadas como que entre nuvens de fumo dos tiros de artilharia, que diziam o ultimo adeus ás terras de Hespanha.
Em Zebú, porem, a partida era differente; o véo da noite envolvia a terra e os mares; o sol não saudava aquelles valentes, que então como agora iam jogar a vida. Tinham de abafar o seu enthusiasmo no meio do silencio de uma noite triste e funebre, em que no céo apenas uma ou outra estrella vagueava sua luz tremente, como olhos marejados de lagrimas. Não havia corações amigos a saudal-os na despedida, mas gente barbara e extranha que os olhava temerosa e desconfiada.
Que differença!
E em silencio se fez o embarque, a que assistiu Fernão de Magalhães, embarcando elle na ultima chalupa.
O rei de Zebú, com um dos principes e outros senhores da ilha, seguiram os christãos em balangais, com indios armados de piques.
Vento fresco encrespava o mar por onde os barcos iam correndo, ora orçando da vaga ora arribando para o vento.
Magalhães, de pé, á pôppa da sua chalupa, vigiava todo o governo e ordenava a manobra.
Ia satisfeito; pelo seu espirito não passava sombra de receio da aventura em que ia lançar-se. As horas pareciam-lhe mais longas que de costume; a noite não tinha fim!
Proximo da madrugada chegavam as chalupas á ilha de Mactan, e o primeiro impulso de Magalhães foi o desembarcar immediatamente com os seus homens de guerra, mas não era possivel. A maré estava baixa e as ondas quebravam-se com violencia contra os cachopos da praia, elevando-se espumantes para o ar.
Qualquer barco que tentasse abordar á terra correria o risco de se despedaçar entre os recifes.
Comtudo a impaciencia de Magalhães não lhe soffria delongas e, sem attender ao perigo, ordenou a um mouro, que ia nas chalupas, para que da sua parte fosse intimar o regulo de Mactan a reconhecer a soberania do rei de Hespanha e prestar obediencia ao rei christão de Zebú, pagando os tributos exigidos; de contrario os castigaria pelas armas[9].
Foi-se o mouro com a intimação, e se escapou de mergulhar entre os recifes, quasi ia ficando preso na ilha, pois os rebeldes não se intimidaram com as suas palavras e antes responderam que: saberiam defender-se e resistir aos christãos, pedindo sómente que os não atacassem de noite.[10]
Assim voltou, a custo, o mouro a participar ao chefe o resultado da sua missão.
Como se poderá descrever o desespero e impaciencia de Magalhães ao saber a resposta d'aquelles barbaros, que mais incitava os seus brios de guerreiro? Queria desembarcar logo com a sua gente e atacar os rebeldes, ainda que de noite, e teria cedido ao primeiro impulso se não fôra o rei de Zebú dissuadil-o de tal temeridade, fazendo-lhe conhecer a tactica d'aquella gente, que, para se defender, se fosse atacada de noite, abriria fojos em volta da ilha, cheios de estacas aguçadas como lanças, onde os hespanhoes cahiriam cegamente como em armadilha bem disposta para os caçar.
Por isto se conhece a dissimulada astucia d'aquelles barbaros, pedindo para os não atacarem de noite, como se para tal não estivessem prevenidos, o que certamente incitaria os castelhanos a realizar o ataque, mais seguros do resultado.
Magalhães, acreditando ou não no que lhe observou o rei de Zebú, precaveu-se do logro e achou por mais seguro realizar o desembarque de dia para melhor medir o campo em que tinha de operar.
Mal a aurora despontou, as chalupas approximaram-se da praia tanto quanto permittia a maré, que ainda estava baixa, e Magalhães desembarcou com parte da sua gente, dando a agua pela cintura a todos, de modo que não puderam transportar a artilharia.
Isto obrigou a que nas chalupas ficassem homens a guardar as peças, além d'aquelles que tinham de tomar conta nos barcos, o que reduziu o numero dos combatentes que acompanhavam o chefe.
Para mais, Magalhães não acceitou o auxilio de gente que lhe offereceu o rei de Zebú, talvez por não lhe merecer grande confiança; e, julgando-se mais seguro com os seus cincoenta homens, que tantos desembarcariam, avançou para terra resoluto a bater os barbaros.
Ainda bem não tinha disposto a sua gente em acção, quando, por um dos flancos, lhe surde d'entre o matto uma manga de indios armados de flechas e escudos. Trava-se logo a lucta, rompendo os hespanhoes fogo de mosquetaria, que pouco alcançava o inimigo. Este despedia-lhe suas flechas, que se embotavam contra os cascos e couraças dos christãos; mas bem não tinha começado o ataque, quando outra manga apparece pelo flanco opposto a atacal-os, o que obrigou Magalhães a dividir a sua gente em duas columnas, para fazer frente ao inimigo.
Cresce a lucta, redobra o esforço.
As flechas são impotentes contra as couraças, mas a mosquetaria vai derribando os indios, ganhando os christãos terreno.
Não se acobardam os barbaros com as perdas soffridas, e disputam a posição com inesperado valor. Em alguma cousa se fiam para arrostarem com os christãos. Contam com a sua superioridade numerica, que não tarda a ser reforçada, e agora apparece pela frente outra manga, tanto ou mais numerosa que as primeiras, arrogante e bem armada de varas de madeira endurecidas ao fogo, que ferem como laminas de aço.
Magalhães e a sua gente vêem-se cercados por todos os lados. Elle, só á sua conta, tem rechassado um bom numero de indios; braço vigoroso, animo decidido, não cansa.
Tenta dividir o inimigo; e manda lançar fogo á povoação, para que elle corra a dominar o incendio.
Mas esta estrategia não dá resultado, porque os indios mais se exasperam, e alguns, correndo sobre os incendiarios, ainda colhem dois a quem logo dão a morte.
As numerosas mangas vão crescendo cada vez mais sobre os hespanhoes, arremessando-lhe um sem numero de flechas, varas e pedras, que lhes atiram os cascos fóra da cabeça.
Alguns, considerando-se perdidos, já fogem para a praia e entram na agua, que lhes chega quasi aos hombros, em procura das chalupas, onde se refugiam.
Magalhães resiste sempre, acompanhado pelos mais fieis e corajosos, que todos se batem com denodo.
Os indios, vendo que as suas flechas resvalam das couraças e caem na areia sem causar damno ao inimigo, apontam-n'as mais baixas, procurando ferir as pernas dos adversarios. Este expediente dá-lhes resultado, porque os homens de Magalhães debandam em maior numero, sentindo-se feridos. Entretanto é ao chefe que os indios mais assestam as suas pontarias até que uma flecha lhe acerta n'uma perna.
Magalhães não perde um momento a sua coragem, sustenta a lucta e anima os seus a que o egualem.
--Por Santiago matemos estes miseraveis!
E batia-se para a frente e para os lados, levando com a sua lança a morte aos inimigos, que não o poupavam.
Por duas vezes lhe fazem saltar fóra da cabeça o casco com pedradas que lhe atiram.
Mas elle não se estonteia nem recua; põe-n'o de novo e continua na tremenda lucta.
Agora é uma flecha que se lhe crava na face, mas elle cresce sobre o audacioso, embebendo-lhe a lança no corpo! Outra flecha trespassa-lhe o braço direito quando elle vai a desembainhar a espada, que fica na bainha. Solta então um rugido de dôr e de desespero, porque se vê desarmado.
Grita pelos seus, mas inutilmente, porque uns jazem por terra e outros teem-se precipitado para as chalupas.
Sente-se abandonado no meio do inimigo. Um esforço supremo para se desaffrontar. Sobra-lhe na alma coragem para bater-se até a morte, mas fallece-lhe no corpo força para reagir.
Os indios percebem que o valente capitão já os não póde ferir, e lançam-se sobre elle como chacaes.
Deitam-n'o por terra, e elle ainda se ergue uma e mais vezes com esforço heroico, a clamar pela sua gente; mas ninguem o ouve nem lhe póde acudir.
Nem um d'entre elles, diz Pigafetta, havia que não estivesse ferido e pudesse soccorrer ou vingar o seu chefe. Precipitaram-se para as chalupas, que estavam prestes a partir, e deveram a sua salvação á morte de Magalhães, porque, quando elle succumbiu, os indios correram todos para o logar onde elle tinha cahido.
Fernão de Magalhães poderia então, como o infante D. Pedro, em Alfarrobeira, soltar aquella phrase memoravel:
--Vingar ahi villanagem!
Não havia já resistencia possivel.
Os indios cahiram em massa sobre o desventurado capitão; crivaram-n'o de flechas, lançaram sobre elle pedras para o acabarem de matar, e só quando estavam bem seguros de que elle já não tinha alento de vida, é que deixaram a presa!
[9] Diego Arana, _Vida e Viagens de Fernão de Magalhães_.
[10] _Idem._
XVIII
Morreu o grande capitão ás mãos dos selvagens de Mactan, n'uma lucta tão heroica quanto ingloria, para quem se tinha proposto a tão grande empresa e a levara a cabo através de todas as difficuldades e perigos.
Fernão de Magalhães, costumado a vencer até os proprios elementos, levou-se de enthusiasmo e não mediu o perigo de assim se expôr á morte que lhe traria ruina para elle e para a sua gente, que sem o chefe e desprestigiada, bem poderia ser victima d'aquelles selvagens, e perder o fructo de tantos sacrificios, ficando ignorado do velho mundo o resultado da aventurosa viagem, se nenhum dos ousados mareantes lograsse voltar á Europa, como quasi ia succedendo.
A morte do heroe teve effeitos desastrosos para toda a expedição, que desde aquelle momento perdeu o prestigio que a fazia respeitar e temer no espirito dos habitantes das ilhas.
O rei de Zebú, que tão docil se mostrara, chegando a fazer-se christão e a alliar-se com estes contra os selvagens de Mactan, depressa mudou de idéas e concertou com os seus para dar morte aos castelhanos traiçoeiramente.
Cinco dias depois do triste acontecimento que acabamos de narrar, a 1 de maio de 1521, nova desgraça viera ferir os castelhanos. Moveu-a a intriga e o despeito de um escravo de Magalhães, que era o lingua da expedição, pelo que refere Pigafetta e conforme o que Sebastião de Elcano declarou no inquerito que, em 1522, se levantou sobre a viagem de Magalhães e tragico fim do valoroso capitão.
Aquelle escravo tinha seus aggravos de Duarte Barbosa que, com Serrão, tomara o commando da frota, e para vingar-se persuadiu o rei de Zebú de que os christãos o queriam trazer captivo para a Europa. Esta falsa denuncia foi como que o fogo lançado ao rastilho, pois de mais estava já o rei de Zebú incitado pelos regulos de Mactan, que o ameaçavam de morte e destruir-lhe os seus dominios se elle não desse cabo dos castelhanos.
Faltando-lhe, porém, a coragem para se defrontar com os europeus em lucta leal, o rei de Zebú recorreu á traição. Continuou a mostrar-se muito amigo dos castelhanos e fiel subdito do rei de Castella, ao qual queria mandar um valioso presente. Para fazer entrega d'esse presente convidou os commandantes Barbosa e Serrão a jantarem com elle em terra e que trouxessem os immediatos e mais pessoas da frota que entendessem, com o que lhe dariam grande honra.
Duarte Barbosa, João Serrão e mais vinte e sete homens, entre os quaes se encontravam Luiz Affonso de Goes, portuguez arvorado commandante da caravella _Victoria_, depois da morte de Magalhães, o piloto André de San Martin, Sancho de Heredia e Leão da Espeleta, escrivães da frota, e o capellão Pedro da Valderrama.[11]
Foi isto na manhã do citado dia 1.º de maio. O rei de Zebú com alguma gente de seu sequito aguardava na praia a chegada dos convidados e, logo que estes desembarcaram, encaminharam-se todos para um palmar, á sombra do qual estava preparada a refeição.
O logar não podia ser mais ameno para resguardar dos raios ardentes do sol, que a custo penetravam aqui e acolá por entre as fisgas das largas folhas das palmeiras que formavam abobada sobre o recinto do festim, vindo reflectir nos vasos de ouro e nas porcellanas dispostas sobre a esteira que fazia de mesa, como era uso.
O rei apparentava toda a docilidade e gentileza de que podia dispôr, e com elle a sua côrte se mostrava em extremo submissa aos christãos, de modo que nada fazia suspeitar da traição que tinham armado; só João Serrão desconfiava de alguma cilada, mas pouco valeu a sua desconfiança, porque Duarte Barbosa, nada receando, instou com elle para que o acompanhasse, e Serrão accedeu para não ser tido por timorato ou cobarde.
Em volta da esteira todos se sentaram e principiaram a servir-se do que havia, comendo e bebendo em boa convivencia; mas cedo reconheceram o engano, porque um bando de indigenas armados, que surdiu de emboscada, lançou-se traiçoeiramente sobre os castelhanos e logo se armou alli uma lucta braço a braço, cada vez mais terrivel, sendo os indigenas em tão grande numero que impossivel era submettel-os.
Os castelhanos foram todos assassinados e só João Serrão escapou n'aquelle momento á furia dos selvagens por um certo prestigio que tinha sobre elles.
De pouco isso lhe valeu! Dois tripulantes, mais felizes que seus companheiros, que em terra pereceram na lucta desegual, haviam-se afastado ao desembarque, suspeitando de alguma cilada, e assim que conheceram a traição, foram-se para bordo a dar parte ao piloto portuguez João Carvalho do que occorrera em terra. Carvalho immediatamente mandou approximar os navios da terra e rompeu fogo de artilharia contra a ilha.
Os indigenas, sentindo os tiros, apoderam-se de João Serrão depois de encarniçada lucta, em que este ficou mal ferido, e atando-o de pés e mãos, conduziram-n'o á praia ás vistas dos seus companheiros que dos navios continuavam a fazer fogo sobre a ilha.
Serrão vê-se perdido e grita e clama para os seus que cessem fogo e tragam presentes áquella gente para o resgatar. A confusão, porém, é enorme; João Carvalho não póde dar ouvidos a taes clamores, e receia nova traição dos indigenas, para se apoderarem do resto da sua gente e dos mal defendidos navios.
Para que se não perca tudo ingloriamente, só resta abandonar aquellas ilhas e fazer-se ao mar, para voltar a Hespanha como pudesse, e, emquanto João Serrão ficava na praia gritando para que o salvassem, porque o matariam assim que os navios largassem suas velas, João Carvalho foi ordenando as manobras e aproando ao mar as caravellas.
Serrão, a quem os indigenas, no primeiro impeto, haviam poupado a vida, soffreu as torturas de morrer inanime ás mãos d'aquelles selvagens, vendo fugir-lhe a unica esperança de salvação, que por momentos o animara, com a partida da frota.[12]
Triste e vergonhosa retirada aquella para gente que a tanto se afoitara; mas é evidente que já faltava alli o espirito do grande capitão portuguez que a animara e conduzira, por vontade ou por força, a dar a volta dos mares, realizando a primeira viagem de circumnavegação.
Em Mactan deixaram Magalhães morto, que nem seu cadaver puderam arrancar do poder dos indigenas, e assim perderam a alma d'aquella empresa que assombrou o mundo; em Zebú ficavam Duarte Barbosa e João Serrão com seus companheiros victimas de uma traição.
De melhor sorte eram dignos aquelles bravos, que nem tiveram quem alli os vingasse.
[11] Diego Arana, _Vida e viagens de Fernão de Magalhães_.
[12] Pigafetta, liv. II--Herrera, dec. III, liv. I, cap. X.
Sobre este ponto encontro uma discordancia em Gaspar Correia quando este se refere á morte de Fernão de Magalhães, no tomo II das _Lendas da India_.
Segundo o phantasioso chronista, Fernão de Magalhães não morreu ás mãos dos indigenas da ilha de Mactan, mas sim no banquete do rei de Zebú, tendo ficado vencedor em Mactan, o que discorda completamente de todos os chronistas que referem esta viagem e das declarações feitas por Sebastião de Elcano e seus companheiros, no processo instaurado em Sevilha no anno de 1522.