Descobrimento das Filippinas pelo navegador portuguez Fernão de Magalhães

Part 4

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Mal, porém, estes navios se tinham apartado da frota, quando pela noite sobreveio um forte temporal, que se estendeu por toda a costa, pondo em imminente perigo tanto as caravellas que tinham ido ao reconhecimento, como as que ficaram á espera de noticias.

Parece que a Providencia se comprazia em contrariar tanta audacia e dar razão aos medrosos, que quasi tinham por louco o chefe da temeraria empreza.

Foi uma noite e um dia de infinda tormenta. As caravellas que haviam ancorado, largaram as amarras e abandonaram-se á porcella; a _Conceição_ e a _Santiago_ correram ao vento sem governo, em perigo de a cada momento vararem na costa. Diz Barros que os ventos dominantes, n'aquella quadra, eram do Sul, contrarios ao rumo dos navegantes. Tanto bastava para difficultar a viagem e augmentar os perigos em mares desconhecidos.

Mas a mesma Providencia que assim experimentava os navegantes, tambem lhes accendeu a esperança no meio da tormenta, pois que as duas caravellas corridas do tempo, quando os navegantes se julgavam perdidos, devisaram estes uma aberturasinha ao longo da costa que lhes pareceu ser como que a entrada de alguma bahia.

Manobrando com grande difficuldade, fizeram prôa para lá, e seguindo sempre avante transpozeram aquella entrada e encontraram-se n'uma bahia, e, como o tempo os não deixasse deter, foram correndo as caravellas até que entraram n'outra garganta de terra para além da qual se acharam em espaçosa bahia, como ainda não tinham encontrado,

Ali serenou a tempestade, e os navegantes poderam reconhecer onde estavam, resolvendo Serrão e Mesquita voltarem a juntar-se a Magalhães a participar-lhe a boa nova.

A abertura na costa, para que os navegantes aproaram as suas caravellas, foi, sem duvida, um raio de esperança que lhes sorriu entre a porcella, e por isso a denominaram estreito de Nossa Senhora da Esperança. Á primeira bahia denominaram-n'a depois, de S. Gregorio, e ao segundo estreito, de S. Simão.

XIII

Emquanto Serrão e Mesquita, luctando com a furia dos elementos, conseguiam fazer o reconhecimento ordenado por Magalhães, o audacioso capitão mal se tinha podido haver com o resto da frota, que ficára á espera á entrada do cabo, a que Magalhães deu o nome de Cabo das Onze Mil Virgens, em memoria do dia em que o avistou ser dedicado pela egreja áquella festa.

Pelo espirito de Magalhães mais de uma vez, n'aquellas longas horas, passou a funebre idéa de que Serrão e Mesquita teriam perecido e mais a sua gente, no meio de tão grande tormenta.

O temporal continuava desabrido, e a gente de Magalhães mostrava-se cada vez mais apprehensiva, o que augmentava os receios do chefe pelo exito da empreza que elle, com bem fundadas razões, via proximo a realisar.

Para maior alarme, viram os navegantes elevarem-se rolos de fumo do lado da terra, o que fez suppor que eram fogueiras que os naufragos tivessem accendido para dar signal de onde estavam. Isto pareceu certo a Magalhães, que logo resolveu ir em soccorro dos naufragos, fosse qual fosse o perigo a que se ia expor e o resto da sua gente.

«Quando estavamos, porém, n'esta anciedade, diz Pigaffeta, eis que apparecem duas embarcações, de panno largo e bandeiras desfraldadas ao vento, saltando por sobre as ondas e se dirigiam para nós. Ao approximarem-se dispararam tiros de bombarda, e a sua gente dava gritos de alegria, a que correspondemos do mesmo modo, e quando soubemos, por elles, que tinham visto a grande extensão da bahia ou do estreito, dispozemo-nos para continuar o nosso caminho.»

Pelo que Serrão e Mesquita contou a Fernão de Magalhães, não restava duvida que se encontrára, emfim, a passagem procurada. Os exploradores haviam reconhecido golfos de mar entre alcantiladas rochas, diziam uns; outros julgavam ter achado o estreito, por onde haviam navegado tres dias sem lhe encontrar o fim, notando grandes correntes com pequenos minguantes, signal evidente de que o estreito levava as suas aguas para o poente, ao oceano.

Tudo isto dava acerto ao juizo de Magalhães, o qual mandou dez homens em uma chalupa reconhecer a terra.

Esses homens não encontraram gente, mas vestigios. Mais de duzentas sepulturas indicavam ter ali havido povoado; devia ser, porém, na estação do calor, em que os indios vem estabelecer-se á beira do mar, voltando para o interior na estação das chuvas, e era aquella em que os exploradores ali se encontravam. Mais viram muitos esqueletos e ossos soltos de baleias, espalhados pela praia, signal de grandes temporaes que ali arrojavam aquelles cetaceos.

Herrera diz, que por ordem de Magalhães foi a caravella _Santo Antonio_ fazer novo reconhecimento no canal, mas sem resultado, porque tendo Mesquita avançado umas cincoenta leguas, não lhe achou o fim, pelo que resolveu voltar á frota a dar parte da sua viagem a Magalhães.

Vinha talvez mais convencido de que o canal ou estreito só teria mais perigos para quem o quizesse devassar, do que levaria a bom termo de viagem. Magalhães, porém, não se desconcertou com o resultado do reconhecimento de Mesquita, e antes resolveu terminantemente seguir avante, convencido de que passaria o estreito e encontraria, emfim, o mar da India ou do Sul.

Não quiz, porém, levantar ferro, sem reunir na _Trindade_--navio almirante--o conselho dos capitães, para lhes communicar a sua resolução e saber ao certo dos mantimentos que havia, para que tempo chegariam.

Reunido o conselho, os capitães declararam que havia comestiveis para tres mezes. Quanto á resolução que Magalhães lhes communicou todos se mostraram concordes, talvez mais por obediencia ao chefe, do que por convicção do bom exito do commettimento. Apenas o piloto Estevão Gomes, parente ainda de Magalhães, descordou dos seus companheiros, ponderando que corriam grande perigo em proseguirem, pois que os temporaes ou as calmarias que atrazassem a travessia, poderiam inutilisar tudo, perdendo os navios ou reduzindo todos á fome, de que morreriam. Magalhães combateu moderamente a opinião de Estevão Gomes, affirmando que o canal que encontraram era a passagem para o mar do Sul, e tinha a certeza do que dizia, porque, na thesouraria de Portugal vira uma carta de marear desenhada por Martim Behaim, em que estava traçada aquella passagem, de que não podia duvidar agora. O enthusiasmo de Magalhães chegou a tal ponto que disse ao conselho: Ainda que para chegar ao fim tivesse que comer as pelles de vacca que forravam as antenas dos navios, não retrocederia sem cumprir o que havia tratado com Carlos V.

Todos se submetteram á vontade do chefe, e no dia seguinte a frota soltou vellas e navegou pelo estreito fóra até á grande bahia de S. Bartholomeu, onde os navegantes depararam com um grupo de ilhas.

A frota lançou ferro, e Magalhães mandou fazer um reconhecimento n'um canal ao sul, pelas caravellas _Conceição_ e _Santo Antonio_.

Ao sul ficava terra, a que Magalhães pôz o nome de Terra do Fogo, por ter observado, de noite, grandes fogueiras que lá ardiam. Aquellas terras ainda hoje conservam esse nome.

Nada adiantou o reconhecimento que Magalhães mandou fazer, porque a caravella _Conceição_ voltou breve sem nada trazer de novo, e a _Santo Antonio_, debalde a esperaram, não a tornando mais a ver.

Esta falta inquietou sobre modo a Magalhães, pelo receio de que se teria perdido o navio, e ainda empregou esforços para o procurar, mas tudo foi inutil, dando acerto ao parecer do piloto André de S. Martim, que disse a Magalhães que a caravella voltára para Hespanha, como effectivamente voltou, tendo a companha sublevado-se contra Mesquita, ao qual prenderam, dando o commando do navio a Jeronymo Guerra, que ia a bordo como escrivão.

XIV

Perdida a esperança de reunir á frota a caravella _Santo Antonio_, continuou Magalhães a viagem pelo estreito descobrindo a sudueste o cabo, hoje denominado pelos inglezes cabo Froward, mas a que os hespanhoes chamaram de Santa Agueda. A latitude austral d'este cabo foi marcada pelos navegantes em 50° 40'. O capitão King marcou depois a latitude do mesmo cabo em 53° 43', pelo, que, como nota Diego Arana, é para admirar que, com os instrumentos bastante imperfeitos de que então dispunham os navegantes, podessem fixar com tão pequenas differenças a latitude dos logares em que se encontravam, em relação ao equinoxio.

O estreito apresentava, principalmente para o sul, grande quantidade de canaes e recifes, quasi impossivel de reconhecer, nas precarias condições em que os navegantes se encontravam, extenuados da longa viagem que traziam, abatidos pelas doenças e pelos trabalhos, desanimados, vivendo mais da esperança que animava o seu chefe que da propria convicção de chegarem a bom fim.

Fernão de Magalhães conhecia perfeitamente este estado, e quanto tinha a recear de uma sublevação da sua gente se abertamente se negasse a acompanhal-o. O que acontecera com a caravella _Santo Antonio_ podia estender-se ás outras e elle ser impotente para manter a disciplina. De quanta prudencia e tacto precisava para, quasi ao vêr coroados tantos trabalhos, não se frustrar a empreza!

Quiz ainda mais uma vez consultar os capitães e pilotos da frota sobre o que se devia fazer, para, sabendo o que pensavam, lhe apresentar as razões que tinha para seguir ávante. Assim os poderia convencer melhor e desfazer os receios levantados no espirito da sua gente.

Só é conhecida a resposta que o piloto da _Victoria_, André de S. Martin, deu a esta consulta, e essa não foi favoravel ao proseguimento da viagem. Este piloto, que era muito entendido em cosmographia, parece que tinha seus aggravos de Magalhães, e, ou por este motivo, ou porque ia doente, e tanto que morreu depois na viagem, opinava pelo immediato regresso a Hespanha, visto que estava achado o estreito, e o proseguimento da viagem até encontrar o mar do Sul era muito arriscado, no estado em que os navios se achavam--e ainda peior a gente que os tripulava,--para resistir aos temporaes que podessem sobrevir, que decerto, atrazariam a viagem, correndo o risco de faltarem os mantimentos e todos morrerem á fome se escapassem das tormentas.

Não obstante esta opinião, porventura muito sensata, Magalhães deu suas razões para continuar a viagem, e a frota seguiu avante, mau grado da maior parte da tripulação.

A certa altura Magalhães mandou uma chalupa com gente explorar o estreito para o occidente. Não tinham ainda navegado muito, quando, approximando-se da Terra do Fogo, observaram que era cortada por grande numero de canaes, que separavam a terra formando pequenas ilhas. Seguindo por um d'esses canaes chegaram ao extremo de uma ponta de terra para além da qual se descobriu então aos olhos d'aquella gente um mar vastissimo, que devia ser, sem duvida, o mar do sul que procuravam.

É facil calcular o alvoroto que aquella descoberta produziu nos tripulantes da chalupa; voltaram presurosos a dar a nova a Magalhães, tendo gasto tres dias no reconhecimento.

Pigafetta conta que todos choraram de alegria, e em verdade não era para menos tão feliz descoberta.

Todos cobraram animo e a frota proseguindo na sua viagem chegou á tal ponta de terra, que os navegantes denominaram acertadamente Cabo Desejado.

A caravella _Victoria_ ia na frente e, sahido o estreito, que Magalhães denominou de Todos os Santos, em razão do dia em que o tinha descoberto, destinguiu uma outra ponta de terra onde a costa se quebrava para norte e que donominaram Cabo Victoria, em honra do navio que primeiro o dobrava. Para além d'este cabo é que se estendia o grande mar do sul.

XV

Transposto o estreito a que Magalhães chamou de Todos os Santos, como ficou dito, mas que um seculo depois era já conhecido por estreito de Magalhães[6] e entrada a frota no mar do Sul, estava ainda assim bem longe o termo da penosa viagem, pois que não lhe faltaram perigos e trabalhos que passar.

Não foram as tempestades que difficultaram a marcha, porque essas felizmente não assaltaram os navegantes n'aquelle mar, e tanto que estes lhe chamaram mar Pacifico, que ainda hoje conserva; mas a propria miseria em que se viam, faltos de saude e de alimentos, sem encontrarem comestiveis nem poderem fazer aguadas nas ilhas a que iam aportando, despovoadas e desprovidas das coisas necessarias á vida.

D'esta miseria nos dá boa idéa Pigafetta quando descreve, como testemunha presencial, as necessidades e apuros em que se viram os navegantes:

«Comiamos bolacha, diz Pigafetta, que estava feita em pó, cheio de gorgulhos, que lhe tinham absorvido a substancia alimentar, com um sabor acre detestavel da urina de ratos de que estava empregnado. A agua para beber era, por egual pôdre e amarga. Para não morrer de fome vimo-nos obrigados a roer o coiro que forrava a verga grande e que impedia que a madeira desgastasse os cabos; era, porém tão duro o coiro, exposto a agua, ao sol e aos ventos, que precisava estar de molho no mar quatro e cinco dias, para ficar um pouco mais macio, pondo-o depois ao lume, e assim o comiamos. Muitas vezes vimo-nos na necessidade de comermos serradura de madeira; e os ratos, tão repugnantes ao homem, chegavam a ser o alimento mais apetitoso, pagando-se até por meio ducado cada um.»

«Mas ainda não era tudo. Maior desgraça nos veio atacar, a de uma enfermidade que consistia em nos inchar as gengivas cobrindo completamente os dentes de ambas as mandibulas, a ponto de que os atacados d'aquella doença não podiam tomar nenhum alimento[7]. Além dos mortos, cahiram doentes vinte e cinco a trinta marinheiros, com dores nos braços, nas pernas e por outras partes do corpo, mas que emfim se curaram.

«Pela minha parte não sei dar bastantes graças a Deus, por durante este tempo e entre tantos doentes não ter tido a menor doença.»

Não bastavam, porém, tantas provações aos ousados navegadores, porque, quando pensavam encontrar os viveres e refrescos de que tanto careciam, vendo aproximarem-se de umas ilhas, em volta das quaes navegava grande quantidade de barquinhos tripulados, depararam com bandos de selvagens, que assaltando os navios, pretendiam roubar quanto podessem. Foi necessario repellil-os á viva força e disparar sobre os barcos tiros de artilheria. Só depois d'esta recepção é que os navegantes poderam entrar com elles em commercio, trocando bagatellas que levavam por alguns poucos viveres.

Depressa largou a frota d'aquellas ilhas e Magalhães as denominou ilhas dos Ladrões, com que ainda são conhecidas, chamando-se-lhe tambem ilhas Mariannas em razão das missões que n'ellas estabeleceu a rainha D. Maria Anna de Austria, mãe de Carlos II.

D'estas missões trata largamente o padre Gobien na sua _Histoire des Mariannes_, impressa em Paris em 1701.

[6] Alguns escriptores tem dito que este nome foi posto pelo proprio Magalhães e ainda Buzeta e Bravo assim o dizem no _Diccionario Geographico Historico de las Islas Filipinas_, é, porém, fóra de duvida, que o estreito foi primeiro denominado de Todos os Santos, como vem na relação de Pigafetta e no Diario de Albo.

Nas cartas geographicas e livros de geographia da segunda metade do seculo XVI já o estreito vem indicado com o nome do seu descobridor, e apenas consta de um aucto lavrado por Pedro Sarmento de Gamboa, quando atravessou o estreito em perseguição do Corsario inglez Drack, elle denominou o estreito Mãe de Deus em razão dos grandes perigos que passou para o atravessar, e de que felizmente sahiu a salvo, pedindo a Filippe II de Castella que lhe conservasse aquelle nome em homenagem á Virgem que tão milagrosamente lhe acudira. Apesar d'isto Filippe II conservou ao estreito o nome do teu descobridor.

[7] Esta doença é o escorbuto.

XVI

Havia mais de tres mezes que Magalhães tinha atravessado o estreito com a sua frota e não podera até ali reconhecer as ilhas que encontrara.

Chegou o dia 16 de março de 1521, que era domingo de Lazaro, e com elle o descobrimento de um novo archipelago, que Magalhães denominou S. Lazaro, em razão do dia em que o descobrira.

A primeira ilha d'este archipelago era a ilha Zamal, assim denominada pelos naturaes e que tambem se encontra nos mappas com o nome de Samar, e ainda no _Diario de Albo_ com o nome de Suluan e Yunagan, como as primeiras ilhas reconhecidas pelos castelhanos.

Foi n'este archipelago que Magalhães desembarcou com parte da sua gente, armando duas tendas para os doentes, e descansando alguns dias em terra, da penosa e longa viagem que todos traziam.

A ilha escolhida foi a Humunu a que os navegadores chamaram Aguada dos Bons Indios, por terem ali feito aguada e por seus habitantes serem doceis, quasi timoratos, pelo menos em presença dos visitantes. Com elles trocaram das bagatellas que levavam por viveres de que careciam.

Boa gente eram os indigenas d'esta ilha onde os navegantes poderam descansar alguns dias; depois do que proseguiram viagem, avistando a 27 de março outras ilhas para O. e S. O. as quaes verificaram serem tambem habitadas.

As novas ilhas denominavam-se Masavá ou Masaguá, Butuan e Calagan, comprehendidas no archipelago que Magalhães denominou de S. Lazaro e a que depois se chamaram Filippinas em homenagem ao filho de Carlos V[8].

Não foi difficil aos navegantes entrarem em boas relações com os habitantes d'estas ilhas, os quaes vieram em barcos ao encontro da frota e falaram com Magalhães por meio de um interprete, que os hespanhoes levavam e que falava o malayo.

Tão bem se entenderam, que o rei da ilha de Masavá veio a bordo fazer os seus comprimentos a Magalhães, trazendo-lhe presentes, que este não quiz acceitar, na primeira entrevista, para mostrar que não o movia a cobiça, e antes presenteou o rei com mercadorias que levava.

O rei de Masavá mostrou-se muito reconhecido a Magalhães e tanto que, pedindo este para com elle trocar viveres por fazendas, o rei lhe mandou arroz e do mais que tinha recebendo tecidos de côres, que muito lhe agradaram.

Na visita que o rei fez a bordo, Magalhães mostrou-lhe as armaduras d'aço dos seus soldados, que os tornava invulneraveis aos golpes ou aos tiros das armas de fogo; fez exposição das armas que levava, mandou disparar a artilheria, o que tudo causou espanto ao rei indigena.

Isto deu motivo ao rei de Masavá para se considerar honrado com a amizade d'aquelles extrangeiros subditos de um rei christão poderoso, e por isso dispensou-lhe toda a boa hospitalidade de que dispunha, n'uma terra semi-selvagem.

A convite do rei, foi a terra Pigaffeta e outro companheiro para conhecerem do paiz em que estavam.

Conta Pigaffeta que, quando desembarcou, o rei levantou as mãos ao ceu, e se virou para os visitantes que fizeram outro tanto.

Era isto signal de boa paz e de que tinham os extrangeiros como enviados de Deus. Depois dirigiram-se para um alpendre feito de cannas, debaixo do qual estava um _balangai_, embarcação de uns cincoenta pés de comprido, e se sentaram á poupa com o rei. Ali foi servida carne de porco e vinho e só Pigaffeta é que se atrevia a tocar na escodella do rei quando bebia. Os da comitiva do rei estavam de pé e armados de lanças e escudos.

Apezar da falta de um interprete da lingua, intenderam-se por signaes e assim foi Pigaffeta tomando nota da significação de muitas palavras escrevendo-as no seu caderno, admirando-se todos muito de o verem escrever!

Ao fim do dia tornaram a comer carne de porco guisada e arroz, servido em grandes pratos de porcellana, beberam mais vinho por escudellas e quando acabou esta refeição, foram para o palacio do rei, que era em forma de uma grande meda de feno, coberto de folhas de platano, e subiram para os aposentos reaes por uma escada de mão.

Meia hora depois de ali estarem foi servida nova refeição de peixe assado, gengibre e vinho. N'essa occasião viu Pigaffeta o filho mais velho do rei que veiu sentar-se ao seu lado.

Esta refeição durou mais algum tempo, sendo servido mais peixe e arroz, e o companheiro de Pigaffeta bebeu tanto vinho que se embriagou.

Foi um verdadeiro dia de festa depois de tantos mezes de privações.

N'aquella noite Pigaffeta e o seu companheiro dormiram no palacio do rei ao lado do principe herdeiro, todos deitados em esteiras de cannas tendo por cabeceira almofadas de folhas d'arvores.

Era o mais a que chegavam as commodidades da vida d'aquelle povo, apesar de no paiz abundar o ouro, que facilmente se encontrava misturado com a terra, em pedaços do tamanho de nozes e de ovos.

No palacio do rei havia jarros e muitos outros objectos fabricados d'aquelle metal. O rei trazia brincos de ouro nas orelhas e os copos da sua espada tambem eram do precioso metal.

No dia seguinte o rei convidou Pigaffeta e o seu companheiro para almoçarem, mas os dois retiraram para bordo, agradecendo a boa hospitalidade, beijando n'essa occasião o rei as mãos dos visitantes ao que estes corresponderam beijando as mãos do rei.

Assim entabolaram os navegantes relações com a gente da ilha de Masavá que tão bem os recebeu, que a frota ali se demorou até 4 de abril, em que de novo se fez ao mar no proseguimento da sua derrota.

Durante o tempo, porem, que ali permaneceu passou o domingo de Paschoa e n'esse dia desembarcaram uns cincoenta homens meios armados com o respectivo commandante, e um padre para dizer missa em terra, n'um altar que se armou.

Foi grande a admiração d'aquellas gentes quando isto viram e perguntados se não professavam nenhuma religião, responderam erguendo as mãos para o ceu, como que dando a entender que reconheciam um ente supremo a que chamavam _Abba_.

Assistiram os reis á missa e, ao offertorio beijaram a cruz e adoraram a hostia consagrada, imitando tudo que viam fazer aos christãos.

Quando terminou a ceremonia Magalhães apresentou uma cruz grande, diante da qual todos se ajoelharam incluindo os indios, e fez entender ao regulo que aquella cruz era o estandarte que o rei christão lhe havia confiado para implantar em toda a parte que chegasse; que n'aquella terra a ia collocar no sitio mais elevado para que todo o mundo a visse e a todos desse signal de ali terem sido bem recebidos pelos naturaes, o que faria que outros que aportassem aquella ilha os tratassem bem. Que os seus habitantes deviam, todas as manhãs fazer adoração aquella cruz, por que ella era o symbolo da redempção.

O rei prometteu a Magalhães fazer o que este lhe dizia e ordenar aos indios que assim o observassem.

A docilidade d'aquella boa gente deixou captivados os navegantes e fortaleceu-lhes o animo para seguirem na sua empreza civilisadora, não concorrendo menos para augmentar a auctoridade moral de Magalhães sobre a sua gente.

[8] Alguns escriptores, mesmo os hespanhoes tem confundido estas ilhas do archipelago de S. Lazaro com as ilhas dos Ladrões, que já citámos.

A obra de Mallot _Les Philippines_, publicada em Paris em 1846 não deixa duvidas a este respeito.

XVII

É d'aqui em diante que se vai passar a tragedia mais horrivel, que enlutou a temeraria empreza de Magalhães.

A 4 de abril de 1521 largou a frota do archipelago de S. Lazaro, depois denominado das Filippinas, como já ficou dito, e dirigiu o rumo para a ilha de Zebú, que o regulo de Masavá lhe indicara como um dos portos mais importantes e mais proximos, para entrar em commercio.

Effectivamente, decorridos tres dias de viagem, avistaram uma ilha, e aproximando-se d'ella viram que era muito povoada de casas construidas sobre arvores collossaes.

Era a ilha de Zebú.

Magalhães entrou em commercio com o rei d'aquella ilha, não sem alguma difficuldade, pois que o regulo queria que os hespanhoes lhe pagassem egual tributo ao que era imposto ás embarcações das ilhas visinhas que vinham áquelle porto.

Custou a convencer o rei de que os hespanhoes não lhe pagariam tal tributo e, antes pelo contrario o exigiriam para si e lhe fariam guerra, se o rei presestisse n'essa imposição.

Trocadas explicações de parte a parte, o rei de Zebú reconheceu a inconveniencia e entrou em boa amizade com Magalhães, annuindo a dar privilegio aos hespanhoes para estabelecerem commercio na ilha, unica exigencia que faziam e direito que se reservavam.