Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos
Chapter 3
«No momento em que o projectil for lançado ao espaço, a Lua que avança em cada dia 13^o, 10' e 35", deve estar afastada do ponto zenithal quatro vezes esta grandeza, isto é, 52^o, 42' e 20", espaço que corresponde ao caminho que ha de andar durante o percurso do projectil. Mas como se deve tambem attender ao desvio que ha de vir ao projectil do movimento de rotação da Terra, e como, quando a bala chegar á Lua, este desvio deve ter attingido uma grandeza igual a dezeseis raios terrestres, que contados sobre a superficie da Lua, dão proximamente 11^o, devem juntar-se estes 11^o aos já mencionados, que exprimem o atrazo da Lua, o que dá 64^o em numeros redondos.
«Consequentemente o raio visual dirigido para a Lua deve, no momento do tiro, fazer com a vertical do logar um angulo de 64^o.
«Taes são as respostas ás perguntas feitas pelos socios do Gun-Club ao observatorio de Cambridge.
«Em resumo:
«1.^o O canhão deve ser collocado n'uma região situada entre o equador e os parallelos de 28 graus de latitude norte ou sul.
«2.^o Deve ser dirigido para o zenith do logar.
«3.^o O projectil deve ir animado de uma velocidade inicial de doze mil jardas por segundo.
«4.^o Deve ser lançado no dia 1.^o de dezembro do anno proximo, ás onze horas menos treze minutos e vinte segundos.
«5.^o O projectil ha de encontrar a Lua, quatro dias depois da partida, no dia 4 de dezembro á meia noite exacta, no momento em que o astro passa pelo zenith.
«Devem portanto os socios do Gun-Club dar começo sem demora aos trabalhos necessarios para realisar um emprehendimento de tal ordem, e prepararem-se para a execução no momento determinado, porque se deixarem passar a data indicada de 4 de dezembro, só dezoito annos e onze dias depois volverá a Lua a entrar nas mesmas condições em relação ao zenith e ao perigeo.
«O pessoal scientifico do observatorio de Cambridge fica inteiramente á disposição do Gun-Club para todos os assumptos de astronomia theorica, e aproveita a occasião da presente para juntar as suas felicitações ás da America inteira.
«Pelo pessoal scientifico do estabelecimento.--_J. M. Belfast_, director do observatorio de Cambridge.»
CAPITULO V
O ROMANCE DA LUA
Um observador dotado de vista infinitamente penetrante e collocado no centro, n'aquelle centro ignoto, em torno do qual gravita o mundo, teria visto, na epocha cahotica do universo, o espaço cheio de myriades de atomos. Mas pouco e pouco, com o volver dos seculos produziu-se uma mudança; manifestou-se uma lei de attracção, á qual obedeceram os atomos outr'ora errantes; combinaram-se estes atomos chimicamente, segundo suas affinidades, fizeram-se moleculas e formaram esses aggregados nebulosos de que estão semeadas as profundezas do céu.
Animaram-se então estes aggregados de um movimento de rotação em volta do seu ponto central, e este centro formado de moleculas vagas poz-se tambem a girar sobre si mesmo, ao passo que se ia progressivamente condensando. Segundo as leis immutaveis da mechanica, á medida que se lhe minguava o volume pela condensação, ia-se-lhe accelerando o movimento de rotação e, persistindo estes dois effeitos, de cada centro, resultou uma estrella principal, novo centro do aggregado nebuloso.
Se o observador olhasse então attentamente, teria visto succeder com as outras moleculas do aggregado, o mesmo que succedêra com a estrella central: condensaram-se adquirindo simultaneamente um movimento de rotação progressivamente accelerado, e gravitaram em torno da central, transformadas em outras tantas estrellas. E assim ficava formada uma nebulosa[25]. Não menos de cinco mil nebulosas conhecem, na actualidade, os astronomos.
Ha uma, entre estas cinco mil nebulosas, a que os homens chamaram via lactea[26], e que contém dezoito milhões de estrellas, cada uma das quaes se transformou em centro de um mundo solar.
Se o observador, rodeado por estes dezoito milhões de astros, volvesse especialmente a attenção para um dos mais modestos e menos brilhantes[27], para uma estrella de quarta ordem, que orgulhosamente appellidâmos _o Sol_, debaixo dos olhos lhe teriam succedido todos os phenomenos a que é devida a formação do universo.
Effectivamente havia de ver esse Sol, ainda no estado gazoso e composto de moleculas moveis, a girar em torno do proprio eixo para concluir o trabalho de concentração, e este movimento, subordinado ás leis da mechanica, havia accelerar-se com a diminuição do volume, e um instante havia de chegar em que a força centrifuga venceria a força centripeta, que attrahe as moleculas para o centro.
Outro phenomeno então havia de realisar-se diante dos olhos do observador, as moleculas situadas no plano do equador, soltando-se como a pedra da funda de que subito rebenta a corda, haviam de ir formar, em volta do Sol, anneis concentricos como o de Saturno. A estes anneis de materia cosmica, animados de movimento de rotação em volta da massa central, chegaria depois a vez de partir-se e decompor-se em nebulosidades secundarias, o que vale o mesmo que dizer, em planetas.
Concentrada então toda a attenção do observador sobre os planetas havia de ver realisarem-se n'elles os mesmos phenomenos que observára no Sol. De cada um d'elles dimana um ou mais anneis cosmicos, origens dos astros de ordem inferior a que chamâmos satellites.
Subindo assim do atomo á molecula, da molecula ao aggregado nebuloso, do aggregado nebuloso á nebulosa, da nebulosa á estrella principal, da estrella principal ao Sol, do Sol ao planeta, do planeta ao satellite, examinâmos a serie inteira de transformações por que passaram os corpos celestes desde os primeiros dias do mundo.
O Sol, que parece perdido na immensidade do mundo estellar, está todavia ligado pelas ultimas theorias da sciencia á nebulosa chamada via lactea. Ainda que no meio das regiões ethereas nos pareça pequeno, é todavia o centro de um mundo, e é enorme, poisque o seu volume é igual a mil e quatrocentas vezes o volume da Terra. Em torno d'ella gravitam oito planetas, que nos primeiros tempos da creação lhe sairam das proprias entranhas. São estes planetas, progredindo do mais proximo até ao mais remoto, Mercurio, Venus, a Terra, Marte, Jupiter, Saturno, Urano e Neptuno. Alem d'estes circulam, regularmente entre Marte e Jupiter, outros corpos de volume menos consideravel, talvez restos errantes de algum astro quebrado em milhares de pedaços; d'estes conta o telescopio não menos de noventa e sete[28]. Alguns d'estes servidores que o Sol mantém nas respectivas orbitas ellipticas por força da grande lei da gravitação, tambem têem seus satellites. Urano tem oito, Saturno oito, Jupiter quatro, Neptuno talvez tres, a Terra só um; este, que é um dos menos importantes do mundo solar, chama-se Lua, e é o que o engenho audaz dos americanos pretendia conquistar.
O astro das noites, já pela proximidade relativa a que está, já por virtude do espectaculo rapidamente renovado das diversas phases que apresenta, partilhou sempre com o Sol a attenção dos habitantes da Terra; mas o olhar para o Sol cansa, e os esplendores da luz solar forçam os contempladores d'este astro a baixar os olhos.
A loura Phoeba é mais humana, e cheia de modesta graça deixa-se ver com complacencia; é suave para a vista, pouco ambiciosa, e comtudo toma ás vezes a liberdade de eclipsar seu irmão, o radiante Apollo, sem que nunca fosse eclipsada por este. Comprehenderam os mahometanos a gratidão que era devida á fiel amiga da Terra; por isso regularam pela revolução d'ella a contagem dos mezes[29].
Votaram os primeiros povos culto particular a esta casta deusa. Chamaram-lhe os egypcios Isis, os phenicios Astartea, e os gregos adoraram-n'a sob o nome de Phoeba, como filha de Jupiter e de Latona, e explicavam os eclipses por visitas mysteriosas de Diana ao bello Endymião.
Diz-nos a lenda mythologica, que o leão de Nemea, antes de apparecer na Terra, percorrêra as campinas da Lua, e o poeta Agesianax, citado por Plutarcho, celebrou em verso os dois olhos, o encantador nariz e a bôca amavel, que figuram as partes luminosas da adoravel Seléné.
[Figura: Vista da Lua (pag. 47).]
Porém se os antigos comprehenderam perfeitamente o caracter, o temperamento, emfim as qualidades moraes da Lua, sob o ponto de vista mythologico, não é menos verdade, que os mais sabedores d'elles eram extremamente ignorantes pelo que diz respeito a selenographia.
[Figura: Barbicane levanta-se para fallar (pag. 58).]
Todavia, muitos dos astronomos d'essas epochas longiquas, descobriram algumas particularidades confirmadas pela sciencia dos nossos dias, e se os arcadios pretenderam ter habitado a Terra em epocha em que ainda não existia a Lua, se Simplicius a julgou immovel e ligada á abobada de crystal, se Tatius a considerou como um fragmento destacado do disco solar, se Clearco, discipulo de Aristoteles, fazia d'ella um espelho polido em que se reflectia a imagem do Oceano, se outros finalmente a consideraram como um aggregado de vapores exhalados pela Terra, ou um globo, metade de fogo, metade de gêlo, que girava sobre si mesmo, alguns sabios por meio de observações sagazes, e postoque desajudados de instrumentos de optica, suspeitaram pelo menos a existencia da maior parte das leis que regem o astro das noites.
Assim é que Thales de Mileto, 460 annos antes de Jesus Christo, opinou que a Lua era illuminada pelo Sol. Aristarcho de Samos deu verdadeira explicação das phases. Cleomene ensinou que o brilho do disco lunar vinha de luz reflexa. Berosio o chaldaico descobriu que a duração de uma rotação da Lua era igual á da sua revolução, e explicou por esta fórma o facto da Lua ser vista da Terra sempre pela mesma face. Finalmente Hipparco, duzentos annos antes da era christã, reconheceu a existencia de desigualdades nos movimentos apparentes do satellite da Terra.
Estas differentes observações foram confirmadas no decorrer dos tempos e serviram de proveito aos astronomos mais modernos. Ptolomeu no seculo XVI, e o arabe Abul-Wefa no seculo X completaram as indicações feitas por Hipparco ácerca das desigualdades que apparenta o movimento da Lua na linha ondulada, que tem por orbita, sob a acção do Sol.
Mais proximos de nós, Copernico, no seculo XV, e Tycho Brahe no seculo XVI explicaram completamente o systema do mundo e o papel que desempenha a Lua no conjuncto dos corpos celestes.
N'esta epocha ficaram, com muita approximação, determinados todos os movimentos lunares, mas da constituição physica do astro pouca cousa era conhecida.
Foi por esse tempo que Galileu explicou os phenomenos luminosos que succediam em algumas phases, pela existencia de montanhas lunares, a que attribuiu uma altura media de 4:500 toezas.
Depois de Galileu, Hevelius, astronomo de Dantzig, avaliou mais pelo baixo as mais elevadas d'estas alturas em 2:600 toezas; verdade é que Riccioli, confrade d'este, tornou a corrigir esta apreciação, elevando-as a 7:000 toezas.
Nos fins do seculo XVIII Herschell, ajudado por um telescopio de poderoso alcance, reduziu mui notavelmente as medidas precedentes, attribuindo ás montanhas mais altas a elevação de 1:900 toezas, e abaixando a media das differentes alturas a 400 toezas, não mais.
Mas tambem Herschell se enganava, e só pelas observações de Shroeter, Louville, Halley, Nasmyth, Bianchini, Pastorf, Lohrman, Gruithuysen, e principalmente pelos estudos pacientes de Beer e Moedler se conseguiu resolver definitivamente o problema. Graças a estes homens de sciencia é hoje perfeitamente conhecida a elevação das montanhas da Lua.
Por virtude d'estes mesmos trabalhos completava-se o reconhecimento da Lua; apparecia o astro crivado de crateras, e affirmava-se mais em cada observação a natureza vulcanica d'elle. Concluiu-se da ausencia de refracção nos raios dos planetas occultados pela Lua, a falta quasi absoluta de atmosphera n'este astro.
Da falta de ar seguia-se concludentemente a falta de agua. Ficou portanto bem claro, que se existiam selenitas, deviam, para existir em taes condições, possuir organisação especial e notavelmente differente da dos habitantes da Terra.
Finalmente, graças aos methodos novos, empregaram-se em constantes inquirições ácerca da Lua instrumentos mais perfeitos; não deixaram os astronomos por explorar nem um só ponto da sua face visivel, devendo notar-se que o diametro lunar mede 2:150 milhas[30]; a superficie é 1/13 avos da superficie do nosso globo[31], o volume é 1/49 avos do volume do espheroide terrestre; mas nenhum dos segredos da Lua podia occultar-se aos olhos dos astronomos, e estes habeis homens de sciencia foram ainda mais longe nas prodigiosas observações que relatâmos.
Por esta fórma notaram os observadores, que na epocha da lua cheia apparecia o disco do astro, em algumas regiões, raiado por linhas brancas, e nas epochas das outras phases, raiado por linhas negras. Estudando com mais attenção o phenomeno, conseguiram perceber exactamente a natureza d'aquellas linhas. Eram sulcos compridos e estreitos, cavados entre margens parallelas e que em geral iam terminar nos contornos de crateras.
O comprimento dos sulcos estava comprehendido entre 10 e 100 milhas, e a largura era proximamente de 800 toezas. Deram-lhes os astronomos o nome de _ranhuras_; mas a dar-lhe este nome se limitou o seu saber. O problema de saber se estas ranhuras eram ou não leitos seccos de antigos rios não poderam resolve-lo completamente. Os americanos já concebiam a esperança de que, mais dia menos dia, haviam de determinar com exactidão aquelle facto geologico. Reservavam tambem para opportunidade propria fazer um reconhecimento sobre a serie de trincheiras parallelas descobertas na superficie da Lua por Gruithuysen, sabio professor de Munich, que as reputa um systema de fortificações levantadas pelos engenheiros selenitas. Estes dois pontos, ainda obscuros, e certamente muitos outros, nunca poderão ser definitivamente regulados, sem que se estabeleça primeiro communicação directa com a Lua.
Em relação á luz lunar nada havia já que aprender: era sabido que era trezentas mil vezes mais fraca que a do Sol, e que o calor que a acompanha não tem acção apreciavel sobre os thermometros. O phenomeno da luz cendrada esse explica-se naturalmente pelo effeito dos raios do Sol reflectidos na Terra, e que depois da reflexão se dirigem para a Lua.
Parece por este phenomeno completar-se o disco lunar, quando nas epochas da sua primeira e ultima phase se nos apresenta sob a fórma de um crescente.
O que deixâmos dito representava o peculio de conhecimentos adquiridos, em relação ao satellite da Terra, peculio que o Gun-Club tentava acrescentar sob todos os pontos de vista cosmographicos, geologicos, politicos e moraes.
CAPITULO VI
O QUE NÃO É POSSÍVEL IGNORAR E O QUE JÁ NÃO É PERMITTIDO ACREDITAR NOS ESTADOS UNIDOS
A proposta Barbicane tivera como resultado immediato trazer para a tela da discussão todos os factos astronomicos, relativos ao astro das noites. Todos se empenharam em estuda-lo com assiduidade. Parecia que a Lua apparecêra pela vez primeira acima do horisonte, e que ninguem ainda a tinha visto nos céus. Tornou-se o astro da moda; foi durante algum tempo a _leôa_ do dia, sem que por isso parecesse menos modesta, e tomou logar entre as _estrellas_, sem que d'ahi lhe viesse maior altivez. Os jornaes resuscitaram as antigas anecdotas, em que desempenhava papel o _sol dos lobos_: trouxeram á memoria do publico as influencias que attribuiu á Lua a ignorancia dos primeiros seculos; cantaram-n'a emfim em todos os tons, e pouco faltou para que lhe attribuissem algum dito chistoso. A America inteira foi atacada de selenomania.
As revistas scientificas tambem por sua parte estudaram o assumpto; mas, tratando mais especialmente dos problemas que diziam respeito ao projecto do Gun-Club, deram publicidade á carta do observatorio de Cambridge, commentando-a e approvando-a sem restricções.
Por encurtar diremos que não foi desde então permittido, nem ao mais illetrado de todos os yankees, ignorar um unico facto relativo ao nosso satellite, nem á mais crendeira de todas as velhas matronas americanas, continuar agarrada aos erros supersticiosos, que lhe dizem respeito. Entrava-lhes a sciencia em casa sob todas as fórmas; penetrava-lhes pelos olhos e pelos ouvidos; era impossivel ser um asno... em assumptos astronomicos.
Até então muitas pessoas ignoravam como podéra calcular-se a distancia que ha entre a Terra e Lua. Aproveitou-se a occasião para lhes ensinar que esta distancia se avaliava pela medida da parallaxe lunar. E a quem a palavra parallaxe causava estranheza dizia-se, que significava o angulo formado por duas linhas rectas tiradas de cada uma das extremidades do raio terrestre para a Lua.
A quem punha em duvida a perfeição do methodo, provava-se, sem detença, que não sómente a distancia da Terra á Lua era na realidade de duzentas e trinta e quatro mil trezentas e quarenta e sete milhas (94:330 leguas), mas tambem que os astronomos não erravam n'esta avaliação nem setenta milhas (30 leguas).
Aos que estavam pouco ou nada familiarisados com os movimentos da Lua, demonstravam os jornaes quotidianamente que este astro tem dois movimentos distinctos, o primeiro chamado de rotação, em torno de um eixo; o segundo chamado de revolução, em volta da Terra, que ambos se completam em tempos iguaes, isto é, em vinte e sete dias e um terço [32].
O movimento de rotação é o que dá origem aos dias e ás noites na superficie da Lua, devendo notar-se que não ha senão um dia e uma noite por mez lunar, e que cada dia ou cada noite dura trezentas e cincoenta e quatro horas e um terço. Mas, por felicidade da Lua, a sua face, que está voltada para o globo terrestre, é illuminada por este com a intensidade luminosa de quatorze luas. A outra face, que é sempre invisivel, tem por isso mesmo trezentas e cincoenta e quatro horas de noite absoluta, apenas temperada pela _pallida claridade que dimana das estrellas_. Este phenomeno provém unicamente da particularidade já citada, de que os movimentos de rotação e de revolução se completam em tempos rigorosamente iguaes, e realisa-se tambem, segundo Casini e Herschell, nos satellites de Jupiter, e provavelmente em todos os demais.
Em certas cabeças bem dispostas, mas um tanto duras, custava a entrar, á primeira, que a Lua voltava invariavelmente a mesma face para a terra, durante a sua revolução, pela rasão de que no mesmo lapso de tempo fazia um giro completo em torno do seu eixo. Mas a estes dizia-se: «Entrae na vossa casa de jantar, e dae uma volta completa á roda da mesa, olhando sempre para o centro d'ella; quando tiverdes completado o vosso passeio circular, tereis feito um giro perfeito sobre vós mesmos, visto como o vosso olhar ha de ter percorrido successivamente todos os pontos da sala. Ora pois! a sala é o céu, a mesa é a Terra, e a Lua sois vós!» E íam-se satisfeitissimos com a comparação.
Como acabâmos de ver, a Lua mostra constantemente a mesma face á Terra; todavia, para fallar com rigor, devemos acrescentar, que, em virtude de um certo movimento de oscillação de norte para sul e de oeste para leste, chamado libração, podemos ver um pouco mais de metade da superficie do globo lunar, cincoenta e sete centesimos, proximamente.
Quando os ignorantes chegaram a saber, com respeito ao movimento de rotação da Lua, tanto como o director do observatorio de Cambridge, começou a inquietar-lhes o espirito o movimento de revolução do satellite em volta da Terra, mas em curto espaço acabaram de os instruir vinte e tantas revistas scientificas.
Aprenderam então que o firmamento, com a sua infinidade de estrellas, póde ser considerado como um immenso mostrador, por sobre o qual passeia a Lua, indicando a hora verdadeira a todos os habitantes da Terra, e que é n'este movimento que o astro das noites apresenta as suas differentes phases. Mais, que é Lua cheia, quando está em opposição com o Sol, isto é, quando estão os tres astros na mesma linha recta, estando a Terra no meio; que a Lua é nova, quando está em conjuncção com o Sol, isto é, quando está entre este e a Terra; e, finalmente, que a Lua entra no quarto primeiro ou no ultimo, quando está no vertice de um angulo recto, formado pelas duas rectas que d'ella se dirigem para a Terra e para o Sol.
Alguns yankees mais perspicazes concluiam d'aqui, que não podia haver eclipses senão nas epochas de conjuncção e de opposição, e não deduziam mal. Na conjuncção a Lua póde eclipsar o Sol, e na opposição é a Terra que póde eclipsar a Lua, e se em cada revolução lunar não ha dois eclipses, é porque o plano, segundo o qual se move a Lua, é inclinado sobre a ecliptica, por outra, sobre o plano no qual se move a Terra.
Em relação á altura a que o astro das noites póde subir acima do horisonte estava tudo dito na carta do observatorio de Cambridge.
Todos ficaram sabendo que tal altura varia com a latitude do logar de observação, e que as unicas zonas do globo nas quaes a Lua passa pelo zenith, isto é, vem collocar-se directamente por cima da cabeça dos que a contemplam, estão forçosamente comprehendidas entre os parallelos de 28^o e o equador. D'ahi vinha a importante recommendação de tentar a experiencia n'um logar qualquer d'aquella parte do globo, para que o projectil podesse ser lançado verticalmente, e escapar-se por isso mais depressa á acção da gravidade. Era esta condição essencial para o bom exito da empreza, e não deixava de preoccupar vivamente a opinião.
Ácerca da linha seguida pela Lua na sua revolução em volta da Terra, tinha o observatorio de Cambridge ministrado conhecimentos bastantes, para que os ignorantes de todos os paizes ficassem sabendo que esta linha é uma curva reentrante, não um circulo, mas uma ellipse, n'um dos focos da qual está situada a Terra.
Esta especie de orbitas ellipticas é commum a todos os planetas, assim como a todos os satellites, e prova-se rigorosamente na mechanica racional que não podia succeder por outra fórma. Bem entendido estava que a Lua no apogeo está mais longe da Terra, e no perigeo mais proxima.
Ora eis-aqui o que por vontade ou sem ella sabia qualquer americano, e o que ninguem decentemente podia ignorar.
Porém, se os verdadeiros principios se vulgarisaram com rapidez, muito mais difficil foi extirpar grande quantidade de erros e illusorios temores. Assim, por exemplo, algumas pessoas muito de bem, sustentavam que a Lua era um antigo cometa, que no percurso da sua orbita alongada em volta do Sol, tinha vindo a passar proximo da Terra que o retivera no seu circulo de attracção. Pretendiam taes astronomos de sala explicar por esta maneira o aspecto requeimado da Lua, desgraça irreparavel de que accusavam o astro radiante do dia. Verdade seja, que, quando alguem lhes fazia notar que os cometas tem atmosphera, e que a Lua pouca ou nenhuma tem, tinham grande difficuldade em responder.
Outros, que pertenciam á raça d'aquelles que por tudo tremem e se arreceiam, manifestavam singulares temores a respeito da Lua; tinham ouvido dizer que desde as observações feitas no tempo dos Califas, o movimento de revolução do astro se ía accelerando em certa proporção; d'aqui deduziam, é verdade que com rigorosa logica, que á tal acceleração no movimento devia corresponder diminuição na distancia dos dois astros, e que prolongando-se este duplo effeito indefinidamente, a Lua havia de acabar um dia por cair sobre a Terra. Socegaram todavia estes animos timoratos, e deixaram de temer pela sorte das gerações futuras, quando lhes ensinaram que, segundo os calculos do illustre mathematico francez Laplace, esta acceleração do movimento lunar está comprehendida entre estreitos limites, e que não ha de tardar que lhe succeda uma proporcional diminuição na velocidade, e que por consequencia não poderá, nos seculos futuros, ser alterado o equilibrio do mundo solar.