Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos

Chapter 2

Chapter 23,673 wordsPublic domain

«Ha mezes, valentes collegas, continuou Barbicane, que perguntei eu a mim proprio se, sem sair da nossa especialidade, poderiamos emprehender alguma d'essas grandes experiencias dignas do seculo XIX, e se nos permittiriam os progressos da balistica sair bem do nosso empenho.

Em consequencia, inquiri, trabalhei, calculei, e dos meus estudos resultou a convicção de que havemos de saír-nos bem de um emprehendimento, que pareceria impraticavel em qualquer outro paiz. É este projecto, por longo tempo elaborado, que vae ser assumpto da minha communicação: é digno de vós, digno do passado do Gun-Club, e não póde deixar de fazer estrondo no mundo!

--Bastante estrondo? perguntou um artilheiro enthusiasta.

--Muito estrondo, no verdadeiro sentido da palavra, respondeu Barbicane.

--Não interrompam! disseram muitas vozes.

--Peço-lhes, pois, caros collegas, accrescentou o presidente, que me dêem completa attenção.»

Um fremito percorreu a assembléa inteira. Barbicane, depois de, com gesto rapido, ter carregado o chapéu na cabeça, proseguiu no seu discurso com voz placida:

Não ha um só de vós, estimaveis collegas, que não tenha visto a Lua, ou que, pelo menos, não ouvisse fallar n'ella. E não vos admireis de que venha aqui fallar-vos do astro das noites. Talvez esteja para nós reservado sermos os Colombos d'esse mundo ignoto. Seja eu comprehendido, auxiliado com todo o poder de que os meus socios dispõem, e conduzi-los-hei á conquista d'esse novo mundo, cujo nome ha de vir juntar-se aos dos trinta e seis estados que compõem este grande paiz da União!

--Hurrah pela Lua! gritou, como um só homem, o Gun-Club inteiro.

--Muito se tem estudado ácerca da Lua, continuou Barbicane, a massa, a densidade, o peso, o volume, a constituição, os movimentos, a distancia emfim d'este astro, e o papel que elle desempenha no mundo solar estão perfeitamente determinados: ha mappas selenographicos[11] cuja perfeição é igual senão superior á dos mappas terrestres: pela photographia têem-se obtido do nosso satellite provas de belleza imcomparavel. Resumindo, sabemos ácerca da Lua tudo quanto as mathematicas, a astronomia, a geologia e a optica poderam ensinar-nos; mas até hoje ainda se não estabeleceu meio algum directo de communicação com esse astro.»

A ultima phrase do orador excitou tal interesse e surpreza na assembléa, que chegou a produzir violenta agitação.

--Permittam-me, continuou este, que lhes traga á lembrança em poucas palavras, como foi que alguns homens exaltados, tendo embarcado em espirito para viagens imaginarias, pretenderam ter penetrado os segredos do nosso satellite. No seculo XVII, um tal David Fabricius, gabou-se de ter visto com os seus proprios olhos alguns habitantes da Lua. Em 1649, um francez, João Baudoin, publicou um livro intitulado a _Viagem feita ao mundo Lunar por Domingos Gonzalez, aventureiro hespanhol_. Na mesma epocha, deu á luz da publicidade Cyrano de Bergerac, aquella celebre expedição, que tanto renome teve em França. Algum tempo depois, outro francez (porque estes senhores entretem-se muito com a Lua) chamado Fontenelle escreveu a _Pluralidade dos mundos_, que foi, no seu tempo uma obra prima; verdade é que a sciencia em seu caminhar constante até as obras primas esmaga. Em 1835 um opusculo traduzido do jornal _New York American_ contava que sir John Herschell, enviado ao Cabo da Boa Esperança para ali fazer observações astronomicas, tinha conseguido, por meio de um telescopio aperfeiçoado por illuminação interior, trazer a Lua a uma distancia apparente de oitenta jardas[12]. Por esta fórma observára distinctamente na Lua cavernas, nas quaes viviam hippopotamos, verdejantes montanhas franjadas de renda de oiro, carneirinhos com armas de marfim, brancos cabritos montezes e até habitantes com azas membranosas como os morcegos. Este folheto, obra de um americano chamado Loche[13], teve grande voga. Mas pouco depois conheceu-se que não era senão uma mystificação scientifica, e os francezes foram as primeiras a rir-se d'elle.

--Rir de um americano! exclamou J.-T. Maston; mas isso é um _casus belli_!...

--Socegue o meu digno amigo, que antes de se rirem tinham sido os francezes perfeitamente embaidos pelo nosso compatriota. Para terminar esta breve resenha historica, accrescentarei que um tal Hans Pfaal de Rotterdam, elevando-se n'um balão cheio de um gaz tirado do azote e trinta e sete vezes mais leve que o hydrogeneo, chegou á Lua, depois de dezenove dias de viagem, e tambem que esta viagem não passou, como as anteriores, de uma tentativa da imaginação; era porém obra de um escriptor popular na America, engenho singular e contemplativo. É como se pronunciára o nome de Pöe.

--Hurrah por Edgard Pöe! exclamou a assembléa electrisada pelas palavras do presidente.

--Conclui o que tinha a dizer-vos, proseguiu Barbicane, no que diz respeito a tentativas que considerarei puramente litterarias e absolutamente insufficientes para estabelecer serias relações com o astro das noites. Devo todavia accrescentar, que alguns espiritos praticos tentaram já pôr-se em seria communicação com elle. Foi assim que ha alguns annos um geometra allemão propoz que se mandasse aos aridos steppes da Siberia uma commissão de homens de sciencia, para que n'aquellas vastas planicies fizessem desenhar por meio de reflectores luminosos, immensas figuras geometricas, entre outras a do quadrado da hypothenusa, vulgarmente chamada pelos francezes «le Pont aux ânes».

«Todo o ser intelligente, dizia este geometra, deve comprehender qual o destino scientifico de taes figuras; portanto os selenitas[14], se é que existem, hão de responder por meio de figuras similhantes, e uma vez estabelecida a communicação, facil será inventar um alphabeto, que dê meio de conversar com os habitantes da Lua.»

Assim fallava o geometra allemão; mas tal alphabeto nunca teve execução, e até hoje nenhuma ligação directa existiu entre a Terra e o seu satellite. Estava reservado para o engenho pratico dos americanos o porem-se em relação com o mundo sideral. E o meio de consegui-lo é simples, facil, certo, infallivel, e vae ser o assumpto da minha proposta.»

Estas palavras tiveram por ecco uma immensa algazarra, uma tempestade de exclamações e de applausos. Não havia um só dos assistentes que não se tivesse deixado dominar, arrastar e enthusiasmar pelas palavras do orador.

Ouçam! ouçam! silencio! era o que se ouvia de todos os lados.

Logoque socegou a agitação, Barbicane continuou em voz mais grave o seu interrompido discurso:

«Sabeis todos, disse, que progressos se tem feito em balistica de alguns annos a esta parte, e a que ponto de perfeição teriam chegado as armas de fogo se a guerra tivesse continuado. Tambem não ignoraes que póde affirmar-se, em geral, que a força de resistencia do canhão e a potencia expansiva da polvora não tem limitação. Pois bem! Partindo d'este principio, perguntei a mim proprio, se usando de um instrumento adequado, collocado em condições determinadas de resistencia, seria possivel enviar uma bala até a Lua!»

Ao ouvir a assembléa estas palavras, exhalou-se a um tempo, de mil peitos arquejantes, uma exclamação de profundo pasmo; houve depois uma pausa silenciosa, similhante á profunda calmaria que precede as tempestades.

E effectivamente ribombou o trovão, mas um trovão de applausos, de gritos, de clamores, que fez tremer a sala das sessões. O presidente queria fallar, e não podia, só passados dez minutos conseguiu fazer-se ouvir.

«Deixem-me concluir, disse elle friamente. Estudei a questão sob todos os seus aspectos, ataquei resolutamente o problema, e dos meus calculos indiscutiveis resulta, que um projectil animado de uma velocidade inicial de doze mil jardas[15] por segundo, e dirigido para a Lua, ha de necessariamente lá chegar. Tenho pois a honra, estimaveis collegas, de propor-vos que tentemos esta pequena experiencia!»

CAPITULO III

EFFEITO DA COMMUNICAÇÃO BARBICANE

É impossivel descrever o effeito produzido pelas ultimas palavras do honrado presidente. Que gritos! que vociferações! que successão de grunhidos, de hurrahs, de «hip! hip! hip!» de todos aquellas onomatopeas que superabundam na linguagem dos americanos. Era uma desordem, uma algazarra indescriptivel! Gritavam as bôcas, batiam as mãos, e os pés abalavam o pavimento das salas. Nem que todas as armas d'aquelle museu de artilheria se disparassem a um tempo teriam agitado com maior violencia as ondas sonoras. Nem o caso é para admirar. Artilheiros ha mais ruidosos que os proprios canhões.

Barbicane permanecêra impassivel no meio de todos estes clamores enthusiastas; desejava talvez dirigir ainda mais algumas palavras aos consocios, porque pelos gestos reclamava silencio, e o timbre fulminante disparou tão violenta como inutilmente. Porém nem sequer o ouviam. Pouco depois arrancaram-n'o da cadeira presidencial e levaram-n'o em triumpho, passando das mãos dos fieis camaradas para os braços de uma multidão não menos exaltada.

Não ha cousa n'este mundo capaz de causar pasmo a um americano. Muitas vezes se tem repetido que a palavra «impossivel» não é franceza. Certamente ha n'esta asserção troca de diccionario. Na America é que tudo é facil, tudo é simples, e pelo que diz respeito a difficuldades mechanicas, essas estão mortas já antes de nascerem. Nem um só yankee genuino teria permittido a si proprio sonhar sequer uma sombra de difficuldade entre o projecto Barbicane e a sua realisação. Dito e feito.

O passeio triumphal do presidente prolongou-se durante a noite. Foi uma verdadeira marcha á luz dos archotes. Irlandezes, allemães, francezes, toda a casta de individuos heterogeneos de que é formada a população do Maryland, gritavam na sua lingua patria. Os vivas, os hurrahs e os bravos confundiam-se n'um enthusiasmo inesprimivel.

Por coincidencia a Lua, como se percebêra que d'ella se tratava, brilhava n'aquella noite com uma serena magnificencia, e eclipsava com a intensa irradiação todas as luzes terrestres.

Os yankees dirigiam todos os olhos para o disco scintillante do astro: saudavam-n'o uns com a mão, outros chamavam-lhe os nomes mais carinhosos; estes mediam-n'a com os olhos, aquelles ameaçavam-n'a de murro fechado. Um fabricante de instrumentos de optica de James-Fall-street fez fortuna a vender oculos desde as oito horas até á meia noite. O astro das noites era contemplado atravez dos vidros das lunetas, como se fôra qualquer _lady_ da alta sociedade. Os americanos procediam já para com elle com a sem-ceremonia de verdadeiros proprietarios. Quem os visse diria, que a loura Phoeba era já dominio d'aquelles conquistadores audazes, e parte integrante do territorio da União.

E todavia mal começára ainda a agitar-se o problema de mandar-lhe um projectil, maneira um tanto aspera de encetar relações, mesmo com um satellite, porém muito usada entre nações civilisadas.

Meia noite acabava de soar e o enthusiasmo não arrefecia; mantinha-se em igual nivel em todas as classes da população; magistrados, homens de sciencia, negociantes, logistas e carrejões, tanto os homens de intelligencia elevada e culta, como os estupidos e ignaros tinham sentido abalo profundo na mais delicada fibra de seu ser; o caso de que se tratava era um emprehendimento nacional, e por isso na cidade alta, na cidade baixa, nos caes banhados pelas aguas do Patapsco, nos navios fundeados nas docas, apinhava-se a multidão, ebria de alegria, de _gin_ e de _wisky_; conversavam todos, peroravam, discutiam, disputavam, approvavam ou applaudiam, desde o _gentleman_, que negligentemente recostado no canapé de algum botequim, defrontava com a sua _chope_ e de _sherry-cobler_[16], até ao aguadeiro, que se emborrachava com _mataratos_[17] n'alguma sombria taberna de Fells-Point.

Comtudo, pela volta das duas horas, acalmou-se a emoção, e o presidente Barbicane conseguiu recolher a casa, moido, esfalfado e derreado. Nem um Hercules teria resistido a tal enthusiasmo. A turba foi pouco e pouco evacuando as praças e as ruas. Os quatro caminhos de ferro do Ohio, de Susquehanna, de Philadelphia e de Washington, que entroncam em Baltimore, foram lançar o publico hexogeneo nos quatro extremos dos Estados Unidos, e a cidade começou de repousar em relativa tranquillidade.

Enganar-se-ia quem suppozesse que durante aquella memoravel noitada, só Baltimore fôra victima da agitação que descrevemos. Todas as grandes cidades da União, Nova-York, Boston, Albany, Washington, Richmond, a Cidade Crescente[18], Charleston, Mobile, desde o Texas até ao Massachussets, e desde o Michigan até ás Floridas, todas participaram d'aquelle delirio, porque os trinta mil socios correspondentes do Gun-Club, que já tinham conhecimento da carta do seu presidente, esperavam com igual impaciencia a famosa communicação de 5 de outubro, e portanto n'esta mesma noite, á medida que as palavras saíam dos labios do orador, iam correndo pelos fios telegraphicos, através dos Estados da União, com a velocidade de duzentas e quarenta e oito mil quatrocentas e quarenta e sete milhas[19] por segundo. Por consequencia póde dizer-se, com absoluta certeza, que os Estados Unidos, que têem dez vezes o tamanho da França, soltaram n'um mesmo instante um _hurrah_, unico e unanime, e que vinte e cinco mil corações, entumecidos de orgulho, bateram a mesma pulsação.

No dia seguinte lançaram mão do assumpto mil e quinhentos periodicos diarios, hebdomadarios, mensaes ou bi-mensaes, e estudaram-n'o sob os differentes pontos de vista da physica, da meteorologia, da economia politica e da moral; pelo lado da preponderancia politica, e pelo da civilisação. Discutiam se a Lua era um mundo _acabado_, ou se estaria ainda em via de transformação. Perguntavam se era similhante á terra na epocha em que esta não tinha ainda atmosphera, qual era o aspecto da face lunar invisivel do espheroide terrestre, e ainda que se não tratava na occasião de mais do que enviar uma bala ao astro das noites, ninguem duvidava que esse facto seria ponto de partida para uma serie de novas experiencias, antes todos esperavam que um dia a America havia de penetrar os mais occultos arcanos do mysterioso disco. Havia até já quem parecesse arreceiar-se de que a conquista da Lua viesse a transtornar o equilibrio europeu.

Discutiu-se é verdade o projecto, mas nem um unico jornal poz duvidas á possibilidade da realisação d'elle; antes pelo contrario até as revistas, folhetos, boletins e _magasines_ publicados por associações scientificas, litterarias ou religiosas se encarregaram de demonstrar as vantagens de tal tentativa. A _sociedade de historia natural_ de Boston, a _sociedade americana de sciencias e artes_ de Albany, a _sociedade geographica e estatistica_ de New-York, a _sociedade philosophica americana_ de Philadelphia, e o _Instituto Smithsoniano_ de Washington enviaram ao Gun-Club milhares de cartas de felicitação, com offerecimentos promptos de coadjuvação e dinheiro.

Póde portanto dizer-se que nunca proposta alguma alcançou tão grande numero de adhesões; de hesitar, duvidar ou arreceiar-se pelo bom exito d'ella, é que ninguem se lembrou; e se a alguem occorresse, como de certo teria succedido na Europa, e particularmente em França, responder com mofas, caricaturas ou cançonetas epigrammaticas á idéa de enviar um projectil á Lua, de bem mau proveito lhe haviam de servir, que nem todos os _guarda-vidas_[20] do mundo lhe poderiam guardar as costas contra a indignação geral.

Ha cousas de que não é permittido rir no novo mundo.

A partir d'aquelle dia foi pois Impey Barbicane considerado como um dos mais notaveis e maiores cidadãos dos Estados Unidos, uma especie de Washington da sciencia; um só facto entre muitos bastará para evidenciar a que ponto chegára aquella infeudação subita de um povo inteiro a um homem.

[Figura: O observatorio de Cambridge (pag. 35).]

Passados alguns dias depois da famosa sessão do Gun-Club, annunciou, no theatro de Baltimore, o director de uma companhia ingleza a representação de _Much ado about nothing_[21]. Ora a população da cidade, que viu no titulo da comedia uma allusão offensiva aos projectos do presidente Barbicane, invadiu a sala, escangalhou os bancos, e obrigou o desgraçado do director a alterar o cartaz. O director, que era homem fino, soube curvar-se perante a vontade publica, e substituiu a desventurada comedia por _As you like it_[22]. O resultado foi ter, durante muitas semanas consecutivas, enchentes phenomenaes.

[Figura: Movimentos de translação da Lua (pag. 43).]

CAPITULO IV

RESPOSTA DO OBSERVATORIO DE CAMBRIDGE

Barbicane, apesar de todas as ovações de que era alvo, não desperdiçou um só instante. A primeira cousa de que tratou foi de reunir os collegas da mesa nas salas de commissão do Gun-Club, onde, com previa discussão, se accordou que fossem consultados os astronomos ácerca da parte astronomica do projecto, e que depois de conhecida a resposta d'estes, se discutissem então os meios mechanicos, sem descurar cousa alguma para tornar seguro o exito da grande experiencia.

Redigiu-se por consequencia uma _nota_ extremamente precisa, contendo perguntas especiaes, que foi dirigida ao observatorio de Cambridge, no Massachussets. A cidade de Cambridge, onde foi fundada a primeira universidade dos Estados Unidos, é justamente nomeada pelo seu observatorio astronomico, onde se encontram reunidos homens de sciencia do mais elevado merecimento. É ali que funcciona o potente telescopio, com o qual Bond conseguiu resolver a nebulosa de Andromedes, e Clarke descobrir o satellite de Sirius. Todos os precedentes d'este estabelecimento celebre justificavam portanto a confiança do Gun-Club.

E com effeito, dois dias depois, chegava ás mãos do presidente Barbicane a resposta tão impacientemente esperada.

Era concebida nos seguintes termos:

«Do director do observatorio de Cambridge para o presidente do Gun-Club, em Baltimore.

«Logoque se recebeu a vossa honrosa missiva de 6 do corrente, endereçada ao observatorio de Cambridge em nome dos socios do Gun-Club, de Baltimore, reuniu-se o pessoal scientifico d'este estabelecimento, e houve por conveniente[23] responder como se segue:

«As perguntas que lhe foram feitas são as seguintes:

«1.^o Será possivel enviar um projectil até á Lua?

«2.^o Qual é a distancia exacta que ha entre a Terra e o seu satellite?

«3.^o Quanto tempo durará o trajecto do projectil ao qual tenha sido imprimida a velocidade inicial sufficiente, e por consequencia, em que momento deverá ser arremessado para que encontre a Lua n'um ponto determinado?

«4.^o Em que momento prefixo estará a Lua na posição mais favoravel para ser alcançada pelo projectil?

«5.^o A que ponto do céu deve fazer-se a pontaria com o canhão destinado a lançar o projectil?

«6.^o Que logar ha de occupar a Lua no céu, no momento da partida do projectil?

«Em relação á primeira pergunta: Será possivel enviar um projectil até á Lua?

«Sim, é possivel alcançar a Lua com um projectil, comtanto que se consiga animar esse projectil de uma velocidade inicial de 12:000 jardas por segundo. Demonstra o calculo que tal velocidade é bastante.

«Á medida que nos afastâmos da terra, a acção da gravidade diminue na rasão inversa do quadrado das distancias, isto é, por exemplo, para uma distancia tres vezes maior, torna-se nove vezes menor. Por consequencia o peso da bala ha de decrescer rapidamente, até chegar a ser completamente nullo, o que ha de succeder no momento em que a attracção da Lua fizer equilibrio á da Terra, isto é, quando tiver percorrido 47/52 avos do seu trajecto. N'esse momento o projectil não terá peso algum, e se passar alem d'esse ponto ha de caír _para_ a Lua só por effeito da attracção lunar. Fica portanto irrecusavelmente demonstrada a possibilidade theorica da experiencia; emquanto ao seu bom exito, esse depende unicamente da potencia do machinismo que se empregar.

«Com respeito á segunda pergunta: Qual é a distancia exacta que ha entre a Terra e o seu satellite?

«A Lua não descreve em torno da terra uma circumferencia de circulo, mas sim uma ellipse, n'um dos focos da qual está situado o nosso globo; d'ahi vem por consequencia que a Lua está, ora mais proxima, ora mais afastada da terra, ou em termos astronomicos, agora no apogeo, logo no perigeo; e a differença entre a maior e a menor distancia é relativamente bastante consideravel para que não devamos despreza-la. Com effeito, no apogeo está a Lua a 247:552 milhas (99:640 leguas de 4 kilometros) e no perigeo a 218:657 milhas sómente (88:010 leguas) da Terra, o que dá uma differença de 28:895 milhas (11:630 leguas), que é mais da nona parte do percurso total. Portanto a distancia perigea da Lua é que deve servir de base aos calculos.

«Ácerca da terceira pergunta: Qual será a duração do trajecto do projectil ao qual tenha sido imprimida a velocidade inicial bastante, e consequentemente em que momento deverá ser lançado para que vá encontrar a Lua em um determinado ponto?

«Se a bala conservasse indefinidamente a velocidade inicial de 12 jardas por segundo, que lhe fosse imprimida no momento da partida, gastaria apenas nove horas approximadamente para chegar ao seu destino; mas como a velocidade inicial ha de ir continuamente decrescendo, deduz-se, feitos os calculos, que o projectil ha de empregar 300:000 segundos ou 83 horas e 20 minutos para chegar ao ponto onde as attracções terrestre e lunar se equilibram, e a partir d'este ponto ha de cair na superficie da Lua em 50:000 segundos ou 13 horas, 53 minutos e 20 segundos. Convem pois lançar o projectil 97 horas, 13 minutos e 20 segundos antes do momento em que a Lua haja de chegar ao ponto de mira.

«Em relação á quarta pergunta: Em que instante prefixo estará a Lua na posição mais favoravel para ser alcançada pelo projectil?

«Em consequencia do que deixâmos dito, deve, em primeiro logar, escolher-se a epocha em que a Lua estiver no perigeo, e simultaneamente o instante em que passar pelo zenith, circumstancia que ha de diminuir ainda o percurso do projectil de uma distancia igual ao raio da terra, isto é, de 3:919 milhas, vindo por esta fórma a ser o trajecto definitivo de 214:976 milhas (86:410 leguas). Porém a Lua, que passa todos os mezes pelo seu perigeo, nem sempre se encontra no zenith no mesmo instante, e só a largos intervallos satisfaz simultaneamente a estas duas condições. Necessario é portanto esperar a coincidencia da passagem pelo perigeo com a passagem pelo zenith.

«Por feliz acaso, no dia 4 de dezembro do anno proximo, a Lua ha de preencher as duas condições indicadas: á meia noite estará no perigeo, isto é, no ponto da sua orbita d'onde é mais curta a distancia á Terra, e passará no mesmo instante pelo zenith.

«Em relação á quinta pergunta: A que ponto do céu deve fazer-se a pontaria com o canhão destinado a lançar o projectil?

«Suppondo admittidas as considerações que precedem, o canhão deve ser dirigido para o zenith[24] do logar, por maneira que o tiro venha a ser perpendicular ao plano do horisonte e o projectil fuja assim mais rapidamente aos effeitos da attracção terrestre. Mas para que a Lua passe pelo zenith de um logar terrestre, é necessario que este logar não tenha latitude maior do que a declinação do astro, por outra que o logar esteja comprehendido entre o equador e os parallelos, que distam d'elle 28^o para norte ou sul. Em qualquer outro logar da terra o tiro havia necessariamente de ser obliquo, o que seria prejudicial ao bom exito da experiencia.

«A respeito da sexta pergunta: Que logar deve occupar a Lua no céu, no instante da partida do projectil?