Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos

Chapter 12

Chapter 123,786 wordsPublic domain

«Que diabo de gente são estes americanos! exclamou Miguel Ardan, depois que o companheiro acabou de lhe descrever com extrema energia todas aquellas scenas.

--Somos assim tal qual, respondeu com modestia J.-T. Maston; mas vamos apressando o passo.»

Entretanto por mais que Maston e Ardan corressem através da planicie, ainda humida do orvalho da noite, passando arrozaes e ribeiros, tomando sempre pelo caminho mais curto, não lograram chegar ao bosque de Skersnow, antes das cinco horas e meia. Barbicane já havia boa meia hora que devia ter-lhe passado a orla.

Trabalhava ali um velho _bushman_, cuja occupação era desfazer em cavacos as arvores que derrubava com o machado.

Maston correu para elle a gritar:

«Vistes entrar na mata um homem armado de _rifle_, Barbicane, o presidente... o meu melhor amigo?...»

O digno secretario do Gun-Club pensava ingenuamente que o seu presidente havia por força de ser conhecido do mundo inteiro. Mas o _bushman_ não deu mostras de o comprehender.

«Um caçador, disse então Ardan.

--Um caçador, sim vi, respondeu o _bushman_.

--E ha muito?

--Ha de haver uma hora.

--Já é tarde! clamou Maston.

--E ouvistes tiros de espingarda? perguntou Miguel Ardan.

--Nada.

--Nem um só?

--Nem um. Não me parece que o tal caçador tenha feito lá muito grande caçada!

--Que se ha de fazer? disse Maston.

--É entrar na mata, mesmo correndo risco de apanhar algum balasio, que não nos fosse destinado.

--Ah! exclamou Maston com accentuação, de cuja franqueza não era permittido duvidar-se, antes eu queria apanhar dez balas na minha propria cabeça, de que acertasse uma só na de Barbicane.

--Então ávante!» replicou Ardan, apertando a mão do companheiro.

Segundos depois desappareciam os dois amigos na espessura da mata, que era formada de cyprestes-gigantes, sycomoros, tulipeiras, oliveiras, tamarindos, carvalheiras e magnolias. Entrelaçavam-se as ramadas d'aquellas differentes arvores, em tão emmaranhada confusão, que não consentiam que a vista alcançasse muito ao longe. Miguel Ardan e Maston caminhavam um junto do outro, passando em silencio por entre as hervas altas, abrindo caminho por entre agudas silvas e vigorosas trepadeiras, inquirindo com o olhar as moitas ou as ramadas perdidas por entre a sombria espessura da folhagem, e esperando a cada instante ouvir a temivel detonação dos _rifles_.

Rasto de Barbicane, na sua passagem através do bosque, é que não logravam reconhecer. Caminhavam ás cegas por aquellas veredas apenas pisadas, em que qualquer indio teria seguido passo por passo a marcha do adversario.

Passada uma hora em pesquizas inuteis, fizeram alto os dois companheiros. Redobrára-lhes a inquietação de espirito.

«É porque está tudo acabado, disse Maston desanimado. Barbicane não era homem que jogasse astucias com o inimigo, nem que lhe armasse laços ou usasse de manobras! É franco e corajoso de mais para isso. Caminhou em frente, direito ao perigo, e por certo a tal distancia do _bushman_ que o vento levou, sem que este a ouvisse, a detonação das armas de fogo!

--Mas nós! respondeu Miguel Ardan. Desde que entrámos no bosque não haviamos de ter ouvido alguma cousa!

--E se chegámos tarde! exclamou Maston com intonação de desespero.

--Miguel Ardan como não tinha replica que dar-lhe proseguiu com Maston na marcha interrompida.

De tempos a tempos davam grandes gritos: chamavam ora por Barbicane, ora por Nicholl; mas nenhum dos dois adversarios respondia ás vozes d'elles. Apenas alegres bandos de aves, despertadas pelo ruido, desappareciam por entre as ramadas, ou algum gamo assustado fugia precipitado através da mata.

Por mais uma hora ainda se prolongaram as pesquizas. Já fôra explorada a maior parte da mata, e nada que revelasse a presença dos combatentes. Era caso para pôr em duvida as asserções do _bushman_, e Ardan pensava já em desistir de continuar por mais tempo uma busca inutil, quando, de subito, Maston estacou.

--Chit! murmurou elle. Está acolá alguem!

--Alguem? respondeu Miguel Ardan.

--Sim! um homem! Parece estar immovel. Já não tem o _rifle_ nas mãos. Que estará fazendo?

--Mas reconheces-lo? perguntou Ardan, a quem, myope como era, de pouco servia a vista em tal conjunctura.

--Sim! sim! Lá se volta, respondeu Maston.

--E é?

--O capitão Nicholl!

--Nicholl! clamou Miguel Ardan, que sentiu apertar-se-lhe violentamente o coração.

«Nicholl sem arma! Seria por nada ter já que receiar do adversario?

«Vamos ter com elle, disse Miguel Ardan; ficaremos desenganados.»

Mas apenas teriam caminhado uns cincoenta passos, elle e o companheiro estacaram, para mais attentamente examinarem o capitão. Cuidavam encontrar um homem sequioso de sangue, todo entregue a pensamentos de vingança!

Ao verem-no pararam estupefactos. Distendia-se entre dois tulipeiros gigantescos uma rede de apertada malha; mesmo no centro da teia, debatia-se uma avesinha presa pelas azas, soltando lastimosos gritos. O passarinheiro que assim dispozera a inextricavel rede não fôra um ser humano, senão uma peçonhenta aranha, peculiar d'aquellas regiões, de volume igual ao de um ovo de pomba e dotada de pernas enormes. Mas o horrendo animalejo, no momento em que ía arrojar-se sobre a presa, tivera de retirar, buscando asylo nas altas ramadas do tulipeiro, porque por sua vez fôra ameaçado por temivel inimigo.

Effectivamente, Nicholl largára a espingarda e esquecido dos perigos da situação, tratava de desembaraçar com extremos de delicadeza a victima enlaçada nas redes da monstruosa aranha. E quando concluiu a obra, deu a liberdade á pequena avesinha, que bateu alegremente as azas e desappareceu.

Ainda Nicholl contemplava enternecido a avesinha que fugia de ramo em ramo, quando ouviu as seguintes palavras ditas em tom de commoção:

«Isto é que é homem valente e de alma bem formada!»

Voltou-se, e encarou com Miguel Ardan, que repetia em todas as intonações:

«É homem que merece ter amigos!»

--Miguel Ardan! exclamou o capitão. Que vindes fazer aqui, senhor?

--Apertar-vos a mão, Nicholl, e impedir que mateis Barbicane, ou que sejaes morto por elle.

--Barbicane! exclamou o capitão, Barbicane, que eu procuro ha duas horas sem lograr encontra-lo! Onde estará elle escondido?

--Nicholl, disse Miguel Ardan, isso é falta de cortezia! deve sempre prestar-se respeito ao adversario; descansae, que se Barbicane é vivo havemos de encontra-lo, e com tanta maior facilidade que, se é que não passou o tempo como vós, entretido em soccorrer alguma avesinha opprimida, deve andar em vossa procura. Mas quando dermos com elle, sou eu, Miguel Ardan quem vo-lo diz, não é de duellos que se ha de tratar.

--Entre mim e o presidente Barbicane, respondeu com gravidade Nicholl, ha rivalidades de tal ordem, que só a morte de um dos dois...

--Ora vamos, vamos, replicou Miguel Ardan, homens valentes e almas bem formadas como vós outros, é possivel que se detestem, mas por certo tambem se estimam. Não haveis de bater-vos.

--Hei-de bater-me, senhor!

--Isso é que não.

--Capitão, disse então J.-T. Maston com generoso animo, sou amigo do presidente, o seu _alter ego_, outro elle; se desejaes absolutamente matar alguem, disparae sobre mim, que é exactamente o mesmo.

--Senhor, disse Nicholl apertando com mão convulsa o _rifle_, essas zombarias...

--O amigo Maston não está zombando, respondeu Miguel Ardan, e eu cá por mim comprehendo perfeitamente a sua idéa de se fazer matar em vez do homem de quem é amigo! Mas nem elle nem Barbicane hão de cair aos tiros do capitão Nicholl, porque tenho a fazer aos dois rivaes uma proposta por tal fórma seductora, que por certo hão de acceita-la com enthusiasmo.

--Que proposta é então essa? perguntou Nicholl com visivel incredulidade.

--Haja paciencia, respondeu Ardan, não posso fazer a communicação senão na presença de Barbicane.

--Pois vamos por elle, exclamou o capitão.

No mesmo instante pozeram-se os tres a caminho; o capitão desarmou o _rifle_, po-l'o ao hombro, e caminhou com passo soffreado, sem dizer palavra.

Por espaço de meia hora ainda, foram inuteis todas as pesquizas. Maston sentia-se dominado por sinistro presentimento, e observava Nicholl com severidade, perguntando a si proprio se não estaria já satisfeita a vingança do capitão, e Barbicane jazendo ferido de bala ao pé de alguma moita ensanguentada. Miguel Ardan parecia dominado pelas mesmas idéas, e ambos inquiriam com os olhos o capitão Nicholl, quando Maston estacou de subito.

Encostado ao tronco de uma catalpa gigantesca via-se a uns vinte passos o busto immovel de um homem com o corpo meio occulto por entre as hervas.

«É elle!» murmurou Maston.

Barbicane nem se movia. Ardan olhou fito para os olhos do capitão, mas este não trepidou. Ardan deu alguns passos, gritando:

«Barbicane! Barbicane!»

Nada de resposta.

Ardan encaminhou-se precipitado para o amigo, mas no momento em que ía agarra-lo pelo braço, estacou de repente, soltando uma exclamação de surpreza.

Barbicane, de lapis em punho, escrevia fórmulas e traçava figuras geometricas n'uma carteira. A espingarda, essa jazia desarmada no chão.

O homem de sciencia, absorto pelo trabalho, esquecendo por sua parte duello e vingança, nada víra nem ouvíra. Mas quando Miguel Ardan lhe poz a mão nas d'elle, levantou-se e olhou com ar de espanto.

--Ah! exclamou por fim, tu aqui! Encontrei, amigo! encontrei!

--O que?

--Os meios!

--Mas que meios?

--Meios de annullar o effeito da repercussão do tiro á partida do projectil!

--Realmente? disse Miguel Ardan, olhando de soslaio para o capitão.

--É verdade! agua, agua pura servirá de almofada.

Ah! Maston! exclamou Barbicane, tambem vós!

--Em propria pessoa, respondeu Miguel Ardan, e dá-me licença que te apresente tambem por esta occasião o estimavel capitão Nicholl!

--Nicholl! exclamou Barbicane, levantando-se de subito. Perdão, capitão, tinha-me esquecido... mas estou prompto...»

Miguel Ardan metteu-se de permeio sem dar tempo aos dois inimigos para que se interpellassem.

«Por vida minha! disse Ardan, que foi uma verdadeira felicidade que dois homens de alma generosa e elevada como vós dois se não tivessem encontrado mais cedo! Tinhamos agora que estar chorando um dos dois! Mas graças a Deus, que se metteu no negocio, já nada ha que receiar. Quando dois homens esquecem os seus odios para se entregarem á resolução de problemas de mechanica ou fazer partidas ás aranhas, é porque taes odios não são perigosos para ninguem.»

E Miguel Ardan narrou ao presidente a aventura do capitão.

--«Ora perguntarei eu agora, disse Miguel em conclusão, se duas boas pessoas como vós outros foram feitas para se esmigalharem reciprocamente a cabeça a tiros de carabina?»

Havia n'aquella situação, um tanto ridicula, alguma cousa de tão inesperado, que Barbicane e Nicholl não sabiam como comportar-se um em relação ao outro. Miguel, que bem o percebeu, resolveu precipitar a reconciliação.

«Estimaveis amigos, disse deixando apontar aos labios o mais agradavel dos sorrisos, nunca houve entre vós dois senão equivocos. Nada mais. Pois bem! para dar prova de que todas as contendas estão terminadas, e visto como sois homens que não temem arriscar a pelle, acceitae sem hesitar a proposta que vou fazer-vos.

--O amigo Barbicane pensa que o seu projectil ha de ir direitinho á Lua?

--Certamente que sim, replicou o presidente.

--E o amigo Nicholl está persuadido que o projectil ha de caír na Terra.

--Estou seguro d'isso, exclamou o capitão.

--Muito bem! proseguiu Miguel Ardan. Eu é que não tenho pretensões a pôr-vos de accordo, mas sómente vos direi mui lhana e simplesmente: Vinde commigo, para vermos assim se ficâmos ou não a meio caminho.

--Hum!» exclamou J.-T. Maston estupefacto.

Ao ouvirem tão inesperada proposta, os dois rivaes levantaram os olhos um para o outro. Observavam-se attentamente. Barbicane aguardava a resposta do capitão. Nicholl estava á espreita da primeira palavra do presidente.

«Então? disse Miguel Ardan com intonação das mais convidativas. Visto nada haver que receiar da repercussão!...

--Acceito! exclamou Barbicane.

Mas, por depressa que esta palavra fosse pronunciada pelo presidente, tambem Nicholl a concluira ao mesmo tempo.

--Hurrah! bravo! viva! hip! hip! hip! clamou Miguel Ardan estendendo as mãos aos dois adversarios. E agora que a pendencia está pacificamente terminada, meus amigos, consintam-me que os trate á franceza. Vamos almoçar.»

CAPITULO XXII

O NOVO CIDADÃO DOS ESTADOS UNIDOS

N'aquelle mesmo dia toda a America foi informada a um tempo do desafio de Barbicane com o capitão Nicholl, e da aventura singular que lhe puzera termo. O papel que desempenhára n'aquelle recontro o cavalheiroso europeu, a proposta inesperada que viera cortar todas as dificuldades, a acceitação simultanea dos dois rivaes, aquella conquista do continente lunar, para emprehender a qual íam marchando de accordo França e Estados Unidos, tudo se reuniu para ainda mais augmentar a popularidade de Miguel Ardan.

É sabido qual o phrenesi com que os yankees se apaixonam por qualquer individualidade. Imagine-se qual seria a paixão desencadeada em favor do audacioso francez, n'aquelle paiz onde até os mais graves magistrados não duvidam puxar á carruagem de qualquer dansarina para a levarem em triumpho. Se não desatrelaram os cavallos de Ardan, foi provavelmente porque elle os não tinha, que no demais foram-lhe prodigalisadas todas as provas imaginaveis de enthusiasmo. Não houve um só cidadão que senão unisse a elle de alma e coração. _Ex pluribus unum_, que é a divisa dos Estados Unidos.

A partir d'aquelle dia, não teve Miguel Ardan um só momento de socego. Vinham procura-lo deputações de todos os cantos da União, que o attribulavam e que não promettiam ter fim, nem tregua. E o mais é que tinha que as receber, com vontade ou sem ella. Quantos apertos de mão deu, a quanta gente tratou por tu, é cousa que nem póde calcular-se. Dentro em pouco tempo estava exhausto de forças, a voz já mal lhe saía dos labios em sons inintelligiveis, rouca dos innumeraveis _speechs_; ía arranjando uma gastro-enterite de tanto _toast_ que se viu obrigado a fazer a todos os condados da União. Um triumpho tal teria subido á cabeça a outro qualquer logo no primeiro dia, mas Ardan teve artes de nunca passar de uma espirituosa e encantadora semi-ebriedade.

Entre as deputações de todos os generos que por aquella occasião o assaltaram, não soube esquecer quanto devia ao futuro conquistador da Lua, a dos «lunaticos». Certo dia, alguns d'estes pobres diabos, abundantes na America, vieram ter com elle e pedir-lhe que os levasse comsigo para o paiz natal. Alguns houve que affirmaram saber fallar a «lingua selenita» e que até a quizeram ensinar a Miguel Ardan. Prestou-se este de bom grado a tão innocente mania, e até se encarregou de recados e encommendas para os amigos que os pobres diabos diziam ter na Lua.

«Singular loucura, disse Ardan a Barbicane, depois que os despediu, e loucura que ataca as mais das vezes as intelligencias mais agudas. Dizia-me Arago, um dos nossos mais illustres homens de sciencia, que muitas pessoas, aliás extremamente sensatas e cautelosas nas suas concepções, se deixam arrastar a grande exaltação e a incriveis singularidades, todas as vezes que se occupam da Lua. E tu não dás credito á influencia da Lua sobre as doenças?

[Figura: Parti commigo para vermos (pag. 197).]

--Pouco, respondeu o presidente do Gun-Club.

[Figura: O gato tirado da bomba (pag. 206).]

--Tambem eu não; apesar de que a historia tem registrado factos que, pelo menos, são para causar admiração. Assim em 1693, durante certa epidemia, morreu muita mais gente no dia 21 de janeiro, por occasião de um eclipse. O celebre Bacon desmaiava nas occasiões de eclipse da Lua, e só voltava a si depois da completa emersão do astro. O rei Carlos VI recaíu por seis vezes em demencia, no decurso do anno de 1399, e sempre em occasião de Lua nova ou de Lua cheia. Affirmam alguns medicos que a epilepsia deve classificar-se entre as doenças que acompanham as phases da Lua. As molestias nervosas tambem por vezes parecem depender da influencia lunar. Conta Mead que havia no seu tempo um menino que entrava em convulsões logo que a Lua entrava em opposição. Gall notou que a exaltação das pessoas debeis cresce duas vezes em cada mez, uma no _novi-lunio_, outra no _pleni-lunio_. Finalmente, ha mais de um milheiro de observações d'este genero, em respeito a vertigens, febres malignas e ataques de somnambulismo, que todos tendem a provar que o astro das noites gosa de mysteriosa influencia sobre o curso das doenças terrestres.

--Mas como? porque? perguntou Barbicane.

--Porque? respondeu Ardan. Á fé que te hei de dar a mesma resposta que Arago repetia dezenove seculos depois de Plutarco: «Talvez seja exactamente por não ser verdade!»

No meio do seu triumpho, não logrou Miguel Ardan escapar-se a nenhuma das massadas inherentes ao estado de homem celebre. Os especuladores de vogas e celebridades de occasião tentaram pô-lo em exhibição. Barnum chegou a offerecer-lhe um milhão para adquirir o direito de o transportar de cidade em cidade, em todos os Estados Unidos, e mostra-lo qual animal raro. A resposta de Miguel Ardan foi alcunha-lo de _cornac_, e manda-lo a elle Barnum... passeiar.

Todavia, recusando-se aliás a satisfazer por tal fórma a curiosidade publica, deixou Ardan pelo menos que seus retratos corressem pelo mundo inteiro e occupassem logar de honra em todos os albums; d'elles se tiraram provas de todas as dimensões, desde as de tamanho natural até as da grandeza microscopica da estampilha do correio. Estava ao alcance de toda a gente possuir a imagem do heroe, em qualquer das posições imaginaveis; cabeça só, meio corpo, corpo inteiro, de frente, de perfil, de tres quartos e até de costas. Tirou-se mais de milhão e meio de exemplares. A occasião era bem boa para se desfazer em reliquias, mas Ardan é que a não soube aproveitar. Só a vender os cabellos a dollar cada um, podia fazer uma fortuna, e mais já não eram muitos!

A popularidade, querendo fallar com inteira franqueza, não lhe era desagradavel. Pelo contrario, Ardan punha-se á disposição do publico, e correspondia-se com o universo inteiro. Por toda a parte se contavam, repetiam e propalavam os ditos conceituosos d'elle, muito principalmente os que elle nem tinha proferido. Como é uso, por isso mesmo que n'essa parte lhe sobrava a riqueza, é que mais lhe queriam dar ou emprestar. E não sómente soube tornar propicios os homens, senão tambem as mulheres. Bastaria que lhe tivesse passado pela cabeça a phantasia de «entrar no rol dos homens serios», para ter arranjado um numero infinito de «bellos casamentos». Principalmente as velhas _misses_, d'estas que ha bons quarenta annos se mirravam por não casar, todas devaneiavam dia e noite diante das photographias d'elle.

Certo é que teria achado companheiras aos centos, aindaque lhes impuzesse como condição acompanharem-n'o na aerea viagem; que as mulheres quando lhes não dá para de tudo terem medo, são verdadeiramente intrepidas. Porém, como Ardan não tinha intento de fazer estirpe no continente lunar, nem de para lá transportar raça atravessada de francez e americano, recusou-se formalmente a todos os enlaces.

«Ir eu lá para cima, dizia elle, fazer o papel de Adão com uma filha de Eva, obrigado! E se lá encontrasse serpentes!...»

Ardan, logoque alfim logrou subtrahir-se ás alegrias exageradamente repetidas do triumpho, foi com os amigos fazer uma visita á Columbiada, que bem lh'o merecia. De mais a mais, depois que Ardan vivia em contacto com Barbicane, J.-T. Maston e _tutti quanti_ tinha-se tornado muito sabedor em questões de balistica. O seu maior prazer consistia então em repetir aos estimaveis artilheiros, que não eram elles mais do que amaveis e sabios assassinos. Ácerca de tal assumpto nunca se lhe esgotava a musa epigrammatica. No dia em que visitou a Columbiada, admirou-a com enthusiasmo e desceu até ao fundo da alma do gigantesco morteiro, que em breve havia de arremessa-lo para o astro das noites.

«Este canhão ao menos, disse, não ha de fazer mal a ninguem; o que da parte de um canhão já não é pouco para admirar. Mas não me venham cá fallar d'esses machinismos que destroem, que incendeiam, que despedaçam, que matam, e ainda menos dizer-me que têem «alma», que lá isso é que eu nunca hei de acreditar!»

Vem a pêllo narrar n'este logar um caso que diz respeito a J.-T. Maston. Quando o secretario do Gun-Club ouviu que Nicholl e Barbicane acceitavam a proposta de Miguel Ardan, resolveu lá no intimo juntar-se com elles, e fazer assim «uma parceirada de quatro»; um bello dia pediu para entrar na viajata. Barbicane, sentindo immenso ter que lhe responder com uma recusa, fez-lhe ver que o projectil não tinha lotação para tanto passageiro. J.-T. Maston, desesperado, foi ter com Miguel Ardan, que o convidou a resignar-se, fazendo até valer certos argumentos _ad hominem_.

«Ora pensa bem, meu velho Maston, e não vás tomar as minhas palavras em mau sentido; mas aqui para nós, a verdade é que estás muito incompleto para te apresentar assim na Lua!

--Incompleto! exclamou o velho invalido.

--Sim! meu estimavel amigo! Ora põe-te no caso de encontrarmos habitantes lá em cima. Quererias tu dar-lhes tão triste idéa do que se passa cá por baixo, patentear-lhe o que é a guerra, demonstrar-lhes que empregâmos por cá o melhor do nosso tempo a devorar-nos, a comer-nos, a quebrar-nos reciprocamente pernas e braços, e isto n'um globo que poderia alimentar cem mil milhões de habitantes, e que apenas tem mil e duzentos milhões d'elles? Ora vamos, meu digno amigo, isso era até caso de nos pôrem de lá fóra, por tua causa!

--Mas se vós lá chegardes feitos em pedaços, replicou J.-T. Maston, estareis tão incompletos como eu!

--De certo, respondeu Miguel Ardan, mas a verdade é que não havemos de chegar lá feitos em pedaços!»

Effectivamente, uma experiencia preparatoria, que se tentou a 18 de outubro, dera optimo resultado e fizera conceber as mais fundadas esperanças. Barbicane, que desejava conhecer exactamente o effeito da repercussão do tiro no momento da partida do projectil, fez trazer do arsenal de Pensacola um morteiro de trinta e duas pollegadas (0,75 centimetros), que installaram na praia do molhe de Hillisboro, para que a bomba viesse a cair no mar e o choque da quéda fosse amortecido pela agua, visto tratar-se sómente de experimentar ácerca do abalo á partida e não do choque á chegada.

Foi preparado com os maiores cuidados para a realisação d'esta curiosa experiencia um projectil ôco. Estofava-lhe as paredes internas um expesso acolchoado assente em cima de uma rede de molas de aço da mais fina tempera. Era um verdadeiro ninho cuidadosamente almofadado.

«Que pena não caber eu lá dentro!» dizia J.-T. Maston, lamentando que o proprio volume lhe não consentisse tentar a aventura. N'aquella encantadora bomba, que fechava por meio de uma tampa de rosca, introduziram primeiro um gato, depois um esquilo pertencente a J.-T. Maston, e a que o secretario do Gun-Club tinha particular affeição. Mas havia desejos de saber como é que aquelle animalsinho, pouco sujeito a vertigens, supportaria a viagem de experiencia.

Carregou-se o morteiro com cento e sessenta libras de polvora, e collocada a bomba na peça, fez-se fogo. No mesmo instante elevou-se rapidamente o projectil, descreveu magestosamente a sua parabola, chegou á maxima altura de approximadamente mil pés e foi-se abysmar por entre as vagas, descendo por graciosa curva.

Dirigiu-se sem perda de tempo uma embarcação para o logar onde caira a bomba, precipitaram-se habeis mergulhadores debaixo de agua e amarraram cabos ás auriculas da bomba que de prompto foi içada a bordo. Nem cinco minutos tinham decorrido entre o momento em que os animaes tinham sido encerrados na bomba e aquelle em que se lhes desatarraxou a tampa da prisão.