Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos

Chapter 10

Chapter 103,595 wordsPublic domain

Em summa, era um bohemio do paiz dos montes e das maravilhas, aventuroso, mas não aventureiro, uma cabeça ôca, um Phaetonte que guiava a toda a brida o carro do Sol, um Icaro com azas de sobresallente. E era homem que sabia arriscar e arriscar a serio a propria pessoa, que se arrojava de cabeça levantada ás mais loucas emprezas, cortando a si proprio a retirada com mais enthusiasmo ainda do que Agathócles quando incendiou a esquadra que commandava. Prompto a toda a hora a arriscar a pelle, tinha por sorte invariavel, por maior que fosse a cambalhota, caír sempre de pé como os bonequitos de sabugo com que brincam as creanças.

Em duas palavras, tinha por divisa: _dê por onde der!_ e por _ruling passion_[86], segundo a bella expressão de Pope, o amor pelo impossivel.

Mas tambem era para ver-se como aquelle maganão emprehendedor possuia os defeitos inherentes ás suas boas qualidades. Diz o vulgo, que quem se não aventurou não perdeu nem ganhou.

Miguel Ardan bastas vezes se tinha aventurado, e nem por isso tinha ganho!

Para dar cabo de dinheiro era um verdugo, um tonel das Danaïdes. Homem aliás perfeitamente desinteressado, tantas eram as asneiras que lhe dictava o grande coração, como as que lhe insinuava a estouvada cabeça; esmoler, cavalheiroso, incapaz de assignar o «enforque-se» do seu mais cruel inimigo, mas muito capaz de se vender para resgatar um negro.

Em França, na Europa, toda a gente conhecia este personagem brilhante e estrepitoso. Nem era para admirar que assim succedesse a quem trazia já enrouquecidos de servi-lo e apregoar-lhe o nome as cem vozes da fama, a quem vivia como que dentro de uma casa de vidro, e tomava por confidente dos seus mais intimos segredos o universo inteiro. Por estas mesmas rasões tambem Ardan possuia uma admiravel collecção de inimigos, de entre aquelles que elle, acotovelando para abrir caminho por entre a multidão, mais ou menos maguára, ferira ou derrubára sem dó nem piedade.

E no entretanto era geralmente bemquisto e até tratado com excessivo mimo. Era d'aquelles homens a quem póde applicar-se a expressão popular «é pegar ou largar», e o caso é que todos lhe pegavam, todos tomavam interesse nos arrojados commettimentos d'elle, e lhe seguiam com inquietação as peripecias porque já era de todos conhecida a imprudente audacia que o caracterisava. A algum amigo, que no intuito de lhe suspender os designios, vinha prophetisar-lhe catastrophe imminente, respondia sempre Ardan com amavel sorriso: «Da lenha das proprias arvores nasce e lavra o incendio da floresta». Quem lhe diria a elle que citava então o mais bonito de todos os proverbios arabes!

Tal era o passageiro do _Atlanta_, sempre em agitação, sempre a ferver, sempre debaixo da acção de um fogo interior, sempre commovido, não pelo que vinha fazer á America, que nem em tal cogitava, mas por virtude da ardente organisação de que era dotado.

Nunca houve duas personalidades que apresentassem contraste mais saliente que o francez Miguel Ardan e o yankee Barbicane; todavia ambos, cada um lá a seu modo, eram emprehendedores, atrevidos e audaciosos.

Em breve foi interrompida pelos hurrahs e vivas da multidão a contemplação a que se entregára o presidente do Gun-Club em presença do rival que viera desterra-lo da posição principal para o segundo logar. E tão phrenetica se tornou a gritaria, tornaram-se por tal fórma pessoaes as manifestações do enthusiasmo, que Miguel Ardan, depois de ter apertado um milheiro de mãos, em que ia deixando os dez dedos das d'elle, teve que se refugiar no camarim.

Barbicane seguiu-o sem lhe ter dito nem palavra.

«Sois Barbicane? perguntou Miguel Ardan logoque se acharam a sós, e com a intonação de quem fallava a um amigo de vinte annos.

--Sou, respondeu o presidente do Gun-Club.

--Pois então muito bons dias, Barbicane. Como vae isso? Excellentemente? Ora vamos; bom é que assim seja: tanto melhor!

--Com que, disse Barbicane, sem buscar melhor entrada em materia, sempre estaes decidido a partir?

--Absolutamente decidido.

--E nada poderá impedir-vo-lo?

--Cousa alguma. E os planos do projectil mandaste-los modificar em harmonia com as indicações do meu telegramma?

--Estava á espera da vossa chegada. Mas, perguntou Barbicane, insistindo novamente, reflectistes bem?...

--Reflectir! E que tempo tenho eu para o estar a perder!? Apanho occasião de ir dar um passeio até á Lua, e aproveito-a, nada mais. Nem me parece que seja cousa que mereça maiores reflexões.»

Barbicane devorava com o olhar aquelle homem que fallava de tal projecto de viagem com tanta leviandade, tão completo socego e tão perfeita ausencia de cuidados.

--«Mas pelo menos, disse, haveis de ter plano formado, meios de execução.

--Excellentes, meu caro Barbicane. Mas dae-me licença que faça uma só observação: o que eu gostava era de contar a minha historia toda de uma vez só e a toda a gente, e não tratar mais do assumpto. Evitam-se assim as repetições. Consequentemente, salvo melhor conselho, convocae os vossos amigos, vossos collegas, toda a cidade, a Florida inteira, a America em peso, se vos parecer, e ámanhã estou prompto para expor os meus meios como para responder a todas as objecções, sejam lá quaes forem. Descansae que hei de espera-las a pé firme. Convem-vos isto?

«Convem-me», respondeu Barbicane.

Accordado isto, saiu o presidente do camarim e veiu communicar á multidão a proposta de Miguel Ardan.

Receberam-lhe as palavras com pateadas e grunhidos de alegria. A cousa assim feita obviava a todas as difficuldades. No dia seguinte todos poderiam contemplar á vontade o heroe europeu. Entretanto um ou outro espectador houve mais cabeçudo que não quiz largar o tombadilho do _Atlanta_, e passou a noite a bordo. Entre outros, J.-T. Maston, que tinha atarraxado a ganchorra no parapeito do castello de pôpa; nem um cabrestante de lá poderia arranca-lo!

«É um heroe! um heroe! berrava elle em todas as intonações, nós é que somos umas fracas mulheres, em comparação com esse europeu!»

O presidente, esse depois de convidar a retirarem-se todos os visitantes, volveu ao camarim do passageiro e não mais o largou até ao momento em que a sineta de bordo tocou o quarto da meia noite. Mas n'essa occasião, já os dois rivaes em popularidade se apertavam reciproca e calorosamente as mãos, e Miguel Ardan já tratava por tu ao presidente Barbicane.

CAPITULO XIX

UM MEETING

No dia seguinte levantou-se o «astro do dia» um tanto tarde para corresponder á impaciencia publica. Para desempenhar o papel de Sol na illuminação de similhante festa, acharam-n'o um tanto preguiçoso. Por vontade de Barbicane, que se arreceiava de perguntas indiscretas para Miguel Ardan, teria o auditorio sido reduzido a um pequeno numero de adeptos, os collegas, por exemplo. Mas isso!.. era mais facil pôr um dique á corrente do Niagara. Por consequencia teve de renunciar ao que projectára, e de consentir que o amigo de recente data corresse todos os riscos de uma conferencia publica. Apesar das suas dimensões colossaes, julgou-se ainda insufficiente para a realisação de tal ceremonia a nova sala da Bolsa de Tampa-Town, porque a reunião projectada assumira proporções de verdadeiro meeting.

O logar escolhido foi uma vasta planicie situada fóra da cidade, e em poucas horas conseguiram abriga-la dos raios solares; todos os arranjos necessarios para a construcção de uma barraca colossal foram ministrados pelos navios surtos no porto, abundantes em velame, cordame, mastros e vergas de sobresalente.

Dentro em pouco estendia-se por sobre a planicie calcinada, a defende-la contra as ardencias do dia, um immenso céu de panno debaixo do qual trezentas mil pessoas acharam abrigo para poderem aguentar impunemente por espaço de muitas horas, emquanto esperavam pelo francez, uma temperatura de abafar. De toda aquella turba de espectadores só á primeira terça parte era dado ver e ouvir; a segunda mal via e nem palavra ouvia; quanto á terceira, essa nada via, e ainda menos ouvia. E nem por isso foi a menos prompta a prodigalisar applausos.

Ás tres horas, realisou-se a apparição de Miguel Ardan, em companhia dos socios principaes do Gun-Club. Dava Miguel o braço direito ao presidente Barbicane e o braço esquerdo a J.-T. Maston, mais radiante e quasi tão rutilante como o Sol ao meio dia. Ardan subiu a um estrado, de cima do qual se lhe estendia a vista por sobre aquelle oceano de chapéus.

Não se percebia n'elle o menor signal de acanhamento, nem de impostura; estava ali como quem está em sua casa, alegre, familiar e amavel; depois de responder com uma graciosa inclinação de cabeça aos hurrahs com que o acolheram, e de reclamar com um gesto de mão silencio, tomou a palavra em inglez, exprimindo-se, com extrema correcção de linguagem, nos seguintes termos:

«Meus senhores, apesar do grande calor que faz, tomarei a liberdade de abusar dos vossos momentos para dar algumas explicações ácerca de projectos que, segundo parece, vos interessam.

«Não sou orador nem homem de sciencia, e não contava fallar em publico; disse-me porém o meu amigo Barbicane que isso vos seria agradavel, e tanto bastou para me decidir a esse sacrificio. Consequentemente, escutae-me com os vossos seiscentos mil ouvidos, e tende a bondade de desculpar os erros do auctor.»

Mereceu grande apreço aos circumstantes aquelle exordio sem ceremonia; um immenso murmurio de satisfação deu prova do contentamento da multidão.

«Meus senhores, proseguiu Ardan, todos e quaesquer signaes de approvação ou desapprovação são permittidos. Isto posto, começarei Em primeiro logar, não deveis esquecer que estaes tratando com um ignorante, e tão longe vae sua ignorancia, que até as difficuldades ignora. Pareceu-lhe portanto cousa simples, natural e facil tomar passagem dentro de um projectil, e partir para a Lua. Era viagem que mais tarde ou mais cedo se havia de vir a fazer, e pelo que diz respeito ao modo de locomoção adoptado, esse não era mais do que simples consequencia da lei do progresso. O homem começou por viajar com as mãos pelo chão, depois, um bello dia, só nos dois pés, depois n'uma carroça, depois em caleça, depois em carroção, depois em diligencia, depois em caminho de ferro; pois bem! o projectil é a viatura do futuro; que, a fallar a verdade, os planetas não são senão outros tantos projecteis, simples balas de canhão arremessadas pela mão do Creador.

[Figura: Os comboios de projecteis para a Lua (pag. 163).]

«Mas voltemos ao nosso vehiculo. Algum de vós, senhores, poderá ter pensado que a velocidade que tem de imprimir-se-lhe, é excessiva; pois não é assim; todos os astros têem superior rapidez, e a propria Terra, em seu movimento de translação em volta do Sol, nos leva comsigo com triplicada velocidade. Vou apresentar-vos alguns exemplos, e pedirei permissão para me exprimir contando por leguas, porque não estou muito familiarisado com as medidas americanas e tenho receio de me embarulhar nos calculos.»

[Figura: Ataque e replica (pag. 174).]

Ninguem oppoz difficuldades á concessão pedida, que pareceu perfeitamente rasoavel, e o orador continuou o discurso:

«Eis-aqui, senhores, a velocidade dos differentes planetas. Apesar da minha ignorancia, força é confessa-lo, conheço com muita exactidão estas miudezas astronomicas. Mas em menos de dois minutos estareis a esse respeito tão instruidos como eu. Sabei pois, que Neptuno anda cinco mil leguas por hora; Urano, sete mil; Saturno, oito mil oitocentas e cincoenta e oito; Jupiter, onze mil seiscentas e setenta e cinco; Marte, vinte e duas mil e onze; a Terra, vinte e sete mil e quinhentas; Venus, trinta e duas mil cento e noventa; Mercurio, cincoenta e duas mil quinhentas e vinte; certos cometas, um milhão e quatrocentas mil leguas no perihelio! Nós cá, verdadeiros passeiantes, gente de poucas posses, não havemos de ir alem de nove mil novecentas leguas de velocidade, e mais ha de esta ir sempre diminuindo. Perguntarei eu agora, se ha aqui motivo para pasmar, e se todas estas velocidades não hão de ser um dia excedidas por outras ainda maiores, de que provavelmente serão agentes mechanicos a luz ou a electricidade?»

Ninguem pareceu pôr em duvida a asserção de Miguel Ardan.

«Caros auditores, proseguiu este, se formos a dar credito a uns certos espiritos acanhados,--e é exactamente esta a qualificação que melhor lhes cabe--está a humanidade encerrada n'um circulo de Popilius, que alem do qual não póde dar passo, e condemnada a vegetar no globo terraqueo sem esperança sequer de poder abrir vôo para os espaços planetarios! Pois não é assim! Agora vamos á Lua, e ainda havemos de ir aos planetas, ainda havemos de ir ás estrellas, como se vae hoje de Liverpool a New-York, com facilidade, rapidez e segurança. Em breve serão atravessados o oceano atmospherico, bem como os oceanos da Lua! A distancia é apenas um termo de relação, e havemos de chegar a final a reduzi-la a zero.»

A assembléa, apesar de muito enlevada pelo heroe francez, ficou um tanto attonita com aquella theoria audaciosa. Miguel Ardan pareceu percebê-lo, e proseguiu com amavel sorriso:

«Parece-me que não estaes lá muito convencidos, estimaveis hospedes. Pois bem! Discutâmos um pouco. Sabeis quanto tempo seria necessario a um comboio expresso para chegar á Lua? Trezentos dias. Nada mais. O trajecto é de oitenta e seis mil quatrocentas e dez leguas, mas isso que é? Não chega a ser nove vezes um circuito em volta da Terra; não ha marinheiro ou viajante digno d'esse nome que não tenha andado mais do que isso no decurso da vida! Pensae pois, que eu não hei de gastar mais de noventa e sete horas no caminho! Ah! estaes imaginando que a Lua está a grande distancia da Terra, e que não seria mau reflectir antes de tentar a aventura! Que dirieis então se se tratasse de ir a Neptuno que gravita a um milhão cento e quarenta e sete mil leguas do Sol! Isso é que é viagem que poucos poderiam intentar, ainda que mais não custasse que a cinco soldos por kilometro! Nem o barão de Rothschild com os seus mil milhões tinha com que pagasse o logar; faltavam-lhe ainda cento e quarenta e sete milhões para não ficar no caminho!»

Esta maneira de argumentar pareceu ser muito do agrado da assembléa. Miguel Ardan, por sua parte, bem possuido como estava do assumpto, deixava-se arrastar ao sabor da argumentação com soberbo enthusiasmo; percebêra que era ouvido com avidez, e proseguiu portanto com admiravel confiança: «Pois bem, amigos, ainda esta distancia de Neptuno ao Sol não é nada, se a compararmos com a das estrellas; effectivamente para avaliar o afastamento de taes astros é necessario lançar mão de uma classe de numeros deslumbrantes, o menor dos quaes tem nove algarismos, tomar emfim por unidade o milhar de milhões. Peço-vos perdão de me mostrar tão sabido no assumpto, mas é por ser de um interesse palpitante. Ouvi e julgae. Alpha do Centauro está a oito billiões de leguas, Wega a cincoenta billiões, Sirius a cincoenta billiões, Arcturus a cincoenta e dois billiões, a Polar a cento e dezesete billiões de leguas, a Cabra a cento e setenta billiões, as outras estrellas a milhares de billiões e de trilliões de leguas! E ainda haverá quem falle na distancia que medeia entre o Sol e os planetas! E haverá ainda quem sustente que existe tal distancia! Erro, falsidade! aberração dos sentidos! Quereis saber o que eu penso ácerca d'esse mundo que começa no astro radiante e acaba em Neptuno? Quereis conhecer a minha theoria? É muito simples! Para mim o mundo solar é um corpo solido, homogeneo; os planetas que o formam, apertam-se, tocam-se, adherem, e o espaço que entre elles existe é como o espaço que medeia sempre entre as molleculas do mais compacto metal, seja prata, seja ferro, oiro ou platina! Julgo portanto ter direito para affirmar, e repito-o com convicção, que ha de communicar-se a vós todos: «A distancia é uma palavra vã, a distancia nem sequer existe!»

--Bem dito! Bravo! Hurrah! gritou _una voce_ a assembléa electrisada pelo gesto, pela accentuação do orador e pelo ousado das concepções.

--Não, exclamou J.-T. Maston ainda mais energicamente que os outros, a distancia não existe!»

E, arrastado pela violencia dos movimentos, pelo impulso do proprio corpo que mal podia dominar, ía caíndo do alto do estrado no chão. Conseguiu, todavia, retomar a posição de equilibrio, e livrar-se de uma quéda que lhe havia de provar brutalmente que a distancia não era palavra de todo vã. Em seguida proseguiu no seu discurso o attrahente orador.

«Amigos, disse Miguel Ardan, cuido que tal problema deve já agora ter-se como resolvido. Se não logrei convencer-vos a todos, foi de certo porque fui timido nas demonstrações, fraco na argumentação, e a culpa é da minha insufficiencia de estudos theoricos. Seja lá como for, repito, a distancia da Terra ao seu satellite é realmente pouco importante e indigna de preoccupar qualquer espirito grave. Creio que não será ir muito alem da verdade affirmar que em breve se hão de vir a estabelecer trens de projecteis, nos quaes poderá fazer-se com toda a commodidade a viagem da Terra á Lua. N'estes é que não haverá que receiar, nem choques, nem abalos, nem descarrilamentos, e chegar-se-ha ao termo da viagem, sem cansaço em linha recta, «a vôo de abelha», para fallar na linguagem dos caçadores cá da America. D'aqui a vinte annos, de certo já metade da Terra tem ido visitar a Lua!

«Hurrah! hurrah! por Miguel Ardan, clamaram os circumstantes ainda os menos convencidos.

--Hurrah por Barbicane!» respondeu modestamente o orador.

Aquelle acto de gratidão para com o promotor da empreza, foi recebido pelos espectadores com applausos unanimes.

«Agora, amigos, proseguiu Miguel Ardan, se alguem tem qualquer pergunta a fazer-me, por certo que embaraçará um pobre homem como eu, entretanto farei todos os esforços para responder.»

Até aquelle momento não tivera o presidente do Gun-Club senão motivos de satisfação pela direcção que a discussão tomava. Versando esta sobre theorias especulativas, Miguel Ardan, levado pela sua viva imaginação, mostrava-se extremamente brilhante. Por consequencia, o que a Barbicane parecia necessario, era pôr impedimento a que se desviasse para questões praticas, de que por certo Ardan se havia de saír menos airoso.

Barbicane apressou-se portanto a tomar a palavra, para perguntar ao amigo de recente data qual era o seu modo de ver em respeito a habitantes da Lua e dos planetas.

«É um grande problema esse que me propões para resolver, meu digno presidente, respondeu o orador sorrindo; todavia, se me não engano, homens de grande intelligencia, taes como Plutarco, Swedenborg, Bernardin de Saint-Pierre e muitos outros pronunciaram-se pela affirmativa. Olhando a questão pelo lado da philosophia natural, sou levado a pensar em harmonia com a opinião d'elles; a mim proprio digo que cousa alguma inutil existe no mundo, e respondendo á tua pergunta, com outra pergunta, affirmarei que se os mundos são habitaveis, é porque são habitados, porque o foram, ou porque ainda o hão de ser.

Muito bem! clamaram as primeiras linhas de espectadores, cuja opinião tinha força de lei para com as ultimas.

--Com mais logica e a proposito é que não ha responder, disse o presidente do Gun-Club. A minha pergunta transforma-se portanto na seguinte: «Serão porventura os mundos habitaveis?»

--Pela minha parte parece-me que o são.

E eu cá por mim, estou seguro d'isso, respondeu Miguel Ardan.

--Todavia, replicou um dos circumstantes, argumentos ha que vão de encontro á theoria da habitabilidade dos mundos. Para que estes podessem ser habitaveis, era evidentemente necessario, que na maior parte d'elles, fossem modificados os principios da vida. N'estes termos, e não me referindo já senão a planetas, n'uns d'elles seria o homem queimado e n'outros gelado, segundo a respectiva distancia solar.

--Sinto, respondeu Miguel Ardan, não conhecer pessoalmente o meu honrado contradictor. A objecção que apresenta tem seu valor, mas creio que póde ser combatida com bom exito, assim como todas as que se oppõe á habitabilidade dos mundos. Se eu fôra um physico, havia de dizer-lhe que, se ha menos calorico em movimento nos planetas proximos do sol, e pelo contrario mais, nos planetas mais afastados, esse mesmo phenomeno é bastante para equilibrar o calor e tornar a temperatura de todos os mundos supportavel para seres organisados como nós outros. Se fôra naturalista havia de repetir-lhe, depois de o terem dito muitos sabios illustres, que a natureza mesmo cá na Terra nos fornece exemplos de animaes que vivem em condições bem diversas de habitabilidade; que os peixes respiram n'um ambiente que é mortal para os outros animaes; que os amphibios têem uma existencia dupla bastante difficil de explicar; que ha certos habitantes dos mares que se mantem nas camadas de grande profundidade, onde aguentam, sem serem esmagados, pressões de cincoenta ou sessenta atmospheras; que ha diversos insectos aquaticos insensiveis á acção da temperatura, que se encontram tanto nas nascentes de agua a ferver como nos plainos gelados do oceano polar; e finalmente que é força reconhecer na natureza uma diversidade de meios de acção por vezes incomprehensivel, mas que nem por isso é menos real, e que chega até á omnipotencia. Se eu fôra chimico, havia de dizer-lhe que os aerolithos, corpos evidentemente formados fóra do mundo terrestre, tem revelado pela analyse vestigios indiscutiveis de carbonio, e que esta substancia só tem origem nos seres organisados, e que, em virtude das experiencias de Reichenbach, deve necessariamente ter estado «animalisada». Emfim, se fôra theologo, dir-lhe-ía que, segundo S. Paulo, parece que a redempção divina se applicára, não sómente á Terra, mas a todos os mundos celestes. Mas não sou theologo, nem chimico, nem naturalista, nem physico. E portanto, na minha perfeita ignorancia das grandes leis que regem o universo, limitar-me-hei a responder:

--Não sei se os mundos são ou não habitados, e por isso mesmo que não sei, vou lá ver!»

Se o adversario de Miguel se abalançou ou não a apresentar outros argumentos é que nós não podemos dizer, porque os gritos freneticos da multidão tornaram-se então capazes de impedir que qualquer opinião fosse sequer ouvida. Logoque se restabeleceu o silencio, ainda nos mais afastados grupos, o triumphante orador terminou, contentando-se em acrescentar as seguintes considerações: