Da Loucura e das Manias em Portugal

Part 6

Chapter 62,646 wordsPublic domain

Ha dias em que todas as cousas realmente parecem querer-nos mal, e em que as contrariedades veem em ranchos, em grupos, em series; desde o saltar da cama até ao deitar á noite como que se vae caindo de barranco em barranco; parece estar-se destinado como o Sybarita a que até a prega de uma folha de rosa nos sirva de incommodo para nos sentarmos. Não se póde trabalhar, nem pensar sequer. O correio, arauto do torneio da vida que todos de manhã esperam soffregos, ou não traz carta ou traz más novas;--sae-se para a rua sem haver escovado o fato;--as pessoas a quem se procura, em morando alto não estão em casa;--ao voltar da esquina está á porta da taberna um bebedo a comprar castanhas, e entorna por cima da gente o copo que tem na mão;--é n'esse dia quasi sempre que um homem se constipa, rompe a espirrar duas horas, e fica sem o botão do collarinho...

Em Portugal as classes cultas são tão dadas á superstição das series como o povo; em lhes succedendo um revez não descançam emquanto não chegam mais dois; tres é o numero.--Decorrem dias, semanas, mezes, sem haver incendio; mas, em tocando a fogo, dizem que é certo não parar n'aquelle, e os gallegos ficam logo de pé no ar para irem buscar outra vez a bomba.

É da indole da nossa terra dar vulto a estas manias, pelo amor que ha aqui a tudo que seja casos sombrios, dias nefastos, e cousas relamborias. É sabido! Precisamos absolutamente de tudo que for mofino e tetrico. Indifferentes, preguiçosos, desenchabidos, de tudo isto nos consolamos com tanto que venha de tempos a tempos alguma celebreira carregada e tristonha para nos entreter; de Garrett ou de Castilho é raro o que saiba um verso, mas qualquer será capaz de recitar entre a pera e o queijo o fado de João Brandão!

Ha sitios de que se gosta, sem sequer ás vezes saber porque; cada casa tem por assim dizer uma alma, e dá-se uma pessoa bem, mas muito bem, muito melhor que n'outras, n'uma certa; ha um recanto do jardim, que cheira mil vezes bem depois d'estes chuviscos do outomno, e onde a gente gosta de estar ao cair da tarde espreitando o ceu por entre a rama das arvores;--ha até simples objectos, coisitas de nada, que exercem attracção nos animos e nos dão gosto em os ver... Mas lá está, lá está no fundo a coisa má;--e esses objectos a que mais se quer serão os que hão de perder-se mais depressa,--e os sitios queridos, a casa, o quintal, a arvore, têem de ser os que a gente haja de deixar mais cedo contra vontade!

E o mesmo succede a tudo que tiver «coisa má;»--o amor, a formosura, a mocidade: tres coisas realmente boas; as tres coisas melhores que ha; e tambem as que mais depressa fogem,--que até têem azas como os anjos, e voam como as andorinhas!

Nas familias portuguezas o terror pela «coisa má» tem variado muito, e chegado por vezes a ser jocoso. Houve tempo em que mettia medo quem sabia fallar francez. Não se queria matar os meninos com estudos; o estudar fazia mal. Lembravam-se dos exemplos da antiguidade, e do fim desgraçado de homens notaveis,--Euripides despedaçado por uma matilha de cães, Cicero degolado, Socrates succumbindo ao veneno! Destinavam um a mercador, outro a cadete, o mais gordinho ia para padre. Em todo o caso--nada de fallar francez. Dizia-se de um rapaz:

--É um extravagante. Jogador, caloteiro. Bate no pae... Até me dizem que falla francez!

--Sério? perguntavam todos.

--Ha quem o ouvisse.

Depois, e já no meu tempo, inspirava igual panico usar chale-manta quando appareceram os primeiros em Lisboa.

--É um bregeiro, dizia-se. Não é limpo de mãos...

--Sim, sim.

--Deixa andar a mãe a pedir esmola...

--Sim senhor.

--Até anda de chale-manta!

--O quê?!

--Palavra de honra.

Se formos a observar, em quasi tudo conforme as épocas e as manias ha «coisa má»--e em tudo a «coisa má» póde ser evitada ou combatida. Já ouvi contar de um homem que para vencer os maleficios e armadilhas da sorte e por saber os perigos que resultam das cartas de amores--sempre que escrevia alguma punha-lhe a data do dia de entrudo, para que, se alguem de casa lh'a apanhasse, pudesse a obra passar por brincadeira. A mania de se julgar perseguido pela sorte é uma loucura como outra qualquer, muito frequente em Portugal e tanto mais perigosa que se manifesta por gradações insensiveis. Começa pela melancholia, vae azedando o genio, é-se mausinho e tyrannico, e vae-se indo a um estado de ferocidade que póde dar com um homem em doido furioso.

«Coisa má» é querer trabalhar e não ter em quê; querer amar e não ter a quem; querer remar e não ter braços. O _politicão_ que passa a vida a recusar pastas que não lhe offerecem--diz que o paiz tem «coisa má;» o beberrão que troca as pernas--accusa de ter «coisa má» o vinho de mais que bebeu.

«Coisa má» é a mulher que gosta de outro; e o dinheiro que a gente não tem!...

XIII

As mulheres de virtude

O meu amigo leitor conheceu já a felicidade? Por mim, conheço-a pouco, e de vista--apenas. Não poderia siquer dizer-lhes em que rua mora nem a que horas está em casa. Creio que sae a miudo, e não se sabe nunca quando recolhe. Lá uma vez na vida, encontra-a uma pessoa, vê-a dignar-se sorrir para si, e está-se quasi a tocar na mão em signal de estima; mas ella pede cem contos de réis á gente, e como uma pessoa não os traz comsigo... nem com outro--a marota da felicidade volta-lhe as costas e dá ás de Villa Diogo!

De outras vezes, diverte-se com a humanidade; reserva os seus favores para a quadra em que já não ha cabello, ou tira-nos a alegria e a saude na vespera de nos dar a riqueza, como succedeu lá ao

_Pero Pico que viveu pouco e pobre e finou rico!_

As bruxarias são destinadas aos que não querem perceber que a vida seja isto e porfiam em comprar a sorte a retalho, nas cartas e em philtros, ás _mulheres de virtude_. As _mulheres de virtude_ são as _chirogromanas_, as _chiromantes_, as _cartemantes_ de Portugal. As crendices populares dão-lhes grande fama e muita da nossa gente e da melhor as vae consultar a occultas. Especuladoras lepidas, vendem elixires para attrair o amor e artificios para encantar; e sabem das cartas tudo que vae pelo mundo.

Ainda não ha dois mezes, contavam os jornaes de Lisboa a prisão de duas _mulheres de virtude_, mãe e filha, apanhadas na occasião em que saiam de uma casa na rua dos Correeiros, onde tinham ido exercer as ladras funcções da sua industria. Deitavam cartas, e revolviam as casas onde entravam. Haviam roubado quatrocentos e tantos mil réis, além de roupas a titulo de serem lavadas em agua benta. Vendiam frasquinhos com liquidos especiaes para conservar o amor, e ensinavam ás mulheres casadas que déssem d'isso aos maridos na comida para elles nunca se enfastiarem d'ellas. Benziam a casa com um ramo de alecrim molhado n'um cosimento de mostarda, saramago e alho. Quando as prendeu o policia, esse Antunes muito citado nos jornaes, as benzedeiras enfurecidas ameaçaram-o de lhe salgarem a porta á meia noite de sexta feira em que fosse lua nova.

As senhoras portuguezas em geral são dadas a superstições; vivem condemnadas pela educação e pelos costumes do paiz á inacção, captivas no lar domestico, creadas na solidão--mais profunda sempre que a do homem, que se distrae alguma vez nos negocios e vae-vens da vida. Depois, e isto em qualquer paiz, a faculdade mais desenvolvida nas mulheres não costuma ser a logica; em desejando uma coisa, já lhes parece justa; em a receando, já se lhes figura provavel:--acreditam todas na fatalidade--e a fatalidade é a mãe da bruxaria.

Por isso vão ás vezes, ás escondidas, lá a um beco escuro e immundo que lhes ensinou não se sabe quem, uma criada quasi sempre, trepar por uma escada que range e verga, bater a uma porta carunchosa e perguntar pela senhora fulana, a senhora dona fulana de mais a mais, um diabo de velha com bigodes, ou uma grande verruga no queixo, que traz para ali um pires com agua e a lamparina da noite com azeite, resa um credo em cruz em cima do pires que tem agua, e molha no azeite o dedo minimo da pessoa, dizendo tres vezes o nome d'ella e resando:

_Deus te fez, Deus te creou, Deus te desolhe De quem mal te olhou. Se é torto ou excommungado, Deus te desolhe do seu mal olhado._

Depois, sempre em bichancros e tregeitos, olhando para a cliente,--fregueza, victima,--assustando-a com a vista, com os modos, vão resmungando de fórma que mal se perceba--«Sant'Anna teve a Virgem, a Virgem teve Jesus: assim como isto é verdade, Deus te desolhe do teu mal olhado!» Se o pingo do azeite fôr ao fundo, tem olhado; como não vae, não tem--e cumpre averiguar as coisas, deitar uma sorte, vencer obstaculos, descobrir de onde vem o mal e acabar com elle;--quer dizer que cumpre principiar a mugir o caso e a roubar dinheiro á consultante. Precisam um dia de uma coisa, no outro dia de outra. Hoje um lençol, ámanhã um annel de ouro, depois um córte de seda preta para fazer um vestido e ir offerecer á egreja uma promessa...--Sei tudo isto por uma mulher que esteve como criada em casa de uma d'ellas.

Entremeiam aquellas exigencias com pedidos faceis, um lenço de assoar, vellas de cêra, e--como diz o povo--_para compôr_, um pouco de cabello. O cabello é o ponto romantico da gerigonsa. O cabello dá amor, lembrança, consolação; o cabello dá força, o cabello ampara e vivifica. Havia um homem em Alcantara que morreu velhissimo, que levava sempre o amor conjugal a limites extremos--o que não o impediu de casar por duas vezes. Tinha o vicio das mulheres de virtude, e ellas aconselharam-lhe por tal fórma o ter cabello da pessoa amada que o homem resolveu--para conservar sempre fresca e amorosa a lembrança das duas mulheres que haviam feito a felicidade da sua existencia--aproveitar as tranças de cabellos que lhes tinha cortado piedosa e successivamente quando tivera a desgraça de as perder, e mandar fazer daquillo um chinó. Cobria o topete com o cabello de ambas. Os cabellos não eram bem da mesma côr--mas isso não fazia nada ao caso e o ponto era não o abandonarem nunca, por aquella maneira, nem uma nem a outra. Era um chinó de virtude!...

Diz-se que as bruxas teem um signal no olho esquerdo,--mas que só dá por isso quem fôr muito experiente. Ha uma resa para as apanhar, e só podem soltar-se quando o que as prendeu desdisser a oração. Saem de noite correndo e saltando invisiveis por cima de arvores, sebes, e vallados, logo que digam a sua prece de segredo, que acaba por estas palavras: «Vôa, vôa, por cima de toda a folha!» O marido de uma, que não sabia que a mulher era bruxa, notou que ella desapparecia alta noite, espreitou-a de uma vez, viu-a esfregar-se com umas ervas, ouviu-lhe a resa, e teve occasião de observar com que rapidez ella cortou logo o espaço por ares e ventos. Foi-se ás ervas, esfregou-se tambem, e começou de dizer a oração; mas enganou-se n'uma palavra, e em vez de «por cima de toda a folha!» disse:--«Vôa, vôa, por baixo de toda a folha!» Sentiu-se levado por força occulta, foi correndo tambem, correndo, mas a rasgar-se, por baixo das arvores e por baixo dos silvados...

Contou-me este caso um rapaz de Goes, que o affiança tanto ou mais que a si proprio; affirmou-me elle que em uma pessoa sonhando que as bruxas lhe estão chupando o sangue--accorda de nodoas no corpo; e assegurou-me que a boa bruxa é a de nascença, e não a que aprende.

Ora as _mulheres de virtude_ são bruxas que aprendem. Vae aquella arte de mãe para filha. D'isso vivem, d'isso comem e bebem, d'isso compram ás vezes papeis de credito. Não teem só virtude, teem talento, teem saber: até se lhes chama _sabias_. A humanidade tem-se gosado sempre de possuir seres privilegiados para a instruirem, quer queira, quer não; a sibylla de Gumas, Orpheo, Apolonio; sem fallarmos no Lavater que lia na cara do sujeito, ou no Gall, capaz de cortar o cabello á escovinha ao genero humano para lhe apalpar melhor as bossas. De tudo isto a _mulher de virtude_ é o que tem havido melhor!

Em ellas estendendo as cartas, parece que se abre a terra. Dilata-se-lhes a palpebra, despedem dois raios de fogo de queimar tudo, dão á cabeça, batem o pé no chão, guincham, resam, praguejam, misturam nomes de santos e nomes de bichos, benzem-se, maldizem-se, riem e choram... A pessoa que as consulta, senhora quasi sempre, estremece com aquelle olhar de fascinação, com aquellas palavras de sortilegio... Os bonecos das cartas apertam-na, angustiam-na como se fossem animados; ou então, ao envez, parece zombarem do que se passa e é como se a dama piscasse o olho, o rei deitasse a lingua de fóra, o az de espadas tivesse olhos, nariz e bôca. A bruxa, fumegante de suor, ora tem como que arrepios na espinha, ora tem extasis; anima-se, geme, grita de contente, hurra, arrepela-se, esperneia á proporção que saem as cartas... E como se o espirito da verdade fallando pela boca d'ella estivesse a patentear o quadro das vicissitudes da vida intima, apalpando o presente, avistando o futuro... O valete de ouros é o _amante_, o cinco de copas são _lagrimas_, o az de paus _fandangos_ (amores), sete d'espadas _desgosto formal_, az de ouros _prenda_, tres de copas _com certeza_, dois de paus _a caminho_, quatro de paus _prisão_, e a espadilha _affirma_!

É um horror. Não é uma tolice, não é um disparate, não é uma estupidez--é um horror. E a desgraça de familias, a guerra na vida de casados, o mal estar permanente, a calumnia, o roubo, a infamia. Um horror!

Vae esta gente procurar torturas áquellas casas que vendem a inquietação, a angustia, as noites raladas de ciume, de despeito e de odio; casas sinistras em que se respira a fatalidade em tudo--na mobilia que se compõe de uma bilha quebrada e de uma cadeira côxa, nas rodilhas que supprem os vidros das janellas, nas paredes a cair, no fogareiro ao meio da casa com uns carvõesitos quasi afogados na cinza, no galo grande que canta como o diabo, no pucaro com bagos de café e clara d'ovo, no sacco dos bruxedos com pedra d'era e coke, na cruz de alecrim, no espelho, na thesoura, aberta em cruz em cima do sal, no palavrorio de resa que precede o _botar a falla_: --Credo--cruzes--canhoto--temos bruxaria--saramago--mostarda--alho e arruda--maravalhas e palhas de alhos!

Tudo isto faria rir se não fosse funesto, e não tivesse tanta influencia na gente portugueza, dada a melancholias sem razão, melancholias do acaso, saboreando tudo que é chocho e amargo. Fizeram-nos falta os conventos, casas por excellencia para a indole sombria que temos. Todas essas allucinações de que lhes tenho fallado, _telha_, _enguiços_, _encantos_, _agouros_, _feitiços_, _sonhos_, _sinas_, _coisa má_, provêem da falta de educação. Ou se tem fé em Deus, ou nas _mulheres de virtude_. Quem duvida está ás escuras; o principio de ver é crer; crer no renascer das folhas; na volta da quadra florida; crer que a dor não é sempre esteril, que ha affectos fieis, amores que duram, feridas que saram. A fé não é bem o dia, mas é o fim da noite; é a luz a chegar-se á alma. Toda a nossa mania e o nosso mal é não termos fé senão em duas coisas,--em enguiços e em economias! O mesmo _deficit_ de que tanto por ahi se falla, é um enguiço publico, enguiço official! Assim somos. Enguiços e economias! Tristes e pobres;--duas vezes tristes!

FIM

INDICE DOS CAPITULOS

PAG. I--Os doidos................... 5 II--As doidas................... 23 III--Os idiotas.................. 41 IV--Os furiosos................. 59 V--Telha....................... 77 VI--Enguiços.................... 97 VII--Agouros..................... 117 VIII--Feitiços.................... 135 IX--Encantos.................... 155 X--Sonhos...................... 175 XI--Sinas....................... 193 XII--Coisa má.................... 213 XIII--As mulheres de virtude...... 231