Da Loucura e das Manias em Portugal

Part 5

Chapter 54,155 wordsPublic domain

Porque será que se sonha?! Chega a parecer que a alma não está nas pessoas: que está de fora, e é uma espécie de fio electrico que nos traz suspensos da mão de Deus para nos dizer o que elle quer; que uns cedem com mais facilidade, outros com menos á direcção que lhes é dada,--obedecer é ser virtuoso, e ser criminoso é não querer ir para onde o pucham. Quando a gente dorme, será porque Deus em vez de segurar o fio o deixe bambo:--qualquer brisa do ceu n'essa occasião faz fluctuar e emmaranhar-se toda esta meiáda de fios que prende as creaturas, e acerta ás vezes de encontrar a nossa a alma de quem não conhecemos, trazendo-nos idéas e imagens que não têem parentesco com as imagens e as idéas do costume, extravagancias que só se dão nos sonhos, e que fazem que a gente como que esteja a ver pelo pensamento alheio!

Dizem que os successos do dia preparam os sonhos da noite.--Que a ultima coisa em que se pensa, é a primeira com que se vae sonhar.--Outros affirmam que em se querendo escolher o sonho é justamente quando elle não vem, e certo está em o evitando;--principios um pouco alheios aos do Evangelho, e que parecem querer dizer: Não procures e encontrarás; não batas e abrir-te-hão!

A maneira de dormir deve ter n'isto influencia. Cama desengonçada e velha, que verga e range, ameaçando queda; a porta do quarto cheia de fendas; por cima da cabeça da gente os ratos a passear no sotão, saltando, roendo; depois, o dormir de boca aberta, com a lingua de fóra, de bruços... Como ha de ter sonhos felizes e côr de rosa um estafermo n'essas condições?

As crendices populares de Portugal são geralmente bonitas, e parece sentir-se n'ellas que vieram até nós do genio poetico dos arabes; as dos sonhos porém são quasi todas chapados disparates no genero d'isto: Tres luzes na alcova fazem sonhar com morte ou com casamento.--E crê-se entre nós firmemente em sonhos, e todos os dias se ouve alguem attribuir-lhes a fortuna:--os que costumam ser desgraçados, já se vê, que os felizes não tenham medo que a attribuam nunca senão aos seus merecimentos!--E baralham tudo, o que sonham e o que scismam despertos; e adoecem das noites que passam, agitadas, febris; e queixam-se ora de visões, ora de insomnias:--e ás vezes, vae a ver-se, e o seu mal é ter pulgas no quarto!

Mas contam, commentam, improvisam, e dão parte á visinhança das apparições que tiveram, larvas, espectros, chimeras; e comparam, e apreciam, e consultam-se gravemente de janella para janella de saguão para saguão,--com mais cautela sempre em esconderem o juizo do que a loucura!

É a fraqueza de temperamento; a necessidade de sentir-se escravo, que nos faz ser um povo bisonho, a scismar não se sabe em quê, mal humorado, merencorio e fusco, _gatos pingados_ por natureza! Os que não teem desgostos, engendram-os. Imitamos tudo, menos a alegria dos povos livres. A falta de tormentos,--os sonhos. Em não havendo causas grandes, as pequenas nos bastam para dar cuidados; quem não tropeça n'um tronco de arvore, escorrega n'uma casca de laranja,--e vae de ventas ao chão do mesmo modo.

--Não sabe, visinha? Esta noite sonhei com cominhos!

--Ai! Com cominhos!

--São pragas! É praga que me rogaram.

--Credo! É facil ser!

E dá-se credito.

Se alguem lhes affiançar que sabe metter um ferro em brasa n'um barril de polvora sem pegar fogo--estou que não acreditam ao ponto de se deixarem ficar para assistir ao caso,--mas que sonhar com uma concha seja signal de _perder o credito_, com um copo de agua de _prompto matrimonio_, com damascos de _grande alegria_, com guitarra _prazeres dispendiosos_, e com papagaio _descoberta de um segredo_, quem se atreverá a pôl-o em duvida?!

Em Portugal o povo até tem resas para os sonhos,--por tal fórma os males imaginarios se tornam reaes em se pensando muito n'elles--como succedeu ao outro que cuidava ver uma cabeça na bandeira da porta, e foi pintal-a... para a ver melhor. Conhecem a oração a Santa Helena? Vou dal-a tal qual a ouvi: curiosa, original, excentrica; metade em verso e metade em prosa; conforme m'a disseram, que não me custou pouco a conseguil-o:

«Gloriosa Santa Helena Filha da rainha Irena Moira foste, christã vos tornaste. Nas ondas do mar andaste, Com as onze mil virgens vos encontraste. Com ellas pão e queijo ceaste. Ao crucifixo vos encostaste Tres cravos que tinha lhe tiraste.

O primeiro atiraste com elle ao mar, para o consagrar; o segundo déste-o ao vosso irmão Constantino em Roma para com elle vencer a batalha da fé: o terceiro no vosso peito o depositaste. Minha gloriosa Santa Helena, pelo cravo que tendes no vosso peito declarae em sonhos o que pretendo saber. Se é como desejo, dizei-o em roupas lavadas, em aguas crystalinas, em campos verdejantes:--se assim não é, tudo venha ao contrario, e dizei-o em roupas sujas, casas negras e aguas turvas, _Amen_.»

Os somnambulos são a maravilha por excellencia, a _rara avis_ dos dormentes. A dormir fallam, a dormir vão de uma casa para a outra pelo seu pé. Muita gente tem medo d'elles;--principalmente desde o caso de Cupertino... Cupertino casou com uma menina de quem a familia lhe disse em segredo que era somnambula. O homem ficou um pouco espantado de ter mulher que passeiasse á noite pelos telhados; e quando, poucas noites depois das bodas, a viu levantar-se da cama e ir direita á cosinha--foi atraz d'ella. Cupertino não tinha criada: e vinha o gallego pela manhã lavar a loiça;--estavam em cima da mesa uns poucos de pratos; a esposa limpou-os todos, depois engraixou as botas do marido, e foi deitar-se outra vez. Cupertino no outro dia não lhe disse nada do que se passara durante a noite; unicamente, para fazer economias, despediu o gallego.

--Isto não a cança, dizia entre si. Trabalha a dormir!

Principiou depois a fazer experiencias, e a fallar-lhe durante o somno, interrogando-a a respeito do tempo, das coisas da casa, dos acontecimentos politicos do paiz; e era um instante em quanto caía o veu a todas as intenções, conferencias, e mysterios. Cupertino não cabia em si de contente. De uma occasião dirigiu-lhe com voz tremula a seguinte pergunta:

--Ó menina, em que numero sae d'esta vez a sorte grande?

Ella disse-lhe um numero. No dia seguinte--comprou o bilhete e sairam-lhe oito contos. Ganhava o que queria; não tinha mais do que perguntar-lhe qualquer coisa pela noite adiante; estava feliz.

De repente, porém, appareceu carrancudo, turbido, umbroso.... Constara-lhe que a mulher andava, como se lá diz, de cabeça no ar. Á noite perguntou-lhe--quando ella estava a dormir, já se vê:

--É verdade que tu andas de cabeça no ar?

--Ando.

--Por causa de quem?

--Do primo José Maria.

--É possivel! E porque é isso?

--Porque elle é bonito, e tu és feio.

Cupertino metteu-a n'um convento, com horror ao somnambulismo.

A grande preoccupação popular são os pesadelos,--sonhos negros, carregados de angustias, de lagrimas, de gritos, que veem da desgraça que causámos.---«Não é um sonho, Elvira, são remorsos!» como se diz na _Nova Castro_. Visões atterradoras, casos fataes, carreira torta, lances mysteriosos, creanças que morreram sem baptismo... Até se diz que os primeiros momentos da morte são ainda apenas dormir, e que se sonha. Os chronistas referem o caso de se haver D. Pedro I levantado depois de morto, para confessar um peccado que não tinha dito.

Acordada, sonha a gente ás vezes; e é bem bom. A musica, por exemplo, faz sonhar; evoca á roda de nós um mundo ideal, por onde andam os sonhos a dar voltas, levantando-se os affectos que estavam caidos, reanimando-se as lembranças que o tempo apagára, cicatrisando feridas com os sons, e acalentando-nos n'um dormir melodioso em que se está a ver o que se ouve, n'um nevoeiro de sonhos em que parece ouvir-se o que se vê!

Em todo o caso ser feliz a sonhar ainda é ser feliz--quando não se possa sel-o de outra fórma. Sempre são horas de ganho sobre os enfados e cruezas da vida. A sonhar se espera, a sonhar se ama, a sonhar se alcança. Só tem o contra de que o sonho não dure. No adro da egreja da Graça havia uma sepultura, que os frades depois levaram para os claustros, que dizia assim: «Aqui jaz Manuelinho, mercador, de 15 annos, que morreu espertando.»--É o perigo de acordar. Acorda-se do sonho--e ás vezes da felicidade!

XI

Sinas

Portugal é a terra das sinas,--historias quentes e coloridas como o paiz; contos que nas noites de inverno entretem as creanças pequenas... e as grandes, ao pé do amigo lar.

Quem nascer nos fins de janeiro será sujeito a paixões amorosas (como os gatos): de 13 de fevereiro a 20 de março, nascem os que hão de ser gastronomos:--de 21 de março a 19 de abril, os engenhosos e prudentes, com signal visivel no corpo e ameaçados pela ferocidade de algum animal:--de 20 de abril a 20 de maio, o que ha de casar rico, dar uma grande queda (talvez essa!) e ser careca:--de 21 de maio a 22 de junho, os de sentimentos humanitarios:--de 23 de junho a 22 de julho, gente destinada a demandas, e a viver até os 73 annos;--de 23 de julho até 25 de agosto, os bonitos que hão de casar com mulher que soffra de esterico, ter no decurso da vida perigo grande de golpe de ferro ou aguas do mar, felizes nos negocios, achando algum thesouro escondido (o do Lavradio, por exemplo!):--de 24 de agosto a 21 de setembro, os que hão de exercer cargos do governo (entre nós toda a gente!); as senhoras ficarão solteiras, apesar de grande numero de namoros, e hão de gostar muito de côres espantadas:--de 24 de agosto a 21 de setembro, homens castos (oh!), mulheres activas; cabellos ruivos:--de 22 de setembro a 23 de outubro, ventura no que se emprehende, honradez, passar melhor em terras estranhas do que na patria; mulheres elegantes com uma queimadura n'um dos pés:--de 24 de outubro a 22 de novembro, teimosos, inclinados á astrologia; mulheres robustas, de beiços grossos e dentes grandes;--de 23 de novembro a 21 de dezembro, caracter vergonhoso, afavel, dado á navegação; mulheres com falta de cabello;--de 22 de dezembro a 20 de janeiro, genio iracundo, mentiroso, vão; costume de fallar só; pouco saudaveis; mulheres tafulas, que hão de ser mordidas por algum bicho, brancas, de olhos castanhos, gostando de bailes, tendo muitos namoros, quasi todos militares.

Taes são as sinas, e muito mais ainda; centos de coisas;--tudo. Apparecem, por via de regra, em a gente as procurando: vêem do que nos succeder depois de nascer... ou antes. A mão o dirá. Na mão ha muito. A mão diz tudo. Tudo se encontra e reconhece n'ella,--e já se vê que é d'ahi que provém dizer-se ás vezes:

--Disponha de mim, até onde estiver na minha mão!

Ou:

Peço-lhe isto, por ser coisa que está na sua mão!

Procurêmos por exemplo os peccados mortaes:

Soberba, dedos compridos, seccos, aguçados;--avareza, mão dura e encarquilhada;--luxuria, mãos curtas, gordas, lisas, moles, dedos largos na base;--ira, mão esverdeada e aspera, de unha curta;--inveja, mãos compridas e ossudas;--preguiça, mão branda e macia:

Ter bem claro o M da palma da mão é signal de existencia quieta; as linhas confusas e emmaranhadas indicam vida agitada e tortuosa. A mão direita para isto é melhor do que a esquerda, dizem os peritos; se é que isto não é mais uma velhacada das muitas da mão direita, que anda sempre a chamar as attenções e a armar intrigas para pôr na sombra a irmã, que logo pelo nome principia a perder, coitada, a pobre mão _esquerda_!

A mania de explicar a sorte pela influencia dos signos, essa podia ter poesia se fosse dita e sentida de outra fórma. Comprehende-se que quem estiver cançado do mundo se refugie nos ceus, com as inquietações que o devoram, a querer ler no firmamento. O astro de Saturno por exemplo tem o que quer que seja de curioso na aureola que o cerca sem lhe tocar, diadema que não se lhe segura na fronte; ha n'isso alguma coisa parecida com a esperança, nimbo de luz que brilha no escuro das magoas, corôa e prisma que nos resplende por cima da cabeça e afasta os raios em vez de os attrair. Os astronomos dizem que aquelle annel não passa de ser mais um satelite--e a esperança é um dos nossos tambem, nuvem de guarda que nos vae consolando com as visões...

A sina é o invencivel, o que está marcado, o que não póde deixar de cumprir-se,--apesar, dizem, de todo o empenho em lhe fugir. Porque se gosta tanto ás vezes de certas mulheres que não são formosas? Porque motivo se deixam em paz as completamente e perfeitamente bonitas, para ir ter paixões devastadoras por uma creatura a quem se reconhecem os defeitos, a quem em certa maneira chega a odiar-se dentro do amor que se lhe tem?!

É a sina, e em tudo é o mesmo: não têem visto ramitos novos a brincarem no tronco centenario dos chorões, e a era a abraçar-se aos muros negros e rachados? Não dizem que as abelhas do Oriente gostam de ir fazer o mel nas ossadas dos animaes mortos? Não se vê os passaros armarem o ninho no colmo das choupanas desertas? É a sina da naturesa material, que tem sina tambem como a natureza intelligente!

Uma formosa que o mundo admira, que se preoccupa de ser bella e de continuar a sel-o, horrorisa-se com a idéa de ter bexigas. A sabedoria das nações diz-lhe que é bom dar duas vezes o braço á lanceta, por mais bonito que o braço seja; que não basta a vaccina da infancia; que é util entregar-se, termo medio, de sete em sete annos áquella operação. Ella consente, e vaccina-se. Espera oito dias como a irmã Anna--sem ver apparecer nada: a vaccina não pegou; tentativa abortada; ahi tem de voltar á obra porque adiante de tudo está a formosura. Segunda representação de vaccina:--trinta segundos; depois, já se vê, da meia hora de preliminares: a paciencia é um facto; ha uma dôrsinha, ha tres borbulhinhas vermelhas, sobresaindo na alvura da pelle immaculada, ha febre, ha tudo: d'esta vez pegou; está segura a formosura. D'alli a dois annos tem bexigas. Diz o povo:

--Era a sua sina!

As trovas dizem-a ás vezes; concertos na eira á desgarrada, cantigas do fado á guitarra; e no mar principalmente, onde os descantes são quasi sempre fatidicos; lá se diz na _Chronica de D. Sebastião_ por Fr. Bernardo da Cruz que na expedição de Africa um tal musico chamado Madeira foi pelo mar cantando á viola a el-rei um romance que dizia: «Hontem eras rei e hoje nem casa tens», trova em que vinha saindo a sina, e que fez tal impressão nos animos que logo se lhe disse que mudasse para outra mais alegre.

Ninguem lhe escapa; dizem que não ha fugir-lhe--nem pessoa nem bicho, porque até os animaes teem a sua sorte escripta:--a sina do porco, por exemplo, é ser comido! Ser comido, haja o que houver; não serve para mais nada; o boi é para a lavoura, o cavallo para a guerra, as aves para o ar: o porco é para a pucilga; as aves são poeticas, o boi é laborioso, o cavallo é nobre, o porco é feio, immundo, e sem prestimo se não para o espeto e para a salga. Ser comido, ser comido; é a sina d'elle!

Que se torça o caminho, que se evite o atalho, que se fuja á estrada, não ha outra saida, dizem, senão ir cada um para a sua sorte. Póde zombar, póde não crer;--a sua sina lá está, ironica ás vezes, maliciosa, cassoista. Um moço elegante e pallido que durante um tempo foi grandemente amado como se lá diz á direita e á esquerda, fez um dia a côrte a uma senhora casada. O marido tinha as maiores mãos de que ha memoria; grandes, gordas, inchadas, vermelhas;--o mancebo detestava as mãos d'elle, e queixava-se sempre de que a sorte houvesse consentido que tão peregrina creaturinha pertencesse a um lapuz com taes mãos. A poder de esforços conseguiu de uma occasião que ella o deixasse ir fallar-lhe tres minutos, tres minutinhos. Estava elle no corredor protestando sua respeitosa adoração, quando se ouviu bater á porta. O susto traz complicações medonhas, e a senhora por não saber o que fizesse--deixou-o esconder debaixo de um sophá! Entrou o nosso homem das mãos grandes, conversou, pegou n'um jornal, estirou-se no sophá, e poz-se a ler. O outro, contrafeito, esticado n'um collete comprido e n'uma calça justa á perna, precisou no fim de tempo mudar de attitude, e fez alguma bulha. O das mãos grandes, sempre lendo, disse:

--Que é isto? É o cão que está ahi debaixo? Anda cá, _tó_, _tó_, anda cá tollo...

E deitou o braço de fora deixando pender a mão, a mão enorme, vermelha...

O outro lembrou-se que qualquer suspeita n'aquellas alturas podia perdel-o; e de mansinho, de mansinho, lambeu-lhe a mão; aquella mão phenomenal de que elle tanto se rira sempre!...

Ainda se a sina fosse sempre brincalhona! Mas é cruel, mas é fatal, ás vezes. Abre feridas que nem fecham, nem saram. Quando na primavera da vida o amor surprehende um homem e o prega na parede como se fôra uma borboleta, está feita a sina. A liberdade chegue quando chegar, virá sempre tarde. Os poetas podem ver n'elle Prometheo no Caucaso; mas é isto, simplesmente isto--uma borboleta pregada, a querer fugir, a querer dar ás azas sem poder--porque, de cada vez que as quer librar, alarga ainda mais a ferida e não lhe serve de nada!

A sina annuncia-se tambem no canto de certas aves, que atiram aos ares a _buena-dicha_. Os rapazes do campo quando andam de povo em povo a assistir ás festas do logar e á feira na intenção de verem as moças e escolherem noiva se as do seu sitio lhes não agradam, mudam de idéa e de rumo se acaso ouvem pelo caminho o canto melancholico d'aquelle mensageiro da primavera que annuncia as folhas--e dizem que annuncia tambem outras coisas,--canto um pouco extravagante, canto de duas notas, o canto do cuco!

A sina vae de geração em geração. De Aben-Afan diz Garrett no poema de _D. Branca_:

Por onde o traz seu fado? Oh! negra sina entrou n'essa familia...

Querem dizer que todos vêem ao mundo destinados já para o que hão de ser; por este systema, a vontade, o juizo, e a educação, não têem força alguma; nascem uns para padres, outros para sachristães, estes para ricos, aquelles para pobres; até se diz que muitos nascem para ladrões, e que não podem deixar de o ser: ia á casa de pasto do antigo Simão um freguez, que a unica coisa que não furtava era a má fama que tinha. Levava as colheres, os guardanapos, tudo o que podia apanhar. O Simão tinha muito dó d'elle, por entender que não fazia com aquillo senão obedecer á sua sina; deu ordem para não se lhe dizer nada, e de uma vez quando o homem pediu a conta teve o gosto de ler:--«Pratos 800 réis.»

--Que é isto! exclamou. Então vocês mettem os pratos na conta?

--Cuidei que o senhor os levava! disse-lhe o criado.

A sina é o que a gente a faz ser. A inteireza e o trabalho, que são os cimentos do commercio da vida, dão resultado certo. Até o tempo faz sempre justiça, e apesar de destruir, por maiores que sejam, os monumentos, apesar de arrasar thronos e imperios, respeita certos nomes e conserva-os levantados como pharoes no horisonte da historia e do pensamento. A felicidade não póde estar senão em se ser gente de bem. Tirar a Deus a tutela do mundo para a ir dar a um poder meio fadista a que se chame _sina_, parece-me uma impiedade e uma tolice!

XII

Coisa má

«Coisa má!»

«Coisa má» se lhe chama; e por peior que seja sempre ha de ser preferivel á ruindade humana;--que mais vale dar uma topada ou uma canellada do que encontrar certas caras!

«Coisa má» é a lua de março; a lua marcina, como lhe chamam no campo--que nem deixa saber se haverá trigo ou milho emquanto ella não passar; coisa má é a terra esquentadiça e delgada, a terra que aperta e não produz, defronte mesmo de chão fresco, chão de barro, ao pé de varzea; coisa má é o lameiro virgem; a espada que matasse homem, ou que passasse tres vezes o Douro e o Minho; o lenço de assoar que nos deram sem que recebessem cinco réis em troca...

Salta nos atomos a ironia, as moleculas andam a rir-se; são laços, armadilhas, ratoeiras, os corpos mortos que nos rodeiam; parece que não ha objecto que não tenha morador, que não tenha inquilino, que não tenha «coisa má» em si; espiritos malignos que espreitam pelos poros com o seu olhinho gasio, fazem caretinhas á alegria em que uma pessoa esteja e rompem em risota perante as maguas que nos pesam... Demonios hostis, pequerruxinhos, invisiveis, que estão sempre á caça de nos pregar peça...

Anda, ás vezes, mezes a fio «coisa má» com a gente--que nem que fosse um cão escondido de que só se aviste a baba e a mordedela... Em se pondo chapeu novo, é sabido que ha de chover.--Fato que se vista pela primeira vez, não deita ao sol posto sem lhe succeder precalço; anda um homem com calafrios na golla, e acrescimos nas abas, passam pressentimentos nas pernas, e apertam-se as fivellas com susto do que se está passando...

Ah! rico palletot velho, chapeu companheiro das noites de inverno, capote das rapaziadas e das aventuras,--que de extensas marchas na estrada da vida! Esses trastinhos é que são amigos, esses é que nos sabem do feitio, e que se ageitam bem ao corpo.

Que differença com o fato novo, que se trata como a Santo Antoninho onde te porei! Se na cidade toda não houver mais do que uma porta pintada de fresco, lá ha de vir caso urgente que leve uma pessoa a ir por ali roçar-se e arranjar divisas na manga como um sargento; ou um diabrete de algum preguito que tenha estado annos n'aquella umbreira sem fazer mal a ninguem, até que nos apanhe com um farpão formidavel!

Ha coisas que se perdem sempre; outras que sempre esquecem: a chave do trinco, por exemplo. Que de noites fica o sujeito durante horas batendo á porta, na esperança de que o visinho se compadeça d'elle,--ou, o que ainda é peor, que de noites tem o homem de ir dormir fóra de casa por não ter comsigo a chave do trinco! Noites de aventura forçada, noites sem graça e sem gosto, quasi sempre a chover, e o pobre diabo a vagabundar e a ir bater quem sabe onde!?

Que, diga-se a verdade e não deitemos toda a carga ao lombo da chave do trinco--não é só ella que tem coisa má, são todas as chaves. Em sendo preciso abrir porta, caixa, armario, ou malla, ahi se somem ellas, e toca a procurar d'aqui, a buscar d'acolá, e vae e gira e anda e volta, até que vão achar-se muito bem fechadas n'uma gaveta!

Em antigas relações de autos da fé e sentenças da Inquisição ha mil historias de «coisa má,»--poços que atiram para fóra com o que se lhes deita; hervas de maleficio que se mettem de proposito debaixo dos pés da gente, pedregulhos em que mora ferrabraz, satanaz, caiphaz...

Ás vezes é o mau olhado. Está a «coisa má» nos olhos, no feitio, na luz e influencia d'elles; e a gente deixa-se levar de apprehensões, de inquietações, a recear de tudo, e a querer saber, a querer explicar... Por isso faziam bem os egypcios,--nunca houve povo com mais juizo!--que cortavam as curiosidades e as manias com a religião, e fizeram da noite origem de tudo quanto ha, mundo, estrellas, soes, divindades. Noite. Armar em dogma e em artigo da fé a escuridão que envolve as coisas, e adoral-a por não saber que explicação lhe dar.

Que ás vezes succede que a «coisa má» possa parecer boa. Ahi está que havendo em Portugal superstição para com os tortos, já um poeta dos principios do seculo passado, mascarado com um pseudonimo, os cantou no poema da _Monocléa_; poema destinado ao louvor dos cegos, vesgos e zanagas, e em que se diz de Camões como quem dá de vez com o segredo da sua gloria:

De um olho claudicava de tal arte Que celebre se fez em toda a parte.

Tudo vae da disposição d'animo, do interesse, e da optica. Um agiota, sempre certo no Terreiro do Paço, da uma hora ás tres, debaixo da arcada, emprestava dinheiro--n'uns tempos de crise politica e financeira, de que o paiz ficou guardando má lembrança--a 9 por cento.

Dizia-lhe um amigo:

--Ó homem! Isso é esfollar de mais! Olha lá o ceu não te castigue. Deus vê tudo, e estou que não te perdôa essa!

--Deixa-o ver, respondia o outro. Eu bem sei o que faço. O 9 visto lá de cima parece um 6.