Da Loucura e das Manias em Portugal
Part 4
Feitiço é o sortilegio, a fascinação, o olhado. É-se victima de qualquer mal, e soffrem-se as consequencias ignorando as causas--sem outra culpa ás vezes senão a de desejar muito, muito, alguma coisa. Espera-se um bem:--falta, porque se aspirou a elle; receia-se semsaboria: ella que chega porque a attrahimos. O pulsar inquieto e ancioso do coração é uma especie de bulha de passos que faz com que fuja a creatura ou a coisa a que se quer bem. Dá a sorte pão duro a quem tem sede, e agua a quem tem fome; vivem na abundancia os que estão fartos, e quem for só rico de appetite--pede esmola. Vae a saraiva embirrar com as seáras que o sol tisnou, e derrete-se a neve dos montes por cima dos valles que a chuva innundou já... Feitiços! O ir boiando contra a maré pelo rio do tempo adiante. A Psyche queria tornar a ver o amante, e ao inclinar da lampada, o amante acordou e fugiu... Voltou-se Orpheu para ver Eurydice, e a adorada creatura caiu logo outra vez no inferno. O feitiço é um demonio pequeno com um grande archote nas mãos, levantando-o entre as pessoas e o objecto que as seduz: dá-lhes claridade, dá-lhes fulgor, e, á proporção que se está mais perto, principia o demonio a pernear, salta d'aqui, salta d'ali, dando luz a outros objectos que estejam mais distantes, e tornando em sombra o que tinha sido, havia momentos, uma apparição scintillante! A imaginação popular precisa de casos extraordinarios para se entreter, e não gosta senão do que fôr maravilha, do que estiver superior á humanidade, do que ella não entender... Não se vê na _Iliada_ andarem sempre os deuses a fazer costas aos heroes? Assim é na vida. Tem cada qual um auxilio sobrenatural a que recorre. Um uma estrella, outro um oraculo;--este as romagens á senhora do Cabo, da Nazareth, da Bonança, de Porto Salvo ou da Guia: mas a uma d'ellas de sua feição, e não a outra, porque o que acredita na Senhora da Guia, não dá nada pela do Cabo; aquelle, em perdendo coisa, não ha fazer com que a procure sem resar um responso a Santo Antonio;--o outro tem scisma com o passar de noite defronte de um espelho, por ser possivel ver-se morto, ou ver outra imagem em vez da sua...
Apesar de mil precauções, quando as pessoas menos o cuidam lá está alguem na sombra, perdido, ignorado, a dar-lhes feitiço, ou a deitar-lhes uma sorte. Ninguem o vê; ninguem o ouve; e o feitiço lá vae saindo das resas, dos ensalmos, das pragas, das orações, do esconjuro...
Alguidar, alguidar Que foste feito ao luar, Debaixo das sete estrellas, Com cuspinhos de donzellas Te mandei eu amassar...
As fadas, outr'ora, presidiam a isto. Havia a fada do bem, e a do mal, que eram madrinhas. Vinham uns ao mundo para as venturas, para a desgraça outros, conforme o querer do ceu ou da natureza. Mas as fadas nos ultimos tempos foram deitando, como se lá diz, os bracinhos de fóra, e andavam de mais por este mundo. É bom ter fadas, mas com moderação;--e era isso o que ellas não queriam perceber, assolando o paiz a ponto de levarem a camara municipal, que nunca teve o sentimento da poesia tão desenvolvido como podia ser, a prohibir n'uma postura de 1385 que se usassem em Lisboa nem em seu termo--«obra de feitiços, nem de ligamento, nem de descantações, nem de viadeira, nem de carantulas, nem outrosim medir cinta, nem cantar janeiras, nem maias, nem lançar cal ás portas, nem furtar aguas, nem lançar sortes.»
Principiou depois a fazer-se depender tudo da hora e da lua. Veio a mania de que os astros tinham grande influencia nas acções, idéas, ou inclinações humanas. Ha negociantes que importam annualmente, a titulo de fazer folhinhas de porta e de algibeira, uma carregação de petas que offerecem á gente como chegadas directamente dos planetas. Que em tal mez ha de morrer um grande personagem:--sempre morre, e seria um transtorno se assim não succedesse, n'uma terra como esta em que se aponta a dedo quem não é conselheiro!--que no mez de tal ha de correr uma noticia falsa: que no mez d'isto hão de nascer muitas creanças, no mez d'aquillo haverá questões com o papa: no mez d'aquell'outro se fará um emprestimo: em tal planeta entrando em tal signo cairá o ministerio, ou se dissolverá a camara. Prophecias certissimas! Feitiços irremediaveis! Foram-se as fadas, vieram os almanaks!...
Ao que os medicos ás vezes chamam «nervoso» chama o povo feitiços. Mulher pallida, franzininha, com ares de musa da melancholia, dada a doença que ninguem entende, chorando e rindo ao acaso, torcendo os dedos por qualquer coisa, quebrando o leque, rasgando por gosto, moendo e ralando as pessoas de quem mais gostar,--tem feitiço. As artistas, ou porque a incerteza da vida de theatro as leve a isso, ou porque a arte as influenceie, teem phantasias inacreditaveis. A sr.ª Emilia das Neves, pontualissima aliaz em ir aos ensaios,--ensaia todavia os papeis em casa mais do que no tablado; é entre as quatro paredes da sua sala que ella calcula os effeitos, ajusta os sons, os gestos, os delirios e as quedas. Antes do _Gladiador de Ravenna_ se representar, já as criadas da famosa actriz--por espreitar ás portas e escutar--sabiam de cór o papel de Tusnelda. A sala é a grande preparação;--o tablado é o dever; a sala é o feitiço. Depois nos bastidores, antes de entrarem em scena, cada artista tem a sua invocação: uns benzem-se simplesmente, outros affagam um coral torcido, outros tomam a figa de um breloque, para evitar o quebranto.
Os feitiços ás vezes são brincalhões. Ahi está o nosso Isidoro, de quem fallamos por occasião dos «Agouros», que tambem é mimoso dos feitiços. Abriu os olhos ao mundo na travessa da Pereira, que tem no topo o Cardal da Graça, á direita o sitio chamado a Gloria, e á esquerda a rua do Paraiso!...
Conhecem o Matta? Quem ha que o não conheça! O Matta cosinheiro, o Matta pastelleiro, o Matta artista,--o Matta do Chiado emfim, como lhe chamam. Elle tem um avental branco. Para elle, o avental branco é tudo. Não sei que lhes faça. Quizera explicár-lhes isto de maneira que me entendessem bem; assim como não ha nada que nos faça admirar dos tolos como ser incomprehensivel, assim a clareza é tudo para pessoas de juizo; e eu sei a quem me dirijo. Vamos.--Vamos ao caso: Tem o Matta um avental branco. Quem uma vez na vida pelo menos não frigiu uns ovos, não fez um biffe, ou não assou um coelho, não sabe dar valor a isto. Ha muito quem conheça os melhores tratados a respeito da arte alimenticia, e que seja incapaz de uma inspiração de espeto ou de caçarola--por nunca haver posto o avental branco. Com elle é que o Matta se tem achado no meio dos perigos do seu destino e das alternativas a que estão sujeitos seus frageis dias,--os vapores que o carvão exhala e que lhe vão minando a saude, comquanto vigorosa: a labareda e o fumo de tão perniciosos resultados para os pulmões e para a vista. E elle sempre alli como o soldado entre as balas,--com a differença de que para elle todos os dias que Deus dá são de combate, e combate que não dá postos nem condecorações! E dirige e tempéra, e tira e põe,--mas de avental; mesmo que não se trate senão de dar a voz de commando,--de avental sempre: aliás, tudo se perde, entra na comida o _bispo_,--unico que não tem nem terá partido,--agúa-se o môlho, ou estraga-se a geléa, a geléa que elle por assim dizer reformou, essa querida geléa que data do paraiso,--porque a serpente não seduziu Eva com uma maçã, como se espalhou; ainda não havia maçãs: a maçã é muito mais moderna; seduziu-a com geléa: geléa que se apanhava da rezina das arvores. E não lhe fallem de tirar o avental, em se tratando de jantar grande,--porque o não tira; é ao avental branco que elle deve tudo; o avental branco é o seu pae, é o seu feitiço!...
Ha aguas beneficas, aguas que dão virtude, e outras que transformam a gente, como a que a Sabia dá ao marido curioso, no auto da _Ciosa_, de Antonio Prestes, para que a esposa o confunda com o primeiro namorado que teve e possa ver como ella o recebe: «Toma esta agua e o que vae n'ella lava teu rosto com ella, tornar-te-has na compostura e fegura do que se foi.»
No mar tambem ha feitiços, e é por causa d'elles que se parte a verga da gavia, se rende o mastareu do velacho, se perdem as vergas da gata e secca, encalha o navio ou tem de voltar para traz.
Dizem que ha sitios no mar,--o cabo da Boa Esperança, por exemplo,--em que, ás vezes, se ouvem vozes de som espantoso, palavras inteiras, de feitiço; e que o pio de certas aves que passam de noite no mar alto é o gemido das almas dos capitães de navios que se perderam ali e andam a cumprir fado até que as aguas lhe levem o corpo á terra e encontrem emfim sepultura.
Os feitiços no mar representam a attracção do elemento, o magnetismo da natureza, a perfidia e avidez da agua insaciavel. Têem caprichos perigosos. Em estando alguem para se afogar já na vespera se põem a dançar por cima das ondas. Adivinham o navio que ha de naufragar, e mal vae ao piloto em os feitiços dando no barco.
Até se conta que D. Sebastião está ainda hoje a dormir no fundo do mar, por lhe haverem dado feitiço; que as proas dos navios que vão passando lhe quebram de tempos a tempos um pedaço do tecto do palacio em que elle está guardado; que acorda n'essas occasiões, estende os braços, quer chamar, mas lhe tapam a boca para que não grite, e elle adormece outra vez...
As vozes do povo são, n'estas crendices, o grande oraculo. No Porto vae-se á capella da Senhora da Verdade, por traz da Sé, pede-se que faça ouvir nas vozes do povo o que se quer saber, e á volta, de ouvido á escuta, repara-se se diz _sim_ ou _não_ quem vae passando.--Em Lisboa, pelas festas de junho, põe-se a herva pinheira á meia noite ao relento na esperança de se conservar verde e crescer. Mal vae desde logo, se ella deita espiga.--Queimam-se cinco réis na fogueira, dão-se depois de esmola a um pobre e pergunta-se-lhe o nome: hade chamar-se o marido como se chama o homem da esmolinha. Da alcachofra, dos bochechos, do ovo no copo d'agua, é quasi inutil fallar-lhes.--Quem tiver sete filhos está em mau caso: ou o ultimo se ha de chamar Mauricio, e um irmão ser padrinho,--ou nascerá defeituoso.--Enrolam-se tres papelinhos, com seu nome cada um, bem enrolados, e enrolados bem irmãos; deita-se um á rua: outro para traz da porta: debaixo do travesseiro o outro. Este é que ha de ser o nome do noivo. Extrae-se toda a casca a uma fava,--metade da casca a outra, e junta-se ás duas uma fava com casca; mettem-se as tres entre os colxões. De manhã, tira-se uma; se traz casca, vem vestida e a pessoa virá a ser rica: se não traz, é nua e a pessoa vem a ser pobre; se traz metade da casca, a pessoa será remediada...
O peor dos feitiços, porém, ó leitoras! o feitiço mais arriscado, ó morenas,--o feitiço mais perigoso, ó loiras, é o amor,--sois vós! Aquella de quem a gente gosta, e aquella que gostar de nós!
IX
Encantos
Os encantos veem de longe. Circe, a encantadora por excellencia, converteu em porcos os companheiros de Ulysses:
_Carminibus Circe socios mutavit Ulyssis_
Para quem combatera na guerra dos dez annos não deve ter sido uma methamorphose muito agradavel!--O grande impostor do Simão magico, contemporaneo dos apostolos, para mostrar o seu poder egual ao dos deuses quiz voar por cima de Roma--como o nosso Bartholomeu Lourenço por cima de Lisboa. S. Pedro, que assistia á experiencia, fez por intermedio das suas orações que caisse das alturas e se despedaçasse...
Nos tempos modernos em Portugal os grandes encantos teem sido os das mouras. Querem muitos que ellas hajam ficado no nosso paiz desde a dominação mourisca, e vivam escondidas nas covas e no mar--para melhor guardarem os seus thesouros, que constam de perolas, esmeraldas, rubis, saphiras, cordões de ouro, brincos, anneis, pulseiras, e broches de diamantes de um primor de desenho superior ao do florentino Cellini. Parece que saem de madrugada para arejar em terra os bens, e desapparecem aos primeiros raios do sol, apagando-se-lhes logo a riqueza e voltando outra vez a guardar á sombra a sua formosura e as suas joias. Pretendem outros que ellas se recolhem antes do cantar do gallo, e á meia noite se lhes acaba o encanto e o poder,--como diz Garrett na _D. Branca_:
E ai! se o gallo cantou, que á meia noite Encantos quebram, e o poder lh'acaba.
Muitas vivem nas fontes.--Algumas têem ido á India n'uma casca de ovo. No campo ainda se usa hoje quebrar a casca dos ovos para que as encantadas ruins não embarquem nellas, e vão chupar o sangue de meninos por baptisar.--Algumas têem-se fingido encantadas, para as desencantarem melhor. Á sombra dos encantos tem havido muita casta de obra, e não poucas se serviram d'isso para apanhar marido. Lá o indica bem a trova da «Encantada»: o cavalleiro vae á caça e encontra no arvoredo uma donzella que lhe diz achar-se ali por sete annos e um dia, e completar n'esse dia o fadario. Offerece-lhe elle saltar para o cavallo, e dá-lhe a escolher:
Ou nas ancas ou na sella Onde fôr mais honra minha.
Ella trepa. Partem. Vão seguindo. E lá pela estrada adiante, ella larga a rir, a rir...--Estava a zombar d'elle. Era tão encantada como eu!...
No paiz do peixe e das perolas, do coral e das alforrecas,--no mar--ha-as tambem, e dizem que em maior numero hoje do que em terra. É o reviver das divindades humidas da fabula; successoras das naiades e das nereidas, que o christianismo enxugou com o exorcismo; menos bonitas, provavelmente, do que as sereias pagãs, que encantavam Ulysses com o soltarem a voz deliciosa, e o faziam torcer-se todo, preso ao mastro do navio; mas descendentes, mas netas d'ellas,--e, o que é mais, mulheres como as outras, dos bicos dos pés á cabeça! Conta-se o caso de não sei que moço, que deixou uma d'ellas para ir casar com a filha de um capitão mór de aldeia; durante o jantar das bodas, o noivo ergueu casualmente o olhar e viu um pésinho alvejante e nu a sair do tecto;--affirmou-se, conheceu que era o pé da sua encantada, aquelle bonito pé que elle beijára tantas vezes, e entendeu logo de si para si o que queria dizer um signal d'aquelles. Mandou chamar um padre, confessou-se, pediu os Sacramentos, e dispoz-se a bem morrer. Á meia noite expirou, depois de recommendar muito que o enterrassem em certo sitio...
Ha quem diga que são mais bonitas do que as fadas, e querem outros que sejam feias de metter medo. Fazem-se-lhes os dentes verdes e os olhos ficam parecendo olhos de peixe. Não deixa de haver harmonia n'estas opiniões desencontradas; porque, variavel como a onda que a encobre, a encantada no mar deve ora ser horrivel como a vaga furiosa, ora fresca e pura como a agua transparente. Refere-se que em tempos iam todas as manhãsinhas á praça fazer compras; eram conhecidas por terem sempre molhada a orla do vestido. Eram mulheres pallidas quasi sempre, que andavam de olhos no chão sem dar palavra a ninguem. Pagavam tudo com moedas de dez réis furadas. Em Peniche trata-se ainda d'ellas como de coisa certa. Mostra-se perto das Berlengas o sitio em que fallou uma; appareceu, ao sair do luar, com um espelho na mão, e gritou aos marujos que não tivessem medo porque estavam perto de terra: mas em elles lhe vendo a cara não tornavam a ver terra nunca mais e o caso foi que ali se perderam todos n'essa noite...
Teem genio proprio do elemento em que vivem; graciosas e crueis; amantes e perfidas; gostando de levar os homens para debaixo de agua, o que tambem era a balda das nymphas. Quando os affogam já ouvi dizer que não é por mal; até ás vezes se apaixonam por elles, e lá acham maneira de os consolar por esses mares de Christo da travessura de lhes roubar a existencia humana.
Não podem ficar em terra além da hora marcada, e os amores que por cá têem acabam sempre mal. Ainda ha no Baleal a tradição de um rapaz padeiro que morreu doido por causa de encantamentos, e de encantadas,--que ora lhe appareciam á borda dos regatos a pentear os _cabellos de oiro_, ora á tona d'agua nos poços, ora nas ondas do mar; até que, uma occasião em que elle estava dormindo encostado a um muro, se lhe enroscou ao corpo uma que andava em figura de cobra...
Por duas ou tres vezes na Nazareth uns pescadores as apanharam ao colher da rede e fizeram a diligencia de ver se ellas fallavam:--mas conservaram-se sempre tristes e caladas, sem quererem comer nem beber, e, tão depressa puderam, fugiram outra vez para a agua... Tudo isso já lá vae. Hoje, as banhistas fazem-lhes concorrencia. A _Deuza dos Mares_, a _Flor de Lisboa_, e os vapores do sr. Burnay, assustaram-as. Deixaram de vir ter comnosco. D'aquelle serralho liquido já não saem cá para cima senão os mudos,... que são os peixes!...
De que provém, o encanto das mulheres? Não ha sabel-o. Até a formosura poucas vezes lhe vale. As bonitas, bonitas, têem muito quem as gabe e pouco quem se apaixone por ellas. Os defeitos ás vezes são o grande segredo do seu poder,--porque a graça precisa de ser picante. É como com as flores; roseira que não tenha espinhos ha só a do Japão; dá rosas bonitas,--mas sem cheiro! O encanto nos tempos de hoje está onde a gente o põe--n'uma creatura, n'uma vaidade, n'uma paixão, n'uma mania. Para uns é a mulher; para outros é o dote. Para alguns, uma particularidade qualquer; uma imagem emblematica, uma palavra ás vezes--como succede com os titulos dos reis, cada um de seu primor especial; em Hespanha «magestade catholica», em Portugal «fidelissima» na Monomotapa «senhor do sol e da lua»!... Ha um supremo encanto que transforma tudo; vence, derruba, consegue; mas n'esse quasi ninguem faz reparo:--a vontade.
Heroismos, casos de romance, aventuras phantasticas--tem ella o encanto de realisar tudo isso. Um homem de perto de Barcellos, chamado Manuel Corrêa, que em 1838 viveu no Rio de Janeiro, guiou sósinho um navio, que a tripulação abandonára, no meio da tormenta navegando sete dias até fundear no porto de Santos!
O encanto toma differentes fórmas e esconde-se ás vezes nos objectos de apparencia inanimada,--nas bengallas e nos chapeus de chuva por exemplo: trastes perfidos e caçoistas... Em estando para chover já a bengalla o adivinha com o seu instincto nativo de marmeleiro, e vem offerecer-se muito lampeira á hesitação em que uma pessoa está:--depois, em se apanhando fóra de penates, se desaba a cair chuva e o sujeito fica encharcado põe-se a bengalla lustrosa de agua a rir, a rir... Pelo contrario, em o sol estando com tenções de tirar d'ali a nada a caraça de nuvens e brilhar senhor do firmamento azul, o chapeu de chuva dá logo por isso, pressente-o em cada fio da seda, trepa-se no dono antes de elle ter tempo de consultar os ares, e ahi sae para a rua--não chovendo, e ficando o pobre homem condemnado a andar com elle todo o dia debaixo do braço. Ha encanto! ha encanto na bengalla e no chapeu de chuva; representam a vida debaixo dos seus principaes aspectos,--a borrasca e a bonança, a tormenta e a calmaria! O chapeu de chuva ergue-se para o ceu, e a bengalla volta-se para o chão; elle levanta-se, e ella curva-se: elle desabrocha nas nuvens e defende-nos do que vem de cima, ella serve para os casos terrestres e para nos defender o lombo do que vae cá por baixo!
O encanto principia a ter poder n'uma pessoa antes mesmo d'ella nascer. Chorar na barriga da mãe é annuncio de que se ha de ser feliz n'este mundo--Mas, se a mãe, em conversa, contar a alguem que o filho lhe chorou no ventre, corta-lhe a sorte, e nasce anão ou gigante. Qualquer das coisas não é boa. Os gigantes em Portugal saem sempre inferiores--haja vista aquelle do Minho, que esteve ha annos em exposição na rua Nova do Carmo, espantalho enorme para qualquer profissão, mas um tanto chôcho para gigante. Depois a vida que levam é de mau fadario; nem namorar podem, por não haver donzellas que se exponham a affrontar seu desmesurado affecto, e por ser necessaria uma escada de mão para se lhes fazer festas na cara!
Ser anão tem mais vantagem, cabem em qualquer buraco, vestem-se com um metro de fazenda, e quando morrem basta-lhes um caixão pequenino; mas não se póde dizer que seja muito bonito, e é arriscado a desordens, porque ás vezes, mesmo sem querer, lá dão uma cabeçada nos callos de quem vae passando...
Em as meninas tendo comichão no nariz é aviso de que n'esse dia um rapaz lhes ha de dar um beijo;--em lhes comendo a palma da mão, já a gente sabe que está para receber dinheiro, mas é preciso não coçar e fechal-a logo;--a orelha direita quente, estão a dizer bem de nós: quente a esquerda, alguem nos corta na pelle.--Na madrugada de S. João quem fôr lavar a cara á fonte, fica bonito:--e quem nadar n'essa noite alcança o que quizer, levado na onda que dá fortuna e indo ao porto onde os amores sorriem...
Os dois encantos negros são as almas penadas e os lobis-homens. A preta Domingas, que vendia fava rica, enviuvára; ao lado da sua casa morava um sapateiro, menos barbudo que Merlim mas da força d'elle em malandrinices. Alta noite o sapateiro trepava-se-lhe á chaminé e gemia lamentosamente:
--_Eu caio! A minh'alma anda pinando as penas di purgatorio. Sou o teu difunto marido, i peno por ter ficado a diver uma moeda ao vijinho sapateio..._
--Pois não ha de pinar por isso a tu'alma, pae Faxico! respondeu a preta. Eu lhi pagaré, ao vijinho sapateio!
E pagou. E o sapateiro foi arrecadando a moeda, dizendo com modestia que não era pressa. E d'ali em diante era certa a lamuria, pela noite velha, ora por dividas de jogo, ora de marufo, e a Domingas ia pagando até que uma vez se cançou do encanto e lhe redarguiu:
--Qui a tu'alma vá p'ra o ceu, qui a tu'alma vá p'rá inferno, eu já não dou mais rial ao vijinho sapateio!
E o caso foi que desde então a alma do sapateiro é que principiou a penar deveras e tambem o seu corpo, porque a preta cumpriu o que disse e nunca mais lhe deu vintem.
As almas penadas são d'esta qualidade; e tambem defuntos, que por lhes faltar alguem á palavra dada--vagam n'este mundo, até que lhes satisfaçam as ultimas vontades.
Lobis-homens são pessoas que andam a cumprir sina, a cumprir um fadario, mudados em animaes; em lobo, em cão, em gato, em burro... Tão depressa apanham encruzilhada onde se tenha espojado animal, despem-se logo, mudam-se n'elle, e espojam-se tambem. Isto é,--espojavam-se. Isso não continua, e até já ouvi dizer que succede agora ao contrario, para variar, e que tem por ahi apparecido seu burro--mudado em homem.
X
Sonhos
Ha gente que precisa viver mal; ter transtornos, ralhos, penas, estar n'um inferno; tudo, menos levar a vida com o socego que lhes faz lembrar talvez a monotonia da agua dormente--_mare mortuum_! Querem casos, avisos, phantasmas a trepanar-lhes a cabeça com desvarios nem possiveis nem faziveis... A antiguidade espantava-se com o assoviar das serpentes, com o espirrar das luzes, com os vapores negros que saem da terra, com o roncar das Eumenides; a nós que somos a civilisação e o progresso, atterra-nos hoje sonhar com amoras, _desgosto e feridas_: com dados, _perder os bens_: com espelho, _traição_: com favas, _doença_: com herança, _miseria_: com padre, _morte_!
Alguns, não sei porque,--pode ser que por fazerem o mesmo acordados--sonham só com o que não têem, que são o que não podem ser, que fazem o que não fizeram nem farão; Job dá jantares, Creso pede meia libra, Adozinda bebe, Alda sae fóra d'horas; fica tudo mudado; fazem-se em ortigas as violetas; Manuel Mendes engana Rebolo e Michaella; D. Quichote é farcista, e o Pança é poeta; a alegria aeria, crepitante, explendida, trepa como um foguete e cae d'ali a nada n'uma chuva de lagrimas; uns criticos que ha, da rua e da praça, gente que torce sempre o nariz--limite de seu horisonte--a tudo que vae pelo mundo, chegam no sonho a ser benevolos; está tudo de pernas para o ar; o Apollo de Belvedere é _piteireiro_: a Venus de Milo assa castanhas, Antinuo usa uma palla n'um olho, Dante é corcunda, Polichinelo está de capa de asperges!...