Da Loucura e das Manias em Portugal
Part 3
Um não pensa senão em albuns. Tem dois seus, dois da familia, um da namorada, e tres dos visinhos. Pede-nos o retrato; peior ás vezes,--quer trocar. Tambem deseja um pensamento para o album de authographos; qualquer coisa; exemplo:.--«As ginjas são talvez melhores á sobremesa, do que para prato de meio.» Conceitos!--Outro, leva o anno inteiro a scismar como ha de disfarçar-se pelo entrudo; como ha de farruscar a cara, o que ha de pôr no nariz...--Outro, conversa muito alto, n'este estylo que lhe parece optimo:--Diga-me se não é anomalo, acephalo, hybrido, através da civilisação e do progresso, ver as nações atrophiarem-se em carnificina, á maneira dos povos barbaros, ou dos tempos em que as sociedades mergulhavam nas trevas da superstição e da ignorancia. O meu amigo é ecletico?
E os que faltam sempre, promettem para faltar, offerecem para não cumprir, nunca vão a horas--o maior dos erros, exemplo aquelle diplomata que chegou tarde á morte do seu principe e foi dar com a rainha a fazer papelotes!--que se esquecem de tudo, ou antes não se esquecendo--pensando n'outra coisa, diversa sempre da que estão fazendo, da que estão dizendo. Gente que baralha tudo, troca, atropella, estraga; trapalhões de officio e de geito. Um deita rapé no chá em vez de assucar; outro cuida que está no botequim, e põe um tostão no pires quando toma café na casa alheia; outro nas conferencias do Casino ia já a estender o braço para o copo d'agua do prelector, e bebia-lho se o não pucham a tempo. Alguns chegam a esquecer-se do nome que têem, ficam parados á porta do correio geral á espera de que passe alguem que lhes diga como elles se chamam, e irem então reclamar a carta; a correr, antes que lhes esqueça o nome outra vez!..: _Telha_, pois que?--_telha_, e rija!...
Digamos o peior;--quasi todos nós temos um pouco d'isso. Ha principalmente dois mezes do anno em Portugal, maio e junho, em que toda a gente anda com _telha_...
Quem ha,--dos que pensam, é claro, e dos que, por assim dizer, costumam tomar o pulso ao espirito, que não se tenha sentido em certos dias como que exilado n'este mundo e tentado juntar, unir, ligar no fundo d'alma remeniscencias vagas de melhores tempos, enleiando-se n'uma especie de saudades da patria que perdeu... A terra parece triste então, embebe-se o animo na nostalgia do céu, quer a idéa voar para lá, e consegue-o ás vezes... De noite, quando não se póde dormir, mas está tudo socegado, some-se o mundo em que a gente anda, vêem-se brilhar as flores colhidas que o tempo murchou, ouvem-se chorar-nos n'alma suspiros e ais conhecidos, e passam na penumbra duvidosa em que se nos perde o olhar certas creaturas que só nós sabemos bem quem sejam... O mundo então chama a isso ás vezes ser poeta; e é ainda, talvez,--a _telha!_...
VI
Enguiços
Quente... quente...
Já estão a lembrar-se de alguem do seu conhecimento, com quem lidaram, com quem viveram, parente, amigo, visinho...
O diccionario de Moraes explica-o assim:--«Enguiço é o mal que se causa de ser olhado por algum torto ou outro qualquer accidente.» Até aqui, o mais notavel é elle chamar aos tortos «accidentes». Lá se avenham.--«Consiste,--continua--em ficar acanhado.» Estão satisfeitos? Eu, não. Procuremos mais, procuremos sempre;--no verbo enguiçar o mesmo auctor exprime-se assim:--«Dizem que o torto olhando para alguem enguiça-o. Passar a perna por cima da cabeça (d'outrem) enguiça; isto é, faz que desmedre, que se faça pêcco e pobre.
D'ahi vem tudo; os habitos excentricos, pueris ou ridiculos; o vasto e incalculavel mal que resulta d'isto ou d'aquillo, conforme o capricho da creatura; a ignorancia creadora; successos triviaes, centos de cousas e cousa pouca, que moem e affligem os enguiçados,--gente nervosa, delicada e phantastica.
Tudo os inquieta. Fal-os tremer um nada, um nadinha os anima. A influencia do tempo ataca-lhes a saude como um barometro. Abate-os o vento sul, torna-os tristes a chuva. Ficam, ás vezes, horas sem fallar e sem vêr. Parecem acordar na primavera pelo canto dos passaros e pela doçura do ar; e ouvem tudo então, as vozes que passam no murmurio das ondas, na rama das arvores, ouvem o que se diz ao longe, ouvem o que não se chegou a dizer,--ouvem-se a si, unicamente a si; a voz do enguiço, que falla dentro d'elles, e compõe, e ordena, e retem, e impelle...
Um levanta-se da cama, veste-se e prepara-se para sair. Sente-se todavia preso ao chão, e não póde dar um passo emquanto o creado não vem dar-lhe um alentado empurrão que lhe quebre o enguiço. Volta-se então para o servo:
--Ó José?
--Senhor.
--Tu deste-me a corda inteira?
--Dei, sim senhor.
--Toda, toda?
--Dei-lhe a corda toda, sim senhor.
--Está bom!
Aquella resposta affirmativa convence-o de que tem movimento para as vinte e quatro horas, como um relogio de algibeira. Se o empurrão foi brando, a machina pára a qualquer hora do dia e precisa nova corda.
Um irmão d'este (os enguiços são familiares e hereditarios, o que é ainda mais pasmoso!) não póde comer a sobremesa sem dar tres voltas em redondo ao prato.
Um velhote anguloso, magro e verde, que se avista na repartição onde é empregado de barretinho de seda preta e mangas de algodão, faz todos os dias antes de entrar para a secretaria um joguinho de passos ao transpor a porta, que consiste em marcar tres vezes estes tres numeros:
«Um.
«Dois.
«Tres.»
Depois, seguro de que tudo irá bem, sóbe e entra.
Um, homem gordo, de physionomia benevola, fallando com ar sentencioso a quem por civilidade fingia dar-lhe ouvidos, ia sempre tomar o seu café ao mesmo botequim havia muitos annos, suppondo ser o unico que não envenenava os freguezes. Achava n'aquelle café, do antigo Nobrega, hoje Aurea Peninsular, rua do Ouro, grandes vantagens para as propriedades sanitarias e digestivas. Em indo a outro, ficava doente. Quando ha sete annos o botequim fechou, elle acabou de jantar, foi muito lepido pela rua do Ouro, dirigindo-se ao seu cafésinho,--encontrou as portas fechadas, e morreu. Muita gente o conhecia em Lisboa, e deve lembrar-se d'elle; os jornaes contaram o caso.
Alguns são beatos. Têem uma religião lá d'elles;--a religião do enguiço. Não querem ouvir comedias com receio de frescuras; nos bailes, em traje de ceremonia, luvas, etc., permittem-se olhar para as senhoras embora decotadas; mas em S. Carlos impõem-se crueldades gothicas, e quando apparecem as bailarinas, tão frescas e tão pouco vestidas que até o beato Antonio haveria arriscado um olho, como o meu amigo leitor ou eu, fecham elles ambos.--Conheci um que, quando lia n'um jornal a palavra Deus, interrompia a leitura para atirar com o papel ao ar.--Ha outro que não póde passar diante de um nicho de santo sem que immediatamente leve as mãos ao rosto e o esfregue, como para se lavar das impurezas que o santo não deve presencear. Como fosse em certo dia guiando um carro e visse um nicho cavado na fronteira de certo predio, largou immediatamente as redeas e pôz-se a lavar o rosto em sêcco. O cavallo, sentindo-se sem governo, tomou o freio nos dentes, fugiu, e por felicidade não deu cabo do enguiçado e do amigo que elle levava em sua companhia.
Ha uns que porfiam em conservar toda a noite durante o somno a attitude em que estão quando o somno os surprehende. Um diligenciou muitas vezes ser mais forte ainda e fez grandes tentativas para dormir de corpo no ar, só com as mãos ambas encostadas á bordinha do colxão, como se faz ao saltar para a cama; não o conseguiu, como podem crêr, e deu muitos trambulhões.
Um pintor, que foi do Porto para o Rio de Janeiro, tinha enguiço de pintar pretos. Por mais que o instassem, o pobre artista negrophilo não consentia por ter dó de obrigar os moleques a estarem para ali espécados, e cuidar que isso tiraria a fortuna ao quadro. Punha um creado branco no logar do escravo, depois de lhe farruscar a cara de preto.
Este espantalho de espinha angulosa e nariz atrevido é rico;--faz casas para não morrer. Lá diz o proverbio campesino--«ninho feito, pêga morta.» Avarento, sordidamente miseravel, só é grandioso em fazer predios. Suppõe que em terminando uma obra, morre. Vae acrescentando sempre a casa; compra terrenos, faz crescer a cosinha, estende a capella, alarga as cocheiras. Aguenta-se na vida com muleta de pedra e cal!
Aquelle está já por tal modo aferrado a manias que chega ás vezes a parecer criminoso, e sente que dá cabo da intelligencia quebrando-lhe os raios com o fechal-a no ciclo estreito e febril dos medos e das apprehensões. Tem sete filhas; quatro estão casadas; duas principiaram a namorar os que hoje são seus maridos no circo Price; as outras duas no Gymnasio. Estão ricas e felizes as duas primeiras; as duas ultimas, pobres e desgraçadas; elle tem a scisma de que ás tres que estão solteiras não convém irem ao Gymnasio, e suspira por vêr aberto o circo Price, a cujos espectaculos sempre concorre com a familia, resmungando á entrada uma prece, não sei que lérias piedosas que só elle entende...
Que dança! que dança!
Os d'aqui têem scisma com o sair da escada sem pôr primeiro o pé direito.--Os d'ali em pondo as meias do avesso ficam em torturas, contando que hão de ter dádiva ou insulto, e receiando que venha insulto em vez de dádiva.--Os d'acolá pedem a benção á mãe, e emquanto ella não estender a mão seis vezes não lh'a beijam.--Uns têem terror ás aranhas; outros assustam-se em sonhando com uvas pretas; estes não passam em certas ruas senão do mesmo lado sempre.--Alguns, brutos com toda a gente, são timidos com as creanças. As creanças têem o que quer que seja de maravilhoso. Já o Fernão Lopes, na _Chronica de D. João I_, cita uma ainda de leite que proclamou: Real, real, pelo mestre d'Aviz, rei de Portugal. Os enguiçados que leram esta chronica ficaram tendo pelas creanças uma veneração profunda; os que não a leram--tambem. Batia na mulher todos os sabbados á noite um saloio, ao voltar da taberna--para onde ia tão depressa lhe pagavam a féria. A mulher, coitada, conformára-se com a sua sorte por gostar d'elle e acabára por se costumar com aquella renda. N'isto foi mãe. Apesar de todos os sabbados estar bebado como d'antes, o marido parecia esquecer-se da tósa semanal. A mulher, pasmada, disse-lhe uma vez:
--Porque é que tu já me não bates?
E o saloio, enguiçado, desejando romper e quebrar por uma vez com a prisão imaginaria que o tolhia, mas confrangendo-se, esquivando-se, escrupuleando, respondeu de mansinho, apontando para o berço:
--Tenho medo de acordar o pequeno!...
De tudo, entretanto, o mais trivial é não se poder vêr um corcunda sem ficar enguiçado. Parece que, sobretudo em jejum é desastroso. Os corcundas sabem isto; sabem-o á legua; não sabem outra cousa; estão fartos de o saber; e por isso são tão joviaes. Andam sempre a rir-se do mundo e a enguiçal-o o mais que podem! O melhor do caso, porém, é que um corcunda neutralisa o outro. Eis a rasão porque nunca desde o principio do mundo nenhum philosopho fez a observação de haver encontrado dois corcundas de braço dado. São inimigos capitaes. Um d'estes dias foi encontrado um sujeito--se eu lhes dissesse o nome riam-se!--encerrado n'um portal á espera que passasse um corcunda para o desenguiçar de outro que havia visto.
Ha comtudo um remedio para este mal. Consiste em esfregar na parede uma moeda de dez réis que tenha tocado na giba de um corcunda. Mas--para obter o remedio--quantas difficuldades! quantas astucias! quantas subtilezas! O corcunda está sempre prevenido e não se deixa tocar. Ha um muito conhecido em Lisboa, que por mais de uma vez tem posto a policia em bolandas--sómente para garantir a giba do contacto impudico da moeda preservativa.
Ha quem affirme que os vesgos são ainda peiores que os corcundas, e que a sua influencia é de maior malignidade. Felizmente o Mascaró promette acabar com elles,--e não haverá mais enguiçados por este accidente!...
Consolem-se todavia os que teem a scisma do enguiço,--sujeitos de pouca fortuna, sedentarios que fazem gallos na nuca a dar com a cabeça nas costas da cadeira; peões para quem estão de reserva as topadas nas pedras das ruas; homens das fatalidades, heroes das pequenas miserias, que farejam na malicia da sorte inquietações para todas as horas do dia; consolem-se uns com os outros, porque ha muitos.
São sujeitos a enguiços os homens pequenos e os grandes homens; homens grandes no corpo e na força;--homens grandes no espirito; phantasistas, poetas, os artistas quasi sempre, a nobreza e o povo, os sabios e os ignorantes; têem enguiços os pastores; e os reis--ha uns tempos--andam muito enguiçados!...
Os patetas riem-se d'isto; os homens de juizo, tambem. Singular harmonia! Toda a cautella é pouca em não se indispôr a gente com elles, nem com o acaso;--os enguiços são como as paredes, têem ouvidos; e lá se entendem, lá se entendem entre si... Basta uma palavra de mais para uma pessoa se comprometter e vir depois isso a custar-lhe caro... Máu! Ahi está que n'este instante a penna não quer tomar tinta e está a espirrar-me entre os dedos como se lhe repugnasse escrever.--Vou mergulhal-a no tinteiro... Peior! Deitou-me um borrão no papel...--Basta! Talvez que este borrão resuma, melhor do que eu podesse fazel-o, o systema dos enguiços. Não escrevo mais.
VII
Agouros
Agouro e enguiço não são a mesma cousa. O vulgo confunde ordinariamente o sentido natural destas palavras, que têem todavia uma significação diversa. Agouro significava antigamente predizer o futuro pelo canto, gesto, e pasto das aves (_ex avium cantu, gestu, vel pastu futura divino_) e por extensão conjecturar de qualquer modo. N'este sentido se usa hoje em Portugal, quando por incidentes insignificantes--a que chamamos agouros--queremos predizer o futuro.
O terror--de umas vezes os remorsos, os ciumes queimadores de outras vezes--torna videntes certas creaturas. Mudam de côr, á mesa, se espalham sal na toalha; sobresaltam-se na aridez das praias se succede levantarem com o pé os limos, que cobrem as borboletas do mar; atormentam-se quando ao atravessar charnecas se lhe prende o lenço nas urzes; vêem imagens, conhecidas nos montões de nuvens negras que um relampago allumia. Tudo lhes falla; para elles até a materia muda tem lingua. Ouvem presagios no grão de areia que o vento leva, no tremer das folhas, nas borboletas escuras, no voar das nuvens, na agua que reflecte as figuras, na herva que balança ao peso de uma formiga... Ouvem chorar vozes no orvalho, nas trepadeiras se lhes cáe chuva, no canto do gallo fóra de horas, no mocho, nos morcegos, no uivar do cão...
Respiram ares de vertigem, ares doentios. Avistam estocadas á direita e á esquerda; golpes mortiferos; desgraças precipitadas;--a fatalidade delirante; o horror da incoherencia em que tudo lhes parece harmonico. Vivem de cabeça baixa e braços encruzados, agitando n'alma questões insoluveis, corre-lhes nas veias com preguiça um sangue fraco que arranja o que se chama agora anemia; doença em que ninguem fallava, e que, estou persuadido, principiou por elles. Gente receiosa e triste a quem o nosso clima estonteia ainda mais, gente que podia passear commodamente á sombra glacial das extensas galerias dos castellos do norte, e para quem a vida é um supplicio atroz,--condemnados de manhã ao Chiado, abrazados de calor; de noite ao Passeio Publico sacudidos pelas ventanias.
Têem todavia essas naturezas o que quer que seja de religioso. Vão seguindo na vida como a Electra dos gregos, devota e severa, confiando ás cegas nos oraculos e submettendo-se sem murmurio ás leis da fatalidade. Parecem-lhes legitimos os sacrificios;--dir-se-hia que, como outr'ora, ouvem os deuses pedir-lh'os; offereceriam o pescoço ao cutello resignadamente, como holocausto inevitavel, se o agoiro os avisasse... Os artistas principalmente,--os que são dignos d'este nome, os notaveis, os verdadeiros artistas--têem superstições indestructiveis e muitas vezes os acontecimentos parecem mais tarde dar-lhes rasão. Ha exactamente quatro mezes, n'uma das ultimas manhãs de março, humida e ventosa, o actor Rossi que ia embarcar para o Rio de Janeiro, e a quem de Genova haviam mandado um vapor conduzindo a companhia, que não era aquelle que se lhe havia promettido e que elle esperava do contracto, dizia-me em frente do Tejo:
--Adeus. Sinto que não vou ser feliz. Trocaram-me o barco. Presagio funesto.
As noticias infelizmente tem confirmado esse facto,--um pouco mais singular ainda do que o agouro!
Da maior parte das vezes, as superstições dirigem-se unicamente a evitar o mal e aplanar o caminho; mas, o peior é, que, a poder de se darem a perros para assegurar a felicidade, transformam-a quasi sempre em miseria ou em asneira.
Um, que cuidou sentir-se chamado a representar papel na camara, lá arranjou ser deputado--mas o que não arranjou é fallar, porque os agouros o impedem. Os agouros dizem-lhe que a habilidade do orador é saber ouvir e callar; que, por pouco que se falle, lá succede um dia dizer-se o contrario do que se havia dito tempo antes; que os adversarios abusam d'isso e ficam causticando o sujeito; que a força das maiorias consiste em votar sem abrir o bico; que assim como o nauta dextro caça a véla, e muda o rumo ao leme conforme sopra o vento de um lado ou do outro do horisonte, assim a elle lhe convém variar a proposito conforme as circumstancias,--com socego, e sem bulha. E tudo isto lh'o diz o azeite quando se entorna, e o espelho quando se quebra, e uma aranha no tecto, e um besouro que passa no ar a rosnar-lhe avisos:--«Calla-te, calla-te. As fallas são de prata, e o silencio é de ouro. Calla essa boca!...»
Outro não se move, não vae d'aqui para ali, sem recorrer a um exame prévio de tudo que o cérca. Sabe este mundo e o outro no que respeita a agouros; não sabe mais nada, é certo, não sabe das suas cousas nem trata d'ellas--mas sabe d'aquillo. Não permitte que lhe cosam a fazenda em cima do corpo, que é signal de desmedrar, emmagrecer, definhar, dar á casca;--não corta o cabello em quarto minguante com receio de que lhe não torne a crescer; evita quando está na cama cortar as unhas e olhar para um espelho ao mesmo tempo, indicio de estar jogado aos dados;--não permitte que em sua casa deitem lixo fóra de noite,--pobreza imminente;--não póde vêr sem sobresalto duas facas em cruz, desordem fatal;--e por cousa alguma morará em «casa de esquina,--morte ou ruina!»
Este, se vê um «ladrão» na véla--sabe que vae ter carta.--Aquelle, em caindo uma thesoura e espetando os bicos no chão, espera uma má visita.
Muitos não se desfazem de pombos. Ou não os ter nunca, ou tel-os sempre; o mais a que chegam é dar o ultimo casal ao Espirito Santo no dia da Ascenção do Senhor.
Ha noivos que fogem de ir ouvir os banhos para o seu casamento,--porque, se os ouvem, ou não casam ou morrem. Diz-se que quem cáe de cama ao domingo, nunca mais se levanta.--No campo, em os martyrios de um jardim dando muita flôr, julga-se breve a morte do dono da casa.
Na existencia de alguns parecem agrupar-se maliciosamente os presagios. A vida de Isidoro--o nosso popular actor Isidoro, do theatro da Trindade--é um pinhal de agouros. Vamos vêl-os com cautella; se têem medo, tragam luz... Nasceu em dia de finados de 1828; foi baptisado n'uma _sexta feira_, 2 de janeiro de 1829; principiou em 1842 a aprender o officio de tecelão na fabrica de Xabregas, e foi tres annos numero _treze_; trabalhou dois annos no tear numero _treze_; depois de official foi obrigado a dar seis mezes de aprendiz em castigo de uma falta que commetteu na _sexta feira_ de Passos de 1845, e ficou tendo o numero vinte e seis, que é duas vezes _treze_. Assentou praça no 2.º batalhão movel em 1846, e durante oito annos foi numero _treze_. Representou pela primeira vez em theatro particular a _treze_ de junho de 1846; em theatro publico n'uma _sexta feira_, 30 de novembro de 1849. Foi escripturado para o Porto e embarcou para lá no dia _treze_ de maio de 1851. Fez o primeiro ensaio no Gymnasio n'uma _sexta feira_, 11 de março de 1853. E--para corôar este catalogo de _memoranda_--casou em dia de S. Bartholomeu!... Por entre este capharnaum de vaticinios tem lidado, triumphado, mais invulneravel do que o capitão de Homero--que o não foi no calcanhar.
Não só é dia de agouro a sexta feira; tambem para muitos o é a terça. O actor Santos,--depois de uns arrufos de artista com poeta, que houve entre elle e Francisco Palha--não quiz apparecer pela primeira vez no tablado da Trindade n'uma terça feira que se destinára para primeira recita de _Frou-frou_. Mas já estavam afixados os cartazes, alugados os camarotes: que remedio havia de dar-lhe? E deu-lh'o. Foi na vespera, segunda feira, ao palco; representava-se a _Flor de Chá_; no ultimo acto vestiu-se de china; na ultima scena, perdido entre os comparsas, dançou com elles o _can-can_ com que terminava a peça. Na noite immediata representou _Frou-frou_; era a segunda vez que apparecia ao publico da Trindade; não o sabia ninguem, mas sabia-o elle! Os agouros contentam-se assim.
O quarto treze nas hospedarias está de voluto quasi sempre. Agora já principiam a adoptar um expediente malicioso, e, visto o treze não se alugar unicamente por ser treze, substituem-lhe o numero por um doze repetido, e já não se vê por cima da porta senão 12--12.
Treze pessoas á mesa, prophetisa que isso custará a vida brevemente a algumas d'ellas. Ha pouco tempo esteve retido n'uma casa o filho de um amigo meu, que ia passear as tardes, quando o chamaram d'uma janella e lhe explicaram ser indispensavel a sua presença á mesa para se principiar a jantar. O rapaz allegava que não tinha vontade de comer, que acabára de jantar com os paes n'aquelle instante. Debalde! Não o largaram senão ao café.
Na vida aventureira dos mares têem sido sempre triviaes estes medos que vem das tradições e das prophecias. Deixam ás vezes de ser tolice, para ser apenas o terror sublime que se apossa dos espiritos mais elevados e mais nobres. Teve-os Moysés no cimo do monte quando avistou na baixa do valle os hebreus revoltosos, já com saudades da escravidão e das cebolas: e desanimou e julgou estar doido, e o certo é que avistou a terra da promissão, mas não conseguiu pôr lá o pé--e morreu á beira da realisação da sua idéa...
A illustração dos officiaes de marinha de hoje já quasi não admitte os agouros, mas entre a maruja ha ainda alguns. Padre a bordo, quando não é capellão do navio, annuncia refrega dura, viagem contrariada.--Mulato a bordo, é salceirada frequente, e por vezes--na linguagem maritima--vento de _gaveas nos terceiros_ e de _traquete na passadeira_.--Cadaver ao mar, predispõe para _tareia_ e tem de se aguardar vigilante o salto do vento para evitar o empandeiramento do velame.
Ás vezes veem como que disfarçadas, as predicções, nos brinquedos das creanças. Em os pequenos figurando batalhas na rua, em elles armando barretinas, arranjando bandeirolas, e travando combates, é signal de reboliço, signal de guerra. De outras vezes, se fingem conduzir um saimento, morre dentro em pouco alguem no sitio... É certo? Não é? Como quizerem. Os agouros, para mim, são _o tinha de ser_: consolação--de quem não tem outra!...
VIII
Feitiços