Da Loucura e das Manias em Portugal

Part 2

Chapter 23,971 wordsPublic domain

Ha lá uns patetas, que quasi toda a gente conhece por andarem no serviço dos banhos,--um sobretudo, que é popularissimo, o que tem voz de tiple--mas esses são a conta d'aquella missanga; a nata, a flor dos idiotas!... Preparam os banhos com a maior diligencia, são modelos de cortezia benevola, perguntam com affectuoso interesse se a gente gosta da agoa sobre o quente, recommendam, com agrado que captiva, que se toque a campainha em querendo que elles appareçam de novo, e estacam de bocca aberta em avistando o bello sexo! Ah! esses são os idiotas tafues, os idiotas como se quer. Não servem para muito; mas, bem aproveitados, até podiam servir para se encostar ás esquinas pelo Chiado fóra, ou espécar ás portas das salas nos bailes,--como janotas!

O tal que tem voz de tiple, toca flauta. Toca flauta, e é um melomano de não se parar com elle. Em se lhe fallando de gostar de musica, redargue logo:

--Se gosto de musica! Mas eu como musica, senhor, musica é que eu como!...

E ahi tira da flauta, e com uma ancia de sopro capaz de fazer virar faluas, larga a tocar coisas incalculaveis.

Mas isso são idiotas á maneira do que manda o diccionario da lingua portugueza de Fonseca--«_Idiota_, adj. es. de 2 g. _ignorante, sem estudos_.» E disse. A natureza, porém, vae um pouco mais longe do que o diccionario; e a pobre creatura humana recua atterrada na presença de uma aluvião de desgraçados que ha em Rilhafolles, não como o da flauta, que falla e toca, mas dos que não fallam: não pensam: não ouvem: chiam, guincham, riem, e babam-se. Esses são um pouco mais do que _ignorante e sem estudos_, e a gente ao vel-os tem vontade de segurar a cabeça, fragil como aquelle vaso de cristal a cujos manes Heliogabalo levantou um mausoleu para eternisar a memoria das ebriedades que lhe devia,--tal é o medo que se sente de que ella estale e se quebre como a taça do Cesar idolatra,--com a differença de que estes manes, que são as idéas e as paixões, em se caindo em idiota... não voltariam nunca mais!...

Estão para ali, no pateo; uns, passivos, fixos, sem sensações, parados e quietos, como o soldado na guarita, olhando no direito do nariz, capazes de ficar encostados á parede o dia todo...

Outros, agachados, conchegando o peito e as pernas, olhando sem saber para onde, nem se perceber para o quê; existencia vasia; vida sem drama; o horror sem lances.

Um, está gordo. Testa de um dedo de largura, cara de pau, pançudo, bonacheirão,--certo ar de paspalhice, immobilidade de figura decorativa.

Este, sentado no chão, junta um montinho de folhas, e depois dispõe-as a seu modo em carreirinhos: mas, se succede desmandarem-se-lhe, faz como a Sibylla de Cumas, que em o vento lh'as espalhando tirava dali o sentido. Depois, vergando a cabeça, fica a olhar para ellas...

Já estiveram alguma vez ao pé de uma cova aberta no cemiterio? Chega a parecer que os cadaveres são as almas dos tumulos, e que o sepulchro é que morre em não tendo ossos dentro.

Tambem com os idiotas, quando a gente olha para elles, pergunta o que será feito do que devia ter havido dentro d'aquellas cabeças, e parece que elles é que não existem já.

Não se lhes falla: que poderia dizer-se-lhes, se o da flauta é o _formica leo_ d'aquelle pateo horrivel? se elles percebem mal os gestos, e alguns não ouvem? se o destino os seccou como o sol secca os regueiros!...

Lembram o cortejo de Momo. Anda-lhes o corpo a cavallo nas pernas; teem cabeça de quem viu bicho; esgroviados: sorrir bruto: dando sempre aos hombros: uma especie, nos modos, do perfil de uma bengalla com castão figurando um saguí; voz difficil; meio gagos: o que quer que seja de um palhaço morto!...

Um, perdeu de todo a memoria, depois de um ataque de congestão cerebral; e está para ali sem dar accordo de si. Tratam-o como ás creanças; recommendam-lhe que não metta os dedos no nariz, e que não ande de joelhos pelo chão para não estragar as calças. Elle ouve, e esquece-se.

Alguns mastigam palavras, as mesmas palavras sempre, muito contentes, a rir sosinhos...

A _macaca_ apparece aos pulos. Conhecem-a todos por este nome. Não tem outro. Quando a mandam chamar, diz-se: «Chamem a macaca»; os guardas acenam-lhe e dizem-lhe:--«Anda cá, macaca!» Ella vem. Toda a gente que foi alguma vez a Rilhafolles nos ultimos annos a conhece. Entrou para ali no dia 5 de setembro de 1855. Tinha nove annos. Entrava no mundo pela peior das portas,--pela porta de Rilhafolles. Era enfesada, cabecinha aguda, orelhas grandes, ar bestial; ali lhe tem crescido o corpo, ha dezeseis annos. Não pede de comer, nem lhe importa isso. Diz-lhe o instincto que a natureza e a sociedade lhe devem um prato de sopas no jantar de cada dia e espera que lh'o vão metter na boca. Quando vão dar-lh'as, come-as,--sem cuidado e sem agradecimento. Agradecimento de quê? Quem imagina que o ar no dia de ámanhã já não seja respiravel, e que o sol nunca mais torne a sair? O mesmo se dá para ella com as sopas. É abrir a bocca, e lá lhe irão parar. Está gorda, agora, com os seus vinte e quatro annos. O director diz que está magnifica; e queria que eu lhe apalpasse a cabeça para vêr até que ponto é molle. Consideram geralmente lá em Rilhafolles que ella está muito bem; saudavel e feliz. E dahi,--talvez! Pobre _macaca_! Desraizada do mundo, e plantada na vida como uma cebola de jacintho na agua!...

Passam ali a sua vida, no pateo, e quando olham uns para os outros--não sei se se vêem. Toda a gente faz alguma coisa, elles não fazem nada; toda a gente pensa alguma coisa, elles não pensam em coisa alguma; até os animaes teem memoria, e lembram-se de quem lhes faz mal, de quem lhes faz festas, conhecem as pessoas com quem teem vivido:--elles não se lembram nem conhecem ninguem. Uma aranha é mais do que elles! a aranha arranja a teia, elles não arranjam nada!... De fóra d'aquella casa, anda ahi pela cidade o espirito, a religião, a politica, a honra, o crime, as desordens da turba: elles não sabem nada d'isso; estão exilados no mundo, e ouvem apenas cortando os ares os gritos bravios dos furiosos!

IV

Os furiosos

Estes já não tentam dissimular o estado em que se acham,--triste prova de que não conservam sequer um restosito de juizo!... De physionomia vivaz e animadissima, semblante exaltado, olhos extraordinariamente mettidos pelas orbitas, pelle encarquilhada, face cavada e esqualida, saltam-lhes por entre os beiços corádos pela febre, como por um arquinho vermelho, gritos e apostrophes que nem dardos!...

Têem idéas, mas fugitivas, sem ligação, quebradas. Grande agitação, grandes accionados, grandes berros. Ora vem, ora vão. Fallar sem descanço,--para um--para outro. Puchar a enxerga, atirar com a enxerga. Ir ás grades; segurar, apertar; lucta da carne com o ferro... Vontade visivel de apanhar alguma cousa á unha, de poder deitar-nos a mão. Mas,--nem mesa, nem cadeira: nem, ás vezes, uma tigela para despedaçar...

--Anda cá! Olha! Chega aqui! dizem alguns, com perfida languidez, certo agrado felino, o risinho da hyena,--a morrerem de desejo de nos saccudir de encontro ás grades.

Alguns fallam em dinheiro, desconfiam que fomos nós que os roubámos. Outros, de amores; recordam-se, inquietam-se, agitam-se, enfurecem-se... Alguns têem ainda o sentimento da ambição, querem grandezas,--d'essas mesmas grandezas pequenas que por ahi se arrastam de gatinhas com ares de ir n'um andor--e gritam que são magnates e figurões: a tal ponto é profunda nas creaturas a vaidade, que mesmo mortas para o mundo ainda conservam a idéa de alardear possança! Mas já não têem sequer, como os outros, papel doirado, para fazerem corôas; nem ha coberta na enxerga para poderem fingir que se embrulham no manto dos imperadores...

Donde provêm o mal?

Quem poderá sabel-o! De alguma paixão desordenada, enorme, extrema. Quem nos diz até que a loucura n'aquelle grau, a loucura d'aquella qualidade, não seja simplesmente a paixão levada ao excesso?... Estão ali durante as horas do ataque, as horas da furia, fechados nos quartos, quasi ás escuras para que a claridade lhes não fira a vista. No decorrer do anno, ligeiro para nós, pesado e cruel para elles, quantos dias de agitação e de tortura,--com as mãos atadas, os braços presos, as rações da comida diminuidas; e as grades, as grades frias e negras, por unico horisonte e unica companhia!...

Já não ha ver ali a gordura pagã; são magros quasi todos, e parecem velhos: a loucura ainda envelhece mais do que as paixões; abatem-os, dissecam-os as furias; alguns parecem esqueletos, que a ira unicamente acorda; um ou outro tem a mão finissima, mão de quem não faz nada, de quem não trabalha ha annos; de outras vezes parecem os ossos da morte com pelle por cima... em ar de luva!

Ali gastam e consomem a vida, separados, presos, isolados, nas agonias insondaveis da desesperação. Só a mãe de algum ou a mulher, vão vêl-o; unicas dedicações n'este mundo que não abandonam as angustias persistentes. Lá esteve um, famoso e illustre, o mestre do folhetim em Portugal, e sua esposa ali foi todos os dias vel-o e fazer-lhe companhia--colhendo no ceu a palma do combate terrestre e vendo sorrir-se para ella e abraçal-a meigamente aquelle ente querido, que havia representado um dos primeiros talentos d'esta terra, e que parecia, lucidamente, dizer-lhe com a vista que deve um dia ser feliz na eternidade a alma que n'esta vida teve dedicação pelo infortunio!

Mas, em geral, como se os olhos humanos não devessem contemplar o espectaculo d'aquella dôr horrivel, poucos são os que teem quem os visite, e ali se conservam até que um dia o padre do hospital vá junto d'aquella enxerga resar-lhes ao ouvido, e, na hora em que vão emfim libertar-se do mundo, fazer a diligencia de que elles repitam as orações que lhes disser...

Todos ali, mais ou menos, se entreteem e se divertem. Só elles não. São os poetas da casa;--sonhar, soffrer. Mesmo se teem officio, é raro aquelle que pode aproveital-o uma hora ou outra,--e isso mesmo é arriscado ás vezes. Lá vi, quando fomos visitar as officinas, um que dizem ser excellente marceneiro e de quem me mostraram um trabalho curioso:--uma maquineta, como costuma chamar-se-lhe, um nicho de madeira para Santa Philomena,--santa com que tinha grande devoção uma enfermeira de Rilhafolles, que fôra educada n'um convento de freiras de Leiria, e que morreu ultimamente doida n'este mesmo hospital onde fôra empregada. As outras enfermeiras, em obsequio á memoria da sua antiga companheira, conservam o culto á santa.

O nem sempre amavel marceneiro estava logo á entrada das officinas com o banco e a ferramenta, na occasião em que o director o convidou a mostrar-nos as suas obras.

--Mostrar o que? berrou elle; e logo se lhe injectaram os olhos; e travando de um pedaço de taboa partiu-a, batendo com ella no banco.

--Bem, bem! disse o director. Hoje estás muito zangado; deixemo-nos d'isso! E virou logo comigo pelo mesmo caminho.

Uma circumstancia interessante é a placidez do director, o desembaraço com que anda por entre os doidos, e a bondade e descanço com que os trata. É isto resultado do seu genio, e em parte tambem de querer dar exemplo aos empregados de que não deve ter-se medo dos doidos, porque o medo aconselha cobardemente toda a especie de crueldade. Em vez de injurias e de chicotadas, como se usava d'antes para com os pobres furiosos, sem se lembrar ninguem de que mais humana seria a lei que de vez os condemnasse á morte, emprega-se o geito, a doçura, o bom modo, para não espatifar brutalmente, e apagar de todo aquelles restos de intelligencia, que ás vezes só de passagem está nublada.

Todos mais ou menos se entretêem ali e se divertem alguma vez, menos os furiosos. Ha theatro de tempos a tempos; e pelas festas de junho, arraial.

De ordinario os doidos que representam,--dos mais quietos, já se vê, e dos que costumam estar dias, semanas, mezes ás vezes sem dar signaes de alienação--dizem os seus papeis regularmente, mas falta-lhes expressão de physionomia, gesto, movimento, olhar, tudo que auxilia e completa a phrase. São espectaculos mais curiosos do que recreativos.

Até os idiotas poderão bailar nos arraiaes ao som da flauta do companheiro:--os furiosos, não; arredados de tudo e de todos, hão de ir gritando, extorcendo-se, rugindo na solidão atroz do seu carcere!...

O sentimento da liberdade, que sobrevive a todos, até nas creaturas que perderam o juizo, não os abandona ainda assim. Querem sair, sair!

As mulheres são mais furiosas do que os homens. Estes de ordinario agitam-se durante horas, depois caem prostrados no somno lethargico que succede á furia. Ellas, fallam e berram, dias, noites inteiras, e tornam-se mais notaveis nos insultos, no descomposto do fato, e até nas tendencias malfazejas--atirando sempre que podem uma tigella contra as grades, e os cacos á cara de quem vae.

Algumas são verdadeiramente horriveis.

Uma gira todo o dia--mas todo o dia!--descalça, em roda do quarto. Tira-se-lhe a enxerga para poder andar n'aquellas voltas, como a hyena na jaula. Depois, á noite, põem-lhe a enxerga: cae sobre ella, e enrosca-se.

Uma rapariga de Coimbra, que não falla senão de um retrato, tem de estar de collete porque marinha pelas grades.

Aquella, de Lamego, que dá pancadas em quem apanha, atira com o pão em pedaços--para as almas!

Esta, de Guimarães,--com certo ar de astucia machiavelica no fundo da loucura--está doida um dia sim, um dia não. No dia em que não está doida, trabalha. É uma alienação á maneira das sezões.

--Como está? pergunta-lhe o director.

--Sempre estou boa! responde ella.

--Ah! E então?

--Então sardinha com pão!

E, sem mais nada, enfurece-se, grita, ameaça, quer saltar, terrivel, hedionda, como se a noite e as Parcas lhe desenhassem no semblante as caretas da loucura.

Um moço esbelto e forte conserva-se de gravata de coiro, para não poder dobrar o pescoço--porque se morde.--Um velho grita por tal fórma, que ás vezes, de noite, as patrulhas de Arroios têem ido, sem saber o que é, em procura do sitio de onde vem aquelles ais...

Passados dias,--por não haver trazido apontamentos dos furiosos na primeira visita que fiz a Rilhafolles,--tive de voltar ali.

A tarde declinava, e os ultimos raios do sol iam a despedir-se d'aquellas tristes paredes. Ao passar com o sr. dr. Guilherme Abranches, que teve ainda a bondade de me acompanhar, por um d'aquelles corredores que serpenteiam ali em todas as direcções, vi dois homens sentados á porta de um quarto.

--Estão de guarda ao cadaver! disse-me o director.

Entrámos no quarto, vi um embrulho no chão, como que o corpo de um homem amortalhado,--um boneco, suppuz eu,--e duas tochas ao lado.

Não era boneco, era deveras um cadaver.

Na vespera fallecera em Rilhafolles um doido israelita. Prevenidos os seus, mandou o presidente da _Sociedade hebraica_ dois homens para envolverem o cadaver n'um lençol, deposital-o n'um quarto isolado, de cara e ventre para baixo, sem caixão, e ficarem de guarda á porta. Como era sabbado--dia santo para elles--não lhe mechiam em quanto não fossem nove horas. Haviam pedido, para a noite, café, pão, manteiga, genebra e cigarros. Na madrugada deviam partir para levarem o cadaver e enterral-o no alto do Varejão.

Aquelle era talvez o mais feliz de quantos ali ficaram n'essa noite. Já não ouvia sequer os clamores da raiva, os rugidos da paixão, os arrancos de desespero e de furia dos companheiros. Estes estão mortos tambem, de alguma maneira; mas é de mais, e é pouco! Se aquelles braços que se agitam, se aquellas vozes que estrugem, se aquelles dentes que rangem são a materia--que é da alma?...

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Á saida, o jardim é triste, triste; e os pingos de chuva, que ficam nas pétalas das flores, brilham que parecem lagrimas. Depois, se se levanta a cabeça, estremece-se ao ver o ceu, como contraste--por cima d'aquella miseria continua!...

V

Telha

Tambem os ha cá por fóra!

Mansos, com falla, sem _collete_, passando a vida á procura do motu-continuo, de um ministerio adoravel, de dhalias azues, de acabar com o _deficit_, da perfeição no amor, do circulo bicudo...

Avista-os a gente por essas ruas, sequiosos de barulho, persuadidos de que têem para cumprir uma missão, exercer um sacerdocio, defender uma causa, fazer tremular victorioso um estandarte; e observa com estranhesa que, sem se saber de onde vêem nem o que querem, sem que alguem jámais os visse entrar n'uma escola ou comprar um livro, desprezem o mundo que os quiz empregar n'alguma cousa, e embirrem em ser tribunos unicamente, tribunos e heroes, prégando umas celebreiras no tom de quem salva a patria!

Pasma-se de ver outros atravessando a vida com ares de visinho--descarapuçado e de chinellas--sem mais bagagem do que a sua insolencia, altivos e petulantes, por entre a risota da multidão.

Alguns, pobres moços, levados da esperança, vivendo mal, açoitados pela sorte, emmagrecendo na luta; rindo sempre na bochecha da vida positiva, deitando a lingua de fóra entre desdens ás exigencias e riscos d'ella; desprezando o dinheiro, nervo de todas as cousas, que aplaina e floreja o caminho, torna facil estudar, dá independencia ao espirito; sustentando-se de theorias; compondo maximas e conceitos d'este genero:--«É o homem que faz o titulo, e não o titulo que faz o homem»;--e pondo-se a caminho pela vida adiante, pé cá, pé lá, como quem vae com botas de andar leguas, para ficarem estatelados na estrada sem solas e sem palmilhas. E para que, tudo isso? Para querer á força viver de litterato, n'uma terra em que as letras se vendem mais baratas que os tremoços, e cair agonisante, sem gloria e sem fortuna, em dôres sem grandeza, dôres que dão riso aos mais!

Já de creança, ás vezes, deixam perceber o que d'ali sairá! Um, pondera em menino que o sol não tem prestimo; e que a lua, sim: porque faz sol de dia, quando não é preciso, e de noite a lua dá claridade.

Vae crescendo, vivendo, engordando; quer a familia fazer-lhe casamento com uma viuva; mas o rapaz scisma, e diz:

--É melhor não casar com esta.

--Porquê?

--Tem o dobro da edade que eu tenho!

--E depois?

--E depois, é muito. Quando eu tiver cincoenta annos, vem ella a ter cem!

O pae fica embuchado, e medita.

Vae vivendo sempre, e medrando. Com o tempo torna-se homem politico. Quer endireitar o paiz. Para elle ha uma idéa só e uma só palavra--supprimir. No fervor da crise das economias vae de uma vez a uma reunião politica, onde se discutem os maiores problemas. É n'um terceiro andar. Muito escura a escada. Dão-lhe um rolinho. Aceita; desce, pensando nas economias; no patamar acha-se ainda com um bocadinho de rôlo; torna a subir, para ir entregar o resto; desce depois ás escuras,--pensando sempre em economias...

Quantos! Quantos andam por essas ruas!...

Este, quer á força parecer inglez. É filho de virtuosos burguezes nacionaes, e foi creado em menino por uma ama do Reguengo grande--como qualquer de nós; mas tem a preoccupação constante do _shoking_, usa bota de duas solas, calça sal e pimenta, encarquilhada sobre o pé, collete inglezado, gravata de seda frouxa com as pontas pendentes, caçadeira, chapeu de aba direita. Bambaleia horisontalmente na mão um bengalorio revirado n'uma das extremidades com muitos nós, muitos nós... Ah! Ninguem sente como elle escaldarem-se-lhe, ou, para dizer melhor, refrescarem-se-lhe as arterias com sangue inglez! Pára no meio das praças a examinar os monumentos; defuma o fato com carvão de pedra, para parecer que veiu do paquete instantes antes; e mira maravilhado a estatua de D. José, examinando, estudando, tomando apontamentos, medindo, comparando, admirando, criticando com gestos expressivos, sem perder tempo;--_time is money!_ E passeia; e corta; e gira; e vae indo, inglezmente, até ao alto de S. João. Estão abertas de par em par as portas do cemiterio... Entra, segue uma das ruas, examinando as inscripções das campas; escolhe um tumulo que lhe pareça commodo, e senta-se. Não ha, digam o que quizerem, melhor logar para ler o _Times_. O _Times_ está n'uma das algibeiras da caçadeira. Lê o _Times_ com imperturbavel serenidade. Acabada a leitura, apanha um raminho de cypreste, guarda-o na carteira: dobra o jornal e mette-o no bolso. É noite; vae para casa,--acabou de ser inglez até ao outro dia!

Ha um que foi celebre entre os bebedores; desde que os bebedores se chamam piteireiros, pareceu esconder-se. Os amigos, companheiros das sucias, estranharam que assim se despedisse do vinho sem dizer--agua vae. Elle respondia sempre, e responde--que já não bebe, que lhe fazia mal, que ia a soffrer por causa d'isso, que não vale a pena... Engana os outros, mas, o que é mais singular, engana-se a si. Em casa, fechado e sosinho, põe-se á mesa com uma garrafa e dois copos. Depois, como se fallasse com alguem:

--Prova, diz. Prova d'este, do Alemtejo!

E, disfarçando a voz, como se fosse outrem que respondesse, retroca a si proprio:

--É muito palhete. Bons vinhos mas muito palhetes! Prefiro, se insistes, um copo de Collares.

--É Collares picado o que posso offerecer-te!

E, pondo na mesa a garrafa, enche dois copos.

--Deixa-o sempre levar aos beiços. Não é traiçoeiro, e acompanha o queijo amavelmente.

--Mas nota bem que quero fazer-te uma saude!?

--Dás-me muito gosto.

--Uma saude com um copo de Xerez generoso.

--O Xerez contende commigo. Vinho aguardentado e febril. Conservemo-nos n'este...

--Mais um copo, visto isso, de Collares; e passaremos ao Porto, que de certo não te faz nervoso como os vinhos brancos?

--Está dito. Acceito o Porto. De que anno o tens?

--Não bebas datas. Contenta-te que seja bom. Que te importa o anno?!

E uma garrafa de Porto vae muito lampeira, em cima da mesa, fazer companhia á do Alemtejo e á de Collares.

--Á tua saude! diz elle, enchendo dois copos.

--Á tua saude! prosegue, bebendo ambos.

Ah! Quantos, quantos!

Alguns até de que ninguem desconfia e que fazem cousas que chegam a parecer serias; os folicularios, inaptos ou calumniadores; inaptos não reparam que se cortam no proprio gume da arma; calumniadores, não vêem o tribunal da Boa Hora e têem-o diante de si;--uns exaltados ridiculos, a arder em aspirações phantasticas;--uns pimpões de palavra, sempre em prologo de valentia, pernada cá, pernada lá, quatro leguas á roda da sala em passo gymnastico, preparando casos, annunciando heroismos, vociferando contra este e aquelle, resolvendo castigar, destruir, arrazar: _tutto parole, parole, parole!_--Um que quer cantar sem voz, e móe os ouvidos das pessoas por casas particulares, festas, concertos, cantando tudo, dizendo que dá o _dó_, e não dando cousa nenhuma senão cabo da paciencia á gente!

O jogador tençoeiro, que vae de queda em queda--como outros vão de bamburrio em bamburrio--para cair no abysmo, para que se lhe devore a ultima libra, para que as dividas lhe levantem assuada á porta, para que a mão da penhora lhe pouse no hombro, e as garras da usura o esganem!...

O que desdenha de tudo, estraga tudo, como a toupeira n'uma horta; e massa com semsaborias, que caem no ouvido syllaba por syllaba, como pingos de chuva da rama de um chorão...--O que attribue tudo aos jesuitas, não scisma, não dorme, não sonha senão com jesuitas. Tudo a mão de Roma, a mão de Roma...--O que, em apanhando piano, principia logo a tocar com um dedo horas a fio.

Os sexagenarios maganões, que armam terceira mocidade, postiça como a cabelleira e a dentadura, e vão, bem retocados, em conquista...

A antithese d'esses:--velhos precoces, já enfastiados de tudo em meninos: aventuras que não são visiveis sem lente; escandalos que Platão consideraria chôchos; concebendo Lisboa apocalypticamente, como se fôra mãe dos sete peccados mortaes e excedesse as orgias de Babylonia. Não sabe a gente, ao ouvil-os, se está no Azul se no meio do chão! Aos vinte annos já não dançam, e usam luneta côr de fumo nos olhos fatigados... do gaz do Martinho!