Da Loucura e das Manias em Portugal

Part 1

Chapter 13,928 wordsPublic domain

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DA

LOUCURA EM PORTUGAL

Lallement frères, Typ. Lisboa, 1871

DA LOUCURA

E DAS

MANIAS EM PORTUGAL

ESTUDOS HUMORISTICOS

POR

JULIO CESAR MACHADO

LISBOA LIVRARIA DE A. M. PEREIRA--Editor 50--Rua Augusta--51 1871

RILHAFOLES

I

Os doidos

Tudo é alegre, á entrada: flores e arvores. D'ali a nada,--da porta para dentro parece já que passou o outomno por cima da primavera d'aquelle jardim!... Apagam-se as côres, escurece o céo, ouve-se estalar a casca das arvores... Principiam as physionomias a transtornar-se; já os olhos não são outra cousa senão buracos luzidios; cavam-se as faces, parecem caretas os sorrisos, não teem os gestos significação, as feições são vagas, a fórma tem contornos indecisos; tudo são personalidades phantasticas, existencias ficticias; linguagem que não se entende; gente estranha, que dá idéa dos habitantes da lua!...

Alguns dançam, e cantam; e passa a tristeza n'aquella alegria, e transpõem-se effeitos de claro escuro na musica e na voz delles, envolvendo-lhes a idéa como n'um crepusculo!... Parece que se estão avistando ali as visões de Swedenborg, aquelles espiritos do ar que conversavam uns com os outros e que se entendiam pelo piscar dos olhos... Como essas taes conversas no fundo das nuvens, assim é desusado e insolito quanto por lá se ouve!

Ás vezes chega a parecer-nos que é natural tudo aquillo; que o ser como nós somos e portar-se como nos portamos--é ser affectado, é ser pedante; que assim como na natureza tanto ha sensitivas como ha cevada e centeio, assim deve haver nas creaturas sentimentos complexos que a linguagem vulgar não poderia dar; que são elles quem tem juizo; melhor do que juizo, talento: a finura, o guindado, a quinta essencia do espirito; que em nós ha simplesmente mudança de convenções; que elles estão mais perto do estado natural; que tudo vae da maneira de ver as cousas e de as julgar; da opinião dos homens e do genio e moda dos tempos; que tambem o amor já foi outro quando inspirava as filhas dos patriarchas a dar de beber aos pastores; e depois, na Illiada, quando levava Helena ao leito nupcial de Páris; na Grecia, creança a quem ensinavam gracinhas anacreonticas; ébrio, nas orgias de Roma; na idade media, fada, estrella, anjo; mais tarde tendo azas como os desejos; e sendo hoje um casamento commercial, um dote de noiva, cem contos de réis em inscripções!...

Assim chega a pensar-se ali, que a vida, que é um entrudo, tambem varíe de mascaras, de modas, de elegancia e de fallas; e que o estylo dos pobresinhos doidos, comquanto diverso do dos tempos em que vamos de tanto tino e conceito, seja talvez mais subtil, mais colorido, e mais exacto!...

Ha ali, hoje, quinhentos e onze d'esses infelizes; duzentas e cincoenta e sete mulheres, duzentos e cincoenta e quatro homens; tres creanças idiotas. Quando o marechal Saldanha fundou este hospital em 1850 o numero dos alienados era de trezentos; ultimamente tem crescido por fórma que foi preciso augmental-o, acrescentar um pavimento, e annexar o edificio de recolhidas na travessa de S. Bernardino, onde vão pernoitar cem dos tranquillos e invalidos. Ha pensionistas e indigentes. Os pensionistas dividem-se em quatro classes: e pagam, conforme as commodidades e o numero de enfermeiros que requerem, 800 réis, 480 réis, ou 240 réis por dia, tendo os seus quartos em repartição separada; os da 1.ª, 2.ª e 3.ª no mesmo pavimento; os da 4.ª em sala commum.

Os doentes entram ali por ordem da auctoridade publica, ou a requerimento de particular,--com attestado do medico, auto de investigação, e, se são pobres, certidão do parocho,--e ficam quinze dias em observação; findos elles, ou a doença não se verifica e são immediatamente despedidos, ou, verificada a alienação, colloca-se o doente na repartição que o director lhe destina, e segue o tratamento.

O tratamento! Isto é,--o estudo, a observação constante, as experiencias, mil tentativas, o diligenciar permanente de chamar á razão e ao sentimento das cousas aquellas pobres cabeças cançadas de sonhos, de lutas, de prazer ás vezes, de amarguras, de esperanças, de enganos!... Vêl-os como medico, como philosopho, e como moralista,--unica maneira de poder assenhorear-se-lhe dos segredos. São doidos; mas de onde provém cada uma d'aquellas loucuras,--a de um, que nunca perde a pista do caracter que tem, e em tudo que diz e no que faz vae de accordo sempre com a sua mania; a do outro que não póde juntar idéas; a d'aquelle, que conserva a lembrança do que fez durante os accessos, e pede depois desculpa brandamente, humildemente; a d'este, que perdeu de todo a memoria; a d'aquell'outro, que a conserva de tudo, excepto de logares, ou de datas!?

Ah! É preciso vêl-os, por aquelles corredores interminaveis e singularmente alegres, em que a luz entra por todos os lados, e a cada passo por alguma janella se avistam campos e se descobre a cidade; é preciso vêl-os nos vae-vens de uma carreira e de uma fallacia, que não cança nunca, para um lado, para o outro, d'aqui, d'além, accionando, gritando, fallando--este a si mesmo, aquelle a ninguem, um á parede, outro ao céo!... Reis, sabios, escriptores, millionarios, todas as ambições, todos os orgulhos, todas as preoccupações, todas as vaidades. Lá vi um poeta; mostrou-me os seus ultimos versos, que se intitulam:

«Elogio á exma. sra. D. L. de S. F. no dia natalicio de seu nascimento dividido em tres partes. Passado, presente e futuro.»

Um jornalista deu-me o programma do seu jornal novo:

«_Grande globo do Grande enredo_

Jornal das mentiras purificadas e saidas do funil estampadas calligraphicamente em papel, respeitando as dignissimas auctoridades.»

Alguns têem grande habilidade, habilidade util e séria, são pintores, trabalham nas officinas, e fazem os differentes serviços do hospital, dos banhos, e da quinta. Á entrada, entre o gabinete do director e a secretaria, está logo a primeira aptidão aproveitada,--o continuo, que é um doido! Leva papeis, traz papeis, dá recados; está ali a toda a hora, desempenha perfeitamente, e não ganha nada.--Que lição... a continuos!...

Por isso, quando se chega ali e a gente o vê, aquelle curioso porteiro, homem forte e sizudo, com o seu fatinho de briche,--todo grave, cortez, benevolo--não deixa de vir á idéa que, se lhe der na vineta, elle póde abrir a porta para se entrar... e não a querer abrir depois para se sair; e vae uma pessoa lembrando-se mesmo sem querer do caso do carvoeiro... O carvoeiro tinha lá ido para tratar de negocio, e foi entrando por ali dentro até o apanhar um guarda que o tomou por hospede novo, a quem se devia dar um banho, como é costume quando para ali entram.

--Vamos ao banho, vamos! dizia o guarda.

--Qual banho?! retorquia o carvoeiro pasmado.

--É muito bom. Para se ficar limpinho. Vá, vá!

--_Num quero_, dizia o carvoeiro. _Leba de xalaxas! Nunca tomei banhos na minha bida! Arreda para lá!_

--É uma ceremonia, replicava o guarda; só uma ceremonia. É optimo para a saude, e de grande aceio.

O carvoeiro, como viu que instavam tanto, consentiu por fim em tomar o seu banhosito n'uma d'aquellas magnificas tinas de marmore, admirado ao mesmo tempo de tantas attenções que tinham com elle n'este estabelecimento do estado.

Vestiu-se depois outra vez, muito fresco, e quiz sair. Mas, sair querem elles todos e não se ouve por lá outra cousa.

--Ámanhã, disse-lhe o guarda.

--Ámanhã!?! redarguiu o homem.

--Sim proseguiu o guarda! habituado áquellas exigencias e provido sempre de paciencia e de fallas dôces para se entender com os enfermos. Ámanhã, quando o sr. director passar a visita, provavelmente dá-lhe alta, e vae vocemecê passear.

--_Paxar a bixita!_ uivou o carvoeiro. _Eu n'um estou doido, démo!_

E ahi se zangava, e ahi gritava, e quanto mais se agitava mais o tomavam pelo... que não era,--até que chegou o fiscal que esclareceu o caso e o mandou para a rua, mudado tambem--como aquelles seus compatriotas do poço, de quem já de uma vez contei a historia,--porque tambem tinha... lavado a cara!

A casa é triste; não poderia deixar de sêl-o, porque a imaginação vê sempre em Rilhafolles o _lasciate ogni speranza_, um beco sem saida, o mais fatal dos carceres, e cuida sempre ouvir os gritos dos furiosos e o chicote dos enfermeiros... Entretanto ella é o menos triste que uma casa d'essas póde ser, pelas condições especiaes em que está collocada, o ar e a luz, e tambem pela dedicação notavel do director o sr. Guilherme Abranches, e pela escrupulosa diligencia dos empregados. É preciso ver com que methodo, com que bondade affavel, com que resignado carinho são ali tratados aquelles infelizes; conhecem-o quasi todos elles, dizem-o, disseram-m'o a mim uns poucos.

E todavia que balburdia, que capharnaum! Em todo o comprimento de um corredor gira impaciente um ambicioso que quer ser deputado, que se propõe em todas as legislaturas, e anda constantemente a ensaiar discursos.--Um, que nos diz que é coronel, e d'ali a nada que é marechal, e um instante depois que é elle o proprio marechal Saldanha, conta-nos os seus feitos d'armas da vespera e do dia.--Um piloto da barra, que entrou esta semana, mergulha nas lembranças do mar e cae n'uma melancolia profunda.--Um, que foi porteiro do sr. barão de Santos, conta como foi que endoideceu, e é a verdade: indo a Loures enterrar junto de uma arvore duzentos mil réis de economias, e achando-se depois roubado.--Um moço, filho de gente pobre, entretem-se em cobrir cartões do chamado _jogo da gloria_, e manda ao pae o dinheiro que ganha n'isso. Um mathematico, bom latinista, que tem o curso do seminario de Santarem, enche o quarto de papelada e a papelada de calculos:--«Diga-me, pergunta-lhe o director, o senhor já prégava lá no seminario?»--«Pois está visto, responde elle; como prégo aqui; a mesma coisa.»--Um, alegre e risonho, philosopho sem o cuidar, coração que ainda não saiu da infancia, nascido para ser alvo de qualquer ajuntamento, mostra-nos por uma janella os campos, os cabeços virentes, os seus palacios, e algum particular gracioso e ainda não observado d'aquelles sitios que todos lhe pertencem.--Outro vae-se comsigo só pousar a um canto.--O famoso Bertholo do Cadaval, que uma noite com uma faca na mão poz em susto a villa inteira, conserva-se de collete de forças, pallido e sinistro, com vontade sempre de matar alguem.

E riem-se uns dos outros; e uns dos outros me dizem ao ouvido de passagem, quando me vêem tomar apontamentos:

--Não faça caso, não escreva o que elles dizem; são doidos!...

II

As doidas

N'um comprido corredor com quartos de um lado e outro encontram-se primeiro as que ainda têem alguem n'este mundo; as que não estão abandonadas de todo pela sorte á hediondez da sua desgraça, e a quem a familia, ou algum parente, paga o quarto em que vivem. Essas são as felizes; ainda têem lá de vez em quando quem as visite, quem lhes leve algum presentinho, quem lhes dê um dinheirito qualquer para apetites--comprar marmelada quasi sempre. São as felizes, essas; são as fidalgas,--_as fidalgas de Rilhafolles!..._

Passam n'aquelle corredor enorme--que o espectaculo monstruoso d'ellas torna maior ainda, correndo; umas gritando, apostrophando, outras fallando ás enfermeiras, outras encolhendo-se de receio ao vel-as, entrando nos quartos, saindo, entrando, dirigindo a palavra ás visitas ou passando-lhes ao lado orgulhosamente, desdenhosamente.

Esta, olha para nós com serenidade e indifferença, e parece dizer com a vista que tudo é sempre o mesmo n'este mundo e que não ha ver n'elle nada de novo--grito melancholico, que tem atravessado as edades; idéa triste e fria.

Aquella, que viveu de um sonho e encadeiou todos os seus desejos a uma chimera,--coração ardente, alma profunda e vasta para quem o amor foi tudo,--odeia os homens, indigna-se, enfurece-se em os vendo, e mergulha nas sombras escuras da loucura, nos abysmos tenebrosos da sua idéa fixa, como se procurasse de cada vez segredos novos que a tornem senhora das forças ignoradas da natureza e lhe dêem voz e mando no mundo dos espiritos.

Essa, d'ali, conta uma historia. Uma historinha galante. Gostou de alguem. É moça e bonita; o alguem era bonito e moço. Até aqui tudo é risonho, e ella sorri. Depois, veem as nuvens; quizeram affastal-a d'elle, para a levar a outro; o outro era um senhor: o alguem não tinha outra riqueza senão ella gostar d'elle; o outro era poderoso, o alguem era ninguem; casaram-a com o outro. E o resto? O resto não quer ella dizel-o; e é como se o haja deitado ao mar n'uma d'aquellas caixinhas,--tão fechadas que ninguem as podia abrir,--que os pescadores das _Mil e uma noites_ achavam ás vezes e de que sahia fumo escuro pelas fendas!

A d'além, n'aquelle quarto, estirada sobre um colxão: levantando-se, deitando-se, vindo á porta, estorcendo-se, caindo prostrada: reerguendo-se mais sonhadora, mais desejosa da felicidade e da vida, pensando no amor, sempre no amor e nas venturas ineffaveis: rasgando-se, compondo-se, suspirando, anceiando, é uma mulata; tem duzentos contos de réis de fortuna. N'um dos seus quartos ha um piano, onde vi outras tocando, em quanto ella arredada de tudo e de todos estava entregue apenas á sua inquieta phantasia. É uma mulher esbelta, opulenta de fórmas, lembrando as feiticeiras do Oriente; uma d'essas organisações colossaes como as que a terra produzia quando era nova e que absorviam em si umas poucas de existencias!...

As enfermeiras tratam de a tranquillisar, quando observam que com o ver visitas principie a agitar-se; encostam mais a porta do quarto: e continuam caminhando gravemente, com o seu ar impenetravel; impenetravel ao ponto de se estar sempre em duvida ao ver o olhar vago d'ellas se tambem serão...--se as doentes tambem serão enfermeiras?

Vão andando de chave na mão, e apresentam ao director uma ou outra doente que precise ser examinada. Em geral teem ar de boas creaturas essas empregadas, e corrigem um pouco pela sua presença a impressão penosa que se experimenta ao atravessar aquelle triste captiveiro.

As doidas cercam-as, pucham por ellas, pedem-lhes para alcançar do director ordem de saida: que já é tempo, que é de mais, que não podem já...

--Ámanhã! respondem ellas sempre. Ámanhã.

E as pobres doidas ficam-se sorrindo áquella palavra:--Ámanhã!

Uma, aqui, sem fazer caso do delirio que vae em roda d'ella não faz senão costurar; coser, coser, coser; e gritam, e pulam, e dançam, e ralham, e atropelam-a, e ella vae costurando, cosendo, cosendo, tranquillamente, prudentemente, como se fôra o sol no meio da noite, a acção no meio da idéa, a rasão no meio da loucura!

Outra falla sósinha, e ri. De que está a fallar sempre? De que está sempre a rir? Está a rir das coisas, e a fallar de um certo, por causa de quem veiu a observar que a maior parte dos amantes ficariam contrariados com o possuir para sempre e sem partilhas o objecto da sua adoração; e que, se se dirigem mais homenagens ás casadas do que ás solteiras, é porque o marido é um obstaculo que ninguem supprime, e dá, por isso mesmo, a melhor latitude a protestos de dedicação. Está á janella a olhar para os campos e a farejar tormenta em tudo--no voejar dos passaros, na pressa das formigas... Queixa-se de ter conhecido a vida, á sua custa;--a peor maneira de conhecer as coisas. Ás vezes não é segura, e quando se exalta vae dando bofetadas em quem apanha; previnem-me disto.

Ai! a tafula! a tafula! Lá armou o seu chapeu com bocados de chita e papel de todas as côres; duas rolhas, uma penna de rama, e o badalo da campainha. É a catita! É a janota! Pobre e desgraçada elegante, que tem a mania das modas, préga uma saia ao meio da outra para figurar vestido de cauda grande, quer ver-se nos espelhos, quer que a achem galante, que a admirem, que digam nos jornaes que estava deliciosa no baile de tal, que tambem deu uma _soirée_ onde estava a primeira sociedade, que a sua _toilette_ era primorosa, que está já em vesperas de partir para o campo, que toda a Lisboa vae ficar saudosa d'ella... E conversa comnosco, e dá ao leque, e coqueteia, e mostra-nos as pulseiras, os anneis fingidos, a sombrinha improvisada; e toda se requebra, e compõe a manga, e pucha a camisinha, e, cuidando ás vezes que se está dançando os _Lanceiros_, faz-nos a cortezia.

Uma menina, que deve ter vinte annos, apparece á porta de um quarto onde estão algumas mais tranquillas a costurar e a fazer _crochet_. Olha para mim fixamente e como esperando que eu lhe falle. O director vendo isso, pergunta-lhe se me conhece.

--Parece-me que conheço, responde ella.

O director diz-lhe o meu nome.

--É isso mesmo; já vi o retrato n'um livro.

É da Ericeira, esta menina; muitas das leitoras se lembram talvez d'ella, e toda a gente que ali tem ido a banhos lhe conheceu o pae,--o chamado Ericeira, o capitão Ericeira, que morreu ha poucos mezes. Nos fins do ultimo outomno procurou-me uma manhã um homem baixo, vermelho, atochado, de cabeça grande, sobrancelhas fartas, perna curta, tronco forte, especie de Han de Islandia em velho; trazia uma carta do meu amigo Augusto Tallone, que m'o apresentava dizendo que por ter lido um folhetim meu a respeito da Ericeira elle quizera conhecer-me;--era o pobre capitão. Conversámos um pouco de tempo; elle fallava com difficuldade. Agradeci-lhe o favor da sua visita e despedimo-nos até o verão, na idéa de que eu fosse á Ericeira este anno; morreu tres mezes depois, coitado, e agora fui encontrar a filha em Rilhafolles!...

A pobre menina tem um parecer agradavel; não alegre, mas suave e resignado. As poucas coisas que disse ao director nada tinham de tresvariado nem de demente; o aspecto mesmo é natural, assim no olhar como nos modos. Tem por entretenimento a mania de fazer versos, e cedeu-me uns que estava compondo e que lhe pedi; são versos certos, euphonicos, mas em que não se percebe nunca a idéa e em que as palavras baralham tudo:

Amei, infanta e leda como a aurora Dos sonhos d'esse infante adormecido; Ao rei o teu gemido, o teu trovar, Ao throno o teu sondar encanecido.

Harpejo d'alma, lhana, feiticeira, Gotejo em teu rollar mil alegrias, E colho em cada nota que desfiro Insomnias do porvir, crueis magias.

Felizmente ellas não teem a consciencia da miseria humana que as esmaga; e vão vivendo, vivendo até chegarem a velhas, algumas.

A que, de todas, me produziu mais viva impressão foi uma formosa rapariga que não quer fallar, e que tem levado a teima por diante atravez de todas as diligencias. Estava n'uma das salas, agachada a um canto; parecendo não reparar no que se passava em redor d'ella, de olhos no chão, com a cabeça encostada ás mãos, ar de recolhimento profundo e invencivel. É o primeiro exemplo de mutismo por teima que tenho visto; e irreflectidamente, insensivelmente, disse-lhe não sei o quê na esperança de que ella responderia. O director, que se prestou com a mais amavel paciencia a todas as minhas curiosidades, disse-lhe:

--Vamos; levante-se; estão fallando comsigo!

Ella poz-se de pé. É uma rapariga alta, bem feita, de cabeça lindissima, a mais bonita cabeça de mulher que se póde vêr, brilhante, inspirada, olhos grandes e melancholicos resguardados por longas pestanas, cabello negro e farto, feições accentuadas, expressão dominadora; certa graça aspera; o que quer que seja de caça brava; a bellesa crua, como fructa verde; uma formosura dos montes e das serras, ardente e pittoresca!

Teem sido baldadas quantas tentativas se teem feito para alcançar d'ella que se resolva a fallar. Ultimamente o director recorreu aos banhos fortes; e havia já conseguido, na vespera exactamente do dia em que lá estive, que, ao sobresaltar-se com o calor da agua, ella dissesse: «Ai Jesus»! Taes são as duas unicas palavras que essa pobre creatura tem dado desde que ha uns poucos de mezes para ali entrou; um «ai», e o nome por excellencia, o nome divino, que diz todas as agonias e todas as esperanças, emblema da humanidade e symbolo de todos os emblemas que a alumiam: = Jesus!...

Havia já tres horas que andavamos por aquelles corredores e por aquellas salas; e, ao descer uma das escadas, suppondo que iamos sair não pude deixar de dizer ao sr. dr. Abranches:

--Emfim!

Mas o director sorriu-se, e retrocou:

--Falta-lhe ver os idiotas.

III

Os idiotas

Por mais seguro que se esteja de si e dos outros; por mais vaidosa confiança que uma pessoa tenha no seu juizo, e na lealdade dos empregados de Rilhafolles,--é inevitavel o olhar, de quando em quando, como que receioso, para aquelles guardas que fazem o favor de nos formar sequito, com um molho de chaves na mão.

Têem cara de bons, devem ser optimos, propensos a affectos benignos, e dotados de inexhaurivel fonte de branduras--estou persuadido; mas dão ás vezes um geito ao corpo, e de outras vezes olham-se entre si como piscando os olhos, com um modo natural, naturalissimo de certo, bem sei, mas que o sentimento febril de terror--que invencivelmente se apodera de quem ali se encontra, sem estar habituado a ir lá--transforma em indicios de uma perfidia atroz!

Quando nos encaminhavamos para ir ver os idiotas, cortámos por uns corredores que se me figuraram mais escuros, e descemos por uma escada tortuosa, um pouco sinistra, que levava tempo a descer, e dava tempo a pensar,--um diacho de escada que acordava idéas phantasticas de corredores talhados em penedias, paredes com hyerogliphicos e procissões pintadas, quartos, com poços e ganchorras, para ir dar a outros quartos de onde desemboquem outros corredores, mosqueados de gaviões e serpentes;--lendas de pedra que só os doidos entendam bem, mas que nos dêem a pensar a nós que tambem póde succeder o ficarmos lá...

Eu olhava de esguelha para o director, e chegava a parecer-me ás vezes que me olhava elle tambem de soslaio. É o terror, horror, pavor, de Rilhafolles. Sentimento especial que só ha ali, que só ali se conhece. Lembra-me aquelle-caso de um sujeito, a quem o dr. Pulido no tempo em que foi director d'este hospital convidou de uma occasião a jantar dizendo-lhe que lhe havia de mostrar os doidos.

--Nunca viste? perguntava-lhe o doutor.

--Não, nunca vi.

--Pois has de ver. É curioso.

Pozeram-se á mesa em companhia de dois doidinhos socegados, pessoas finas que estavam recolhidas em Rilhafolles havia pouco tempo.

O sujeito olhava para elles pouco á vontade, pensando de si para si no nadinha imperceptivel que separa a razão da loucura...

Depois, por acaso, perguntou ao dr. Pulido como é que costumava fazer para levar para ali os enfermos. O dr. Pulido fixou-o com o olhar um pouco vago que tinha, bem devem lembrar-se d'isto os que o conheceram--e que parecia de alguma maneira ser o reflexo do olhar dos doentes, e respondeu:

--Não custa nada. Em sendo pessoas de certa classe, a familia pede-me para ir vel-as, convidam-se a jantar, veem sem desconfiança, e, tão depressa cá as apanho, em ellas querendo ir-se embora já acham as portas fechadas.

O outro ouviu isto cobrindo-se de suores frios, e acudiu-lhe a idéa de que aquelle convite tambem fosse um laço. Á sobremesa puchou pelo relogio, pediu desculpa de não se poder demorar, levantou-se á pressa, despediu-se, e ao chegar ao pateo largou a correr.

É que, além do estonteamento em que se fica ao vêr aquelles desgraçados, ha uma vertigem peor ainda--é a que resulta de os ouvir.

Quando chegámos ao pateo dos idiotas, estavam acocorados quasi todos elles como as gallinhas no choco, pasmadinhos para o muro, ou fazendo riscos na terra com o dedo. Não lhes importa ar puro, nem horisonte; que o terreno seja vasto ou não seja, que haja verdura ou não, que estejam presos ou livres, para elles é o mesmo. Fincam os cotovellos nos joelhos, encostam a cara ás mãos, e vão dando á cabeça como os bonecos da feira, n'um movimento sempre igual.