Da importancia da Historia Universal Philosophica na esphera dos conhecimentos humanos
Part 3
Um philosopho allemão, que Edgar Quinet vulgarisou na Europa, levanta sobre a theoria de Montesquieu um edificio tão brilhante como arrojado; segundo Montesquieu, o homem é influenciado pelo clima; segundo Herder, a natureza é o molde d'onde a humanidade sahe conformada. Herder, cuja largueza de vistas abrange todos os elementos da humanidade, estudados desde a origem dos tempos, no seu desenvolvimento harmonico e progressivo, o que lhe dá uma incontestavel vantagem sobre os philosophos que o precederam, parte da geographia physica para chegar a uma synthese assombrosa. «É com um admiravel instincto--diz Quinet--que Herder segue o contorno dos rochedos e dos rios, que se perde nos desertos, que penetra com um olhar o interior de um paiz, para encontrar na natureza externa o primeiro mobil das tendencias e determinações dos povos[40].» A theoria de Herder é muito mais complexa do que a de Montesquieu, e é claro que, lançando mão de todos os elementos offerecidos pela natureza, abrange maior numero de verdades. Herder, como observa Quinet, estuda até os contornos dos rochedos e dos rios, as linhas da natureza; os perfis das montanhas e as sinuosidades do alveo dão-lhe a idéa das tendencias dos povos que vivem n'essas paragens. Com effeito, o scenario de um theatro fornece a primeira concepção das paixões que se irão desenvolver no drama. No grande palco do mundo acontece o mesmo. O aspecto da natureza torna o germano dotado de uma tempera robusta[41]. Em Portugal, os povos nascidos nas duas montanhosas provincias da Beira sahem aptos para as maiores rudezas do trabalho; são principalmente elles os que executam a tarefa das ceifas no Alemtejo, onde vão todos os annos, arrostando um sol canicular, abrazador, chegando a morrer n'um só estio e n'uma só comarca, a de Elvas, quatrocentos ceifeiros, de fouce em punho, como verdadeiros heroes do trabalho[42]. Os povos do Algarve nascem marinheiros pela fatalidade da situação geographica, arrojam-se ás maiores ousadias da navegação, como a que no principio d'este seculo realisaram, indo dous homens n'um cahique ao Rio de Janeiro. Herder tinha razão. Um só rio, o sinuoso e extenso Douro, basta a caracterisar a vida da maior parte dos habitantes d'uma provincia. O conhecimento pratico, a observação de algumas povoações portuguezas leva-nos a estabelecer o principio de que a fórma geometrica dos rios determina os costumes dos povos circumpostos. As correntes em linha recta são as que produzem menor pureza de vida; pelo contrario, os rios meandrosos, difficeis, occasionando um trabalho continuo e perigoso santificam, para assim dizer, os costumes. Estudemos esta theoria no rio Douro. Os barqueiros d'este rio entregam-se a um trabalho por tal modo intenso e ininterrompido, que chega a ser uma religião. Pendurados das fragas afim de tirarem os barcos á sirga, empenhados em vencerem os perigos dos _pontos_, verdadeiras cataratas, havendo previamente, de barrete na mão, confiado as suas vidas a Deus, são completamente absorvidos pela preoccupação do trabalho. Extenuados, quando recolhem ao lar domestico, dedicam-se á vida de familia, ao descanço patriarchal da lareira; regulando ainda assim o tempo por modo que muitos d'elles cultivam a sua vinha, a sua pequena horta, no intervallo das viagens. Mas nos rios placidos, rectilineos, a navegação não é um trabalho, é, pelo contrario, um pretexto de ociosidade. A propria corrente leva o barco, os barqueiros não bebem para fortalecer-se; bebem para embriagar-se, por _deboche_. Quando chega a noite, procuram as casas devassas, as rameiras do caes.
Herder, desenvolvendo a theoria de Vico, abrangeu todos os meios cosmologicos; não se preoccupou só, como Montesquieu, com os agentes astronomicos, e deu a devida importancia á acção geral da natureza. No estado actual da sciencia é preciso tambem ter em vista os modificadores sociologicos, posto que muitas vezes nos pareçam sujeitos aos cosmologicos. As profissões industriaes, por exemplo, não raro dependem de uma influencia puramente local. Jacques de Boisjoslin confirma esta opinião, avisando de que as aptidões profissionaes podem enganar sobre as verdadeiras disposições das raças, por isso que frequentemente derivam do clima, da pressão da natureza[43].
Edgar Quinet lança-se com vivo enthusiasmo na theoria de Herder: «A figura dos continentes, dos rios, dos mares, das montanhas,--escreve elle com o seu bello colorido poetico--, quasi por toda a parte ha determinado a das sociedades; de modo que cada continente é um molde onde a Providencia vasa as raças humanas para que ahi tomem a fórma eterna dos seus designios; e o primeiro propheta escreveu o seu livro nas linhas mudas dos continentes ainda deshabitados[44].»
Cousin, depois de haver prescripto ao movimento geral da Historia tres épocas, ligadas não só por uma relação de successão mas tambem de geração, tres épocas baseadas sobre as tres unicas idéas que o pensamento humano póde conceber, o _infinito_, o _finito_, a _relação do finito com o infinito_, sendo que estes tres elementos podem coexistir n'uma mesma época posto que seja o predominio de um o que a caracterisa; Cousin liga tambem uma alta importancia á situação geographica e chega á conclusão de que para _tres épocas differentes, tres theatros differentes_.
A theoria de Herder tem sido, porém, accusada por alguns philosophos de imprimir ao homem um caracter de passividade, que o reduz á condição de escravo da natureza que o rodeia, e elle proprio, como lhe é censurado, não póde explicar pela geographia physica todos os desenvolvimentos da civilisação. Para elle, a linguagem humana é uma instituição divina, posto que até certo ponto nos pareça que, reproduzindo os primeiros homens as vozes da natureza pela onomatopea, segundo Vico, podia Herder explicar por esse mesmo facto a origem da linguagem, e pela situação geographica a euphonia ou a aspereza de certos dialectos.
Uma outra accusação consiste em não se haver Herder remontado á origem ethnica das raças, encarando-as apenas no estado em que as encontrou, quando estudou o caracter de cada uma como elemento da Philosophia da historia; pelo que calumniou toda a raça aryana, e portanto os germanos, a que pertencia, quando representou como rebeldes a toda a cultura os celtas e os slavos, que foram a guarda-avançada da colonisação europêa[45].
Como quer que seja, Herder accendeu a esplendida aurora que devia illuminar, principalmente em nossos dias, o estudo de todos os grandes problemas da sciencia e da humanidade, a que, depois d'elle, se tem dedicado grande numero de espiritos luminosos e fortes, cujas theorias não podemos mencionar n'um trabalho que, como este, tem de ser realisado n'um periodo fatal e curto.
O ponto de vista religioso de Bossuet e o ponto de vista politico de Vico ficaram desde Herder offuscados pelo conjuncto synthetico de todos os elementos da civilisação humana: as raças, as linguas, as religiões, as artes, as litteraturas, os systemas de governo e de philosophia, etc. Duchinski achou vinte e oito elementos de critica historica: 1. Hydrographia; 2. Plasticidade do sólo; 3. Physionomia dos habitantes; 4. Hygiene, doenças; 5. Climatologia; 6. Mythos; 7. Tradições peculiares a cada raça; 8. Faculdades musicaes e poeticas; 9. Tendencia dos povos á vida sedentaria agricola ou a vida nómada mercantil; 10. Lugar da mulher na sociedade; 11. Faculdades religiosas, desenvolvimento das seitas; 12. Vestuario; 13. Alimentos, e bebidas; 14. Desenvolvimento da vida provincial e das idéas federativas; 15. Maior ou menor predisposição para a adoração do principio do mal; 16. A geologia e sobretudo a geologia agricola; 17. A botanica; 18. A zoologia; 19. As linguas sob o ponto de vista lexicographico; 20. As linguas sob o ponto de vista euphonico; 21. As linguas sob o ponto de vista dos caracteres da civilisação; 22. As linguas sob o ponto de vista das tradições historicas que apresentam; 23. Pureza e impureza relativa dos costumes; 24. Grau do poder creador do espirito; 25. Grau de parentesco entre os povos sob o ponto de vista das relações historico-politicas; 26. Estatistica; 27. Encadeamento dos factos historicos. 28. Grau de parentesco com relação ás origens. E certamente não se poderia Duchinski gabar de ter enumerado todos os materiaes que sabe aproveitar a Philosophia da Historia, em cujo campo o menor elemento fornece uma caracteristica, o que não deve admirar depois que se conheceu que uma alga microscopica, a _Trichodesmium erythræum_, produz certa coloração particular do mar Vermelho.
Afim de estudar todos estes elementos, para chegar á synthese da humanidade, era preciso desenvolver, refundir e até crear um grande numero de sciencias correlativas a elles. É o que se tem feito até hoje. Cada sciencia especial acode a offerecer ao investigador uma poderosa alavanca que ha-de ajudar a levantar a humanidade á altura precisa para receber de frente toda a luz da Philosophia. A Historia, que fôra outr'ora simplesmente a narração de factos, tornou-se, portanto, a mais complexa de todas as sciencias. Foi uma transformação assombrosa. Atearam-se os grandes debates da sciencia moderna, os sabios lançaram-se á descoberta da verdade, tomando a Philosophia por instrumento. O nosso seculo tem assistido as mais brilhantes investigações. A Philosophia positiva metteu hombros ao colosso do passado, e iniciou um dos cyclos mais admiraveis da humanidade, se não o mais assombroso de todos elles.
Parece-nos conveniente insistir n'este ponto, por isso que lavra ainda em alguns espiritos uma certa desconfiança sobre o estado de perfeição dos modernos trabalhos scientificos. O conhecimento d'esta desconfiança foi que nos determinou a escolhermos para dissertação de concurso o vasto assumpto de que vimos tratando, seguramente muito superior ás nossas forças.
Odysse-Barot é um d'esses espiritos desconfiados. «Vemos apparecer cada anno, diz elle[46] numerosas e interessantes monographias, obras especiaes de um incontestavel valor; mas não passam de uteis materiaes, que seria tempo de pôr em obra. A Historia está no ponto em que se achavam: a astronomia antes de Keppler, Copernico e Newton; a chimica antes de Lavoisier e Berzelius; a physica antes de Archimedes; a zoologia antes de Geoffroy Saint-Hilaire; a geologia antes de Cuvier; a physiologia antes de Harvey. A lei da attracção universal será mais difficil de formular do que a lei da attracção celeste? Sabemos como se movem os astros, e ignoramos como se movem os povos! Podemos determinar a curva que descrevem os mundos, e não sabemos absolutamente nada da orbita que percorrem as nações! Porque não descobrirão a lei da aggregação dos homens, como souberam achar a lei da aggregação das moleculas de um corpo? Não haverá uma chimica social do mesmo modo que ha uma chimica organica ou uma chimica mineral? Será que as forças chamadas cohesão e affinidade não possam actuar senão sobre os gazes, os liquidos ou os solidos? Acaso a humanidade ignora o que é uma combinação, uma liga? Não tem seus reagentes, suas decomposições, seus precipitados? Descobriu-se a lei da circulação do sangue no homem: a historia espera o seu Harvey, para encontrar a lei da circulação do sangue nas sociedades. A historia espera o seu Archimedes, que nos dê a formula da dynamica e da statica politicas, etc.»
Realmente, isto é querer desconhecer até onde teem chegado os progressos da actividade humana dentro do campo da possibilidade, e exigir da humanidade o impossivel.
Com a sabia orientação da Philosophia positiva, o espirito humano caminha energicamente para as acquisições scientificas que as mais pacientes observações preparam todos os dias. Foi trabalhosa e demorada a jornada até esta conquista, porque o espirito humano teve de atravessar successivamente o estado theologico, base e estimulo de todo o progresso, porque é preciso um ponto de apoio qualquer para firmar os primeiros passos, e o estado metaphysico, transição do estado theologico para o estado positivo.
Mas, chegados a esta nova conquista, o que podemos exigir da Philosophia positiva, sciencia que elevou a Historia á sua mais alta concepção? Que nos permitta encarar todos os phenomenos como sujeitos a leis naturaes invariaveis, e reduzil-as ao menor numero possivel, afim de simplificarmos a universalidade dos conhecimentos humanos; que nos permitta sujeitar a um systema claro e positivo todas as sciencias fundamentaes estudadas nas suas relações communs como elementos constitutivos de um todo harmonico, e portanto tambem nas suas relações com esse mesmo systema, com esse todo. Esta grande, esta immensa obra de simplificação deve-se á Philosophia positiva. Mas para que a Philosophia positiva podesse constituir-se com o caracter de universalidade que lhe é proprio, era preciso abraçar todas as ordens de phenomenos. Por isso a Philosophia positiva teve de inventar uma nova sciencia, que se propozesse estudar uma especie de phenomenos, que não podia incluir-se na dos astronomicos, na dos physicos, na dos chimicos, nem finalmente na dos physiologicos, e creou a _physica social_, que se trata de estudar com o vagar que a sua dependencia de todas as outras sciencias de observação exige, e que virá completar a constituição da Philosophia positiva.
Mas todos estes grandes, estes grandissimos progressos do espirito humano, toda esta colossal obra de simplificação e generalisação poderá produzir o conhecimento exacto, certo das causas das leis estudadas ou da explicação universal de todos os phenomenos por uma lei unica? Responde o proprio Comte, o grande apostolo do positivismo: «Na minha profunda convicção pessoal, considero estas empresas d'explicação universal de todos os phenomenos por uma lei unica como eminentemente chimericas, ainda quando são tentadas pelas mais competentes intelligencias. Creio que os meios do espirito humano são muito fracos, e o universo muito complicado para que uma tal perfeição scientifica possa estar ao nosso alcance, e até penso que se faz geralmente uma idéa muito exagerada das vantagens que de tal conquista resultariam necessariamente, se ella fosse possivel[47].» É o proprio Augusto Comte que nos vem dizer que considera defezos á razão humana todos os mysterios que a philosophia theologica procurava explicar facilmente; que o espirito humano deve reconhecer, no estado positivo em que se acha, a impossibilidade de obter noções absolutas, de conhecer as causas intimas dos phenomenos, a origem e o destino do universo[48].
Estamos, pois, lançados na ampla estrada de uma sciencia toda humana, e havemos de chegar até onde os recursos humanos nos possam levar. É preciso tempo e trabalho para que a folha da amoreira se converta em sêda. A astronomia esperou o seu Keppler, como a historia espera o seu Archimedes. Odysse-Barot pede a formula da dynamica e da statica politicas: portanto, o que pede são duas theorias scientificas, que se devem considerar como factos logicos. Ora só por uma profunda observação d'esses factos se póde chegar ao conhecimento das leis logicas[49]. A Philosophia positiva, auxiliada pelas sciencias de observação já perfeitamente conhecidas, procura preencher a lacuna que respeita aos phenomenos sociaes para attingir o seu caracter de universalidade.
Segundo esta nova marcha do espirito humano, toda positiva e observadora, a Historia teve de estudar profundamente a natureza para chegar, finalmente, á exacta concepção do lugar que n'ella occupa o homem. A geologia tem, portanto, attingido um notavel estado de florecimento. A historia da terra desdobrou-se em capitulos com uma nitidez admiravel, desde a nebulose, que pelo resfriamento se converteu na esphera terrestre, até nossos dias. Excavando nas entranhas da terra, para extrahir, como um minerio precioso, a sua historia, a sciencia encontrou os destroços animaes e vegetaes que geraram a paleontologia. Nas camadas terciarias do globo appareceram os instrumentos de pedra, a que o vulgo chama ainda hoje _pedras de raio_[50], e que effectivamente foram considerados como productos da natureza antes que Mercati os considerasse como armas defensivas do homem no estado da sua rudeza primitiva. O achado de alguns fosseis, que pareceram humanos, a par com os esqueletos de alimarias ante-diluvianas, veio depois, ao cabo de longos debates, e de novos achados, desfazer o erro anthropocentrico, confirmar a existencia prehistorica do homem e por conseguinte o emprego dos instrumentos de silex. Foi assim que do consorcio da geologia com a paleontologia nasceu a archeologia. Então, á luz do grande facho da archeologia, pôde a Historia reconstruir as idades primitivas do homem. Chamou á primeira, _de pedra_, e subdividiu-a em _paleolithica_ ou dos instrumentos de pedra lascada; _mesolithica_ ou dos instrumentos de pedra lascada e de osso; _neolithica_ ou dos instrumentos de pedra polida; e á segunda, idade dos _metaes_, subdividindo-a em idade de bronze[51] e idade de ferro. A descoberta de fosseis humanos, e dos instrumentos prehistoricos, veio dar desenvolvimento a um grupo de sciencias que teem necessaria relação entre si.
No primeiro plano d'este grupo, apparece a anthropologia, ramo da historia natural que trata do homem e das raças humanas, sciencia que se póde considerar originada pelo positivismo moderno, comquanto os gregos já designassem pelo vocabulo _anthropologos_ aquelles que discutiam sobre o homem. O problema da origem do homem impoz-se á meditação dos sabios, como uma das mais importantes questões a resolver. Apartaram-se as opiniões, os campos. A primeira base de toda a discussão foi o Genesis. A opinião polygenista tirava argumento de serem os filhos de Deus representados como raças provenientes de Adão, e os filhos dos homens como raças não adamicas[52] e de que a Biblia apenas se referia aos povos semitas, particularmente aos judeus[53]. A opinião monogenista contrapunha que todas as raças descendiam primitivamente de Adão e Eva, e consecutivamente dos tres filhos de Noé salvos do diluvio; que a influencia dos meios cosmicos produzira a variedade das raças. Esta discussão veio a generalisar-se, a emancipar-se da sua origem biblica, a diffundir-se pelo campo da sciencia, e até da politica[54].
O _transformismo_ é uma phase nova d'esta grande questão, que envolve uma idéa antiga[55]. Lamarck sustenta que as especies se transformam passando de uma para outra, tanto no reino animal como no vegetal: o homem é uma transformação lenta do macaco. Procurando a origem dos sêres, Lamarck encontra os germens primordiaes ou mónadas, provenientes de geração espontanea. N'este systema, os meios de transformação explicam-se pela adaptação dos orgãos ás condições da existencia. Cuvier, Geoffroy Saint-Hilaire e outros, sahiram em defeza das idéas orthodoxas, que parecia haverem triumphado quando appareceu Carlos Darwin, cuja theoria se póde definir: _A selecção natural por a lucta pela existencia, applicada ao transformismo de Lamarck_[56]. Segundo Darwin, todos os seres organisados se transformam incessantemente sob o imperio de uma lei de selecção natural (_natural selection_), e todas estas transformações têem por causa a lucta pela vida (_struggle for life_), isto é, o combate eterno dos sêres vivos entre si pelos meios de existencia. Todas as especies vivas descendem, segundo Darwin, de um pequeno numero de prototypos ou mesmo de um só. Em virtude da selecção natural todas as variações uteis são conservadas, e todos os desvios nocivos eliminados[57]. Comquanto Carlos Darwin se abstivesse de applicar a sua theoria á especie humana particularmente, os que a defendem fazem essa applicação como consequencia logica das asserções apresentadas por elle. A doutrina darwiniana foi o ponto de partida de um longo debate que ainda dura. Entre os allemães que se filiaram na escóla do transformismo, avulta Hæckel, que para explicar a origem do homem parte das primeiras cellulas conhecidas, _moneras_, formadas por geração espontanea. Estas cellulas foram-se dispondo em orgãos e, depois de uma serie de transformações, que se podem classificar em vinte e dous graus, apparece o homem.
Graças ao espirito de positivismo do nosso seculo, as sciencias biologicas chegaram a este grau de desenvolvimento, e como que sopraram vida nova á intelligencia humana cada vez mais ávida de saber. Desdobram-se na tela da discussão os mais graves problemas, como por exemplo o das gerações espontaneas, que tanto preoccupou a Academia das Sciencias de Paris, depois que em 1858 o professor Pouchet lançou o pomo da discordia ao seio dos quarenta immortaes[58]. Certo é que muitos d'esses grandes problemas não estão ainda resolvidos, como por exemplo o do transformismo, mas não é menos certo que as modernas investigações vão cada vez produzindo novas acquisições, e que, pelo que toca ao transformismo, a doutrina da mutabilidade e da evolução morphologica dos seres organisados vai cada dia ganhando maior terreno.
N'um curso regular de anthropologia, como aquelle que se professa no Instituto anthropologico de Paris, sob a direcção de Paulo Broca, a ethnologia, sciencia que se occupa da classificação, descripção, repartição, filiação e evolução das raças humanas, tem um logar importantissimo, e tanto se identifica esta nova sciencia com a Historia philosophica, que só pelo estudo das raças constituiram alguns historiadores uma Philosophia da Historia.