D. Joanna de Portugal (A Princesa Santa) Esboço Biographico

Chapter 3

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Maximiliano tambem não podia pedir a mão de D. Joanna, pois havia já casado em 1477 com Maria de Borgonha; Henrique VII esse podia pretender desposal-a, pois só veio a casar em 1486 com Izabel York, o que não podia era morrer a fim de impedir de se realisar o casamento, como quer fr. Luiz de Souza, que faz dizer D. Joanna a D. João II «que era morto e enterrado o mesmo para quem a buscava»[51] pois só conseguiu passar d'esta para melhor vida em 22 de abril de 1509. Estes factos foram já combatidos por Caetano de Souza que, dizendo que «elles padecem muito na verdade da historia,» demonstra com dados irrecusaveis que não podiam ter lugar.[52]

Fr. Antonio da Silveira,[53] tentou corrigir os erros de Souza e dos escriptores que o precederam historiando a vida de D. Joanna, os quaes elle proprio confessa que cahiram em não pequenos descuidos, mas fel-o de forma, que não podem tambem as suas affirmativas merecer credito algum, pois não nos apresenta um unico documento em que se baseie. Entre os erros que tenta corrigir, conta-se o do casamento com o rei da Inglaterra, que elle affirma ser Ricardo III e não Henrique VII. Com Ricardo III não havia é verdade a inverosimilhança que se dava com aquelle, por seu fallecimento ter lugar em 1485, mas ainda assim não podemos acceitar a emenda, pois não ha nada que a auctorise. Na primeira e unica collecção diplomatica que possuiamos[54], ha uma leve referencia a este casamento, mas basea-se tambem apenas num só documento, se documento se pode chamar a um manuscripto avulso, aliás contemporaneo que pouco ou nenhum valor pode ter attendendo-se á sua ignota procedencia. Parece-nos que se o visconde de Santarem reflectisse por um momento no _elogio_ que a Ricardo III faz Dameão de Goes,[55] não faria menção de tal casamento, pois é mais que provavel, dado o caso de haver aquelle projecto, que este chronista não fallasse tão desabridamente de um monarcha, que simplesmente por uma circumstancia inesperada, deixou de desposar uma princeza portugueza.

Quanto a nós a causa do chamamento de D. Joanna a Alcobaça, não foi nenhum projecto de casamento, mas sim o desejo que D. João II tinha de dar cumprimento á promessa que havia feito por occasião da morte de seu pae de lhe proporcionar meios condignos da sua alta posição. Por carta datada d'alli, de 19 de agosto de 1485, concedeu-lhe a villa de Aveiro, com todos os seus terrenos, e todas as rendas e direitos reaes, e as dizimas do pescado nova e velha, com a cisa e imposição do sal da mesma villa e dos lugares de Mortágua, Eixo, Requeixo, Paus, Ois, Quinta de Villarinho e de Bellazaima, com todos os seus reguengos.[56] D. João II fez só agora esta concessão por lhe ser impossivel fazel-a antes, pois estas terras estavam em poder do conde de Faro a quem haviam sido concedidas por D. Affonso V, por carta passada em Salvaterra em 20 de maio de 1467. A conspiração do duque de Bragança, em que o conde era um dos conjurados, é que as fez voltar novamente á corôa.

Não foi longa a demora de D. Joanna em Alcobaça; regressando a Monte-mór, passou a Coimbra, indo-se aposentar conjuntamente com seu sobrinho nos paços que D. Izabel edificara junto do mosteiro de Santa Clara. Nos primeiros dias de fevereiro de 1486, informada de que a peste havia novamente abandonado Aveiro regressou ao convento de Jesus, tendo por essa occasião por parte dos habitantes da villa, que sairam a esperal-a a grande distancia, uma recepção brilhantissima.

D. Joanna logo que se viu senhora de todas estas terras, tractou de empregar o rendimento d'ellas, isto é, o que lhe sobrava dos soccorros que prodigamente distribuia pelos necessitados, hospitaes e egrejas pobres, em augmentar consideravelmente o mosteiro de Jesus. Diz D. Bernarda Pinheiro que as idéas de D. Joanna, com relação a esta obra, eram mandar construir com a maior grandeza, egreja, casa do capitulo, dormitorio e mais officinas, para o lado do mar, por lhe assegurarem que, collocado d'esta forma o convento, ficava muito mais ventilado e sadio. Chegou mesmo a mandar abrir os alicerces para a nova egreja, para o que obteve licença do bispo de Coimbra D. Jorge d'Almeida, porém, a doença que a levou ao tumulo, não lhe permittiu levar a cabo tão desejado commettimento.

Depois do seu regresso de Alcobaça, D. Joanna começou a soffrer horrorosamente, até que em dezembro de 1489 cahiu prostrada pela doença que a arrastou ao tumulo. É tradicção geralmente seguida, que a causa principal e unica da molestia foi veneno que uma dona que ella expultura da villa «que em poder de fazenda, era do melhor do lugar» pelo seu devasso comportamento, lhe ministrou n'um copo d'agua, durante o trajecto d'aquella viagem. Diz D. Bernarda Pinheiro que pelo motivo d'ella desejar, por causa da salvação das almas, evitar erros e peccados, em especial nos clerigos e mulheres de má vida, lhe foi ordenada e dada a morte. Nada conseguiu debelar a doença, nem lagrimas nem supplicas do povo, que n'ella via o seu mais desvelado protector, nem tão pouco os esforços desesperados da sciencia e as preces do clero de Portugal inteiro obtiveram uma melhora sequer; o mal recrudescia sempre.

D. João II enviou-lhe o seu physico-mór mestre Rodrigo, e sua thia D. Filippa, acompanhada de D. Mecia de Alvarenga, e mais duas religiosas veio d'Odivellas, afim de velar junto d'ella. Accudiram tambem, diz fr. Luiz de Souza, o arcebispo de Braga, D. Jorge da Costa, e o bispo de Coimbra, D. Jorge de Almeida, e o do Porto, D. João d'Azevedo. Da visita d'estes prelados, porque tinham licença para entrar na clausura, mostrou agradar-se muito. Fallavam-lhe de Deus, e ella, como se sentia acabar, não consentia que de outra cousa se tractasse em sua presença.[57]

Na noute de 19 de março, dictou á madre Catharina da Silva o seu testamento, em que institue por seu herdeiro o mosteiro de Jesus e dá liberdade a alguns escravos com que seu pae a presenteara quando regressou da conquista d'Arzilla.[58] Escripta que foi a sua ultima e derradeira vontade, assignou-o e rubricou-o por seu proprio punho, e lacrando-o, sellou-o com um sêllo d'ouro que, segundo diz D. Bernarda Pinheiro, fôra da rainha sua mãe, objecto com que ella costumava sempre sellar as suas cartas e cousas de mais substancia.

Em 6 de maio pediu para que se celebrasse missa na sua propria camara, e havendo em seguida recebido todos os sacramentos, mandou que levassem á sua presença seu sobrinho D. Jorge, a quem, depois de haver abraçado com effusão, disse:--«Filho, peço-vos muito que vos lembreis sempre, que vieste para esta casa de tres mezes, e n'ella vos criei, chorando e cantando, vestida de burel; tende sempre d'ella lembrança, porque ella é a minha alma, e tambem o são estas madres, que vos ajudaram a criar, como se cada uma fôra vossa mãe.»[59]

Resignada e feliz esperou a morte. Havendo-se despedido de todas as religiosas, a quem pediu perdão de toda e qualquer offensa que d'ella tivessem, pediu á Prioreza D. Maria de Athayde, que lhe mandasse dar sepultura no côro de baixo, pois os seus maiores desejos era dormir o eterno somno junto d'aquellas que em vida lhe fizeram tão agradavel companhia. Na noute de 11 de maio, reunidas que foram em volta do seu leito a communidade, os bispos do Porto e Coimbra, e o prior dos dominicos fr. João Dias, pediu que a acompanhassem com as orações e canticos com que a egreja se despede de seus filhos no momento final. «Chegava-se a derradeira hora, diz fr. Luiz de Souza, e eram quasi duas horas depois da meia noute. Disse então baixo, digam a ladainha: começou o prior em voz alta, respondiam as madres, e seu companheiro; quando chegaram a dizer: _Omnes sanctis Innocentes_, abriu os olhos e levantando-os por um pequeno espaço ao céu, despediu a innocente alma em companhia dos sanctos innocentes.»[60]

O dobre plangente dos sinos do mosteiro a que se seguiram os do convento de Nossa Senhora da Mizericordia, e os da matriz, S. Miguel,--annunciaram logo ao romper d'alva, que D. Joanna dormia já o eterno somno. A noticia propalou-se rapida, a ponto de em poucos momentos a egreja de Jesus estar apinhada de fieis; a povoação inteira, despertada por tão cruel nova, correu presurosa ali, afim de se certificar da veracidade do acontecimento, tão irremediavel e immensa era a perda. «Na villa, diz um bispo do Porto, chegavam ao céu os prantos, e procuravam chegar as lagrimas; como todo aquelle povo ficou desamparado, todo ficou choroso; clamavam ao céu na sua saudade e na sua perda, porque no céu estava o alivio da sua perda, e a causa da sua saudade.»[61]

Amortalhado que foi o cadaver com o habito dominico, collocaram-o algumas religiosas sobre um estrado levantado no meio da cella, convertida em camara ardente, onde se conservou até ao dia seguinte. Feitos os officios funebres na egreja do convento, pelas religiosas de S. Domingos a que assistiu todo o clero da villa e lugares circumvisinhos, bem como um grande concurso de fieis, entraram no convento os bispos do Porto e Coimbra, trazendo vestidas, diz D. Bernarda Pinheiro, grandes lobas e capelos de dó, e quatro religiosos dominicos, dos mais antigos e qualificados, que foram os que levaram o cadaver. Quando o prestito funebre se dirigia ao côro de baixo, diz a tradicção que, na occasião de atravessar por entre os canteiros que D. Joanna cultivava por suas proprias mãos, as flôres cahiram murchas sobre a haste, exprimindo tambem assim a sua saudade. A sepultura, cujo lugar havia sido por ella designado em vida, foi aberta junto dos degraus do commungatorio.

Em 1577, a prioreza D. Jeronima de Castro, mandou abrir a sepultura e trasladar os restos mortaes de D. Joanna, d'onde haviam sido sepultados, para um caixão de ebano em forma de tumulo, marchetado de bronze dourado. O caixão era resguardado por uma balaustrada do mesmo páu, e coberto por uma rica tapeçaria, dadiva da duqueza de Caminha D. Anna Manrique de Lara.

As religiosas de Jesus, e bem assim o povo de Aveiro que, desde a morte de D. Joanna a appelidaram sempre de Princeza Santa, e, confiados na sua intercessão, a ella recorriam nos trances afflictivos da vida, pediram ao Papa em 1626 que d'ella se podesse resar, e que o seu nome fosse inscripto no catalogo dos santos.

Em setembro de 1626 requereu a camara da villa de Aveiro, representada pelos vereadores Antonio da Cruz Botelho, Raphael de Figueiredo e Manuel de Almeida, e as religiosas do convento de Jesus, representadas tambem pela sua prioreza Soror Marianna de Belem, ao bispo de Coimbra D. João Manuel, afim de se procederem ás justificações necessarias da «virtuosa vida e santa morte da Princeza D. Joanna, filha de el-rei D. Affonso» afim de se obter a sua beatificação e canonisação. D. João Manuel, por despacho de 27 do mesmo mez e anno, ordenou ao provisor do bispado o dr. Bernardo da Fonseca Saraiva, viesse pessoalmente a Aveiro e désse andamento ao processo requerido; que levado a final, o mesmo prelado mandou subir á presença do Papa Urbano VIII, por sentença de 8 de outubro de 1627.

Por causas hoje desconhecidas, só passados sessenta e dois annos, é que de novo se tractou de obter a beatificação de D. Joanna. Em 1676, sendo prioresa do convento de Jesus D. Filippa de Menezes, fr. Manuel Mascarenhas, prior do convento de S. Domingos, indo pessoalmente a Roma, conseguiu que se expedissem as bulas para o bispo de Coimbra, então D. João de Mello, vir a Aveiro examinar os restos mortaes da Santa Princeza, e o que havia de verdadeiro nos milagres que se diziam obtidos por intercessão sua. D. João de Mello, por provisão de 11 de março de 1689, delegou todos os seus poderes no promotor do bispado o dr. Manuel Spinola de Vasconcellos, e notario apostolico Francisco Alvares da Costa, os quaes vieram aqui, e depois de haverem inquerido algumas testemunhas, e visto os cabellos que cortaram a D. Joanna quando lhe lançaram o habito, e bem assim o escapulario e a camisa com que falleceu, que então, e ainda hoje se guarda no convento com a maior veneração, examinou tambem os seus restos mortaes.

Aberto o tumulo, em 29 de junho d'aquelle anno, onde se guardavam tão venerandas reliquias, na presença de todas as religiosas, e dos superiores dos tres conventos de frades d'aqui, fr. Manuel Mascarenhas, fr. João das Chagas, e fr. Ignacio de Espozende, e dos priores das collegiadas de Nossa Senhora da Oliveira, e de S. Miguel, D. Pedro de Souza e fr. Thomé de Sequeira, foi verificado pelo dr. Manuel Spinola de Vasconcellos, que envoltos em toalha de linho estavam os ossos (completos) d'um corpo humano que pelo auto que se achava junto se julgaram ser o de D. Joanna.

Enviados, finalmente, todos os processos a Roma, a instancias de el-rei D. Pedro II, e alguns grandes de Portugal, o Papa Innocencio XII beatificou solemnemente D. Joanna, por bulla de 4 de abril de 1693, designando o dia 12 de maio para a sua festividade.[62]

Por decreto da congregação dos ritos, de 9 de julho de 1694, ordenou-se que se rezasse da Beata Joanna em todo o reino de Portugal e suas conquistas; debaixo do rito semi-duplex; e por outro decreto da mesma congregação de 6 de abril de 1715 se concederam _lições e oração para o seu officio_.

Poucos annos depois de ter lugar a beatificação, o prior do convento de Nossa Senhora da Mizericordia (S. Domingos) fr. Pedro Monteiro, obteve de el-rei D. Pedro II os meios necessarios para a construcção dum tumulo mais sumptuoso do que aquelle em que se guardavam as santas reliquias.

Foi incumbido da obra o architecto da Casa Real João Antunes,[63] que lhe deu principio em 1699. É obra digna de immortalisar um artista distincto, e é esta a rasão porque se tem attribuido a estranhos, chegando-se a affirmar com convicção que ella viera da Italia. O seu custo foi de 4:800$000 réis. Fr. Lucas de Santa Catharina descreve-o assim: «É o tumulo quadrado e alteroso, lavrado de jaspes finissimos com variedade de embutidos primorosos, e em cada remate um anjo; sobre o tumulo se vêem as Quinas Portuguezas, e na face a corôa de espinhos, que a Santa escolheu para gloriosa empreza, e teve por estimavel troca. Toda a obra respira magestade, e saudosas lembranças.» A descripção nada tem de exagerado; é fiel, tanto quanto é possivel.

Em 28 de agosto de 1711 ordenou D. João V ao bispo de Coimbra, D. Antonio de Vasconcellos e Sousa, que viesse trasladar as cinzas da Santa Princeza, para o novo tumulo. Em 10 de outubro d'este anno entrou o bispo no convento e abrindo o caixão onde se guardavam os restos da Santa, verificou a sua identidade, do que lavrou o competente auto.[64] Depois d'um solemne triduo, celebrado na egreja do convento, teve finalmente lugar no dia 25 a trasladação. O cofre em que guardavam as cinzas, foi levado procissionalmente pelas ruas da villa, pelos abbades benedictinos, fr. Ignacio de Athayde, fr. Antonio de S. Bento, fr. Bento de Mello, e fr. Bernardo Telles. Formavam o prestito os religiosos dos tres conventos que aqui havia, todo o cabido da sé de Coimbra, e mais de trezentos clerigos seculares. No couce ia o bispo D. Antonio de Vasconcellos, o senado e um grande numero de nobres. Chegado que foi o cofre ao convento, foi deposto pelos quatro abbades dentro do tumulo que o bispo em seguida fechou e lacrou.

Em 1729 representou a D. João V a communidade do convento de Jesus para que se obtivesse de Roma a canonisação. O monarcha acedeu de prompto, e alem da representação que enviou á Santa Sé, mandou entregar ao procurador do convento, fr. Ignacio do Amaral, 2:600$000 réis para custeamento das despezas que se houvessem de fazer. N'esse mesmo anno expediu a commissão dos ritos ordens para se proceder ao inquerito rigoroso das virtudes da Santa.

Em 1 de junho de 1750 foi novamente aberto o tumulo pelo bispo de Coimbra, que remetteu para Roma o auto do seu exame, bem como o processo que por essa occasião instauraram por ordem do mesmo prelado os drs. Antonio Vicente de Vasconcellos e Manuel Coimbra Soeiro d'Almeida.

A morte de D. João que n'este anno teve lugar, foi causa de que até hoje se não alcançasse ainda a desejada e promettida canonisação, mas não obstante isto o povo de Aveiro, que vê na Beata Joanna o seu maior titulo de gloria, jámais deixou e decerto deixará de a appellidar a PRINCEZA SANTA.

DOCUMENTO N.º1

Dom Affonso, por graça de Deus rei de Portugal, e do Algarve, senhor de Cespta e de Alcazer em Africa, etc. A quantos esta carta virem, fazemos saber que considerando nós como ora prasendo o nosso Senhor Deos himos por seu serviço em as partes de Africa, e o Princepe meu sobre todos muito amado, e presado filho comnosco, pelo que he necessario buscarmos em estes nossos Regnos alguma pessoa que nosso logar em nossa obsencia delles tenha, e faça ordens e mande em nosso nome por nosso serviço e boa justiça, e bem do poboo, o que nós fariamos, ordenariamos, e mandariamos ser presente fossemos, e confiando nós de muita bondade, virtudes e lealdade, sizo e descripção do Duque de Bragança, Marquez de Villa Viçosa, este meu muito amado e presado Primo, e do exprimentado amor que a nós, e nosso serviço tem, o escolhemos de antre os outros de nossos Regnos, pêra lhe este carrego leixar, e encommendar, e porém o fazemos nosso logo teente geral em todolos ditos nossos Regnos, e lhe damos poder, e auctoridade que elle por nos, e em nosso nome em quanto nós, e o dito Principe meu filho delles formos absentes possa ordenar, fazer, e mandar assy na justiça, como na fazenda, e em outra qualquer cousa acerca da guarda, e defensom destes nossos Regnos todo o que a elle bem, razom, e justiça parecer, assy como o nos poderiamos ordenar, fazer, e mandar se presente fossemos, e possa punir os delinquentes, e malfeitores, e darlhe, e mandarlhes dar aquellas penas que lhe razom, e justiça parecer assi nos haveres, como nos corpos ataã morte inclusivamente, sem delle outra alguma apellação, nem agravo; e isso mesmo possa mandar despender de novos averes, e rendas todo o que por nosso serviço, e bem do nosso poboo entender que compre de ser despeso; e tambem possa entrar em quaesquer fortalezas das Cidades, e Villas de nossos Regnos, e estar em ellas, e as ter de sua mão quanto lhe aprouver, e entender que compre a nosso serviço. E porem mandamos a todolos offiçiaes, que polo tempo forem das Cidades, Villas, e Lugares de nossos Regnos, e a todolos moradores delle, e a todolos Juizes, e Justiças, Regedores das Casas da Sopricação, e do Civel, e Desembargadores dellas, Corregedores da Corte, e Comarcas, e aos que carrego teverem de Veedores da nossa fazenda, e aos Contadores, e outros offiçiaes della, e a outros quaesquer que outros officios alguns em nossos Regnos tem, que fação, e cumprão tudo o o que lhes o dito Duque em nosso nome mandar assi, e tão compridamente, como o farião se lho nos per nossa pessoa mandassemos, e isso mesmo mandamos a todolos Alcaydes das fortalesas de nossos Regnos que o acolhaõ, e reçebaõ em ellas seu fato emparelhado, e o leixem hi estar como, e quanto lhe prouver, sem alguma duvida, ou pejo que a ello ponhaõ, sendo certos todolos sobreditos, e cada hum delles, que nom comprindo em todo o que lhe aqui mandamos, ou em alguma cousa nom obedecendo ao dito Duque, ou contrariando os seus mandados, que nos lho estranharemos muj gravemente, e lhe mandaremos per ello dar asi graves penas, como se nossos proprios mandados nom comprissem, ou a elles contradissessem; e hum, e outros al nom façades. Dada em a nossa Cidade de Lixboa aos 2 d'Agosto. Christovaõ de Bairros a fez anno de Nosso Senhor Jesu Christo de mil, e quatrocentos, e settenta, e hum. E eu Joaõ Garçes Cavaleiro da Casa do dito Snor, e seu Escrivão da fazenda do Cepta, de Alcaçer, e de sua Camara, Contador, e Arrendador polo Principe nosso Snor em o mestrado de Avis a fis escrever, e aqui sobescrevi.

_El-Rey._

DOCUMENTO N.º2

Juizes vereadores procurador fidalgos cavaleiros e escudeiros e poboo. Eu a Ifante vos enujo muyto saudar, por conhecer as boas vontades e lealdade que tendes ao seruiço delRey meu Sor e porque sey que nos alegrarees com a vitorea que nosso Sor lhe deu vollo faço saber que ele tomou a villa darzilla per força e tomou a cidade de tanger a quall lhe os mouros leixarom liuremente e tem a pose della. E espera lhe vyr fallar mulcaxequã porem nos daaee muytos louuores a nosso Sor encomendandelhe em nosas boas oraçõees o sobre dito Sor e estaaee prestes pera se o caso o rrequerer e noso seruiço lhe for necesario como eu espero que farees continoando em nosas lealdades e boõ custume como os naturaaees purtuguezes senpre custumarõ. E ele e o Sor principe meu irmaaõ som saaõs e em boa desposiçã e asar alegres seg.^o o caso rrequere louuores a ds. E este meu moço destrebeira uos contaria as nouas mais per extenso como se pasarõ. Escripta em lixboa a vy de setembro. E o dito Sor Rey me escrepueo todo per sua carta.

_Iffante_

Por a Ifante

Aos Juizes vereadores procuradores fidalgos caual.^os e escudeiros e poboo da muy nobre e leall cidade de Coynbra.

DOCUMENTO N.º 3