D. Joanna de Portugal (A Princesa Santa) Esboço Biographico

Chapter 2

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D. João, surprehendido com esta tão respeitosa submissão, passou aos aposentos de D. Joanna, que sahiu a recebel-o, «fazendo-se força, diz Sousa, por mostrar alegria com sua vinda: porém elle, pondo os olhos n'ella, e quando lhe viu o rosto secco, pallido e enfiado, effeitos do rigor com que vivia, e notou a pobreza do vestido, a novidade do toucado, não poude conter as lagrimas; e trocada a paixão pela ira, com que vinha, em uma não cuidada brandura, fallou-lhe amorosamente, pedindo-lhe que deixasse aquelle genero de vida e trajo, com que tinha desgostado a seu Pae, e a elle, inquietado e alterado todos os Estados do Reino: que lhe lembrasse a necessidade que havia da sua pessoa para na falta d'elle Principe: caso em que estava obrigada, não só a cortar por seu gosto, pelo dar a tantos, mas ainda a sacrificar-se. Que folgasse de agradar a um Pae velho, que muito lhe queria; fazer a vontade a um irmão enfermo, e sem filhos, e não desprezar os requerimentos de um Reino inteiro. Respondeu a Princeza com poucas, e humildes palavras, como a Principe, que reconhecia por Senhor, e como a irmão, que muito amava; que bem sabiam El-Rei seu Pae, e elle, que era tão antigo n'ella o amor da vida religiosa, como o uso da rasão; que a esta conta de beneplacito de ambos, e com sua licença, de longo tempo requerida, viera para aquella casa. E sendo assim, bem deviam entender, que não podia estar bem a sua pessoa, entrando em companhia de professas de estado austero, e rigoroso estar á vista de seus trabalhos, sem tomar parte n'elles; e viver em casa de religião, isempta das obrigações d'ella: que fazendo conta, que ambos d'isso eram contentes, começara aquella vida, vida que buscara com vontade, e proseguia com gosto; e ajudando-a Deus levaria ao cabo, com a firmeza, e constancia, que devia a seu sangue: e assim pedia a sua alteza fosse servido parecer-lhe bem. Estas rasões e as lagrimas piedosas, com que as acompanhava, atalharam o principe de sorte, que não mais fez instancia. Mas tomando a Princeza pela mão levou-a para uma varanda. Alli chamou o bispo de Evora Dom Garcia de Menezes, que com outros senhores o viera acompanhando, e queixou-se-lhe da dureza, que achara n'ella. Tomou então o bispo a mão, e como era dotado de singular eloquencia, de que até nossa edade chegaram vestigios (devia cuidar, que esperava o Principe elle désse fim a esta empreza) começou a propor-lhe com elegantes, e bem pensadas palavras toda a substancia das que o principe tinha dito, e ajuntando outras rasões de vivo e esperto engenho: e emfim resolvendo com termo demasiado livre, que se todavia insistisse em proseguir um genero de vida, que tinha mais de apetite, e meninice, que de prudencia de Princeza, e em querer passar os termos da obediencia, que devia a el-rei, como filha a seu pae, e como qualquer vassallo a seu rei, e senhor natural, que para isso estava alli o Principe para lhe não soffrer, que tivesse mais habito, nem religião, nem mosteiro. Viu-se n'este passo o que tanto de antemão avisou Christo a seus discipulos no santo Evangelho; quando por causa sua se achassem diante dos reis, e grandes do mundo, não se matassem por estudar respostas a seus ditos, que elle se obrigava a dar-lh'as feitas, e postas nas linguas.

Revestiu-se a Princeza de um brio real e valor senhoril, que bem pareceu communicado do céu, e respondeu-lhe assim: Bispo reverendo, tudo o que me tendes dito, devo, e quero crer por obrigação de christã, que vol-o faz dizer o zelo que tendes do serviço de el-rei meu senhor, e pae, e do bem de seus povos, e por esta parte não mereceis reprehensão; mas que conta haveis de dar a Deus, sendo successor de Christo Jesus seu filho no habito de sacerdote, e profissão de prelado atreverdes-vos a persuadir-me uma cousa tão encontrada com as obrigações, que prometestes, que jurastes? Como havieis de desculpar com vossa consciencia atissardes o fogo da ira do Principe meu senhor, e irmão, com rasões mais apparentes, que verdadeiras, mais artificiosas, que bem fundadas, só porque vos parece, que o agradaes n'isso? Vós, que tinheis obrigação, como padre espiritual, de o mitigar, e trabalhar, que não chegasse a colera a inficcionar-lhe a alma, e commetter culpa contra Deus: vós, que como outro Ambrosio deverieis aconselhal-o, que temesse entrar por estes claustros sagrados, se não fosse a honral-os, e veneral-os; e fazei-o tanto ao revés, que em sua presença, e minha, tendes bocca para fallar em tirar habito, e religião; e não tendes consideração para vêr, que o haveis com um Deus, que vos pode castigar (e temei-o muito) só pelo que dizeis; e a el-rei meu senhor só por me conservar n'este estado, que com sua licença busquei, havieis de ter por fé (se sentis bem d'ella) que dará vida e honra, e novas victorias: e ao Principe muitos filhos, e nétos, e saude e vida para os vêr e lograr. Se os ecclesiasticos não discursam, como ecclesiasticos, não fallam como ecclesiasticos, que se ha de esperar do vulgo? Se a vossa theologia vos ensina, que nem nas cousas humanas se move a folha d'uma arvore sem vontade de Deus, como nas divinas, e no que foi inspiração do céu, e quasi nascida comigo, haveis de pôr nome de apetite? Estando escripto, que nem o nome de Jesus podemos pronunciar, nem vós, nem eu, sem especial movimento do Espirito Santo. Se isto ignoraveis, não merecieis de mim resposta; e se o sabieis, como sei que sabeis, mereceis nome de adulador para com o Principe, e de enganador para comigo. E qualquer que seja vossa tenção e entendimento, sabei de certo (e com isto concluo) que a causa é de Deus, que se não sujeita a poderes humanos: e pela mesma rasão não haverá nenhum na terra, que me tire o proseguil-a: e se elle fôr servido, que me custe a vida tal demanda, isso terei por ventura, por reino e por imperio. Assim concluiu a Princesa, e com a ultima palavra fez signal de se querer recolher, porque enxergava no gesto do irmão enfiado ondas de nova paixão. Parece que houve por dito contra si tudo o que a Princeza respondeu ao Bispo; sentiu-se, e desconfiou de vêr sua inteireza e liberdade; e vêr juntamente ficar o Bispo corrido, e pouco airoso com o que ouvira.

Dizem que soltou contra ella muitas palavras pesadas, e foi uma, que em pedaços lhe havia de tirar o habito, e assim a deixou.

«Desbaratam muito a saude corporal desgostos da alma, e se estes cahem sobre vida acossada de trabalhos, como acham materia disposta, são os effeitos maiores, e mais nocivos. Tinha esta Senhora passado alguns mezes de noviça com tão rigoroso tractamento de sua pessoa, que toda a communidade havia por impossivel chegarem ao cabo do anno membros tão fracos, e compleição tão delicada. E com tudo a força do espirito, e gosto, que tinha de se dar a Deus, fazia, que levasse alegremente tudo, e se vencesse a si mesma. Mas como se juntou o sobresalto dos povos, e desamparal-a sua thia, e a indignação do Principe, rendeu-se, e acurvou a natureza, opprimida de tantos males juntos: como acontece sossobrar o navio com demasiado pezo, e arrebentar a peça de bronze, se lhe lançam mais carga daquella com que pode. Passados poucos dias depois de ido o Principe, adoeceu gravemente.»

A noticia da doença chegou aos ouvidos de D. Affonso V. Differentes prelados e physicos distinctos foram logo enviados a Aveiro, e, chegados aqui, decidiram em conferencia que D. Joanna não podia continuar a vida que até então levara, pois a sua existencia corria grave risco se continuasse a insistir em querer professar.

D. Joanna, tendo conhecimento do que se havia deliberado a seu respeito, consultou o então vigario geral da ordem, fr. Antão de Santa Maria, homem de grande saber e ainda de maior virtude, se devia continuar o seu anno de provação, se despir o habito. O sabio religioso, ouvidos os padres mais qualificados, fez-lhe vêr que, visto estar tão debilitada pela doença e ser de natureza tão franzina, como manifestamente se via, não poderia cumprir com os encargos e austeridades da ordem, ficava em consciencia obrigada a deixar a pretensão, que tinha de professar n'ella. D. Joanna recebeu pesarosa a ordem do Geral; o seu espirito estava já de todo absorto em sensações mysticas, para não lhe parecer cruel uma tal determinação. Mas humilde como sempre obedeceu de prompto ao que se lhe havia ordenado.

Reunida a communidade no seu oratorio particular, apresentou-se á Prioreza, e de joelhos e banhada em lagrimas, declarou-lhe que por obediencia e não por vontade desistia de professar; e tirando o habito collocou-o sobre o altar, tudo com um respeito tão devoto, que revelava bem quanto lhe custava deixal-o, diz fr. Luiz de Sousa. Passados que foram alguns dias, tornou a vestir o habito, mostrando assim que o trazia por devoção e não por obrigação.

Nos fins da primavera de 1479 a peste oriental que havia annos já assolava Portugal, entrou em Aveiro com o seu funebre cortejo de calamidades. Havendo-se desenvolvido em Esgueira, de uma maneira verdadeiramente assustadora, principiou a fazer sentir aqui os seus horrorosos effeitos, ainda que com menos intensidade. Infelizmente, todas as condições hygienicas de Aveiro, eram de forma para fazer receiar o desenvolvimento do fatal contagio. A villa, como a maioria das povoações de então, com as suas altas muralhas e fossos profundos, com as suas ruas e viellas estreitas e immundas, cerrada por todos os lados de pantanos, estava adquada sobremaneira para a epidemia se desenvolver espantosamente, como com effeito se desenvolveu.

D. Affonso V, vendo o risco eminente que corria sua filha, permanecendo aqui, ordenou que sem demora abandonasse o convento e a villa e se dirigisse ao Alemtejo, ainda não inficcionado, e aos Bispos, de Coimbra e do Porto, bem como a varios fidalgos visinhos que se lhe apresentassem para a acompanharem. «Tendo ella escrupulisado em dar cumprimento áquella determinação, diz D. Bernarda Pinheiro, e chegando isto ao conhecimento do Provincial, veio aqui com alguns religiosos mais auctorisados, e lhe fizeram vêr, que devia cumprir o que lhe era ordenado; pois mesmo que quizesse fazer sacrificio da sua vida, cuidando que Deus lha aceitaria, tal sacrificio não era meritorio, por lhe faltar a devida obediencia, a qual devia muito escrupulisar, de não satisfazer, principalmente sendo o preceito tão justo, pois vinha de quem podia mandal-a e tinha por fim prevenir o gravissimo prejuizo, que poderia seguir-se ao reino se a sua pessoa fosse victima da peste; e podia levar comsigo, as religiosas que quizesse, mesmo a Prioreza; e n'esta occasião o dito Provincial as intimou por santa obediencia para que nenhuma se recusasse.»

Feitos os necessarios preparativos, D. Joanna deixou o convento de Jesus em 27 de setembro, e dirigiu-se a Aviz. Alem dos Bispos do Porto e Coimbra, e varios fidalgos e escudeiros, acompanharam-n'a D. Beatriz Leitão e mais algumas religiosas, e bem assim sua ama D. Mecia de Sequeira. Viajava sempre em andas[35] cerradas, cobertas de panno azul escuro, pois então entre nós ainda se não havia introduzido o uso das carruagens.

Depois de alguns mezes de residencia em Aviz, partiu para Abrantes, aonde em 3 de agosto de 1480 falleceu a Prioreza D. Beatriz que comsigo levara, e passados alguns dias depois de haver orvalhado com muitas lagrimas a sepultura d'aquella virtuosa senhora, voltava ao convento de Jesus, por haver noticia que a peste havia finalmente abandonado Aveiro.

No anno seguinte de 1481 perdia el-rei seu pae, fallecido a 28 de agosto no paço de Cintra, na propria camara que em que havia nascido. Feitas que foram na egreja do convento as exequias solemnes pelo eterno descanço do que fôra seu pae e rei, mandou alli alguns frades do convento de Nossa Senhora da Mizericordia e differentes fidalgos, cumprimentar o novo monarcha, e prestarem-lhe em seu nome juramento de fidelidade. D. João II recebeu prasenteiro e agradecido os emissarios de sua irmã, e por elles mesmos lhe fez saber que procuraria ministrar-lhe, tão depressa as circumstancias do real thesouro o permitissem, os meios de que carecesse para poder sustentar, como era mister, o decoro inherente á sua pessoa.

D. Affonso V havia declarado em seu testamento, que não instituia sua filha herdeira em cousa alguma porque, segundo o costume do reino, tudo o que possuia o rei passava a seu filho primogenito, o qual tinha o encargo de manter e agasalhar todos os outros irmãos.[36] O novo rei cumpriu cavalheirosamente as disposições testamentarias de seu pae, como mostraremos, e se não o fez logo é porque lhe foi totalmente impossivel fazel-o. A nobreza estava senhora absoluta de Portugal inteiro; quasi que todos os rendimentos do estado eram absorvidos por ella; taes haviam sido as doações, tenças e moradias concedidas por D. Affonso V. De seu filho pode-se dizer com justificada rasão, que herdou de seu pae unica e simplesmente, as estradas de Portugal.

Antes poucos dias de D. João subir ao throno, nasceu-lhe um filho illegitimo, D. Jorge de Lencastre, de D. Anna de Mendonça, mulher muito fidalga, e moça formosa de mui nobre geração, diz Garcia de Rezende.[37] Os primeiros vagidos de D. Jorge despertaram logo no coração de D. João II aquelle intenso amor que mais tarde o levaram a tentar legitimal-o, para lhe poder succeder no throno, o que não se chegou a realisar pela resistencia tenacissima que a isso oppoz a rainha D. Leonor.

Por escusar desgostos caseiros--escreveu fr. Luiz de Souza,--determinou (el-rei) tirar diante dos olhos o Principe. Este meio de _tirar deante dos olhos_ para _evitar desgostos caseiros_ é vulgar, diz o sr. Alberto Pimentel, em reis e vassallos. O que não é vulgar é encontrarem os bastardos de uns e outros, educadora tão carinhosa e meiga como a Princeza Santa Joanna, que no mosteiro de Aveiro recebeu e educou o sobrinho.[38]

O pedido de D. João II para que o futuro Mestre de S. Thiago fosse educado no convento de Jesus, foi feito a D. Joanna por o então Provincial dos Dominicos e que em tempo fôra tambem confessor de el-rei seu pae. Obtidas as licenças necessarias, mandou D. Joanna preparar-lhe aposentos por cima da _casa da roda_, para onde veio, não tendo ainda trez mezes, diz D. Bernarda Pinheiro, não trazendo em sua companhia ninguem mais do que a ama que lhe dava leite, mulher d'aqui natural.

Em 1485 desenvolveu-se de novo a peste em Aveiro, e D. Joanna viu-se obrigada a deixar o seu convento. Todos os seus biographos, incluindo mesmo D. Bernarda Pinheiro, affirmam que ella se retirou para o mosteiro das religiosas dominicas da cidade do Porto. Parece-nos que não dizem toda a verdade. Alli não havia nem nunca houve mosteiro algum de religiosas dominicas; alem d'isto, no archivo da camara de Coimbra existe uma carta autographa de D. Joanna, datada de 14 de janeiro d'aquelle anno, em que agradece aos vereadores d'aquella cidade a boa vontade que tinham ao seu serviço, e lhes offerece tambem a sua para com a cidade, na villa de Monte-mór (velho) para onde el-rei a mandara ir.[39] De Monte-mór dirigiu-se a Alcobaça onde el-rei então estava, deixando comtudo alli seu sobrinho D. Jorge.

Diz-se geralmente que fôra o chamamento de D. João II que alli a levara, e a causa d'isto as negociações d'um projectado casamento com Ricardo III de Inglaterra. Todos os biographos de D. Joanna são concordes em que ella fosse pedida em casamento por differentes Principes da Europa, e bem assim nos successos milagrosos que foram a causa principal na sua opinião, d'elles, de se não chegarem a realisar.[40]

A historia séria, debaixo do ponto de vista humano, a historia, como no seculo XIX se escreve, e como diz o sr. Pinheiro Chagas, não acceita nem regeita estes factos milagrosos, passa-lhe de largo; por isso abster-nos-hemos de apreciar aquillo que em materia de tão alta transcendencia se não basear em documentos sobre cuja autenticidade não haja a maior duvida. Não existe documento algum, ou ainda mesmo qualquer referencia nos chronistas contemporaneos, por onde se prove que D. Joanna foi pedida em casamento.

Todos os escriptores que se occuparam de D. Joanna, e que foram muitos, principalmente os que escreveram anteriormente ao seculo XVIII, affirmam que Luiz XI e Carlos VIII, de França, Frederico VI, d'Allemanha, e Henrique VIII, de Inglaterra, a pretenderam para esposa. Aquellas affirmativas, em quanto a nós, baseam-se unica e simplesmente na tradição, mas na tradição adulterada pelo espirito dos chronistas monachaes, cujo fim principal era sempre referir só o bem, e admittir facilmente prodigios, de forma que na mór parte das chronicas regulares, como diz um dos mais brilhantes luminares que o episcopado portuguez tem tido,[41] se destacam «tantos milagres absurdos em muitos casos para não dizer ridiculos, recebidos sem exame, abraçados com pouco credito do entendimento, propostos ou antes apregoados com mais boa fé e singeleza do que discripção[42].»

Os biographos de D. Joanna sahidos com rarissimas excepções dos claustros, não podiam talvez deixar de cercar de successos milagrosos o vulto sympathico da filha de Affonso V, e é só assim que se explica a sua convicção, aliás na apparencia sincera, com que relatam factos, que de forma alguma podiam ter lugar, como são os do casamento com alguns d'aquelles monarchas. Seria demasiado longo, e até mesmo fastidioso, o rebater, n'esta parte, os biographos, cada um de per si, e mesmo porque todas as suas affirmativas estão compendiadas na _Historia de S. Domingos_, pelo classico e brilhante chronista d'esta ordem. Fr. Luiz de Sousa, seguiu é verdade, pela vereda dos mais chronistas, mas fel-o tão primorosamente, escreveu num estylo tão arrebatador, que a elle só podemos e devemos pedir as narrações dos factos de que nos estamos occupando e que temos de condemnar como absurdos.

Escreve fr. Luiz de Souza:

«Entraram n'esta conjuncção em Lisboa embaixadores de el-rei de França Ludovico Undecimo. Era a missão da embaixada, que el-rei houvesse por bem, que para mais firmeza de amor, e, paz, que entre as duas corôas havia, interviesse novo vinculo de sangue, contrahindo-se matrimonio entre a Princeza Dona Joanna, e o Delfim de França (tal é o titulo dos Principes d'aquelle reino). Não havia quem duvidasse em estar bem o negocio a el-rei D. Affonso seu pae, e ao reino, e á mesma Princesa; só ella, quando seu pae lho communicou para saber sua vontade, ficou dentro em sua alma com sobresalto, e desconsolação. Mas sem dar a entender o que sentia, desviou o tracto com rasões tão sabias, que el-rei ficou satisfeito d'ellas, e de sua tenção, não descontente. Disse, que o Principe Dom João seu irmão era moço, e enfermo; e parecia temeridade, em quanto não tinha edade para casar, nem disposição, e saude firme, desterrarem-n'a a ella para tão longe, sendo, como era herdeira e successora do reino; que se podia responder aos francezes com palavras geraes de boa amizade, e gosto do parentesco; porem differindo a resolução, e dando por causa os poucos annos do Delfim, que não eram mais de quinze, e tambem os d'ella; que havia mister ser mais crescida, e ter mais pratica do que lhe convinha saber para tal estado, e para em terras estranhas. Instou el-rei todavia, e porfiou, porque não tinha por acertado perder tal occasião. Mas emfim, considerando de vagar a resposta da Princeza, foi julgada por mais conveniente, e seguida por todos os do conselho.»

«Era rei dos romanos Miximiliano, filho do imperador Frederico, e da infanta D. Leonor, irmã de el-rei D. Affonso, diz fr. Luiz de Souza; como nascido de portugueza, e affeiçoado ao reino, desejou casar n'elle. Houve da sua parte muitas instancias, que a Princeza rebateu com seu valor, e emfim as desviou outro casamento, que se offereceu ao pretensor, e teve effeito com herança do senhorio de Borgonha e Flandres; porem, não tardaram outras que lhe deram maior cuidado. Estava herdado el-rei Carlos VIII, de França, para quem fôra pedida em vida de seu pae Luiz XI, como atraz escrevemos; pediu-a agora de novo. Pareceu a el-rei que convinha muito a seu reino a alliança, com tão poderoso principe para continuação da paz antiga, e segurança das navegações portuguezas.[43]

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«Tinha-se feito rei, e senhor de Inglaterra, e conde Henrique de Rixemont, vencendo em batalha ao duque de Clucestra, Ricardo, que, contra elle injustamente se levantara. Presava-se de portuguez, porque trazia sua descendencia da casa real de Portugal. Tanto que se viu rei pacifico, desejou renovar o parentesco, e juntamente a paz e amizade, que seus antecessores tinham com este reino. Despacha embaixadores, offerece pazes com particularidades de importancia, e para firmeza pede a Princeza D. Joanna por mulher.»[44]

Com relação a todos estes projectos de casamento, cumpre-nos dizer, que não tiveram nem podiam ter lugar. A boa fé de fr. Luiz de Souza, foi illudida mais uma vez, com as narrações dos chronistas que o antecederam, e que por santa obediencia teve de seguir e imitar. D. Joanna não podia casar com nenhum d'aquelles principes, não só porque a polygamia não estava em pratica n'aquelles paizes, como tambem porque não podia ter por maridos homens que nem sequer haviam ainda nascido.

Luiz XI não pediu, nem podia pedir, a mão de D. Joanna para o Delfim, que depois foi Carlos VIII. Pelo que se deprehende da narração de fr. Luiz de Souza, este pedido deveria ter lugar antes da conquista de Arzilla (1471), época em que o Delfim ainda não era nascido, ou se o era já, poucos mezes contava ainda, não podendo por forma alguma ter quinze annos, como affirma o chronista, pois nasceu em 1470.[45]

Tambem não tem minimo fundamento a vinda a Lisboa n'aquella época de embaixadores de Luiz XI, porque o unico embaixador enviado por este monarcha a D. Affonso V, foi Ollivier Le Roux, e isto em 1485.[46] Diz mais fr. Luiz de Souza, que Carlos VIII, já rei, pedira em casamento D. Joanna; poderia ser que assim fosse, porém, de taes negociações não resta memoria. Na _Carta Patente_ de 6 de setembro de 1483, em que aquelle monarcha renova as antigas allianças e amisades que desde antigos tempos existiam entre Portugal e a França não ha a mais leve referencia com relação a este objecto.[47] O que se torna completamente inadmissivel e chega até a tocar as raias do ridiculo, é a causa assentada por Souza de se não chegar a realisar o casamento. Diz que D. Joanna, respondeu a el-rei seu irmão, que consentia no matrimonio, se n'aquelle dia e hora, que tal consentimento dava, estivesse el-rei Carlos vivo; mas em caso, que fosse morto, houvesse sua alteza por bem deixal-a livre para em nenhum tempo mais se lhes fallar em mudanças de estado.

Deu-se el-rei por satisfeito, contentou o embaixador com palavras de matrimonio, como quem ignorava o que a sua irmã fôra manifestado. Mas não passaram muitos dias, que lhe viesse nova de ser morto o que já tinha por cunhado; e que acabara de morte subita, e antes do termo, em que a Santa dera seu consentimento.»[48]

Fr. Luiz de Souza foi aqui o verdadeiro chronista monastico; julgou ser ensejo de arranjar um milagre, e não recuou perante cousa alguma; cremos mesmo que elle conhecia sufficientemente a historia de França e que sabia muito bem que Carlos VIII sobrevivera a D. Joanna, pois, fallecera só em 1498[49] mas narrou o facto d'aquella forma, não só porque se tornava necessario povoar a historia de successos milagrosos, não talvez por convicção propria, mas sim por lho haverem ordenado, porque elle, como diz o douto prelado por nós já citado, «escreveu porque o mandaram escrever, e escreveu o que lhe mandaram.[50]