D. Joanna de Portugal (A Princesa Santa) Esboço Biographico

Chapter 1

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D. JOANNA DE PORTUGAL

(A PRINCEZA SANTA)

ESBOÇO BIOGRAPHICO

POR

MARQUES GOMES.

AVEIRO Imprensa Commercial. 1879.

D. JOANNA DE PORTUGAL

(A PRINCEZA SANTA)

ESBOÇO BIOGRAPHICO

POR

MARQUES GOMES.

AVEIRO Imprensa Commercial. 1879.

OBRAS DO MESMO AUCTOR

MEMORIAS DE AVEIRO (esgotada).

D. DUARTE DE MENEZES, esboço biographico.

O DISTRICTO DE AVEIRO, noticia geographica, estatistica, chorographica, heraldica, archeologica, historica e biographica da cidade d'Aveiro e de todas as villas e freguezias do seu districto.

A MULHER ATRAVEZ DOS SECULOS, estudo historico sobre a condição politica, civil, moral e religiosa da mulher; 1.ª parte sociedades primitivas. China, India, Persia, Assyria, Egypto e Israel.

A seis de Fevereiro de 1452 nasceu em Lisboa, no paço d'Alcaçoba,[1] D. Joanna de Portugal. A nova do nascimento foi alegre e enthusiasticamente celebrada, a ponto da recordação do tristissimo drama de Alfarrobeira ser quasi que totalmente deslembrada. Os laços conjugaes entre Affonso V e D. Izabel de Lencastre estreitaram-se de forma, que murcharam de todo as esperanças alimentadas pelos inimigos do Infante D. Pedro, de verem realisado o divorcio por elles tão aconselhado[2] e sempre tão nobremente repellido pelo futuro vencedor d'Arzilla.

Affirmam os seus biographos que D. Joanna foi no berço jurada princeza herdeira pelos _Tres estados do reino_. A falta de successores á corôa, obrigou el-rei seu pae, diz Caetano de Sousa, a que no berço fosse jurada em côrtes Princesa herdeira do reino, titulo com que sempre foi conhecida, ainda depois de nascido o Principe D. João[3]. E foi logo jurada por Princeza por todos os estados do reino, que acertaram achar-se juntos na conjunctura do seu nascimento, refere fr. Luiz de Souza.[4] As chronicas do tempo não sanccionam esta affirmativa. Ruy de Pina e Dameão de Goes nem sequer noticiam tal juramento; aquelle diz apenas que ella sempre se chamou Princeza até 1455, em que nasceu o Principe D. João; este, que depois do nascimento do Principe ella teve o titulo de Infante, por não lhe pertencer já o que primeiro usara.[5]

Talvez que fosse jurada Princeza pelos fidalgos e mais pessoas que compunham a côrte, não obstante d'isso não restar memoria escripta; por quem de certo não o foi e pelos _Tres estados_ porque estes nem estavam reunidos, nem se reuniram n'esse anno, nem nos dois annos que se lhe seguiram.[6] Nem mesmo pela delegação d'elles, ella foi jurada tambem, porque esta deputação permanente, como lhe chama o sr. Oliveira Marreca, não existia já.[7]

Amamentada por D. Mecia de Sequeira, D. Joanna ficou orphã de mãe aos cinco annos de edade. A rainha D. Izabel, que, com o nascimento do Principe D. João, havia alfim alcançado sepultura para seu pae sob as abobadas da Batalha, cahiu fulminada em Evora pelo veneno ministrado pelos partidarios do duque de Bragança, em 2 de dezembro de 1455.[8]

Poucos dias depois do falecimento de D. Izabel, D. Affonso V ordenou que todos os officiaes, damas e donzeis que estavam ao serviço da finada rainha, passassem para o de D. Joanna, a quem deu casa, como aquella a trazia.[9] Pelo que se deprehende da narração de D. Bernarda Pinheiro[10], D. Joanna, depois do fallecimento da rainha, sua mãe, assistiu n'um palacio, separado do de seu pae e irmão, talvez o de S. Bartholomeu, que anteriormente havia sido occupado por suas thias as infantas D. Leonor, D. Catharina, e D. Joanna.[11]

Entre as damas mais intimas da rainha D. Izabel[12] conta-se D. Beatriz de Menezes, senhora de nobre linhagem e elevados dotes do coração e do espirito; foi a ella que D. Affonso confiou a educação moral da filha. Para seu mordomo-mór nomeou-lhe Fernão Telles de Menezes, e para governador de sua casa D. João de Lima, segundo visconde de Villa Nova da Cerveira.[13] O lugar de camareira-mór foi dado a D. Izabel de Menezes, a _Formosa_, que tambem havia sido dama da rainha D. Izabel.[14]

Se outras provas não tivessemos para avaliarmos os talentos de D. Joanna, o espirito esclarecido de seu pae era bastante para nos fazer acreditar que ella recebeu uma educação esmeradissima, pouco vulgar n'aquelles tempos. Não só cultivava com esmero a lingua materna, mas a latina tambem, que então, alem de ser propriamente dita a lingua da sciencia, era-o igualmente dos altos dignatarios da egreja e da côrte.

Refere D. Bernarda Pinheiro, que D. Joanna aos nove annos, sabendo já grammatica, começou com grande cuidado a aprender letras, e a querer entender latim; estando no convento de Jesus trabalhava por haver e mandar copiar muitos livros, tanto em linguagem, como em latim, dando preferencia a estes, porque ella muito bem o sabia.

D. Affonso V, que havia tido por mestre o celebre Matheus Pisano, e que sustentava n'um documento publico que «as sciencias e a sabedoria a nenhum outro dom podem ser comparadas» decerto não deixou de chamar para junto da filha, afim de lhe cultivarem o espirito, as maiores celebridades d'então. D. Filippa de Lencastre, filha do Infante D. Pedro, havia tambem de necessariamente concorrer immenso para a educação de D. Joanna, já com os seus prudentes conselhos de thia extremosíssima, já com as luzes do seu elevado talento e do seu apurado gosto litterario e artistico, pois esta senhora, alem de varias obras que traduziu do latim, escreveu coplas e foi uma notavel illuminadora de manuscriptos.[15] D. Joanna imitou-a. A sua maravilhosa formosura prestava mais um encanto, diz Ferdinand Dinis, á predilecção que não deixou de mostrar por tudo quanto se referia á cultura da intelligencia.[16]

Fr. Luiz de Sousa diz que ella «lia e considerada as vidas e martyrios das virgens, e tanto se agradava da licção que não queria fallar nem ouvir fallar d'outra cousa, etc.» Ao historiador monastico decerto pareceu profana outra qualquer leitura que não fosse a mystica narração dos feitos das heroinas do christianismo, e por essa rasão limitou a ellas os livros compulsados por D. Joanna; parece-nos, porem, que não disse toda a verdade. A filha d'um monarcha tão illustrado como foi Affonso V, a mulher que havia recebido uma tão apurada educação como ella recebeu, decerto não se limitava só a lêr vidas de santas, que por signal escaceavam na régia livraria.[17]

D. Joanna passou o abril da vida instruindo-se e soccorrendo os indigentes. Onde houvesse lagrimas para enchugar, ou orphãos para arrancar ás garras da miseria, a sua sombra protectora lá estava. Milhares de infortunios foram suavisados por ella. Aos carceres e hospitaes chegava tambem a sua beneficencia. Alli, pelos seus servidores mais fieis levava o remedio do corpo e a esperança da alma, o pão para a fome e a fé para lenitivo ás grandes dôres. A sua caridade era conhecida de Lisboa e de Portugal inteiro; aquillo a que podia chamar propriamente seu distribuia-o pelos necessitados; quanto tinha era dos pobres e para os pobres. Mereciam-lhe sempre particular compaixão os desgraçados que, havendo sido grandes outrora, cahiam em pobreza; e nos soccorros que a estes ministrava é que o seu animo compassivo e bondoso melhor se reflectia, pois protegia-os sem lhes ferir o pondunor, sem sequer lhes fazer pensar d'onde lhe vinha o inesperado auxilio.

Do mesmo modo que seu pae, apparecia ao povo nos lugares publicos, e escutava com semblante prasenteiro e bom as supplicas dos subditos obscuros, afim de as depôr e advogar perante o regio throno. Honrava sempre com todo o pessoal de sua casa as festas e solemnidades da côrte. Nos seus paços orava e fazia orar Suas damas pela prosperidade do paiz. Recolhida ao seu oratorio particular, ahi se demorava longas horas em orações, e entregue á leitura dos livros sagrados, merecendo-lhe particular estima o Evangelho de S. João. Os trances afflictivos da vida do Redemptor eram para ella objecto de serias e profundas meditações, e em memoria d'elles tomou por divisa uma corôa de espinhos. Estavam então muito em uso as divisas, costume cavalleiresco com que os nobres exprimiam as tendencias do seu espirito. A Princeza, segundo fr. Luiz de Souza, «não se quiz desobrigar d'este uso commum; mas no costume do mundo buscou empreza do céu, que foi uma corôa de espinhos. Esta mandou pintar em todos os seus aposentos, esmaltar em suas joias, e gravar em sua porta.[18]

No reinado de D. Affonso V era tal o esplendor das festas da côrte portugueza, que embaixadores estrangeiros confessavam espontaneamente que em paiz algum da Europa poderiam ser escedidas em magnificencia.[19] Os saraus eram muito frequentes; começavam de ordinario por lautas ceias, servidas em custosas baixellas de prata, e terminavam por danças e momos de exquisita invenção. «Debaixo dos tectos e das abobadas artezoadas, lavradas de oiro nos pendurões e bocetes, acotovelavam-se as damas, diz Rebello da Silva, riam pagens, atravessavam figuras de momos, pulavam anões ou corcovados, e teniam os cascaveis dos maninellos e truões.[20] D. Joanna não permittia que no seu paço, diz D. Bernarda Pinheiro, se fizessem jogos nem momos de vaidades; se queria ter sarau, fazia-o quando seu pae e irmão lh'o vinham dar e ter com ella. E com elles, duques, marquezes, condes e todos os outros senhores e fidalgos, os quaes como a paço d'uma princeza, não tendo outra, vinham assim desenfadar. E tomava muito prazer em seus saraus com el-rei n'estes dias festivos, e com suas damas e donzellas, com as quaes a dita senhora Infante e Princeza sahia a recebel-os, toda coberta de sua pompa e reaes vestidos e toucado, por satisfazer sempre com a vontade e mandado de el-rei seu pae.»

Parece que n'estas festas, em que sempre dançava com el-rei, ou com o infante D. Fernando, seu thio, D. Joanna occultava com cuidado, sob as sedas dos seus vestidos e os brilhantes dos seus colares, a camisa de grosseira estamenha e os asperos celicios.

* * * * *

A Africa é a terra promettida de D. Affonso V, diz Schoeffer, o objecto de seus desejos, dos seus planos favoritos e de seus sonhos,[21] é finalmente alli, refere Rebello da Silva, que elle corta uma palma, que D. João I mesmo não julgaria impropria da sua corôa militar.[22] A conquista d'Arzilla, uma das melhores possessões dos mouros, n'aquella parte do globo. Em 1471 depois de haver mandado observar por Pedro de Alcaçoba e Vicente Simões, o meio mais facil de levar a effeito a desejada conquista, D. Affonso preparou a expedição, composta de quatrocentos e setenta o sete navios e vinte e quatro mil homens de desembarque. Contra o voto quasi unanime do seu conselho, o rei commetteu uma d'aquellas leviandades em que tão facilmente se deixava cahir. Consentiu que seu filho, o Principe D. João, o acompanhasse, aventurando assim aos azares da guerra os destinos da corôa de Portugal. Por governador do reino ficou o duque de Bragança, D. Fernando.[23] Alguns escriptores, entre elles fr. Luiz de Souza, querem que D. Joanna fosse a regente, opinião que alem de não ser seguida por Dameão de Goes, Ruy de Pina e outro qualquer chronista, cahe pela base em presença da carta patente de D. Affonso V, em que se incumbe a governança do reino ao velho duque de Bragança. A propria D. Bernarda Pinheiro não diz explicitamente que ella ficou regente, mas sim «que el-rei lhe deixou seu reino e tudo ordenado e recommendado como convinha.»

Em 15 de agosto levantou ferro a esquadra com direcção a Africa, e a 24 do mesmo mez dava-se o assalto, hasteando-se, passadas algumas horas de sanguinolento combate em que D. Affonso V combateu com o seu incontestavel valor, a bandeira da cruz nos miranetes das mesquitas e eirados das torres d'Arzilla.

«Tanger, que resistira a tantos assaltos, e que vira do alto dos seus muros, no reinado de D. Duarte, o desastre dos infantes, e o captiveiro d'um d'elles, Tanger cortada de temor, despejou-se repentinamente, e D. João, depois marquez de Montemór, recebia das mãos victoriosas do rei os estandartes portuguezes, para os hastear n'aquellas ameias desamparadas.[24]

A feliz nova de que Affonso V engastara na sua dupla corôa de rei e de cavalleiro duas joias de tão pura agua como eram Tanger e Arzilla, foi em Portugal alegremente recebida. D. Joanna que na capella dos seus paços havia mandado fazer preces publicas pelo bom exito da expedição, communicou logo á camara e cidade de Coimbra o resultado d'ella.[25]

Regulada a administração e defeza das praças conquistadas, o rei voltou ao reino, onde o esperava a mais brilhante recepção que até então entre nós se havia presenciado. Os vencedores, diz Dameão de Goes, foram recebidos com procissões e grandes festas, que em louvor de Deus, e lembrança de tão assignalada victoria por muitos dias se celebraram por todo o reino.[26]

D. Joanna, vestindo um habito de rico veludo verde, e ostentando na cabeça e no collo os melhores brilhantes do real thesouro, foi esperar el-rei ao desembarque. Acompanhava-a sua thia D. Filippa e bem assim todas as damas, donzellas e fidalgas de sua casa. Contava então desoito annos, e a tradicção e a historia apresentam-nol-a formosissima. Vastos cabellos loiros naturalmente annelados, presos em redor da cabeça por uma fita de seda cravejada de rubis cahiam-lhe soltos pelas costas abaixo segundo a moda d'então. O rosto era oval, alvo, ainda que um pouco rosado; os olhos eram verdes e formosos; o nariz digno rival da estatuaria grega e a bocca, pequena, entreabria-se n'uns labios purpurinos. A estatura era um pouco alta, mas donairosa; o seu trajar simples, mas sempre elegante.[27]

Alguns mezes depois eram taes as necessidades do estado que se pensou na conveniencia de reduzir as despezas a que D. Joanna era obrigada a fazer, tendo casa como se fosse rainha. Foram diversos os alvitres apresentados, resolvendo-se afinal que ella entrasse num mosteiro em habito secular, em quanto não casava,[28] indo-se assim de accordo não só com as suas tendencias asceticas, mas tambem com os desejos que mais uma vez havia manifestado, de trocar a purpura pela estamenha. Não era novo o exemplo. As Infantas Thereza, Sancha, Mafalda, Branca e Maria, aquellas filhas de D. Sancho I, e estas de D. Affonso III, haviam trocado tambem a côrte pelo claustro. Alem d'isto é acto de abnegação praticado por D. Izabel a _santa rainha_ de mistura com a repentina resolução de algumas damas mais illustres, que n'esta época abandonaram Lisboa a fim de professarem nos differentes mosteiros do paiz, fez com que D. Joanna recebesse jubilosa a resolução do real conselho.

Escolhido o mosteiro de Odivellas, para residencia da Princeza, por ahi viver sua thia D. Filippa, diz Dameão de Goes que el-rei a foi visitar com o Principe, e lhe disse o que no conselho se ordenara ácerca da ordem de sua casa e modo do estado da sua pessoa, pelo que ella lhe beijou a mão, dizendo-lhe que n'isto lhe fazia grande mercê, porque sua tenção e vontade fôra sempre de servir a Deus em religião.[29]

Resolvida a deixar para sempre a côrte, D. Joanna distribuiu entre as damas de sua casa os seus vestidos e joias, e despachou com el-rei os fidalgos e officiaes, com a maior vantagem e favor que poude, diz fr. Luiz de Souza.[30]

Em 1472 entrou no mosteiro de Odivellas, onde foi recebida com todas as honras inherentes ao seu alto nascimento. Foi porem curta aqui a sua estada. Logo que sahiu do paço deu a conhecer que o mosteiro em que queria viver era o de Jesus de Aveiro e não aquelle, porem por motivos que nos são desconhecidos não poude logo realisar o que desejava. O convento de Jesus havia então poucos annos que fôra fundado; podia-se apresentar como exemplo de pobreza e austeridade e ao mesmo tempo como asylo das damas mais illustres de Portugal, em cujo numero se contavam D. Leonor de Menezes, filha do segundo conde de Vianna D. Duarte de Menezes, que ahi professou e veio a ser mais tarde prioreza. Parece ser esta senhora a causa principal de D. Joanna preferir Aveiro a Odivellas, pelo menos é essa a opinião mais seguida.

Obtida a permissão para vir para o convento de Jesus, D. Joanna deu-se pressa a communical-a á prioresa Dona Beatriz Leitão. Nos fins de julho de 1472 chegou a Princeza a Aveiro; acompanhavam-a, alem da côrte, o rei e o principe, D. Filippa de Lencastre, e soror Mecia d'Alvarenga, religiosa de Odivellas, e D. Mecia de Sequeira, sua ama. No dia 4 de agosto, teve lugar a entrada no mosteiro, que foi com a maior solemnidade e lusimento. El-rei e o Principe foram os unicos que entraram, acompanhando-a, precedidos da communidade, até aos aposentos que lhe estavam destinados, que eram a casa denominada das finadas, por então não haver outra devoluta, nem melhor, diz D. Bernarda Pinheiro.

«Era o mosteiro mui estreito, refere fr. Luiz de Sousa, para aposentar uma Princeza, mas ella entrou tão humildemente, que tudo lhe parecia grande; concertaram-lhe uma casa, que ficava junto á capella-mór; aqui fez logo armar um oratorio, e na parede abriu uma pequena fresta que lhe servia de tribuna para ouvir os officios Divinos.[31] Seu trajo era já dominico, quando entrou, vasquinha branca e saio preto, de panno pouco custoso; os cabellos ennastrados, recolhidos em coifa de lenço, e toalha lançada; como tudo era tão honesto, não mudou nada. Nas festas descia muitas vezes ao côro, e tomava assento no esquerdo, entre as noviças, e nas ultimas cadeiras.[32]

Soror Mecia d'Alvarenga ficou vivendo no convento com D. Joanna; D. Filippa de Lencastre e D. Mecia de Sequeira, essas ficaram tambem por algum tempo em Aveiro, mas fóra da clausura. Algumas creadas que havia trasido comsigo de Odivellas, mandou-as ficar na villa, mais por amor e para lhes fazer bem e mercê, que por necessidade do seu serviço, diz fr. Luiz de Sousa. D. Filippa visitava-a amiudadas vezes e parece que tambem algumas vezes o fizera o Principe D. João antes della tomar o habito, o que muito lhe recommendara que não fizesse.

Nos primeiros dias de 1475; D. Joanna mostrou immensos desejos de tomar o habito. Discutido o assumpto pela communidade reunida em capitulo, determinou ella que a solemnidade tivesse lugar em 25 de janeiro, por n'esse dia a egreja resar da conversão de S. Paulo. «Chegou o dia, e bem podemos dizer, diz fr. Luiz do Souza, que foi o mais formoso, e o mais alegre, que nunca aquella casa teve. Viu-se n'elle uma Princeza jurada de um reino, sendo encontrada de pae rei, e irmão Principe, thios Infantes, e a despeito de toda uma provincia, buscar a pobreza e humildade de Christo, lançar-se por terra, e aos pés de uma pobre mulher, pedir-lhe por misericordia uma mortalha.

Começou a cerimonia depois do uma devota pratica da Prioreza, com se chegar a ella a Princeza, e offerecer-lhe a cabeça para dar os cabellos de ouro em penhor, e primicias do sacrificio, que se fazia a Deus. Cortou-lh'os a Prioreza, mas com tantas lagrimas, que quasi que nem os olhos viam, nem as mãos acertavam o que faziam. Não eram menos as de toda a communidade, nem as da noviça; porem com esta differença, que as da noviça eram de consolação e alegria, as da Prelada, subditas de devoção, de espanto e de compunção. Com as mesmas lhe foi vestido o habito. e no remate, abraçando e dando paz com humildade a todas, se foi com ellas em procissão ao altar.»[33]

«Começou a Princeza desde este dia um mui austero, e esquivo genero de vida, não só por qualidade tão alta e compleição tão delicada, como era a sua, mas para quem no nascimento tivera humilde sorte, e nas forças muita robustez, espelho em que se deviam vêr, e a elle compôr vidas e costumes, todos os sugeitos que buscam a religião. Os que nasceram grandes para se saberem humilhar, e os pequenos para se lembrarem sempre da pobreza do seu pó, e não pretenderem elevar-se onde os maiores se abatem............................................................... .....................................................................

«Famoso exemplo nos deixou esta Princeza; do dia que vestiu o santo habito, nunca mais se deixou visitar, nem tractar de nenhum senhor, nem outro secular do reino; nunca mais trouxe peça de ouro, nem de prata, e até o titulo de Infante quizera deixar, (porque o de Princeza muito tempo havia que o tinha deixado) se a Prioreza lh'o não tolhera. No habito, nas tunicas, na cama e em todo o trajo; no serviço de casa, e communidade, nenhuma differença fazia da mais pequena e humilde noviça. Habito curto, e sem fralda, tunicas de sarja, cama sem nenhum genero de lenço, pantufos baixos de inverno, sapatas de sola no verão (quem crêra isto hoje, ainda em uma mulher ordinaria). No côro fazia todos os officios das mais noviças, assim como lhe cabia por seu turno: dizia versos, (antiphonas), registrava as horas, cantava kalendas, accendia vellas, levava os ceriaes, cruz e agua benta; no refeitorio servia quando lhe tocava, ajudando a companheira quanto suas forças, quando não eram mui fracas, abrangiam. Ao comer, tomava sua pitança como cada uma das outras noviças; se lhe juntavam diante mais alguma cousa, como era fazer differença em respeito da sua pessoa, ou a dava á freira mais visinha, ou a deixava sem lhe tocar. Para não faltar em nenhuma occupação da communidade, aprendeu a fiar, e a coser e lavrar. E como o sangue nobre para tudo é mais habil se se applica, sahiu grande mestra; e do seu fiado se faziam corporaes para os altares. Chegou a amassar o pão, lavar a roupa, varrer as casas, para que corresse o trabalho egualmente por todas; e se acontecia metter-se lenha em casa, ou trigo, e ainda que fosse tijollo, telha e barro, que as religiosas, por não entrarem dentro seculares, e por que não usavam ainda então servidoras, nem de escravas, costumavam por suas mãos acarretar, accudia com alegre rosto a ajudar, e levar sua parte, louvando umas, animando outras, e dando exemplo de humildade a todas.»

«Veio-se a saber na villa, e logo por todo o reino, que estava noviça, com cabellos cortados e habito vestido. Foi estrondo, e nunca visto o sentimento, que por toda a parte causou. Entre os moradores da villa houve pranto geral. Os criados, e criadas se encerraram, e vestiram de pano de dó, como se a viram enterrar. A senhora D. Felippa não quiz mais visital-a, ou de sentida do feito, ou de receiar ser havida por consentidora d'elle; e poucos dias depois se foi da Villa; e deu ordem com a Prelada de Odivellas, que lhe tirasse a amiga D. Mecia d'Alvarenga.»[34]

Mal se divulgou nas provincias que D. Joanna havia tomado o habito, muitas e importantes povoações mandaram a Aveiro representantes seus afim de protestarem contra uma tal deliberação. Chegados que foram aqui, dirigiram-se ao convento, onde foram recebidos na Casa da Roda pela Prioreza D. Beatriz Leitão, a quem asperamente censuraram, chegando a ameaçal-a com o lançarem o fogo ao convento se ella não fizesse com que D. Joanna despisse o habito. D. Beatriz desculpou-se o melhor que poude, dizendo que não tinha feito mais do que obedecer ás ordens da Princeza; estas explicações satisfizeram em parte os representantes dos concelhos, que se retiraram em seguida, depois de haverem feito lavrar instrumentos publicos pelos tabeliães que comsigo haviam trazido, pelos quaes o Convento se obrigou a não pôr estorvo algum nem demora á sahida da Princeza em qualquer tempo que se tornasse necessario para bem do reino.

Veio depois o Principe D. João, trazendo em sua companhia alguns dos principaes fidalgos e varios bispos, dos quaes um era o d'Evora, D. Garcia de Menezes. Entrou iradissimo no convento, e sahindo-lhe ao encontro a Prioreza, reprehendeu-a asperamente tambem, perguntando-lhe como a tal se atrevera.

Ella toda cheia de humildade, mas humildade que não avilta, antes enobrece, respondeu-lhe: «Senhor, a senhora Princeza, jurada herdeira do throno, é por nós todas obedecida, como se fosse Rainha de Portugal: a senhora Princeza mandou, senhor, e soror Beatriz cumpriu.»