D. Antonio Alves Martins: bispo de Vizeu: esboço biographico

Chapter 2

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Aqui vem de molde um facto cuja notoriedade nos corta delongas no memoral-o. De natureza estranha foi elle, e, como tal, soou com grande estampido dentro e fóra do paiz.

Em junho e julho de 1867 concorreu S. Ex.ª a Roma para assistir ás festas do centenario de S. Pedro e canonisação de alguns sanctos. Em certo dia o soberano recitou na capella sixtina um como discurso do throno ao qual é de estylo responderem os bispos como uma saudação a S. Santidade. N'esta saudação, previamente elaborada, realçavam pontos doutrinarios e controversos grandemente incongruentes com as convicções do prelado viziense ácerca da infallibilidade e do poder temporal do papa. A saudação ou resposta ao discurso pontificio não havia sido discutida nem consentaneamente redigida por alguma assemblêa episcopal. Era papel já de antemão impresso, como se o contheudo fundamentasse em dogmas incontradictaveis na christandade. Os prelados concorrentes á capella sixtina, no acto de se apartarem, receberam convite impresso a comparecerem, no seguinte dia, no palacio Altieri para o intento de lerem e assignarem a saudação. O cardeal, que rubricava o convite, não solemnisou com a sua presença a assemblêa dos prelados, os quaes, ao compasso que entravam, iam recebendo os exemplares, e eram advertidos que lessem, assignassem e os não levassem. O snr. bispo de Vizeu, já que ninguem abria discussão, nem o peremptorio do aviso a permittia, leu e deliberou, tambem peremptoriamente, não assignar.

Em o 1.º de julho, appareceu a saudação a S. Santidade em acto solemne, ao qual o snr. D. Antonio, divergente de seus collegas, não concorreu. Não obstante, entre os signatarios, d'aquelle protesto pela infalibilidade e poder temporal encontrou o bispo portuguez o seu nome. Sem interpor tempo, S. Ex.ª protestou, por via do embaixador de Portugal em Roma, contra a sua assignatura nem feita nem authorisada. O nobre prelado, protestando n'este theor, não cogitava em assoprar escarceus que dessem a lembrar as divergencias das christandades primitivas, quando as duvidas sobre infallibilidade dos bispos de Roma eram suscitadas por venerandos prelados que tinham bem no vivo de sua fé as tradições dos primeiros seculos. Da parte de S. Ex.ª o intuito era natural e simplissimo: repellir uma tal qual fraudulencia, equivocamente piedosa, que involvêra a falsidade d'uma assignatura, e violencia de especie nova, imposta á sua consciencia. Não obstante, o episcopado catholico, ardendo em espirito menos santo, assanhou-se com o desusado procedimento, como se ahi pelo seculo IV algum discipulo de Arius ousasse, á face da cadeira de S. Pedro, contender sobre os divinos fundamentos da religião de Jesus. E, todavia, o snr. bispo de Vizeu protestára singelamente contra a falsificação de sua assignatura, denegando-se a subscrever a infallibilidade do papa, como ninguem subscreveu nos primeiros sete seculos da egreja, tal qual e pelas mesmas palavras com que a declinou de si o papa S. Gregorio Magno, e como, ha poucos dias, o protestou o eminentissimo Dupanloup na sua ultima pastoral. O que muito aggravava a culpabilidade do nosso bispo não era a duvida: era o protesto. Não crêsse embora; mas... immudedecesse. O que era, pois, dignidade, foi malsinado de orgulho. O dissentir de seus collegas, n'um acto a que todos por ventura ligavam minima valia, foi havido em nota de rebellião propria dos heresiarcas que parvamente forcejavam por que as portas do inferno prevalecessem.

Lamentavel é dizer-se que este caso passou hontem; e que a mais pronunciada feição de tal conflicto seria irrisoria por conta de Roma, se não fosse profundamente triste!

O snr. bispo de Vizeu, impassivel ás graves censuras e encontrado pela opinião de todos seus collegas, contentou-se bastantemente do applauso da consciencia, como quem, reclamando contra a falsificação do seu nome, praticava um mero acto de moralidade, sem discutir se os apophtegmas de Hildebrando ou as Decretaes de Isidoro Mercador deviam ser de novo aquecidos ao sol do seculo XIX.

Uma commissão de tres prelados procurou seguidamente o snr. bispo para lhe declarar que fôra engano e não proposito a subscripção do seu nome no documento official. A esse tempo já o snr. D. Antonio havia sahido de Roma. A mesma commissão declarou o equivoco, perante o embaixador de Portugal, pedindo que se transmittisse a satisfação ao prelado portuguez, e se lhe pedisse que se houvesse por contente. Em Paris recebeu o snr. D. Antonio o officio do secretario da embaixada, relatando os successos, e solicitando o remate da pendencia. Conveio S. Ex.ª no desejado termo de tão ruidoso quão simples incidente, bastando-lhe que na legação portugueza em Roma se inscrevesse, muito ao claro, que o bispo viziense não assignára nem mandára assignar a saudação ao pontifice, infallivel e monarcha.

Recolhido á sua diocese, o tranquillo prelado enviou cópia de todos os documentos substanciaes d'este conflicto ao ministerio da justiça, esclarecendo o seu poder em Roma. O governo, accusando a recepção do relatorio e documentos appensos, absteve-se do louvor e da censura. Nem o louvor se fazia mister ao socego do pundonoroso bispo: nem a censura, se tamanho vilipendio sahisse imparceirado com a inepcia, poderiam molestal-o senão como testemunho de impertinente ignorancia ou refolhada hypocrisia.

Entretanto, ao passo que uma parte da imprensa louvava a probidade do snr. D. Antonio, fundamentando o elogio em racionalissimos argumentos por nenhum modo attentatorios dos justos direitos da theara pontificia, alguns menos sabios que pios fautores da moradia perpetua do espirito sancto no Vaticano, e do patrimonio do principe dos apostolos, e da legitimidade monarchica de Innocencio IV e João XXII sahiram contra o snr. bispo de Vizeu, já em periodicos mais ou menos trasladados mascavadamente de Joseph de Maistre, já em cartas impressas e subscriptadas com irrisorio desplante e grosseiro desprimor ao douto prelado. Não redarguiu S. Ex.ª a semelhantes artigos e cartas constantes de maravalhas triviaes de sabatina do primeiro anno theologico com que usa estofar-se esta ordem de coisas piamente ignaras--quaes o auctor d'este opusculo as escrevia n'um tempo em que estudava historia ecclesiastica, provando assim que a não tinha estudado. Não redarguiu S. Ex.ª, por que não se houve por deslustrado com censuras innocentes quasi degenerando em parvoiçadas. O antigo mestre de sua congregação, o doutor em theologia, o lettrado, o bispo não devia responder.

Abstrahido á politica, e empenhado novamente nos seus cuidados apostolicos, apercebia-se S. Ex.ª para visitar o restante do seu bispado--como remate á mais capital tarefa da missão episcopal--quando foi convidado pelo snr. duque de Loulé para ser parte no governo, cuja organisação lhe fôra encarregada pelo rei, em seguimento á queda do ministerio Avila. Inutilisadas as diligencias, resignou o snr. duque a melindrosa empreza. O cháos assustava os mais intrépidos. Nem já os sedentos da honra de governar se atreviam a ensaiar a sua pericia pregoada nos comicios.

Então foi chamado ao paço o snr. bispo de Vizeu, e convidado a organisar ministerio.

Aceitou. Corria-lhe obrigação de não esquivar-se a lances de alta responsabilidade quem se defrontára com todas as procellas politicas no decurso de quarenta annos tempestuosos. Aquella crise era certamente a da mais desnorteada mareação da náo descalavrada; mas urgia crêr e pensar na possibilidade de salvamento, sendo desde muito o porto almejado do insigne escriptor e parlamentar as reformas, os golpes fundos nos excessos, a amputação de abusos á mão tenente, sem attentar na gerarchia das classes offendidas pela razoira economica. Cuidou certamente o snr. bispo de Vizeu que a dolorosa experiencia dos ultimos successos politicos seria forte alavanca para derruir obstaculos, manejada por pessoas cujos precedentes não illudissem a confiança da nação.

Esta esperança, denotando peito de rija tempera, argue não extremado conhecimento dos homens.

Difficultou-se, ao mesmo tempo, a escolha de ministro da guerra. Lembrou o snr. bispo convidar-se o snr. marquez de Sá, em quem lustram honra acrisolada com eminentes predicados de bom juizo. Aceitou o snr. marquez a pasta e presidencia. Aceitou por que s. ex.ª não sabe quando um filho de Portugal possa justificar a evasiva do seu prestimo no serviço da patria.

Começou a funccionar o gabinete em 22 de julho de 1868.

Todos os ministros eram alheios dos tumultos de janeiro que lograram a queda do ministerio Aguiar; apezar d'isso, o programma da revolução não podia ser melhorado ou substituido. O estandarte, discreta ou indiscretamente arvorado pelos impulsores portuenses, proclamára batalha campal e inexoravel ás prodigalidades, aos sacrificadores do povo, á voracidade dos incartados no sêvo da fazenda publica. O lábaro era sympathico, sem impedimento de, em crises analogas, desde muitos annos, desfraldado por mãos inexperientes ou ávidas, apenas ter vingado toldar o ambiente d'umas poeiras, descondensadas as quaes o que se via era as arcas do thesouro cercadas de gente nova com os vicios velhos. Seria desacôrdo, ainda assim, a vacillação do novo gabinete, se um desculpavel scepticismo lhe agurentasse a crença nos principios conclamados pelos tribunos. Adoptaram, pois, os novos ministros o programma das reformas, impetrada auctorisação das côrtes.

O fundamento da politica do ministerio em que o snr. bispo de Vizeu consubstanciava o espirito e actividade dos seus collegas, em poucas palavras se define: augmentar a receita e diminuir a despeza.

Contra a ameaçadora fórma d'este moto de partido encapellaram-se para logo aversões filhas do interesse, odios inconciliaveis de classes e individuos affeitos a considerarem legitimos os gosos da sua regalada posição.

Como e quando se tinha operado o milagre de extirpar o egoismo de cada um para melhorar a condição de todos? Quem tinha promettido ao novo gabinete neutralisar pela justiça as forças congregadas dos descontentes? Em que ponto de apoio haviam de assestar a alavanca os temerarios reedificadores?

Duzentos contos tinham sido aliviados ao onus da despeza, quando as hostilidades, pouco tempo clandestinas, romperam clamorosas. O funccionalismo tinha por si a imprensa mais qua nunca descortez, iniqua e desenfreada. Os mais engenhosos e eminentes na cathegoria dos publicistas, apagando os lumes sagrados com que tinham ministrado no altar da liberdade os seus talentos de bem pensar e aconselhar, em dias da gloriosa perseguição, pegaram de escrever objurgatorias tenebrosas em que a soltura da idéa raras vezes se descasava da fórma condigna. O ministerio Sá-Vizeu, na imprensa, era apoiado por poucos, mas desinteresseiros amigos, não querendo grangear algum com o dinheiro da nação. Os talentos postos a ganho refinaram na injuria quando se viram desdenhados como coisa funesta por tal preço. D'ahi as devassas ao recondito da familia, e o despejo das calumnias, que redundavam em deshonra de toda uma terra onde para taes entendimentos se havia fermentado na lama tão desaforada licença.

Na hoste dos funccionarios bandeou-se a legião dos engenheiros civis, classe bafejada no berço por taes prosperidades e mimosa condição que julgal-a-hieis, no meio do abatimento e desconforto geral, a mais bem acondicionada em um paiz opulento. Esta corporação, fadada para destinos incomprehensiveis, ao vêr attravancar-se-lhes o accesso a collocações ambicionadas, conjurou-se em hostilidade sanhosa dentro e fóra do parlamento.

Depois, os aspirantes ao poder dividiam-se em ministros que tinham sido e ministros que queriam ser. Dos segundos, o phrenesi impaciente de governar desfechou em destemperos que a historia séria não póde disputar ao dominio da baixa comedia. Tinha batido a hora em que se julgava com direito a uma pasta ou duas quem quer que tivesse aliado á ignobil coragem de acirrar as iras da opposição a audacia de se julgar predestinado para salvar o paiz.

Entre elementos assim desorganisadores espanta como o ministerio pôde manter-se um anno sem extraviar-se da senda constitucional, escudando-se com a inconcussa honestidade de seus actos, respondendo aos motins do parlamento e das praças com imperturbavel segurança.

D'entre os mais devotos do governo, muitos, atroados pelo estridor da opposição, começaram de sentir os vágados das consciencias que se reviram. Alguns poucos, que o tinham contrariado em incidentes inevitaveis, sustentaram a probidade por tão distincta fórma que não pôde o final desfecho inodoar-lh'a.

Quando a froixa maioria cuidou conjurar a tempestade, sacrificando dois ministros menos favorecidos de apoio, a pugna recrudesceu, por que os ministros retirados deixavam apenas duas pastas, e os candidatos se haviam multiplicado a ponto que não cahia em forças humanas fazer supurar tanta aposthema de ambição debaixo das fardas de só dois ministros.

Simultaneamente, na camara alta, um homem de lettras florentes, acepilhada eloquencia e bons quilates oratorios para mais uteis triumphos, profligou o ministerio com inflammada pertinacia, ao mesmo passo que notaveis mediocridades vociferavam, provando que a syntaxe e prosodia não são condicionaes para applausos.

N'esta extremidade, o snr. bispo de Vizeu, para quem tinha corrido um anno de acerbos dissabores e excruciantes desenganos, sentiu o desalento que prostra os homens de bem, e lhes não permitte impôr, por meios fortes, ás rebeldias irracionaes uns sentimentos que ellas não aceitaram do procedimento liso e franco.

Perdido o apoio n'uma questão momentosa, o ministro do reino briosamente repulsou o alvitre de sondar o espirito da camara n'outra votação. A insistencia daria azo á suspeita de que S. Ex.ª timbrava em permanecer ministro, disputando á soffreguidão febril de seu successor missão tão pouco para invejas.

Demittiu-se o bispo de Vizeu. O gabinete cahiu.

Esta nova, posto que esperada, impressionou tristemente a maioria da familia portugueza. N'esta maioria é bem de entender que não se incluiam as classes prejudicadas pelas reformas. O elemento mais sensivel e respeitavel do paiz para quem o nome do snr. bispo de Vizeu foi caução de porvindouras prosperidades, era o povo que sustenta o funccionalismo, o povo agricola, o povo industrial, o povo que labuta no tracto mercantil. Para muitos a missão do ex-ministro do reino, embargada por cobiçosos e perfidos a meio caminho, deixou como inexequivel qualquer tentamen de proseguil-a na ladeira, cuja escabrosidade incute mêdos a quem já viu as ganancias que auferem os reformadores arrojados.

Quem não sentiu pungimentos de saudade do poder foi o snr. D. Antonio Alves Martins. Se elle poder esquecer as injurias da imprensa e a maleabilidade das consciencias em que esteiava a inteireza da sua, hão de sobrar-lhe memorias dolorosas de um anno de vida desasocegada e fóra do remanso de seus estudos e das consolações da sua recatada beneficencia.

O povo que, ha pouco, o saudou com amoroso enthusiasmo, hade invocal-o ainda, em dias que se vão preparando para grandes provas. E o snr. bispo de Vizeu voltará de novo á lucta e ao sacrificio, terminando o cyclo glorioso de sua vida, qual a começára, em prol da liberdade, cujo berço elle embalou entre ferros.

FIM

[1] «No reinado do snr. rei D. Sebastião é que os Religiosos (_regulares da 3.ª Ordem_), amantes da patria, do serviço do rei, da sua gloria e do zêlo da religião catholica, a exemplo dos distinctos missionarios, que tinham fructificado tanto na Azia, foram á infausta jornada d'Africa, acompanhando os seus parentes e amigos, capellães dos terços e das náos de transportes, em serviço da corôa... ficando desde aquelles dias conservado o distincto logar de capellão-mór das armadas reaes em Religiosos d'esta congregação, por especial graça dos Soberanos d'esta monarchia.» _Fr. Vicente Salgado. Compendio historico da Congregação da Terceira Ordem de Portugal. Lisboa 1793_, 8.º, pag. 71, e seg. Ao mesmo preposito, veja o arcebispo Cenaculo nas _Memorias historicas_, _Appendix Segundo_, art. _sobre a Capellania-mór_, pag. 297, onde vem transcriptos excerptos das _Ordenanças de Marinha_ de Filippe IV.

Não pareça prolixa e descabida a nota. Ha poucos mezes que mais de uma gazeta presumidamente illustrada fingia ignorar que os capellães da armada eram obrigados ao exercicio d'esse ministerio. O proveito d'esta simulada ignorancia rendia tão sómente aos publicistas injustos a satisfação de poderem denegrir o ministro do reino, de 1869, de miguelista em 1832, por que andára por aquelle tempo em navio do governo na qualidade de capellão. Não são estas impericias as de que mais se peja a liberdade de escrever. Seria mister que a ignorancia fosse, por meio da gazeta, contagiosa para que semelhantes aleivosias vingassem.

[2] Nos _Apontamentos sobre oradores parlamentares em 1853 por um Deputado_, (O snr. Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara) lê-se ácerca do snr. Alves Martins: «Tem physionomia carrancuda e é um pouco desabrido no seu trato. Quando aggride o contrario, não usa precauções oratorias, nem cuida em lhe dourar a pilula. Está sempre em occasião proxima com o snr. Antonio da Cunha e, se travam lucta, não ficam a dever nada um ao outro.»

[3] Em 1849, José da Silva Passos, fiando demasiadamente da nossa idoneidade para historiador, nos convidou a escrever, sob sua influencia, a _Historia da Junta do Porto_. Como lhe perguntassemos que valor deviamos dar ao _Nove de Outubro_ escripto pelo snr. Alves Martins, nos respondeu o ex-ministro da Junta: «Alves Martins não sympathisava comnosco. Se o tivessemos feito ministro da guerra, tudo isto tinha voado n'uma barrica de polvora.»

José Passos, gracejando, consoante o seu genio ás vezes brincão, n'aquellas palavras desconcertadas de sentido e substancia, elogiava involuntariamente a actividade resoluta de Alves Martins, e censurava a accomodaticia e transigente indole de alguns seus collegas postos em trabalhos onde o seu temperamento soffria grande violencia.