Curso de Silvicultura

Chapter 7

Chapter 73,647 wordsPublic domain (Wikisource)

Não é só no tomento que as duas paginas da folha se differençam, em quasi todas as nossas especies lenhosas; divergem tambem muito na côr, na consistencia e na disposição dos estomas. Quasi sempre a pagina superior é mais dura, mais lustrosa, tem a côr mais carregada do que a pagina inferior, e quando isto acontece só esta ultima face tem estomas. Essas desegualdades notadas prendem-se com a composição do parenchyma sub-jacente, como vamos ver.

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Quando se faz um corte atravez uma folha de eucalypto (E. globulus) pode verificar-se, ao microscopio, que o seu parenchyma é homogeneo; em nenhuma das Angiospermas lenhosas indigenas se realisa este caso, mas pode examinar-se tambem nas agulhas dos pinheiros, etc.; sempre que ha esta homogeneidade no parenchyma a folha apresenta o mesmo aspecto nas duas paginas, tal é o caso das especies citadas. Mas, se fizermos o corte transversal na folha de uma Angiosperma lenhosa indigena (fig. 35), poderá ver-se, ao microscopio, que o parenchyma foliaceo tem diversa composição, conforme o consideramos mais proximo d'uma ou d'outra pagina; ver-se-ha então que as cellulas parenchymatosas das camadas superiores (fig. 35, c), as mais actuadas pela luz, deixam entre si menores intervallos, são mais apertadas, mais compridas perpendicularmente á superficie, e mais ricas em chlorophylla, do que as cellulas das camadas inferiores, cujo tecido apresenta grandes meatos cheios de ar, (fig. 35, d); a epiderme da pagina superior (fig. 35, a) corre então unida, ininterrupta, emquanto a da pagina inferior (fig. 35, b), se acha aberta em diversos pontos pelos estomas. Como já dissemos a parte externa das cellulas da epiderme fórma a cuticula (fig. 35, x), especie de membrana delgada e hyalina; é pelas aberturas da cuticula e da epiderme, pelos estomas que se realisa a troca de gazes entre a parte aeria da planta e a atmosphera. A abertura do estoma (fig. 36, a) é limitada por duas cellulas reniformes, que voltam uma para a outra a parte concava; esta abertura, como já vimos quando tratámos da epiderme do caule, communica com um espaço inferior que se denomina camara de ar, ou camara do estoma.

Fig. 35. Corte transversal de um fragmento de folha de vidoeiro (Betula alba, L.). a: epiderme da pagina superior, sem estomas. b: epiderme da pagina inferior com estomas. x: um estoma. c: parenchyma apertado superior. d: parenchyma inferior cheio de lacunas. y: uma escama glandulosa. x, (na direcção longitudinal da figura): feixe vascular de uma nervura lateral secundaria (200:1) (segundo Schacht).

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Fig. 36. Fragmento de epiderme de uma folha de buxo (Buxus sempervirens, L.) com um estoma: a, abertura do estoma. (proximamente 500:1).

Em egualdade de superficie as folhas das diversas essencias conteem numeros muito diversos de estomas, e identicamente a grandeza e disposição d'elles variam d'umas para outras. Nas folhas acerosas dos pinheiros os estomas grupam-se muito numerosos em series longitudinaes, ás vezes perfeitamente visiveis á vista desarmada. Eis as dimensões dos estomas d'algumas arvores e arbustos, e o seu numero em superficies eguaes, segundo Duchartre:

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Essencias

Numero dos estomas n'um millimetro quadrado de folha

Comprimento dos estomas, em fracção de millimetro

Castanheiro . . . 175 0,030

Freixo . . . 165 0,027

Alfenheiro . . . 95 0,030

Madresilva das boticas . . . 65 0,030

Oliveira . . . 215 0,016 a 0,020

Carvalho roble . . . 250 0,030

Lilás . . . 175 0,027 a 0,033

Videira . . . 125 0,030

Pinheiro bravo . . . 50 -

Em todas estas especies, a não ser no pinheiro bravo, os estomas encontram-se exclusivamente na pagina inferior da folha.

No meio do parenchyma foliaceo, quasi sempre verde, molle, seivoso, correm, mais ou menos divididas, com a fórma de nervuras, as ramificações dos feixes libero-lenhosos, constituindo o esqueleto do limbo. Como o parenchyma intermedio é de mais facil decomposição, que este systema das nervuras, encontram-se ás vezes, sob as arvores, esqueletos perfeitissimos de folhas, conservando intactas, com a fórma de uma renda vegetal, todas as nervuras, mas d'onde desappareceu todo o tecido que as reunia. De resto, estas preparações podem facilmente executar-se, ou pela maceração das folhas n'agua, ou batendo-as, depois de seccas, com uma escova.

Nas folhas das especies lenhosas indigenas as nervuras são de ordinario ramificadas (fig. 37). As nervuras principaes, salvo o numero dos feixes, teem a estructura já descripta a proposito do peciolo; as nervuras mais delgadas, ou secundarias, são constituidas por feixes libero-lenhosos cujos elementos anatomicos são mais estreitos e menos numerosos, mas conservam a mesma estructura, a não ser nas ultimas ramificações onde o feixe se torna exclusivamente lenhoso: os tubos crivados desapparecem, e o feixe reduz-se então a alguns vasos misturados com cellulas compridas e de paredes delgadas.

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Fig. 37. Folha do choupo d'Italia (Populus pyramidalis, Roz.) mostrando a disposição das nervuras (1:1).

A disposição das nervuras do limbo varia bastante nas especies lenhosas indigenas, mas todas essas diversidades podem reunir-se nos tres seguintes typos principaes:

1.º Folhas uninervadas. - Apresentam uma nervura unica, não ramificada, taes são as folhas acerosas dos pinheiros, do teixo, etc. (fig. 38. A. B).

2.º Folhas penninervadas. - Teem a nervura media ramificada para os lados, em fórma de penna d'ave, e estas nervuras secundarias ainda por sua vez se sub-dividem, como na cerejeira, castanheiro, ulmeiro, buxo, etc. (fig 38, C. D).

3.º Folhas palminervadas. - Teem a nervura media acompanhada de nervuras lateraes, divergentes e decrescentes, saidas do mesmo ponto onde a folha se liga ao peciolo, e abertas para os lados como os dedos das aves; taes são as folhas do platano, da hera, etc. (fig. 38. E).

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Fig. 38. A: Agulhas uninervadas do pinheiro d'Alepo (Pinus halepensis, Mill.). B: Folha uninervada do teixo (Taxus baccata, L.). C: Folha penninervada do buxo (Buxus sempervirens, L.). D: Folha penninervada do ulmeiro (Ulmus campestris, L.). E: Folha palminervada da hera (Hedera Helix, L.) (1:1).

N'estes dois ultimos typos de nervação os feixes ramificam-se por muitas vezes, e em todos os sentidos; umas d'estas ramificações unem-se, ligam-se, constituindo rede (fig. 37), outras terminam livremente, quer no bordo da folha, quer no interior d'aquellas malhas. Nas folhas das nossas arvores e arbustos podem então dar-se duas variantes: em umas especies o bordo da folha é marginado por um feixe, que resulta da união dos lados externos das malhas, sem haver terminação livre para fóra (buxo, murta etc.) (fig. 38, C); n'outras existem terminações livres, não só para o interior das malhas, como tambem para a peripheria, correspondendo as ultimas aos dentes, ou quaesquer outros recortes do limbo (castanheiro, ulmeiro, vidoeiro, etc.) (fig. 38, D).

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Por ultimo, para terminar o estudo anatomico das folhas, diremos que n'ellas existem, muitas vezes, as diversas fórmas de cellulas segregadoras, já referidas, a proposito do caule; assim as agulhas dos pinheiros teem canaes resiniferos; as folhas do vidoeiro apresentam, como as cascas tenras, glandulas que segregam um succo resinoso claro; as do amieiro elaboram uma substancia soluvel na agua, amarga, viscosa, etc.

Fórmas das folhas. - A fórma das folhas varia muito nas nossas especies lenhosas: quasi cylindricas na Suaeda fruticosa, Forsk.; semi-cylindricas nos pinheiros (as duas agulhas presas na mesma bainha constituem reunidas um cylindro); escamiformes, verdes, imbricadas vestindo completamente o ramo, na tamargueira, na sabina, nos cyprestes, etc. (fig. 39); ou escamiformes, muito pouco apparentes, sem côr verde, e portanto não presidindo á elaboração, na cornicabra, etc., as folhas apresentam, em muito maior numero de casos, o limbo desenvolvido em lamina delgada.

Fig. 39. Raminhos de cedro bastardo (Cupressus horisontalis, Mill.) cobertos de folhas imbricadas (1:1).

Este limbo, quer seja inteiro ou diversamente recortado nas margens, pode constituir um todo unico, como no ulmeiro, no buxo, nos choupos etc. (figs. 37 e 38), e a folha diz-se então simples; ou pode dividir-se em diversos limbos parciaes, como na aroeira, na acacia bastarda, no sumagre, no castanheiro da India, etc. (figs. 40 e 41), e a folha chama-se então composta, tomando cada parte integrante o nome de foliolo.

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Fig. 40. Folha pinnulada da aroeira (Pistacia Lentiscus, L.) (1:2).

Fig. 41. Folha digitada do castanheiro da India (Aesculus Hippo-castanum, L.) (1:5)

Os foliolos affectam disposições variadas: assim na folha do castanheiro da India (fig. 41) são divergentes e inseridos todos n'um mesmo ponto; a folha é palminervada e denomina-se n'este caso particular digitada, cabendo aos foliolos o nome de digitações.

Nas folhas do sumagre, da aroeira, do freixo, da acacia bastarda, os foliolos dispõem-se lateralmente; a folha é então pinnulada; se os foliolos são em numero par, como na aroeira (fig. 40) diz-se paripinnulada; se são em numero impar, como no freixo e no sumagre (fig. 56, B) diz-se imparipinnulada; no caso especial de serem só tres foliolos diz-se trifoliada (fig. 42).

Os foliolos podem estar inseridos sobre o eixo sesseis ou peciolados; quando a inserção se realisa em ramificações secundarias, terciarias, etc., do eixo commum, a folha diz-se bipinnulada, tripinnulada, etc.; as folhas do sycomoro bastardo e da acacia dealbata são bipinnuladas.

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Quer as folhas simples, quer os foliolos das folhas compostas, podem apresentar variadissimas fórmas. As folhas do teixo, da camarinheira, do rosmaninho, etc., são lineares: estreitas, compridas, com as margens mais ou menos parallelas (fig. 38, B); as folhas dos pinheiros e do zimbro são acerosas: estreitas e agudas (fig. 38. A); as do espinheiro alvar bastardo apresentam-se muitas vezes espatuladas (fig. 44); as do saião teem a fórma de cunha; as folhas do amieiro são orbiculares ou arredondadas (fig. 43); as da olaya reniformes; os foliolos da folha imparipinnulada da acacia bastarda são ellipticos, isto é, mais compridos do que largos e arredondados nos dois extremos (fig. 45); as folhas do legacão são mais ou menos cordiformes; as do salgueiro branco e salgueiro fragil são semelhantes a um ferro de lança, largas no meio e estreitas nas estremidades, e por isso se dizem lanceoladas; as folhas da salgadeira são deltoideas, isto é, teem quatro angulos, ficando os dois lateraes mais proximos da base que do cimo (fig. 46); as do tamujo e do berberis são obovadas, ou invertidamente ovadas (a particula ob é signal de reversão), mais compridas do que largas, mais largas no cimo que na base (fig. 47), etc.

Fig. 42. Folha trifoliada do anagyris fedegosa (Anagyris foetida, L.) (1:1).

Fig. 43. Folha orbicular do amieiro (Alnus glutinosa, Gartn.) (1:2).

Fig. 44. Folha espatulada do espinheiro alvar bastardo (Lycium Europaeum, L.) (1:1).

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Fig. 45. Foliolo elliptico da folha composta da acacia bastarda (Robinia Pseudo-acacia, L.) (1:1).

Fig. 46. Folha deltoidea da salgadeira (Atriplex Halimus, L.) (1:1).

Fig. 47. Folha obovada do berberis (Berberis vulgaris, L.) (1:1)

N'um maior numero de casos, as fórmas simples enumeradas combinam-se entre si, originando muitas fórmas intermedias: assim as folhos do ulmeiro (fig. 38. B) são ovado-agudas, dissymetricas na base; as do chorão e do trovisco são linear-lanceoladas; as do medronheiro e alfenheiro elliptico-lanceoladas; as do folhado elliptico-ovadas (fig. 58); as do loureiro lanceolado-oblongas (fig. 57); as do choupo negro triangular-ovadas (fig. 37); as da bella sombra ovado-ellipticas, etc.

Seja qual for a sua fórma, o limbo pode apresentar-se plano, como na laranjeira, no ulmeiro, na bella sombra, etc.; ou ondulado nas margens, como no carrasqueiro; ou com os bordos enrolados, como no alecrim, nas alfazemas, etc.

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Em botanica descriptiva, independentemente da fórma geral do limbo, costumam considerar-se em maior detalhe as fórmas das suas duas extremidades - a base e o cimo. Dizem-se então obtusas as folhas quando não terminam em ponta, como as do amieiro (fig. 43); chanfradas quando teem no cimo um pequeno recorte, como ás vezes acontece nos foliolos da alfarrobeira; acuminadas se acabam em ponta longa e estreita, e esta fórma ainda comprehende diversos casos: assim as folhas do salgueiro branco, que vão estreitando pouco a pouco, dizem-se longamente acuminadas; as do Rubus discolor, Weihe e Nees, que estreitam de subito, dizem-se acuminadas de repente (fig. 48); as do Salix Caprea L., que são cortadas obliquamente em ponta não symetrica, denominam-se obliquamente acuminadas; as folhas que terminam em ponta curta e rigida chamam-se mucronadas, taes as da oliveira. Quanto á base, podem ser cordiformes, como as do lilaz (Syringa vulgaris, L.); arredondadas, como as do aderno (Phillyrea media, L.); cunheadas, como as do carvalho anão (fig. 49); attenuadas em peciolo, como as do Rhamnus oleoides, L., etc.

Fig. 48. Foliolo acuminado de repente do Rubus discolor, Weihe e Nees (1:1).

Fig. 49. Folha, cunheada na base, do carvalho anão (Quercus humilis. Lam.) (1:2).

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Em quaesquer das fórmas das folhas simples ou dos foliolos das folhas compostas, a margem do limbo pode ser inteira, como na murta, no eucalypto, no buxo, na acacia bastarda, etc. (figs. 32, 38 C, 45), ou pode ser muito diversamente recortada; as folhas compostas devem mesmo ser consideradas como folhas cujos recortes do limbo, muito profundos, chegam até ás nervuras. As folhas do saião apresentam nas margens pellos quasi eguaes e parallelos, e dizem-se celheadas; as da maceira, que teem pequenos recortes arredondados, não inclinados, chamam-se crenadas (fig. 53). Quando as divisões são pequenas e agudas, se não estão inclinadas nem para o cimo nem para a base a folha diz-se dentada, taes são as do vidoeiro, do amieiro, etc. (fig. 43); se os dentes estão voltados para a parte de cima diz-se serrada, como no choupo negro (fig. 37), no ulmeiro (fig. 38, D), na silva (fig. 48); mas n'estas duas ultimas especies cada dente ainda é dividido por outro mais pequeno e as folhas são duplicado-serradas; ás vezes os dentes terminam em ponta rigida, espinescente, e as divisões das margens tomam o nome de espinhoso-dentadas (carrasqueiro, azevinho, etc.) (fig. 50). Quando os recortes são mais profundos, se não chegam a metade do limbo e são arredondados na extremidade, a folha diz-se lobada; se passam do meio do limbo e são agudos e estreitos diz-se fendida; se chegam quasi á nervura media, na folha penninervada, ou ao peciolo, na folha palminervada, diz-se partida, e a qualquer d'estes tres vocabulos se pode antepor a fórma de nervação, tornando a figura da folha muito mais precisa; assim as folhas do platano e da hera (fig. 38, E) são palmatilobadas, as do roble pinnatilobadas (fig. 56, A); as do carvalho negral são, ás vezes, pinnatifendidas (fig. 51); as do ricino palmatipartidas, etc.

Fig. 50. Folha espinhoso-dentada do Carrasqueiro (1:1).

C. S. 7

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Fig. 51, Folha pinnatifendida do carvalho negral (Quercus Tozza, Bosc). (1:2).

Polymorphismo das folhas na mesma especie, e no mesmo individuo. - A mesma especie vegetal não apresenta constantemente as folhas eguaes nas dimensões e na fórma, no emtanto esta variabilidade é maior para umas do que para outras especies. Os carvalhos teem esse polymorphismo em alto grau e como taes podem servir de bom exemplo: as folhas da azinheira encontram-se ellipticas, oblongas, orbiculares, ovadas, umas vezes inteiras nas margens, outras vezes espinhoso-dentadas; as folhas do carvalho portuguez são planas ou onduladas, espinhoso-dentadas, sinuadas ou sub-inteiras, arredondadas na base ou cunheadas; a fundura dos lobulos das folhas do carvalho negral varia bastante, etc.; de resto, muitas outras essencias lenhosas mostram casos bem accentuados d'esta natureza.

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Mas o polymorphismo das folhas pode ainda ir mais longe e realisar-se até no mesmo individuo. Assim a amoreira do papel tem promiscuamente folhas ovado-cordiformes serrado-dentadas, e irregularmente palmatifendidas. O Eucalyptus globulus Labill. em novo tem as folhas sesseis, ovado-oblongas, e oppostas, emquanto em mais adulto as apresenta pecioladas, falciformes, e alternas (fig. 32). O azevinho tem as folhas dentado-espinhosas, e passada certa edade apparecem-lhe inteiras. As folhas dos ramos floriferos da hera são inteiras, ovadas ou rhomboide-acuminadas, as dos ramos trepadores estereis lobadas, e as dos ramos rastejantes lobadas ainda mais profundamente. É vulgar verem-se na mesma azinheira folhas inteiras e dentado-espinhosas.

Os pinheiros teem folhas de duas fórmas muito differentes no mesmo eixo. Na arvore muito nova as folhas são solitarias, rigidas, compridas e estreitas, attenuadas em ponta; passada certa edade estas folhas solitarias são substituidas por outras, escamiformes, seccas, triangulares, aguçadas (fig. 52, a), em cuja axilla apparecem folhas acerosas, vulgarmente denominadas agulhas, reunidas aos grupos n'uma bainha membranosa (fig. 52, b) (duas commummente nas especies indigenas). A posição das agulhas mostra, com evidencia, que ellas pertencem a um eixo lateral, cujo desenvolvimento foi muito reduzido e onde apenas se completaram as duas (ou mais, nas especies exoticas) do grupo, ficando todas as outras folhas no estado rudimentar, a constituirem o estojo membranoso.

Fig. 52. Raminho do pinheiro de Alepo (Pinus halepensis, Mill). a: folhas escamiformes. b: agulhas geminadas. (2:3).

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Estipulas. - As folhas de algumas arvores apresentam, no ponto onde se inserem no eixo, duas laminas mais ou menos desenvolvidas, de diversas fórmas, dissymetricas, a que se dá o nome de estipulas. As estipulas devem ser consideradas como o resultado de uma especialisação, de uma ramificação muito precoce do peciolo, ou do limbo na sua base.

Apresentam fórmas muito variadas: na maceira, por exemplo, são pequenas e muito estreitas (fig. 53); nos ramos estereis do pirliteiro são grandes, foliaceas (fig. 54); na acacia bastarda transformam-se em espinhos; nas roseiras contrahem adherencia com o peciolo (fig. 55), etc.

Fig. 53. Folha de maceira (Pyrus Malus, L.), apresentando as duas estipulas na base do peciolo (1:2).

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As estipulas teem, de ordinario, crescimento rapido e por isso na primeira edade da folha apresentam dimensões relativamente grandes; o seu papel, no botão, é protegerem as folhas (ulmeiro, carvalhos, etc.). Quando teem grandes dimensões podem concorrer para a nutrição, como verdadeiras folhas supplementares.

Fig. 54. Fragmento de um ramo esteril de pirliteiro (Crataegus Oryacantha, L.), com um espinho, com duas estipulas foliaceas, e uma folha (1:1).

Fig. 55. Fragmento de um ramo de roseira brava (Rosa sempervirens, L.) com uma folha imparipinnulada e as duas estipulas adherentes ao peciolo (quasi 1:1).

Muitas das nossas especies lenhosas não teem estipulas (aroeira, sumagre, murta, romeira, freixo, oliveira, aderno, alfenheiro, loureiro, etc.), mas existem em muitas outras (figueira, amoreira, ulmeiro, carvalhos, castanheiro, lodão bastardo, etc.). De ordinario, as especies lenhosas da mesma familia botanica todas teem, ou não teem, estipulas, por isso a sua presença ou ausencia é caracter um pouco importante em botanica descriptiva.

Na maior parte das arvores indigenas as estipulas são caducas, caem muito antes das folhas (carvalhos, castanheiro, ulmeiro, etc.), ás vezes mesmo antes d'ellas adquirirem as dimensões definitivas. As estipulas dizem-se, pelo inverso, persistentes quando acompanham a duração das folhas (algumas especies da familia das Pomaceas), ou persistem algum tempo depois da sua queda, como na acacia bastarda, em que duram muitos annos.

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Crescimento das folhas. - As folhas nascem, já o dissemos, como esboços rudimentares sobre os eixos, quando elles estão ainda muito pouco desenvolvidos, no interior dos botões.

Fig. 56. A: Folha do roble (Quercus pedunculata, Ehrh.). B: Folha do sumagre (Rhus Coriaria, L.) (1:2).

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A principio a folha cresce pelo cimo, onde novas cellulas vão resultando de successivas divisões; mas este crescimento terminal tem muito curta duração, nas especies lenhosas indigenas, e a folha continua o seu desenvolvimento no botão, abre-o, e adquire as dimensões definitivas, á custa de um alongamento intercalar.

Fig. 57. Fragmento de um raminho de loureiro (Laurus nobilis, L.) com duas folhas alternas. (1:2).

Este alongamento intercalar pode realisar-se por diversos modos. Nas folhas das nossas arvores localisa-se em determinadas zonas, cessando o crescimento em toda a parte restante. N'um grande numero de especies a zona de accrescimo está situada mais proxima da base do limbo, e os dentes, os lobulos, os foliolos da folha pinnulada, etc., nascem do cimo para a base, e vão diminuindo em tamanho no mesmo sentido (fig. 56, A) (carvalhos, vidoeiro, amieiro, salgueiros, bordos, castanheiro da India, etc.). N'outras essencias a zona de accrescimo está, pelo inverso, collocada mais para junto do cimo da folha e os dentes, os lobulos, os foliolos, etc., apparecem, e vão quasi sempre decrescendo em tamanho, da base para o cimo (fig. 56, B.) (sumagre, acacia bastarda, ailanto, etc.). Este alongamento realisa-se simultaneamente para os diversos tecidos da folha: parenchyma, nervuras, etc. A formação do peciolo, quando elle existe, é sempre posterior á primeira apparição do limbo.

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Disposição das folhas sobre o eixo. - As folhas dispõem-se sobre os eixos com regularidade, segundo leis prefixas para cada especie. Dizem-se alternas, quando em cada nó existe apenas uma (fig. 57) (carvalhos, ulmeiro, loureiro, etc.); oppostas, quando existem duas (fig. 58) (oliveira, alfenheiro, folhado, etc.); verticilladas quando se reunem mais de duas no mesmo nó (urzes, loendro, etc.), e chamam-se então ternadas se são tres, quaternadas se são quatro, etc. As folhas oppostas, quando são sesseis, em algumas especies, soldam-se pela base, apparentando as duas uma só folha enfiada ao meio pelo eixo; estas folhas dizem-se adunadas, taes são as de uma madresilva (Lonicera etrusca, Santi.) (fig. 59), etc.

Fig. 58. Folhas oppostas do folhado (Viburnum Tinus, L.) (1:2).

Seja qual for a disposição das folhas sobre o eixo, esta disposição obedece á seguinte lei: as folhas encobrem-se o menos possivel umas ás outras, de modo a receberem a maior quantidade de luz e a gozarem a maxima renovação de ar.

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Fig. 59. Folhas adunadas da madresilva (Lonicera etrusca, Santi.) (1:1).

As folhas alternas dispõem-se em espiral. Esta espiral, em regra, conserva-se constante para cada especie, pelo menos n'uma grande extensão de cada eixo, mas varia d'umas para outras especies. A inserção alterna costuma representar-se por uma fracção, cujo numerador indica o numero de voltas da espiral, em redor do eixo, contadas a partir de uma folha até encontrarem uma outra collocada superiormente á primeira e na mesma direcção, e o denominador representa o numero de folhas que essa espiral encontrou no seu caminho. A inserção das folhas do ulmeiro é representada pela fracção 1/2: as folhas, n'este caso, formam duas fiadas longitudinaes ao longo do eixo e dizem-se disticadas; a disposição das folhas do amieiro e vidoeiro é representada por 1/3; a dos salgueiros e carvalhos por 2/5; a do medronheiro por 5/13 etc.

As folhas oppostas e verticilladas não se sobrepõem em dois nós successivos; de ordinario umas e outras teem direcção alternada, em cruz, nos dois nós mais proximos.

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