Curso de Silvicultura

Chapter 6

Chapter 63,661 wordsPublic domain (Wikisource)

Á medida que as cellulas do renovo se especialisam nos diversos tecidos integrantes uma grande parte d'ellas alongam-se e lenhificam-se. Os tecidos novamente formados, como dissemos, fazem continuação com os tecidos identicos da região mais inferior. Quando se acompanha, n'uma extensão do caule, o arranjo dos seus elementos anatomicos nota-se, que umas vezes os elementos semelhantes se sobrepõem em series verticaes (freixo, ulmeiro, etc.), ou, no maior numero de casos, se sobrepõem em series obliquas, enroladas em helice, e com uma inclinação constante sobre a vertical (de 45° na romeira, de 40° na sorveira, de 30° no lilaz, de 10° a 20° no castanheiro da India, de 3° a 4° no vidoeiro e no choupo d'Italia, etc.). Em algumas essencias o sentido do enrolamento é tambem constante (sempre para a direita no castanheiro da India, sempre para a esquerda no choupo d'Italia); n'outras especies ha uma direcção predominante, mas sujeita a excepções (á direita na pereira, á esquerda nos salgueiros). Considerada nas camadas annuaes successivas umas vezes a direcção conserva-se sempre a mesma, outras vezes varia de sentido em cada uma (pinheiros). Esta disposição helicoidal da assentada geratriz, do liber e do lenho, chega, em alguns casos, a tornar-se visivel externamente: já pelo gretado da casca, já pelo engrossamento local do tronco em determinados sitios, na mesma direcção.

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Ao mesmo tempo que no rebento se vão especialisando os diversos tecidos a constituirem uma medulla, um canal medullar com os seus feixes primarios, uma assentada de cambium, um liber primario, um parenchyma cortical e uma epiderme, no raminho do anno passado o cambium origina, como dissemos, uma nova camada libero-lenhosa, bem como a originam identicamente os tecidos geradores de todas as outras porções mais antigas dos eixos. D'este modo a figura theorica, que representa o augmento em altura e espessura do lenho do tronco, e de cada eixo da ramificação, compõe-se de tantos cones alongados, mettidos uns nos outros, quantos forem os annos de vida d'esse tronco, ou d'esse ramo, occupando o vertice de cada pyramide a altura a que chegou o rebento no anno correspondente.

As pyramides mais externas representam as ultimas formações. Um corte transversal d'um qualquer eixo faz conhecer, pelo numero das camadas annuaes sobrepostas, a edade da região onde se deu o corte. Uma arvore de 20 annos terá 20 anneis lenhosos no tronco, proximo à terra, um annel no rebento terminal, e anneis em todos os outros numeros intermedios a alturas tambem intermedias.

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Esta figura theorica diz respeito só ás formações lenhosas; se n'ella quizessemos incluir tambem as formações corticaes, teriamos a suppor dois systemas de cones sobrepostos; o systema externo, cortical, apresentaria exactamente as disposições descriptas para o do lenho, só com a differença de que n'elle as formações mais antigas seriam as mais externas.

De tudo quanto dissemos ácerca do desenvolvimento do renovo terminal se deprehende, que a edade de uma arvore poderá tambem ser determinada pela contagem dos rebentos que lhe constituiram o tronco, sempre que essa contagem for possivel. Acontece isto particularmente nos pinheiros, que só teem botões axillares junto ás folhas do ultimo cyclo da espiral de cada eixo, na base do botão terminal, e por isso só formam cada anno um verticillo de ramos na base do rebento terminal: o numero de annos, ou o numero de rebentos que constituiram o tronco, é, n'este caso, egual ao numero de verticillos. No emtanto, como a arvore com a edade se despe dos ramos inferiores, esta verificação só tem logar para arvores novas, e deve o observador estar precavido contra os erros provenientes da má contagem devida á formação excepcional de dois rebentos n'um anno só; n'este caso, de ordinario, os dois verticillos do mesmo anno estão mais chegados que os restantes, e com algum cuidado é quasi sempre possivel evitar o engano. Esta formação dupla de rebentos e de camadas lenhosas no mesmo cyclo vegetativo realisa-se quando a seccura do terreno, ou um golpe forte de sol, suspende a vegetação estival, seguindo-se depois um outono humido e quente, que a desperta outra vez.

O rebento terminal das arvores, quando estão em boas condições de vegetação, é mais desenvolvido que os rebentos lateraes; denomina-se flecha, ou galocha particularmente nas resinosas. Quando a flecha é destruida, por qualquer causa, os rebentos lateraes adquirem maior vigor.

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De ordinario na axilla de cada folha existe um só botão, mas acontece existirem mais em algumas especies. Estes botões multiplos tomam diversas posições em relação uns aos outros: são lateraes na ameixoeira brava, sobrepostos em linha vertical na nogueira, acacia bastarda, etc.

Os botões lateraes d'um mesmo raminho apresentam sempre desegual vigor: em regra são tanto mais fortes quanto mais proximos da extremidade, sendo até vulgar abortarem os da base. Esta desegual robustez dos botões, e dos eixos que elles originam, junta ás causas propriamente externas, á desegual repartição do vento, da luz, etc. que ora favorece, ora contraria o desenvolvimento de determinadas ramificações, contribuem, em grandissima parte, para a irregularidade com que se apresentam divididos os troncos das arvores.

Renovo antecipado. - Denomina-se renovo antecipado aquelle que se desenvolve mais cedo do que devia ser: não no cyclo vegetativo seguinte, mas n'aquelle mesmo em que foi creado o botão. Este phenomeno corresponde a determinadas condições climatericas, como dissemos, e presuppõe a accumulação de muitas substancias nutritivas na arvore, sem emprego.

Botões folhosos, floraes e mixtos. - Dizem-se botões folhosos, ou botões simplesmente, os que originam eixos com folhas, mas sem flores; dizem-se botões floraes os que produzem eixos que supportam essencialmente flores; chamam-se botões mixtos aquelles que originam eixos com folhas e flores. No primeiro periodo do desenvolvimento estas diversas ordens de botões não se distinguem anatomicamente; mais para o diante é facil differençal-os: os botões folhosos são quasi sempre mais estreitos e aguçados (fig. 29 A); os botões floraes são de ordinario mais grossos, ovoides, entumecidos, mais ou menos obtusos (fig. 29 B).

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O castanheiro, o carvalho, a videira, etc., teem botões mixtos: isto é, botões que desenvolvem rebentos com folhas, e onde apparecem tambem as flores. O ulmeiro, os choupos, os salgueiros, etc. teem botões floraes e botões folhosos, isto é, botões d'onde os eixos floriferos e folhosos saem separadamente.

Desenvolvimento anormal dos rebentos. - Os rebentos tomam ás vezes desenvolvimentos anormaes, que lhes dão aspectos diversissimos, e os adaptam, em alguns casos, a funcções muito differentes.

Fig. 29. Raminho do ulmeiro (Ulmus campestris, L.). A. Botões folhosos. B. Botões floriferos (1:1)

Na ameixoeira brava, no pirliteiro, etc. certos renovos deixam de crescer, lenhificam o seu cone de vegetação, e transformam-se em espinhos (fig. 30); no espinheiro da Virginia (Gleditschia triacanthos, L.) todo um systema de raminhos se transforma n'um espinho ramoso.

Fig. 30. Caule da ameixoeira brava (Prunus spinosa, L.) com os raminhos lateraes espinhosos (1:1)

Estes espinhos, n'umas especies, teem folhas lateraes desenvolvidas, como os rebentos, n'outras especies são nús. Quasi sempre a lenhificação do tecido gerador da extremidade d'estes rebentos é um meio, que a natureza emprega, para diminuir a certos vegetaes o numero dos eixos e folhas, e portanto a evaporação e o consumo dos elementos nutritivos do solo; tanto assim, que muitas d'estas fórmas espinhosas tornam-se inermes pela cultura, transplantadas em melhor terra, mais humida e mais rica.

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Mas, nem todos os espinhos teem esta mesma origem, alguns resultam de outros orgãos muito diversos: no berberis provem de uma degeneração das folhas, persistindo só as nervuras fortemente endurecidas, e na axilla d'estes espinhos, como na das verdadeiras folhas, apparecem botões normaes; na acacia bastarda são devidos á transformação das estipulas, etc.

Em alguns outros casos os rebentos tomam o aspecto foliaceo e representam, na nutrição, o papel physiologico das folhas: tal é particularmente evidente na gilbarbeira (Fig. 31).

Botões adventicios, e olhos dormentes. - Os botões a que nos temos referido até aqui apparecem em pontos prefixos - na axilla das folhas e terminando os rebentos - denominam-se por isso normaes, e a elles se deve a architectura mais regular das arvores. Em opposição a estes botões chamam-se adventicios os que se originam sobre os ramos mais velhos, ou sobre o tronco, sem ordem determinada.

Fig. 31 Fragmento de um caule de gilbarbeira (Ruscus aculeatus, L.) com dois ramos foliaceos (1:1).

Os botões adventicios não são protegidos por escamas, como os botões normaes, nem precisam essa protecção, porque são filhos da seiva de primavera, e desenvolvem-se logo depois de formados - não hibernam. Podem indifferentemente apparecer no tronco, nos ramos, ou nas raizes. Teem a primeira origem na zona geradora do eixo a que pertencem e, no seu ulterior desenvolvimento, rompem-lhe depois a casca, transformando-se logo em renovos.

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A facilidade que teem as diversas essencias em produzirem botões adventicios não é a mesma. Pode-se provocar artificialmente o seu apparecimento por meio de ligaduras ou de feridas, pelo decote, etc.

Os rebentões que se originam nas raizes de muitas arvores são devidos a estes botões, e teem grande importancia na cultura de muitas essencias. De ordinario as especies que desenvolvem facilmente raizes adventicias nos seus ramos aerios, quando postos em condições favoraveis, são tambem as que mais botões adventicios organisam nas raizes: taes os choupos, salgueiros, etc. O ar parece ter alguma influencia n'esta formação: pelo menos ella é sempre mais difficil nas raizes profundas, dá-se em muito maior abundancia nas raizes superficiaes, que se alargam mais ou menos horisontalmente, e quando uma raiz é posta a nú, em contacto com o ar, augmentam as probabilidades do apparecimento d'esses rebentões.

Nunca um ramo se transforma em raiz, ou vice-versa; aos botões adventicios das raizes são exclusivamente devidos os eixos folhosos que d'ellas irrompem. A tão classica experiencia de Duhamel que consistia em curvar um salgueiro novo, de modo a poder-lhe enterrar os ramos, ficando ainda as raizes presas na terra, para depois, passado algum tempo, tornar a endireitar a arvore, mas invertida, ficando agora com as raizes para o ar, continuando ella sempre a viver, e vestindo de folhas as antigas raizes, não implica uma idéa de transformação d'aquelles orgãos. A continuação da vida da arvore, e os phenomenos descriptos, foram apenas devidos ao apparecimento de raizes adventicias sobre os ramos e de botões adventicios sobre as raizes, em virtude das condições especiaes dos novos meios em que se encontravam.

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Mas, nem todos os renovos nascidos fóra da sua posição normal teem por origem estes botões adventicios; alguns são tambem produzidos pelos olhos dormentes, que teem com as raizes dormentes, já descriptas, a maior analogia. Os olhos dormentes foram olhos normaes, tolhidos no seu desenvolvimento, e que ficaram depois presos pelas formações posteriores; se uma circunstancia favoravel os desperta, irrompem então e originam um rebento, collocado agora sobre o eixo mais velho.

Rebentação das touças. - Quando se corta uma arvore rente ao solo, ou a qualquer altura do tronco, a parte que fica, umas vezes rebenta, outras não, conforme a essencia e a edade do individuo. Os rebentões que então apparecem são devidos aos botões adventicios e olhos dormentes; se a arvore pertence a uma especie que possa formar uns ou outros rebentará, e no caso contrario morre; pertencem ao primeiro grupo o castanheiro, os carvalhos, o ulmeiro, os choupos, e em geral as Angiospermas; pertencem ao segundo os pinheiros, os cyprestes, e o maior numero das Gymnospermas.

A propriedade que teem um grande numero de especies de rebentarem de touça permitte-lhes a exploração florestal denominada de talhadio; n'esta exploração o massiço regenera-se pelos rebentões de touça e formam elles o producto da mata, emquanto na exploração de alto fuste a regeneração do massiço tem logar pelas sementes.

Em regra geral as touças rebentam com difficuldade quando as arvores são velhas, e de uma certa edade por diante deixam mesmo de rebentar. Esta edade limite é muito variavel para as differentes essencias, e diversifica tambem bastante com as condições de vegetação; de ordinario as essencias que se fazem muito depressa perdem muito mais cedo o poder de rebentar de touça: assim as touças dos carvalhos persistem vivas, dando cortes, muito mais tempo do que as dos choupos e salgueiros.

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Os productos lenhosos prestados pelos talhadios teem dimensões reduzidas em relação aos que são obtidos em muitos altos fustes, por isso mesmo que se torna necessario colher os primeiros em edades que nunca podem ser muito adiantadas. É muitissimo importante nas explorações de talhadio calcular a edade a que deixam de rebentar as touças das essencias exploradas, nas condições especiaes d'essa exploração.

A situação dos rebentões sobre a touça, quando o corte é feito um pouco acima do terreno, diversifica, segundo as essencias: n'umas os rebentões saem sobretudo das raizes (choupo tremedor); n'outras nascem das raizes e da porção do tronco adherente (carrasqueiro, choupo branco, acacia bastarda, salgueiros, etc.); n'outras finalmente desenvolvem-se quasi só n'esta porção do tronco (roble, castanheiro, choupo negro, etc.). Os rebentões situados sobre o fragmento do tronco, n'umas especies apparecem especialmente na parte externa ao terreno (carvalhos, ulmeiro, etc.), n'outras saem em maior abundancia da parte subterranea (castanheiro, bordo commum, vidoeiro, sorveira, etc.)

Rebentos ladrões. - Os rebentos produzidos pelos botões adventicios sobre o tronco, ou sobre os ramos grossos, adquirem ás vezes grande vigor e crescem com muita rapidez, chamando a si uma parte consideravel dos principios immediatos fabricados pela arvore; o seu viço e côr, a sua força e as grandes dimensões dos entre-nós, tornam-os bem distinctos.

Nas arvores, que teem crescido em massiço e que de repente ficam isoladas, é vulgar o apparecimento d'estes renovos. Se não forem cortados, a copa da arvore perde a fórma normal, e se ella for velha pode até começar a seccar pelo cimo. Os rebentos, que assim chamam em seu proveito uma porção copiosa da seiva, roubada á parte restante, denominam-se rebentos ladrões.

No emtanto esta denominação é mais lata: abrange tambem os rebentos normaes que, por uma causa qualquer, tomam desenvolvimento mais consideravel, apresentando-se muito verticaes, com as folhas grandes e muito viçosas, e sem produzirem fructos nem flores. O estudo d'estes ultimos rebentos ladrões tem particular importancia na cultura das arvores de fructo, sendo ahi muito nocivos.

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4.º - FOLHAS

Nas plantas lenhosas as folhas são os orgãos appendiculares, que se desenvolvem sobre os rebentos e conjuntamente com elles, quasi sempre verdes, em muito casos espalmadas em lamina delgada, ao menos parcialmente, e cuja missão principal, estabelecendo a communicação entre a planta e a atmosphera, é a elaboração de principios immediatos. Em quasi todas as especies lenhosas indigenas as folhas são bastante apparentes e desenvolvidas, mas em algumas ficam rudimentares, ou são muito cahidiças, como na cornicabra, na gilbarbeira, em algumas giestas, etc.; os tecidos verdes do caule supprem-as então nas suas funcções.

Uma folha completa compõe-se de tres regiões distinctas: a bainha, o peciolo, e o limbo. A bainha é a parte dilatada que abraça o eixo a que a folha pertence; o peciolo é a porção intermedia, de ordinario delgada, e mais ou menos cylindrica, ou semi-cylindrica; o limbo é a parte extrema, quasi sempre a mais desenvolvida, a que tem, n'um grande numero de casos, a fórma laminar.

Mas, nem todas as folhas são tão completas, e quaesquer d'estas partes podem faltar. A bainha desenvolve-se pouco, em regra, ou mesmo não existe, nas especies florestaes indigenas. O peciolo nem sempre se fórma, e as folhas dizem-se então sesseis (fig. 32, B), em opposição áquellas que o teem, que se denominam pecioladas (fig. 32, A.). O limbo pode egualmente faltar, como qualquer das outras regiões, e ás vezes é, n'esse caso, substituido pelo peciolo, que adquire desenvolvimento foliaceo e toma o nome de phyllodia, como acontece em alguns tojos, etc. (fig. 33, a).

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Fig. 32. Folhas do eucalypto (Eucalyptus globulus, Labill.) A. Folha peciolada da arvore adulta. B. Folhas sesseis da arvore nova (1:4).

O estudo anatomico da folha encontra-lhe uma estructura inteiramente analoga á do caule, de cujos tecidos é a continuação. A epiderme do rebento prolonga-se, revestindo-a por todos os lados; o parenchyma cortical alarga-se, constituindo o parenchyma foliaceo; um certo numero de feixes libero-lenhosos partidos do rebento, depois de atravessarem a região cortical, penetram na folha originando-lhe as nervuras. O numero d'estes feixes varia com as especies, e no mesmo individuo com a região considerada; são quasi sempre em numero impar, 1-3-5, ou mesmo mais. N'umas essencias entram directa e independentemente na folha, sem se reunirem ou dividirem; n'outras ramificam-se, ou grupam-se de diversas maneiras, por fórma que o numero dos feixes encontrado na base da folha não é então egual ao numero dos que sairam do rebento.

Fig. 33. Tojo da charneca (Ulex densus, Welw.). a: phyllodia, tendo na axilla um raminho espiniforme (1:1).

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Peciolo. - O peciolo é, de ordinario, roliço na face inferior e plano ou canaliculado na face superior; no emtanto em algumas especies é sensivelmente cylindrico (hera), e n'outras comprimido lateralmente, o que traz grande mobilidade ás folhas (alguns choupos). Ás vezes prolonga-se para os lados em ázas e diz-se então alado (aroeira, laranjeira) (fig. 34). As suas dimensões, relativamente ao limbo, variam muito.

A epiderme do peciolo apresenta os mesmos caracteres da epiderme do caule; o seu parenchyma é tambem constituido por cellulas polyedricas ou arredondadas, que deixam entre si meátos cheios de ar; os seus feixes teem egualmente uma parte lenhosa e uma parte liberiana, caracterisadas pelos mesmos elementos anatomicos.

Fig. 34. Folha da laranjeira azeda (Citrus vulgaris Risso), com o peciolo alado (1:2).

Na secção transversal do peciolo os feixes dispõem-se de ordinario em arco mais ou menos aberto, com a abertura virada para cima, e cujos bordos podem chegar mesmo a reunir-se. O feixe médio dorsal, o inferior d'este arco, tem quasi sempre maior desenvolvimento, e os outros, em regra, diminuem successivamente em grandeza a partir d'elle.

O liber do feixe central está voltado para a parte inferior, e o lenho para a parte superior; os feixes lateraes, á medida que vão contornando o arco segundo o qual se agrupam, orientam-se ao mesmo tempo de modo que a parte lenhosa fique sempre para o centro do peciolo, e o liber para a peripheria. Conclue-se d'aqui, com evidencia, que se o arco é muito aberto conservam todos a posição do feixe médio, aliás, se o arco tende a unir, ou une, os seus bordos, os feixes extremos tomam a posição quasi inversa, ou inversa, em relação á do feixe central.

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Nos peciolos da pereira, da tramazeira, do louro-cerejo, etc., os feixes dispõem-se em arco aberto; nos peciolos dos carvalhos, da hera, do freixo, da laranjeira, etc., formam um arco fechado. Segundo o sr. C. De Candolle a disposição aberta, ou fechada, d'este arco é caracter mais ou menos constante nas especies do mesmo genero.

Quando o arco dos feixes libero-lenhosos chega a unir as extremidades fórma um annel, e a porção do parenchyma incluido no centro tem as maiores analogias com a medulla do caule. Numas especies este annel é achatado no cimo (carvalhos), n'outras arredondado (ricino).

Na especie de medulla comprehendida entre os feixes do peciolo umas vezes encontram-se alguns feixes, outras vezes não. A presença ou ausencia d'estes feixes intramedullares varia com grande irregularidade, não só entre as diversas familias botanicas, mas até entre as especies de um mesmo genero: não existem no sycómoro bastardo, no bordo commum, etc.; encontram-se, pelo contrario, no castanheiro da India, no ailanto, no platano bastardo, nas amoreiras branca e negra, na figueira, etc. A sua posição diversifica para cada essencia, e o seu numero varia com o vigor do individuo e as condições da vegetação; faltam, habitualmente, nas folhas mal desenvolvidas, nas primeiras folhas de cada rebento.

Todas as especies do genero Quercus teem o arco dos feixes do peciolo fechado; quanto aos feixes intramedullares os carvalhos indigenas podem dividir-se, segundo o sr. C. De Candolle, nas duas series seguintes:

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Com feixes intramedullares:

Carvalho roble (Q. Robur, L.).

Carvalho negral (Q. Tozza, Bosc.).

Carvalho anão (Q. humilis, Lam.).

Carvalho portuguez (Q. lusitanica, Lam.).

Quercus hispanica, Lam. (Q. pseudo-suber, Santi.).

Um sobreiro (Q. occidentalis, Gay).

Sem feixes intramedullares:

Azinheira (Q. Ilex, L.).

Um sobreiro (Q. suber, L.).

Carrasqueiro (Q. coccifera, L.).

É notavel que cada uma d'estas series corresponde, como veremos, a dois typos de organisação diversa, caracterisado o segundo por mais demorada persistencia das folhas. No emtanto as folhas mais aturadiças do grupo da azinheira não parecem, anatomicamente, mais completas do que as do grupo do roble, antes pelo contrario, porque n'este ultimo é nas folhas bem desenvolvidas que os feixes intramedullares apparecem, e faltam nas folhas mais infesadas da base dos rebentos, como dissemos.

Limbo. - O limbo é quasi sempre achatado e o plano de achatamento, em regra, está orientado de modo que a folha vira a sua maior superficie para a luz: no emtanto algumas arvores fazem excepção a esta lei, taes são as folhas do eucalypto, que em resultado de uma torção do peciolo se apresentam n'um plano obliquo, ou mesmo vertical, em relação ao horisonte.

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A epiderme do limbo, verdadeira continuação da epiderme do peciolo e do rebento, pode apresentar os accidentes de superficie já notados; os pellos, que sobre ella se desenvolvem, variam muito na fórma e na quantidade, não só de especie a especie, mas até no mesmo individuo segundo a edade das folhas, e na mesma folha de uma para outra pagina. As folhas da murta, da alfarrobeira, do loureiro, da laranjeira, etc., são glabras; as do carvalho negral teem pellos ramificados em fórma d'estrella; as do choupo branco, da maceira, da azinheira, do sobreiro, etc., mais ou menos glabras na pagina superior, são cotanilhosas na pagina inferior: vestidas com pellos brancos muito numerosos, curtos, crespos, entremeiados como feltro; as folhas do salgueiro branco apresentam pellos compridos, deitados, brilhantes, setinosos, e dizem-se assetinadas; as da losna do Algarve estão cobertas de pellos curtos, bastos, levantados, como os do velludo e denominam-se avelludadas; as do ulmeiro e as do lodão bastardo são, pelo contrario, asperas ao tacto etc. Quasi sempre o tomento, seja qual a sua fórma, é mais abundante nas folhas novas; em algumas essencias as folhas adultas chegam a perder completamente, ou quasi completamente, os pellos que tiveram na primeira edade. Nas especies indigenas é, de ordinario, a pagina inferior que se encontra mais pelluda; são vulgares as folhas glabras na pagina superior e densamento cheias de pellos na pagina inferior.