Chapter 28
Os pirliteiros (Crataegus Oxyacantha, L., e Crataegus monogyna, Jacqu.) são arbustos (raras vezes pequenas arvores) espinhosos, com as folhas palmatilobadas e os fructos vermelhos, que se encontram com abundancia, sobretudo nas sebes, vallados e margens dos campos, bem como nas nossas matas. Vestem-se todos os annos de grande quantidade de flores, brancas, anteriores á folheação. A madeira dos pirliteiros poucas vezes é empregada, porque só adquire, de ordinario, proporções muito reduzidas; é muito dura e optimo combustivel. Estes arbustos são muito proprios para o guarnecimento das sebes, por causa da sua ramificação numerosa e dos seus espinhos. Podem empregar-se como cavallos para enxertar as variações culturaes das outras especies d'esta familia botanica (Pomaceas).
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N'esta familia ainda existe espontaneo, a altitudes elevadas, um arbusto pouco frequente, e de que não conhecemos nome vulgar: é o Amelanchier vulgaris, Moench.
Os adernos (Phillyrea latifolia, L., e Phillyrea media, L.) existem com frequencia disseminados nas matas, pinhaes, sebes, etc. São arbustos, ou pequenas arvores, pertencentes á familia das Oleaceas, com as folhas ovado-lanceoladas, persistentes, e as flores esbranquiçadas, cheirosas, dispostas em cachos curtos, axillares.
Estas essencias teem grande duração e crescimento demorado; rebentam bem de touça. A sua madeira é muito dura, mas tem quasi sempre pequenas dimensões; dá muito boa lenha e optimo carvão.
O lentisco bastardo (Phillyrea angustifolia, L.) differença-se das especies anteriores pela fórma das folhas, que são estreitas, linear-lanceoladas. É muito frequente, e o seu aproveitamento é identico ao dos adernos, mas menor, porque tem quasi sempre dimensões mais reduzidas.
O alfenheiro (Ligustrum vulgare, L.) é um arbusto ainda da familia das Oleaceas, que apenas se encontra espontaneo nas provincias do norte; é pouco frequente, e tem habitualmente pequeno porte.
O sanguinho legitimo (Cornus sanguinea, L.) existe em Traz-os-Montes e na Beira; é um arbusto com as folhas inteiras, grandes, caducas, e as flores brancas dispostas em cymeiras umbelliformes. Tem os rebentos vermelho-sanguineos, d'onde lhe veiu o nome; estes rebentos são muito flexiveis e podem empregar-se em obras de cestaria. Os ramos mais grossos servem para cabos de ferramentas, paus de vinha etc. Segundo o sr. Mathieu os fructos d'este arbusto contém 34 por cento de oleo, que pode extrahir-se para illuminação.
O sanguinho de agua ou amieiro negro (Rhamnus Frangula, L.) é um arbusto, ou pequena arvore, botanicamente muito diversa da especie anterior; encontra-se na Beira, e outros pontos do norte, nos sitios frescos e á beira dos rios. Tem as folhas inteiras, caducas, e os fructos primeiro avermelhados e depois negros. Rebenta bem de touça e das raizes, e cresce depressa nos primeiros annos. É pouco explorado entre nós; tem madeira muito leve e branda, facil de dividir em laminas delgadas, boas para canastraria. A casca d'esta essencia produz o vomito e é muito drastica; dos fructos podem extrahir-se substancias corantes.
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O sanguinho das sebes (Rhamnus Alaternus, L.) é vulgar nas sebes, matos e florestas. Pertence ao mesmo genero em que se inclue a especie anterior; é um arbusto, ás vezes arborescente, inerme, com as folhas persistentes, coriaceas; tem os fructos primeiro vermelhos e depois negros. A madeira é de boa qualidade, dura, muito homogenea, densa, com o cerne escuro-acastanhado e o borne amarellado; é caracteristica pelo desenho reticulado muito apparente, de côr baça e mais clara, que apresenta no córte transversal, devido ao agrupamento dos vasos pelo parenchyma lenhoso. As dimensões restrictas que tem quasi sempre limitam muito o seu uso.
Ainda n'este genero Rhamnus se encontra espontaneo, nas sebes, nos solos pedregosos, nos matos, pinhaes, e nas terras aridas da Estremadura e do Alemtejo, um outro arbusto, quasi sempre de menor porte que o anterior, e a que não conhecemos nome vulgar: é o Rhamnus oleoides, L.; distingue-se bem por ter os ramos espinescentes, as folhas muito reticuladas na pagina inferior, e os fructos verde-amarellados na maturação. Encontra-se, muitas vezes, formando moita rasteira, muito densa e emmaranhada. Não sabemos que se aproveite. Os fructos d'estes dois Rhamnus são drasticos.
O tamujo (Securinega buxifolia, J. Müll.) é uma Euphorbiacea arbustiva, tambem com os ramos espinescentes, abundante nas margens dos cursos de agua da região leste: margens do Douro, do Tejo, do Guadiana, etc. O seu aspecto aproxima-o das especies anteriores. Tem pouca importancia.
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A avelleira (Corylus Avellana, L.) não tem entre nós importancia florestal; é um arbusto ou pequena arvore, que apparece expontanea no norte; é alguma coisa explorada pelo fructo (avellã), que é comestivel e agradavel, e d'onde se pode extrahir um oleo siccativo.
O loendro ou sevadilha (Nerium Oleander, L.) encontra-se espontaneo á beira dos rios, no sul do Alemtejo; é um arbusto sempre-verde com as folhas oppostas ou ternadas, lanceoladas, inteiras, e as flores grandes, rosadas ou brancas, em corymbos terminaes. A madeira é branca, e tem muito poucos usos, pela sua raridade e pequenas dimensões habituaes. Nas proximidades dos cursos de agua, o loendro pode representar papel identico ao dos salgueiros; como elles reproduz-se com facilidade de estaca, de semente, e de rebentões de touça; como elles tem raizes superficiaes numerosas, que contribuem para a consolidação das margens, proximo á agua. As folhas d'este arbusto são venenosas; dizem que na Argelia, onde abunda muito, as folhas caidas chegam a envenenar as aguas dos regatos, e que as emanações podem causar accidentes graves ás pessoas que repousarem á sua sombra. Nos jardins cultiva-se uma variedade de flor dobrada.
O buxo (Buxus sempervirens, L.) é espontaneo, mas em pequena quantidade, e a sua importancia maior advem-lhe da cultura. Tem grande duração, e crescimento lento; é cultivado como planta de ornato e nos jardins dão-lhe fórmas variadissimas. É um arbusto sempre-verde, com as flores esverdinhadas. Tem madeira muito estimada; de tanto valor que se vende a peso; esta madeira é muito homogenea, amarellada, sem distincção de cerne e borne, e corta-se em todos os sentidos com muita nitidez; é especialmente procurada pelos gravadores e torneiros.
O anagyris fedegosa (Anagyris foetida, L.) é um arbusto quasi arborescente, da familia das Papilionaceas; tem as folhas trifoliadas e as flores amarellas; as flores e as vagens são fetidas, d'onde lhe vem o nome. Encontra-se no Alemtejo e Algarve; não tem importancia.
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A palmeira anã ou das vassouras (Chamaerops humilis, L.) cobre grandes extensões no Algarve, e, muito embora fosse encontrada n'uma estação muito mais ao norte, na serra da Arrabida, pelo sr. J. Daveau, só no Algarve abunda e tem importancia. As suas folhas palmatifendidas e o seu porte caracterisam-a com grande evidencia; fórma quasi sempre moitas de sete e oito caules, que poucas vezes sobem de um metro; cultivada, pode adquirir maiores proporções. É de difficil arranque, e os solos onde se encontra teem difficil arroteia. As suas folhas, depois de branqueadas pelo acido sulphuroso, são muito empregadas no fabrico de vassouras, esteiras, cestos e outros artefactos de egual natureza, que teem grande procura no paiz. É a unica monocotyledonea lenhosa digna de menção.
O arando (Vaccinium Myrtilus, L.) é um pequeno arbusto, ou sub-arbusto, sociavel, sem nenhuma importancia em Portugal, e que apenas se encontra nas grandes altitudes da região do norte.
A casia branca de Virgilio (Osyris alba, L.) existe com frequencia nas sebes, nas terras soltas dos matos e florestas, em quasi todo o paiz; é um sub-arbusto semi-parasita de muitas outras especies lenhosas e herbaceas; tem chlorophylla, e elabora principios immediatos, mas as suas raizes implantam-se nas raizes dos vegetaes proximos e vivem, em parte, á custa d'elles. É pouco importante, assim como outra especie do mesmo genero, propria ás provincias do sul, a Osyris lanceolata, Hochst.
O trovisco (Daphne Gnidium, L.) é um pequeno arbusto sempre-verde, com as flores terminaes reunidas em cacho composto, brancas, cheirosas, que se encontra abundantemente disseminado em todo o paiz, nos sitios aridos, charnecas, pinhaes, etc. Não tem nenhuma importancia florestal.
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A hera (Hedera Helix, L.) chega ás vezes a grossuras bastante consideraveis, mas, na maior parte dos casos, é um arbusto com os caules e ramos muito compridos e delgados, sarmentosos. Trepa ás arvores, aos muros e rochedos proximos, servindo-se para isso das raizes adventicias, abundantemente desenvolvidas na ramificação aerea; se não encontra nenhum supporte, estende-se pelo terreno, rasteja, enraiza em diversos pontos, mas não floresce. As suas folhas persistentes, verde-retintas, teem fórmas diversas nos ramos rastejantes (profundamente tri ou quinquelobadas), nos ramos trepadores estereis (tri ou quinquelobadas menos fundamente), ou nos ramos ferteis, floriferos (inteiras).
A hera não é parasita; tira o sustento da terra e da atmosphera e não da arvore a que se encosta; as raizes adventicias servem apenas para lhe prestarem outros tantos pontos de apoio na subida; só funccionam como verdadeiras raizes se encontram a terra. Apezar d'isso, é nociva aos arvoredos, porque lhes aperta o tronco e os ramos, difficultando-lhes a passagem da seiva e o engrossamento regular, e porque assombreia com a folhagem muito espessa os ramos inferiores, amesquinhando-lhes o desenvolvimento das folhas, dos botões e das flores. É por isso conveniente sempre cortal-a.
Os carneiros e vaccas comem bem as folhas da hera. Emprega-se muito na ornamentação dos jardins.
As silvas (especies do genero Rubus) são arbustos muito vulgares em todo o paiz; teem a touça lenhosa, e produzem longos rebentos, quasi sarmentosos, ás vezes radicantes, biennaes nas especies indigenas: ficam estereis no primeiro anno, florescem e fructificam no segundo, morrendo em seguida. Multiplicam-se com grande rapidez. Não apparecem nos solos muito pobres; quando existem nas florestas em grande quantidade, cobrem a terra de uma moita apertada, que pode ser nociva aos povoamentos novos. Em montanha são, ás vezes, vantajosas, para ajudar a segurar a terra. Os seus fructos (amoras) são comestiveis.
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As roseiras bravas (especies do genero Rosa) emittem da touça, annualmente, rebentos vigorosos, estereis no primeiro anno, e que florescem no segundo ou terceiro anno, mas sem morrerem depois, como os das silvas; e produzem longas raizes superficiaes, que vão originar longe da planta-mãe outros rebentos, em grande numero. Tornam-se invasoras d'este modo, e dão solidez ás terras onde enraizam; podem tambem ser uteis nas montanhas, mas estas especies, apezar de vulgares, teem pequena importancia florestal.
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Nas charnecas e nas florestas, inferiormente ás arvores e aos arbustos de maiores dimensões, como o medronheiro, o folhado, os zimbros, a murta, a aroeira, o carrasco, etc., encontram-se com frequencia arbustos e sub-arbustos de menor porte, constituindo ás vezes brenha muito densa, sobretudo nos massiços mal tratados, cheios de vasios, e nos arvoredos que dão pequeno coberto, como os pinhaes. N'essa vegetação lenhosa mais rasteira, afóra algumas especies já citadas, como a carvalhiça, o trovisco, o arando, etc., predominam muito as urzes, as estevas, e as Papilionaceas da tribu das genisteas: tojos, carquejas, giestas, piornos e codeços. Muitas d'estas plantas são utilisadas como lenhas miudas, ou são roçadas para camas de gados e fabrico de estrumes.
As urzes (especies do genero Erica) são plantas sociaveis, proprias aos terrenos pobres em cal, sobretudo aos siliciosos. São frequentissimas nas charnecas, matos e florestas de todo o paiz, e reunem-se, sociaveis, cobrindo grandes extensões. Tornam-se nocivas aos arvoredos pela grande copia de raizes superficiaes, e pela sombra produzida pela apertada vegetação dos seus caules numerosos, muito cobertos de folhas.
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A urze branca ou arborea (Erica arborea, L., e Erica lusitanica, Rud.) chega a ter, ás vezes, grandes dimensões e o tronco bastante grosso. A touça, ou cepa, é muito volumosa, dá optimo combustivel, e carvão muito estimado. Utilisam um pouco esta cepa no fabrico de pequenas obras.
A urze das vassouras (Erica scoparia, L.) e algumas outras especies, servem para o preparo das vassouras.
A urze ou torga ordinaria (Calluna vulgaris, Salisb.) distingue-se bem das especies do genero anterior pela fórma e dimensões das folhas, que no genero Erica são habitualmente compridas e lineares, e no genero Calluna são pequenas e imbricadas, vestindo quasi os ramos. Esta especie é ainda mais sociavel que as anteriores; ás vezes, ella só, cobre grandes tractos de charnecas, caracterisando solos pobres em cal e de difficil arborisação. Apparece indifferentemente nas terras seccas e humidas, ou mesmo encharcadiças. Para os povoamentos novos ainda é mais prejudicial do que as Ericas.
Todas estas plantas produzem humus acido, e teem decomposição demorada.
As estevas (especie da familia das Cistineas) são vulgarissimas, e encontram-se disseminadas, ou ás vezes reunidas em grandes colonias. A esteva propriamente, ou xára (em Traz-os-Montes) (Cistus ladaniferus, L.) é uma das especies de maior porte e mais sociavel; cobre, ás vezes quasi sosinha, extensões enormes. Os Cistus crispus, L., Cistus Monspeliensis, L., Cistus albidus, L., e Cistus salviaefolius, L. teem menores dimensões e são tambem muito frequentes; a xára parece fugir dos terrenos calcareos; o Cistus crispus e Cistus Monspeliensis teem menor tendencia calcifuga, e já se encontram em solos calcareos; o Cistus albidus parece ser calcicola, e o Cistus salviaefolius indifferente. No genero Halimium, encontra-se com abundancia, em muitos dos nossos pinhaes e matos da Estremadura e da Beira, a sargaça (Halimium halimifolium, Wk.), notavel pela côr esbranquiçada e aspecto pulverulento; outras especies do mesmo genero são frequentes, como o Halimium eriocephalum, Wk., o Halimium ocymoides, Wk., e o Halimium occidentale, Wk., que na Estrella, quasi exclusiva, cobre grandes extensões, etc. As especies d'este genero são eminentemente calcifugas ¹.
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Muitas especies d'esta familia são fortemente viscosas e balsamicas. As Cistineas preponderam muito na flora arbustiva e sub-arbustiva das nossas matas e charnecas.
Na familia das Papilionaceas são muito vulgares as carquejas (genero Pterospartum), os piornos (genero Retama), os codeços (genero Adenocarpus), os tojos (genero Ulex), e as giestas (generos Spartium, Genista, Sarothamnus e Cytisus). Umas d'estas especies são mais proprias ás sebes, outras ás charnecas e matas. Os tojos adquirem, em muitos pontos, grande preponderancia, e formam moitas apertadas e espinhosas; são bastante ricos em acido phosphorico, e aproveitam-se muito para o fabrico de estrumes; os animaes comem-lhes os rebentos tenros, e muito melhor depois de cortados; teem valor nutritivo elevado. Do liber dos ramos novos da giesteira ordinaria (Spartium junceum, L.), muito fibroso, pode extrahir-se uma materia textil boa para cordas, para diversos tecidos, e para o fabrico do papel. Os rebentos flexiveis servem, como o junco, para atar.
Conjuntamente com as Ericaceas, Cistineas e Papilionaceas encontram-se, n'este revestimento lenhoso de menor porte, varias plantas, menos importantes ainda, de outras familias botanicas, como varias Labiadas, quasi todas aromaticas: rosmaninhos (genero Lavandula), alecrim (genero Rosmarinus), tomilhos (genero Thymus), etc.
¹ J. Daveau. - Cistinées du Portugal (Extrait du «Boletim da Sociedade Broteriana» IV - Coimbra, 1886).
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A flora lenhosa espontanea das areias maritimas inclue algumas das especies já citadas, taes como a sabina das praias (Juniperus phoenicea, L.), o samôco (Myrica Faya, Ait.), varias estevas, tomilhos e Papilionaceas; entre estas ultimas apontaremos a Calycotome villosa, Lk., dominante em alguns pontos. Afóra essas especies referir-nos-hemos ás seguintes:
O espinheiro alvar bastardo (Lycium europaeum, L.) é um arbusto espinhoso, da familia das Solanaceas, verde-acinzentado, que fórma de ordinario moita muito enredada, sem nenhuma importancia florestal. Encontra-se nas sebes da Estremadura e da Beira, e, posto que procure as proximidades do mar, afasta-se ás vezes mais para a zona interior. Ainda menos importante, e menos frequente, é um outro arbusto d'esta familia, cheio de aculeos amarellos, muito rigidos, o Solanum sodomaeum, L.
A tamargueira (Tamarix Gallica, L.) é um arbusto sempre-verde, com as folhas escamiformes, envolvendo todo o ramo, que fazem lembrar no aspecto as dos cyprestes, e com as flores pequenas, rosadas, dispostas em espigas simples, reunidas em grandes paniculas. A sua madeira é inferior, e nem dá boa lenha; mas este arbusto é muito aproveitado nas obras de consolidação das dunas, porque se reproduz com muita facilidade, quer de semente, quer de rebentões ou de estaca, tem crescimento rapido, e vive bem nas areias da beira mar. Debaixo d'este ponto de vista é importante.
A camarinheira (Corema album, D. Don.) está quasi no mesmo caso; vegeta nos areiaes mais pobres e mais batidos do vento, e d'ahi vem o seu valor. É um pequeno arbusto sempre-verde, com as folhas estreitas, fazendo lembrar no aspecto as urzes; os seus fructos, vermelhos ou brancos (camarinhas), são comestiveis, agradaveis, refrescantes. Fructifica em grande quantidade, e estas bagas podem servir para alcoolisação, ou para o preparo do vinagre.
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A madorneira (Artemisia crithmifolia, L.), a Losna menor (Artemisia arborescens, L.) e a Artemisia coerulescens, L. são as unicas Compostas lenhosas, que teem alguma importancia florestal, sobretudo a primeira, que é bastante empregada no revestimento das dunas; são plantas aromaticas. A losna menor encontra-se espontanea no littoral algarvio, a Artemisia coerulescens, L., na Estremadura, e a madorneira nos areiaes do sul e do centro.
A cornicabra (Ephedra fragilis, Desf.: E. distachya, Brot.) é um arbusto de porte muito especial, sub-aphyllo, com os ramos articulados, afilados, quebradriços, e com as articulações envolvidas em bainhas, quasi como as cavallinhas (Equisetum). É peculiar ao littoral algarvio, nas sebes, etc.; vive bem nas areias. É uma Gymnosperma; tem floração dioica; tem as flores masculinas dispostas em pequenos amentilhos sesseis, e as flores femininas solitarias, sub-sesseis.
A familia das Chenopodiaceas inclue alguns arbustos e sub-arbustos das praias: taes a salgadeira (Atriplex Halimus, L.) e outras especies menos desenvolvidas do mesmo genero (Atriplex portulacoides, L., Atriplex glauca, L., etc.); o valverde dos sapaes (Suaeda fruticosa, Forsk.); a Salsola vermiculata, L., e a Salicornia fruticosa, L. D'estas especies umas são aphyllas (Salicornia), outras teem as folhas muito desenvolvidas (Atriplex); todas são glaucas, pulverulentas e mais ou menos carnudas. Constituem, em alguns pontos, com bastante predominancia, a vegetação lenhosa das nossas praias. As cinzas d'esta planta são muito ricas em soda, especialmente as das Salsola e Salicornia, e d'ellas se extrahia d'antes aquelle producto commercial.
Finalmente, o Limoniastrum monopetalum, Boiss., é um sub-arbusto com as folhas carnudas e os ramos floriferos aphyllos, com o eixo das espigas muito fragil depois de secco, que existe em abundancia nas areias maritimas do Algarve.
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3.º - ESSENCIAS EXOTICAS, JÁ UM POUCO INTRODUZIDAS
A arborisação florestal de um paiz, em regra, deve basear-se nas especies espontaneas da localidade; muito mais, quando as especies espontaneas são de tamanho valor, como entre nós. A introducção de essencias estranhas não deve executar-se em ponto grande, sem muitos ensaios, repetidos em condições diversas, e estes ensaios são dispendiosos sempre, demorados e difficeis, com plantas cuja vida é tão longa, em relação á do homem. Por este motivo trataremos apenas, n'este curso, das especies exoticas já mais conhecidas no paiz, e cuja vulgarisação parece ter bom futuro.
O pinheiro d'Alepo
(Pinus halepensis, Mill.)
O pinheiro d'Alepo é uma arvore de primeira grandeza propria á zona mediterranea; existe cultivado em Portugal como arvore de ornamento, e adquire entre nós boas dimensões; a sua exploração florestal decerto seria vantajosa, como diremos.
Clima. - Arvore da zona mediterranea, este pinheiro pede clima quente, ou pelo menos bastante temperado, e luz intensa; prefere as planicies e os outeiros. Por estes motivos deve encontrar melhores condições de vida nas nossas provincias do centro e do sul, que nas do norte.
Solo. - Esta essencia é muito sobria e muito rustica; asseveram os auctores estrangeiros que se contenta com todos os solos, mesmo com os peiores - pedregosos, aridos, com pouca terra vegetal - comtanto que não sejam muito compactos. Parece preferir os solos calcareos - jurassicos e cretaceos - ou pelo menos vive n'elles muito bem; esta sua aptidão pode tornal-a uma arvore preciosa para nós, porque dá o meio de crear um pinhal, isto é, uma floresta productiva e pouco exigente, sobre terrenos onde os outros pinhaes não se podem desenvolver.
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Radicação. - Tem systema radicular forte, profundo, vertical, e ao mesmo tempo bastante desenvolvido lateralmente. Quando a natureza da terra não deixa profundar as raizes, a radicação fica superficial, mas á custa da boa vegetação da arvore.
Porte, crescimento e duração. - O pinheiro d'Alepo conserva mais tempo que os outros nossos pinheiros o tronco vestido de ramos até á base; apresenta então a fórma pyramidal; depois constitue um tronco direito ou flexuoso, despido, e uma copa arredondada, que, nas arvores isoladas já de certa edade, que temos visto, é muito irregular.
Cresce com rapidez nos primeiros annos; as condições excepcionaes de vida a que esta arvore tem estado sujeita entre nós, não permittem asseverar com segurança quaes serão as suas dimensões e a sua duração, creada em massiço florestal. Temos visto pinheiros d'Alepo com 15 a 20 metros de altura; a sua duração será talvez menor que a do pinheiro bravo.
Madeira e casca. - A madeira passa por ser muito resinosa, mas de mediocre qualidade. A casca, nos ramos novos, é unida, brilhante, cinzento-prateada; nos troncos adultos é um rhytidoma vermelho-escuro, fendido em escamas largas.
Folhagem. - As agulhas do pinheiro d'Alepo, geminadas, como as dos nossos pinheiros, são mais pequenas, mais delgadas, mais molles e de côr mais clara; agglomeram-se, de ordinario, em pincel no extremo dos ramos. Persistem na arvore dois a tres annos, o maximo. Dão pequeno coberto.
Floração e fructificação. - A floração é monoica, como a de todos os pinheiros; os amentilhos masculinos são amarellados, oblongo-cylindricos, e os amentilhos femininos são pedunculados, violaceos. A floração, entre nós, dá-se em fevereiro e março.
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As pinhas são oblongo-conicas, vermelho-acastanhadas, lustrosas ou baças; teem 10 a 20 centimetros de comprido; estão inseridas em pedunculos grossos e sempre voltadas para baixo; encontram-se solitarias ou verticilladas. As suas escamas teem um escudo rhomboidal, quasi plano, com as quilhas radiantes muito pouco salientes, e uma pequena protuberancia central obtusa; ás vezes teem um grande numero de estrias muito finas.
A maturação realisa-se dois annos depois da floração, ou pouco mais. As sementes são parecidas com o penisco; teem uns 7 millimetros de comprido, são pardas de um lado e negras maculadas de negro mais retinto do outro; apresentam as azas arruiviscadas, mais claras que as do penisco e um pouco mais compridas, relativamente, com os bordos quasi rectos e parallelos. A semente, leve e com tão bom apparelho disseminador, espalha-se a grandes distancias.
A fructificação é abundante e precoce, mas as sementes produzidas em arvores muito novas são chochas e não devem empregar-se em sementeiras.